6 de set de 2015

Saiba pra onde vai o imposto descontado da nota da sua compra no supermercado

Ninguém gosta de impostos. Mas eles são necessários. É com eles que União, Estados e Municípios contam pra poder oferecer serviços públicos de qualidade.

De uns tempos para cá, sempre que se fala em impostos, toda a mídia e parte do povo que ouve esta mídia, quando fala em impostos, fala só do governo federal, como se Estados e Municípios não arrecadassem impostos. Muitos municípios aliás, pra fazer média com seus munícipes, deixam de cobrar ou cobram muito pouco Imposto Municipal, do IPTU por exemplo. Aí este mesmo município recebe uma fatia dos impostos Federais e Estaduais, justamente para prestar serviços públicos de qualidade ao cidadão.

Este artigo não visa aprofundar e nem avaliar o tema da aplicação dos impostos. Mas com a foto, procura mostrar que ao contrário do que pensa o Senso Comum, não é o Governo Federal que arrecada a maioria dos impostos “indiretos” que afetam diretamente o bolso do cidadão. Em uma nota fiscal como a da foto que ilustra este artigo, a maior parte do tributo vai para o… Governo do Estado (O ICMS por exemplo, que no caso do consumo é o maior imposto, é determinado e cobrado pelo Estado). E é assim em todos os Estados.

Mas nem Estados e nem Municípios oferecem tudo o que deveriam oferecer em termos de serviços, por isto a União repassa boa parte do que arrecada para Estados e principalmente Municípios atenderem os cidadãos com Educação, Saúde, etc…

Então, quando o Governo Federal fala em restabelecer um Imposto como a CPMF, destinado a Saúde, e que diferentemente do Imposto de Renda, é Progressivo, ou seja, quem ganha mais paga mais, podes até criticar, mas antes de criticar, pensa.

Aliás, outro Tributo que esta tramitando no Congresso Nacional é o Imposto Sobre Grandes Fortunas. A instituição de Impostos como estes, onde quem ganha mais paga mais, pode ajudar o Governo a reduzir impostos como estes aí da nota fiscal, que pesam muito mais para os pobres e para a Classe Média. Por isto mesmo, a unificação dos ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) em todo o Brasil, também é uma proposta que tramita no Congresso Nacional. Hoje, cada Estado determina o valor do ICMS, o que provoca a chamada “guerra fiscal’, na qual empresas trocam de Estado de acordo com a a oferta de menos impostos, que no entanto nunca são repassados ao consumidor. As vezes o melhor não é ser simplesmente contra  alguma coisa, como temos visto muita gente ser, mas ser a favor de algo que alguém proponha para melhorar o Brasil.

Sobre a Nota Fiscal da Foto: A Lei 12.741/2012 determina que a apuração do valor dos impostos deverá ser feita em 3 campos (um por ente, ou seja, Federal, Estadual e Municipal) com a soma das cargas tributárias aproximadas que incidem sobre cada mercadoria ou serviço, separadamente, inclusive nas hipóteses de regimes jurídicos tributários diferenciados dos respectivos fabricantes, varejistas e prestadores de serviços, quando couber.

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A hashtag que assombra a Globo

A nova novela sendo gravada:  cadê o público?
Na noite de quinta subiu uma hashtag no Twitter: #Globo19,8.

Para os internautas, foi uma diversão. Para a Globo, um pesadelo.

19,8 era o Ibope da nova novela da Globo, A Regra do Jogo. O número virou mania no Twitter porque a novela Os Dez Mandamentos, da Record, estava na frente.

O problema da Globo não é Os Dez Mandamentos. É ela mesma, e isso torna tudo mais difícil.

Num clássico triunfo da esperança, a Globo imaginou que o fracasso de audiência de Babilônia fosse um caso isolado. O público puritano de cara não suportou o beijo de língua de duas anciãs e ponto.

Não, não e ainda não.

Babilônia marcou o fim da Era das Novelas. Hoje, é difícil acreditar que houve um tempo em que final de novela da Globo dava 100% de audiência.

Mas, como tudo, as novelas chegaram, floresceram e murcharam.

O desempenho miserável delas reflete a deterioração da tevê como mídia.

A tevê parece um dinossauro na Era Digital.

Anos atrás, novela era pop no Brasil. Era tema de discussão nas rodas de bar e nos cafés das empresas.

Hoje, são nada.

Ninguém comenta, ninguém se importa e, pior, ninguém vê.

Nesta semana, por exemplo, o assunto é Narcos, a nova série da Netflix que conta a história de Pablo Escobar.

A discussão é sobre a qualidade do espanhol de Wagner Moura e coisas do gênero.

Quem quer saber de A Regra do Jogo?

As pesquisas mostram um envelhecimento brutal do público da tevê. Os jovens estão na internet.

O fim da Era das Novelas é, a rigor, o fim da Era da Televisão.

O público já debandou. Falta agora os anunciantes debandarem, o que é inevitável.

Isso só não aconteceu ainda porque a Globo tem uma espécie de propina para as agências, o BV (Bônus por Volume). Quanto mais uma agência coloca anúncio na Globo, mais ganha em BV.

Quase todas as agências dependem do BV da Globo para não quebrarem.

Mas o anunciante, que afinal paga a conta, uma hora vai perceber que está colocando uma fortuna numa mídia de almas mortas, para usar o título do grande romance de Gogol. (Nele, fazendas aparentemente enormes eram povoadas, na verdade, de almas mortas, pessoas que só existiam no papel.)

Em algum momento no futuro próximo, ocorrerá com a Globo o que ocorreu com a Abril. Consolidou-se entre os anunciantes a convicção de que anunciar em revista é uma obsolescência porque ninguém mais as lê. O mesmo se dará com a tevê.

A Globo é a Abril amanhã.

Penso comigo que, se há alguém na Globo feliz com a baixa pontuação da nova novela, é Gilberto Braga, o autor de Babilônia.

Ele se martirizou com o Ibope de sua novela, e presumo que as reuniões com os burocratas da Globo para mudar o enredo tenham sido matadoras.

Mas Aguinaldo Silva era o menos culpado.

Babilônia lutou para ter 30 pontos, um horror quando se mede os índices passados da Globo.

A Regra do Jogo talvez lute para ter 20 pontos, como sugere a hashtag #Globo19,8.

Nada é tão forte quanto uma ideia cujo tempo chegou, sabe-se.

E nada é tão fraco quanto um produto cujo tempo passou, como as novelas.

Paulo Nogueira
No DCM
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Empresas perdem sentido e os jornalistas, seus empregos

Antes de tudo, minha solidariedade às centenas de profissionais demitidos pelas empresas convencionais de comunicação. E, se isso ajudar de alguma forma, saibam que suas demissões pouco têm a ver com as razões apresentadas pelo patronato. Nada de queda de faturamento, concorrência com a internet, diminuição do número de anunciantes e leitores etc etc A verdade é outra e discutir alguns de seus aspectos mais amplos ajuda a entender o cenário em que nos encontramos.

A mais importante razão para o fechamento em massa de postos de trabalho é o posicionamento político radical da indústria de comunicação. A maior parte do que se noticia ou se deixa de noticiar nestes meios, em especial em matéria de política e de economia, está sujeita a este posicionamento, e não a tradicionais critérios jornalísticos.

Em grande medida, a informação publicada é um ato de fé e de interesse corporativo, que se enquadra em um sistema de ideias. Quem lê ou ouve uma notícia tem de se esforçar para separar o fato objetivo de sua interpretação ideológica.

Sempre foi assim na América Latina. Na ausência de instituições político-partidárias capazes de tecer uma narrativa lógica de sua forma conservadora e reacionária de ver o mundo, entram em ação os conglomerados de mídia para ocupar esse espaço.

Antes, reuniam-se na Sociedade Interamericana de Imprensa para jogar a sua parte na Guerra Fria. Agora, organizam-se no Grupo de Diários Américas para combater os mandatários que sucederam os governos eleitos na onda neoliberal dos anos 1990. Seus alvos preferidos são os governos de Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai (este deposto por uma articulação em que as empresas de comunicação tiveram papel destacado), Peru, Venezuela e Uruguai.

Não é de se estranhar, assim, o que revelam pesquisas de confiança do leitorado. Elas apontam que boa parte do que é publicado vêm rapidamente deixando de fazer sentido para seus leitores, enfastiados de uma cobertura que se caracteriza por uma visão pré-concebida da realidade, recheada de preferências particulares e, muitas vezes, pouco vinculada à realidade factual.

Outras fontes de informação passam, então, a produzir sentido – como os inúmeros informativos gratuitos distribuídos pela internet, celulares etc. Ainda que eventualmente parciais, muitos deles assumem que posição defendem. Ao contrário da mídia convencional, não se arrogam o status de oráculo da verdade, de bastiões da informação crível e de guardião das instituições democráticas.

Blogs, sites e que tais têm seu valor justamente por serem apenas o que são, como atestam seu crescente impacto informativo. Por que então optar pela velha mídia convencional ideologizada?

É emblemático — inclusive por razões históricas — que o mais recente passaralho de grandes proporções ocorra n´O Globo. Ele é uma espécie de núcleo duro ideológico da holding Globo, a maior de sua área no Brasil, que por sua vez inspira politicamente os demais grupos do setor. Mais cedo ou mais tarde, as principais posições políticas do grupo Globo acabam mimetizadas pelas demais empresas.

É a segunda vez em 2015 (a primeira ocorreu em janeiro) que O Globo varre de seus quadros, numa onda só, dezenas de profissionais de imprensa — outras empresas do grupo fizeram o mesmo, mas dissimuladamente. Somando os dois tisunamis, foram quase 80 profissionais da redação mandados embora.

Os concorrentes miméticos d´O Globo seguem caminho semelhante, às vezes por razões distintas. No Rio de Janeiro, foi o caso do recentemente falecido Brasil Econômico, de O Dia e do provedor de acesso à internet IG, pertencentes à Portugal Telecom (PT). A PT investiu em mídia no Brasil buscando influência política para operar a telefônica Oi, em que detém cerca de 30% do capital votante. Sabe-se lá o porquê, a posse dos veículos de comunicação perdeu sentido para a PT, que não hesitou em fechar o BE e deixar o tradicionalíssimo O Dia em estado de alerta.

Em um ano, perto de dois mil postos de trabalho de jornalistas foram fechados no Brasil.

Pelo seu peso específico, o grupo Globo — pertencente à família mais rica do Brasil, segundo a Forbes — é o ator emblemático nesse movimento de perda de sentido das empresas de comunicação e dois momentos são particularmente especiais para exemplificar a repulsa à cobertura de O Globo e a consequente e imediata queda de sua audiência.

O primeiro é a capa do jornal em 17 de outubro de 2013, um dia após a PM ter desocupado a escadaria da Câmara dos Vereadores do Rio, onde centenas de manifestantes se reuniam pacificamente havia semanas. O Globo criminalizou preventivamente e violentamente os manifestantes. Desconsiderou que, culpados ou não, eles ainda precisariam ser julgados pela Justiça.

As consequências foram imediatas. Primeiro, repórteres que vão às ruas cobrir a realidade que a direção do jornal despreza queixaram-se do tratamento editorial das prisões. As caixas de email da redação foram entupidas de mensagens reclamando do tratamento dispensado aos manifestantes (todos foram soltos por falta de provas). E, nos dias seguintes, multiplicou-se por quase 20 o número médio de pedidos de cancelamento de assinaturas.

O jornal não reorientou sua cobertura e simplesmente optou por bloquear os sistemas de recebimento de e-mails e de pedidos de cancelamento.

O segundo momento se deu no início de agosto de 2015.

Um dos herdeiros do grupo Globo, João Roberto Marinho, tomou a iniciativa de procurar a Dilma e a bancada do PT no Senado para informar-lhes que o grupo desembarcara da tese do impeachment — contrariando a verdadeira cruzada pelo impedimento da governante em que seus veículos, a tevê à frente, estavam empenhados desde a posse até aquele momento.

Com efeito, viu-se um abrandamento na ferocidade das críticas a Dilma e ela recebeu generosos minutos no Jornal Nacional para que, pela primeira vez, pudesse se defender dos ataques que recebia.

As áreas de inteligência do governo federal circularam a informação de que essa mudança de posição se deve ao fato de a Globo ter sido escolhida pelos maiores grupos econômicos instalados no Brasil como porta-voz de uma posição de manutenção da ordem democrática. Eles possuem interesses valiosíssimos no País e o impedimento de Dilma poderia afetá-los, em um momento de turbulências internacionais.

Se esta versão se verifica ou não, é outra estória. O fato, objetivo, é que aconteceram as reuniões em Brasília e Dilma ganhou uma valiosa trégua capitaneada pelo mais importante grupo de mídia do País.

Assim, do dia para a noite, aquela que era achincalhada pelo noticiário do grupo Globo transformou-se naquilo que nunca deveria deixar de ter sido: apenas mais uma governante, cuja administração precisa ser escrutinada permanentemente por jornalistas, e não o Judas midiático a quem se imputam de chofre todos os crimes.

Com variações de escala, método e impacto político, situações desse tipo já ocorreram em muitas outras redações País afora. As maiores invariavelmente combinam cobertura conservadora com a publicação de colunistas reacionários e agressivos. Aliás… Quantos colunistas progressistas publicam na imprensa diária?

A sociedade é plural e tem direito a uma comunicação idem. Se não a encontra nas fontes convencionais, procura essa pluralidade em outras fontes.

A segunda grande razão central para o cíclico (e crescente) descarte em massa de postos de trabalho para jornalistas é a opção de os veículos de comunicação agigantarem seus departamentos de entretenimento e transformarem seus veículos noticiosos em meros cadernos divulgadores da sua própria indústria do lazer.

Entretenimento e relações públicas se disfarçam de jornalismo, usando-lhe as técnicas e a credibilidade individual de vários profissionais de imprensa. Vários deles e delas abandonam a redação e passam a estrelar de reality shows a programas de amenidades. Deixam se ser ótimos repórteres e se transformaram em apresentadores enfadonhos e arrogantes.

Jornalistas que insistem em desvelar as relações de poder passam a ser peças indesejáveis e altamente descartáveis. A extinção de postos de trabalho integram-se à lógica desse setor de informação-entretenimento (infotainment, como  um teórico estadunindense já chamou).

O próprio jornalismo passa a ser indesejado e inviável, se for entendido como uma forma de investigação e de vigilância sobre as relações entre o Estado e as corporações. Dessa maneira, por exemplo, fica impossível o grupo Globo cobrir as fraudes na CBF. Há décadas, ambos são sócios nas transmissões de futebol.

Entretanto, por mais sombrios que sejam, esses não são os únicos futuros possíveis para a nossa profissão. Quem a entende como uma forma de intervir na realidade tem vários e promissores exemplos alternativos, mesmo entre as empresas de comunicação que operam rigorosamente dentro dos limites do mercado de notícias.

Há experiências de organizações de jornalistas independentes — como a  Agência Pública no Brasil e o International Consortiun for Investigative Journalism nos EUA. Mas, o exemplo ótimo de empresa jornalística lucrativa e crítica — que vem rapidamente se recuperando de prejuízos em anos passados e batendo recordes internacionais de audiência — é o inglês The Guardian.

Não à toa, foi ao Guardian que Edward Snowden denunciou o sistema mundial de espionagem montada pela NSA estadunidense. O Guardian é uma prova concreta de que o jornalismo é viável sob qualquer ponto de vista.

A hora da demissão dói tanto que parece que nunca irá acabar. Quanto mais laços profissionais e de amizade pessoal se criam nos locais de trabalho, mais dramático e longo é esse momento triste. Para que ele sirva de lição, precisa ser compreendido como de fato é: não um ponto final. Mas, um ponto de partida para recriar o sentido do jornalismo e de jornalistas.

Carlos Tautz é jornalista
No OI
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A visão seletiva da Lava Jato sobre o "estorvo do processo"


Em direito existe o que se chama de "estorvo do processo". Todo cidadão está sujeito a ser processado, do mais humilde ao presidente da República.

Mas existe também o conceito da repercussão política do processo, princípio que rege muitas decisões judiciais.

Por exemplo, por mais justo que seja determinado pleito, nenhum Ministro do STF vai votar a favor de uma ação que implique na quebra do país.

O mesmo princípio vale para processos com repercussão política. Um juiz deverá tomar duas vezes mais cuidado para expor o presidente da República ao "estorvo do processo". Não significa que deva poupá-lo, mas que tomará cuidado redobrado antes de expô-lo e com a própria exposição em si. Porque expor a presidência da República significa expor o país.

O Procurador Geral da República tomou a decisão de expor ao "estorvo do processo" campanhas de Lula e Dilma. Dilma é a presidente da República.

Lula é um ativo nacional, o político que representa a esperança de milhões de brasileiros e — queiram ou não os opositores — o brasileiro que melhor representa a face legítima do país perante o mundo. Ele está para o Brasil como Mandela para a África do Sul, Ghandi para a Índia, Luther King para os Estados Unidos.

Já Aécio Neves é um senador, candidato derrotado a presidente da República. Geraldo Alckmin é o governador de um estado importante, assim como José Serra,  um ex-governador, os três sem um centésimo da representatividade de uma presidente da República ou de uma personalidade internacional como Lula.

Todas as empreiteiras citadas na Lava Jato colaboraram com a campanha de Aécio, seja por dívidas passadas, seja por promessas futuras. A não ser que se acredite que empreiteiro pague dízimo para ir para o céu.

Contra Aécio pesa uma delação premiada com todas as peças de esquemas de financiamento eleitoral ou de enriquecimento pessoal: os valores recebidos (US$ 150 mil mensais), a ponta pagadora (Furnas), a empresa que lavava o dinheiro (a Bauruense) e a destinatária (a irmã de Aécio).

Mesmo assim, Janot não julgou adequado expor Aécio ao "estorvo do processo".

As empreiteiras implicadas na Lava Jato têm obras em Minas Gerais e São Paulo. Algumas delas têm mais obras com os respectivos governos estaduais do que com a própria Petrobras. No caso paulista, há em curso uma denúncia de suborno do cartel dos trens abafada pela cúpula do Ministério Público Estadual.

No entanto, Janot teve cuidado para não submeter ao "estorvo do processo" os ex-governadores Aécio Neves, José Serra e o governador Geraldo Alckmin.

No caso mineiro, Janot aceitou a denúncia contra o mais insuspeito dos políticos: o ex-governador Antonio Anastasia. Aparentou uma neutralidade discutível, porque quem conhece Minas, Aécio e Anastasia sabe onde o calo pega — e não é em Anastasia.

Que a lava Jato faça o PT purgar seus erros, sim. Arreglos políticos que permitiram descontroles de tal ordem, a ponto de um mero gerente acumular mais de US$ 100 milhões em dinheiro desviado, merece toda punição do mundo. E se o partido não tem a mínima capacidade de se defender de manobras políticas, problema dele.

Quando investe contra o instituto da presidência e contra o brasileiro mais reputado do planeta e, ao mesmo tempo, poupa todos os próceres do PSDB do "estorvo do processo", Janot patina.

Não adianta alegar que o inquérito será isento, dando todas as oportunidades para as partes se defenderem. O efeito político é imediato. O "estorvo do processo" é combustível para campanhas de impeachment, para desestabilizações políticas mesmo que, ao final, absolva o investigado. Ao poupar Aécio, a Lava Jato abre espaço para que a oposição amplie a campanha do impeachment, com Aécio posando de grande cruzado da ética.

A opinião pública que conta — aquela realmente bem informada — sabe que o rei está nu. O que se pretende com essa blindagem?

Não adianta os bravos Intocáveis da Lava Jato sustentarem que seu foco são apenas os malfeitos na Petrobras. Não faz lógica que, tendo à mão a possibilidade de interrogar os maiores financiadores de campanha do país, aceitem ouvir apenas as denúncias contra um lado. Se podem passar o país inteiro à limpo, porque não aproveitam a possibilidade? De posse da denúncia, que se abram novos inquéritos para outros procuradores tocarem, permitindo à Lava Jato manter o foco.

Luís Nassif
No GGN
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Quarta e quinta

Bonita cena, no final de Internacional 6, Vasco da Gama 0 (perdão Aldir), na última quarta-feira, em Porto Alegre. O goleiro do Vasco, Jordi, saía de campo cabisbaixo, com a cara indisfarçável de quem levou seis gols numa noite, e o goleiro Muriel, do Inter, foi abraçá-lo. Os dois deixaram o gramado lado a lado, com Muriel falando sempre, certamente tentando consolar o outro e diminuir sua mágoa. Pode-se até adivinhar o que Muriel dizia: “Futebol é assim mesmo, goleada é acidente, amanhã é outro dia, levanta a cabeça...” Mas, por trás das platitudes, havia um admirável gesto de solidariedade. Muriel era o goleiro titular do Inter, seu reserva era seu irmão Alisson. Este acabou sendo promovido a titular. E Muriel aceitou ser substituído pelo irmão, sem ressentimento ou aparente trauma na família. Alisson foi convocado pelo Dunga para a seleção, Muriel ficou no seu lugar. Na quarta-feira não levou gol, mas sua melhor intervenção da noite foi o abraço humanitário no Jordi. (Informação tipo nada a ver: o terceiro goleiro do Inter, depois dos dois irmãos, é o interminável Dida).

Na quinta-feira, depois do jogo, os jornais publicaram aquelas terríveis fotos do menino sírio afogado numa praia da Turquia, vítima do naufrágio do barco em que viajava com uma família de imigrantes clandestinos tentando chegar à Europa, parte da leva de desesperados que invadem o território e a consciência do Primeiro Mundo. Não há nada que ligue a bonita cena da quarta-feira com as fotos divulgadas na quinta, seria até uma leviandade comparar um episódio como o do bom caráter do Muriel, que nos enche de admiração, além de orgulho colorado, com as imagens do menino morto, que nos despedaçam o coração. Ou talvez a ligação seja essa: num mundo em que as pessoas morrem em naufrágios ou sufocadas dentro de caminhões aos milhares tentando fugir da miséria, da guerra e da desesperança, numa espécie de genocídio crônico, deve-se procurar provas de solidariedade humana onde for possível, até em pequenos gestos para um pequeno público, como o do Muriel na quarta-feira. Para não sucumbirmos, nós também, à desesperança.

A desigualdade que divide nações internamente também divide o mundo. Os refugiados que arriscam a vida para mudá-la querem fugir da fatalidade geográfica que os condenou a nascer no lado errado das fronteiras, por isso lutam para rompê-las. Mesmo tendo que deixar no caminho despojos de guerra, como um menino morto na praia.

Luís Fernando Veríssimo
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Movimentos sociais formalizam união em defesa da democracia e contra retrocessos


Mais de duas mil pessoas participam do lançamento da Frente Brasil Popular, que vai unificar uma agenda em defesa da democracia e contra a retirada de direitos

Movimentos sociais e partidos de esquerda formalizaram, neste sábado (5), uma coalizão na defesa de direitos conquistados, da democracia e contra tentativas de golpe.

A Frente Brasil Popular é fruto de uma articulação que começou meses antes, como resposta ao avanço de pautas conservadoras e da direita brasileira.

A proposta do encontro deste sábado foi a criação de uma agenda comum, baseada no consenso, que vai gerar um programa de longo prazo para a esquerda brasileira.

A plenária para o lançamento da Frente reuniu nomes emblemáticos da política brasileira e dos movimentos sociais que aderiram à Frente.

Pelo Partido dos Trabalhadores, discursaram o senador Lindbergh Farias (RJ), o ex-ministro Tarso Genro, o secretário nacional de Movimentos Populares do partido, Bruno Elias, e o deputado estadual Rogério Correia (MG).

Lindbergh destacou que a direita faz uma “grande articulação golpista” para tentar derrubar o governo da presidenta Dilma Rousseff, democraticamente eleita.

“Quem vai impedir o golpe são os movimentos populares organizados”, declarou, ao lembrar que o espaço natural da militância de esquerda é nas ruas.

Ele defendeu mudanças na gestão econômica do País, como reforma tributária que conduza a impostos mais justos e reduzam os encargos às parcelas com menores rendimentos.

Tarso Genro e Bruno Elias ressaltaram que a criação da Frente é um momento histórico e também criticaram o avanço da direita conservadora.

Para o deputado Rogério Correia, o lançamento da Frente na capital mineira é emblemático, por tratar-se de um antigo reduto eleitoral do PSDB, governado por Aécio Neves durante oito anos, sucedido pelo também tucano Antonio Anastasia.

Nas últimas eleições, em 2014, Minas optou por Fernando Pimentel (PT-MG) e pela presidenta Dilma.

Pautas conjuntas

Durante a manhã, os integrantes de movimentos sociais se organizaram em grupos com seis temáticas e formularam documentos para serem debatidos e aprofundados.

Entre os temas mais defendidos pelos grupos estão a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), a democratização da comunicação, a manutenção de direitos trabalhistas, a tributação de grandes fortunas e aumento dos tributos para as instituições financeiras, mudanças na condução política econômica brasileira e maior integração com outros países latino-americanos.

Os grupos também se posicionaram pela manutenção e ampliação dos direitos trabalhistas, aprofundamento das ações para coibir preconceitos, combate ao genocídio dos jovens negros, à redução da maioridade penal e a outras pautas que representam perdas de direitos que estão sendo discutidas no Congresso Nacional.

Outro encontro ocorrerá em 26 de setembro, em São Paulo, com o objetivo de aprofundar o debate. No dia 3 de outubro, haverá mobilizações em capitais pelo País, em defesa da democracia, por mudanças na economia e em defesa da Petrobras.

Cristina Sena
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Moro nas trevas

Empolgado por sua popularidade, o juiz da Lava Jato exibe, entre outros, seus limites ao comparar sua Operação à italiana Mãos Limpas

O moço não sabe o que fala
O juiz Sergio Moro, cuja fama corre o País, não esconde a aversão pela política. Ele próprio tornou-se, no entanto, peça importante no crescente do ativismo judicial. Ou seja, a ocupação pela Justiça de espaços políticos. Isso o leva, eventualmente, a cair no abismo das contradições. O magistrado, por exemplo, faz política porque não confia nos políticos, embora tenha lá suas simpatias partidárias.

Responsável pelos processos da Operação Lava Jato em primeira instância, Moro manifestou publicamente essa rejeição durante palestra recente feita na Procuradoria da República, em São Paulo. O tema dele, a lavagem de dinheiro e os ilícitos em torno dela, é monocórdio. E, nessas ocasiões, sempre se remete à Operação Mãos Limpas.

Como um bom escoteiro Moro está sempre alerta. Dorme de olhos abertos e parece assaltado por pesadelos: “O Brasil deve ficar atento às lições que vêm da Mãos Limpas”, disse ele na palestra.

Qual a dúvida do juiz Sergio Moro? A resposta está na continuidade do raciocínio do palestrante.

Segundo ele, passado o tempo, a classe política teria adotado medidas que reverteram os avanços da Operação Mãos Limpas.

A qual, se bem entendemos segundo Moro, teria redundado em fracasso, embora ditada pelos melhores propósitos. “O retrato é de uma grande oportunidade de mudança que se perdeu”, lamentou.

O jovem juiz não sabe do que está falando, trafega na névoa como um barco escocês ao largo da costa em uma madrugada de pleno inverno em meio a neblina e com uma avaria no apito. Não é difícil imaginar que Moro se refere ao vácuo criado pelo fim da chamada Primeira República italiana, e na ascensão de Berlusconi e do seu oportunismo. Mesmo assim, o Partido Democrata-Cristão e o Partido Socialista saíram do mapa, enquanto a esquerda mostrava sua qualidade moral: não houve um único envolvido do Partido Comunista, que nesse tempo contava com 34% dos votos e comandava as prefeituras da maioria dos municípios.

Aproximar a Operação Lava Jato da Mãos Limpas é uma iniciativa temerária, mesmo porque a delação premiada só foi aplicada no caso do combate às máfias, que nada tem a ver com a Mãos Limpas. Os ilícitos alcançaram políticos, empresários, lobistas, funcionários públicos. Houve entre os indiciados quem se matasse, em um lance de vergonha cívica, inimaginável nas nossas plagas. O líder socialista Bettino Craxi fugiu da Itália para evitar oito anos de prisão. Alguns dos líderes mais proeminentes do PDC sumiram de circulação.

Moro não está saciado pelos feitos promovidos por ele até o momento. Sustenta agora a necessidade de condenar “por dolo eventual”: o infrator assume o risco de compactuar uma prática potencialmente ilícita, ainda que não esteja ciente dessa ilicitude no momento em que aceita prestar o serviço.

A fonte desse conceito é a Idade Média. Faz sentido.

Maurício Dias
No CartaCapital
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Encantamento

The Disenchanted de Budd Schulberg é um bom romance de um bom escritor. Só foi mais do que apenas bom pra mim, porque foi o primeiro livro “para gente grande” que li. Um pouco prematuramente, já que só muito depois fiquei sabendo que se tratava de um relato romanceado da relação do autor com F. Scott Fitzgerald. Os dois tinham colaborado num roteiro de filme e o Fitzgerald que Schulberg retrata, o “desencantado” do título, é um escritor em desintegração, perto do fim. Na minha inocência de leitor de gibi não tinha me dado conta desse significado camuflado do livro. Schulberg escreveu outros romances — o mais conhecido é What Makes Sammy Run? (Por Que Corre Samuelzinho?) —, mas hoje é mais lembrado como o roteirista premiado de On the Waterfront (Sindicato de Ladrões), dirigido por Elia Kazan. Schulberg e Kazan tinham colaborado com a comissão do Congresso americano que investigava o comunismo e seus simpatizantes em Hollywood e denunciado muita gente. Sindicato de Ladrões é a defesa dos dois e uma apologia da delação. Além de um grande filme.

Outros livros significaram o mesmo que The Disenchanted depois que abandonei, definitivamente, os gibis. Foram como marcos na descoberta do prazer da leitura, numa viagem de revelação em revelação. Li os livros do meu pai, inclusive, escondido, o Caminhos Cruzados com suas cenas “fortes”. Lembro do meu deslumbramento com a primeira crônica do Rubem Braga que li. Era possível escrever bonito com simplicidade, sem precisar recorrer ao “poético” convencional. Através do Rubem Braga cheguei aos outros autores da época clássica da nossa crônica: Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Antônio Maria, Stanislaw Ponte Preta. Este era o único humorista de ofício entre eles, mas todos, até o mais “literário” Paulo Mendes Campos, escreviam com humor. E o Antônio Maria mais do que todos. Talvez ninguém tenha representado como o pernambucano Maria o sabor especial da crônica brasileira, com sua mistura do lírico e do engraçado. Seu legado nem sempre é reconhecido como ele merece. 

Li mais de uma vez O Encontro Marcado do Sabino, chamado, com razão, de “o romance de uma geração”. Como, acho, todo o mundo, só consegui ler todo o Grande Sertão: Veredas do Guimarães Rosa depois de três ou quatro tentativas de atravessar as primeiras páginas sem desistir. Finalmente consegui, e a recompensa por persistir foi o resto do livro, mágico. Além do encanto da leitura, chegava-se ao fim do Grande Sertão com uma certa vaidade triunfal e uma sensação de conquista. O romance “Perto do coração selvagem” e os contos da Clarice Lispector também foram exemplos do prazer insuspeitado de um texto “difícil”. O primeiro romance do Moacyr Scliar foi outra revelação. Depois viria a descoberta do Rubem Fonseca.

E li muito os americanos e os ingleses, começando com The Disenchanted. Hemingway, Dos Passos, Nathanael West, Saul Bellow, Phillip Roth, Peter de Vries, o próprio Fitzgerald. Com William Faulkner tive que recorrer à mesma força de vontade usada para chegar ao fim do “Grande sertão, veredas”, mas também valeu a pena. Descobri um autor chamado Evelyn Waugh, inglês, reacionário, carolão, mas que escrevia a prosa mais elegante e mais britanicamente humorística da sua geração. Li toda a sua obra.

Hoje, leio pouca ficção. Leio mais sobre literatura do que literatura. Críticos e ensaístas como Roberto Calasso, Leslie Fielder, George Steiner... Não descobri mais ninguém com o mesmo encantamento de antes. Mas foi uma viagem inesquecível.

Luís Fernando Veríssimo
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Como é a “Casa de Pedra” e seu papel na Lista de Furnas

A “Casa de Pedra”, em BH, onde teria sido entregue propina
A casa de número 50 da avenida Eurico Dutra, no Belvedere, um bairro de classe média alta da capital mineira, onde Aécio Neves teve 90% dos votos válidos da última eleição, é o que se poderia chamar de uma fortaleza.

Ela pertence à prima de Aécio, Tânia Guimarães Campos, que mora ali com o marido, um construtor de obras públicas. Nesta casa, o ex-policial federal Jayme Alves, conhecido como Careca, teria entregue R$ 1 milhão de reais, dinheiro de propina, a um homem muito parecido com o senador Antônio Anastasia, ex-governador de Minas Gerais.

A denúncia da propina já era conhecida desde que a Polícia Federal ouviu em depoimento o ex-policial Jayme, mas a história perdeu força quando o procurador-geral Rodrigo Janot determinou o arquivamento da investigação contra Anastasia, por considerar os indícios insuficientes para a abertura de um processo.

Há dias, vazou a informação de que a PF pediu ao ministro do STF Teori Zavaski que mantenha a investigação, contrariando a manifestação do procurador-geral, pois teriam surgido fatos novos. Que fatos novos são estes? A casa de Tânia Guimarães é um deles. Mas isso basta para reabrir a investigação?

O PSDB já divulgou nota na mesma linha de defesa usada em situações em que se viu em apuros. É tudo armação, Aécio é vítima. No caso da Lista de Furnas, o partido divulgou a versão de que a Lista era falsa. O tempo e a perícia da Polícia Federal provaram que não. A lista era autêntica.

E o que tem a casa da prima de Aécio que pode complicar a vida de seu grupo político? Há na sua fachada muitas câmeras que registram a entrada e saída de qualquer pessoa. Um ex-aliado de Aécio, que já freqüentou o local, diz que o problema não são as câmeras externas, mas as internas.

“A casa é um Big Brother, tem câmera para todo lado, até no quarto do casal, mas essas câmeras são voltadas para a porta e para o banheiro, não para a cama”, conta.

Há câmeras nas salas, nos corredores e no escritório. Uma central, que funciona fora do imóvel, pode gravar tudo o que se passa ali. Isso é fato. O ex-aliado de Aécio, que hoje não priva da intimidade da família, diz que a fonte da informação da Polícia Federal é uma mulher que trabalhava na segurança do imóvel.

Ela teria o registro do encontro de Anastasia com o ex-policial na casa de Tânia e teria tomado a iniciativa de enviar diretamente ao Palácio do Planalto um email com a reprodução de alguns alguns quadros da imagem gravados pelo circuito interno. É esse email que teria sido enviado ao Ministério da Justiça e daí à Polícia Federal.

Fato também é que, além das câmeras, a casa é conhecida pelas festas. Um vizinho contou que já viu ali, além de Aécio, Ronaldo Fenômeno, Luciano, da dupla Zezé di Camargo, Luciano Huck (sem Angélica), e ex-jogadores como Palhinha, Piazza e até Rivelino. “É uma casa freqüentada por celebridades”, diz o vizinho.

Tentei conversar com Tânia Guimarães Campos. Apertei a campainha e cães começaram a latir. Deu para ver por uma fresta do portão de madeira que eram buldogues brancos. Logo depois, uma mulher apareceu no muro para dizer que Tânia e o marido viajaram e só voltam depois do feriado.

No trabalho de apuração da Lista de Furnas, a casa da prima de Aécio pode voltar a aparecer, porque, tanto naquele caso quanto no de Anastasia, o doleiro Alberto Youssef é a assombração que tira o sossego do grupo político que fincou raízes no estado e esparramou-se pelo Brasil.

casa de pedra

Esta reportagem é um teaser do novo projeto de crowdfunding do DCM sobre a Lista de Furnas. Entre aqui para conhecer e participar.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Temer se mostrou “pescador em águas turvas”


O vice-presidente Michel Temer pertence a uma geração de homens públicos que aprenderam o significado da expressão "pescar em águas turvas."

Trata-se de um ditado português muito empregado durante o regime militar, que indica a atitude de quem procura "aproveitar-se de situação confusa ou difícil para tirar proveito pessoal."

Num governo com sinais permanentes de desorientação, a presença de Michel Temer em São Paulo, ontem, num encontro de executivos e empresários pode ser incluída nessa categoria. Como acontece com as debutantes nos bailes de 15 anos, o vice-presidente, que já fará 75 no próximo dia 23, apresentou-se à sociedade.

Era uma noite promovida com auxílio do Movimento Acorda Brasil, o menor entre os pequenos grupos que procuram, de qualquer maneira, derrubar Dilma de seu cargo — numa ação que, se conseguir superar inúmeros obstáculos e não incluir a queda de Michel Temer no mesmo compasso, pode abrir espaço para que ele venha assumir a vaga da titular até 2018. Disponíveis da internet, as propostas do Acorda Brasil contêm um elemento que deveria constranger Temer e simplesmente impedir sua presença no local.

Numa de suas cláusulas na luta contra o que chama "totalitarismo" no Brasil, o movimento inclui uma medida que, tomada ao pé da letra, pode levar à extinção do Partido dos Trabalhadores, que permitiu a Michel Temer instalar-se no Palácio Jaburu, como você poderá ler alguns parágrafos adiante.

Havia algo de arroz-de-festa na presença do vice-presidente, sem interlocutores à altura naquele lugar. Nenhuma fatia do PIB estava por ali, nenhuma liderança capaz de fazer o dólar subir ou recuar.

A principal organizadora, Rosângela Lyra, é alta executiva da multinacional Dior. Profissional com vida própria, muito bonita e respeitada no meio, Rosângela Lyra foi personagem mais frequente em colunas sociais quando era sogra do craque Kaká.

Um mês depois de dizer que o Brasil precisava de "alguém para reunificar o país", Temer deu um exemplo em sua capacidade de gerar consensos políticos. Lembrou seu papel na derrubada da CPMF, na semana passada. Conforme relatam Pedro Venceslau e Letícia Sorg, no Estado de S. Paulo de hoje, o vice contou o que disse a Dilma quando, durante um telefonema, ela lhe disse que pretendia criar a CPMF: "eu fiz uma ponderação: a situação do governo já não é boa aos olhos da população. Não é boa aos olhos do Congresso. O governo sofrerá uma derrota fragorosa no Congresso."

Pelo ambiente, o encontro de ontem era um local onde se poderia defender o corte de verbas para saúde pública sem o risco de causar o mais leve mal-estar.

Pelo cenário e pelos personagens presentes, não se consegue encontrar uma explicação aceitável para a presença do vice presidente da República naquela lugar, naquela hora, em posição tão desfavorável para cumprir o dever de lealdade com o governo Dilma.

Numa roda, um dos empresários sentiu-se tão à vontade diante de Temer que lhe perguntou se pretendia entrar para a história como "oportunista ou estadista". (Como se fosse uma conversa que dispensava maiores esclarecimentos, não se explicitou o que seria uma coisa ou outra — pois o o "significado" dessas duas palavras se modifica conforme o dicionário de cada ambiente e as perspectivas políticas de cada pessoa. Ali, claramente, ser "estadista " era combater o governo Dilma).

Seja como for, Temer tinha uma interpretação que os presentes compreendiam muito bem e ficou na defensiva: "em momento algum agi como oportunista."

Na mesma linha, Temer ainda se referiu à aprovação do governo Dilma ("ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice de baixo") num tom que as manchetes do dia seguinte interpretaram como justificativa para um golpe de Estado. Poderia, em outro local, ser uma simples constatação política, quem sabe um apelo por mudanças e melhorias. Não ali.

Basta entrar na internet para conhecer um pouco sobre o Movimento Acorda Brasil, para compreender que o convite enviado ao vice-presidente ultrapassa os limites da convivência democrática e das proximidades do governo.

O Movimento se declara contra o monopólio do Estado sobre "qualquer setor da economia", o que inclui a Petrobras. Também combate o regime de cotas para negros e pobres nas universidades públicas. Até aí, estamos no plano das liberdades de expressão e de opinião, que incluem, sabemos todos, o direito de dizer asneiras.

Mas há um ponto grave. Numa linguagem típica da extrema-direita norte-americana, o site do movimento defende a luta contra o "totalitarismo" e os "totalitaristas". Entende por isso a "cassação do registro de todos os partidos políticos" que tenham relação com o Foro de São Paulo, cuja finalidade, diz, é "semear o socialismo revolucionário em todos os países da América Latina."

É um proposta que, levada a sério, nada mais é do que um pretexto para atingir em primeiro lugar o Partido dos Trabalhadores em nome de um espantalho construído pelo anticomunismo mais anacrônico, herdeiro dos tempos, aliás, dos "pescadores em águas turvas." Imaginar que o PT tem uma relação de dependência, subordinação ou qualquer coisa semelhante com o Foro de S. Paulo é acreditar numa tese ridícula, sem apoio nos fatos.

Seja como for, não há nenhum artigo, na Constituição brasileira, que impeça o livre funcionamento de organizações favoráveis ao "socialismo revolucionário." Em 1988, os constituintes confirmaram a plena liberdade de organização dos partidos políticos, garantia que inclui quem é a favor do socialismo reformista, o revolucionário, meio revolucionário e ultra revolucionário. Também permite o funcionamento de organizações com idéias conservadoras e ultra conservadoras.

Quem não entendeu isso coloca-se contra as regras da democracia em vigor no país.

Deu para entender?

Paulo Moreira Leite
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O resgate no Mediterrâneo e o amor ao Brasil

http://www.maurosantayana.com/2015/09/o-resgate-no-mediterraneo-e-o-amor-ao.html


A caminho de Beirute onde irá substituir a Fragata União, como Nau Capitânea da esquadra naval da ONU de bloqueio da entrada de armas no Líbano — a FTN-UNIFIL, sob comando brasileiro desde 2011 — a Corveta Barroso V-34 resgatou 220 refugiados que estavam à deriva no Mar Mediterrâneo, cerca da metade deles mulheres e crianças, salvando suas vidas e levando-as até o território italiano.

Com 104 metros de comprimento e quase 1.800 toneladas de deslocamento e uma tripulação de aproximadamente 160 marinheiros e oficiais, a Corveta Barroso foi concluída em 2008, na metade do segundo mandato do Presidente Lula, no contexto do renascimento e fortalecimento da indústria naval brasileira, e é o mais moderno navio já construído no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro, motivo de orgulho para a Marinha do Brasil — que tem sido atacada em sua honra neste momento por meio de comentários na internet — e um marco da capacidade de realização da nossa gente.

Só resta uma pergunta: se foi o Brasil que realizou o resgate, mesmo estando em águas internacionais, não seria o caso de oferecer refúgio a essa gente (ao menos para aqueles que o aceitassem) providenciando seu futuro transporte e abrigo em nosso país?

Seria interessante imaginar — em um tempo em que imbecis sugerem em portais e redes sociais que se entregue a Petrobras e a administração do Brasil aos norte-americanos — um desses bebês, depois de crescer e envelhecer em solo pátrio, relatando daqui a algumas décadas para seus netos, como a mão do destino o tornou brasileiro, ao ser salvo da morte, por brasileiros, em pleno oceano, poucos meses, ou semanas, depois de nascer.
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Os 39 kg de cocaína de Escobar versus a meia tonelada do helicoca


Juntos.

Reflitamos juntos.

Pablo Escobar virou celebridade na Colômbia quando foi apanhado com 39 quilos de cocaína.

A imprensa colombiana notou: havia um novo rei do tráfico no país.

No Brasil, o helicóptero de um senador é apanhado com meia tonelada de pasta de cocaína e, bem, e não acontece nada.

A Polícia Federal, tão operosa e tão espetaculosa quando se trata de vazar informações ou pseudoinformações e de prender os suspeitos de sempre, não esclarece nada.

E a imprensa tratou o assunto como se tivesse sido encontrada meia tonelada de pasta de amendoim. (O único esforço de reportagem foi do DCM. Graças à contribuição de seus leitores, pudemos investigar o caso. Produzimos um documentário que pode ser visto aqui. O responsável pelos trabalhos, Joaquim Carvalho, está agora investigando a Lista de Furnas, e outra vez pedimos sua ajuda para financiar a reportagem.)

Em suma: 39 quilos semearam a fama mundial de Escobar. Meia tonelada semeou coisa nenhuma.

Há uma única razão para isso.

É que o dono do helicóptero, o senador Perrela, é amigo de Aécio.

Blindagens se transmitem.

E amigo de baladas, como mostram fotos em que os dois não estão exatamente sóbrios.

O silêncio criminoso da mídia sobre o helicoca veio em hora boa para Aécio, em plena campanha presidencial.

Isso tem que ser lembrado sempre: Aécio conseguiu perder mesmo com uma operação fabulosa de favorecimento pela imprensa.

Mas o helicoca sobreviveu na mente e na consciência de quem não se deixa manipular por jornais e revistas altamente comprometidos.

Na semana passada, Luciana Genro evocou-o numa treta no Twitter com Feliciano.

Luciana defende, com razão, a descriminalização das drogas. Pablos Escobares nascem exatamente da guerra às drogas.

Ela expôs sua tese no Twitter. E afirmou que há traficantes até no Congresso.

Feliciano pediu que ela explicasse isso. E ela citou o helicóptero do senador Perrela.

O resultado é que quem está tendo dor de cabeça com o helicóptero não é seu dono, mas Luciana.

A Câmara decidiu interpelá-la judicialmente, por iniciativa de Feliciano e com o apoio de Eduardo Cunha.

E então nós ficamos assim.

Menos de 40 quilos consagraram o banditismo histórico de Pablo Escobar — cuja história você pode ver na brilhante série Narcos, da Netflix.

Meia tonelada de pasta consagrou a impunidade de um certo grupo privilegiado de brasileiros para os quais pau que bate em Chico não bate em Francisco.

Sobrou para Luciana Genro.

Paulo Nogueira
No DCM
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Fora do lugar

Se Dilma não pode "resistir por três anos e meio com esse índice baixo" de popularidade, aí está uma hipótese feita por seu vice Michel Temer; que Dilma Rousseff não pode melhorar seu índice de aprovação com a atual política econômica e social, isto é uma realidade.

Do ponto de vista ético, o vice que se diz aliado não poderia fazer, para um auditório de adversários extremados da presidente, as declarações que Michel Temer lhes presenteou. Como conduta pessoal e dever político, não importa quem sejam o vice aliado e o presidente: é ato de aliado desleal. Ainda mais por ser apresentada como certeza, a hipótese de Temer inclui o estímulo indireto de mais hostilidades públicas à sua aliada.

Não termina aí. Temer opinou que Dilma, sendo "uma guerreira", parece-lhe avessa a renúncia. Ou seja, não termina o mandato sem melhorar a popularidade e não renuncia: Temer fala, sem dizer, em derrubada.

Há um mês, o vice aliado disse ser "preciso alguém com capacidade de unir a todos". Muitos comentaristas e, claro, o PT acharam que estava se propondo à sucessão imediata. Vê-se que tal papel de unificador não lhe fica bem.

Mas o índice é uma linguagem. Mesmo com as ressalvas que as estatísticas possam merecer, a queda brutal da aprovação a Dilma exprime a dimensão gigantesca da repulsa à sua política econômica e, portanto, também social. E seus efeitos estão só no começo. Como, de resto, estão as próprias medidas apregoadas por Joaquim Levy.

Parece não haver, em Dilma e na equipe central do governo, nem a menor percepção desse problema. Dilma está preocupada e ocupada com a Câmara, com os partidos, com os cargos reivindicados na chantagem de líderes de bancadas. Mas tudo isso é efeito. O seu problema fundamental está na política econômica e na maneira como (não) é conduzida. Uma e outra não aprovadas por absolutamente ninguém. O pequeno grupo de empresários que pleiteou a permanência de Levy, nos últimos dias, deixou perceptível a ação por medo de agravarem-se ainda mais, na área econômica, a sinuosidade da condução e a obscuridade das medidas vindouras.

Mesmo para a opção por uma política econômica neoliberaloide, como Dilma quis, Joaquim Levy e Alexandre Tombini, no Banco Central, são as pessoas convenientes? Oito meses, dois terços do ano, de respostas insuficientes ou contrárias ao esperado — como dito pelo próprio Joaquim Levy — indicam que não. E atribuir as dificuldades à Câmara é fácil, mas pouco verdadeiro. A perplexidade, os desencontros e a falta de criatividade na condução econômica é que proporcionam espaço e clima para as saliências da Câmara. Quando percebem segurança e clareza, com o consequente apoio de setores influentes, os congressistas não desafiam nem abusam.

O problema fundamental de Dilma Rousseff está onde ela supõe estar a solução.

Lava jato

Para entregar esta coluna na sexta-feira, não houve tempo de repassar com cuidado a exposição do procurador Deltan Dallagnol, feita naquele dia, sobre os novos 17 acusados da Lava Jato. Na transmissão ao vivo, a exposição se mostrou coerente. E grave pelos fatos mencionados. Em particular, para José Dirceu.

A impossibilidade de um comentário sobre o exposto por Dallagnol não impede, porém, a reiteração do já dito aqui muitas vezes: para uma visão mais segura, esperemos pela apresentação de provas, que a delação não faz.

Janio de Freitas
No fAlha
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