3 de set de 2015

A demissão de jornalistas e o choque de realidade


A demissão é um choque de realidade. Você passa centenas, milhares de manhãs, tardes, noites e até madrugadas enfurnado numa redação tensa e claustrofóbica. Perde os melhores momentos da infância de seus filhos equilibrando-se sobre um tapete que seus amigos virtuais puxam dissimuladamente, dando-lhe tapinhas nas costas toda segunda-feira e perguntando como foi o fim de semana.

Não importava pra você se o jornal em que você trabalhava apoiou dois golpes de estado e só desistiu na última hora de liderar o terceiro porque ia pegar muito mal. Sentindo-se parte daquela família, você relativizava toda a sacanagem. O que queria mesmo era poder entrar num shopping sábado à tarde e posar de classe dominante. Sim, você era o rei do supermercado, carteira cheia, empáfia, carrinho abarrotado. Venci, você pensava, com cuidado para o seu orgulho besta não dar na vista.

Parecia até que era dono de alguma coisa além da sua força de trabalho. Sim, você confundiu tudo: uma coisa é o patrão, o dono da parada, a outra é você, o empregado, peça descartável como aquele faxineiro que coloca papel higiênico nos banheiros da redação. A culpa não é sua, qualquer um ficaria inebriado. Sei, seus textos são ótimos, nesses anos você fez isso e aquilo, entrevistou grandes astros, ministros, até presidentes. Mas isso tudo e nada para o manda-chuva é a mesma coisa. Seu belo currículo não resistiu à tesoura de um tecnocrata e Prêmio Esso não tem valor em nenhuma padaria da cidade.

Você ontem caiu das nuvens (bem, é melhor do que cair do segundo andar). Pelos seus anos de dedicação e suor, recebeu um rotundo pontapé no traseiro. Agora, ninguém vai mais convidar o "Fulano do Jornal Tal" para um almoço grátis. Porque o convidado na verdade era o Jornal Tal e não o Fulano. Entradas para teatro e cinema? Esqueça. Daqui em diante, ou você paga o ingresso ou fica na calçada da infâmia.

Não, amigo, você não é classe dominante, mesmo que tenha defendido os ideais dos seus patrões com unhas e dentes e a maior convicção do mundo. Suas ideias neoliberais talvez não façam mais sentido a partir de hoje. Será preciso encarar os vizinhos sem aquele poderoso crachá no peito. É hora de engolir o orgulho. Tem um gosto meio amargo, mas você consegue.

Marcelo Migliaccio é jornalista com passagens nos principais jornais do país
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Direita brasileira parece desistir de querer ser Europa

Lições a considerar desde Berlim: nossas elites insistem em achar que Brasil não tem jeito, mesmo quando o país se aproxima de padrões do Primeiro Mundo

Limite de velocidade em cidades em países europeus,
adorados por paulistanos, é de 50 por hora. Sem discussão
Uma das características de muita gente da direita brasileira é sua extrema falta de educação, selvageria, incivilidade, grossura e desprezo pelo próprio país. Com exceção desse último item, os restantes não são exclusivos do Brasil. Por exemplo, aqui na Alemanha a extrema-direita tem-se esmerado em atos de selvageria, grossura etc. contra os imigrantes, refugiados, que aqui acorrem (embora muitos cidadãos daqui estejam se esmerando em bem recebê-los).

Recentemente houve casos como o do cara que entrou numa estação de metrô e urinou — urinou (!) — em cima de imigrantes que lá estavam, inclusive uma criança. Houve atentados a faca em casas de refugiados, ou até com gás pimenta, mandando gente para o hospital. Sem falar nos incêndios criminosos que se multiplicam contra estes abrigos durante a noite.

Mas no Brasil predomina uns "gestos" da direita que consistem em afirmar constantemente que "o que é bom para a Europa e os Estados Unidos não é bom para o Brasil". Transporte público privilegiado em relação ao individual, corredores de ônibus, restrições ao uso de carro, controle rígido de velocidade, saúde pública, etc. etc. etc. — tudo isso é bom para a Europa, mas não para o Brasil, "nem existe no Brasil" o que, aliás, é mentira, porque o SUS é muito melhor do que muito do que existe em muitos países na Europa e também nos Estados Unidos (onde o sistema público de saúde claudica e está sendo reerguido por Barack Obama, contra uma feroz oposição dos republicanos).

Tome-se o exemplo do controle de velocidade. Li estarrecido que há uma ação judicial movida pela OAB-SP (corrijam-me se eu estiver errado) contra a diminuição da velocidade máxima nas marginais da capital paulista. Apesar de o número de acidentes ter baixado depois da medida. Vi outras manifestações grosseiras na mídia velha, por parte dos arautos do individualismo feroz, contra a extensão de corredores de ônibus e de ciclovias em São Paulo. Um descalabro político e moral, só compreensível pelo desvario mal-educado que tomou conta dos direitistas no país desde a Copa do Mundo e em especial depois da inesperada (só para eles) derrota do Aécio em outubro passado.

De vez em quando vale mesmo prestar atenção em lições que podem ser lidas a partir da Europa, desde que sem eurocentrismo nem aquilo de acreditar que o Brasil não tem jeito. Por exemplo:

1 — Aqui em Berlim, como em todas as cidades da Alemanha, o limite de velocidade nas ruas é de 50 quilômetros por hora. Perto de escolas ou em regiões densamente povoadas, 30. Exceções: as autoestradas de administração municipal, onde o limite é 100.

2 — Pedestre tem preferência em qualquer lugar.

3 — Em muitas das autoestradas federais não há limite de velocidade. Mas em outras há: 130, 100, 80 quilômetros por hora.

4 — Em estradas de zonas rurais os limites não variam: 100, 90, 80, 70 quilômetros por hora. Mas atravessando zonas urbanas cai para 50, e em centros de cidades, 30.

5 — O controle desses limites é rígido. Não há recurso, a menos que se comprove um erro por parte da autoridade ou de radares etc.

6 — Se passar três por um sinal vermelho, adeus carteira de motorista. Alcoolizado, idem. Multas enormes. E penas duras, no caso de acidentes.

7 — Para completar este quadro que muita gente da nossa "élite" acharia dantesco se fosse no Brasil, o Senado de Berlim (em termos brasileiros o conselho de secretários municipais) adotou uma nova lei, estabelecendo um limite de 30 quilômetros por hora em certas ruas durante a noite, para diminuir o ruído, pois está comprovado que a submissão constante a ruídos acima de 55 decibeis durante o sono aumenta o risco de problemas cardiovasculares.

Durma-se com um silêncio desses!

Flávio Aguiar
No RBA
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Igreja Universal convence fiel a deixar tratamento contra Aids

Justiça condena Iurd a pagar indenização
A Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus) foi condenada a pagar R$ 300 mil de indenização por danos morais a um portador do vírus da AIDS que abandonou o tratamento médico em nome da cura pela fé. Ainda como prova de convicção na intervenção divina, o homem teria sido levado a manter relações com a esposa, sem o uso de preservativos, o que ocasionou a transmissão do vírus.

Ao majorar a reparação — fixada em R$ 35 mil em 1º grau —, a 9ª câmara Cível do TJ/RS registrou que a responsabilidade da igreja decorre de “ter se aproveitado da extrema fragilidade e vulnerabilidade em que se encontrava o autor, para não só obter dele vantagens materiais, mas também abusar da confiança que ele, em tal estado, depositava nos ‘mensageiros’ da ré”.

O colegiado também levou em conta o estado crítico de saúde a que o autor chegou por deixar de tomar a medicação, em setembro de 2009. Poucos meses depois, com a queda da defesa imunológica, uma broncopneumonia obrigou-o a ficar hospitalizado por 77 dias, sendo 40 deles sob coma induzido. Ele ainda chegou a perder 50% do peso.

Para o relator do recurso no TJ, desembargador Eugênio Facchini Neto, os laudos médicos e o depoimento de psicóloga são provas de que o abandono do tratamento pelo paciente se deu a partir do início das visitas aos cultos. Esse fato, aliado a outras provas, como testemunhos e matérias jornalísticas, convenceram o magistrado sobre a atuação decisiva da Igreja no sentido de direcionar a escolha.

As provas citadas incluíam: declaração em redes sociais sobre falsas curas da AIDS propaladas por um bispo da IURD; gravação de reportagem de jornal de âmbito nacional com investigação sobre coação moral praticada durante os cultos; e testemunho de ex-bispo que admitiu ter doado tudo o que tinha para obter a cura da filha.

“Assim, apesar de inexistir prova explícita acerca da orientação recebida pelo autor no sentido de abandonar sua medicação e confiar apenas na intervenção divina, tenho que o contexto probatório nos autos é suficiente para convencer da absoluta verossimilhança da versão do autor.”

Do TJ/RS
No Paulopes
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A tática de expansão estadunidense na América do Sul


Os EUA, ao enviar tropas ao Perú, mandam uma mensagem para a região.
Uma guerra generalizada da direita latino-americana regida pelos EUA contra os governos progressistas ou simplesmente que não são do agrado de Washington, acrescenta desdobramentos e ameaças militares.

O problema afeta todos os latino-americanos e caribenhos, que já deveriam estar mobilizados para apoiar os protestos no Peru, cujo governo cada vez mais afunda no descrédito e a submissão.

A chegada do porta-aviões americano USS George Washington, com uma equipe de três mil 200 homens e armamento diverso, tem gerado protestos no Peru e se soma a chegada frequente de grupos militares naquele país.

De acordo com um anúncio oficial prévio, o navio nuclear singra águas peruanas desde terça-feira e sua presença vai durar até domingo, como parte de uma turnê sul-americana.

O navio partiu do porto japonês de Yokosuka, e destina-se à Base Naval de Norfolk, nos Estados Unidos, onde será modernizado, segundo a versão de Washington.

No entanto, várias organizações políticas e sociais peruanas rejeitam a presença do navio e de forma alguma acreditam que se trate de uma visita inocente.

O analista Gustavo Espinoza descreveu a chegada do porta-aviões "como uma operação secreta destinada a afirmar a presença dos EUA não só no Peru, mas na América do Sul, em uma circunstância em que o Império procura mudar a correlação de forças que impera na região."

O que ocorre com a chegada do navio de guerra, é algo certamente sem precedentes: nunca aconteceu antes. E isso só aconteceu em outros países como uma invasão militar norte-americana. Assim foi em grande parte do século XX, desde Puerto Rico até o Panamá, passando por Nicarágua, Honduras, República Dominicana, Guatemala e outros países. Agora se trata de tropas.

Dessa vontade, há provas irrefutáveis. Recentemente foi relatado que a administração estadunidense "expulsou" dos Estados Unidos milhares de membros de gangues salvadorenhas criminosos — os "Maras" — que estavam encarcerados em diversas prisões de EUA, apagando os registros criminais, a fim de facilitar o seu retorno a El Salvador e ali minar o governo de Sánchez Cerén.

Além disso, e com o apoio ativo de Álvaro Uribe, armou bandos que operam no estado de Táchira, na fronteira colombo-venezuelana, com a idéia de criar um conflito armado entre os dois países.

E se isso não bastasse, incentivou grupos reacionários no Equador, promovendo contra o governo constitucional do presidente Rafael Correa, uma campanha orientada para desacreditá-lo e destituí-lo. Isso é o que em as outras condições, querem também fazer com Dilma Rousseff, no Brasil.

Eles adorariam fazer o mesmo contra Cristina Fernández Kirchner, na Argentina; mas tudo indica que ali, nas eleições de outubro, o povo ratificará sua confiança nos Kirchner com a complacência das maiorias nacionais.

E, é claro, como não, contra o Chile, deteriorando a imagem de Michelle Bachelet e provocando rachaduras na unidade do grupo político que a sustenta. E o Império não mira pequeno. Busca o grande, porque julga que o grande envolve riqueza.

A Quarta Frota é turística?

Após 58 anos, a Marinha estadunidense reativou a Quarta Frota em 2008, com a tarefa de patrulhar águas latino-americanas.

Baseado na Base Naval Mayport, em Jacksonville (Flórida), a Quarta Frota dos Estados Unidos é responsável pelos barcos, aviões, porta-aviões e submarinos que operam no Caribe, América Central e América do Sul.

As Forças Navais americanas terão um comando de alto nível especificamente dedicado a supervisionar as tarefas de suas unidades na América Latina e no Caribe.

No entanto, um porta-voz militar dos EUA disse à BBC naquele ano, que isso não implica em si um aumento da presença militar dos EUA na região. Em 2015 essa manipulação é insustentável.

Obviamente, a hipocrisia imperial militarista é contundente. Também não seria uma ameaça as 80 bases militares, de vários tipos, que humilham a região e se inserem na estratégia da OTAN a partir da frente das Malvinas no Sul.



No ISLA Mía
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Gráfica que Gilmar Mendes quer investigar prestou serviços ao PSDB

Inspirado em "notícia reveladora" de blogueiros da revista "Veja", ministro pediu nova investigação das contas de campanha de Dilma. Mas esqueceu de incluir campanhas de Serra e Aécio em suas suspeitas

Gilmar Mendes: em vez de apurar, apenas reflexo condicionado a
novo estímulo da mídia contra Dilma
Uma má apuração de um blog de jornalistas demitidos da revista Veja, acusando uma gráfica que prestou serviços à campanha de Dilma 2014 de ser "empresa fantasma", serviu de base a um novo pedido de investigação contra a campanha. O ministro Gilmar Mendes, integrante de Supremo Tribunal Federal (STF) e também do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), já havia tido um pedido recusado pela Procuradoria-Geral da República por falta de consistência na acusação.

Depois da notícia, Mendes voltou a acionar o procurador-geral Rodrigo Janot para que reabrisse o caso.

A razão para o arquivamento anterior era simples: a VTPB Serviços Gráficos e Mídia Exterior, no mesmo ano de 2014, prestou serviços também à campanha de José Serra (PSDB) e de Aécio Neves (PSDB). Em 2012 foi fornecedora de campanhas de vereadores do PSDB, PMDB e PSD. E antes ainda, em 2010 trabalhor para diversos candidatos e partidos.

Os fatos comprovam que jamais se tratou de uma "empresa fantasma", e o ministro Gilmar Mendes parece ter apenas acreditado, voluntariamente ou não, na "barrigada" (como é chamada a informação errada no jargão jornalístico) dos blogueiros.

Mendes deveria ter pedido a seus técnicos do Tribunal Superior Eleitoral uma simples consulta ao histórico da VTPB e suas relações com muitos dos partidos políticos do país. Essa consulta é disponível e fácil a qualquer internauta com mais de 8 anos de idade.

Segundo a "apuração" dos referidos blogueiros, ignorando as prestações de contas de 2010 e 2012, a empresa, aberta em 2008, teria atividade de "banca de jornais" até 25 de julho de 2014, quando alterou seu contrato social para incluir — clara e transparente — serviços gráficos em suas atividades.

Nas palavras dos influentes blogueiros, ao menos sobre a formação da opinião do ministro Gilmar Mendes: "No dia 14 de agosto de 2014, apenas 19 dias depois da alteração do objeto social, a VTPB emitiu a primeira nota para a campanha de Dilma Rousseff, no valor de 148 mil reais".

Esquecerem de avisar ao ministro que cinco dias antes de emitir a primeira nota fiscal para a campanha de Dilma, a mesma gráfica emitiu uma nota de R$ 200 mil — no dia 7 de agosto de 2014 — para o Comitê Financeiro para Senador da República PSDB-SP, cujo candidato foi José Serra. Outras 39 notas foram emitidas para a campanha de Serra.

Outras seis notas foram emitidas em setembro e outubro de 2014 para o Comitê Financeiro Nacional para Presidente da República PSDB-BR, cujo candidato foi Aécio Neves.

Se houve ou não irregularidades no fato de a empresa não registrar explicitamente em suas atividades econômicas serviços gráficos antes de 2014 é algo que pode ser questionado no âmbito regulatório empresarial, mas não no âmbito eleitoral.

Antes dessa modificação no registro de atividades da empresa, a campanha de José Serra a prefeito de São Paulo em 2012 usou os serviços da gráfica. A VTPB emitiu 21 notas fiscais para o PSDB, sendo 20 delas para o Comitê Financeiro para Vereador PSDB-São Paulo, e uma para o Comitê Financeiro para prefeito PSDB-São Paulo.

Mas isso também os "jornalistas" esqueceram de contar ao ministro Gilmar Mendes.

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Helena Sthephanowitz
No RBA
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O Pato e a Galinha

http://www.maurosantayana.com/2015/09/o-pato-e-galinha.html


Embora não o admita — principalmente os países que participaram diretamente dessa sangrenta imbecilidade — a Europa de hoje, nunca antes sitiada por tantos estrangeiros, desde pelo menos os tempos da queda de Roma e das invasões bárbaras, não está colhendo mais do que plantou, ao secundar a política norte-americana de intervenção, no Oriente Médio e no Norte da África.

Não tivesse ajudado a invadir, destruir, vilipendiar, países como o Iraque, a Líbia, e a Síria; não tivesse equipado, com armas e veículos, por meio de suas agências de espionagem, os terroristas que deram origem ao Estado Islâmico, para que estes combatessem Kadafi e Bashar Al Assad, não tivesse ajudado a criar o gigantesco engodo da Primavera Árabe, prometendo paz, liberdade e prosperidade, a quem depois só se deu fome, destruição e guerra, estupros, doenças e morte, nas areias do deserto, entre as pedras das montanhas, no profundo e escuro túmulo das águas do Mediterrâneo, a Europa não estaria, agora, às voltas com a maior crise humanitária deste século, só comparável, na história recente, aos grandes deslocamentos humanos que ocorreram no fim da Segunda Guerra Mundial.

Lépidos e fagueiros, os Estados Unidos, os maiores responsáveis pela situação, sequer cogitam receber — e nisso deveriam estar sendo cobrados pelos europeus — parte das centenas de milhares de refugiados que criaram, com sua desastrada e estúpida doutrina de "guerra ao terror", de substituir, paradoxalmente, governos estáveis por terroristas, inaugurada pelo "pequeno" Bush, depois do controvertido atentado às Torres Gêmeas.

Depois que os imigrantes forem distribuídos, e se incrustarem, em guetos, ou forem — ao menos parte deles — integrados, em longo e doloroso processo, que deverá durar décadas, aos países que os acolherem, a Europa nunca mais será a mesma.

Por enquanto, continuarão chegando à suas fronteiras, desembarcando em suas praias, invadindo seus trens, escalando suas montanhas, todas as semanas, milhares de pessoas, que, cavando buracos, e enfrentando jatos de água, cassetetes e gás lacrimogêneo, não tendo mais bagagem que o seu sangue e o seu futuro, reunidos nos corpos de seus de seus filhos, irão cobrar seu quinhão de esperança e de destino, e a sua parte da primavera, de um continente privilegiado, que para chegar aonde chegou, fartou-se de explorar as mais variadas regiões do mundo.

É cedo para dizer quais serão as consequências do Grande Êxodo. Pessoalmente, vemos toda miscigenação como bem-vinda, uma injeção de sangue novo em um continente conservador, demograficamente moribundo, e envelhecido.

Mas é difícil acreditar que uma nova Europa homogênea, solidária, universal e próspera, emergirá no futuro de tudo isso, quando os novos imigrantes chegam em momento de grande ascensão da extrema-direita e do fascismo, e neonazistas cercam e incendeiam, latindo urros hitleristas, abrigos com mulheres e crianças.

Se, no lugar de seguir os EUA, em sua política imperial em países agora devastados, como a Líbia e a Síria, ou sob disfarçadas ditaduras, como o Egito, a Europa tivesse aplicado o que gastou em armas no Norte da África e em lugares como o Afeganistão, investindo em fábricas nesses mesmos países ou em linhas de crédito que pudessem gerar empregos para os africanos antes que eles precisassem se lançar, desesperadamente, à travessia do Mediterrâneo, apostando na paz e não na guerra, o velho continente não estaria enfrentando os problemas que enfrenta agora, o mar que o banha ao sul não estaria coalhado de cadáveres, e não existiria o Estado Islâmico.

Que isso sirva de lição a uma União Europeia que insiste, por meio da OTAN e nos foros multilaterais, em continuar sendo tropa auxiliar dos EUA na guerra e na diplomacia, para que os mesmos erros que se cometeram ao sul, não se repitam ao Leste, com o estímulo a um conflito com a Rússia pela Ucrânia, que pode provocar um novo êxodo maciço em uma segunda frente migratória, que irá multiplicar os problemas, o caos e os desafios que está enfrentando agora.

As desventuras das autoridades europeias, e o caos humanitário que se instala em suas cidades, em lugares como a Estação Keleti Pu, em Budapeste, e a entrada do Eurotúnel, na França, mostram que a História não tolera equívocos, principalmente quando estes se baseiam no preconceito e na arrogância, cobrando rapidamente a fatura daqueles que os cometeram.

Galinha que acompanha pato acaba morrendo afogada.

É isso que Bruxelas e a UE precisam aprender com relação a Washington e aos EUA.
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Confira como votou o seu senador - Financiamento privado de campanha


PSDB e DEM votam em massa pela manutenção do financiamento empresarial

Proposta aprovada na quarta-feira pelo Senado ganhou apoio total dos parlamentares do PT

Fim do financiamento de empresas a campanhas eleitorais?

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Só fortes indícios contra Anastasia fariam PF pedir a Teori que inquérito prosseguisse



É obvio que não se ia contrariar um parecer da Procuradoria Geral da República apenas porque se descobriu que um aliado político da Anastasia residia próximo ao trajeto descrito pelo entregador de dinheiro Jaime “Careca”.

Há mais, muito mais, não apenas nos fatos apurados como na estranha atitude de deles não terem tido conhecimento anterior os promotores ligados a Janot.

É bom não esquecer que, em abril, policiais e procuradores tiveram um atrito por conta de saber quem conduziria as investigações sobre políticos que, até este episódio, parecia superado.

Aliás, muito provavelmente a ação da PF de procurar Teori Zavascki diretamente para pedir a continuidade do inquérito que Rodrigo Janot queria arquivar foi uma reação a uma negativa anterior da PGR de seguir pela trilha aberta com alguma revelação sobre o Senador Anastasia, braço direito de Aécio Neves.

É importante jamais esquecer que não existe “Operação Lava Jato” sem componentes políticos e sem luta intestina em todas as instituições envolvidas: Justiça, Procuradoria e Polícia Federal.

Portanto, em tudo o mais provável é que haja fatos, não apenas suspeitas, comprometedores envolvendo Anastasia e se os há, inevitável que agora venham à tona.

De qualquer forma, preparem-se para uma enxurrada de gritos e reclamações tucanas em geral e de Aécio Neves em particular.

É que vai ser posto à prova aquele dito mineiro com que brincaram na sabatina de Janot ao Senado e veremos se pau que dá em Chico também dará em Francisco.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Imagine se um petista ameaçasse matar Aécio ou FHC



Não posso dizer que fiquei realmente surpreso ao vasculhar em vão os principais jornais do país nesta quarta-feira (2/8) em busca de uma mísera nota sobre o advogado filiado ao PSDB que, no último dia 25 de agosto, divulgou vídeo na internet prometendo assassinar Dilma Rousseff e que, na última terça-feira (1º de setembro),refez a ameaça.


Nenhum dos três maiores periódicos do país — Folha de São Paulo, O Globo e O Estado de São Paulo — divulgou um único comentário, nem para dar a notícia de que o PSDB, tardiamente, decidiu expulsar o advogado de Brasília Matheus Sathler, ao qual o partido deu legenda para se candidatar a deputado federal no ano passado.


Tampouco se viu alguma coisa na televisão — sobretudo no Jornal Nacional. E notícia nova havia, porque o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, determinou abertura de inquérito na Polícia Federal para apurar o caso.

O problema é que, noticiando com destaque as barbaridades que esse sujeito cometeu haveria que contar ao público, também, que ele é filiado ao PSDB e que não é a primeira vez que ele promove alguma loucura — ano passado, propôs a criação de um “kit macho” para ser distribuído em escolas públicas com a finalidade de “ensinar” meninos a “gostarem” de meninas e vice-versa.

Mas não há razão para ninguém se surpreender. Se a mídia corporativa praticamente não deu destaque ao atentado a bomba ocorrido em julho contra o Instituto Lula, por que noticiaria uma simples ameaça à presidente da República?

Porém, coincidentemente um dos mentores intelectuais do surto de fascismo que campeia no país publicou uma matéria pseudo jornalística que mostra bem o que ocorreria se o demente que ameaçou Dilma, em vez de tucano, fosse petista, e se, em vez de ameaçar a presidente, ameaçasse um tucano graúdo.

Segundo o tal Sathler, ele é amiguinho de Reinaldo Azevedo, da Veja e da Folha de São Paulo. Não sei se é verdade, mas o fato é que o jornalista mais antipetista do país vociferou em seu blog contra um simples militante do PT — e não um ex-candidato a deputado federal pelo partido — que publicou em vídeo uma resposta inadequada ao tal Sathler por ele ter ameaçado a presidente da República.

O mais engraçado é que Azevedo não entendeu o vídeo e, assim, fez um escarcéu dizendo que aquele militante resumia “os petistas”, como se todos os tucanos pudessem ser resumidos pelo advogado demente que ameaçou a presidente da República.

Confira, abaixo, o post de Azevedo



Note, leitor, que Azevedo critica o militante petista por ter dito o que faria com Sathler se ele tentasse cumprir a promessa de “arrancar a cabeça” de Dilma — o que, por certo, é reprovável, mas é reação a uma ameaça de violência —, mas não critica o amiguinho que ameaçou, de forma ainda mais virulenta, a primeira mandatária do país.

Alguém acredita que se um filiado ao PT ao qual o partido tivesse dado legenda para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados tivesse ameaçado arrancar a cabeça de Aécio Neves ou de FHC, a mídia não divulgaria em manchete de primeira página, em todos os telejornais e com dezenas de textos opinativos indignados vinculando o PT inteiro a quem ameaçou?

É óbvio que o tal Sathler não resume todo o PSDB e todos os tucanos — que atua com violência retórica, mas não física — assim como o militante petista do vídeo acima não resume todo o PT e todos os petistas, mas na cabecinha de Azevedo um militante tucano ameaçar a presidente ou jogar bombas é besteirinha, enquanto que um militante petista reagir (inadequadamente) a uma ameaça de violência é “prova” de que todos os petistas agem assim.

Notem que o post de Azevedo não diz uma palavra sobre a ameaça a Dilma. Como esse sujeito virou o Golden Boy da Veja, da Folha, da CBN e sabe lá Deus de onde mais, a gente entende por que a mídia fez de conta que não viu que o PSDB dá guarida às loucuras de Sathler até hoje, ou até o momento que vier a expulsá-lo — se é que o fará.

E o pior é que o blogueiro da Veja ainda mente. Diz que “defensor de Dilma ameaça manifestantes antigovernistas”, o que é mentira — ele ameaça reagir a Sathler e a ninguém mais. Será que Azevedo não assistiu ao vídeo que publicou?

Nenhum jornal ou telejornal noticiar esse caso e muito menos que o ministro da Justiça mandou abrir inquérito na PF deveria ser espantoso, se não conhecêssemos a imprensa que temos no país. Para proteger a imagem do PSDB, os veículos se autocensuraram. A mídia corporativa é cúmplice de Sathler e outros maníacos como ele.

Por fim, o vídeo do manifestante “petista” foi publicado no canal de Veja no You Tube. Ninguém sabe o nome do indivíduo e nem por que ele mesmo não publicou o vídeo em seu canal no You Tube. Terá mandado o arquivo para Veja publicar? Por que o faria? Ou será que Azevedo pegou alguém para atuar e gravou o vídeo?

Eduardo Guimarães
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FHC entregou a Petrobras ao FMI antes de ser candidato!


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Parlamentares pedirão a Janot a cabeça de Cunha




Um grupo de senadores e deputados, liderado pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), apresentarão nesta quinta-feira 3, às 10h, ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, uma representação cautelar pedindo o imediato afastamento do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) da presidência da Câmara.

Os parlamentares requerem o afastamento enquanto durarem as investigações da Operação Lava Jato, das quais Cunha é alvo.

Janot denunciou o peemedebista pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por suposto envolvimento no esquema da Petrobras. De acordo com a acusação, o deputado recebeu ao menos US$ 5 milhões em propina.

Na semana passada, um manifesto com a assinatura de 35 deputados já pedia a saída de Cunha. O documento afirmava que, "com a denúncia do MP, a situação torna-se insustentável para o deputado, que já demonstrou utilizar o poder derivado do cargo em sua própria defesa".

Cunha nega as acusações de envolvimento com corrupção, acusa o governo de promover um 'acordão' com Janot para prejudicá-lo e assegurou que não deixará o cargo. "Renúncia e covardia não fazem parte do meu vocabulário e nunca farão", discursou o deputado, ao comentar a denúncia, no último dia 21.

No 247
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A conduta é lícita porque ilícito é o boneco, diz jurista sobre furo

A liberdade de manifestação e expressão, direitos consagrados pela Constituição, não podem ser confundidos com a ofensa e impunidade. Essa á a avaliação do professor Edson Luís Baldan, delegado de polícia em São Paulo, especialista em Direito Penal pela Escola Superior do Ministério Público de São Paulo e professor da PUC, em entrevista ao Portal Vermelho sobre o caso do boneco inflável que ofende a imagem do ex-presidente Lula.

Produzido por grupos que foram às ruas para pedir a intervenção militar e defender um golpe contra o mandato da presidenta Dilma Rousseff, o boneco calunioso foi murchado após uma reação da União da Juventude Socialista (UJS), na última sexta-feira (28), no viaduto do Chá, região central de São Paulo. Agora, o boneco perambula remendado por Curitiba, Paraná.

“Se eu fizer um boneco de qualquer personalidade pública e malhar esse boneco, pode ser visto como uma atitude de péssimo gosto, mas não é crime. O problema é quando esse boneco representa um criminoso, porque o boneco em questão está trajado com as vestes de um presidiário e traz no peito um artigo do Código Penal que é o 171, que remete ao crime de estelionato. Isso configura crime de injúria”, argumenta Edson Baldan.

Previsto no Código Penal brasileiro, a Injúria é qualquer xingamento que atinja a honra subjetiva, a autoestima, a imagem que cada pessoa tem de si. De acordo com a lei, o crime de injúria pode ser cometido de forma escrita, falada, por gesto ou meio simbólico, como um boneco, com pena prevista de 1 a 6 meses de prisão ou pagamento de multa.

“O boneco não deixa nenhuma dúvida quanto à intenção de quem fez ou de quem o exibe que é a de imputar a condição de criminoso a uma pessoa, no caso o ex-presidente Lula, que não tem nenhuma condenação criminal e sequer está sendo investigado pelo crime de estelionato. Portanto, fica evidente que houve um abuso na liberdade de expressão e manifestação”, justifica o jurista.

A Constituição Federal de 1988 assegura, como direito e garantia fundamental, a liberdade de expressão, de manifestação, e, portanto, a crítica política é saudável e fundamental para o exercício pleno da cidadania. No entanto, esse direito não é ilimitado, pois é preciso garantir também a preservação da imagem e honra das pessoas.

Livre expressão não é livre ofensa

De acordo com o jurista, a liberdade de expressão não pode ser confundida com imunidade, ou seja, deve ser garantido o direito de livre manifestação e repelir a censura prévia, o que não significa que serão excluídas as responsabilidades posteriores pelo que foi veiculado.

“Não existe nenhuma liberdade que seja absoluta. É preciso fazer uma ponderação e encontrar um ponto de equilíbrio entre elas. O Direito, em especial o Direito Penal, fornece mecanismos para o controle de algumas condutas que excedam a tudo aquilo que é saudável numa democracia, que é a liberdade de expressão, de manifestação e a crítica política e a ausência de censura. Quando isso passa a representar meios de ofensas, de ataques pessoais, de ameaça, de achincalhe, de ferimento à dignidade de pessoas, o direito não protege”, explica o professor.

Ameaças covardes nas redes sociais

Sem citar especificamente o caso, mas numa clara referência às ameaças contra a presidente Dilma Rousseff feitas pelo advogado Matheus Sathler Garcia, candidato a deputado federal pelo PSDB do Distrito Federal no ano passado, Baldan criticou a impunidade de tais condutas.

“Um erro que é maximinizado quando temos, muitas vezes, uma inércia das autoridades que deveriam coibir esses atos e não o fazem”, adverte o jurista. “Quando vemos, principalmente no mundo virtual, promessas de mal grave a pessoas, sejam mandatários ou ex-mandatários, a incitação ao ódio, ao separatismo, a divisão ideológica do país, nada disso está autorizado pela nossa legislação”, disse.

Defesa do legado de Lula

Os grupos responsáveis pelo boneco calunioso pediram a prisão da líder estudantil Manu Thomazielli, por crime de dano ao patrimônio privado, por supostamente ser a autora do furo que murchou o boneco. Porém, quando o delegado pediu a nota fiscal do inflável para formalizar a queixa, ninguém apresentou.

Sobre a reação dos jovens da UJS que decidiram furar o boneco, o professor afirma que não foi cometido crime. “A conduta é lícita porque ilícito é o boneco”, enfatiza.

O professor lembra que o artigo 173 do Código Penal impede que danifique o patrimônio alheio, desde que esse patrimônio seja lícito.

“No caso específico do boneco ele é instrumento do crime. Então, quando a estudante perfura o boneco e tira a visibilidade dele, age, segundo os termos da lei, em legitima defesa da honra de terceiro. O Código Penal, nos artigos 23 e 25, permite que qualquer pessoa, diante de uma agressão, seja a vida, a honra, a integridade física própria ou de terceira pessoa, que ela aja com os meios moderados e necessários para fazer cessar a agressão”, alega o jurista. De fato, foi escolhido o meio moderado, já que o inflável continua a circular remendando pelas ruas.

Edson finaliza destacando que buscar o justo equilíbrio entre o exercício das liberdades e a garantia da preservação da intimidade e imagem é um caminho difícil, mas que “tem que ser buscado num país que pretende se consolidar como uma democracia de verdade”.

E conclui: “Assistimos muitas vezes uma passividade das autoridades. Ou eles não veem isso ou não estão atentos ao que está acontecendo. A impunidade, nesses casos, é um fator de estimulo a mais agressões, ao sangramento e aprofundamento disso, que passou a ser uma ferocidade e não mais uma saudável manifestação política”.

Dayane Santos
No Vermelho
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A Psicanálise, as Discriminações e as Religiões


A defesa da “família tradicional” pelos evangélicos é uma perversão.

O cristianismo, desde tempos remotos, teve papel preponderante na história brasileira. O Brasil sempre foi (a partir dos colonizadores, que impuseram seu capital cultural ao país e aos povos subjugados) cristão. Ao longo da história, inclusive, a separação entre Estado e Igreja nunca foi cristalina, esse entrelaçamento, esse entrecruzamento foi uma constante.

A maioria cristã, na história moderna nacional, foi e continua sendo absoluta. Qualquer político com esperanças eleitorais, ainda hoje, tem calafrios ao sonhar que pode transparecer um certo ateísmo (para isso costumam ir, convenientemente, a igrejas em datas ainda mais convenientes). No entanto, a configuração, a distribuição dos cristãos vem paulatinamente mudando. O Censo de 2010 revelou que os católicos passaram de quase 83% da população em 1980 para 64,6%, enquanto os evangélicos cresceram de 15,4% em 2000 para 22,2% em 2010, o que representa, aproximadamente, 42,3 milhões de pessoas.

Diferentemente da católica, as igrejas evangélicas são um grupo multiforme e dividido em três grandes categorias: as protestantes históricas (Luterana, Presbiteriana, Anglicana, etc.), as pentecostais (Assembleia de Deus, Evangelho Quadrangular, Deus é Amor, etc.) e as neopentecostais (Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo, etc.) Basicamente, o pentecostalismo (e essencialmente o neopentecostalismo) distinguem-se do protestantismo histórico por pregar a crença na contemporaneidade dos dons do espírito, entre os quais se destacam o dom de línguas (glossolalia), cura e discernimento de espíritos e por defender a retomada de crenças e práticas do cristianismo primitivo, como a cura de enfermos, a expulsão de demônios, a concessão divina de bênçãos e a realização de milagres.

O neopentecostalismo é um fenômeno urbano crescente. Caracteriza-se, basicamente, por dar uma especial ênfase à teologia da prosperidade, originária dos Estados Unidos, a qual defende que o cristão deve ser próspero, feliz e vitorioso em sua vida terrena. Para tal, estabelece-se uma espécie de contrato com Deus, em que quanto mais se doa, para a igreja obviamente, mais se recebe. A prosperidade econômica é vista como sinal da graça divina. Além disso, outra grande característica dessas igrejas é o uso intensivo da mídia. Proliferaram-se programas em que aparecem testemunhos, milagres e mecanismos que permitem a expansão dessas igrejas.

Esse adiantamento de recompensas de um plano celestial para um plano terrestre somado à midiatização massiva explicam, de alguma maneira e em partes, o vertiginoso crescimento dessas igrejas. Não obstante, o avanço evangélico se dá em vários âmbitos, inclusive culturais. Há uma rede social cristã que cresce no número de adeptos: o Faceglória (que está sendo processado pelo Facebook por plágio e já passou por outra polêmica ao não permitir fotos de beijos homossexuais), bem como são detentores de ambições e aspirações de poder, políticas. A já famosa bancada evangélica tem agenda consolidada, um número crescente de parlamentares, uma atuação estrondosa, barulhenta e, agora, o Presidente da Câmara, que já garantiu isenção fiscal a igrejas com a anulação de autuações fiscais que passam dos 300 milhões de reais.

A ofensiva política e a intenção de legislar a partir da bíblia (e um código penal de 3.000 anos atrás!), impondo crenças religiosas e normatizando (ainda mais!) corpos, comportamentos e sexualidades é perigosíssima, mas não é o ponto em que me deterei. O assunto em questão, não menos chamativo, é o tratamento dispensado ao Outro, essa fábrica simbólica de contrastes, de diferenças e de mal-estar, para usar uma expressão freudiana.

A vida do homossexual, na sociedade brasileira, não é nada fácil, embora tenha melhorado um pouco. Estereotipado, é alvo de humor estigmatizante, discursos de ódio, discriminações, agressões e até assassinatos. Mas o que tanto incomoda nos homossexuais, o que tanto ódio desperta? Não creio que seja sua vida íntima, privada, trata-se do desconforto por romper com a heteronormatividade, do simbólico de andar de mãos dadas em locais públicos, de mostrar-se diferente em nossa sociedade de controle, da possibilidade de existência e visibilidade desse diferente residir em um universo padronizado.

Pois bem, é, no mínimo, curiosa e digna de nota a cruzada promovida por um número não irrelevante de evangélicos, mais precisamente neopentecostais (não todos, em absoluto. Afirmar tal coisa seria uma sandice) e de alguns pastores midiáticos bastante conhecidos. Com as estratégias já mencionadas para angariar fiéis, um crescimento constante e um poder econômico e midiático consolidados, o que justificaria a frequência e a virulência de tais discursos?

À primeira vista, a justificativa oficial é a defesa da “família tradicional”, um argumento tão vazio e carente de sentido quanto a ofensiva. Defesa de quê ou de quem? Quando a “família tradicional” esteve ameaçada? Aliás, de que família ou modelo de família se trata? O que é, em definitiva, essa “família tradicional”? Pois bem, essa narrativa vai ao encontro de uma outra narrativa conservadora repetida ad infinitum sempre que surge um problema social, sobretudo quando envolve adolescentes: aquela que responsabiliza a dissolução da família pelo quadro de degradação social em que vivemos, com a consequente decadência e/ou falência de instituições. A falta de famílias “estruturadas” seria a responsável pela delinquência juvenil, pela violência, pelas drogadições; não a desigualdade, não a degradação e paulatina privatização dos espaços públicos, senão esse núcleo de transmissão de poder que arcaria sozinho com a construção do edifício da moralidade e da ordem nacionais.

A psicanalista Maria Rita Kehl mostra em “Em Defesa da Família Tentacular” que esse modelo de família “tradicional” correspondeu às necessidades da sociedade burguesa emergente no século XIX e durou até metade do século XX (sim, apenas isso) e estava muito distante de ser perfeita. A fábrica de neuroses que permitiu a Freud criar a psicanálise, a origem do autoritarismo para Reich, era estruturada hierarquicamente, organizada em torno do poder patriarcal, na qual estavam justapostas a proteção e a opressão por parte do chefe de família, que controlava a sexualidade das mulheres e o destino dos varões. A esposa era submissa e dedicada inteiramente à família, sem vida pública; a vida conjugal dos filhos administrada como um pequeno negócio; as mulheres destinadas à submissão e dependência econômica, tudo cercado por aquela atmosfera de hipocrisia vitoriana da qual tão bem falou Machado de Assis.

As necessidades do próprio mercado emanciparam a mulher, bem como suas lutas, obviamente. Ela começou a se empoderar, a trabalhar, reduzindo, assim, sua dependência econômica (ainda hoje aqueles que têm por projeto o arcaísmo culpam a mulher por essa dissolução da família, por ter a petulância de querer existir fora das fronteiras familiares), o poder passou a ser mais horizontal e as configurações familiares mudaram drasticamente: hoje, as famílias, segundo a autora, são tentaculares: co-parentais, recompostas, agregando e legitimando uma pluralidade maior de experiências, como filhos de casamentos diferentes, de pais homossexuais, pais e mães solteiros, entre muitas outras. Mais arejada e menos rígida, diminuiu a dominação masculina e sepultou um padrão nuclear de família, normativo e que vinha em processo de erosão.

Assim sendo, essa defesa de uma instituição, que já não tem seu funcionamento normatizado, de um inimigo invisível e amorfo se aproxima dos moinhos de Dom Quixote e está longe de se sustentar minimamente. Também se pode analisar o fenômeno a partir de um viés psicanalítico, com todas as ressalvas que essa sistematização selvagem do social acarreta. Assim como Freud escreveu que a religião é a neurose coletiva originada do desamparo, pode-se dizer que esses ataques seriam mecanismos de defesa.

A formação reativa é uma forma de defesa contra impulsos inaceitáveis para o ego. O sofrimento psíquico gerado por esse impulso causaria uma repressão que resultaria na antítese, no oposto daquele impulso, de maneira definitiva na formação da personalidade do sujeito. É uma defesa frágil, pois o impulso está à espreita no inconsciente, ameaçador. Então, um sujeito com impulsos e desejos homossexuais se tornaria um homofóbico empedernido.

É uma maneira de enxergar as coisas, em termos psíquicos e individuais. Também se poderia relacionar, por exemplo, o sucesso de programas como Big Brother ou A Fazenda a uma perversão que seria um tanto quanto estendida como o voyeurismo.

Deixando a um lado a hipótese psicanalítica, os ataques homofóbicos também podem ser vistos desde uma perspectiva foucaultiana, e aqui creio haver mais sentido, como estratégias de sobrevivência, estratégias de poder, de biopoder, do poder que se exerce sobre a vida. Foucault propõe uma maneira diferente de se analisar o discurso histórico, surgida em fins do século XVI e começo do XVII, como uma contra-história ou história anti-romana: não mais centrado na soberania, na continuidade do poder através da continuidade da lei, enaltecendo feitos e conquistas para reforçar esse poder, mas na investigação sobre a guerra como princípio de análise das relações de poder.

A partir dessa análise, ele estabelece que o racismo vem para justificar o direito de morte que os Estados reivindicam, a partir de relações saber-poder que introduzem fissuras no continuum biológico que o biopoder estabelece. Também produz uma relação bélica, do tipo “quanto mais se matar, mais se viverá”, a mesma relação guerreira do tipo “para viver, deves massacrar o inimigo” que tantos povos antigos utilizaram. Permite, da mesma forma, uma relação de tipo biológico, na qual quanto mais anormais, quanto mais seres inferiores morrerem, mais pura será a raça.

Pois bem, qual a relação entre essa análise histórica, essa análise do racismo com o tema inicial, os ataques fundamentalistas contra a população LGBT? Tudo e nada. Para Foucault, era fundamental se pensar a atualidade, e estou de acordo com isso, de nada adianta teorizar sobre o passado e não se falar no presente. Assim, tem-se um movimento neopentecostal crescente e em expansão ao mesmo tempo em que os discursos homofóbicos se intensificam.

O sujeito homossexual é aqui, então, esse Outro portador de diferenças, que escapa à norma, desviante, anormal, a antítese da vida (aqui entra o simbólico de não gerar vida), esse que resiste e luta por seus direitos, esse que desafia a tradição, esse ser impuro e degenerado. A partir dessa lógica bélica e aqui, num campo simbólico e discursivo (embora os desdobramentos desses planos ocasionem tantas tragédias e violências), temos que: quanto mais seres anormais, impuros morrerem ou forem condenados à invisibilidade, quanto mais destes anômalos deixarem de existir, mais nós viveremos, mais puros seremos, mais pura será a sociedade. Dessa forma, garante-se a sobrevivência e a expansão.

Estou afirmando com isto que todos os pastores evangélicos, todas as instituições evangélicas funcionam dessa maneira? Nada mais distante da realidade. Há excelentes pessoas em todos os âmbitos, e nas igrejas não é diferente. Recentemente, o pastor José Barbosa Júnior, junto com um padre, lavaram os pés da transexual que apareceu crucificada na parada gay em forma de protesto. É líder do movimento Jesus Cura a Homofobia e transmite essa mensagem de tolerância. No entanto, esse movimento pacífico tem muito menos visibilidade e adesão (cerca de 12.000 fãs no Facebook) do que alguns pastores falastrões que movem multidões e possuem milhões de fãs.

É um problema grave que pode trazer consequências ainda piores. Não creio ter uma solução tirada da cartola, uma receita de bolo, uma sentença simplista adequada a todos os contextos. Contudo, creio que a problematização, o nomear, o trazer a público são, per se, formas de resistência e permitem trazer um pouco de frescura, um pouco de lucidez a um ambiente tão convulsionado nos últimos tempos. Logicamente, atuando dentro do plano do possível, sem incorrer em utopias impossíveis ou niilismos estéreis. Como disse Deleuze, “um pouco de possível, senão eu sufoco”.

Fernando Dimer, psicólogo.
No Saúde Publica(da) ou não
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Definição

Como distinguir quem é de esquerda de quem é de direita? Pelas suas opiniões, claro. Pelo que dizem. Mas como distinguir um direitista silencioso de um esquerdista lacônico, sem sinais aparentes que os definam? Os da direta sugerem um método prático de identificar esquerdistas. Deve-se procurar um rabo escondido dentro das suas calças e dois chifres camuflados na sua cabeça. O problema com este método é que ele é exatamente igual ao proposto pelos da esquerda para identificar um direitista. Acaba-se sem saber se o demônio é dos nossos ou dos deles.

A classificação do que é “de direita” e o que é “de esquerda” complica-se ainda mais porque às vezes até os xingamentos trocados entre eles são os mesmos. “Fascista!”, por exemplo, serve para os dois lados. Outros xingamentos pecam pela falta de clareza. “Comunista!”, dependendo de quem acusa, engloba várias graduações de esquerda, da social-democracia ao stalinismo; “reacionário!” inclui de conservadores respeitáveis ao Bolsonaro. Na dificuldade de se chegar à diferença entre esquerda e direita pela divisão politica e pela imprecisão semântica do confronto entre os mutuamente demonizados, busca-se uma definição, qualquer definição, em outras áreas

Estive lendo sobre a Comuna de Paris, os dois meses da primavera de 1871 (Segundo Império, de Louis-Napoleon, sobrinho coxinha do Napoleon de verdade) quando trabalhadores botaram a correr o rei e a nobreza e ocuparam a capital da França na esperança de que a revolta se espalhasse pelo resto do país. Depois de dois meses, as tropas leais ao rei, que tinham fugido para Versalhes, retomaram Paris e massacraram os communards, mas os dois inebriantes meses da esquerda no poder ficaram como uma espécie de ensaio para conquistas republicanas que viriam. Mas fiquei sabendo que as agruras da ocupação e da defesa da comuna não impediram os communards de aproveitar as chamadas coisas boas da vida, presumivelmente saqueando as caves e despensas da nobreza. E a preferencia era por vinhos da Borgonha, considerados “de esquerda”, em contraste com os vinhos de Bordeaux, “de direita”, porque vinham de uma região notoriamente reacionária.

Borgonha de esquerda, Bordeaux de direita... A divisão pode se estender a qualquer tipo de gosto ou costume. Mineral sem gás de direita, com gás de esquerda. Carne bem passada de direita, mal passada de esquerda. Mocassim sem meias de direita, havaiana de esquerda...

Luís Fernando Veríssimo
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A luta de uma escritora da Islândia para que não haja mais tragédias como a do bebê sírio

Bryndis
E então penso comigo.

Tanta gente desinspiradora tem ocupado meus textos.

Eduardo Cunha, Aécio, Gilmar Mendes, Olavo de Carvalho etc: a lista é longa e vil.

Mas eis que aparece um arco-íris, lá na pequena, remota, fria e sublime Islândia.

É uma escritora de 33 anos chamada Bryndis Bjorgvinsdottir. Bryndis com sua arma, a palavra, decidiu agir em favor dos refugiados.

Ela mandou uma carta aberta para o ministro do Bem Estar Social da Islândia. Tamanha a força da carta que ela acabou repercutindo muito além da Islândia. Ganhou o mundo.

“Os refugiados são nossos futuros maridos e mulheres, melhores amigos ou almas gêmeas. Eles são os bateristas da banda dos nossos filhos, nosso futuro colega, a Miss Islândia 2022, o carpinteiro que finalmente vai terminar o banheiro, o atendente da cafeteria, o bombeiro, o gênio da informática ou o apresentador de televisão.”

Ou são, também, aquele garotinho sírio cuja foto à beira mar — morto, numa pose de bebê que dorme depois de brincar horas — encheu de dor, ultraje e vergonha a humanidade.

Vítima da humanidade
Vítima da humanidade
Bryndis criou, também, uma página no Facebook em prol dos refugiados. Logo de cara, ela avisa: “Mensagens de ódio não serão toleradas.”

(Até quando elas serão toleradas no Brasil?)

Na Islândia de Bryndis, 12 mil pessoas se ofereceram para receber refugiados em suas casas.

É um número colossal, dado que a Islândia tem 300 mil habitantes.

O governo local, sob a pressão da sociedade, estuda o que fazer.

“Não é porque não está acontecendo aqui que não está acontecendo”, diz a página criada por Bryndis.

Pessoas de outros países decidiram replicar o gesto de Bryndis, e apelar para que seus governantes ajam, e com urgência.

Num paralelo dolorido, foi lembrado que a situação presente reproduz cenas da Idade Média em que, protegidas por muros indevassáveis, as pessoas privilegiadas fechavam os olhos, a mente e o coração aos desafortunados que batiam às portas dos castelos em busca de ajuda e, muitas vezes, salvação.

Tantos séculos depois, e a humanidade parece que não aprendeu nada.

Voltaire, numa grande frase, disse que deixaríamos este mundo tal como o encontramos, “maldoso e idiota”.

A imagem do bebê morto dá uma extraordinária atualidade a Voltaire.

Podemos ficar parados e chorar a eterna miséria humana.

Mas Bryndis Bjorgvinsdottir decidiu ir contra a maldição voltariana.

Ela quer melhorar o mundo, e está agindo para isso.

De alguma forma, ela está devolvendo a esperança para milhões de pessoas — e não estou falando apenas de refugiados.

Paulo Nogueira
No DCM
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O triunfo da barbárie globalizada

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=7580

A foto do menino afogado, que corre o mundo, revela o triunfo da barbárie globalizada.


O Ocidente enfrenta novamente uma invasão “bárbara”.

Como sempre, os bárbaros são humanos.

Os bárbaros também são crianças.

Bárbaros que carregam bichinhos de pelúcia.

O capitalismo ocidental  construíra o seu paraíso à prova de contaminações externas.

Não contava com esses bárbaros dispostos a morrer no caminho em busca de uma vida melhor.

Nunca houve tanta ciência e tanta tecnologia.

Nada que consiga salvar o mundo da sua barbárie milenar.

O inferno é aqui.

Enquanto isso, bilionários bebem sangue de canudinho.

A direita mundial só pensa em fechar os portões da Europa para impedir a entrada das hordas de bárbaros.

Não adianta.

Os bárbaros já estão dentro das cidadelas ocidentais.

Que farão os ocidentais?

Vão jogar os miseráveis ao mar?

Não é de duvidar.
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Renuncia o Presidente da Guatemala


O presidente da Guatemala, Otto Perez, reuniciou ao cargo na meia-noite desta quarta-feira para submeter-se a um processo judicial por acusações de corrupção, apenas três dias antes das eleições gerais.

"O Sr. Presidente da República da Guatemala Otto Pérez Molina apresentou sua renúncia", disse o porta-voz presidencial Jorge Ortega em um comunicado.

Ortega disse que a renúncia foi apresentada ao poder legislativo, um dia depois que o parlamento decidiu, por unanimidade, retirar sua imunidade.

Ortega disse à AFP que Perez renunciou "para manter a institucionalidade do país" e "manter a figura da presidência afastada do processo judicial."

A renúncia do presidente ocorreu quase ao mesmo tempo em que um juiz emitiu um mandado de prisão contra ele.

O agora ex-presidente será apresentado ao juiz encarregado do inquérito às 08h00 local (14h00 GMT), disse Ortega.

Após a saída de Perez do mais alto cargo político no país assumirá o vice-presidente Alejandro Maldonado.

Em uma decisão histórica e em meio a comemorações da população, na terça-feira 132 deputados presentes à sessão legislativa votou por unanimidade para tirar de Perez a sua imunidade.

A renúncia de Perez ocorre três dias antes dos guatemaltecos irem às urnas para eleger um novo presidente, vice-presidente, 338 prefeitos, 158 deputados e 20 representantes para o Parlamento Centro-Americano, em uma eleição marcada pela crise política e por vários casos de corrupção no governo que provocaram protestos de repúdio.

Para "prevenir eventuais manifestações violentas", na quarta-feira, o escritório da Guatemala do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR) anunciou que vai manter equipes de monitoramento em várias regiões do país.

O anúncio da renúncia de Perez veio poucas horas depois de o juiz Miguel Angel Galvez, encarregado do processo, emitiu um mandado para a sua prisão.

Julia Barrera, um porta-voz da promotoria, disse que no momento em que Perez se apresente ao tribunal, o juiz solicitará sua prisão preventiva, uma medida que, se aprovada, significará a destituição automática de todas as suas funções.

O ocaso de um presidente

Perez foi acusado último 21 de agosto pela promotoria e por uma das Nações Unidas contra a Impunidade na Guatemala, como um dos líderes de uma rede chamada "La Línea", dedicada à cobrança de subornos de empresários por sonegação de impostos do sistema aduaneiro nacional.

Acusada pelo mesmo escândalo, a ex-vice-presidente Roxana Baldetti, renunciou em 08 de maio e está em prisão preventiva.

Antes da renúncia do Presidente, a Corte de Constitucionalidade (CC), a mais alta corte do país, rejeitou recursos em nome do presidente.

"O pleno (de cinco juízes) do Tribunal Constitucional (CC) reuniu-se hoje (quarta-feira) e decidiu, por unanimidade, não conceder amparo provisório Sr. Presidente Otto Perez", disse em um comunicado.

O Procurador-Geral Thelma Aldana, em entrevista à AFP, assegurou que o processo criminal contra Perez deverá terminar com uma condenação.

"Há um processo criminal (contra Perez) e iremos ao debate. Após a sentença, que de acordo com a minha avaliação e do que eu sei do caso, deverá ser condenatória", disse Aldana.

O Prêmio Nobel da Paz e líder indígena Rigoberta Menchú, disse por sua vez que a convulsão social que o país está experimentando é um renascimento da população indignada com a corrupção do Estado.

"É um grande despertar da população, é um despertar da consciência, mas também um exemplo cívico. A mim me impressiona a integração das marchas pacíficas e multi-setoriais", disse à AFP o laureado.

"Este país foi dividido pela violência, pela tragédia, pelo engano", disse ele, e senti que o agora ex-presidente é uma pessoa "perigosa" por seu passado militar em que participou do genocídio de índios durante o 36 anos de guerra no país (1960-1996).

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Cardozo enfrenta ruralistas em Campo Grande-MS

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, externou a posição do governo federal diante de atos de intolerância e qualquer tipo de incitação à violência ao participar, nesta quarta-feira 2, de uma reunião com produtores rurais em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, devido a conflitos entre fazendeiros e indígenas por posse de terras na região.

O incidente ocorreu apenas três dias depois de Cardozo ter sido alvo de uma manifestação de caráter fascista na Avenida Paulista, em São Paulo, no último domingo 30. Na ocasião, integrantes do movimento Revoltados Online, que defende o impeachment da presidente Dilma Rousseff, vaiaram o ministro, que mora na região e caminhava até uma livraria.

"Ou pacificamos ou não há conversa. A lei será cumprida", disse Cardozo, durante a reunião com os produtores rurais. Segundo ele, a posição do governo é não aceitar "qualquer tipo de ameaça" seja por parte de indígenas ou de produtores. "Se querem manter a paz, mantenhamos, sem qualquer tipo de ameaça a quem quer que seja", completou.

O discurso do ministro foi feito após ele ter sido interrompido por uma produtora rural, que disse: "Não tenho medo de você". Cardozo rebateu: "você não deve ter medo de mim, mas da lei". O ministro ameaçou considerar crime e determinar investigação pela Polícia Federal qualquer tipo de incitação à violência no local.

Após o encontro com os produtores rurais, o ministro se encontrou com lideranças indígenas. Também esteve presente o governador do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB), e o comando do Exército.

A região é palco de conflitos por disputa de terras há mais de 30 anos. A morte de líderes indígenas tem tensionado os problemas recentemente. No último fim de semana, o líder Guarani Kaiowá Simão Vilhaça foi encontrado morto com um tiro na cabeça.

A Força Nacional está na região desde que os indígenas invadiram uma área que foi considerada e homologada como indígena pelo governo federal. O STF concedeu uma liminar em 2005, no entanto, caçando a decisão. Os fazendeiros tentam expulsar os indígenas à força.

Assista à discussão no vídeo abaixo:

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Com e sem jato

Cada dia do novo ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Edson Fachin, vale quase um mês e meio do ministro Gilmar Mendes.

Em 11 dias, Fachin informou o tribunal de que concluíra o seu voto sobre descriminalização do porte de drogas, para o qual pedira vista no julgamento em 19 de agosto. A votação já pode ser retomada.

Gilmar Mendes pediu vista e sustou a decisão sobre financiamento eleitoral por empresas em abril de 2014. Ainda não foi capaz de ter o voto para continuidade do julgamento. Apesar de sua opinião ser conhecida — e já estar derrotada no tribunal, com a companhia dos empresários que financiam campanhas para manipular políticos.

No Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes tem outra atitude típica. Quer uma investigação da Procuradoria Geral da República nas contas da campanha de Dilma Rousseff, suspeitando de recursos provenientes dos truques que a Lava Jato investiga. A defesa argumenta que as contas foram examinadas pelo tribunal e "aprovadas com ressalva". O relator da aprovação: Gilmar Mendes. Mas, acima disso, lembra a defesa, em abril deu-se o "trânsito em julgado" do processo das contas, o que encerrou o prazo para qualquer recurso contrário à sua aprovação.

Por coincidência, ou não, a iniciativa de Gilmar Mendes corresponde, inversamente, a uma não destacada ou mesmo silenciada na imprensa. Como relatora, a ministra Maria Thereza Moura apontou 15 problemas encontrados pelos técnicos do tribunal nas contas da campanha de Aécio Neves. Pediu esclarecimentos, se possíveis. Na segunda-feira passada, Aécio disse que "já foram apresentadas todas as justificativas, coisas eminentemente formais".

Não. Algumas estão definidas como graves. Nada mais adequado, tratando-se de pessoa sempre afinada com a moda, que ao menos um dos problemas refira-se a uma doação da Odebrecht: R$ 2 milhões com registro de recebimento e sem a comprovação do destino alegado (o próprio partido). Também há declaração de menos de um terço da doação feita pela Construbase, alguns milhões cuja entrada os técnicos do TSE perceberam, mas não encontraram na contabilidade — enfim, não apenas "coisas eminentemente formais".

Sem jato

Outras afirmações de Marcelo Odebrecht impressionaram mais, com motivo real para tanto. Mas, a meu ver, merece a mesma atenção esta outra, que leva também para um futuro a ser verificado: "Eu garanto que sairemos dessa ainda mais fortalecidos". É uma convicção que se conjuga com a recusa a fazer delação premiada e com sua crítica moral a essa prática.

Preso há 44 dias, até ontem, Marcelo Odebrecht só foi ouvido uma vez na Lava Jato. Preso há um mês, completados hoje, José Dirceu só foi ouvido uma vez na Lava Jato. No seu caso, o prazo da Polícia Federal venceu sem que Dirceu fosse ouvido, e o juiz Sergio Moro precisou prorrogá-lo.

À toa

Não tem sentido a discussão sobre o cabimento, ou não, de ficar com o Congresso o acerto do Orçamento de 2016, que o governo montou e lhe entregou com receitas menores que as despesas. No Congresso, todo Orçamento anual sofre cortes e recebe acréscimos, estes, sobretudo, para servir a interesses de congressistas. Logo, Executivo e Legislativo têm poderes e responsabilidades equivalentes no que venha a ser cada Orçamento. Em caso de dúvida, é só dar uma olhada na Constituição, nos capítulos onde se definem as atribuições de cada um desses Poderes.

A gritaria da oposição é porque dela só sai isso mesmo: gritaria. A gritaria mais geral no Congresso é porque ficou muito mais estreita a margem para os congressistas incluírem as verbas dos seus interesses.

Janio de Freitas
No fAlha
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Senado aprova fim do financiamento privado de campanha: 36 a 31 votos


O Senado aprovou nesta quarta-feira (2) o fim das doações de empresas para partidos políticos e candidatos a cargos eletivos.

A votação foi apertada, e a proposta passou com 36 votos favoráveis e 31 contrários.

O projeto de reforma política, que ainda está sendo votado pelos senadores na noite desta quarta, será analisado novamente pela Câmara dos Deputados porque foi modificado no Senado.

No texto-base do projeto, os senadores haviam reduzido o teto para R$ 10 milhões e limitado a doação apenas para partidos.

Da forma como os senadores decidiram, os partidos políticos poderão receber recursos apenas de pessoas físicas e do fundo partidário.

Já os candidatos poderão ser financiados por pessoas físicas e por seus próprios partidos. O limite de 10% dos rendimentos que alguém teve no ano anterior às eleições também foi retirado da proposta, permitindo que uma pessoa possa doar até o limite do rendimento que teve no ano anterior ao pleito eleitoral.

“O ideal é que se tivesse um limite menor para as doações de pessoas físicas mas isso impediria a aprovação do fim do financiamento privado. Proibimos a doação de empresas mas os empresários ainda poderão doar”, afirmou a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), autora da emenda que modificou o texto-base.

Para o senador Jorge Viana (PT-AC), a decisão é “histórica” e pode estimular o STF (Supremo Tribunal Federal) a deliberar sobre o assunto. Desde o ano passado, o ministro Gilmar Mendes não apresenta o seu voto sobre a questão e o julgamento está suspenso. Já há maioria na Corte para proibir o financiamento privado.

O petista lembrou ainda que a proposta da Câmara de constitucionalizar a doação privada, aprovada em uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) no final de maio, não deve passar no Senado depois da decisão desta quarta. “Se os 36 senadores mantiverem a sua posição, derrubaremos essa proposta aqui”, disse. O texto deverá ser analisado pela comissão de Constituição e Justiça na semana que vem.

Os senadores também incluíram no texto a proposta que veda aos veículos de comunicação a contratação de empresa para realizar pesquisa de opinião pública relativas às eleições ou aos candidatos para publicação que tenha prestado serviços a partidos políticos, candidatos ou órgãos da administração pública direta ou indireta nos 12 meses anteriores à eleição.

A Câmara poderá manter o fim do financiamento privado ou retomar a proposta aprovada pelos deputados que estabeleceu um teto de R$ 20 milhões para a doação feita por empresas, respeitando o limite de até 2% do seu faturamento bruto do ano anterior à doação na soma destinada a todos os partidos e o limite de até 0,5% da sua receita bruta anual para um único partido.

No caso de campanhas que custem mais de R$ 20 mil, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) cruzará os dados de doações com informações da Receita Federal. Caberá ao tribunal consolidar as informações sobre as doações registradas até 31 de dezembro do exercício financeiro anterior a ser apurado.

Até 30 de maio, o TSE terá que enviar as informações para a Receita, que fará o cruzamento dos valores doados com os rendimentos da pessoa física e do faturamento da pessoa jurídica. Se houver excessos, o Ministério Público deverá ser avisado até 30 de julho.
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