5 de nov de 2015

Paulo Pimenta cobra denúncias da Zelotes prometidas para junho

Deputado petista questionou por que, até agora, as denúncias contra essas grandes empresas, apontadas na investigação do Ministério Público Federal e Polícia Federal, ainda não foram apresentadas ao Poder Judiciário



O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) elencou uma série de perguntas que estão sem respostas sobre o maior caso de sonegação do país, a Operação Zelotes, em que bancos, empresas do setor automotivo e multinacionais desviaram R$ 19 bilhões dos cofres públicos. Nesta quinta-feira (5), o parlamentar questionou por que, até agora, as denúncias contra essas grandes empresas, apontadas na investigação do Ministério Público Federal e Polícia Federal, ainda não foram apresentadas ao Poder Judiciário.

“Onde estão as denúncias prometidas pelo Ministério Público para julho? Já estamos em novembro e, até agora, nada”, cobrou o deputado petista.

“Não vejo nenhuma voz da oposição se levantando para cobrar que as denúncias contra os corruptores e sonegadores sejam apresentadas”, disparou Pimenta.

O parlamentar lembrou que o Ministro do TCU, Augusto Nardes, investigado pelo STF por ter recebido propina na Zelotes, assim como os bancos Bradesco, Santander, Safra e grupos como a Mitsubishi, nunca foram alvos de mandados de busca e apreensões.

De acordo com Pimenta, a Operação Zelotes pode ser comparada ao “caso Banestado”, por envolver grandes forças econômicas do país e pela atuação da mídia, que age para impedir que a sociedade saiba quem são os maiores sonegadores do Brasil. “Por que o sigilo decretado na Zelotes não é questionado pela imprensa do nosso país, como ela mesma exige das outras investigações?”, perguntou.

O deputado condenou a operação midiática montada contra o filho do ex-presidente Lula e questionou por que, então, os mesmos procedimentos não foram adotados contra os executivos dos principais grupos econômicos investigados na Zelotes. “O que explica eles não terem sido chamados para depor? Aí querem nos convencer que a Zelotes deve ser transformada numa investigação contra o filho do ex-presidente Lula. É evidente a manipulação”, protestou o parlamentar.

A Operação Zelotes foi desencadeada em março de 2015 por uma força-tarefa da Polícia Federal e do Ministério Público Federa e investiga manipulação de resultados no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), órgão ligado ao Ministério da Fazenda, que julga litígios tributários entre o Fisco e os contribuintes. Grandes empresas, escritórios de advocacia, empresas de consultoria e conselheiros do Carf são apontadas por sonegação fiscal, corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.

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Quanto os deputados estão ganhando para revogar o Estatuto do Desarmamento


Está tramitando e ainda falta ser votado em plenário, mas a bancada da bala deu mais um expressivo empurrão no país em direção ao abismo. O novo Estatuto de Controle de Armas revoga o Estatuto do Desarmamento.

Aprovada, sancionada e em vigor desde 2003,  a Lei 10826/03 determinava que somente poderiam portar arma de fogo os policiais civis, militares, federais e rodoviários, os integrantes das Forças Armadas, agentes de inteligência (algo em falta no mercado), agentes e guardas prisionais, auditores fiscais e profissionais de segurança pública ou privada (desde que em serviço).

Já o cidadão, mediante ou não a concessão do porte de arma de fogo, só pode adquirir uma arma desde que maior de 25 anos e enquadrar-se a uma série de outras restrições. A posse de armas em residências só é permitida em situações excepcionais.

Pelo novo texto, bastará ter idade mínima de 21 anos e obter o porte será algo tão simples como tirar habilitação para dirigir (o que nem é uma comparação descabida uma vez que com um carro na mão muitos o utilizam como arma letal). Aliás, algumas categorias profissionais como taxistas e caminhoneiros poderão ter armas em seus veículos sem nem precisar de porte. Não é genial?

E mais, a restrição para pessoas que respondem a inquérito policial ou a processo criminal também cai. Está liberado comprar o ‘cano’, sem problemas.

A proposta é tão escabrosa que recebeu 12 sugestões de alteração. Apenas uma foi acatada, a que trata de prisão em flagrante. Pelo texto original, se uma pessoa possui o registro e porte da arma e ficar evidenciado que agiu em legítima defesa, não poderia ser preso em flagrante.

Ao facilitar tanto a aquisição quanto o porte de arma, não é muito difícil concluir que prender alguém em flagrante ficaria mais difícil e o bangue bangue iria correr solto. De tão amalucada, esta foi a única das 12 alterações propostas a ser suprimida do texto.

Mas por que o interesse de parlamentares em reformar o estatuto? Estariam preocupados com a segurança da população? A resposta é a de sempre: o dinheiro.

Para as eleições de 2014, a indústria armamentista fez doações que totalizaram R$ 1,91 milhão (dados do Tribunal Superior Eleitoral). A Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) e a Taurus custearam tudo e foram bem sucedidas. Todos os candidatos à Câmara dos Deputados (aquela de Eduardo Cunha) financiados pelas empresas foram eleitos.

Dos candidatos aos cargos de deputado federal, deputado estadual, governadores e senadores, 84% foram eleitos. Um dos poucos que não se elegeu mas que contava com uma graninha vinda das balas é Paulo Skaf (PMDB), aquele que reclama dos impostos desde que acorda até a hora em que vai dormir.

Quem mais recebeu doações do setor foi o deputado estadual Pedro Deboni Lupion Mello (DEM), com quase 150 mil reais. O segundo foi o deputado federal Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) e temos também Onyx Lorenzoni (DEM-RS), Alberto Fraga (DEM-DF), Pompeo de Mattos (PDT-RS). Todos eles hoje compõem a comissão que discute a revisão do Estatuto do Desarmamento. Não é surpreendente?

O intuito da revogação do estatuto anterior é, portanto, absolutamente de interesse comercial. Pelo novo texto, o cidadão poderá ter até 6 armas em casa e o limite de munição para portadores de armamento pula de 50 balas por ano para 50 balas por mês. Multiplique isso por 220 milhões de habitantes e veja o potencial de mercado.

Para dar um caráter digamos “de legitimidade popular”, movimentos obscuros também transitam pela pauta. O presidente do Movimento Viva Brasil, Benê Barbosa, é um que está sempre em Brasília em companhia do pessoal do MBL e outros movimentos ‘patrióticos’.

Benê é uma figura sorumbática, amigo do peito de Rodrigo Constantino, Lobão et caterva, autor de um livro sobre o assunto. Para ele, o atual Estatuto “destoa da vontade popular. O chamado Estatuto do Desarmamento é uma norma agressora e impeditiva do exercício da opção individual por possuir legalmente uma arma de fogo. Uma lei elitista e discriminatória.”

Ao dizer que a lei atual destoa da vontade popular, o presidente do Movimento Viva Brasil refere-se a um referendo popular ocorrido em 2005, que o governo promoveu para saber se a população concordava com a proibição da venda de armas de fogo e de munição em todo o território nacional. Deu “não”, a venda permaneceria legal porém as bases e restrições impostas pelo Estatuto do Desarmamento continuavam as mesmas.

Agora o projeto do deputado Rogério Peninha Mendonça do PMDB-SC, cujo relator é o também deputado Laudivio Carvalho do PMDB-MG retira praticamente todos os entraves que havia num estatuto em vigor há mais de uma década e que segundo estudos evitou cerca de 160 mil mortes. Os dados estão no relatório Mapa da Violência 2015, coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo. A projeção de vidas ‘salvas’ foi feita a partir do dado que aponta 42.416 mortes por armas de fogo registradas em 2012. Com uma taxa de 21,9 mortes para cada 100.000 habitantes, estamos pau a pau com o Iraque cuja taxa é de 27,7.

Mas o PMDB e a respectiva bancada financiada pela indústria armamentista prefere levar o país da civilização para a barbárie.

Com a finalidade de me desmentir, simpatizantes da legítima defesa poderão alegar que o texto proíbe o porte de arma “em locais públicos onde houver aglomeração de pessoas em virtude de eventos tais como espetáculos artísticos, comícios e reuniões em logradouros públicos, estádios desportivos e clubes”. Bom, o mundo já está uma aglomeração só, então por coerência acredito que deveria estar proibido no mundo todo.

Nunca me esqueci de uma frase que ouvi de um professor no colégio sobre o porque era contra a que pessoas andassem armadas. “Se você andar sempre com uma caneta no bolso, inevitavelmente em algum momento a usará. Com um revólver é a mesma coisa.” Eu achei melhor andar com uma caneta.

Mauro Donato
No DCM
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Polícia suspeita que ataques a Taís Araújo e Majú visaram atingir o PT


A polícia carioca tem em seu poder postagens do grupo “QLC The Return”, responsável por orquestrar ataques racistas contra celebridades globais. Como mostra a imagem acima, o grupo combinou de tentar jogar no PT a culpa pelos ataques a Majú e a Taís Araújo.

A estratégia era dizer que Majú e Taís contrataram “petistas” para atacá-las e, assim, vitimizarem-se e ganharem a simpatia do público. E como elas não pagaram esses “petistas”, eles promoveram a onda de ataques.

O material também mostra a quadrilha comentando o caso e comemorando o fato de seus membros não terem sido pegos pela Polícia Federal e propondo criação de outros perfis falsos.

Outra estratégia da quadrilha racista é denunciar pessoas que não têm relação com o caso para que a polícia se confunda.

O grupo organizou o ataque em 3 de outubro. Um dos perfis escreveu: “Prepara os fakes que vamos zoar uma criola (sic) famosa”. Logo depois, um usuário incita os participantes do grupo a ofender Taís Araújo e curtir os comentários polêmicos.

“Comenta xingando essa macaca, quem não laikar (curtir) os comentários lá vai tomar ban (ser banido)”, escreveu após compartilhar a foto que recebeu os comentários racistas.

Um membro da quadrilha revelou ter medo de ser pego pela Polícia Federal por conta da repercussão. Outro membro ironizou: “Ainda bem que criança não vai para a cadeia”.

Os participantes da quadrilha também comemoraram a repercussão do seu ataque na imprensa do Brasil e do mundo. O grupo se autodenomina “QLC (Que loucura cara) The Return” e se vangloriam por outro ataque.

As postagens em poder da polícia mostram que essa quadrilha se arroga a autoria dos ataques à jornalista Maria Júlia Coutinho, a Maju, “garota do tempo” do Jornal Nacional.

Para os usuários que estavam com medo de ser pegos pelo ataque a Taís Araújo, os administradores relembraram o ‘sucesso’ no caso Maju: “Isso não dá nada, se desse nós estava (sic) preso faz tempo já, pelo ataque da Maju”.

“Estamos famosos”, comentou outro administrador do grupo no Facebook após ver matéria internacional sobre o caso Taís Araújo.

QUADRILHA 1

Alguns integrantes da quadrilha deixaram o grupo no Facebook desde que a Polícia Federal disse que um inquérito seria instaurado para investigar o caso.

Além de Taís e Maju, o grupo “QLC, the return” também seria responsável por ataques homofóbicos a outros perfis escolhidos ao acaso nas redes sociais. As vítimas, na maioria das vezes, são gays e negros.

Confira, abaixo, as outras conversas da quadrilha

QUADRILHA 3

Eduardo Guimarães
No Blog da Cidadania
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O explosivo e extenso poder das informações ainda ocultas na Lava Jato


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Entrevista de Lula a Kennedy Alencar no SBT - a íntegra

‘Dilma errou ao desonerar tanto e congelar preço da gasolina’

Lula afirma que não teme ser preso e que tem "consciência tranquila"


O ex-presidente Lula diz que poderá ser candidato novamente ao Palácio do Planalto em 2018 a fim de defender “um projeto que fez com que os pobres fossem vistos neste país”.

Ao apontar erros da presidente Dilma Rousseff no primeiro mandato, Lula considera que “houve um equívoco, por exemplo, quando não se aumentou, em 2012, o preço da gasolina”. Segundo ele, “nós acumulamos uma inflação que só foi acontecer no segundo mandato da Dilma”.

Lula avalia que Dilma não deveria ter feito “tanta desoneração” (redução de impostos para empresas). “Foi um equívoco desonerar. Eu não vejo uma propaganda na televisão agradecendo ao governo pela desoneração. Eu vejo propaganda contra a CPMF.”

Ao ser indagado sobre a solução para a crise econômica, Lula diz: “Ou fazemos um aumento de impostos, como a Dilma está propondo agora a CPMF, ou você faz uma forte política de crédito”. Ele faria “uma política de crédito”.

“Eu acho que a presidenta Dilma tem que saber que a roda-gigante da economia tem que voltar a girar”, defende.

Ao falar de procedimentos das operações Lava Jato e Zelotes que podem atingi-lo direta ou indiretamente, afirma que “são coisas normais de um país democrático”. Ressalta que os governos petistas criaram “todos os instrumentos de transparência neste país” que são os responsáveis pelo atual combate à corrupção.

Lula discorda da avaliação do ex-ministro Gilberto Carvalho, que disse em entrevista à “Folha de S.Paulo” que o ex-presidente seria “alvo” dos investigadores para ser desmoralizado e preso, a fim de que não pudesse ser candidato à Presidência em 2018. Lula afirma não ter medo de ser preso. “Tenho a consciência tranquila”.

“Eu não temo ser preso porque eu duvido que tenha alguém neste país, do pior inimigo meu ao melhor amigo meu, qualquer empresário, pequeno ou grande, que diga que um dia teve uma conversa comigo ilícita. Duvido”, afirma.

Lula rebateu críticas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que disse que o petista seria o pai da crise, por ter nomeado diretores da Petrobras que hoje estão presos. O tucano também afirmou que Lula seria “um político encantado pelas delícias do poder” e que “adotou o toma lá, dá cá como uma regra, não como uma exceção”.

“O FHC, toda vez que ele tiver que falar de corrupção, ele tem que lembrar da reeleição. (…) Ele tem que lembrar que o único mensalão criado, reconhecido inclusive por deputados do DEM, que disseram que receberam, foi ele. Ele tem que lembrar que nenhum processo dele era investigado. Cadê a pasta cor de rosa, que não foi investigada? O Ministério Público dele se chamava engavetador”, diz Lula.

Segundo o petista, ele “deveria ter apreço” por FHC porque sempre tiveram “uma boa convivência”. “Mas eu acho que o FHC tem um problema comigo, que é um problema de soberba. O FHC, ele sofre com o meu sucesso. Ele sofre.” Lula disse ser “difícil” se encontrar com FHC para tratar da crise política. Acha que PT e PSDB podem conversar.

A seguir, a íntegra da entrevista dada ao SBT na manhã desta quinta-feira, em São Paulo”

* * *

– O SBT entrevista hoje o ex-presidente Lula. Presidente, muito obrigado por nos dar esta entrevista.

– Obrigado a você, Kennedy, por marcar esta entrevista.

– Como é que está a saúde? Tudo bem?

– Está bem. Graças a Deus, está bem.

– Tem feito exercícios com regularidade?

– Estou bem. Estou, agora, terminando os dois últimos check-ups para saber se o câncer desapareceu definitivamente. Nos próximos dez dias, eu tenho que fazer um novo check-up, mas eu acho que é coisa do passado.

– E tem feito algum exercício com regularidade?

– Muito, muito, muito. Estou mais jovem, agora, do que quando eu tinha 50 anos.

– Pois é, o senhor acabou de completar 70 anos no último dia 26 de outubro. Qual é a sensação, presidente, de chegar aos 70?

– É esquisito porque, na verdade, ao completar 70 anos, eu vivi mais do que meu pai e minha mãe. Coisa que eu, quando tinha 15 anos, 10 anos de idade, eu não acreditava que pudesse chegar aos 70. Eu agora que cheguei aos 70, estou pensando nos 80 e com muita expectativa por 90. E, se tudo der certo, vamos pensar nos 100. Porque é engraçado este negócio de completar 70 anos. É uma coisa importante, porque a gente tem que tomar novas definições na vida, né? Quando você tem 15 anos de idade, a vida é infinita. Ou seja, não tem limite pra você. Mas, quando você tem 70, você já começa a ver o horizonte mais curto. Podem ser 15 anos, podem ser 10 anos, pode ser de 5 anos. Então, você precisa tentar viver melhor. Criar condições pra você só fazer aquilo que você quer, não ficar escrevo de uma agenda pesada, como se o mundo nunca fosse acabar. Eu vou tentar agora viver nos próximos anos um pouco mais tranquilo, viver de forma mais razoável do que eu vivi até hoje.

– Pois é, presidente, sempre se fala numa nova candidatura do senhor ao Palácio do Planalto. Quando o senhor aborda o assunto, é sempre de uma maneira meio dúbia. Assim: “Não posso dizer que sou nem que não sou”, falou isso no final de agosto. Também falou assim: “Se a oposição pensa que vai ganhar, que não vai ter disputa, que o PT está acabado, ela pode ficar certa do seguinte: se for necessário, eu vou pra disputa e vou trabalhar para que a oposição não ganhe as eleições”. Primeiro, o senhor tem vontade de ser candidato novamente à Presidência? Segundo, a bandeira de impedir a vitória da oposição não é uma bandeira pequena?

– É pequena. Se for apenas para enfrentar a oposição, não precisa nem ser candidato. O que é importante é que você defenda um projeto político, que nós defendemos e que incluiu milhões de brasileiros, participando da economia, participando da distribuição de riqueza neste país. Então, para defender esse projeto, eu posso ser candidato outra vez. Agora, obviamente que você não pode discutir isso com três anos de antecedência.

– Mas o senhor tem vontade de ser candidato?

– Não se trata de ter vontade. Eu não tinha vontade em 89, não tinha vontade em 94. Você vai porque tem uma necessidade partidária, uma necessidade de um agrupamento de pessoas. E você vai.

– Se houver necessidade, o senhor será candidato.

– O que que eu posso dizer pra você: se houver necessidade de defender um projeto que fez com que os pobres fossem vistos neste país, que incluiu milhões e milhões de pessoas, para defender esse projeto, se eu perceber que ele vai correr risco, você não tenha dúvida de que eu estou disposto a ser candidato. Mas eu trabalho com a certeza de que este país produz tantas lideranças que podem surgir novas pessoas. Inclusive um jornalista da sua qualidade pode ser candidato. Escolher um partido e ser candidato. Mas é o seguinte, Kennedy, eu estarei na campanha de qualquer jeito. Eu estarei na campanha. Eu estou bem de saúde, estou motivado.

– Está com discurso de candidato…

– Não, eu não estou com discurso de candidato. Eu vou preparar ainda. Acontece, Kennedy, que eu tenho consciência de que ninguém conhece este Brasil como eu conheço, ninguém conhece a alma do povo brasileiro como eu conheço, ninguém viveu a alma deste povo como eu vivi. É por isso que houve uma interação tão grande entre mim e a população brasileira, porque eu não era um estranho na Presidência, eu era um deles na Presidência. E isso, obviamente, fez com que houvesse tanta solidariedade, que a gente pudesse eleger a Dilma e reeleger a Dilma. Eu sou grato ao carinho do povo. Então, é o seguinte: para defender este povo, eu faço qualquer coisa. Para defender o direito do pobre entrar na educação, na universidade, eu faço qualquer coisa. Para fazer com que os pobres subam mais um degrauzinho na ascenção social, eu trabalharei 24 horas por dia.

– O senhor falou que saiu com o carinho do povo. O senhor saiu com 80% de popularidade quando deixou o governo, no final de 2010. Mas hoje, presidente, passados cinco anos, uma pesquisa Ibope recente mostrou que o senhor tem uma taxa de rejeição muito alta. É a mais alta entre os candidatos pesquisados. 55% disseram que não votariam no senhor com certeza. Um ano atrás, era uma rejeição de 33%. Não é alta a chance de uma derrota em 2018?

– Não é alta. Deixa eu te falar uma coisa, não sei se você acompanha, mas a rejeição existe para você mudar. Você pode, em dois meses, transformar o que é rejeição em aprovação, dependendo do seu discurso e dependendo do que você faça. Veja, eu estou fora da comunicação há cinco anos.

– Tem falado pouco, não é?

– Não tenho falado. Eu tomei uma decisão de não falar porque eu queria ensinar uns e outros que é preciso ter um comportamento, como ex-presidente, de deixar quem está presidindo presidir o país. Eu tinha responsabilidade pela eleição da presidenta Dilma e eu tinha que deixar ela governar, tinha que deixar ela montar o governo, tinha que deixar ela fazer as coisas que ela entedia, com o seu governo, que fossem certas. Então, eu tomei a atitude de ficar de fora.

– As notícias são que o senhor interfere muito no governo.

– Só pode falar isso quem não conhece a Dilma. A Dilma é uma mulher de muita personalidade, é uma mulher de muita competência. Ela montou o governo do jeito que ela quis, como quis. Porque ela é quem vai dirigir o governo. E eu, por precaução e por cuidado, não me meto no governo da Dilma. Se ela pedir sugestão, eu dou. Se ela não pedir, não dou. Eu acho que não compete a quem já foi presidente ficar querendo dizer para a pessoa o que fazer.

– Para encerrar essa questão eleitoral, outros candidatos tradicionais, nomes tradicionais como o Aécio, o Geraldo Alckmin, a Marina Silva, também apresentaram uma taxa de rejeição alta nessa pesquisa do Ibope. O senhor vê risco de um “salvador da pátria”, alguém que negue a política, se eleger presidente em 2018?

– Deixa eu te falar uma coisa, Kennedy. Primeiro, é preciso a gente não ficar trabalhando com pesquisa com três anos de antecedência. Segundo, eu não acredito em “salvador da pátria”. Na história da humanidade, toda vez que alguém negou a política e tentou encontrar um “salvador da pátria”, o resultado foi desastroso. Na Alemanha se tentou negar a política e o Hitler virou presidente. O Mussolini virou na Itália. Berlusconi virou, com a negação da política. Veja o que é que deu a Primavera Árabe quando se nega a política. Então, é importante que quem queira mudar este país, quem queira ser candidato, quem queira melhorar este país, é o seguinte: fora da política não existe possibilidade. Se você não está contente com os partidos que tem, você cria um partido político. Faça qualquer coisa, mas não negue a política, porque a experiência histórica é desastrosa quando você nega.

– O Brasil corre esse risco, de ter uma experiência desastrosa?

– Eu acho que o Brasil não corre esse risco. Não corre porque o Brasil já está calejado. Nós estamos vivendo hoje o mais longo período democrático desde a Proclamação da República neste país. E é importante, porque a democracia é complicada. A democracia exige paciência, sacrifício, muita conversa, muito diálogo. Tem gente que não gosta. Eu, de vez em quando, vejo na rua pessoas pedindo a volta do regime militar. Certamente, essas pessoas têm mais simpatia pelos torturadores do que pelos torturados. E quem viveu aquele período não quer a volta da ditadura militar. Nós queremos mais democracia, mais democracia e mais democracia, porque é a única coisa que garante que um operário metalúrgico chegue à Presidência. É a única coisa que garantiu que um índio chegasse à Presidência na Bolívia. É a democracia.

– Importante, isso. Na semana passada, lá em Brasília, o senhor disse o seguinte, aspas do senhor: “Tivemos um grande problema político, sobretudo na nossa base, quando tomamos a atitude de fazer o ajuste que era necessário fazer”. O senhor falava desse ajuste que está sendo feito depois da eleição. O senhor disse o seguinte: “Ganhamos a eleição com um discurso e depois tivemos que mudar o discurso e fazer o que dizíamos que não íamos fazer. Isso é fato conhecido pela nossa querida presidente Dilma Rousseff ”, palavras do senhor. O senhor não está dizendo, com todas as letras, que houve um estelionato eleitoral, presidente?

– Veja, eu não digo que tenha havido estelionato eleitoral. Nós estávamos numa disputa política em que nós tínhamos um projeto a ser defendido. E é importante levar em conta que a presidenta Dilma foi vítima do sucesso do seu mandato. É importante lembrar, porque hoje as pessoas se esquecem, as pessoas tentam ter memória curta, que, em dezembro, a gente tinha apenas 4.8% de desemprego neste país. Isso foi resultado de uma política de subsídio a algumas áreas, sobretudo na área habitacional. Isso foi resultado de uma forte política de desoneração que, no mandato da presidenta Dilma chegou a quase 340 bilhões ou um pouco mais, três vezes o ajuste que nós estamos fazendo agora. E, de repente, depois da campanha, percebeu-se o quê? Percebeu-se que estava saindo mais dinheiro do que entrando. Era preciso, então, começar a discutir.

– Presidente, a inflação estava alta, na casa dos 10%, o país não cresceu, os juros na Lua e o desemprego crescendo. Não foi um sucesso o primeiro mandato da presidente Dilma.

– De vez em quando, eu gosto de citar dados para poder especificar. Nós fizemos, esse dias, uma comparação entre o primeiro ano do segundo mandato da Dilma e o primeiro ano do segundo mandato do Fernando Henrique Cardoso. Só para mostrar. No FHC, nós tínhamos só 36 bilhões de reservas, dos quais 19 eram do FMI. A Dilma tem 370 bilhões. No primeiro ano do FHC, em 99, a dívida pública líquida era 44. A da Dilma é 35. O câmbio subiu, no FHC, 66%. Na Dilma, subiu 40%. A inflação, no FHC, era exatamente 9%. Igual à da Dilma, que era 9%.

– O senhor não está comparando banana com abacate? Porque o Fernando Henrique pegou o país de um jeito. Quando o senhor deixou o país para a Dilma, crescia 7,5%, os juros eram mais baixos do que hoje, a base de apoio era maior. Ela desarrumou o país.

– A crise mundial, ninguém tinha a dimensão que ela fosse tomar a dimensão que ela tomou. Trabalhava-se, naquele instante, eu participei do G20 em 2009, em Londres, e a decisão nossa no G20 era de que a única forma de a gente evitar que a crise se alastrasse era a gente não adotar nenhuma política protecionista. Era a gente fazer mais comércio, para garantir o nível de emprego. O que aconteceu no mundo desenvolvido? Todo mundo fez protecionismo. Porque, para eles, livre comércio é quando eles querem exportar. Então, a crise aumentou. Houve equívoco no governo? Houve. E eu discuti muito isso com o Guido. Houve equívoco, por exemplo, quando não se aumentou, em 2012, o preço da gasolina. Nós acumulamos uma inflação que só foi acontecer no segundo mandato da Dilma.

– Tolerância com a inflação foi um erro?

– A inflação… Eu acho que a atitude de não aumentar [o preço da gasolina] foi um equívoco, porque a Dilma fez isso para evitar a inflação. Mas, quando nós aumentamos tudo de uma vez, isso representou quase 30% da inflação do período.

– Eu quero ouvir do senhor só uma coisa que eu acho importante nessa questão do ajuste. O senhor acha que o erro foi ter escondido na campanha que seria necessário fazer um ajuste depois da eleição ou o erro foi ter feito o ajuste depois da eleição?

Eu não sei se o governo todo tinha clareza, porque, toda vez que você conversava, a impressão que tinha era que o governo tinha base financeira para fazer tudo que estava fazendo.

– Mas todo mundo alertava, presidente. Até o senhor alertava.

– Veja, todo mundo alertava, mas o governo tem seus próprios caminhos.

– O senhor recomendou que o Guido Mantega deixasse o Ministério da fazenda no final de 2013…

– Eu não recomendei. O que eu achava, e que que acho, é que todas as pessoas que estão há muito tempo no governo, de vez em quando precisam fazer uma reflexão e sair, para que haja uma renovação dentro do governo. É importante lembrar que eu fiz um ajuste, em 2003, maior do que o da Dilma. Não maior na quantia do orçamento, mas eu fui mais duro. Inclusive o superávit primário eu levei para 3,75%. Muita gente saiu do PT por conta disso. O problema não é fazer o ajuste. Porque toda vez que você descobre que você está gastando mais do que está arrecadando, você tem que parar. Isso vale no seu orçamento, vale no meu e vale no orçamento do governo. O que eu acho é que nós estamos agora diante de um problema sério: é preciso retomar o crescimento econômico.

– Então, como que retoma? Como que sai da crise?

– Você está lembrado que, em julho do ano passado, em Porto Alegre, eu brinquei com o Arno: “Arno, tem inflação de demanda? Não. Então, por que que está aumentando a taxa de juros?”. A taxa de juros só tem que aumentar quando você tem uma inflação de demanda que você quer esfriar a demanda. Se você não tem inflação de demanda, você precisa, então, fazer outra coisa, e não aumentar a taxa de juros. Eu não sei se o governo pode reduzir agora, porque tem uma coisa chamada credibilidade e confiança que, em economia, vale muito.

– Que a Dilma perdeu.

– Você está lembrado de que eu dizia o seguinte: “ Não tem mágica em economia”. Em economia você fala, as pessoas acreditam e você executa. Tem que convencer os trabalhadores, tem que convencer os empresários, ou você tem que fazer uma opção. Neste momento, nós estamos diante de uma situação delicada que é a seguinte: a União tem poucos recursos para investimento, os Estados têm poucos recursos para investimento, os municípios têm poucos recursos para investimento e há uma crise política. Os empresários não confiam no que vai acontecer amanhã. Então, nós temos duas opções: ou fazemos um aumento de impostos, como a Dilma está propondo agora a CPMF, ou você faz uma forte política de crédito.

– O que o senhor acha melhor fazer?

– Eu faria uma política de crédito. Primeiro a cadeia produtiva, faria com que as grandes empresas fossem avalistas das pequenas empresas fornecedoras delas. Depois, eu aumentaria o crédito consignado para o setor da indústria privada. Depois, a gente liberaria crédito para os governadores e prefeitos que têm capacidade de aumentar financiamento. Muitos têm, inclusive, dinheiro no exterior, que poderiam pegar. Você pode abrir crédito para o consumo.

– Isso não vai gerar mais inflação?

– É que a inflação não é por conta disso, agora. A inflação, é uma obsessão a gente não deixar ela voltar. Kennedy, quem está falando com você viveu a inflação a 80% ao mês. Eu sei o que a inflação causa no salário do trabalhador e eu acho que a Dilma tem que fazer todo e qualquer esforço para controlar a inflação. O que eu acho, Kennedy, é que não pode ter um único caminho. Nós temos que escolher. E nesse momento de crise, em que a situação está difícil. Porque quando está tudo muito bom… Sabe, você vai num baile e tem muita mulher, ou tem muito homem, ninguém reclama do baile.

– Todo mundo dança…

– Agora, quando você vai e tem pouquinha mulher, todo mundo reclama. Então, eu acho que agora é hora da gente tentar criar coisa nova.

– Foi um erro desonerar tanto?

– Eu acho que talvez o governo tenha descoberto que desonerou tanto quando já tinha ultrapassado o limite. Eu acho que foi um equívoco desonerar, consequentemente. Eu não vejo uma propaganda na televisão agradecendo ao governo pela desoneração. Eu vejo propaganda contra a CPMF. Mas agradecendo os 340 bilhões que foram desonerados ao longo dos últimos anos eu não vejo ninguém falar.

– O senhor está falando do Paulo Skaf, da Fiesp, que é contra a CPMF?

– Eu não falo do Paulo Skaf, eu falo de todos os setores que ganharam com a desoneração e que agora estão dispensando o trabalhador.

– Então foi um erro, não é presidente? Não teve o efeito desejado.

– Eu acho que não deveria fazer tanta desoneração. Eu acho. Porque o Estado tem que manter uma certa capacidade de arrecadação. E também, quando você está do lado de fora, você acha, você pensa, você acredita. Quando você está do lado de dentro, você faz ou não faz. Você toma uma decisão. Ao tomar a decisão, percebeu que vazou, tenta mudar. Eu acho que é isso que a Dilma está fazendo agora. E eu queria dizer uma coisa, a Dilma tem três anos de mandato pela frente. O que nós precisamos agora é saber o seguinte: esse povo não pode continuar vivendo nesse clima de incerteza, de pessimismo.

– Tem uma onda de pessimismo no país tremenda.

– Pessimismo maluco, sem nenhuma necessidade. Eu acho que é preciso o Congresso Nacional…

– Para se ter uma percepção real, presidente, 10% avaliam o governo dela como ótimo/bom. A popularidade dela é pior que a do Collor. Ou seja, na percepção da população, ela faz um governo ruim.

– A percepção dela é igual à do Fernando Henrique Cardoso em 99: 9%. Faltam três anos.

– Mas sempre comparar com um pior não é a solução…

– Faltam três anos de mandato. A Dilma tem todas as condições de mudar, ela sabe o que tem que fazer, eu tenho certeza que ela sabe o que tem que fazer. E ela, eu acho, está esperando o momento de começar a anunciar. E a palavra significa desenvolvimento, significa esperança. Eu acho que a presidenta Dilma tem que saber que a roda-gigante da economia tem que voltar a girar. Ela pode começar a voltar a girar pouquinho, mas ela tem que dar ao povo a certeza de que esses meninos que nós colocamos no Pronatec, esses meninos que nós colocamos na Universidade, vão ter perspectiva de trabalho.

– Presidente, uma pergunta que eu acho que é importante fazer para o senhor. Dois afilhados políticos do senhor, o senhor escolheu os dois, a Dilma e o Fernando Haddad. Todos dois estão muito mal avaliados. O senhor não faz uma autocrítica sobre essas escolhas que o senhor ofereceu?

– Não faço. Não faço, porque o problema não é do Fernando Haddad ou da Dilma pessoal. Há uma conjuntura política. Veja, desde aquela grande passeata de 2013, houve uma conjuntura política que reverteu quase toda política nacional. Isso mudou na campanha de 2014. Foi uma campanha muito virulenta, muito virulenta. E a gente não pode analisar o clima político do país apenas por São Paulo. São Paulo é uma situação atípica, porque é o Estado mais industrializado, certamente que o PIB de São Paulo já caiu mais do que o PIB nacional e certamente o desemprego é mais sentido aqui do que em outras partes do país.

– O senhor vê chance do Haddad se reeleger?

– Eu vejo. Essa será a grande surpresa. São Paulo nunca teve uma pessoa da qualidade do Haddad. É importante o povo de São Paulo saber.

– Ele está mal avaliado na periferia de São Paulo.

– É importante São Paulo saber. É um orgulho você ter um prefeito da qualidade do Haddad numa cidade como São Paulo. O Haddad está vivendo um momento de crise difícil, financeira. Caiu a arrecadação da cidade. Kennedy, era muito fácil ser prefeito quando eu fui presidente no último mandato. Porque a gente estava numa situação boa, tinha muito dinheiro para a cidade, muito dinheiro para o Estado, muito crédito à disposição. Isso acabou agora, por causa da situação nacional. Então, piorou a situação de todo mundo.

– É, ele paga um pouco pela crise da Dilma.

– O que nós precisamos agora é parar de falar em crise. Conversar com o Congresso Nacional.

– O Brasil não discute o problema real. Por exemplo, o slogan do governo é “Pátria Educadora”. Só se fala de corte orçamentário na Educação, presidente, não se discute educação.

– Deixa eu falar uma coisa para fazer justiça. Você pode ter momento em que você é obrigado a fazer um corte. Mas, vamos ser francos, nós aprovamos um Plano Nacional de Educação em 2014. Foi um projeto que eu mandei para o Congresso em 2010, tramitou durante quatro anos. Durante quatro anos, esse programa foi discutido na Câmara e no Senado. Foi aprovado. É um plano que estabelece meta até 2024, que vai da creche à universidade. Esse plano tem que ser cumprido, porque tem prazo, tem lei, tem regras, tem data. Tem que ser cumprido. E é por isso que nós aprovamos 75% dos royalties do petróleo para a Educação. Era para tentar acabar, de uma vez por todas, zerar com o deficit educacional neste país. Eu conto sempre uma história, você não acha absurdo que eu, sendo o único presidente que não teve diploma universitário, sou o presidente que mais fez universidades no país? O que mais fez escolas técnicas? Você não acha absurdo que este país aqui, que foi descoberto em 1500, só foi ter a primeira universidade em 1922 e que Santo Domingo, que foi descoberto em 1492, já tinha universidade em 1507? Você não acha que a elite brasileira brincou com a educação desse povo, menosprezou? Sempre trabalhou com a ideia de que pobre não tinha que chegar na universidade?

– Vocês estão no governo há 13 anos, podiam ter mudado isso.

– Nós mudamos muito! Nós mudamos. Se você pegar o orçamento da Educação, nós mais do que triplicamos o orçamento da Educação. Nós fizemos 18 universidades federais novas, 173 campus novos pelo interior do Brasil. Nós fizemos em 12 anos, Kennedy, três vezes mais escolas técnicas do que a elite brasileira fez em 100.

– O problema no Ensino Fundamental é grave, não é?

– Veja, no Ensino Fundamental é grave. Por isso é que o Plano Nacional de Educação resolve. Porque ele vai exigir uma nova repactuação entre governo federal, governo estadual e governo municipal. Porque você sabe que tem Estado que é o Estado que cuida, tem Estado que é o município que cuida. Ou seja, você sabe que cachorro de muito dono morre de fome porque todo mundo fala que deu comida e não deu. Então, é preciso rediscutir a educação. O Plano Nacional de Educação foi discutido na base, Kennedy. Foi discutido exaustivamente. Agora é cumprir. É por isso que eu estou andando pelo Brasil, para tentar convocar a sociedade a discutir a educação. Não é um problema do prefeito, da presidenta ou do governador. É um problema da mãe e do pai, é um problema da comunidade, é um problema da diretora, é um problema do professor, é um problema de todos nós. Eu morava em frente a uma escola. Eu nunca fui na escola dos meus filhos, minha mulher é que ia. E eu acho que é irresponsabilidade os pais não saberem como é a escola dos filhos. Então, eu trabalho com essa ideia. Eu trabalho com a ideia de que a gente vai chegar, em algum momento, a ter uma escola tão boa que quando o prefeito falar “A minha escola da minha cidade é boa”, você pergunta “Onde é que tá o teu filho?” e ele tem que falar que o filho dele está na escola pública. Se não falar, significa que não é boa a escola.

– Presidente, o nosso tempo está acabando e é muito importante abordar com o senhor a questão da Lava Jato e da Zelotes. Está na raiz de um desgaste da imagem do senhor, que se reflete nas pesquisas. O senhor não é investigado na operação Lava Jato nem na Zelotes, mas há uma série de procedimentos na Polícia Federal e no Ministério Público que podem atingir o senhor diretamente ou indiretamente. Sejam amigos do senhor, parentes e ex-ministros. Por exemplo, na Zelotes houve procedimento investigatório em relação ao ex-ministro Gilberto Carvalho e ao seu filho mais novo, o Luis Claudio. Pergunto para o senhor, a respeito desses fatos e dessas investigações: essas investigações, presidente, elas são atos normais numa república, onde ninguém está acima da lei, nem o filho de um presidente, um jornalista importante, um empresário importante, ou o senhor vê um cerco de natureza política, uma perseguição ao senhor e à sua família?

– Vamos fazer duas coisas primeiro. Primeiro, eu acho que essas coisas são coisas normais de um país democrático. E, para ser honesto e para explicar para o nosso telespectador, é um ato normal, resultado de 12 anos de governo que permitiu que fossem criados todos os instrumentos de transparência neste país e de modernização de todo o sistema de investigação neste país. Isso não é de uma república qualquer. Porque 15 anos atrás, não acontecia isso. Isso é uma coisa nova. Uma coisa que, daqui a alguns anos, a história vai mostrar.

– Aumentou o número de investigações da Polícia Federal, o Ministério Público…

– Houve modernização na inteligência, houve mais liberdade para a Polícia Federal, houve mais autonomia do Ministério Público. Houve tudo melhor, tudo. E isso a gente faz porque combater a corrupção é obrigação, não é mérito. Eu sou filho de uma mãe que nasceu e morreu na favela. Eu digo em todo lugar, e disse aqui uma vez, para o Jô Soares, mais de dez anos atrás, que o melhor patrimônio que a minha mãe deixou para mim foi o direito de andar de cabeça erguida neste país, de saber o que é meu e o que não é meu.

– Por que, então, há tanta crítica ao senhor, tanta reportagem dizendo que o Lula não quer investigação, que o Lula quer proteção para ele e para os amigos e para os parentes?

– Primeiro, eu duvido que tenha alguém neste país que diga que o Lula tentou interferir antes da presidência, depois da presidência, durante o mandato. Nunca interferi. Nunca, nunca, nunca, porque, para mim, eu dizia, no auge do mensalão, só tem um jeito de as pessoas não serem investigadas neste país, é as pessoas andarem corretamente. Se as pessoas andarem corretamente, as pessoas têm o prazer de não serem investigadas. Você pode cometer erro ou não, como aquela escola aqui em São Paulo…

– Escola Base

– Escola Base. Você pode cometer erro como aquele, em que o cidadão praticamente acabou e ele era inocente.

– Mas o senhor acha que há um cero ao senhor, uma perseguição ao senhor?

– Eu não quero ser vítima, porque critico muito a imprensa, mas eu devo o que eu sou também à imprensa. Porque quando a imprensa critica demais, o povo também é inteligente, o povo também percebe, “Espera aí, será que esse cara não merece nada?”. Quando eu estava na Presidência, eu já era tratado do mesmo jeito. Eu cheguei a um momento, na campanha, em que eu fui reclamar com os meios de comunicação que a Heloísa Helena tinha mais espaço na mídia do que eu. Eu não reclamo porque eu acredito na inteligência do povo. Eu acredito na inteligência do leitor, que consegue perceber o que é falso e o que é mentiroso. Eu acredito na inteligência do ouvinte, que consegue perceber. E acredito na inteligência do telespectador. Eu não me faço de vítima.

– O Gilberto Carvalho disse: “ O alvo é o PT, é o presidente Lula. Eles querem desmoralizar o presidente Lula para depois realizarem a prisão dele e o tirarem de 2018”. Quem está dizendo isso, quem disse, foi o Gilberto Carvalho, seu chefe de gabinete, ministro do governo. O senhor concorda com ele?

– Eu não concordo com ele.

– O senhor teme ser preso, presidente?

– Não temo. Não temo. Eu não temo ser preso porque eu duvido que tenha alguém neste país, do pior inimigo meu ao melhor amigo meu, qualquer empresário, pequeno ou grande, que diga que um dia teve uma conversa comigo ilícita. Duvido. Então, eu tenho a minha consciência tranquila. Eu acho que é um problema político. Eu denunciei o vazamento seletivo em dezembro, numa homenagem ao Márcio Thomaz Bastos, dentro do palácio do Ministério da Justiça, porque eu acho que há. Muitas vezes, a gente tem acompanhado, há um processo, parece até um cartel, em que na quinta-feira começa a sair boato, na sexta começa a sair revista, no sábado vai para a televisão, domingo vai para os jornais e na semana seguinte começa tudo outra vez. E o vazamento é seletivo. Eu tenho casos em que o advogado do cliente não recebeu a denúncia, mas a imprensa recebeu. Então, eu acho um processo equivocado.

– Houve exageros, então?

– Eu tenho tranquilidade de dizer o seguinte. Todas as vezes, eu fui o único presidente a ir fazer pronunciamento dentro da Polícia Federal. Em todas as posses do Ministério Público que eu fui, eu dizia que todas as instituições que são muito fortes, muito poderosas, elas têm que ter muito mais responsabilidade. É preciso cuidar de não criar uma imagem negativa de uma pessoa sem que você tenha provas contundentes. Nós estamos vivendo, neste momento, a “República da suspeição”. Eu não preciso de prova, eu só preciso suspeitar do Kennedy que ele já está condenado.

– Pois é, isso é errado. Todo mundo tem o direito de defesa. Agora, presidente, é importante, porque o senhor fala da sua ligação com o povo, hoje, o João Vaccari, ex-tesoureiro do PT, está preso. E o José Dirceu está preso em Curitiba. Há inúmeros relatos na investigação que apontam que doações legais feitas ao PT teriam origem em contratos de propina na Petrobras. Novamente, as pessoas questionam. A gente vê na rua as pessoas falando “Como é que o Lula não sabia de novo? No mensalão, o Lula disse que não sabia. Agora vem um escândalo na Petrobras, com diretores nomeados durante a gestão dele, diretores importantes, há todo um escândalo que envolve esses diretores, agentes políticos, empresários, e, mais uma vez, o Lula não sabia”. O senhor nunca foi alertado, presidente, sobre corrupção na Petrobras?

– Eu não fui alertado pela gloriosa imprensa brasileira. Eu não fui alertado pela Polícia Federal. Eu não fui alertado pelo Ministério Público. E eu sou o presidente que mais visitou a Petrobras, Kennedy. Ninguém foi tanto na Petrobras e em plataforma como eu, nunca.

– Mas não é grave o que aconteceu lá?

– Nunca ninguém me disse que tinha algum (…não entendi). Ou seja, essas coisas você só descobre ou quando a quadrilha cai, ou quando alguém denuncia. Fora disso, ninguém tem escrito na testa “eu sou corrupto”. Porque se estiver escrito na testa “eu sou corrupto”, ele não irá passar num concurso, não irá trabalhar numa empresa importante. O que as pessoas têm que compreender é o seguinte, quantas coisas acontecem dentro da sua casa, com seus filhos, que você não sabe? Quantas vezes acontece? Tem uma coisa que não me agrada que é o seguinte, a impressão que dá é que os empresários tinham dois caixas: o caixa beatificado, santo, e o caixa de propina. E o Vaccari só ia no da propina? Os outros só iam nesse aqui, que não tem nada?

– É que o argumento do MP é que o PT comandava a Petrobras e que podia pedir a contrapartida.

– É a suspeita do MP.

– É uma acusação, já.

– Não é fato, é uma acusação. Portanto, o Vaccari tem condição de se defender. Porque nós precisamos ter consciência do seguinte, esse processo de corrupção, ele tem que ficar restrito à Polícia, ao MP e à Justiça. E a preocupação da Dilma tem que ser cuidar deste país. Apenas cuidar do Brasil. Deixa os outros cuidarem de cada coisa.

– Presidente, há uma série de depoimentos de delatores que falam que o José Carlos Bumlai, que é amigo do senhor, teria feito uso do nome do senhor, do nome do PT, para obter recursos. São tantas delações, tantos detalhes, não são evidências de que ele teve uma atuação indevida de lobista?

– Se ele teve situação indevida, vai ficar provado ou não. Eu fico imaginando quantas pessoas utilizaram o meu nome. Eu, um dia desses, sou surpreendido com uma notícia de jornal de que um cidadão tinha dito que uma nora minha tinha recebido 2.400 milhões.

– O Fernando Baiano disse que o Bumlai pediu esse dinheiro.

– Isso me criou um problema, porque eu tenho quatro noras. E eu comecei a perguntar quem é que recebeu dinheiro, quem é que ficou rico? Você pode dizer não ou você pode abrir um processo para poder provar. Você acompanha a vida do meu filho Fábio. Acompanha na internet: ele tem avião, ele tem a torre Eiffel, ele tem a casa Branca, ele tem a casa da (…não entendi), ele tem todos os bois da Friboi. Você não sabe a quantidade de desmentido que é feita todo santo dia. E é uma guerra que você não consegue acabar. Nem tudo que o delator fala tem veracidade. O delator fala porque o delator está sendo premiado. Eu tô condenado, eu vou condenar o Kennedy.

– Se ele mentir, ele perde o benefício da delação.

– É preciso que a gente não dê voto de confiança ao bandido e um voto de desconfiança ao inocente. É preciso que a gente tenha em conta que a delação premiada é apenas o começo de um processo de alguém que, para livrar a sua situação, tenta culpar o outro. E veja que foi um instrumento reforçado em 2011 e em 2013, no governo da Dilma. Ela reforçou a delação premiada numa demonstração de que se tem uma coisa que nós não tememos, é apurar corrupção. Aliás, eu acho que a corrupção deveria ser tratada na escola. A gente começar no banco da escola a ensinar às crianças o que é corrupção, desde um pequeno gesto até o que é a grande corrupção, para ver se a gente constrói uma sociedade que, no futuro, a gente tenha orgulho de ter acabado com a corrupção.

– Estamos acabando aqui. Eu tenho uma pergunta importante para fazer para o senhor. O ex-presidente FHC diz que o senhor é o atual pai da crise, que teria plantado as sementes com as nomeações na Petrobras. E ele afirmou, numa entrevista aqui ao SBT, que o senhor “é um político encantado pelas delícias do poder”, nas palavras dele, e que “adotou o toma lá, dá cá como uma regra, não como uma exceção” e que ele acha isso perigoso. Como o senhor responde a essa avaliação do Fernando Henrique?

– Eu, às vezes, preferia nem responder a um homem que tem 84 anos de idade, que já foi presidente, já foi senador. O FHC, toda vez que ele tiver que falar de corrupção, ele tem que lembrar da reeleição em 96.

– A emenda da reeleição, em 97.

– Ele tem que lembrar que o único mensalão criado, reconhecido inclusive por deputados do DEM, que disseram que receberam, foi ele. Ele tem que lembrar que nenhum processo dele era investigado. Cadê a pasta cor de rosa, que não foi investigada? O MP dele se chamava engavetador.

– Engavetador-geral da República.

– Então, eu deveria ter apreço pelo FHC, porque sempre tive uma boa convivência com ele. Mas eu acho que o FHC tem um problema comigo, que é um problema de soberba. O FHC, ele sofre com o meu sucesso. Ele sofre. Porque eu acho que ele queria que eu ganhasse, não que o Serra ganhasse. Porque ele imaginava o seguinte: o Lula vai ganhar, ele é um coitadinho metalúrgico, vai chegar aqui e não vai saber nada, não vai dar certo. Quando chegar em 2006, eu voltarei de braços abertos para os braços do povo. Ele devia pensar: o Lula não fala inglês, o Lula não vai saber conversar com as pessoas. O que aconteceu é que o meu governo se transformou numa coisa admirada por todo mundo. Porque nós fizemos a maior inclusão social da história deste país. Nunca se praticou tanta democracia. Foram 74 conferências nacionais para definir políticas públicas. Nunca nenhum presidente da República fez reunião com reitores. Eu, durante oito anos, fiz reuniões com reitores para discutir os problemas das universidades e escolas técnicas brasileiras. Acontece que, quando o meu governo teve sucesso, ao invés dele falar “eu ajudei esse menino a vencer, eu tenho parte nisso”, não, ele começou a ficar com bronca.

– Não há hipótese entre o senhor e ele?

– Acho que é difícil. É difícil porque eu acho que ele tem esse problema e vai carregar para o resto da vida. Porque a soberba da elite não permite achar que o cidadão da senzala tem direito de alguma coisa, que pode alguma coisa.

– Mas é ruim para o país o senhor e ele não conversarem, não é?

– Eu acho que não é ruim, não. Temos que conversar com a sociedade. Temos que conversar com os empresários. Conversar com os políticos da ativa. Conversar com os trabalhadores. Conversar com a sociedade organizada. Necessariamente, eu e o FHC não temos que conversar. Você não vê Bush e Obama ficarem se reunindo. Não vê Clinton e Bush ficarem reunindo. Eu não tenho que me reunir com FHC. Quem tem que reunir é o PT e o PSDB. É o PMDB e o PSDB. Aliás, nós dois deveríamos ser considerados carta fora do baralho. Mas é isso, eu lamento. Lamento que o FHC, que deveria tirar proveito do sucesso do meu governo, porque ele sabe, ele viaja o mundo e ele sabe. Sabe que o que nós fizemos neste país, isso é motivo de orgulho no mundo. O brasileiro tem orgulho de descer e mostrar o passaporte.

– Hoje o país está numa crise grave, presidente.

– O Brasil perdeu esse humor.

– O governo Dilma não é um governo de retrocesso na economia e na área social?

– Não é só um problema da Dilma. Na área social não houve nenhum retrocesso.

– Cortes nos programas sociais, Fies, Pronatec. Corte orçamentário.

– Não houve nenhum retrocesso, não houve corte. Num ano você pode colocar dez, no outro ano você pode colocar oito. O dado concreto é que o compromisso com as políticas sociais da Dilma é inatingível. Ela sabe disso. E os compromissos com a educação, de quem criou um slogan do governo de Pátria educadora, é total e absoluto. Então, eu acho que nós estamos vivendo um momento de uma acidez política muito grande. As pessoas perderam a tolerância. Corintianos e palmeirenses têm mais tolerância de assistir a um jogo juntos do que políticos de partidos adversários. Então, eu penso que nós temos que ter muita, mas muita tranquilidade, temos que ter muita conversa. Nós temos que ter consciência de que este país só vai melhorar quando a economia voltar a crescer, quando voltar a gerar emprego, quando voltar a distribuir renda. E não pode discutir 2018 agora. É muito cedo. E eu só posso dizer o seguinte, eu vou repetir para você: para defender o projeto de inclusão social, você pode estar certo, eu estou fazendo política a partir de hoje, porque nós não podemos retroceder. Nós temos que avançar.

– O senhor é corintiano. Seu time está próximo de ser campeão. Já dá para comemorar ou tem que esperar a matemática?

– Eu acho que tem que esperar a matemática, porque esse negócio de festejar… Em 2002, eu tinha certeza de que eu iria ganhar no primeiro turno. O pessoal estava festejando no comitê e nós fomos para o segundo turno. Estava todo mundo irado. Eu fui o cara que foi lá para tranquilizar as pessoas. Agora, eu não quero ficar comemorando título antes. Vamos esperar.

– O futebol mais bonito é o do Santos, mesmo…

– Eu acho que o Santos está bem. Mas o Corinthians está melhor.

– Presidente, obrigado pela sua entrevista e até uma próxima.
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Relator é quem Cunha queria: “deu a lógica…”

http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2015/11/05/relator-e-quem-cunha-queria-deu-a-logica/



Se fosse no futebol, eu diria como os antigos comentaristas: "deu a lógica...". Dos três nomes sorteados para a escolha do relator da ação contra Eduardo Cunha na Comissão de Ética, adivinhem quem foi o escolhido? Claro, o preferido do presidente da Câmara, Fausto Pinato (PRB-SP), deputado federal em primeiro mandato, o menos votado em São Paulo nas últimas eleições.

Fiel aliado de Cunha, Pinato faz parte do chamado grupo de "menudos do Eduardo", deputados que votam sempre a favor dos projetos de interesse do presidente da Casa, acusado por falta de decoro, por ter mentido na CPI da Petrobras, entre outros motivos, ao negar que tivesse contas na Suíça, já devidamente comprovadas pela Procuradoria Geral da República.

Antes mesmo que a comissão inicie as investigações, caso o relator não peça sumariamente o arquivamento, o inacreditável Eduardo Cunha reuniu seu grupo para contar qual é a nova estratégia da defesa.

Para começar, vai dizer que as contas na Suíça não são dele, pessoa física, porque foram abertas em nome de empresas. Sobre os dólares que um delator da Lava Jato denunciou ter depositado nestas contas, Cunha pretende alegar que a grana não era para ele, mas para um outro deputado, já falecido, de quem era credor.

Dá para acreditar? Pois não duvido nada que a maioria dos deputados da comissão, assim como do plenário, se é que o processo chegará até lá, se convença da inocência de Eduardo Cunha.

Seja como for, na melhor das hipóteses, só saberemos do desfecho desta história lá para março ou abril do ano que vem, que é o prazo dado à comissão para apresentar um relatório final. Até lá, esta novela, certamente inspirada em Kafka, vai se arrastar no noticiário, tirando diariamente o sarro da cara de todos nós.
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Dilma sanciona lei sobre novas regras para a aposentadoria; entenda as mudanças

A presidenta Dilma Rousseff sancionou, nesta quinta-feira (5), a lei que estabelece as novas regras para o cálculo da aposentadoria. A Lei nº 13.183 assegura, entre outras coisas, a “regra 85/95 progressiva” para a concessão da aposentadoria, criando uma alternativa ao Fator Previdenciário.

A nova regra estipula um sistema de pontos para que a pessoa possa se aposentar pelo valor integral. Esse sistema soma a idade com o tempo de contribuição. Entenda:

Como funciona?

A nova regra determina que, para as mulheres que querem se aposentar até o fim de 2018, é preciso somar o tempo de contribuição com a idade, até atingir um total de 85 pontos. No caso dos homens, a soma deve ser de 95 pontos. O tempo mínimo de contribuição previdenciária é de 30 anos para as mulheres e de 35 para os homens.

Na prática, como isso funciona?

Uma mulher de 55 anos de idade, por exemplo, poderá pedir a aposentadoria após ter contribuído por 30 anos com o INSS (a soma alcança 85 pontos). Já o homem precisaria ter contribuição de 35 anos para se aposentar aos 60 anos de idade, por exemplo (a soma chega a 95 pontos).

A idade do aposentado, contudo, pode ser maior ou menor. Isso vai depender do tempo de contribuição previdenciária.

Como assim?

Por exemplo: um trabalhador que tenha 58 anos de idade, mas contribua há 37, pode se aposentar pelo valor integral, de R$ R$ 4.663.

E a partir de 2019, como fica?

A regra 85/95 adquire um caráter progressivo a partir de 31 de dezembro de 2018. Após essa data, para afastar o uso do fator previdenciário, a soma da idade e do tempo de contribuição ganhará pontos extras de acordo com o ano em que o trabalhador quiser se aposentar. Isso leva em conta o aumento da expectativa de vida do brasileiro.

Na prática, como vai funcionar?

Por exemplo, para conseguir a aposentadoria em 2019 ou 2020, deve-se somar um ponto à regra 85/95. Portanto, o cálculo final deverá ser de 86 pontos, se mulher, e 96 pontos, se homem. No caso das pessoas que quiserem se aposentar entre 2021 e 2022, soma-se dois pontos, chegando a 87/97. E assim por diante até 2026, quando a soma para as mulheres deverá ser de 90 pontos e para os homens, 100.

Por que instituir essa progressividade do sistema de pontos?

Porque o modelo não pode ser estático, já que a expectativa de vida do brasileiro continuará crescendo. Vincular o sistema de pontos à expectativa de vida evita que a discussão sobre os valores tenha que ser feita a cada tanto.

Por que a mudança da regra é importante?

A nova fórmula é importante para evitar o gasto extra na Previdência Social e garantir acesso à aposentadoria ao trabalhador brasileiro. De acordo com o Ministério do Trabalho e Previdência Social, sem a fórmula esse déficit nas contas previdenciárias poderia atingir R$ 100 bilhões até 2026.

Sim, mas por que mudar as regras?

Diversos países estão revendo seu modelo de previdência por causa do aumento da expectativa de vida e da rápida transição demográfica que estão vivendo. As pessoas estão vivendo mais tempo e recebendo aposentadoria por um período maior de tempo, o que aumenta os custos da Previdência. Ao mesmo tempo, no caso brasileiro, as taxas de fecundidade estão caindo, o que significa que nas próximas décadas haverá menos contribuintes para cada idoso.

Hoje há mais de 9 pessoas em idade ativa para cada idoso. Em 2030 serão 5 na ativa para cada idoso, e em 2050, 3. Em 2060, 2,3.

O fator previdenciário foi extinto?

Não, ele continua em vigor. Contudo, não incidirá na aposentadoria de quem completar o patamar mínimo de pontos, que até dezembro de 2018 será de 85 para mulheres e 95 para homens, e depois aumentará progressivamente até chegar a 90/100 no ano de 2026.

O que é o fator previdenciário?

É uma fórmula complexa que reduz o valor do benefício com o objetivo de evitar aposentadorias precoces. O fator é aplicado a aposentadorias por tempo de contribuição.

A mudança das regras já está em vigor?

Sim. Vale a partir desta quinta-feira (5).

Os trabalhadores vão se aposentar com 85 e 95 anos?

Não! 85 e 95 é o número de PONTOS que eles deverão atingir para se aposentarem integralmente. O número de pontos é igual à idade da pessoa mais o tempo de contribuição com o INSS.

E a “desaposentação”?

A presidenta Dilma vetou o trecho que criava a chamada “desaposentação”, que permitia ao aposentado que segue trabalhando refazer o cálculo do seu benefício.

Na justificativa do veto, Dilma argumentou que a “desaposentadoria” iria “contrariar os pilares do sistema previdenciário brasileiro, cujo financiamento é intergeracional e adota o regime de repartição simples”.

A presidenta justificou também que “a alteração resultaria, ainda, na possibilidade de cumulação de aposentadoria com outros benefícios de forma injustificada”.

O ministério calcula que a “desaposentação” teria uma impacto negativo de até R$ 181 bilhões nos gastos com os aposentados ao longo dos próximos 20 anos.

No Blog do Planalto
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"Cunha fica no cargo por covardia do governo e hipocrisia da oposição”

Ivan Valente (Psol-SP) responsabiliza PT, PSDB e seus aliados pela manutenção do peemedebista na presidência da Câmara dos Deputados

Valente é contra o impeachment de Dilma:
"O Psol é contra a quebra da legalidade"
Alex Ferreira
Para o deputado Ivan Valente (Psol-SP), governo e oposição têm responsabilidade na manutenção do peemedebista Eduardo Cunha na presidência da Câmara mesmo após a revelação de suas contas milionárias na Suíça –não declaradas no Imposto de Renda— e das seguidas denúncias de ter sido beneficiado no esquema de propinas da Petrobras: “a manutenção de Cunha na presidência se deve à covardia do governo, que está com medo do impeachment, e à hipocrisia da oposição de direita, que quer que ele maneje o impeachment mesmo sem legitimidade para isso”.

Valente, juntamente com a bancada do Psol e da Rede em Brasília, protocolou um pedido de cassação do mandato de Cunha por quebra de decoro após a revelação das contas secretas. A quebra de decoro viria pelo fato de Cunha ter mentido em uma CPI, quando afirmou não ter nenhuma conta no exterior.

“É insuportável e insustentável essa realidade em que o presidente acusado duas vezes no Supremo Tribunal Federal e prestes a virar réu continue presidindo a Câmara dos deputados”, afirmou o parlamentar.

O psolista reafirmou ainda a orientação do partido de não apoiar o impedimento de Dilma Rousseff: "O Psol é contra a quebra da legalidade, mas ele é oposição democrática, programática e ideológica ao governo Dilma. Este governo está fazendo a agenda que seria do candidato perdedor.”

Camilla Feltrin
No CartaCapital
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Bancada de Cunha aprova PEC que dá à Igreja poder de questionar o Supremo


Mais um absurdo da House Of Cunha aprovado na calada da noite. Os retrocessos promovidos por Cunha e sua bancada fundamentalista multiplicam-se no mesmo ritmo em que as acusações que pesam contra ele na justiça. Na madrugada desta quarta-feira, uma comissão especial aprovou a PEC que dá à Igreja o poder de questionar o Supremo.

É isso mesmo. A IGREJA PODE QUESTIONAR O SUPREMO, por meio de uma emenda constitucional (99/2011), que já foi a provada na primeira instância de sua tramitação. A proposta é do deputado João Campos (PSDB-GO), o mesmo que defende “a cura gay”.

Agora, a PEC tramita pelo plenário da Câmara e do Senao. Caso seja aprovada, as igrejas passam a ter direito de apresentarem as chamadas ADI (Ações Diretas de Inconstitucionalidades) e outros recursos perante o STF. Isso, é claro, joga o princípio do Estado Laico, previsto na Constituição, no lixo.

O relator da proposta, deputado Bonifácio Andrada (PSDB-MG) diz que “o STF expressa um preconceito contra argumentos de ordem religiosa, dando preferência a argumentos científicos”. A gente já sabe que a gestão Cunha, com seus aliados da bancada da Bíblia, não têm muito apreço pela Constituição. Agora, com eles no comando, a igreja ameaça tomar conta a tratorar todos os direitos conquistados pelas minorias ignoradas e não aceitas por essa mesma igreja. Para Cunha e seus amigos, laicidade do Estado é só um conceito facilmente transponível.

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Halloween e o folclore brasileiro



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Como Aécio implodiu com o PSDB


Nos próximos dias é possível que José Serra se mude com armas e bagagens para o PMDB. Há rumores consistentes de que o governador paulista Geraldo Alckmin vá para o PSB. Antes mesmo de entrar já prestou um grande favor ao partido: foi ele quem costurou a ida de Marta Suplicy para o PMDB.

Tudo isso devido ao fator Aécio Neves.

Desde a morte de Mário Covas e Sérgio Motta, o PSDB foi perdendo substância. Transformado em referencial único do partido, Fernando Henrique Cardoso jamais logrou conferir-lhe profundidade programática. Vazio, acomodado, superficial, FHC contentava-se com boutades para uma mídia extraordinariamente indulgente e em sua revanche permanente com Lula.

O partido acomodou-se com a aliança com a mídia. Tendo à sua disposição a maior máquina de construção e destruição de ideias, não soube alimentá-la de conceitos legitimadores.

Sem ideias, sem programas, a mídia quedou-se ante um anti-estatismo primário, em posturas anti-políticas sociais e em discursos anti-corrupção. Só anti. Não conseguiu sequer elaborar os bons conceitos liberais.

Grupos de mídia falam para o fígado e os intestinos, não para o cérebro. E o PSDB foi atrás. Passou a ter o rosto irado de Aloysio Nunes, o histrionismo de Aécio, o primarismo de Carlos Sampaio.

Um a um os intelectuais que ajudaram a fazer o partido foram recolhendo armas. Os economistas formuladores se recolheram às suas instituições, como Luiz Carlos Bresser-Pereira e Yoshiaki Nakano. Os financistas, como Luiz Carlos Mendonça de Barros e Pérsio Airda,  contentaram-se em continuar ganhando dinheiro, mas abrindo mão de militância partidária. Os cientistas sociais mais ligados a FHC, como Boris Fausto e Arthur Gianotti, recolheram armas, provavelmente envergonhados com a virulência desqualificada dos intelectuais neo-tucanos.

Gradativamente, o PSDB foi se tornando a cara de Aécio Neves e dos Rebeldes Online, em mais um caso em que o baixo clero se apropria de uma instituição pública.

A implosão do PSDB só é surpresa para os desavisados. Há muito tempo era nítido que jogar todas as energias para destruir o adversário os deixaria na situação do abraço de afogado.

Agora, o partido que, junto com o PT, dominou a cena política brasileira nas últimas décadas, foi entregue ao mais despreparado de seus caciques.

O esfacelamento de ambos os partidos torna as eleições de 2018 uma verdadeira roleta russa.

Luís Nassif
No GGN
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Lava Jato: surgem mais grampos na PF-PR. “Grampolândia”?

Reportagem da Época on line provoca dúvidas e questionamentos
com uma nova versão sobre o grampo na cela de Youssef.
A matéria surgiu com exclusividade na Época on line, na sexta feira (27/10). O título vendia: “Fotos desmentem denunciantes de grampos clandestinos na Lava Jato”. Logo abaixo, a chamada continuava: “Ao contrário do que agente e delegado disseram à CPI da Petrobrás, aparelho de escuta estava instalado desde 2012 na cela de Youssef”.

O texto de tal forma assumiu a posição mais favorável aos delegados que chefiam a Operação Lava Jato na Superintendência da Polícia Federal do Paraná (SR/DPF/PR), que não tardaram as comemorações no face book dos mesmos:
 “A verdade é como a luz. Não há trevas que consigam esconder”,ressoou a delegada Rosicleya Baron, corregedora da Superintendência e que, segundo um colega dela aposentado, pelo cargo que ocupa deveria, no mínimo, demonstrar imparcialidade e sobriedade.
Outro a comemorar foi o delegado responsável pelas apurações da Operação Lava Jato, Márcio Anselmo Adriano, que até quem o critica reconhece que foi o principal operador do caso:
“Vamos ver agora como se comportam os paladinos da moralidade!”, compartilhou.
Na página do Face Book a comemoração
dos delegados, inclusive da corregedora
As comemorações são justificáveis pois, a se confirmar que os grampos estavam ali desde 2012, resolve-se dois problemas. Primeiro, se desmente os chamados “dissidentes” que ao denunciarem o grampo estão admitindo que a Operação Lava Jato utilizou métodos ilegais. Mas também se passa a ter uma explicação para as mais de cem horas de áudio que o Blog anunciou — Surgem os áudios da cela do Youssef: são mais de 100 horas terem sido recuperados pela perícia técnica em Brasília.

 Na verdade, o grampo que Época On line anunciou estar instalado na custódia da Polícia Federal do Paraná, não era um, mas dois. A reportagem, ao que parece, não ouviu com atenção as fontes. Baseou-se apenas em uma petição de dois advogados — Jeferson Amorim e Ademir Gonçalves —, defensores de policiais federais envolvidos em esquemas de contrabando e descaminhos na fronteira com o Paraguai.

Tampouco, foram os únicos grampos instalados na SR/DPF/PR pelo APF Dalmey Fernando Werlang, conforme ele mesmo admitiu. Ao todo, o Blog tem notícia de, pelo menos, cinco aparelhos de escuta que funcionaram na superintendência, dos quais quatro sem autorização judicial na atual administração.

O primeiro, já conhecido, foi colocado na cela ocupada pelo traficante Fernandinho Beira-Mar (2008) a mando do juiz do Mato Grosso do Sul, Odilon de Oliveira.

Desde que Youssef encontrou a escuta em sua cela, os delegados da Força Tarefa, a cúpula da superintendência, assim como Procuradores da República, alegavam ser o mesmo que servira para monitorar o traficante em 2008.

Ao que parece, agora estão mudando de posição e se apegando às escutas de 2012.

Estas (de 2012) foram instaladas em duas celas, a pedido do delegado federal Rodrigo Costa, na época do setor de contra-inteligência da DIP (hoje, Delegado Regional de Combate ao Crime Organizado – DRCOR, em São Paulo).

Ele foi o responsável pela Operação Erupção que prendeu três agentes federais e um delegado. Os quatros responderam por facilitar o contrabando e o descaminho na fronteira com o Paraguai. Um deles, o agente Queiroz, já foi expulso do DPF. No ministério da Justiça há uma proposta de demissão do delegado Érico.

Em março de 2014, Dalmey instalou o grampo da discórdia, como noticiamos na revista CartaCapital e aqui no Blog — O grampo da discórdia na Lava Jato.  Ou seja, o aparelho de escuta na cela que abrigaria o doleiro Alberto Youssef. Ele garante que recebeu a ordem do delegado Igor Romário de Paula, chefe da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado (DRCOR) que foi à sua sala com o superintendente Rosalvo Ferreira Franco e com o delegado Márcio Anselmo. Adriano, que comanda as investigações da Lava Jato.

A confirmação do grampo do fumódromo, que este blog publicou em
20 de agosto, agora é noticiado em outros sites, como da revista Isto É
Ainda em 2014 ele colocou a escuta clandestina no “fumódromo” da SR/DPF/PR, determinada pela delegada Daniele Gossenheimer Rodrigues, chefe no Núcleo de Inteligência Policial (NIP). Daniele e Igor são casados. A notícia que divulgamos aqui, da confirmação pela corregedoria do DPF à CPI da Petrobras — Lava Jato revolve lamaçal na PF-PRde que o grampo existiu e não tinha autorização judicial, agora repercute em outros portais (veja ao lado). Mas ainda teve mais.

Por ordem da sua superiora, a delegada Daniele, Dalmey instalou uma escuta de vídeo na sala do próprio superintendente, que ele aciona quando desejar. Visava uma conversa que ele teria com seu antecessor no cargo, o delegado José Alberto Iegas, no mesmo dia em que este prestou depoimento à delegada Cassandra Ferreira Alves Parazi. Aliás, ela também usou um gravador durante todo o depoimento do delegado, sem que ele soubesse que a conversa toda, mesmo aquela que não foi para o papel, estava sendo registrada por determinação superior. Isto, apesar de uma velha amizade entre os dois. Ou seja, ao que tudo indica, na SR/DPF/PR funciona uma “grampolândia”.

Os verdadeiros riscos para a Lava Jato – A reportagem de Época on line sustenta a tese de que os denunciantes do grampo na cela do Youssef fazem o jogo necessário para melar toda a operação. Não chega a ser assim. Afinal, o grampo sozinho não tem essa força toda. Terá que haver uma ligação direta entre o áudio captado na cela e o que o doleiro disse nos depoimentos. Pelo que o próprio Youssef falou, os assuntos que ele conversou com outros presos surgiram não nos depoimentos, mas nas conversas informais com os operadores da Lava Jato.

A primeira questão que se coloca é se e quando o conteúdo das gravações – mais de cem horas, como noticiado em 12 de outubro — surgirá para ser conferido e debatido já em uma instância superior: Tribunal Regional Federal do Sul (TRF4) ou, o mais provável, em Brasília, no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF).

Se essas “conversas informais” serviram para convencer o preso a fazer sua delação premiada, caberá aos advogados de defesa — muito bem pagos para isto — comprovarem. O que é preciso — e isso é claro para todos — é não deixar brechas para que eles consigam invalidar a Operação ou parte dela. E estas, existem, como lembrou Élio Gaspari, no artigo “A troca de guarda na defesa das empreiteiras”, no último dia 25/10:
Isso poderá ocorrer na medida em que os processos seguirem para as instâncias superiores com defeitos estimulados pela popularidade dos acusadores e pela onipotência que se infiltrou na cabeça de alguns deles. Diversas lombadas existentes no caminho da Lava Jato são públicas e ainda podem ser corrigidas. Por exemplo: O grampo ilegal encontrado na cela de Alberto Youssef estava ativo em abril de 2014, quando ele a ocupava? Uma sindicância da Polícia Federal diz que não. Um agente disse à CPI da Petrobras que sim.

Há pontos dos depoimentos de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, que não batem com os de Youssef. Também não batem com os de Fernando Baiano, que o acusa de ter escondido US$ 3 milhões. Alguém está mentindo, mas o acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal os obriga a dizer a verdade, sob o risco de voltarem para a cadeia. Um procurador chegou a dizer que não se deve mexer em “bosta seca”. Essa doutrina perderá valor ao chegar a Brasília”.
Mais do que ameaçar toda a Operação Lava Jato, a questão do grampo vai sim colocar em descrédito muita gente e não apenas, como diz a reportagem de Época on line,  o APF Dalmey (que assumiu a autoria da sua instalação) e os delegados Iegas (ex-superintendente da PF no Paraná e ex-Diretor de Inteligência do DPF) que confirmou na CPI que o aparelho era diferente do usado com Beira Mar, e Mario Renato Fanton, de Bauru, que esteve em Curitiba a pedido da própria cúpula da Superintendência e acabou dispensado quando questionou métodos de trabalho que vinham sendo adotados, inclusive os grampos ilegais.

No organograma polêmico que o DPF Fanton diz
ter recebido do DPF Igor, aparece o hoje advogado
Gonçalves como um dos interessados em preparar
dossiê contra a Lava Jato
Um detalhe importante que a matéria não percebeu é que o advogado Gonçalves também é delegado de Polícia Federal aposentado. Ele defendeu os policiais, entre os quais Queiróz, hoje, um ex-agente, com o qual tem excelente relacionamento e vínculo forte de amizade.

Seu nome, coincidentemente, está no “Organograma” que, como o delegado Fanton denunciou na CPI da Petrobras, o delegado Igor Romário lhe deu com os nomes de suspeitos de prepararem dossiês que pretenderiam derrubar a investigação. (Veja, a propósito, Lava Jato: o polêmico organograma).
Ou seja, o advogado pode ser considerado também um suspeito de querer derrubar a Operação Lava Jato.
Na petição, os dois advogados requerem um Processo Disciplinar Administrativo (PAD) contra os responsáveis pela Operação Erupção, deflagrada em julho de 2012.

Denunciam, depois de todo o caso julgado e um dos envolvidos ter sido expulso da PF , que teriam colocado grampos sem autorização judicial na cela dos policiais.

A Operação, porém, não foi iniciativa da Superintendência que, à época, tinha Iegas como chefe.

Ela foi desenvolvida pela Diretoria de Inteligência Policial (DIP) de Brasília, cujo titular era o delegado Mauricio Leite Valeixo, que hoje ocupa a Diretoria de Combate ao Crime Organizado (DICOR), praticamente o terceiro homem na hierarquia do DPF. Ele comandou, mas quem operou, como se disse acima, foi o delegado Costa, à época, do setor de contra-inteligência da DIP, justamente o setor que investiga policiais.

Iegas, segundo conta, apenas ofereceu os meios — isto é, a infraestrutura da superintendência e os policiais — necessários a Costa para realizar a Operação Erupção. Respaldado nisso, insiste que nunca autorizou nem soube se foram instalados grampos na custódia e continua mantendo o que falou na CPI da Petrobras, “quando passei a gestão da superintendência para a atual administração não havia aparelho de escuta instalado na custódia”.

Dalmey-Fernando-Werlang
Foram eles que, a pedido do delegado chefe da operação, prepararam escutas em duas celas da superintendência. Os grampos, segundo consta, não foram usados e depois foram devidamente recolhidas. Foram os quatro, segundo testemunha Dalmey em conversa a amigos, que retiraram o aparelho quando o próprio “Bolacha” comunicou que os presos estavam desconfiados.
Trata-se de uma versão — a dos grampos colocados em 2012 — bastante curiosa pois, como se constata, ela surge no final de agosto, partindo-se do pressuposto que a representação dos advogados foi há dois meses. Ou seja, aparece quase dois meses depois de o delegado Iegas dizer na CPI que a DIP tinha documentos provando que o aparelho achado por Youssef chegou depois de Beira-Mar ser transferido.
Isso, derruba a versão que a Superintendência assumiu com base na sindicância 04/2014 presidida pelo delegado Maurício Moscardi Grilo. A reportagem de Época on line também saí semanas depois de o Blog ter divulgado que foram recuperados os áudios nos grampos que as sindicância e a superintendência diziam estar desativado.

Mas, não é tudo. Como este Blog conseguiu apurar, em janeiro de 2015, bem antes de Dalmey assumir que colocou o grampo na cela, atendendo à determinação do superintendente, ele encaminhou e-mail à delegada Daniele, sua chefe, esclarecendo toda a situação dos grampos colocados nas custódia em 2012. Isto significa que a superintendência tinha conhecimento destes grampos antes da representação dos advogados.

Todos estes fatos geram uma série de questionamentos que o Blog apresentou à Assessoria de Comunicação do DPF em Brasília e aos delegados da Lava Jato, assim como à Corregedora. Nenhum deles encaminhou resposta até às 16hs desta quarta-feira (04/11),

A primeira questão é básica: a Superintendência ou mesmo o DPF — onde trabalha o delegado Valeixo que comandava a DIP – têm informações que desmintam que as escutas de 2012 foram instaladas, mas não foram usadas? E sobre o fato delas terem sido retiradas por sugestão do próprio APF Paulo Romildo, o “Bolacha”, ao alegar que os policiais presos estavam desconfiados, isso é verdade?

Delegado Maurício Moscardi investigou o
grampo e não descobriu os que foram
instalados em 2012?
Foto: Altino Machado
Questionamos ainda o por que da versão  dos grampos de 2012 ter sido levantada após surgir a informação que o aparelho achado por Youssef só chegou a Curitiba depois da transferência de Beira-Mar. Afinal, pelo menos, desde janeiro que a chefe do Núcleo de Inteligência Policial sabia das instalações em 2012 e nada foi falado quando o doleiro arrancou do teto da cela o aparelho de escuta. Ela não levou a informação a outros setores, inclusive ao seu marido, delegado Igor Romário, chefe da DRCOR?

Questão importante é tentar entender o que fez o delegado Mauricio Moscardi na sindicância 04/2014, aberta para apurar como o grampo que Youssef achou entre em março/abril de 2014 foi parar na cela. Já se sabe que o APF Dalmey não foi ouvido, apenas fez um laudo técnico, apesar de não ser perito, com elementos para sustentar que o aparelho nas condições em que estava não podia gravar. Eras o óbvio, por ao arrancá-lo, o doleiro o destruiu.

Porém, o APF Romildo, vulgo Bolacha, foi ouvido e insistiu na versão de que se tratava da mesma escuta usada com Beira-Mar. Como ele é o policial responsável pela custódia, não deveria ter revelado os dois grampos de 2012 que ajudou a colocar e a retirar? Pelo que se imagina, nada pode acontecer dentro das celas da Superintendência sem o seu consentimento e/ou conhecimento.

Como fica a situação do delegado Moscardi que faz uma apuração dentro da própria instituição e não menciona que outras interceptações foram utilizadas em 2012? Uma investigação bem feita não deveria ter levantado esta questão? Ele pediu alguma explicação ao DPF Costa? Isso não robustece a tese de que, após a descoberta da escuta na cela, deveriam ter aberto um inquérito e chamado a Coordenadoria da Assuntos Internos (Coain), de Brasília, portanto, mais isenta?

Em e-mail, que foi entregue à CPI da Petrobras, a agente Maria Inês confirma ter colocado o grampo na cela
de Youssef. Mentiu?
Tem ainda a APF Maria Inês que, através de um e-mail, cuja cópia foi entregue na CPI da Petrobras, admitiu ter participado da colocação do grampo em 2014. Ela mentiu ao falar que instalou um novo aparelho? Mas, ela também, segundo Dalmey, por força da função que exercia no NIP, participou da instalação e desinstalação em 2012. Nada falou a respeito?

Por fim,.esta nova versão cria mais um problema para o delegado Igor Romário. Como já foi noticiado aqui, em juízo, ele deu uma versão diferente da versão do DPF Rivaldo Venâncio para a recuperação do aparelho que Youssef tinha encontrado. (Veja: Lava jato: um fato, duas versões da PF-PR. Mentira? ). 

O DPF Igor de Paula na Justiça disse que o grampo
era o mesmo usado com Beira-Mar. Isto, depois de os
advogados entrarem com a petição falando dos grampos
de 2012. Não foi informado?
Seu interrogatório foi em 16 de setembro — portanto depois da representação dos dois advogados à Superintendência falando da existência de uma escuta ilegal em 2012;. Mas, ele nada falou a respeito e insistiu na tese de que se tratava do aparelho colocado na época de Beira-Mar e estava desativado. Agora, surge a história de um – na verdade, dois – novo grampo. Ele desconhecia o documento dos advogados, apesar de, teoricamente, ser o terceiro homem dentro da Superintendência? Se isso ocorreu, ele estará dando uma demonstração de desprestígio.

Surpreendente mesmo é que tais fatos, demonstram claramente  que a SR/DPF/PR é palco de disputas, algumas irregularidades e prováveis perseguições pessoais, no decorrer de uma Operação do quilate da Lava Jato.

Operação esta que a sociedade como um todo apóia e passa a acreditar que fará uma limpa na corrupção no país. Tal como delegados, procuradores e o próprio juiz Sérgio Moro, em diversas oportunidades, apregoaram.

Ou seja, algo de suma importância que — como disse Gaspari — não pode deixar brecha para as defesas recorrerem em Brasília em busca da sua anulação. Nada disso, porém, parece sensibilizar o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que nada comenta e, pior ainda, não demonstra tomar providências para por ordem na casa e garantir a lisura da investigação para que ela não corra risco. Isto sim, é surreal.

Marcelo Auler
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