1 de out de 2015

Enquanto vocifera contra a corrupção, o juiz Gilmar faz tabela com o réu Cunha

Butch Cassidy e Sundance Kid
Encontre o erro abaixo:

O ministro Gilmar Mendes, do STF, continua firme em sua cruzada pela moralidade no Brasil. Gilmar quer virar o jogo da proibição do financiamento empresarial de campanhas.

“Com essa fórmula, a gente vai montar o maior laranjal… A gente está ganhando várias copas do mundo. Estamos ganhando a copa do mundo de corrupção. Se estivéssemos exportando laranjas, seria algo positivo. Então, a rigor, nós estamos metidos numa grande confusão”, declarou.

Gilmar falou tudo isso na quarta, 30, depois de uma reunião com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Espera um pouco.

Faz sentido um juiz se reunir numa boa, na maior, arrotando ética, denunciando malfeitos, criando metáforas agronômicas violentas — com um homem mais sujo do que pau de galinheiro?

Ninguém acha estranho? Não que ele ouça, mas não havia nenhum assessor para avisá-lo da impropriedade, para usar um eufemismo?

Cunha é acusado por nada menos do que cinco investigados da Lava Jato de se beneficiar do esquema da Petrobras. Sua permanência no cargo é um escárnio à Justiça.

Não tem problema para Gilmar?

GM faz parte da segunda turma do Supremo que será responsável pela maioria dos inquéritos da Lava Jato. Cunha responde a dois inquéritos na corte.

Nenhum conflito de interesses?

Tal como a ficha corrida de Cunha, os encontros entre os dois não são novidade. Em março, estiveram juntos para debater o “Pacto Republicano”.  O tema principal dos últimos meses, porém, tem sido o impeachment de Dilma.

Em julho, Cunha chegou a desmentir Gilmar em sua conta no Twitter. GM havia dito à Folha que “é possível que se tenha falado da contagem de votos, coisa do tipo. É possível que eu tenha dito que, dependendo das provas do processo, pode até ter unanimidade”.

Paulinho da Força — réu no STF sob a acusação de ter cometido crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha — estava na mesa. Cunha alegou que só se tratou do “Código de Processo Civil”, o CPC. Um dos dois estava mentindo.

É claro que Mendes senta com quem quiser, um direito assegurado na Constituição. Sua tabelinha  pragmática com Eduardo Cunha, no entanto, fica a cada dia mais suspeita, especialmente quando o magistrado sai vociferando contra políticos corruptos.

É muita onipotência e falta de noção para um sujeito só. O lado bonito é que uma amizade dessas certamente prosseguirá dando frutos quando um deles for para a cadeia.

Kiko Nogueira
No DCM
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Olho Vivo! Prisão de PMs no Rio mostra que câmeras podem ser a melhor arma contra a violência




A prisão de cinco policiais militares no Rio, após execução de um suspeito de 17 anos no Morro da providência, e de 5 também PMs em São Paulo, após outra execução, em pleno luz do dia, nas ruas do Butantã, ambas com a "plantação" de "velas" - armas apreendidas com numeração raspada — nas mãos das vítimas, para simular confronto, prova: contra a violência policial — e também a do tráfico — não existe remédio melhor do que câmeras de segurança escondidas.

Mais barata do que qualquer campanha ou mobilização, uma simples webcam de 30 reais, ligada a um computador, camuflada em uma casa de pombo ou em uma antena de televisão no telhado, ou um aparelho de celular ligado, nas mãos de um usuário hábil, em uma fresta de janela, pode fazer mais do que dezenas de testemunhas para esclarecer um crime.

As comunidades — e as organizações não governamentais e outras instituições de combate à violência, do Rio de Janeiro e de todo o país — deveriam se organizar coletivamente para coletar dinheiro e gastar o que fosse possível nesse tipo de aparelho, que acabariam servindo, ao longo do tempo, também para inibir a execução de novos crimes.

Só assim vai ser possível diminuir, a médio prazo, a impunidade e o genocídio derivado, entre outras coisas, da invasão ostensiva de áreas menos favorecidas das grandes cidades brasileiras, da cultura da aplicação sumária e ilegal da pena de morte contra suspeitos de crimes, e da guerra das drogas em nosso país — enquanto, neste último aspecto, a legislação não avança nesse sentido.
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Eduardo Cunha quebra o decoro — assista

Tucano faz Cunha quebrar o decoro


Em 12 de março de 2015 o Dep. Delegado Waldir (PSDB-GO) fez o Dep. Eduardo Cunha (PMDB-RJ) quebrar o decoro parlamentar. Assista:




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A discrição cúmplice dos jornalões com o “suiçalão” de Eduardo Cunha


Em qualquer país do mundo,  seria manchete a confirmação que o presidente da Câmara dos Deputados, terceiro na linha de sucessão presidencial de um governo que  está ameaçado de sofrer impedimento, e tanto da Presidenta quanto do seu vice, no caso da ação do TSE (é o que se noticia todos os dias, não é?) teve descobertas contas ilegais num banco suíço.

Não é “suspeita”, “denúncia”, “suposição” ou “dizem”. É informação oficial da Justiça da Suíça, com documentos, confirmada aqui pela Procuradoria Geral da República.

É uma “bomba”, no velho jargão jornalístico. Porque nem é preciso provar que o dinheiro é de corrupção, a simples evasão de divisas e a não declaração de patrimônio — obrigatória tanto como candidato quanto na posse do mandato — já é crime previsto no art. 13 da lei de improbidade administrativa, que vale também para os deputados:

§ 3º Será punido com a pena de demissão, a bem do serviço público, sem prejuízo de outras sanções cabíveis, o agente público que se recusar a prestar declaração dos bens, dentro do prazo determinado, ou que a prestar falsa.

Basta estar confirmada a existência da conta, de direito ou de fato, através de parente que não tenha razão econômica para tal para que se peça a condenação de Cunha e, antes disso, a cassação do seu mandato.

Nas edições de hoje da Folha e do Estadão, como assinalado na imagem, a notícia é uma “notinha” de primeira página.

Os destaques são para “suspeitas”, não para fatos; para o “supõe-se” e não para acontecimentos.

Claro, Cunha ainda pode ter serventia. Como escreveu um  daqueles inomináveis da Veja, citado hoje no ótimo artigo de Paulo Nogueira, no DCM, será que nossa imprensa “espera que Cunha derrube Dilma antes de ser preso.”?

O jornalismo brasileiro — salvo as ainda muitas exceções que, por isso mesmo, não o comandam — tornou-se o exercício do facciosismo político.

Um tipo destes, apanhado em flagrante, que se recusa até a negar que tenha as tais contas, esquecido (talvez nunca tenha sequer pensado nisso) de que é um homem público,, um servidor graduadíssimo da sociedade, o comandante do processo legislativo faz isso e dão-lhe “dez centímetros”, se tanto, das capas do jornais da “moralização” do país.

Que nome pode ter isso senão o de  cumplicidade?

Fernando Brito
No Tijolaço
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Presidente da Câmara não responde sobre contas na Suíça

Deputados protocolam requerimento de informação para que presidente da Câmara responda sobre contas na Suíça  
Ailton de Freitas



Um grupo de 15 parlamentares subscreveu, nesta quarta-feira, um requerimento de informação destinado ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para que responda, no prazo de 30 dias, se confirma ou não a existência de contas bancárias suas e de familiares que foram bloqueadas na Suíça. A medida foi tomada após o líder do PSOL, deputado Chico Alencar (RJ), fazer a pergunta na tribuna da Câmara e não obter a resposta de Cunha, que se manteve impassível na mesa diretora da Casa. Nenhum deputado também se manifestou.

O requerimento também pede informação sobre se os ativos foram efetivamente bloqueados e se esses recursos constam da declaração de Imposto de Renda.

O deputado Alessandro Molon (Rede-RJ) disse que o requerimento foi a forma encontrada pelos deputados para obrigar Cunha a assinar.

— Já que o presidente não responde quando perguntamos, resolvemos fazer o pedido de informação por escrito. Ele diz que o governo o persegue. Será que o Ministério Público também o está perseguindo? — questionou. — Ele usa a estrutura da Câmara para fins pessoais — acusou.

Chico Alencar utilizou seu tempo, na tribuna da Câmara, quando foi instado a encaminhar a votação de um projeto que tratava de prisão disciplinar para policiais militares. Valendo-se do assunto em pauta, Chico começou seu discurso de forma irônica, e depois interpelou Cunha de forma direta.

— Quero tratar de outro assunto disciplinar aqui, que pode gerar prisões também — afirmou, referindo-se às notícias divulgadas pela imprensa de que o Ministério Público da Suíça informou a Procuradoria Geral da República do Brasil que bloqueou contas em nome de Cunha e de familiares e, inclusive, enviou cópias das investigações realizadas naquele país.

Chico alertou seus pares de que era necessário que o presidente da Câmara se pronunciasse oficialmente sobre o assunto, uma vez que é o terceiro na linha sucessória na Presidência.

— Presidente, o senhor tem ou não tem contas secretas na Suíça? — perguntou Chico Alencar.

— Esta é uma pergunta de interesse público e não é invasão de privacidade — argumentou o parlamentar do PSOL.

— Seria muito importante que o presidente respondesse. É cristalino: "não tenho", como faz recorrentemente o deputado Paulo Maluf (PP-SP). Entendo que é para a transparência do Parlamento e a dignidade da política.

Enquanto Chico falava, Cunha olhava para o lado oposto. Muitos deputados prestaram atenção no discurso de Chico, mas ninguém se manifestou, nem a favor nem contra o presidente da Câmara.

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— Este não é um assunto nosso, de disputa política menor. É algo que diz respeito ao interesse público, que tem a ver com a construção da dignidade da política, da vida pública. Um silêncio ou um não estou nem ai é incompatível com a responsabilidade de nossos mandatos públicos. A pergunta está reiterada. Tem ou não tem conta na Suíça?

Mas Cunha não respondeu. E mandou seguir a votação:

— Como vota a Rede?
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Por que Eduardo Cunha não vai para a Suíça como Romário?

O casal não poderá mexer nas contas suíças
Por que Eduardo Cunha não faz como Romário e vai para a Suíça provar que não são suas as contas que lhe são atribuídas?

Bem, porque não dá. Simplesmente não dá.

Não que houvesse dúvidas, mas Cunha reforçou as certezas ao dizer, numa coletiva na noite de ontem, que se recusava a falar sobre elas.

Faltou colar um carimbo na testa: culpado.

As contas foram bloqueadas pelas autoridades suíças, e tudo indica que elas representam, enfim, o Waterloo de um homem que imaginou que podia tudo.

Como toda tragédia, o episódio se presta a piadas.

Por exemplo: por que Cunha não faz na Suíça o que tem feito costumeiramente no Brasil, manobrar nos bastidores para mudar uma decisão?

Ele fez isso, no Congresso, mais de uma vez. E agora, praticamente com a tornozeleira nos pés, trama para desfazer uma decisão conjunta do Planalto e do STF para por fim ao financiamento privado de campanhas.

A gambiarra seria uma PEC que, como por mágica, permitiria a continuação da fonte original de corrupção no país — o dinheiro que as empresas colocam em seus candidatos.

Eduardo Cunha simboliza isso. Sem esse dinheiro ele não seria nada.

O financiamento privado é a forma como a plutocracia toma a democracia.

O caso das contas na Suíça serve também para uma conclusão pouco engraçada.

É uma vergonha para a mídia, para Moro, para a PF e para Janot que o golpe fatal em Cunha tenha vindo dos suíços. Sinal do despudor da imprensa, um colunista da Veja escreveu que espera que Cunha derrube Dilma antes de ser preso.

Já virou clichê perguntar: e se fosse alguém do PT? Por isso, fujo dessa questão cuja resposta é óbvia.

Uma sociedade não pode levar a sério uma cruzada anticorrupção quando caminha livre um político do naipe e da ficha corrida de Eduardo Cunha.

Romário, com sua viagem à Suíça, criou um padrão de conduta para reagir a assassinatos de caráter como o que sofreu da Veja.

Mas isso é para inocentes, e não para Cunha.

Paulo Nogueira
No DCM
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No desespero, a “Reforma”. Os PMDBs parasitas e a sôfrega Oposição



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3º Seminário Unificado de Imprensa Sindical



















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O visionário Caldas Júnior

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=7666

O jornal Correio do Povo circulou pela primeira vez em 1º de outubro de 1895, com quatro páginas, em formato 39 por 56 centímetros, e uma tiragem de dois mil exemplares. Seriam seis edições por semana, de terça-feira a domingo. Júlio de Castilhos governava o Estado. Borges de Medeiros era o chefe de polícia. Caldas Júnior, o fundador, tinha 27 anos. Para a equipe, convidou o menino Mário Totta, de 21 anos, caixeiro na Livraria Americana, e o mulato Paulino Azurenha, especialista em artes gráficas. Caldas foi advertido pelos preconceituosos da época de que não era um bom ponto de partida ter um negro na empreitada. Não só ele ignorou tal infâmia, como deixou Paulino na direção do jornal quando viajava.

No editorial da primeira edição, Caldas avisou que o Correio do Povo seria “noticioso, literário e comercial”. Essa foi a sua revolução. Disse que o jornal se ocuparia “de todos os assuntos de interesse geral, obedecendo à feição característica dos jornais modernos e só subordinando os seus intuitos às aspirações do bem público e do dever inerente às funções da imprensa livre e independente”. Nada do partidarismo dominante. Caldas era sergipano, filho de um juiz de fortes convicções morais e políticas. O pai, desembargador Francisco Antônio Vieira Caldas, foi executado em Santa Catarina pelos esbirros de Floriano Peixoto durante a Revolução Federalista. O Correio do Povo, de resto, surgiu num tempo conturbado: seis anos depois da proclamação da República, sete anos após a abolição da escravatura e no próprio ano do fim da guerra civil entre chimangos e maragatos. Caldas mudou o jornalismo gaúcho.

Botou a notícia em primeiro lugar. Garantiu espaço para o contraditório. Usou o que se chamaria hoje de estratégias de marketing. Divulgou o lançamento do Correio do Povo nos veículos concorrentes. Mandou exemplares para a casa de leitores escolhidos, que podiam devolvê-lo se não tivessem interesse. Fez uma promoção de assinaturas. Quem assinasse por ano, escolhia um livro numa lista de dez best-sellers, entre os quais O Jogador de Dostoievski. Estruturou o jornal em cima de informação, serviço, opinião e entretenimento. Já saiu com o folhetim “Os Farrapos”, de Oliveira Belo, ligado a uma família imperial. Caldas, graças ao telégrafo, recorreu fartamente a material internacional sobre ciência, política, costume e cultura.

O humor foi um dos pontos fortes do jornal desde o primeiro dia. E textos publicitários ousados: “Não desanimeis, rapaziada sofredora! Não percais a esperança de curar-vos radicalmente das gonorreias recentes e crônicas em poucos dias”. Sem partido e sem causa única, o Correio do Povo chegou para ser os olhos e ouvidos da população. A administração municipal logo experimentaria as críticas do jornal. Em 1º de janeiro de 1899, Caldas publicou, numa linha de cinco colunas, a informação que o deixara eufórico: “O Correio do Povo é o jornal de maior tiragem e circulação do Rio Grande do Sul”. O visionário fundador morreu cedo, em 9 de abril de 1913, aos 45 anos de idade. O todo já estava na parte. O ciclo continua. Todo dia.

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Caretice

Sou tão careta que ainda uso o termo “careta”. Nos últimos 50 anos, minha caretice se manifestou principalmente numa absoluta indiferença pelo rock. Não deveria ser assim, porque vi e ouvi o “rock” nascer. Estava nos Estados Unidos quando as primeiras músicas do “rhythm and blues”, até então feitas por negros exclusivamente para negros, começaram a ser produzidas por brancos para brancos, com o nome de “rock’n’roll”. Apareceram as primeiras bandas brancas da nova música, como a de Bill Haley e seus Cometas, e não estava longe o surgimento de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e outros. Aconteceu com o “rhythm and blues” uma usurpação parecida com a que acontecera com o jazz. Nos anos 20 e 30, já havia grandes músicos de jazz como Louis Armstrong, tocando para negros e brancos, mas o título de “Rei do Jazz” foi dado a Paul Whiteman, branco como seu nome, que liderava uma banda branca como ele. Na Inglaterra outro estilo antigo, chamado “skiffle”, americano de nascença, mas adotado pelos ingleses, incorporou o “rock” e deu origem aos Beatles. Que eu acompanhei até a dissolução do grupo, quando, por alguma razão, decidi que meu interesse pelo rock também se dissolvia. Claro que meu gosto pelo jazz, pela música popular brasileira e pela música erudita influenciou a rejeição. E pelo entusiasmo do público em eventos como esse Rock in Rio, imagino o que perdi desprezando o rock nesses anos todos. Mas o que fazer? Caretice não se explica.

A grande novidade prometida pela Nasa era, afinal, a presença de água líquida salobra em Marte. O que não deixou de ser um anticlímax. Não sei o que eu esperava, mas as especulações sobre o que teria sido encontrado se multiplicavam. As sondas mandadas ao planeta vermelho teriam fotografado seres vivos rondando-as, chutando seus pneus e entortando suas antenas. Teriam sido descobertos vestígios de uma antiga civilização que ocupara o planeta num passado remoto, inclusive as ruínas de um McDonald’s carcomidas pelo vento solar. Etc. Mas não: a novidade, nada espetacular, era a água. O que deve nos animar na presença de água em Marte é a possibilidade de colonizá-lo, mandando para lá famílias inteiras, como as que colonizaram o Novo Mundo num passado não tão remoto. Uma viagem para Marte levaria nove meses, seria uma aventura inédita na experiência humana. Mas aí você começa a imaginar as agruras da viagem. Nove meses, as famílias apertadas numa cápsula espacial, e as crianças perguntando a toda hora:

— Nós já chegamos?

Não me animei.

Luís Fernando Veríssimo
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João Pedro Stédile - palestra em Fortaleza


João Pedro Stédile participa do Debate "Reforma política e combate à corrupção", promovido por várias entidades sociais, que aconteceu na Casa Amarela - UFC, avenida da Universidade - Fortaleza/CE

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A lição de jornalismo do entrevistador da BBC que enquadrou FHC

Neoliberal constrangido
As escolas de jornalismo deviam passar a a seus alunos, como aula, a entrevista que a BBC fez com FHC em 2007.

“Entrevista? É assim que se faz”, este seria o introito.

Não existe nada remotamente parecido no jornalismo brasileiro mainstream com aquela entrevista. (Você pode vê-la completa abaixo, com legendas.)

Primeiro, o autor, Stephen Sackur, está preparado. Ele sabe do que está falando, e bem.

Depois, ele é altivo sem ser, jamais, desrespeitoso.

O entrevistador está claramente preocupado em fazer um bom trabalho e, assim, servir o público.

O nome que se dá a isso é jornalismo.

Repare a dificuldade que FHC, sempre blindado e mimado pelos entrevistadores brasileiros, enfrenta na entrevista.

Ele parece uma criança, tamanha a insegurança.

É o preço que amigos da mídia como ele pagam: não estão preparados para desafios.

FHC não conseguiu enganar o entrevistador com seu blablablá sobre corrupção.

Teve que ser confrontado com o fato de que indicou para o cargo de procurador geral da República, ao longo de todo o seu mandato, um aliado que passou para a história com o apelido de engavetador-geral.

FHC tentou engabelar Sackur.

Disse que o engavetador tinha completa autonomia para mandar investigar denúncias de corrupção no seio do governo.

Prontamente ouviu: “Mas foi o senhor que nomeou.”

FHC procura continuar em sua desculpa esfarrapada, mas não consegue.

Jornalismo é assim.

Tivesse a imprensa brasileira se comportado profissionalmente com FHC ele não se atreveria, agora, a posar de virgem num lupanar ao falar de corrupção, e isso seria muito bom para o real enfrentamento da roubalheira.

Quando o cinismo se mistura ao moralismo na abordagem da corrupção, como é o caso de FHC, é uma tragédia para a sociedade.

Lateralmente, chama a atenção que FHC em nenhum momento da entrevista tenha pronunciado a palavra desigualdade, como se não fosse este o maior mal do país.

Ele está claramente desconfortável em ser chamado de neoliberal mais de uma vez.

Gostaria de passar para a história como um presidente de esquerda, para atender a suas vaidades de intelectual.

Faltou apenas uma coisa para isso: que agisse como um presidente de esquerda.

Repito.

Esta entrevista deveria ser estudada nas escolas de jornalismo brasileiras.

Talvez os alunos mais inquisitivos digam: “Mas a gente não vai poder fazer este tipo de coisa com amigos dos patrões.”

E é verdade.

Mas pelo menos todos saberão o que é jornalismo e, adicionalmente, quem é FHC.

Paulo Nogueira
No DCM

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Pequena Carta à "Dilma Bolada" ou Jeferson Monteiro

Quando o humor perde a graça e cai na falta dela: a des/graça.

Pequeno Jeferson, não precisa se dar tanto valor. Nenhum de nós temos este valor todo que você se atribui. Se a gente quer romper com a Presidenta não precisa tornar isto público. Publicar o rompimento e fazer disto matéria de mídia é apenas ego, puta vaidade de ego. Você, eu, somos nada, ou muito pouco. Não temos este valor que você pensa ter. Daqui há meses ninguém sequer vai se lembrar de você, e ela continuará Presidenta.  Dar uma de menino emburrado ou magoado é bobice, amadorismo, primarismo político, a menos que esteja querendo pedir perdão à Direita com este gesto público.

Seu comportamento é vaidoso, pequeno burguês e bobo. Demonstra como político e como humorista um amadorismo exemplar. Está magoado com a “amiga”? Tenha dignidade: saia de baixo. Saia de cena sem piar. Afaste-se. Se não mais a apoia, cale-se, porque se a condena está fazendo o jogo dos seus inimigos mais fortes: a Direita. Não se esqueça que ainda ontem comias da mão dela. A ingratidão fica registrada.

Querendo seu ego de reizinho ou não, ela ainda é a Presidenta democraticamente eleita pelo povo, e você de bastidores da política é leigo, como eu, apenas um cometa que riscou o céu no momento que a estrela brilhava. Você e eu.

Também não curto a Dilma desde o primeira dia do primeiro mandato dela quando ela foi almoçar com a Folha e deu uma banana para nós internautas. Da ingratidão dela também não me esqueço, mas a política e o Brasil são maiores. E ela ainda é o que há de melhor neste momento.

Agora que você enterrou a meteórica “Dilma Bolada” você está livre pra outro papel, quem sabe até de Marina Embolada, ou Marta Enrolada, mas poupe a mão que lhe afagou.

Saia em silêncio. Neste momento você só tem importância para você mesmo, e para que eu me compadeça. (Compaixão: participação espiritual na infelicidade alheia que suscita um impulso altruísta de ternura para com o sofredor).

Um velho amigo me dizia que às vezes a gente tem um ato de um minuto de heroísmo e depois a vida inteira pra se arrepender.

Um abraço do veterano humorista, criador, cidadão, e militante que repete aqui o verso de Thiago de Mello: “Faz escuro mas eu canto...”

Bemvindo Sequeira



Acabou o contrato, acabou o amor.
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Alguma atitude

"Acabou-se o comércio de ministérios. Todos serão ocupados por especialistas da respectiva área. As exigências de certos núcleos partidários ultrapassaram os limites da política. A convivência harmoniosa entre entre os Poderes, determinada pela Constituição, foi rompida pela tentativa daqueles núcleos de ocupar o governo, de dominar o Executivo. Se quiserem me derrubar por esta decisão, podem fazê-lo. Mas fique o país ciente de que o governo só voltará a ter políticos no ministério quando as relações voltarem a ser normais. Sem tentativas de imposição, em plenas condições de respeito mútuo e de lealdade à democracia e ao bem do país e seu povo."

Uma atitude de dignidade. Política e pessoal. No Brasil, gestos de dignidade não são considerados inteligentes. Na melhor hipótese, são vistos como temperamentais. Mas atitudes de dignidade não precisam ser inteligentes, basta-lhes a dignidade. E, se temperamentais, não têm por isso menos dignidade.

Em seguida, uma crise aguda com o Congresso. Rápida, como a labareda de uma bomba que logo se extingue. Congressos só enfrentam o clamor externo em raridades históricas. Clamor, no caso, de adesão a uma atitude coincidente com o repúdio, unânime no país, aos métodos predominantes na política.

Até onde Dilma Rousseff continuará cedendo, sujeitando-se aos que, quanto mais entregue se mostra, mais entrega exigem dela? E recebem.

"Negociações" por apoio no Congresso em troca de ministérios já eram espúrias. Nem "negociações" são mais. O que resultou das tais "negociações" foi, primeiro, um governo apenas em parte, a parte não originada desse tráfico. Depois, um arremedo de governo, com seu plano econômico primário sob bullying dos aliados hipócritas e dos oposicionistas, na Câmara. Pressente-se o que será agora. Nem é preciso ver as fichas de toda a nova leva dos arrivistas ou sondar-lhes as intenções ministeriais: são conhecidas por antecipação, desde que se sabe como e por que chegam às altitudes do governo.

É necessário que Dilma Rousseff cumpra o seu mandato integral, porque a interrupção, qualquer que seja a sua forma, transformará a crise em explosão irradiada. É o que asseguram as condições sociais e econômicas deste país em que não se vê, nem ao menos se vislumbra, sequer um grupo com capacidade e sob liderança à altura dos problemas atuais, quanto mais de uma tormenta.

Mas ser presidente só para se pensar presidente? Dilma está se deixando levar, e vai também por passos próprios, para muito perto de humilhações. A continuar a situação no caminho em que está, é bem mais provável que Dilma Rousseff chegue a esse território do que à recuperação do governo e do país ainda no seu mandato, como diz crer.

Por seu passado e pelo que se supunha ser a sua personalidade, de Dilma Rousseff se esperava mais coragem, a coragem do rigor, do que seus antecessores recentes demonstraram. Não é só falta de traquejo e criatividade política que tem faltado. O jogo está desaforado demais para ser recebido com tanta passividade, em nome de imaginada compreensão e responsabilidade que o negocismo político não tem e não quer ter, porque incompatível com seus propósitos.

A dignidade pessoal de Dilma Rousseff não foi posta em questão, no seu descenso político. Já passou da hora de afirmá-la de algum modo, seja qual for.

Janio de Freitas
No fAlha
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Beto Richa vira réu pelo massacre dos professores


O governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), e outras cinco pessoas viraram réus numa ação civil pública por improbidade administrativa, em razão da operação policial que deixou quase 200 feridos numa manifestação contra o governo estadual, em abril.

Para o Ministério Público, Richa deu "respaldo político, institucional e administrativo" à operação e se omitiu ao não prevenir ou impedir que os manifestantes, a maioria professores em greve, saíssem feridos.

Com o recebimento da ação pela Justiça, Richa e os demais citados passam a ser réus.

Na ocasião, bombas de gás e balas de borracha foram disparadas por duas horas ininterruptas contra os manifestantes, que protestavam contra uma mudança na previdência dos servidores públicos. Cerca de 1.600 policiais estavam no local.

O confronto começou após uma tentativa de avanço sobre o bloqueio policial, que protegia a Assembleia Legislativa do Paraná. A medida foi aprovada pelos deputados naquele mesmo dia.

O Ministério Público sustenta que o governador e os outros acusados contrariaram o direito fundamental de livre manifestação e de reunião, violando, assim, princípios da administração pública –por isso a ação de improbidade.

Na última sexta (25), três meses depois de a ação ser proposta, a juíza Patrícia Gomes Bergonse, da 5ª Vara da Fazenda Pública de Curitiba, enfim recebeu a ação. O processo foi redistribuído nesse período: o juiz anterior, da 3ª Vara da Fazenda Pública, se declarou incompetente para analisar o caso, uma vez que outra ação civil pública sobre a ação policial já corria na 5ª Vara.

Além de Richa, são réus o ex-secretário de Segurança Fernando Francischini (SD-PR), deputado federal, e o ex-comandante-geral da PM Cesar Vinicius Kogut. Ambos saíram dos cargos após o ocorrido.

Também integram a ação outros três comandantes da PM: coronel Nerino Mariano de Brito (subcomandante da PM), coronel Arildo Luiz Dias (chefe da operação) e o tenente-coronel Hudson Teixeira (comandante do Bope).

Richa, que já pediu desculpas pelo ocorrido e afirma que o confronto começou por causa de manifestantes "radicais", disse que irá se defender na Justiça.

"Ninguém em sã consciência queria o confronto. Só lamento que ninguém até hoje tenha abordado de forma responsável a defesa do Estado democrático de Direito, de se garantir o funcionamento de uma instituição como a Assembleia", afirmou o governador à imprensa, nesta quarta-feira (30).

O tucano voltou a defender que houve uma "provocação de radicais infiltrados" entre os manifestantes e disse que a ação policial pretendia proteger a Assembleia, que já havia sido invadida por professores no início do ano.

O Ministério Público, que diz que a operação foi "desproporcional", sustenta que não foi identificada a ação de black blocs, como afirmou o governo num primeiro momento, ou de outros grupos radicais entre os manifestantes.

Em nota, a PM informou que aguarda as conclusões do inquérito policial militar sobre o caso, conduzido dentro da corporação, para se manifestar.
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