11 de out de 2015

Pobres Cunhas


somos milhões de Cunhas, orgulhava-se uma faixa durante as raves cívicas.

Cunha, como se sabe, é um sobrenome.

sabemos, também, que esses milhares de Cunha autodeclarados naquela faixa não são da família do encrencado parlamentar.

hhmmm. então por que diabos? você se pergunta.

Cunha, filho do homem, nesse caso é uma alcunha, um qualificativo.

e porque queriam ser Cunha aquela multidão de revoltados? ora, porque estavam sobre o torpor da midiotia.

ser Cunha aí era ser contra a corrupção, era ser ético, era ser a favor da família, da heterossexualidade, do mercado, de Deus e do dinheiro.

e, sobretudo, ser contra o PT.

e por que usar o epíteto Cunha assim, metonimicamente?

a mídia explica.

não faz muito tempo, qual o nosso inesquecível Pixuleco, a mídia inflou Cunha, um boneco vivo que cresceu a olhos vistos.

manchetes de jornalões e revistonas alardeavam o seu “súbito poder” aos quatro ventos estocados; que Cunha era um herói, um “sabotador da República”, um homem-bomba, um salvador da pátria, the impeachment man.

certa vez ele fez uma manobra canalha e, à sombra, encaixou um jabuti dando isenção fiscal à igrejas.

os jornalões disseram que ele agiu de forma inteligente, conhecedor profundo da legislação, e blá, blá, blá.

passaram a requalificar suas malandragens, ressignificá-las.

inflavam o boneco.

fariam dele o perfeito boneco de ventríloquo.

seria a voz terceirizada da grande mídia, dos grandes perdedores e do grande capital; a voz do golpe, cheia de verniz e adornada com a cosmética semântica.

para deixar claro que ele crescia como um ícone, João Roberto Marinho, o infante, lhe permitiu uma visita no dia 20 de julho.

ambos tiveram um longo encontro na casa de um amigo comum.


Marinho também se deixou fotografar apertando-lhe a mão no plenário da Câmara, geste artificial, tramado e de forte simbolismo.

esse é o nosso homem, queria dizer.

por isso, os midiotas adotaram Cunha por antonomásia.

Jesus os perdoaria. eles de fato não sabiam o que estavam a fazer, o faziam bovinamente.

algum “ativista” muito ativo e liberal já estava a confeccionar máscaras Cúnhicas para o carnaval.

grana certa.

estavam todos inebriados pela droga que a mídia lhes aplicava homeopaticamente.

a explicação é essa.

os barões da mídia — que falam por ventriloquia — não deram tantas qualidades a Cunha por ingenuidade, mas por esperteza.

todos sabiam que Eduardo chegara ao poder nos braços de PC Farias e já chegou pecefarando.

era uma criatura de submundos, que não andava sob o sol para que ninguém percebesse que era um homem sem sombra.

sua sombra agia pelos subterrâneos da criminalidade, esfregando-se pelas paredes, enquanto sua alma orava, cinicamente, num templo imundo e seu corpo disfarçava purismo e puritanismo para as câmeras e para a Câmara.

enquanto isso, em corpo, sombra e alma, sua esposa e filha flanavam mundo afora, deslumbradas e gastãs, esfregando cartões de crédito em fendas de maquininhas luxuosas.

um vício.

mas aí, da Suíça veio a luz que tirou Cunha das sombras.

e atentai bem, não são ilações de torturados psicologicamente a fazer deduração premiada em uma cela imunda, só na saliva.

agora são documentos, provas físicas, concretas, assinaturas, notas, rastros…

fedeu.

com mil diabos.

agora, não se pode mais cunhar Cunha como uma alcunha qualificativa.

porque Cunha, agora, é pejorativo.

passou de alcunha a vulgo.

você, que por ingenuidade, analfabetismo político ou, mesmo, por caradurismo, cunhou; descunhe-se.

desculpe-se, reconheça, diga a seu cunhado ainda hoje no churrascão dos amigos: cara, cunhei, mas já descunhei, me desculpa.

e lhe dê um abraço.

ele também lhe dirá que caiu na real.

afinal, que raios de Cunha é você aí num churrasco onde cada um traz o que vai beber.

que diabos de Cunha é você, se a sua senhora jamais terá aulas de tênis com o professor da Sharapova?

como Cunha? que Cunha, amigo, se a única Suíça que o senhor conhece é a limonada?

somos milhões de Cunhas, orgulhava-se a faixa durante as raves cívicas.

pobres Cunhas, faltou emendar.

Palavra da salvação.

Lelê teles
No Maria Frô
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Servicios antiterroristas rusos impiden ataque en Moscú

El grupo terrorista fueron detenido en una localidad de la zona este de Moscú.
Foto: RIA
El Comité Nacional Antiterroristas de Rusia, informó este domingo que agentes de la policía detuvieron a un grupo de individuos involucrados en la preparación de un acto terrorista en Moscú.

“Como parte de las actividades operativas las fuerzas de seguridad, han detenido a un grupo de personas involucradas en la preparación de un ataque terrorista en Moscú”, indicó la agencia antiterrorismo rusa.

Por medio de un comunicado, se conoció que el arresto de los presuntos terroristas se llevó a cabo en un apartamento ubicado en uno de los edificios residenciales de la zona este de la capital.

El texto señala que el recinto donde se escondían los delincuentes, fue encontrado y desactivado un artefacto explosivo improvisado.

Ante el acontecimiento, las fuerzas de seguridad del país implementaron las medidas operativas necesarias y llevan a cabo la investigación del caso.

Rusia ha entablado una lucha antiterrorista que traspasa los límites de su país, pues desde el 30 de septiembre realiza una acción militar dirigida a combatir al grupo radical autodenominado Estado Islámico (EI), responsable de numerosas decapitaciones, atentados, explosiones y asesinatos masivos en la región que ha provocado el desplazamiento de más de ocho millones de personas.

La Fuerza Aérea rusa logró combatir en las últimas 24 horas, nuevas 53 posiciones del EI logrando destruir sus municiones de guerra.



No CubaDebate
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Coxinhas com vento




Reino Unido vai usar ar líquido para estocar energia

Processo deverá otimizar utilização de fontes renováveis como a solar
e a eólica, reduzindo os efeitos de sua intermitência no abastecimento 
da rede elétrica
Foto:Un.Birmingham
O Reino Unido vai utilizar ar líquido para estocar energia proveniente de fontes renováveis (solar e eólica). O método, já testado em planta-piloto, deverá entrar em escala comercial em 2018.

Segundo os responsáveis pelo projeto, a proposta é contribuir para a superação de altos e baixos no abastecimento provocados pela intermitência das fontes renováveis. Estocada em ar líquido, a energia estaria disponível para o consumo mesmo em dias nublados ou de calmaria.

O projeto foi explicado pelo professor Richard Williams, pró-reitor e diretor da Faculdade de Engenharia e Ciências Físicas da University of Birmingham, no Reino Unido, em palestra na FAPESP, durante o evento “UK-Brazil interaction meeting on cooperation in future energy system innovation”, realizado para promover a cooperação científica entre pesquisadores brasileiros e britânicos na inovação de sistemas de energia.

“Uma planta-piloto de 350 quilowatts (kW) encontra-se em funcionamento, conectada à rede elétrica do Reino Unido, há três anos. Essa unidade está sendo, agora, transferida para a University of Birmingham como uma plataforma de testes. E o governo disponibilizou um financiamento de £ 8 milhões para que uma unidade de demonstração, de 5 megawatts (MW), esteja operacional em meados de 2015. Tudo isso para que tenhamos a opção comercial da estocagem de energia em ar líquido até 2018”, disse Williams à Agência FAPESP.

O princípio físico do processo é relativamente simples. Setecentos e dez litros de ar, resfriados a menos 196 graus Celsius, dão origem a um litro de ar líquido. Esse ar líquido pode ser estocado e, posteriormente, quando entra em contato com uma fonte térmica, volta a se expandir. A expansão do ar é utilizada, então, para movimentar uma turbina, convertendo a energia mecânica em energia elétrica.

A liquefação do ar é uma forma de estocar a energia proveniente de fontes intermitentes, como a solar e a eólica, assegurando que a rede não sofra decréscimo de fornecimento nos momentos de menor insolação ou de redução no regime dos ventos.

De acordo com Williams, dessa forma, otimizando a utilização de fontes renováveis, a estocagem criogênica (que utiliza temperaturas muito baixas) passa a ser uma importante peça na política britânica de descarbonização da matriz energética.

O Climate Change Act, aprovado pelo Parlamento britânico em 2008, estabelece a redução de 80% nas emissões de gás carbônico (CO2) até 2050. E as Renewables Obligations determinam que os provedores de energia elétrica licenciados no Reino Unido forneçam uma proporção crescente de eletricidade gerada a partir de fontes renováveis, fixando a banda de 15% para 2020.

“O ar líquido para armazenamento de energia torna-se mais eficiente acima de 10MW, de modo que não é apropriado para uso em edifícios isolados, mas bastante adequado na escala que vai do bairro ou do parque industrial à cidade. Já no âmbito dos transportes, uma possibilidade é seu emprego em soluções de tecnologia híbrida, para aumentar a eficiência de motores diesel, em caminhões ou balsas de curto percurso, por exemplo”, disse Williams.

Aumento na eficiência

Considerando-se os dois ciclos, de resfriamento e reaquecimento do ar, a eficiência esperada para o processo, na etapa de demonstração, é da ordem de 60%, contou o pró-reitor da University of Birmingham.

“Mas a eficiência pode ser aumentada para 80% ou mais com a utilização de calor residual no ciclo expansivo. Outra forma de aumentar ainda mais a eficiência é conjugar as unidades produtoras de ar líquido com terminais de gás natural liquefeito, de modo a aproveitar o frio residual produzido nesses terminais durante a fase de reconversão do gás ao estado gasoso”, explicou.

Segundo Williams, os impactos ambientais diretos do processo deverão ser muito baixos. “Para o armazenamento de energia, o dispositivo apenas captura e esgota o ar. E, quando a estocagem criogênica é utilizada em motores, o material trocado com o meio é novamente o ar”, disse.

“Como a temperatura de funcionamento desses motores é menor do que a da combustão interna convencional, os componentes podem ser fabricados com plásticos em vez de metais, reduzindo a energia incorporada”, argumentou.

Eleita “universidade do ano” pelos periódicos The Times e The Sunday Times, a University of Birmingham tem entre suas prioridades atuais a criação de soluções inovadoras a partir do conceito de sustentabilidade.

Por isso, somou-se a outras quatro universidades britânicas (Hull, Leeds, Sheffield e York) para formar o Centre for Low Carbon Futures (Centro para Futuros de Baixo Carbono), que reúne engenheiros, cientistas naturais e cientistas sociais focados em alternativas energéticas e mudanças climáticas, em interface com governo, empresas e entidades da sociedade civil.

O Birmingham Centre for Cryogenic Energy Storage (Centro de Armazenamento de Energia Criogênica da University of Birmingham), criado em associação com a University of Hull, é parte dessa iniciativa.

A University of Birmingham mantém acordo de cooperação com a FAPESP para apoiar projetos de pesquisas colaborativas entre o Estado de São Paulo e o Reino Unido. Duas chamadas de propostas já foram lançadas no âmbito do acordo. Na primeira chamada, sete propostas foram selecionadas.

José Tadeu Arantes
No Agência FAPESP
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O Brasil e os coveiros da democracia


A oposição segue seu intento de golpear o Brasil e atropelar a democracia, desrespeitando o resultado legítimo das eleições de 2014, quando as forças conservadoras foram derrotadas pela quarta vez consecutiva. Os fatos recentes, que já eram esperados, estão sendo apresentados como um novo "fim do mundo". Fizeram esse mesmo alarde quando uma agência internacional rebaixou a nota do Brasil.

Independente da divergência de opiniões e dos conflitos entre governo e oposição, quem faz política pensando no país e nos interesses da população, tem obrigação de agir com seriedade e se portar com senso de responsabilidade para aguardar os desdobramentos. Sem querer falsear a realidade ou tergiversar sobre a crise econômica e política, o fato é que a votação do parecer do Tribunal de Contas da União sobre as contas da presidenta Dilma tem que ser avaliado com o peso real que possui.

O TCU emitiu um parecer e as recomendações ali contidas devem ser analisadas pela Câmara e pelo Senado, cujos deputados e senadores podem avalizar, rejeitar ou optar por uma aprovação com ressalvas. O debate será instalado e o governo terá oportunidade de apresentar as argumentações políticas e técnicas necessárias. Ao final, será feita uma votação e mesmo que o resultado não seja favorável ao governo este não significará a senha automática para abrir um processo de impedimento da presidenta Dilma.

A questão política central é que os golpistas enxergam nesse episódio do TCU uma oportunidade para criar um ambiente político que justifique a derrubada de um governo eleito de forma legítima. Um impeachment não pode ser um capricho de derrotados. Me admira um partido como o PSDB passar de protagonista da redemocratização a coveiro da democracia. O que a ânsia pelo poder não faz.

Mas antes de pensar em golpe, a oposição conservadora terá muito com que se preocupar. A semana começa com o deputado Eduardo Cunha dedicado a justificar as novas denúncias que lhe foram imputadas e com a abertura de processo no STF contra o senador José Agripino por corrupção e lavagem de dinheiro. Que fique claro: não quero aqui fazer julgamento prévio, apesar da gravidade da situação. Que os dois se defendam e provem que são inocentes. Ou que a Justiça, após investigação dos órgãos de controle, os julgue - e os penalizem, se os considerarem culpados.

Acredito que nos próximos quinze dias, o governo conseguirá recompor sua base parlamentar, o Congresso Nacional apreciará os vetos da presidenta Dilma e iniciará a análise do relatório do TCU. Sem açodamento, com toda a responsabilidade e prudência que a questão requer. Sem transformar esse fato em espetáculo midiático. É tudo o que país não precisa nesse momento.

O governo certamente tem erros e isso a própria presidenta já reconheceu. Por exemplo, a demora em reconhecer a gravidade da crise econômica, a articulação com os partidos e os parlamentares da base aliada, o diálogo com a sociedade civil organizada para discutir as medidas de enfrentamento da crise, além de questões relativas à comunicação. Mas o que vem determinando a deterioração do ambiente político e a extensão da crise econômica (que tem forte viés internacional) é o comportamento predatório e claramente golpista de uma oposição conservadora, que busca na fomentação ao ódio a instalação de um clima de beligerância política poucas vezes visto na história da república.

Busca-se argumentos jurídicos para esconder sorrateiros propósitos de lesa-democracia. É de causar espanto que muitos que foram vítimas do golpe de 64 e se proclamem democratas, tramem uma saída golpista para o Brasil nesse momento de dificuldades, retomando uma tradição histórica que foi tentada contra Getúlio Vargas nos anos 50 e que resultou no seu suicídio em 1954; contra Juscelino Kubstchek e que levou à eleição de Jânio Quadros; e que finalmente se concretizou com a deposição de João Goulart em 1964.

Nós temos uma grave crise econômica a enfrentar. O país precisa se debruçar sobre isso e a presidenta está empenhada na busca de alternativas para superação desse momento de dificuldades. Não podemos virar uma Grécia que foi tragada pelo ambiente de instabilidade política. Os que têm compromisso com a democracia estão sendo cada vez mais convocados a assumir uma postura de resistência ao golpismo conservador, que busca trazer de volta o projeto que não deu certo no Brasil e que, por isso mesmo, foi derrotado pelo povo. Projeto este que sucateou o Estado e quebrou o Brasil três vezes. Um governo que vivia ajoelhado aos pés do FMI. Superar a crise não pode ser um passo atrás, travestido por uma fantasia moralista. É unir o país, corrigir erros e seguir em frente.

Enganam-se os que pensam que nós vamos nos omitir a tentativas golpistas. A reação popular não será de conivência. A conquista da democracia nos foi muito cara para abdicarmos dela. Além do mais, voltar ao passado é um retrocesso que o Brasil não merece. Cometemos erros sim, mas o legado do PT para o país é infinitamente maior do que os possíveis equívocos. Em que período da nossa história se conseguiu combinar crescimento econômico, distribuição de renda, combate à exclusão social, políticas afirmativas, geração de emprego e sustentabilidade ambiental como nos governos Lula e Dilma? Vamos vencer a crise sim. Sem desviar o país do projeto que vinha sendo executado nos últimos 12 anos e que mudou o Brasil.

Fátima Bezerra é senadora da República (PT/RN)
No Justiceira de Esquerda
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Guarde estes números


Quem assistir à reprise do Espaço Público neste domingo, a partir das 23 horas, na TV Brasil, poderá acompanhar um momento curioso da entrevista que fizemos com o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), vice-presidente na chapa de Aécio Neves em 2014.  (assista abaixo o resumo e, mais abaixo a íntegra)

Quando a entrevista chegou às chamadas pedaladas fiscais, questão que seria votada pelo TCU exatamente no dia seguinte ao programa, mostrei, com números, que era preciso ser cauteloso nessa discussão.

Lembrei que os grandes programas sociais do governo são pagos através de uma conta suprimento, que funciona assim: quando é positiva, remunera o governo. Quando negativa, rende juros à Caixa Econômica Federal.

Lendo uma tabela de dados oficias, mostrei que o saldo tinha sido positivo e que, ao contrário do que muitas pessoas acreditam, o governo não teve prejuízo com os programas — pelo contrário, recebeu juros, pois a Caixa recebeu mais do que gastou.

Em seu papel oposicionista, Aloysio respondeu com ironias. Rebati, ele replicou. A entrevista está aí, para ser vista por quem quiser ver e tirar suas conclusões.  

O fato é que eu estava certo. Os números do Sisfin, Sistema Financeiro, mostram que em nenhum dos quatro anos do primeiro mandato de Dilma Rousseff o saldo anual dos pagamentos de programas sociais foi negativo para o Tesouro. Sempre foi positivo, o que permitiu ao governo receber juros. Olha só que loucura: um governo acusado de maquiar o déficit na verdade recebeu juros porque enviou recursos suplementares para pagar os programas sociais.



Os números da remuneração recebida pelo Tesouro não são nada desprezíveis, por sinal:

    2011 .... R$ 241.578.128,64    
2012 .... R$ 188.371.711,48
2013 .... R$100.580. 459,23
2014 .... R$ 141.692.598,98

Estes dados ganham nova importância agora. Depois da rejeição das contas pelo TCU, a oposição tentará usar as "pedaladas fiscais" como argumento para pedir o afastamento da presidente. Termo obscuro por natureza, destinado a confundir em vez de esclarecer, a "pedalada" sugere o que não aconteceu. Dá a entender que houve uma falsificação, uma malandragem, mas se exime de comprovar o que diz. Isso porque sua base é uma inverdade.

É certo que ocorreram valores diários negativos, como é natural no mundo real da economia de um país, inclusive nos EUA. Mas é certo também que no saldo final o governo saiu ganhando — e é este o resultado que importa, do ponto de vista de quem considera que déficit zero é o principal termômetro da saúde de uma economia e das boas intenções de um governo (eu discordo desse ponto de vista. Acho simplório. Mas nem é isso o que importa no momento, nós sabemos).

O que importa são possíveis caminhos para emparedar a presidente.

Não há fatos criminosos para incriminar Dilma, como já foi reconhecido em editorial pelo New York Times, insuspeito de qualquer simpatia particular pela presidente. Por causa disso, a saída é tentar criar uma nuvem onde tudo possa ser usado contra ela porque nada foi demonstrado nem esclarecido.

Afinal, a "política pode ser cínica", reconhece o advogado Luiz Francisco Carvalho Filho na Folha de ontem.

Neste vale tudo, parece falta de educação lembrar que o empreiteiro Ricardo Pessoa, o principal delator da Lava Jato, fez revelações inesquecíveis sobre determinados ministros que julgaram as contas de Dilma.

Contou que pagava uma mesada de R$ 50 000 por mês a um escritório do filho do próprio presidente do Tribunal — que comandou a sessão que rejeitou as contas do governo — em troca de informações privilegiadas. Pessoa também disse que, através desse escritório, pagou uma propina de R$ 1 milhão em troca de uma sentença favorável que foi dada pelo ministro Raimundo Carreiro.

Olha a coincidência: foi Raimundo Carreiro quem teve a primazia, na quarta-feira, de relatar o pedido de suspeição do relator Augusto Nardes. Você tem dúvidas sobre o voto do ministro Carreiro?

Esses fatos pitorescos sobre o TCU deveriam ajudar a refletir sobre a sentença que condena Dilma. E olhe que nem lembrei que Augusto Nardes é investigado na operação Zelotes, suspeito de embolsar R$ 1,6 milhão de propina.

Todos se declaram inocentes e a constituição garante a presunção da inocência. Mas estes fatos descrevem um ambiente, ajudam a mostrar de quem e do quê estamos falando. Os protagonistas de uma decisão apresentada como histórica na história do TCU são cidadãos sob suspeita, no mínimo.

Sinceramente, eu acho que é muito fácil pressionar ministros na defensiva, concorda?

Estes fatos também ajudam a denunciar o cinismo sem remorsos de quem navega em correntes do moralismo de conveniência.  

E se você já ouviu falar da lenda de que as "pedaladas" prosseguiram em 2015, não se deixe iludir. O que se quer é contornar o artigo 86 da Constituição, que informa que um presidente só pode ser processado por crimes ocorridos no exercício do mandato.

Os números do Sisfin mostram que essas alegações são falsas. Até abril deste ano, o saldo era positivo, para o Tesouro, em R$ 72.3311.212.30.

Guarde este e os outros números. Eles podem ser sua consciência. Podem permitir — sem cinismo — distinguir a diferença entre golpe de Estado e impeachment. É sempre um aprendizado e um motivo de luta.

Paulo Moreira Leite

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Recordar é viver: Em 1994, comitê de FHC omitiu pelo menos R$8 milhões em doações

Nessa época, o TSE era tão bonzinho…
Planilha da primeira eleição do presidente mostra que pelo menos R$8 milhões não foram declarados à Justiça Eleitoral.

Andréa Michael e Wladimir Gramacho, via Folha online em 19/11/2000

A campanha eleitoral que elegeu o presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1994, também movimentou recursos por meio de um caixa 2.

Uma planilha eletrônica da sua primeira eleição à Presidência mostra que pelo menos R$8 milhões deixaram de ser declarados ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na ocasião, o que é ilegal.

Há uma semana, a Folha revelou, com base em documentos sigilosos do comitê financeiro de Fernando Henrique Cardoso, que a campanha da reeleição, em 1998, recebeu no mínimo R$10,12 milhões em doações carreadas para uma contabilidade paralela. Os recursos não declarados à Justiça Eleitoral estão descritos em 34 registros existentes na principal planilha. Eles indicam que o comitê de FHC recebeu pelo menos R$53,12 milhões — mais do que os R$43 milhões declarados oficialmente ao TSE.

Agora, uma nova planilha informa que esse expediente não era novidade no comitê tucano. Uma extensa lista com quase 300 empresas relaciona 53 nomes de doadores cujas contribuições não foram incluídas na prestação de contas entregue ao TSE. Somados, esses colaboradores deram R$8 milhões para o caixa 2 da campanha de Fernando Henrique Cardoso em 1994.

O número pode ser conservador. Um anexo da planilha demonstra que a escrituração paralela pode ter sido bem maior. Atualizada pela última vez no dia 30 de agosto de 1994, a planilha traz nesse anexo uma tabela que apresenta o seguinte título: “Conta-Corrente Campanha”.

Trata-se de um extrato simplificado que sugere o ingresso de R$72 milhões no caixa do comitê. Não há número de conta nem nome de banco. Apenas registros sucintos de créditos e débitos. Ao Tribunal Superior Eleitoral, o comitê de 1994 informou ter recebido R$33,6 milhões.

Bresser_Pereira04
Bresser Pereira foi tesoureiro nas duas
campanhas presidenciais de FHC. Agora, é o
queridinho de alguns “blogueiros progressistas”.
Bresser Pereira

O autor do arquivo, segundo registro eletrônico, é novamente o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira (Administração e Ciência e Tecnologia), tesoureiro nas duas campanhas presidenciais de FHC. Procurado pela Folha, Bresser negou a autoria da planilha.

“Quem deve ser capaz de responder às perguntas sobre uma planilha de 1994 é quem participou das duas campanhas, teve acesso às planilhas que fiz inicialmente e as utilizou para um controle adicional, que atendesse às suas necessidades. O que não entendo é por que ou para que fez isso”, escreveu Bresser Pereira, num e-mail enviado ao jornal na última quarta-feira.

Dois dias depois, na sexta-feira, outro ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso aceitou falar sobre o assunto. Durante três horas, José Eduardo Andrade Vieira, também ex-banqueiro (Bamerindus) e ex-senador (1991-1999), prestou depoimento ao Ministério Público, em Londrina, e confirmou o uso de um caixa 2 na campanha presidencial de 1994.

Ao explicar o funcionamento da arrecadação de fundos, naquela eleição, Andrade Vieira disse: “Quando o empresário ou colaborador não deseja aparecer, para permanecer no anonimato, contribui com recursos financeiros em espécie para a campanha eleitoral”, declarou.

Afirmou que “o candidato Fernando Henrique Cardoso acompanhava pessoalmente o volume de recursos financeiros arrecadados na campanha de 1994”. O ex-ministro confirmava, num depoimento formal, o que vinha dizendo à Folha, nos últimos três meses, em sucessivas conversas.

Dinheiro clandestino

Numa delas, ainda em agosto, Andrade Vieira disse, num telefonema gravado, que ele próprio acompanhou um de seus executivos — João Elísio Ferraz de Campos, então presidente da Bamerindus Seguradora — numa entrega de dinheiro clandestino ao comitê.
Folha – Como era o sistema de arrecadação de fundos, em 1994?

José Eduardo de Andrade
Vieira – Eu sei que o João Elísio — algumas vezes eu até fui junto com ele, duas ou três — foi levar dinheiro para o Eduardo Jorge. Também não me lembro quanto, mas não eram R$10 mil, R$20 mil.

Folha – Dinheiro vivo ou cheque?

Andrade Vieira
– Dinheiro vivo.

Folha – Isso ocorreu durante a campanha?

Andrade Vieira
– Na campanha.

Folha – Era dinheiro para a campanha?

Andrade Vieira
– É… É difícil de a gente saber.

Folha – E esse dinheiro, o João Elísio arrecadava onde?

Andrade Vieira
– Junto às seguradoras. Isso acontecia lá no Rio.
O ex-ministro explicava, aqui, como operavam os colaboradores que preferiam o anonimato. Andrade Vieira disse à Folha ter documentos que comprovam suas informações. E a interlocutores próximos afirmou estar disposto a entregar o que puder ao Ministério Público.

Ao saber que havia sido citado por Andrade Vieira como portador de dinheiro para o caixa 2, João Elísio Ferraz de Campos negou a ocorrência desses episódios. Afirmou que, em 1994, apenas coordenou o comitê político de Fernando Henrique Cardoso no Paraná, sem funções financeiras.

“O José Eduardo está louco. Eu nunca levei dinheiro na mala para ninguém. E, se as seguradoras deram, não foi por meu intermédio”, afirmou Ferraz de Campos, que hoje preside a Federação Nacional das Seguradoras (Fenaseg) e o diretório do PFL/PR.

Andrade Vieira falou genericamente sobre um expediente que a planilha de 1994 revela ter sido comum. Há inscrições no documento da primeira campanha que indicam burlas à regra de utilização de bônus eleitorais para a comprovação de contribuições.

Ao lado de uma doação de R$200 mil, atribuída à Amil, aparece a seguinte inscrição: “200 sem b”. Por “b”, entenda-se “bônus”, que marcam praticamente todas as doações da planilha que estão no TSE, reunidas na coluna “R-B”.

Outro indicativo de caixa 2 na planilha: nela está registrado que o Pão de Açúcar, do empresário Abílio Diniz, doou R$200 mil à campanha de 1994.

Contatado pela Folha, o grupo, cuja razão social é Cia. Brasileira de Distribuição, enviou nota confirmando ter doado em Ufirs 358.540,61 (equivalente hoje a R$380 mil) para a campanha. Mas não há registro da doação no Tribunal Superior Eleitoral.

Quando havia necessidade de declarar o recurso à Justiça Eleitoral, a contabilidade da campanha era explícita. Segundo o documento, o Banco Pactual se comprometeu com doação de R$100 mil, mas foi preciso anotar: “Vai dar via bônus”.

Essa contribuição, porém, não está no TSE. Ou o banco desistiu de doar, ou mudou de ideia em relação aos bônus. Citado como contato na instituição, o empresário Jorge Paulo Lemann (grafado como Lheman na planilha) não foi localizado pela Folha na semana passada.

Outros registros reforçam a veracidade da planilha. O empresário Eike Batista, por exemplo, é citado ao lado de uma doação de R$60 mil, registrada na coluna “R-B”, ou recebidos com bônus eleitorais. De fato, duas de suas empresas contribuíram para a campanha: a TVX Participações (R$50 mil) e a EBX participações (R$10 mil). E isso está no TSE.

Há outros registros ainda mais detalhados. A planilha informa que o Banco Boavista doaria R$150 mil em duas oportunidades. Tal e qual a declaração ao TSE.

O hoje ministro Andrea Matarazzo (Secretaria de Comunicação) também é citado na planilha de 1994. Seu nome está associado a cinco doadores, para os quais teria organizado jantares. Exatamente a mesma tarefa que Matarazzo diz ter realizado em 1998, quando teria arrecadado R$3 milhões para o caixa 2 da reeleição, segundo planilhas secretas do comitê financeiro.

No Limpinho&Cheiroso
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Eduardo Cunha e o "Requiescat In Pace" da Câmara dos Deputados


Sou um defensor da Democracia, mas não cometo mais o erro de identificar este regime político ao Congresso Nacional. O poder legislativo brasileiro não representa o povo brasileiro. Os escândalos que garantem a venda dos jornais provam que a maioria dos Deputados e Senadores representa apenas seus próprios interesses e os dos seus financiadores de campanha.

Onde erramos? Erramos em criar um abismo entre os cidadãos representados e seus representantes, permitindo aos últimos que cuidem mais de seus interesses privados que do interesse público. Também erramos ao impedir a revogação popular dos mandatos parlamentares em virtude do político ter traído as promessas eleitorais que fez aos seus eleitores. A irresponsabilidade política do parlamentar diante da comunidade que o elegeu tem sido a fonte de todos os desmandos estampados nos portais de internet.

Como não tem obrigação de representar o interesse público dos cidadãos que os elegem, os parlamentares fazem o que querem. E geralmente eles só querem uma coisa: juntar muito dinheiro para continuar na vida parlamentar e poder levar uma vida plena de luxo e fartura custeada pelo público. Isto explica a existência de parlamentares que nunca apresentam um só Projeto de Lei relevante (caso do Jair Bolsonaro) e de deputados que enriquecem traficando influência (caso do Eduardo Cunha) e até cocaína (o helicóptero de Gustavo Perella transportava 450 quilos da droga, mas ele não foi denunciado).

Não é de hoje que o Congresso Nacional funciona como um pardieiro. O escândalo envolvendo Eduardo Cunha é uma reedição piorada do episódio conhecido como Anões do Orçamento, O próprio Eduardo Cunha pode ser considerado um gigante entre os anões que assaltaram os cofres públicos empregando suas prerrogativas parlamentares. Rodamos, rodamos e voltamos sempre ao princípio.

As prerrogativas parlamentares, sempre usadas de maneira tão inadequada pelos Cunhas, Bolsonaros e Perellas, não foram originalmente concebidas para que deputados e senadores enriquecessem prejudicando os cidadãos. Elas foram criadas e existem para que os parlamentares pudessem representar os cidadãos sem temer represálias dos poderosos (milionários e empresas privadas). Nossa democracia deveria funcionar de uma forma e funciona de outra em razão de uma perversão política: a degeneração do regime. Sem extinguir esta perversão é impossível recuperar a natureza democrática do sistema representativo.

Aqueles que se beneficiam da perversão política que dominou o Congresso Nacional não querem mudar absolutamente nada. Que reforma política podemos esperar destes parlamentares que desejam se perpetuar no poder e que tudo fazem para preservar as fortunas que juntaram dentro e fora do país? É triste admitir a verdade, mas somente a verdade pode nos libertar: se o parlamento brasileiro fosse fechado os únicos a serem prejudicados neste momento seriam os parlamentares.

As denúncias que pesam sobre o comportamento de Eduardo Cunha são gravíssimas e justificam que ele deixe o cargo. Todavia, a resistência dele a renunciar à presidência da Câmara dos Deputados é apenas um sintoma. A doença é a perversão política que dominou totalmente o parlamento brasileiro. Estamos chegando ao ponto de não retorno: em algum momento o destino do Pardieiro dos Deputados não poderá ser diferente do destino do seu presidente corrupto.

Fábio de Oliveira Ribeiro
No GGN
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A figura realmente fascinante do casal Cunha é Claudia

Protegida no frio europeu
E descobrimos que a personagem realmente fascinante do casal Cláudia e Eduardo é Cláudia.

Eduardo Cunha é essencialmente um achacador, um tipo de político que representa o atraso em sua instância mais primitiva.

Manipula deputados com seus ardis obscuros e manipula crédulos com sua igreja evangélica.

É o tipo de sujeito que ninguém quer ter ao lado numa mesa para jantar. Ignorante, como se vê quando ele posta suas próprias coisas no Twitter, iletrado, pequeno no mais agudo sentido da palavra.

Você não vai discutir com ele Tolstói, ou receber uma sugestão de uma nova série, nada disso.

Suas causas são um museu ruim: contra o aborto, contra o casamento gay, contra qualquer coisa moderna nas sociedades contemporâneas.

É a favor da redução da maioridade penal e do financiamento privado de campanhas.

Hoje se vê por que ele se bateu tanto pelo financiamento privado: é de lá que vem o dinheiro que lhe deu contas secretas milionárias na Suíça.

Cunha é uma alma gêmea de alguém que os brasileiros conheceram bem na recente campanha eleitoral: Everaldo. O Pastor Everaldo.

Graça zero, carisma zero, espirituosidade zero, glamour zero.

Surpresa zero, também. Você sabe o que pessoas como Cunha vão falar qualquer que seja o assunto.

E então chegamos à parte surpreendente do casal: a jornalista Cláudia Cruz.

É impossível que quando eles começaram a namorar, quase vinte anos atrás, um murmúrio não tenha se espalhado pelo Rio de Janeiro, onde ela um rosto conhecido e admirado como apresentadora da Globo: mas o que ela viu nesse cara?

Ela era cult entre os cariocas.

Até a voz despertava fantasias proibidas entre os homens. Cláudia ficou célebre como a “Voz da Telerj”, no final dos anos 1990.

Você não conseguia completar uma ligação, o que era praxe naqueles dias, e aparecia a voz de Cláudia para confortá-lo.

Era, segundo relatos, o único momento em que os cariocas amavam a Telerj, na voz enfeitiçadora que disfarçava a inépcia da companhia.

Cunha era o presidente da Telerj, o que mostra seus talentos administrativos. Chegou lá não por mérito, mas por indicação política.

Mostrara já capacidade de sobrevivência. Fora da equipe do tesoureiro de Collor, PC Farias, com o qual aprendeu a arte de arrecadar dinheiro da plutocracia, e escapou do colapso de Collor e seu tesoureiro.

Poucos anos depois da derrubada de Collor, lá estava Cunha na presidência da Telerj, levando tormento a cariocas em busca de ligações que se completassem.

Foi aí que o destino os juntou.

O que Cunha viu nela está claro. Todos os cariocas viam a mesma coisa.

Mas e ela?

Nélson Rodrigues tem uma frase soberba sobre amor e dinheiro. “O dinheiro compra até o amor verdadeiro.”

E o poder também.

Cunha era o que é hoje com vinte anos menos, um homem tosco e sem atrativos aparentes. Jornalistas são liberais no sexo, na bebida etc — o oposto de Cunha. Você não consegue imaginar Cláudia, num domingo, ansiosa por ir a um culto de uma igreja pentecostal.

Mas ele era presidente.

Jornalistas são, com frequência, alpinistas sociais.

Mesmo os mais traquejados e lidos. Lembro o caso de Mário Sérgio Conti quando se tornou diretor de redação da Veja.

Mário logo se deixou deslumbrar pelas possibilidades oferecidas pela companhia bilionária de Roberto Marinho. Finais de semana com Marinho significavam luxos com os quais Mário jamais sonhara.

Isso sem contar a chance de dizer na segunda-feira quando lhe perguntavam onde fora no final de semana. “Na ilha do Roberto”.

Jornalistas gostam de chamar plutocratas pelo primeiro nome, para demonstrar intimidade.

Eduardo Cunha não era Roberto Marinho, mas era presidente de uma empresa.

O emprego na Globo não podia ser satisfatório para Cláudia.

A Globo paga pouco,  e ainda menos para apresentadores iniciantes como era Cláudia.

A empresa oferece uma troca não escrita: como você aparece, pode buscar dinheiro em outras fontes.

Foi o que Cláudia fez ao gravar a mensagem da Talerj.

A Globo, além disso, sonega com o expediente de transformar empregados como Cláudia em PJs. (Ela, na saída, processou a empresa por conta disso e ganhou.)

Tudo isso posto, Cláudia era uma presa relativamente fácil para o presidente da Telerj.

De certa forma, vistas as coisas vinte anos depois, tudo funcionou. Cláudia pôde até ter aulas de tênis na mesma academia de Agassi e Sharapova.

O marido, pelos seus expedientes de sempre, ascendeu na escuridão, e em certo momento era, segundo a Veja, o homem mais poderoso da República.

Tudo ia bem para o casal tão diferente na aparência entre si — até que a polícia e a Justiça suíça entraram em ação e fizeram o que a polícia e a Justiça brasileira jamais fariam.

Paulo Nogueira
No DCM
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O pior

Eu quis beijar seus pés e você não deixou. Pior: disse “Eca”. Seria um sinal da minha devoção, mas você disse “Eca”. Explicou que os pés estavam sujos de areia, uma nojeira. Eu sabia que os amores de verão não duram mais do que a marca do maiô mas imaginei que o nosso seria diferente, e perduraria mais do que nosso bronzeado. Eu lamberia a areia da praia e o sal do mar dos seus pés e você me puxaria pelas orelhas e me beijaria a boca salgada, mas você não me puxou pelas orelhas, você disse “Eca”. Quando nos encontramos meses depois, por acaso, eu perguntei se você ainda tinha aquela concha que eu lhe dei na praia para nunca me esquecer e você deu um tapa na testa e disse “Ih, esqueci”. Aquela concha com a minha vida dentro. Eu sei, eu sei, meu coração também não caberia na sua mochila. Imagino que ele esteja numa gaveta, junto com o protetor solar número 3, o Harry Potter e outros detritos do verão. Quando nos encontramos pedi meu coração de volta e você deu outro tapa na testa e disse “Ó cabeça” e depois disse “Desculpe, viu Renato”. E isto não foi o pior. Nos encontrarmos meses depois por acaso, não como tínhamos combinado, também não foi o pior. Nada do que combinamos aquela noite na praia, sob aquela lua, com aquela lua nos seus cabelos, com seus cabelos fosforescendo sob aquela lua, nada do que combinamos naquela noite sob aquela lua aconteceu, e isso também não foi o pior. Eu sei, eu sei, eu não esperava que nossos planos dessem certo, nossos grandes planos. O plano de não voltar para a escola no fim do verão e ir para os Estados Unidos, cada um com o seu sonho e o seu inglês do yásigi, e dar duro e ser feliz e só voltarmos famosos, você como artista e eu, sei lá, como o melhor entregador de pizza do mundo, ou o plano de nos casarmos ali mesmo, o luar como grinalda, a espuma do mar como testemunha, a concha em vez de um anel e ninguém ficar sabendo, ou viver juntos numa cobertura com piscina se nossos pais pudessem pagar, ou o plano de nunca, nunca, nunca nos separarmos. Se os nossos grandes planos não dessem certo, pelo menos os planos menores dariam, como a data certa para nos reencontrarmos no fim do verão. Eu esperava que pelo menos isto você não esquecesse, mas você esqueceu. Tudo bem, o pior não é isso. Nos encontramos por acaso, meses depois, com o bronzeado desbotando, e você disse “Desculpe, viu Renato”. Pensei em dizer tudo bem, quem precisa de um coração enganado, mesmo? Fique com ele, plastifique, use como centro de mesa, quem se importa? Eu entendo você não me deixar beijar os seus pés. Entendo o “Eca”. Entendo você ter esquecido a concha, o luar, os planos. Nada mais ridículo do que um homem apaixonado, eu sei, eu sei. Você tinha razão, beijar seus pés seria um exagero romântico, um rompante embaraçoso, além de anti-higienico. Mas o pior também não é isso. O pior, o que dói, e doerá por muitos verões, é que meu nome não é Renato.

Luís Fernando Veríssimo
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A última cartada da Folha

Não podendo mais disfarçar seu jornalismo de aluguel, Folha decide construir hotel para hospedar seus patrocinadores. E assim a “informação” made in Folha põe seu preço na praça. Para despistar, decide que os lençóis dos finanCIAdores ideológicos serão de cores diferentes. É uma escolha que aposta no leitor daltônico. É o jabá acompanhado de justificativa. Sorte da Folha que ainda há espaço para amestrar midiotas. Azar da Folha é que seu tempo, como o da Globo, está acabando. O expectador passivo está acabando. E a mentira ficou com pernas ainda mais curtas.

Como seus varões da república estão todos no puteiro, restou à Folha a busca por uma saída à francesa. De qualquer sorte, fica provado que os grupos mafiomidiáticos sempre prontos a darem lição de administração, estão falindo.

Pedalada na ética é sua última quimera.

Parece, mas não é

Em busca de novas fontes de renda, jornal anuncia núcleo para produzir conteúdo patrocinado

A Folha anunciou nesta semana a criação do Estúdio Folha, um departamento independente destinado a produzir conteúdo feito sob medida para anunciantes. Segundo reportagem publicada na quarta (7), trata-se de uma unidade totalmente desconectada da Redação, com equipe própria e subordinada à superintendência da empresa, instância responsável pelo departamento de venda de publicidade.

A iniciativa se filia a um movimento feito por veículos de comunicação de várias partes do mundo (incluindo os só digitais) de buscar novas fontes para compensar o faturamento perdido nos últimos anos.

É questão de sobrevivência. A internet provocou uma disrupção no modelo de negócio dos jornais, com consequências aparentemente contraditórias: ao mesmo tempo em que multiplicou exponencialmente seus leitores, solapou sua estrutura de sustentação financeira — registre-se que com a ajuda dos próprios meios, cujos sites num primeiro momento passaram a entregar de graça o conteúdo até então vendido.

E não dá nem para dizer que foi um erro. O potencial e as incógnitas da tecnologia pareciam então não deixar saída, assim como as interrogações sobre o futuro do impresso parecem não deixar agora. O digital é caminho sem volta, mas ainda não desenvolveu musculatura para sustentar os custos da produção de notícias. A conta precisa fechar.

A entrada dos jornais na seara do conteúdo pago é um terreno delicado, que esbarra no que o jargão jornalístico costuma chamar de "separação entre Igreja-Estado", metáfora que simboliza a independência da Redação diante do departamento comercial (não me perguntem quem é quem na metáfora). A criação de uma unidade à parte é um imperativo para sinalizar ao leitor que a separação continua e não pôr em risco a credibilidade do jornal.

A rigor, o que essas unidades produzem é publicidade embalada em técnicas e aparência jornalística: é reportagem, mas pauta e conteúdo são aprovados pelo anunciante.

Explica a direção: "O material produzido tem apresentação (o formato e o tamanho da letra, a diagramação da página) diferente da exibida no conteúdo editorial. Além disso, ele sempre destaca o patrocínio do anunciante e ostenta o selo do Estúdio Folha. Tudo isso é feito para que o leitor compreenda que esse material não é um produto da Redação, e sim um conteúdo de natureza publicitária."

Tenho sérias dúvidas sobre essa compreensão. Primeiro porque não creio que a maioria do leitorado consiga fazer distinção entre sutilezas gráficas. Depois porque a própria Folha adota diagramações diferentes em especiais tradicionais, embora mantenha sempre a mesma letra no texto.

Além disso, o termo "patrocinado por" já é tradicionalmente usado com outra conotação: patrocinar não implica poder de interferir no conteúdo, como ocorre na chamada publicidade nativa — que continua sendo publicidade, só que produzida pelo próprio veículo com figurino de texto noticioso.

Não acho que o conteúdo por encomenda seja um problema per se, desde que sua condição seja exposta de forma transparente e com clareza tal que não haja risco de o leitor confundir gato com lebre. Minha impressão é que essa clareza está longe de ter sido garantida.

Vera Guimarães Martins
Ombudsman da fAlha

No Ficha Corrida
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Da série Biografias Requentadas: Padre José de Anchieta


Fez, entre outros, os seguintes milagres:

Certo homem morreu e, quando já estava na igreja para a encomendação, mexeu-se e pediu para falar com o padre ausente. Vindo Anchieta, disse-lhe o homem que não pudera entrar no céu por não ser batizado, mas que Deus, a pedido do padre, lhe fizera misericórdia. Após o batismo, morreu novamente, seguindo-se o enterro.

Saindo de canoa com outros padres, à procura de dois oficiais, a canoa virou. Todos se salvaram a nado, exceto o padre Joseph, que foi encontrado horas depois no fundo do rio, rezando o breviário.

Um pássaro costumava adejar sobre sua cabeça quando escrevia, em Iperoig, o poema à Virgem, De Beata Virgine Dei Matre Maria.

Curou um índio aleijado, que gatinhava, dizendo-lhe: “Levanta e anda, fica em pé e olha para o céu, pois não deves olhar sempre o chão como se foras um bruto”.

Viajando sob um sol abrasador, chamou algumas aves e disse-lhes que procurassem outras, e todas juntas fizeram um toldo que o protegeu até que sobreveio aragem fresca.

Todas as vezes que saía de viagem com os índios, e estes lhe pediam de comer, chamava pelos macacos, pois todos os brutos e feras lhe obedeciam, e encomendava aos índios que matassem quantos lhes fossem necessários, o que logo faziam sem que os macacos fugissem. Depois de providos os índios, mandava aos macacos que chorassem seus irmãos e lhes fizessem as exéquias e últimas honras, o que faziam levantando o choro e os gritos por muito tempo.

Um índio matou o próprio filhinho e o enterrou. Ao saber disso, foi Anchieta desenterrá-lo, mandou que abrisse os olhos e, em presença de um grande povo curioso, batizou-o e novamente o enterrou.

Fez uma menina voltar à vida, dizendo-lhe: “Querias ir para o céu sem ganhá-lo?”.

Ressuscitou uma mulher com criança no ventre, e ambas viveram longos anos.

Numa viagem da Bahia para o Rio de Janeiro, horrível tempestade fez perigar o barco. Juntando no convés os passageiros, disse-lhes: “Entre vocês há um excomungado: ponha-se a meus pés para que não pereçamos todos”. O culpado confessou-se e o mar acalmou-se.

Certa vez, durante uma viagem, ficou a noite inteira no convés do navio a rezar e, apesar da chuva, não se molhou.

Tinham-lhe tanto respeito cobras e outros brutos que o festejavam e tomavam-lhe a bênção.

Conseguiu, do Supremo Tribunal Celestial, que Aécio Neves e Eduardo Cunha fossem processados, julgados e condenados ao Inferno por seus numerosos crimes.

Sebastião Nunes
No GGN
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Evangélicos como Cunha eliminaram o mandamento ‘não roubarás’ da Bíblia

“Deus, tira os caras da Suíça do meu pé e eu te dou uma parte”
A invasão ao Facebook de Eduardo Cunha leva a duas conclusões: a zoeira não tem limites (“o que a Suíça tem de melhor: chocolate, queijo ou banco?”), bem como a cegueira cúmplice de evangélicos.

A quantidade de votos de que Deus o ilumine é chocante, juntamente com milhares de “améns” e louvações variadas.

Cunha é o sujeito que, com a ficha corrida que tem, se descreve nas redes sociais como “evangélico, economista, defensor da vida, da família e do RJ”.

A família, sabe-se agora mais do que nunca, é a dele. O silêncio das lideranças religiosas sobre o presidente da Câmara mostra como, embora decorem os versículos mais obscurantistas da Bíblia, eles não dão a mínima para mandamentos como “não roubarás”.

O neopentecostalismo celebra a riqueza e Eduardo Cunha é um símbolo da prosperidade. Como ele chegou lá é um detalhe. Se picaretas como o pastor Marco Feliciano, por exemplo, pedem o cartão de crédito das pessoas no púlpito, qual o limite moral dessa gente?

A mitologia da humildade e as palavras de Jesus Cristo sobe a pobreza não fazem parte da liturgia dos pares de Cunha. Não à toa, suspeita-se que ele lavava dinheiro através de sua igreja.

Jesus se manifestou diversas vezes contra o amor ao dinheiro e contra a ganância. Não faltaria, portanto, assunto para esses religiosos em seus cultos. Eduardo Cunha é um caso pedagógico, entre outras coisas, de onde a ganância desmedida leva um sujeito.

No entanto, evangélicos preferem dizer que Cunha precisa de apoio porque ele é, afinal, um deles. Uma estrela da bancada. O homem que promove cultos numa afronta ao estado laico. Um herói.

Dane-se o Brasil. Dane-se, ao fim e ao cabo, Deus. Muito mais importante do que a ladroagem de um dos nossos é combater os gayzistas, os abortistas, os comunistas (e aquele rapaz gato que deixa o bispo ma-lu-co).

Cunha deveria ser um embaraço para os cristãos, já que ele montou na fé para construir sua carreira. O fato de nenhum líder evangélico se manifestar claramente sobre o colega é sintomático: Eduardo Cunha é espelho e não exceção.

Kiko Nogueira
No DCM
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Lulinha salvou Lauro Jardim de um fiasco


Ex-colunista da quase falida revista Veja fez estreia insípida e repetitiva no O Globo

Nenhuma palavra sobre o senador Agripino Maia réu no STF, nadinha sobre a mais recente condenação de Carlos Cachoeira, ou da sua separação (divórcio). Sobre os bastidores da reunião da oposição que resolveu pedir de forma muito cautelosa a saída de Cunha da Presidência da Câmara, oferecendo em troca (barganha vergonhosa) os votos para que ele não seja defenestrado no Conselho de Ética, e seja cassado...Também nada. 


Anunciado como a mais nova contratação do jornal, foi reservado o espaço nobre (se é que existe alguma nobreza no jornal O Globo) da página 2 — primeiro caderno — para o "Radar" de Lauro. Talvez pela longa inatividade, o "aparelho" do colunista parece meio fora de foco, incapaz de captar o que realmente seria interessante trazer. 

Entre nada e pouca coisa — "A relação entre Dilma Rousseff e Michel Temer nunca foi tão ruim", ou — O processo que Cicarelli move contra o YouTube...

Sobrou uma notinha que traz a requentada situação de envolver o nome de Lulinha (é duro ser filho do Lula) em todo tipo de ilegalidades nunca comprovadas. Agora, segundo o colunista, o filho de Lula foi citado pelo Baiano na sua delação premiada. 

Foi uma estreia decepcionante para quem esperava muito do colunista, que por sinal (isso sim é revelação quente) vai ganhar menos no O Globo, do que recebia na VEJA, e menos que outros colunistas já velhos de guerra e manipulações de notícia na casa. 

Mas, pelo menos Lauro Jardim vai receber o salário que foi combinado, pois, mais valem os poucos Reais dos Marinho na mão, do que os muitos oferecidos pela Abril voando. 

Quem sabe sobra algum para ele consertar o Radar.

No 007Bondeblog
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Como Aécio Neves se tornou o personagem principal da Lista de Furnas

O então governador Aécio Neves
Era 2005, auge das CPIs dos Correios e do Mensalão, quando o presidente de Furnas, José Pedro Rodrigues de Oliveira, um quadro técnico ligado ao ex-presidente Itamar Franco, chamou à sua sala o coordenador do Programa Luz Para Todos, assessor especial da presidência, e entregou um pedaço de papel, com um nome e o número de um telefone. “Acho que isso interessa a vocês. Só que não quero que você receba esta pessoa aqui dentro”, disse José Pedro a Paulo Tadeu, ex-prefeito de Poços de Caldas e fundador do PT.

Foi assim que Paulo Tadeu tomou conhecimento da existência de Nílton Monteiro, o nome escrito no papel. Tadeu telefonou para Nílton e marcou com ele um encontro no café de uma travessa da Rua Real Grandeza, Botafogo, Rio de Janeiro, perto da sede de Furnas, acatando a ordem de não deixar Nílton passar pela recepção da empresa.

Nílton Monteiro é um homem de baixa estatura, um pouco acima do peso, que usa óculos, tem cabelos lisos e cheios, repartidos ao meio. Depois das apresentações iniciais, Nílton foi direto ao ponto.

“Ele disse que tinha algo que podia ajudar o governo a se defender das acusações do mensalão”, recorda Paulo Tadeu, durante uma longa entrevista que me concedeu. “E me entregou alguns papéis com uma relação de nomes, acompanhada de valores e a assinatura do ex-diretor de Furnas, Dimas Toledo”, acrescenta. “Eu achei impressionante e indiquei o Nílton para conversar com o deputado Rogério Correa, em Minas, que já tinha experiência na investigação dos governos tucanos, principalmente de Aécio Neves”, diz.

Aécio é o personagem central da lista, não só porque aparece como um dos que mais receberam dinheiro do caixa 2 da estatal, mas porque são antigas as relações de sua família com as empresas públicas na área de  energia. O pai, Aécio Cunha, depois de integrar durante seis anos a Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, se tornou conselheiro de Furnas, ao mesmo tempo em que era conselheiro da Cemig, a estatal de energia de Minas Gerais.

“Furnas sempre foi território de Minas no governo federal”, conta o ex-coordenador do Programa Luz para Todos.

Furnas nasceu como a primeira grande usina hidrelétrica do Brasil, com o aproveitamento das águas do rio Grande, em Minas Gerais. Foi implantada pelo presidente Juscelino Kubistchek em 1957, para fazer frente a uma crise de energia que ameaçava deixar regiões inteiras do Brasil na escuridão.

Hoje, Furnas é um colosso com 17 usinas hidrelétricas, duas termelétricas, três parques eólicos e aproximadamente 24 mil quilômetros de linhas de transmissão e 62 subestações, que garantem o abastecimento de energia a mais de 60% das moradias do País, em regiões que respondem por mais de 80% da produção da riqueza brasileira (PIB).

Foi nessa empresa gigante que Dimas Toledo começou a trabalhar em 1968, quando se formou engenheiro eletricista pela Faculdade de Itajubá, Em 2002, era presidente interino da empresa, e assinou o documento hoje conhecido como lista de Furnas.

O documento, com o registro de confidencial, informa no primeiro parágrafo que se trata da “relação dos recursos levantados e disponibilizados por intermédio de Furnas-Centrais Elétricas S.A., entre colaboradores, fornecedores, prestadores de serviços, construtoras, bancos, fundos de pensão, corretoras de valores, seguradoras, com seus respectivos repasses direcionados aos coordenadores e responsáveis financeiros pelas campanhas dos candidatos à Presidência da República, Governadores de Estado, ao Senado Federal, Deputados Federais e Estaduais”.

O documento assinado por ele relaciona os 156 políticos que receberam dinheiro dessas empresas para a campanha eleitoral de 2002, todos eles da base de sustentação do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Desse total, 47 eram do PSDB, 33 do PFL (atual DEM), 21 do PP, 15 do PMDB, 13 do PTB, 11 do PL (atual PR) e 16 de siglas menores. O total de doação é de 39,9 milhões de reais (R$ 95,4 milhões em valores corrigidos pelo IGP-M).

Geraldo Alckmin, o candidato a governador que venceu as eleições naquele ano, é o primeiro da lista, como destinatário de R$ 9,3 milhões (22,2 milhões em valores de hoje). José Serra, que disputou e perdeu as eleições para Lula, vem a seguir, com R$ 7 milhões (R$ 16,7 milhões).

Aécio é o terceiro da lista, como candidato a governador de Minas Gerais. Ele recebeu R$ 5,5 milhões (13,1 milhão). Na relação, também está registrado o nome da irmã de Aécio, Andréa — “valor avulso repassado para Andréa Neves, irmã de Aécio Neves, para os comitês e prefeitos do interior do Estado — MG valor: 695.000,00”. Corrigido pelo IGP-M, R$ 1,6 milhão.

Zezé Perrella, na época candidato a deputado estadual, figura na lista como tendo recebido R$ 350 mil (R$ 837 mil) — entre parênteses, está escrito “autorização de Aécio Neves”. Um detalhe: quando a lista foi feita, Zezé Perrella ainda nem havia comprado o helicóptero que seria apreendido onze anos depois, com quase meia tonelada de pasta base de cocaína.

“Esse material pode salvar o mandato do Lula.” É o que Nílton Monteiro teria dito no café com o executivo de Furnas, nas imediações da Rua Real Grandeza. A frase que Paulo Tadeu diz ter ouvido é um pouco diferente. “Ele disse que os tucanos não tinham moral para fazer as acusações que vinham fazendo nas CPIs”, disse-me Paulo Tadeu.

O fato é que a lista se tornou pública no início de 2006, mas já era conhecida nos bastidores do Congresso Nacional desde o final de 2005, quando a CPI já estava perdendo força.

Nílton conta que foi levado ao então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, um dos que compunham o gabinete anti-crise de Lula. O ministro teria avaliado o conteúdo da lista e, com seus conhecimentos jurídicos, respaldado a credibilidade do documento.

Cumprindo uma tarefa acordada com seus interlocutores no PT, Nílton diz ter ido a Brasília. Enquanto as sessões da CPI ocorriam sob intensos holofotes da mídia, Nílton, longe deles, ia de gabinete em gabinete, mostrando uma cópia da lista.

E o que Nílton queria em troca desse trabalho? “Dinheiro”, ele admite, o que Nílton sempre buscou no subterrâneo que une empresários a políticos, desde que tinha 17 anos de idade e começou a trabalhar com o deputado Sérgio Naya, aquele mesmo do Palace II, o edifício do Rio de Janeiro que desabou em 1998.

A queda do prédio, que matou oito pessoas, colocou fim à carreira de Sérgio Naya, que se tornou milionário durante o regime militar, quando levou sua construtora para Brasília e fazia negócios dizendo-se amigo do general Golbery do Couto e Silva.

A biografia de Sérgio Naya na Wikipédia contém uma frase atribuída a Golbery: “Esse menino tem instinto para ganhar dinheiro”.

O jornalista Geraldo Elísio, um dos mais premiados de Minas Gerais, onde foi secretário-adjunto de Cultura, conheceu Naya no auge de seu poder e riqueza, na década de 80.

Convidado, esteve no apartamento dele na avenida Vieira Souto, Rio de Janeiro, quando Naya o levou para uma sala e abriu um armário com muitas barras de ouro.

“Isso tudo aqui é trambique, é meu e do Golbery”, disse-lhe Naya, que retirou duas pequenas barras, de 250 gramas cada uma, e entregou a Geraldo Elísio, que polidamente recusou. “Mas um presente você vai levar”, insistiu Naya ao homem que, na época, fazia parte do governo de Minas Gerais. E retirou de outro armário uma camisa de linho de algodão. “Este presente eu aceito, porque eu posso dar uma camisa igual para você. Mas o ouro eu não posso.”

Eu soube dessa história um dia depois de Geraldo me conceder entrevista gravada. Geraldo é um personagem importante para entender o caso da lista de Furnas e o silêncio da mídia em torno dela. O jornalista era editor do site Novo Jornal, o único veículo que dava notícias críticas ao governo de Aécio em Minas, inclusive a lista de Furnas.

No início de 2014, quando Aécio estava com sua pré-campanha a presidente na rua, o site foi retirado do ar por uma decisão da Justiça, duas pessoas foram presas e a casa do jornalista foi revirada por policiais que tinham um mandado de busca e apreensão.

Geraldo Elísio me acompanhou no primeiro encontro com Nílton Monteiro. A conversa começou por volta das 4 da tarde e se estendeu até às duas da manhã.  Jantávamos. Nílton ainda estava hesitante quanto a gravar a entrevista, e falávamos de Naya. Nílton virou-se para Geraldo, e perguntou, em voz baixa: “Por que você não aceitou as barrinhas?”. E Geraldo então relatou o encontro com Naya e suas barrinhas de ouro.

Enquanto Geraldo falava, Nílton balançava negativamente a cabeça. Depois, meio brincando, meio sério, lembrou o que Naya disse sobre Geraldo. “Como é que o Geraldo come mulher se não gosta de dinheiro?”

Foi nesse ambiente que Nílton cresceu e, à sombra do chefe, desfrutou de algum prestígio. A revista IstoÉ, quando ainda fazia alguma reportagem crítica ao grupo de Aécio Neves em Minas Gerais, publicou uma foto em que Nílton Monteiro está numa lancha, na companhia de Cláudio Mourão,  ex- tesoureiro dos tucanos em Minas, e duas mulheres. A foto ilustra a reportagem em que Nílton Monteiro denunciou o mensalão mineiro.

Sim, foi do mesmo baú de onde saiu a lista de Furnas que vieram à tona os documentos bancários e a contabilidade que comprovam que o publicitário Marcos Valério, antes de servir em Brasília, abastecia os políticos em Minas Gerais, durante o governo de Eduardo Azeredo.

“Foi a veracidade das denúncias do Nílton Monteiro no mensalão tucano que me fez levar adiante o caso da lista de Furnas”, conta o deputado petista Rogério Correa. “As informações tinham consistência”,  afirma.

A primeira reação dos políticos relacionados tanto na lista de Furnas quanto no mensalão mineiro foi desqualificar Nílton Monteiro. Diziam que era um estelionatário, estava tentando extorquir dinheiro e que os documentos eram falsos.

No caso do mensalão mineiro, não resta mais nenhuma dúvida quanto à autenticidade das provas. O processo só não foi julgado ainda porque o Supremo Tribunal Federal, depois de condenar os petistas no mensalão de Brasília, remeteu o processo que envolve a antiga cúpula tucana para Minas Gerais, e o processo está parado no Tribunal de Justiça.

Quanto à lista de Furnas, foi levantada uma densa cortina de fumaça. Falsa, a lista não é. Peritos da Polícia Federal analisaram o documento e concluíram que a assinatura é mesmo de Dimas Toledo, apesar da negativa que fez na CPI nos Correios e na Polícia Federal.

Nilton Monteiro
Nilton Monteiro
Quanto à existência de caixa 2 beneficiando políticos a partir dos serviços prestados em Furnas, também não restou dúvida depois que uma procuradora da república no Rio de Janeiro denunciou Dimas Toledo, Nílton Monteiro e alguns empresários pelo desvio de recursos da estatal de energia elétrica.

Um dos denunciados é o ex-deputado Roberto Jefferson. Na época em que a procuradora fez a denúncia, Roberto, como ex-deputado, já não tinha foro privilegiado e pôde ser interrogado na primeira instância. Ele confirmou ter recebido R$ 75 mil para sua campanha a deputado federal em 2002, exatamente o mesmo valor que aparece na lista de Furnas (R$ 180 mil em valores atuais).

“Quando Roberto Jefferson denunciou o mensalão de Brasília, o mundo veio abaixo e a mídia caiu de pau. Quando Jefferson confessa o caixa 2 no esquema tucano, ninguém dá um pio. Até quando viveremos com uma democracia de dois pesos e duas medidas?”, pergunta Rogério.

Outro ex-deputado, Antônio Júlio, hoje prefeito de Patos de Minas, apareceu na lista como destinatário de R$ 150 mil (R$ 356 mil em valor atualizado) e, assim como Jefferson, teve coragem de admitir a veracidade da informação.

Muito recentemente, o caixa 2 de Furnas apareceu na operação Lava-Jato, por intermédio de um dos depoimentos do doleiro Alberto Youssef. Ele disse que ouviu de um dos seus mais próximos clientes, o ex-deputado do PP José Janene, já falecido, que Aécio Neves recebia por intermédio da empresa Bauruense, prestadora de serviço em Furnas, um quinhão dos desvios da estatal. Chega a citar uma irmã de Aécio como a pessoa que recebia a propina. Quem será a irmã?

O depoimento de Youssef até agora não teve desdobramento, assim como a denúncia da procuradora da república no Rio que investigou a corrupção em Furnas. Depois de fazer a denúncia, em que afirma não ter poderes para processar políticos com foro privilegiado, Andrea Bayrão descobriu que seu poder era ainda mais limitado.

Um juiz federal entendeu que o caso era da alçada estadual e mandou todo inquérito e a denúncia da procuradora para o Ministério Público do Estado do Rio, onde a investigação está parada. Procurei Andréa Bayrão, a procuradora, e ela disse que não tem mais nada para falar a respeito de Furnas.

Enquanto isso, Dimas Toledo, autor da lista e cérebro do caixa 2 de Furnas, segue sem ser incomodado num hotel de sua propriedade em Minas. Ele está para Furnas assim como Paulo Roberto Costa está para Petrobrás. A este, foi oferecido o benefício da delação premiada e o que se seguiu, sob a jurisdição do juiz Sérgio Moro, é do conhecimento de todos.

Dimas tem um filho deputado federal e só saiu de Furnas no final do primeiro governo Lula. A pergunta que não quer calar é: com que objetivo ele fez uma lista em que se auto incrimina? Nílton tem a resposta: Dimas queria permanecer na direção de Furnas e fez a lista para chantagear os tucanos, particularmente Aécio Neves, forçando-o a negociar com Lula sua permanência na estatal. Nílton foi o mensageiro que levou a lista a um grupo restrito de políticos do PSDB.

A data da lista é 30 de novembro de 2002, pouco mais de um mês após a eleição de Lula. Em janeiro, a recém-nomeada ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, dá posse à diretoria de Furnas. Na revista da empresa, Dimas Toledo aparece na foto e a legenda informa: ele foi mantido na direção da empresa, agora como diretor de Planejamento, Engenharia e Construção. A mesma reportagem registra a permanência de Aécio Cunha, o pai de Aécio, no Conselho de Administração. O governo federal tinha trocado de mãos, mas Furnas ainda era um ninho de Aécio Neves.

Esta reportagem faz parte do projeto de crowdfunding do DCM sobre a Lista de Furnas. Fique ligado.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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