25 de ago de 2015

Em nome de sua cruzada moral, Aécio vai explicar a acusação de Youssef sobre Furnas?


Em meio aos exercícios de futurologia sobre o mês de agosto, as magas patológicas apostaram na derrocada do governo Dilma e esqueceram de Aécio Neves.

Deu no que deu.

Aécio termina o mês numa situação, na melhor das hipóteses, constrangedora. Embarcou enlouquecido no golpismo, com direito a uma participação especial de 25 minutos num protesto.

Calou-se sobre o amigo de ocasião Eduardo Cunha. Ou melhor, deu uma de joão sem braço.

“Todos os homens públicos, independente da função que ocupam — isso serve para o presidente da Câmara, para a presidente da República, para todos os eleitos e outros que ocupam funções pública —, têm que estar sempre prontos a responder às acusações, e é isso que se espera do presidente da Câmara dos Deputados para, a partir do momento em que apresente sua defesa, ele possa ser julgado”, disse, subitamente acometido de sobriedade.

A respeito do afastamento de Cunha, respondeu: “Essa é uma questão interna da Câmara dos Deputados na qual eu não interfiro”. Ora, como assim? Em outras questões internas de outras áreas ele interfere?


“Eu confirmo por conta do que eu escutava do deputado José Janene, que era meu compadre e eu era operador dele”, disse Youssef.

Em nome de toda a cobrança pela ética e pela transparência, em nome da acusação de que Dilma “estabeleceu a mentira como método”, em nome de sua cruzada pelo impeachment, em nome dos votos que recebeu — Aécio certamente vai dar uma explicação sobre o depoimento de Alberto Youssef.

Setembro será a primavera de Aécio Neves.

Risos.

Kiko Nogueira
No DCM
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Youssef reafirma propina de Aécio em Furnas, Bonemer chora — assista


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Um jornalismo sem vergonha


É comum em tempos tão extremos como os nossos que se perca um pouco a nitidez de certos parâmetros. No contexto da política nacional, poucas vezes estivemos tão polarizados e isso tem quase que obrigado as pessoas a escolher um lado em detrimento do outro. Nas esquinas, nas rodas de conversa, nas redes sociais, as discussões parecem cada vez mais maniqueístas e a disposição para ouvir o interlocutor é quase nenhuma. O que parecia um ambiente de fúria — limitado aos grupos sociais que frequentamos — ganha dimensões de atmosfera de intolerância, cobrindo tudo, graças ao embarque igualmente irracional de muitos veículos de comunicação. A adesão da mídia contribui para a disseminação do discurso de ódio, promove linchamentos sociais e — pior! — alimenta uma espiral de desinformação geral.

É verdade que este comportamento não é um privilégio nacional, já que em outras latitudes a situação se mostra igualmente complicada. Na vizinha Argentina, não é só a imprensa que se divide entre kirchneristas e opositores, mas todo o país, provocando ranger de dentes do Chaco à Terra do Fogo. Por aqui, minha impressão é que estamos caminhando aceleradamente para uma zona explosiva, onde vigora o desentendimento e a absoluta radicalização. Nessa faixa, não existe apenas disputa de sentidos, mas imposição de narrativas, desqualificação de personagens, agressões ao pensamento alheio e total desrespeito ao outro. Três episódios recentes me levam a pensar que há um adiantado processo de deterioração de limites morais na mídia brasileira.

Verdade desnecessária

Em julho passado, a revista Veja publicou extratos que demonstrariam créditos de milhões de reais em um banco suíço em favor do senador Romário Faria (PSB-RJ). A prática se enquadraria em crime, já que brasileiros com contas no exterior cujos saldos superam os US$ 100 mil devem declarar e recolher impostos. Se a conta de Romário era secreta ou desconhecida pelo fisco, o político estaria incorrendo em ilegalidade. Mais um prato no banquete servido diariamente, recheado de denúncias de propinas e escândalos políticos e financeiros. Diz a matéria:
Quem o vê na tribuna do Senado, fustigando os cartolas do futebol com acusações de irregularidades e à frente de uma CPI sobre falcatruas na Confederação Brasileira de Futebol, se impressiona: Romário de Souza Faria, 49 anos, ídolo da seleção, firma-se cada vez mais na política com um vigoroso discurso em defesa da ética e da lisura. (…) Tamanha popularidade acaba por deixar na sombra uma flagrante incongruência entre o Romário senador e o Romário cidadão: na vida pessoal, o ex-jogador é notório por suas pendências financeiras. Uma delas está nas mãos do Ministério Público Federal: um extrato de uma conta bancária em nome de Romário no banco suíço BSI, com sede em Lugano, no valor de 2,1 milhões de francos suíços, o equivalente a 7,5 milhões de reais. A pequena fortuna não aparece na declaração oficial de bens encaminhada por Romário à Justiça Eleitoral em 2014.
No começo de agosto, Romário viajou a Genebra e lá colheu documentos que desmentiam o tal extrato. Veja não teve como rebater e reconheceu o erro:
Por ter publicado um documento falso como sendo verdadeiro, VEJA pede desculpas ao senador Romário e aos seus leitores.
É claro que alguém pode argumentar que foi um erro e que a publicação se retratou assim que detetou a falha. Mas é preciso ressaltar que a revista de maior prestígio e circulação do país publicou documento falsificado, sem a devida apuração, ignorando procedimentos mínimos no jornalismo: certificar-se da verdade da denúncia antes de propagá-la. Se isso acontece com um senador da república, o que esperar do tratamento ao cidadão comum, geralmente sem tais blindagens?

Um entre tantos, o Caso Romário sinaliza que a veracidade de documentos e a fidelidade aos fatos são detalhes pouco determinantes. Deve-se publicar a denúncia, não importando se ela é verdadeira.

Desqualificação pessoal

Lula e a cervejaO assassinato de reputações se serve de outras estratégias. Na edição de 14 de agosto, a revista Isto É estampou na capa a denúncia com os “maiores indícios da propina do Petrolão nas campanhas de Dilma”. Sob o título “Conexão Cerveja”, trazia foto do ex-presidente Lula tomando um copo de cerveja enquanto discursava na inauguração de uma fábrica da Itaipava em Pernambuco. Ao lado, fotos menores do empresário Walter Faria, dono da cervejaria, e da presidente Dilma Rousseff, e a informação de que a revista havia obtido documentos que comprovavam tráfico de influência, recebimento de propinas e repasses às contas da candidata.

No interiorIsto É apresentava as “provas” da aproximação do cervejeiro com Lula e o esquema de doações fraudulentas. Na capa, a figura do ex-presidente com um copo na mão reverbera a ideia já muito disseminada de que Lula bebe demais. A foto ressuscita no imaginário coletivo o perfil do político que se move à base de álcool e, que portanto, não está com consciência e sentidos plenos.

É claro que alguém pode argumentar que os editores quiseram ilustrar a conexão entre o ramo cervejeiro e a política com uma imagem real capturada em abril passado. Não houve montagem ou retoques. Mas é preciso ressaltar que uma revista com quase quarenta anos de existência lançou mão de um recurso primário de desqualificação pessoal, contribuindo para a deterioração de sua imagem. Carimbar Lula bebendo na capa é como tatuar nas mentes dos leitores a imagem de um homem vencido pelo álcool. O ataque à reputação se dá pelo seu lado moral mais pérfido. O subtexto é de crítica ao alcoólico, ao bêbado, aquele que não se emenda, que bebe porque quer e que merece um mau julgamento social. Sua decadência é fruto da falta de fibra ou coragem. Sua queda é resultado da preguiça e da fraqueza.

Sob a justificativa de que denuncia um mal feito, Isto É dissemina um preconceito comum — o de que o dependente químico é responsável por sua condição e não a abandona por sua incapacidade pessoal. Mais que isso, Isto É reforça uma narrativa — ainda não comprovada — de que Lula bebe demais e que isso compromete suas ações. Num único gesto, a revista desqualifica um personagem da vida nacional, faz ilações sobre sua saúde (e caráter!) e o vincula a esquemas criminosos com base em “indícios”, como a própria publicação admite.

O Caso Lula mostra que, para parte da mídia nacional, não se deve apenas fazer denúncias precárias, mas é preciso ainda enxovalhar a vida pessoal dos envolvidos.

Desrespeito contumaz

O longo e contínuo processo de deterioração moral de alguns nomes na mídia teve outro caso esta semana. Um dos editores da revista Época, João Luiz Vieira, tomou como base a vida sexual da presidente da república para comentar a crise política atual. O texto publicado na manhã de 20 de agosto no site da revista causou reações indignadas na internet e foi despublicado em seguida, sem qualquer justificativa.

A tese de Vieira é que Dilma Rousseff deve se “erotizar”, reavivar o encantamento com os eleitores para que siga adiante. Embora argumente que não está pedindo que ela use “mais decotes ou fendas” e que não está falando de sexo, o autor assina uma coluna que trata justamente desse mundo.

Em tom falsamente ambíguo, Vieira afirma que “sexo tem a ver com poder”, e que o “erotismo é um princípio”, aliás, “um princípio, um meio, um fim”. Na sequência, de forma indelicada, menciona a idade de Dilma, seus casamentos, a idade da filha e a informação de que seu neto de 4 anos é “supostamente seu melhor amigo”, traçando claramente o perfil de uma mulher assexuada, solitária e, portanto, infeliz.
Não a conheço pessoalmente, nem sei de ninguém que a viu nua, mas é bem provável que sua sexualidade tenha sido subtraída há pelo menos uma década (…) Será que Dilma devaneia, sente falta de alguém para preencher a solidão que o poder provoca em noites insones? Será que ela não se ressente de um ser humano para declarar que quer mandar todo mundo para aquele lugar, afinal ela não tem como dizer isso para o neto, supostamente seu melhor amigo, que ainda nem sabe ler? Será que ela não sente falta de comer pipoca enquanto assiste suas séries de TV paga, que tanto ama e a faz relaxar das pressões inerentes ao cargo? (…) Dilma é de uma geração de mulheres anti-Jane Fonda, que acreditam que a sexualidade termina antes mesmo dos 60 anos, depois de criados filhos e ter tido seus netos.
Para Vieira, a presidente “criou uma personagem para lidar com a rudeza de seu ofício”, que “quer ser invisível”, e por isso usa “um uniforme que nubla sua sexualidade”. No diagnóstico do especialista em educação sexual, é um erro, daí que aconselha Dilma: “Erotize-se”.

É claro que alguém pode argumentar que o artigo é ousado, original e inteligente, e que estamos em plena democracia sendo a liberdade de expressão a sua face mais visível. Mas há armadilhas nesse raciocínio. O artigo de João Luiz Vieira não é ousado, é desrespeitoso. Trata de um aspecto da vida íntima que é irrelevante para a imensa maioria das pessoas. Mas Dilma é uma pessoa pública! Sim, mas mesmo os mais célebres têm direito a seus círculos de intimidade. O texto em questão é desses artifícios narrativos preenchidos por vácuo. Não existe fato, episódio ou informação alguma que lhe dê sustentação. Parece faltar assunto. O que é que nos leva a falar da vida sexual de uma presidente em meio a graves crises política e econômica, diante da total discrição da personagem e na ausência de qualquer escândalo sexual?

O artigo de Vieira é desrespeitoso também porque impinge a Dilma a marca da mal-amada, da mulher mal humorada porque não está satisfeita na sua intimidade. Se Lula tem problemas com bebida, ela tem problemas com sexo. E, na ótica de Vieira, sexo é a raiz de todos os problemas e também a sua solução. Se aos bêbados resta o julgamento pela sua incapacidade de deixar o copo, às assexuadas, fica o sentimento de que devem curar suas próprias feridas. A estratégia é a deterioração moral pelo lado mais rasteiro. Dilma não dá tesão em ninguém! Anódina no âmbito sexual, também se mostra assim no campo político, e — portanto — merece condenação e desprezo. A condenação pode vir na forma dos adesivos colados à boca dos tanques de combustível dos carros.  A cada abastecimento, o eleitor perpetra simbolicamente o que acredita ser vingança. Ato calcado na violência sexual, mas que é tido como legítimo porque se encarrega de fazer justiça na base do revide. Assim, a mal-amada merece a violência sexual…

Por sua vez, o desprezo à mulher assexuada fervilha no imaginário popular. Afinal, num mundo como o nosso com corpos libidinosos desfilando, com linguagem insinuante, e com a ideia de que o sexo é um fim em si mesmo, onde já se viu alguém não querer fazer sexo?

Mas o artigo de Vieira também não é original. A vizinha Cristina Kirchner já teve tratamento indigno semelhante anos atrás. Em 2013, a revista Noticias de la Semana já apresentou a presidente argentina numa montagem fotográfica em que aparece sem roupas — com a chamada “A rainha está nua”.

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Em outra edição, em 2012, aborda “o exercício do poder e o contato com a massa como fatores erotizantes”, trazendo-a num desenho provocante: “O gozo de Cristina”.


Grosseiro, desrespeitoso, não original e não inteligente, o artigo de Vieira em Época é também machista. Afinal, aproxima política de sexo apenas no caso de Dilma. Mas e a vida sexual de homens da política? Por que não tratou delas? Desafio o autor a falar da vida íntima do presidente do Supremo Tribunal Federal, chefe do Poder Judiciário, por exemplo. Ou ainda de impotência de parlamentares, do priapismo de outros, de hábitos incomuns, e de insatisfação dos engravatados…

Até onde?

Os três casos mencionados são recentes e protagonizados pelas três maiores revistas semanais de informação do país. Se por um lado é ingenuidade pensar que haja coincidência, por outro é arrepiante imaginar que esteja em curso uma ação coordenada de desqualificação e erosão moral dos personagens citados.

Não se trata de puritanismo, moralismo de sarjeta ou caretice. O que estou a apontar é que alguns veículos de comunicação têm se prestado a oferecer conteúdos pretensamente embalados em jornalismo, quando na verdade não passam de ataques à reputação e à honra de alguns políticos. O tratamento dado é degradante, aviltante e corrosivo. Muito distante da preocupação de fiscalizar os poderes, de monitorar seus atos e de denunciar abusos. Sim, o jornalismo não deve transigir nesta atividade, mas vigiar é uma coisa, atacar ostensivamente é outra bem diferente. Onde começa uma coisa e termina a outra? Todos numa redação sabem. Todos.

Observo que estamos vivendo tempos extremos em que falta decoro, recato e respeito. Sem qualquer pudor, repórteres atropelam reputações e esmagam todas as possibilidades de redenção sob o argumento de que estão sendo duros com os políticos. Recorrem a mentiras, a preconceitos, a ideias autoritárias e discriminatórias. Fazem insinuações, armam-se de provas questionáveis para fazer acusações e estabelecem conexões estapafúrdias entre crimes e os que consideram indesejáveis. Os limites para uma ação jornalisticamente responsável são vistos apenas pelo retrovisor, e parece que perderam a vergonha.

Não a vergonha como castidade, a timidez que nos faz corar diante de alguém, ou a pudicícia que nos acanha. Não falo do bom mocismo, mas de um traço do caráter, da vergonha como responsabilidade, aquilo que nos sinaliza limites. Porque todos precisamos deles, caso contrário, ferimos, ofendemos, oprimimos e matamos.

Este jornalismo sem-vergonha, processado nos esgotos da alma humana e servindo aos propósitos do mero ataque, promove uma desintegração social difícil de reconciliação. É isso que alimenta a naturalização de práticas como a homofobia, o racismo e o machismo. Linchamentos de criminosos, banalização da violência urbana, estupros e o desejo de extermínio dos diferentes tornam-se aceitáveis porque se tornam familiares, após serem evocados com tanto descompromisso e ira. Cartazes lamentando que Dilma não tivesse sido enforcada no DOI-Codi, faixas ansiando pela morte de Lula e de outros — antes pensamentos inconfessados —, agora transbordam nas telas e nas páginas. Parte da mídia alimenta e dissemina esse ódio, ignorando a possibilidade de atuar como um elemento que ajude a aglutinar socialmente. O professor Clay Shirky, da New York University, tem uma definição bem luminosa sobre a mídia. Ela é o “tecido conjuntivo da sociedade”. Em tempos como os nossos, percebo que esse tecido não está sadio.

Para além dos males econômicos que o acometem, é possível ver também moléstias morais. Porque as redações parecem ter perdido a vergonha, seus profissionais promovem massacres diários da honra alheia. Outro professor estrangeiro, o filósofo ganense Kwane Anthony Appiah, de Princeton, ensina que “ter honra é ter direito ao respeito”. Parte decisiva do jornalismo atual não renova seus compromissos com a informação apoiada em respeito às fontes e aos públicos. Por isso, o senador é jogado no mesmo balaio de sonegadores fiscais, o ex-presidente é um bêbado e a presidente da república uma mal-amada. Não é o esgarçamento das relações entre política e sociedade que tem produzido isso. É um afrouxamento moral das redações. Dá vergonha ver tanto jornalismo sem-vergonha por aí!

Rogério Christofoletti é professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
No OI
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O que leva Dilma a dar entrevistas para jornais que vão sacaneá-la?

Síndrome de Estocolmo?
Leio na internet que há 43 anos, num dia 23 de agosto, o mundo cunhou a expressão Síndrome de Estocolmo.

Como todos sabemos, é aquela aberração psicológica pela qual vítimas podem desenvolver laços amorosos com seus agressores.

Pensei nisso ao saber que Dilma decidira dar uma entrevista à Folha, ao Globo e ao Estadão.

Os editores iriam aproveitar qualquer chance para colocá-la em situação constrangedora.

E foi exatamente o que ocorreu.

Os textos dos jornais se centraram no seguinte: Dilma admitiu que demorou para perceber o tamanho da crise.

Apenas o El País, não interessado em arrasar Dilma, sublinhou um fato essencial para compreender a admissão: Dilma se referia à crise internacional.

Mais especificamente, aos efeitos dela na economia brasileira.

São duas coisas completamente diferentes.

Dilma foi sacaneada, mas onde a surpresa?

Do jeito que a coisa foi apresentada pela mídia, ficou a impressão de que Dilma confessou que os jornais estavam certos e ela errada.

Comentaristas e políticos da oposição aproveitaram para atacá-la. Merval disse que Dilma fez, enfim, uma autocrítica.

No G1, um leitor, que assina Almada, postou um comentário em que dizia que ele vinha alertando o governo fazia meses. O bom Almada deu até o endereço para que outros leitores leiam as preciosas advertências econômicas que ofereceu, nos últimos meses, a Dilma.

Quer dizer: os jornais conseguiram se autocongratular, como voluntarioso Almada, pela cobertura sinistra que fizeram da crise econômica.

O que houve de fato foi o seguinte.

A Bolsa de Valores da China teve que explodir para os jornais reconhecerem, com enorme atraso, que a crise é mundial, e não local.

Era estratégico restringi-la ao Brasil porque ficava mais fácil definir Dilma como incompetente.

O dólar subiu no mundo inteiro nestes primeiros meses do ano, e você lia a imprensa brasileira e tinha a sensação de que isso ocorria apenas no Brasil.

Idem para a crise do petróleo. Era coisa nossa. Quer dizer, dela, Dilma.

Éramos uma ilha problemática num mundo repleto de soluções, na tese farisaica da mídia.

A China teve que tropeçar para que a farsa fosse abandonada.

Mas eis que Dilma decide conceder uma entrevista a jornais que tratam de massacrá-la todos os dias.

Síndrome de Estocolmo, me ocorre.

E então no noticiário que sai da entrevista Dilma é tratada como inepta.

Quem deveria fazer uma autocrítica é a imprensa, que manipulou por meses seguidos seus leitores com a versão falsa de que a crise se restringia ao Brasil.

Mas isso não virá.

Com a contribuição de Dilma, a versão que a mídia propagará é que os jornais cansaram de avisar que a coisa estava feia.

É definitivamente um mistério o que leva Dilma a conversar com publicações que jamais surpreenderão por tratá-la com decência.

Paulo Nogueira
No DCM
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A cobertura do Jornal Nacional vista pelo Manchetômetro

http://www.manchetometro.com.br/cobertura-2015-jn/



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Stedile: o capitalismo que o Papa combate


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IstoÉ é condenada a indenizar Fernando Pimentel por calúnia

Tribunal afirma que publicação abusou do exercício da liberdade de expressão ao acusar o petista, sem provas, de ligação com o "mensalão"

A revista IstoÉ foi condenada em segunda instância a indenizar em 60 mil reais o atual governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), por calúnia e danos morais. A publicação afirmou em três reportagens publicadas em março de 2010 que Pimentel, então coordenador de campanha de Dilma Rousseff ao Planalto, seria “operador de remessas ilegais” no esquema do “mensalão”.
A decisão foi tomada pela 10ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que confirmou sentença da 30ª Vara Cível de Belo Horizonte. De acordo com o portal Comunique-se, o desembargador Manoel dos Reis Morais, relator do recurso, afirmou que a IstoÉ e o jornalista que assina as reportagens, Hugo Marques, não confirmaram as informações publicadas e “interpretaram equivocadamente os fatos apurados” .

Morais lembra que as reportagens foram publicadas em ano eleitoral, “sendo patentes as repercussões negativas” e reafirma que IstoÉ abusou do exercício da liberdade de expressão jornalística.

Na decisão de primeira instância, o juiz Geraldo David Camargo afirmou que os réus “tentaram a qualquer custo envolver” Pimentel com “atos ilícitos penais, sem mínima prova, ou sequer indício razoável, sempre o associando ao chamado mensalão”, afirmou. Também segundo o juiz de primeira instância, “não se pode negar que os réus excederam, e muito, no direito de informação, praticaram abusos, distorcendo fatos, atribuindo em manchetes jornalísticas a condição do autor de mensaleiro”.

Em 2010, Pimentel era investigado por desvio de verbas públicas e dispensa irregular de licitação em um caso sem ligação com o "mensalão", mas mesmo assim a revista o ligou ao escândalo que condenou diversos nomes do PT. Na decisão de primeira instância, Camargo lembrou que o procurador da República responsável pela investigação contra Pimentel, Patrick Salgado Martins, "negou em todas as oportunidades" as afirmações da publicação a respeito da ligação entre Pimentel e o "mensalão".

Segundo o Comunique-se, o valor de 60 mil reais deverá ser corrigido com juros de 12% ao ano desde a data das publicações, em março de 2010.

No CartaCapital
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Jânio Quadros


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Blogueiro da Globo sugere que Dilma se suicide


De Ricardo Noblat, no aniversário da morte de Getúlio Vargas:


No DCM
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O suicídio de Getúlio


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No novo país não cabe o impeachment


A entrevista à Folha do presidente do Itaú Roberto Setúbal — condenando as manobras para o impeachment — ajudou a desnudar de vez um país velhíssimo, que teimava em se impor sobre o novo.

Seguiu-se às entrevistas do presidente do Bradesco Luiz Trabucco e da Cosan Rubens Omettto Filho.

Nos anos 80, Trabucco era um jovem executivo do Bradesco, frequentador ocasional do Bar do Alemão, teimando em lançar o produto capitalização no mercado; Setúbal estava sendo preparado para substituir o pai, Olavo Setúbal; e Ometto era o jovem promissor, filho de família rica, mas que fazia carreira como financeiro do grupo Votorantim.

Na época, os grandes grupos nacionais ainda eram acanhados, reunidos em torno da indústria de máquinas e equipamentos, da cadeia sucro-alcooleira e de um setor de empreiteiras que se especializara em grandes hidrelétricas. Tentativas de criar um setor de informática não deram certo.

Com exceção das empreiteiras, tinham em comum a ojeriza ao centralismo do regime militar. Mas não se podia dizer que fossem democratas convictos. Tanto que no jornalismo econômico da época procurávamos levantar vantagens econômicas, para reforçar a bandeira da democracia.

Lembro-me da  entrevista que fiz  com um brazilianista da época, não me recordo se Stanley Hilton ou outro historiador, indaguei sobre as vantagens econômicas da democracia e levei uma lição preciosa para casa: "Democracia não precisa ter vantagens econômicas para ser legítima, Democracia é condição civilizatória", ou algo assim.

* * *

De lá para cá muita água rolou. A economia se abriu de forma brusca, houve a desregulamentação, um presidente impichado, depois uma relativa estabilização política.

Dois anos atrás, nas comemorações dos 25 anos da Constituição, juristas, como o vice-presidente Michel Temer e o Ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, enalteceram sua resiliência, o fato de ter permitido manter as regras do jogo mesmo ante todo o tiroteio do "mensalão".

* * *

De novembro passado para cá, em alguns momentos, o interminável terceiro turno pode ter passado a impressão da volta ao passado, ao golpismo paraguaio, o mesmo que vitimou outras jovens democracias latino-americanas, independentemente da linha política do presidente deposto.

O germe do oportunismo inoculou-se do politicamente imberbe Aécio Neves ao vetusto Fernando Henrique Cardoso, passando pelo inacreditável Gilmar Mendes, a maior ofensa ao republicanismo brasileiro.

De repente, as trincheiras do legalismo passaram a receber adesões imprevistas, de colunistas escapando ao torniquete da opinião midiática, artistas e, agora, os empresários que contam. Constatou-se que todo o discurso de segurança jurídica viraria pó se se permitisse o impeachment paraguaio. Percebeu-se nitidamente a democracia como um valor maior.

* * *

FHC recolheu-se, amparado por amigos do Cebrap tentando criar a narrativa de que a proposta de renúncia de Dilma, que ele apresentou, era uma maneira de segurar o golpismo.

O analista político costuma ter razões que o próprio autor desconhece.

* * *

Daqui para frente, a bola volta a Dilma para que se possa, finalmente, encarar os problemas concretos da economia, que não são poucos.

Luís Nassif
No GGN
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Reunião no Clube Militar frustra quem foi a Copacabana pedir volta da ditadura

Cerca de 160 pessoas lotaram o auditório do Clube, em evento que também foi transmitido online. Intervencionistas saíram decepcionados
Evento foi marcado por ataques ao PT, ao governo, a Dilma e a Lula

Rio - Aguardando o elevador no quinto andar do Clube Militar, no Centro, três mulheres lamentavam o resultado da reunião encerrada minutos antes e criticavam a “falta de ousadia” dos militares para combater o comunismo. O diálogo não é de 50 anos atrás: Tereza Alves, que se diz baronesa, e as irmãs Regina Helena e Leila Mello passaram a tarde de quinta-feira em debate com a presença do alto oficialato da reserva do Exército. Saíram indignadas, pois ansiavam por uma palavra de incentivo ao desejo de uma intervenção militar para tirar a presidenta Dilma Rousseff do poder. Mas ouviram de generais que cabe às Forças Armadas apenas defender a Constituição.


O trio de senhoras sintetiza um grupo que foi às ruas nas manifestações de domingo passado e, apesar de minoritário, chamou atenção pela violência dos cartazes. Os intervencionistas — aqueles que defendem o retorno das Forças Armadas ao poder para tirar Dilma do governo — chegaram a dizer que a presidenta deveria ter sido morta nos porões da ditadura, quando foi presa e torturada na década de 1970. Pensamentos que o alto escalão do Exército refuta, pelo menos publicamente: apesar das violentas críticas ao governo, os generais do Rio se colocam contrários a qualquer sentimento golpista e repudiam seus apoiadores.

“Isso aí é um público particular que vem aqui, não representa a sociedade. Nem eu nem os chefes militares concordamos com qualquer intervenção”, garante o presidente do Clube, general da reserva Gilberto Pimentel.

No evento marcado por ataques ao PT, o general Augusto Heleno resumiu o sentimento. “A verdade é que a esquerda faz bullying com a direita aqui no Brasil”, afirma Heleno, sem poupar críticas a Dilma, Lula e ao governo. Quem pensou na defesa de um novo golpe, porém, se decepcionou. “A solução para crise só vai se dar dentro da legalidade”, diz.

Diante do balde de água fria jogado pelos militares, as intervencionistas prometem se engajar e ‘tomar’ Brasília com suas ideias ‘revolucionárias’. “Vamos invadir o Planalto em breve, porque manifestação virou Carnaval”, prometem. “O comunismo precisa do capitalismo”, discursa Tereza, moradora da Barra da Tijuca, e filha de militar. Moradoras do Leme e também filhas de militar, as irmãs Regina e Leila garantem que vão acompanhar a amiga. “Está nítido que eles não podem dizer o que pensam”, afirma Regina Helena. “Me parece que hoje esses generais aí estão pacíficos demais”, reclama Leila.

Presidente do Clube nega golpismo

Logo na entrada do Clube Militar, uma placa recorda o dia 31 de março de 1964, data em que as tropas começaram a depor o então presidente João Goulart e mergulharam o país em 21 anos de ditadura. O clima da época, garante o general Gilberto Pimentel, está longe do edifício da Avenida Rio Branco.

“Não tem medo de comunismo, isso acabou, não existe mais. Não tem mais União Soviética, Cuba está com os Estados Unidos. Meu filho, o Exército está aqui para cumprir a lei. Esse pessoal que pede intervenção é o que o Lula chamava de aloprados, que não entendem as mudanças do Brasil e do mundo”, afirmou o militar, após o evento. Segundo ele, corrupção é algo que “sempre existiu e existirá, inclusive nos governos militares”. “Houve desvios, mas numa escala menor. Não sei de casos, apenas que corrupção é algo que sempre houve”.

Até Xumbi dos Palmares vira alvo dos militares

Compareceram ao Clube Militar oficiais da reserva, homens de em média 60 anos, e civis favoráveis à intervenção. A ideia era debater os rumos do país e prestar uma homenagem ao Dia do Soldado, mas acabou sobrando até para o líder negro Zumbi dos Palmares. “A quem interessa valorizar o Zumbi e não reconhecer o papel da princesa Isabel na abolição da escravidão?”, indagou à plateia o general Sérgio Castro, ao enumerar os pontos escolhidos pelo Clube como provas da ausência da “moralidade nacional”.

Na sequência, o general Augusto Heleno, chefe da primeira missão das Nações Unidas para o Haiti, em 2004, deu palestra onde criticou a esquerda, a Comissão da Verdade, o PT e lembrou os “valores” do tempo da ditadura.

Após o ato, um civil abraçou o general enquanto ele conversava com a reportagem e disse em seu ouvido que “todos deveriam ter sido fuzilados após 1964”. Heleno sorriu, timidamente.

“Sempre aparece quem extrapole a legalidade”, argumentou. “O que as pessoas querem são os valores”, opinou o militar, que dividiu a mesa com o filósofo Denis Rosenfield, defensor da renúncia de Dilma.

Quando o público pôde participar do debate, uma das primeiras perguntas foi a respeito da possibilidade de Heleno liderar uma intervenção militar. Ele negou com veemência.“Existe um descompasso, sabe? Quando tem muita gente na rua, você tem Vasco, Flamengo, Fluminense... E as pessoas querem colocar para fora seus anseios. A gente atura e só faz repudiar isso. Convivi com os que estão no comando e sei que não há nada disso”.

As intervenções seguintes mencionaram outros ‘hits’ das manifestações da direita, como o avanço do comunismo, o temor do Foro de São Paulo, tudo minimizado pelos palestrantes para uma plateia cética, que segue acreditando que há um golpe em curso no Brasil. “Eu sinto náuseas ao ouvir essas respostas”, declarou Marta Serrat ao ouvir durante o evento, mais uma vez, que uma intervenção militar está fora de cogitação.

Leandro Resende
Do O Dia
No Viomundo
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A tragédia do PSDB segundo um ótimo historiador tucano

Historiador de verdade
Boris Fausto é um historiador de verdade.

Digo isso em oposição a tipos como o professor Villa, que se fantasia de historiador.

Em meus anos de Exame, contratamos Boris Fausto para dar uma série de aulas para a redação sobre a história econômica brasileira.

Foi um sucesso.

Com seu semblante de Humpty Dumpty, o personagem folclórico britânico de cara de ovo, Boris Fausto é alguém que merece ser ouvido quando se quer entender o Brasil.

Ele é simpatizante do PSDB, mas sabe separar sua simpatia pessoal dos fatos ao fazer suas análises.

Ele mostrou isso no Roda Viva, nesta segunda-feira. (vídeo abaixo)

Nem Augusto Nunes, com sua monomania antipetista, conseguiu estragar o programa.

Nunes, o Brad Pitt de Taquaritinga, tentou naturalmente manipular Boris Fausto, mas aquela era uma tarefa muito acima das suas possibilidades.

A parte mais interessante do programa foi quando Boris Fausto analisou o seu PSDB do coração.

Ele disse que o partido não formou lideranças à altura de Montoro e Covas, já mortos, e FHC, que ainda respira com vigor mas já não parece raciocinar.

Aécio, segundo ele, não conseguiu ser líder nacional até aqui, e é difícil que consiga agora, quando já vai chegando aos 60.

Boris Fausto não citou Serra nem como liderança passada e nem como liderança presente, e esta omissão provavelmente refletida foi um ponto alto de sua análise.

Ele disse também uma coisa que certamente não foi do agrado de Augusto Nunes.

O PSDB, afirmou Boris Fausto, deve se afastar completamente das manifestações pró-golpe da “extrema direita” para ser fiel a seu espírito “democrático”.

Não é, lamentavelmente, o que tem se visto.

FHC e Aécio promovem delirantemente um golpe que faria o Brasil retroceder ao estágio de republiqueta.

Igualam-se, assim, a tipos como Kim Kataguiri, do assim chamado Movimento Brasil Livre, e Marcello Reis, do Revoltados Online.

E, já que estamos no terreno da história, igualam-se também a golpistas históricos como Carlos Lacerda, o Corvo da UDN.

A UDN, para os jovens pouco familiarizados, desesperada por não conseguir o poder pelos votos, tramou o golpe de 1964.

A UDN queria que os militares varressem os líderes políticos rivais e entregassem, depois, o poder para ela.

Era como se a UDN quisesse ganhar uma batalha eleitoral pela via do WO — ausência de adversários.

Só que os militares tinham outros planos, e preferiram ficar eles mesmos no poder, em vez de entregá-lo à UDN.

O PSDB, meio século depois, é a reprodução da UDN. É, mais uma vez, a direita tentando chegar ao poder pelo tapetão, e não pela democracia dos votos.

Não há mais tanques para colocar nas ruas, e nem marines americanos na retaguarda, mas hoje existem outras maneiras de derrubar alguém.

A UDN matou a democracia em 1964, e merecidamente depois pagou o preço disso. Lacerda acabou cassado, depois de dizer que Castello Branco era mais feio por dentro do que por fora, e morreu de desgosto.

O PSDB é, hoje, uma ameaça à democracia.

Não seria, se seus líderes ouvissem Boris Fausto.

Mas não ouvem, e é.

Paulo Nogueira
No DCM



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Sucessão de ministérios

Os ministérios que serão desfeitos foram criados para atender aos partidos. Foram peças de resgate no chantagismo de cargos e verbas por apoio que tem caracterizado as relações entre bancadas parlamentares e os governos, desde Collor e com intervalo só no de Itamar. Logo, a redução do número de ministérios, além de não assegurar, por si só, a "melhor gestão" invocada, tem efeito primordialmente político. Sob a forma de novos atritos.

É mesmo porque meia dúzia de petistas o atacam pelas costas que o vice Michel Temer se afasta da intermediação de governo e Congresso?

Com Dilma, a chantagem chegou ao paroxismo. No passado houve casos escabrosos, como a nomeação de Renan Calheiros para ministro da Justiça (!) do governo Fernando Henrique, no toma lá/dá cá com o PMDB. Ou, para o mesmo cargo e pelo mesmo motivo, a do primário Iris Resende. Mas Dilma aceitou, desde o início, a redução das relações, com partidos e parlamentares, às exigências surgidas em um Congresso de baixo nível ético, cultural e político.

Não haveria verbas e ministérios para tão farta concepção de política como meio de obter proveitos, fáceis e velozes. Se não faltarem verbas, sempre desviáveis de uma finalidade útil, altos cargos voltarão a faltar, na certa. Joaquim Levy e Nelson Barbosa não sabem o que estão criando no ambiente político. Michel Temer sabe. E tem motivos para não se envolver nos previsíveis choques.

No PMDB, não é só jogo de valorização a ideia de que deve ter candidato próprio na sucessão presidencial. Só mesmo a mediocrização dos quadros explica que um partido de presença tão forte, em âmbito nacional, não passe de papel secundário nas sucessões. No PMDB de hoje, há dois reconhecidos como em condições de incluí-lo na disputa.

Citado dentro e fora do peemedebismo, o prefeito Eduardo Paes não é (ainda) um nome nacional. Mas tem uma obra incomum para apresentar e qualidades que se têm comprovado com o passar do tempo. Arrojado, transforma grande parte do Rio com um processo modernizador surpreendente, no qual se mostra um administrador de competência técnica e lucidez. Atento, sem interrupção, a tudo o que deve merecer atenção de um prefeito, trabalha para valer. Feliz. E não gasta com ilusionismos de propaganda.

Na ocasião propícia, as circunstâncias podem indicar a Eduardo Paes a preferência pela disputa ao governo do Rio. Essa, tudo indica, não seria uma solução para Michel Temer em São Paulo. Mas, para entrar na campanha pela sucessão presidencial, é o outro nome de que o PMDB dispõe hoje. Por isso, não lhe convém entrar em jogos desgastantes, como o toma lá/dá cá. Assim como também a ele, não para Dilma, é vantajoso manter ligação com o governo para as tais "macronegociações", que o projetem e prestigiem. Temer ganhou tanto quanto o governo com suas bem sucedidas intermediações recentes no Congresso.

Quem vai substituir Michel Temer e seu habilidoso coadjuvante Eliseu Padilha nas negociações canibalescas é um problema difícil. Sabe-se apenas que a solução não virá de Joaquim Levy e Nelson Barbosa, especialistas só em criar problemas para os outros, sobretudo se pessoas que não batalham por um cargo de governo, mas pela vida.

Janio de Freitas
No fAlha
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As lições da Lava Jato


O procurador Vladimir Aras é uma das melhores cabeças penais do Ministério Público Federal. Na entrevista abaixo, aborda questões que têm sido frequentemente suscitadas: os impactos das operações na economia e na vida das empresas e as maneiras de minimizar esses prejuízos, de acordo com o entendimento internacional

A entrevista é surpreendente não pelo conhecimento demonstrado por Aras — que tem reputação consolidada —, mas pelo fato de ter saído na Veja sem nenhuma distorção. Aparentemente, Aras respondeu por escrito e deve ter incluído alguma cláusula para que fosse publicada na íntegra.


Desde a primeira delação premiada da Operação Lava Jato, celebrada em 27 de agosto de 2014 pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, o juiz Sergio Moro passou a receber dezenas de recursos assinados por renomados advogados de empreiteiros, políticos, lobistas e operadores contra o uso desse recurso. Nas teses para tentar desmontar as investigações, a estratégia é sempre a mesma: comparar o delator a um traidor. Para o procurador da República Vladimir Aras, secretário de Cooperação Internacional da Procuradoria Geral da República e professor de Processo Penal da Universidade Federal da Bahia, acordo de delação premiada é o principal mecanismo para conseguir repatriar os bilhões de reais desviados pela quadrilha instalada na Petrobras. "Apenas resvalamos nos valores [desviados]. E só conseguimos por causa da tão criticada delação premiada", diz. Leia a seguir trechos da entrevista ao site de VEJA.

Depois da Lava Jato, ainda existe um lugar onde cidadãos e empresas possam se considerar imunes e impunes? 

É cada vez mais difícil porque as coisas vão mudando. Concretamente sobre a Lava Jato, por que conseguimos repatriar 485 milhões de reais da Suíça? Isso se deve a uma estrutura global porque a própria Suíça, que há dez anos era o lugar perfeito para se esconder dinheiro, passou a sofrer pressão europeia e passou a ser pressionada também pelos vínculos jurídicos que firmou em tratados. A Suíça hoje é um outro país. Na Lava Jato, está colaborando, já devolveu dinheiro e se comprometeu a devolver mais. Quando se esperaria que o Ministério Público de um país tão cioso de seu sigilo bancário viesse a ajudar o Brasil? Temos também o Gafi (O Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo) como mecanismo de pressão, a consciência dos cidadãos, que não aceitam mais que seus países sejam vistos como refúgios, a necessidade de combater o terrorismo. O mundo percebeu que essas vias para transmissão de valores para financiamento do terrorismo eram as mesmas que viabilizavam a ocultação de dinheiro sujo de narcotráfico e de corrupção. Então juntou a consciência global contra a corrupção com a consciência global contra o terrorismo. Criou-se uma força irresistível.Existem alguns países que não são cooperativos, como Somália, Coreia do Norte, estados falidos ou ditaduras absolutas. Mas fora isso não existe mais um lugar em que o criminoso possa dizer 'estou seguro'. O Uruguai está mudando, o Panamá está mudando. O fortalecimento das instituições nesses países, a democracia nesses países, a imprensa livre, a consciência pública ampliada pelo acesso à informação.

Qual proporção as autoridades já conseguiram recuperar? 

Apenas resvalamos nos valores. Só conseguimos por causa da tão criticada delação premiada, que prefiro chamar de colaboração premiada. Quando se fala de delator, já existe uma ideologia embutida no discurso, que é rotular o indivíduo como traidor. A traição veio antes. A traição não ocorre quando ele diz: 'Acabou nossa sociedade criminosa e agora eu vou colaborar com os caras'. A traição foi quando o criminoso violou o vínculo jurídico de lealdade que ele deve ter com o Estado ou o vínculo ético que ele deve ter com a sociedade como cidadão. Viver em sociedade implica um compromisso ético de solidariedade de respeitar as regras do jogo. A traição é quando o criminoso se volta para seu interesse específico egoístico e começa a matar, roubar, corromper ou ser corrompido, estuprar, fazer o que você tem vontade de fazer, independentemente do interesse alheio. Repare que o nome da colaboração premiada em italiano é "pentito", que significa arrependido. O conteúdo ético da delação não é a traição, é o do arrependimento, exatamente o contrário do discurso de advogados brasileiros famosos mais tradicionais e que não acompanharam a evolução da normatividade internacional.

O ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, um dos delatores da Lava Jato, depôs contra autoridades e hoje está livre. Até foi fotografado na praia. As delações não levam a uma sensação de impunidade? 

É uma crítica razoável. O instituto da delação premiada só se constrói com a prática. Os tribunais haverão de estabelecer parâmetros. O primeiro acordo escrito e homologado na Justiça tem quase 12 anos e foi firmado com Alberto Youssef no caso Banestado. Podemos ter acordos de imunidade em que o indivíduo não perde um dia sequer de liberdade. O problema é acharmos um equilíbrio para que não haja injustiça. Mas qual a opção que o Estado tem senão o de recorrer a esse tipo de prova testemunhal? Não é uma testemunha tradicional, mas é uma testemunha. Dizem que o delator pode mentir, mas qual a pessoa que não pode mentir?

Youssef foi o grande delator da Lava Jato e voltou a cometer crimes. Qual a credibilidade dos depoimentos de um criminoso conhecido e que o Ministério Público já sabia que tinha violado a primeira delação? 

Quantas pessoas no Brasil não fizeram nenhum acordo, foram condenadas, cumpriram pena e voltaram a cometer crimes? Não é a delação premiada que é o problema, e sim a reincidência, que é algo que diz respeito ao livre arbítrio do indivíduo, que escolhe se quer continuar cometendo crime, tendo sido condenado ou não.

A questão é a dependência do Estado do mesmo personagem. 

O que devemos nos perguntar é: aonde nos levou a colaboração premiada do Alberto Youssef? Basta ver que um dos citados na Lava Jato devolveu 100 milhões de dólares [Pedro Barusco devolveu 97 milhões de dólares depois de ter feito delação na Lava Jato]. A lógica da colaboração premiada é trocar um suspeito por mil em uma progressão que temos como estimar que vale a pena. No caso do Hildebrando Pascoal, por exemplo, tínhamos um homicida que não pegou a pena que deveria pegar. Obedeceu-se a lei, reduziu-se a pena. Se ele estivesse cometido esse crime nos Estados Unidos, ele não teria pleiteando ir para a casa depois de cumprir 16 anos. Ele estaria em uma cadeira elétrica ou condenado a uma injeção letal. Voltando à delação, compensa porque a perspectiva que o investigador faz é de ampliar o cabedal probatório, ampliar o número de réus, proteger a sociedade, desmontar um esquema de corrupção.

Advogados da Lava Jato dizem que a delação premiada virou rotina no processo. 

Não existe limite legal. Posso ter quantos réus forem identificados na prova. As delações atendem ao princípio da bilateralidade: só há acordo se a defesa topa e um juiz homologa. A delação é um compromisso universal que tem mais de dez anos. A Convenção de Palermo, que entrou em vigor no Brasil em 2004, recomenda o uso da delação premiada. A Convenção de Mérida, de 2003 e que entrou em vigor no Brasil em 2006, recomenda o uso da colaboração premiada. Há uma força de fora para dentro e a consciência social de que é inevitável que dependamos de pessoas que colaborem com a persecução criminal. A não ser quando tem uma escuta em andamento, qual informação podemos ter de um grande esquema de corrupção como este da Lava Jato senão de quem estava dentro? Podemos comparar com o caso do Hildebrando Pascoal. Uma das principais testemunhas era um dos membros do grupo de extermínio. Quem mais sabia? Quem sabia morreu. Na chacina de Unaí houve colaboradores. Alguém se recorda disso? Aí entra aquela lógica de quem é atingido pelas delações. Dizem: 'Agora é conosco e precisamos nos proteger'. Se é um pé de chinelo, o discurso é um, se é um criminoso de colarinho branco, outro. Isso vem da lógica da sociologia do crime. O sociólogo Edwin Sutherland disse uma vez que é muito mais fácil perdoarmos e justificarmos a criminalidade econômica, porque é algo que nós poderíamos cometer, do que uma barbárie, um homicídio ou estupro.

Qual é o efeito de investigações do MP para a governabilidade e para a saúde financeira das empresas suspeitas? 

Sobre governabilidade eu não posso falar, mas sobre a saúde financeira de empresas, digo que qualquer investigação tem um impacto para além do direito. Tem impacto na vida das famílias dos presos, tem impacto na sociedade, assim como a inação da Justiça também tem. Qualquer grande investigação tem impacto sobre uma série de elementos da sociedade e da economia. O Ministério Público americano tem ferramentas correlatas ao que chamamos de acordo de colaboração premiada: o NPA (non-prosecution agreement) e DPA (deferred prosecution agreement). Essas duas ferramentas são, em geral, usadas para empresas. Não são acordos de leniência, mas acordos penais também. No Brasil existe como fazer um arranjo jurídico e pegar um pouco da leniência, da Lei Anticorrupção e da lei do sistema brasileiro de defesa da concorrência e colaboração e se cria um 'frankensteinzinho' jurídico. Mas em países como os Estados Unidos temos persecução penal contra a pessoa jurídica para crimes econômicos, de colarinho branco e lavagem de dinheiro, enquanto no Brasil isso só vale para crime ambiental. Lá se pode preservar a empresa, colocá-la em stand-by e determinar que em tal prazo ela se ajuste, faça compliance, contrate auditoria, mude a diretoria e faça uma restruturação total. É como se fosse uma recuperação judicial acertada em uma perspectiva criminal.

Enquanto isso, os acordos de leniência seriam o caminho natural para empresas investigadas na Lava Jato? 

Não quero particularizar na Lava Jato, mas, em caso de provas impactantes, acachapantes, é melhor um acordo do que uma briga judicial porque preserva empregos e o mercado. Leniência é fundamental, mas é preciso que a legislação de leniência tenha também maior clareza quanto à participação do Ministério Público. Hoje qual é a segurança jurídica que uma empresa tem de fazer acordo com o Executivo e o Cade ou o Ministério Público lhe quebrarem a outra perna? Qual a segurança que se tem de fazer um acordo com os Executivos de estados e municípios sem combinar com o Ministério Público Federal ou com o Ministério Público dos estados? É preciso que haja uma regra para que todas essas entidades sentem à mesa e se comprometam com o resultado. Esse erro vem sendo repetido na lei brasileira desde a primeira lei antitruste, de 1994, que previa o acordo de leniência para práticas anticoncorrenciais, mas não vinculava o Ministério Público. O erro voltou a ser repetido 20 anos depois em 2013 na Lei Anticorrupção.

Na Lava Jato, o Brasil conseguiu trazer 485 milhões de reais que estavam depositados no exterior. Mas em outros escândalos, a impressão é a de que nunca mais veremos o dinheiro desviado. 

O que impede que o dinheiro volte é o sistema recursal. Como nosso sistema recursal é baseado em uma premissa equivocada de que temos que esperar o último recurso do último tribunal. Ainda temos casos aqui do Banestado que eu denunciei em Curitiba perante Moro, casos de 11 anos atrás de bloqueio de ativos e que o dinheiro ainda não voltou. O dinheiro foi bloqueado, o réu já foi condenado em primeiro e em segundo grau e o dinheiro não volta porque não transitou em julgado ainda. Se prescrever, o dinheiro não vai voltar.

Luís Nassif
No GGN
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