23 de ago de 2015

Zelotes: senadores investigam em CPI empresas que doaram para suas campanhas

Na mesa (da esq. para a dir.), vice-presidente da CPI, senador Donizeti Nogueira (PT-TO);
relatora da CPI, senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM); presidente da CPI, senador Ataídes
Oliveira (PSDB-TO)
Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado
Quase todos os senadores titulares da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada para investigar o esquema de corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) já tiveram campanhas políticas financiadas pelas mesmas empresas investigadas pela Operação Zelotes. Dos 11 titulares da comissão, 10 já receberam algum tipo de ajuda financeira de cinco empresas que estão entre as que foram alvo da investigação.

A reportagem do Sul21 comparou a lista com os nomes de 74 empresas que teriam se beneficiado do esquema divulgada no final de março pelo jornal Folha de São Paulo com as prestações de contas disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dos integrantes da CPI ou dos titulares do cargo — pois entre os membros da comissão estão os suplentes do senador cassado Demóstenes Torres (GO) e da atual ministra da Agricultura, Kátia Abreu, entre outros que não foram eleitos diretamente.

Há registros de doações da Gerdau, da Cervejaria Petrópolis (dona da cerveja Itaipava), da Construtora Camargo Correa, do Banco Bradesco e da Coopersucar nas duas últimas eleições. Elas são suspeitas de se beneficiarem em esquema de pagamento de propina a fiscais para obter votos favoráveis nos julgamentos do Carf e abater dívidas com o fisco.

Ataídes Oliveira | Foto: Edilson Rodrigues /Agência Senado
Ataídes Oliveira
Foto: Edilson Rodrigues /Agência Senado
Até agora, a CPI não ouviu nenhum representante das empresas que doaram para as campanhas dos senadores. O requerimento de convocação do presidente da Gerdau, por exemplo, foi apresentado pelo senador Ataídes Oliveira e ainda não tem data para ser votado na comissão. Fontes confirmaram ao Sul21 que a companhia de aço gaúcha será denunciada pelo Ministério Público Federal (MPF) no início de setembro junto com outras cinco empresas: Grupo RBS, Companhia Bozano, Banco Safra, Banco Santander e Mitsubishi.

As contribuições das empresas Gerdau, Cervejaria Petrópolis, Camargo Correa, Bradesco e Coopersucar foram feitas para as campanhas de 2010 e 2014 de forma direta (da empresa para o comitê de campanha do candidato), através da divisão dos recursos dos diretórios estaduais e nacionais dos partidos, em troca de serviços como aluguel de carros ou, no caso de três suplentes, para as campanhas dos titulares da vaga. No total, as campanhas de 10 senadores dividiram mais de R$ 5 milhões oriundos de empresas investigadas pela Zelotes.

As doações foram feitas de forma legal e estão registradas nas prestações de contas das campanhas dos respectivos candidatos disponíveis no site do TSE. A Gerdau, a construtora Camargo Correa e o banco Bradesco foram as que mais doaram e as campanhas dos senadores José Pimentel (PT/CE), Humberto Costa (PT/PE) e Otto Alencar (PSD/BA) receberam as maiores quantias.

Três senadores integrantes da CPI receberam doações para suas campanhas do ano passado: Acir Gurgacz (PDT/RO), Simone Tebet (PMDB/MS) e Otto Alencar (PSD/BA). A campanha da hoje ministra da Agricultura, Katia Abreu (PMDB/TO), também recebeu contribuições de empresas investigadas. A vaga dela é ocupada pelo senador Donizeti Nogueira (PT/TO), integrante da CPI.

No caso do presidente da CPI, senador Ataídes Oliveira (PSDB/TO), não há registro de doações de empresas investigadas para a campanha do falecido João Ribeiro, de quem Ataídes era suplente. No entanto, na prestação de contas da campanha do hoje senador para o governo do Tocantins, em 2014, há registros de seis doações do Bradesco Leasing, braço de locação de veículos do banco. Já a campanha da senadora Vanessa Graziotin (PCdoB/AM), relatora da CPI, recebeu R$ 500 mil em setembro de 2014 da construtora Camargo Correa. A empresa, segundo as investigações, é suspeita de se beneficiar em processos que giram em torno de R$ 668 milhões.

Senador José Pimentel | Foto: Agência Senado
Senador José Pimentel
Foto: Agência Senado
Outros dois senadores receberam doações diretas e indiretas para as campanhas de 2010: José Pimentel (PT/CE) e Humberto Costa (PT/PE). As campanhas dos senadores Demóstenes Torres (DEM/GO) e Armando Monteiro (PTB/PE), cujas vagas são ocupadas hoje, respectivamente, por Wilder Morais (DEM/GO) e Douglas Cintra (PTB/PE), também receberam recursos das empresas suspeitas. Os dois suplentes hoje são titulares e integram a CPI do Carf.

A Gerdau, por exemplo, doou R$ 550 mil para as campanhas de três senadores em 2010: o senador Armando Monteiro (PTB/PE) recebeu R$ 300 mil e a vaga dele hoje é ocupada pelo senador Douglas Cintra (PTB/CE), integrante da CPI; o senador José Pimentel (PT/CE) recebeu da companhia de aço R$ 200 mil; a campanha do senador cassado Demóstenes Torres (GO), cuja vaga hoje é do senador Wilder Morais (DEM/GO), recebeu R$ 50 mil; Os mesmos, hoje, investigam se a empresa se beneficiou do esquema de corrupção no Carf em processos que giram em torno de R$ 1,2 bilhão.

Procurada pela reportagem, a empresa diz que não comenta processos em andamento. “Com base em seus preceitos éticos, a Gerdau não concedeu qualquer autorização direta ou indireta para que seu nome fosse utilizado em pretensas negociações ilegais, repelindo veementemente qualquer atitude que tenha ocorrido com esse fim”, diz a nota da empresa.

“Do ponto de vista ético, é condenável que um senador investigue as empresas que financiaram suas campanhas”, afirma o cientista político Rubens Figueiredo, da Fundação Espaço Democrático. No entanto, para ele, além do financiamento de campanhas por empresas privadas ser legal, “as empresas que contribuem, como se diz, ‘por dentro’, são identificadas e vistas com suspeição”. Figueiredo levanta a hipótese de que esse fato acabe gerando “um fato inibidor de qualquer tentativa de deslize” como, por exemplo, uma avaliação mais benevolente dos senadores sobre essas empresas.

Já o cientista político Antonio Lassance acredita que, em qualquer situação, quem investiga e tem relação com o investigado deve se declarar impedido. “Do contrário, é jogo de comadres. Mas isso é apenas uma conduta que se espera, não é uma regra imposta pelo Congresso a seus parlamentares”, afirma. Lassance explica que o Código de Ética impede o parlamentar de relatar matéria de interesse de pessoa física ou jurídica que tenha contribuído para o financiamento de campanha eleitoral do parlamentar. “As CPIs mal têm uma regulamentação específica para impedir que elas sejam usadas de forma inapropriada por parlamentares paus mandados de pessoas ou de empresas diretamente interessada em seus resultados. Deveriam ter. Já passou da hora”, defende.

Com a Operação Lava Jato, o tema do financiamento de campanhas voltou à pauta em Brasília. Antonio Lassance considera “inaceitável” o peso que se dá a investigação da Lava Jato “enquanto a Zelotes, cujo prejuízo aos cofres públicos é extraordinariamente maior, tem sido deixada às traças”. Para ele, a imagem dos partidos e parlamentares financiados por empresas privadas está sob suspeita. “A ideia óbvia de que não existe almoço grátis vale para todos aqueles que acabam aceitando que suas campanhas tenham dinheiro de empresas”, explica. Já o cientista político Rubens Figueiredo acredita que a questão não é se o financiamento é público ou privado. Para ele, é preciso estabelecer mecanismos de vigilância e controle, com punições em casos de transgressão. “A ousadia é irmã siamesa da impunidade. De uma maneira geral, os políticos, no Brasil e em muitos países, são muito mal vistos pela população. E as questões referentes ao financiamento são um elemento a mais a alimentar a má imagem”, argumenta Figueiredo.

Os 11 senadores titulares da CPI foram procurador por e-mail pela reportagem para comentar os dados, mas apenas quatro deles responderam via assessoria de imprensa. O presidente da comissão afirmou que a CPI tem tratado todos os investigados da mesma forma, tenham ou não contribuído para campanhas eleitorais. “A postura de cada membro da CPI demonstra que todos estamos atuando com absoluta isenção”, diz a nota enviada pela assessoria do senador Ataídes Oliveira.

Divulgação
Vanessa Grazziotin
Foto: Divulgação
A relatora da CPI afirma que todas as doações recebidas foram declaradas junto à Justiça Eleitoral e dentro das normas legais vigentes. Para a senadora Vanessa Grazziotin, “não há nenhum empecilho ou constrangimento em investigar quaisquer empresas ou pessoas físicas que possam ter cometido delitos”. “Acima de tudo está nosso compromisso com a verdade e com a elucidação e punição de responsáveis por delitos, sejam eles de onde forem”, defende a senadora.

O senador Otto Alencar afirmou, também via assessoria, que não conhece nenhum dirigente das empresas citadas. Ele também lembra que as doações que recebeu vieram via comitê estadual. “Exatamente por isto, não se sente, de forma alguma, constrangido ou impedido de investigar e votar pela condenação de nenhum dos implicados na sonegação fiscal detectada na Operação Zelotes da Polícia Federal”, afirma o senador baiano.

O senador petista José Pimentel alegou que todas as doações são compatíveis com a lei e “não há constrangimento em investigar quem quer que seja”. Sua assessoria lembra que o senador sempre defendeu o financiamento público porque entende que esta é a melhor forma de baratear o custo das campanhas eleitorais e dar igualdade de condições a todos os candidatos. “Mas, enquanto não houver maioria para promover essa mudança, as doações empresariais continuarão acontecendo para todos os candidatos e partidos políticos”, diz a nota enviada por sua assessoria.

Senador Ataídes Oliveira, presidente da CPI
Recebeu seis contribuições da empresa Bradesco Leasing, braço de locação de veículos do Banco Bradesco, investigado pela Operação Zelotes. As doações foram feitas em outubro de 2014 para a campanha do hoje senador ao governo do Tocantins. No total, o Bradesco doou R$ 135 mil à campanha. Não foram encontrados registros de doações de empresas investigadas à campanha do senador João Ribeiro, que morreu após eleito e do qual Ataídes era suplente.

Senadora Vanessa Grazziotin, relatora da CPI
Recebeu da construtora Camargo Correa doação de R$ 500 mil em duas parcelas para sua campanha ao Senado em 2010. De acordo com a prestação de contas disponível no site do TSE, foram duas parcelas de R$ 250 mil pagas em espécie em setembro de 2010. A construtora é investigada na Operação Zelotes por suspeita de se beneficiar em processos que giram em torno de R$ 668 mil.

Senador Donizeti Nogueira, vice-presidente da CPI
Suplente da senadora Katia Abreu o senador do PT não recebeu doações diretas das empresas investigadas pela Zelotes. No entanto, a campanha da atual ministra da Agricultura recebeu R$ 350 mil de contribuições do Bradesco em agosto e outubro do ano passado. São R$ 150 mil provenientes da Bradesco Capitalização e R$ 200 mil da Bradesco Vida e Previdência. No sistema do TSE, as doações são registradas como oriundas do Comitê Financeiro Único. O banco é suspeito de se beneficiar do esquema instalado no Carf em processos que envolvem R$ 2,7 bilhões.

Senador José Pimentel, titular da CPI
Autor de boa parte dos requerimentos de convocação de testemunhas para depor na comissão, o senador José Pimentel foi eleito em 2010 pelo Ceará. Na campanha daquele ano, recebeu contribuições de duas empresas investigadas pela Operação Zelotes. A construtora Camargo Correa doou R$ 1 milhão em três parcelas entre agosto e setembro de 2010 e a Gerdau doou R$ 200 mil. Segundo a denúncia, a Gerdau é investigada por suspeita de se beneficiar do esquema em processos que totalizam R$ 1,2 bilhão.

Douglas Cintra | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
Douglas Cintra
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
Senador Humberto Costa, titular da CPI
Eleito em 2010 pelo estado de Pernambuco, o senador Humberto Costa recebeu R$ 1 milhão da construtora Camargo Correa como contribuição para sua campanha. Foram quatro parcelas entre agosto e setembro de 2010.

Senador Acir Gurgacz, titular da CPI
Recebeu 25 doações do Bradesco Vida e Previdência S/A identificadas no sistema do TSE como originárias do Diretório Estadual do seu partido, o PDT. Entre as doações, algumas de baixo valor (R$ 412,50 e R$ 313,00 são valores que se repetem várias vezes) e outras maiores, como os R$ 52 mil doados em setembro de 2014. No total, a campanha do senador recebeu do Bradesco aproximadamente R$ 103 mil.

Senadora Simone Tebet, titular da CPI
A campanha da senadora Simone Tebet recebeu uma doação de R$ 50 mil da Copersucar, cooperativa investigada na Operação Zelotes. O depósito em cheque foi feito em setembro de 2014, durante a campanha eleitoral. Consta ainda no sistema do TSE que a campanha de Tebet também recebeu contribuição da Usina Eldorado S/A no valor de R$ 70 mil. Na lista das investigadas, consta a empresa “Eldorado”, sem especificação do ramo de atividade. Assim, não é possível saber, nesse caso, se a empresa investigada é a mesma que doou para a campanha da senadora.

Senador Otto Alencar, titular da CPI
A campanha de Otto Alencar ao Senado, em 2010, recebeu doações de duas empresas suspeitas no esquema do Carf. A Cervejaria Petrópolis e o Bradesco contribuíram de forma indireta com a campanha do senador baiano. De acordo com os dados da prestação de contas disponíveis no site do TSE, a Cervejaria Petrópolis fez 44 doações à campanha de Alencar totalizando mais de R$ 1,2 milhão. Já o Bradesco contribuiu via Bradesco Leasing com cerca de R$ 23 mil divididos em cinco doações. Todas as doações têm como originária a campanha de Rui Costa para o governo da Bahia.

Senador Helio José, titular da CPI
Entre os 11 senadores titulares da CPI do Carf, o suplente do atual governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, é o único que não recebeu doações de empresas investigadas. Não foram encontrados registros na prestação de contas das campanhas de Rollemberg ao Senado, em 2010, e nem na campanha de Helio José para Deputado Distrital, em 2014, quando ele obteve apenas seis votos e gastou, no total, pouco mais de R$ 1 mil.

Senador Wilder Morais, titular da CPI
Wilder Morais é senador desde que o titular de sua chapa, Demóstenes Torres, foi cassado em 2012 acusado de ligação com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Menos de dois dias após Demóstenes perder seu mandato, Wilder foi empossado na presença de apenas quatro senadores. Três empresas hoje investigadas doaram para a campanha do ex-senador cassado: a Camargo Correa doou R$ 200 mil em agosto de 2010, a Gerdau doou R$ 50 mil em setembro e a Copersucar, cooperativa de produtores de cana de açúcar de São Paulo, contribuiu com R$ 100 mil reais também em setembro.

Senador Douglas Cintra, titular da CPI
Senador da República desde julho do ano passado, quando assumiu a vaga deixada pelo senador eleito Armando Monteiro, atual ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Douglas Cintra, assim como os demais suplentes que assumiram a titularidade da cadeira no Senado, também não recebeu contribuições diretas das empresas investigadas. Mas a campanha de Monteiro em 2010 recebeu R$ 300 mil de contribuição da Gerdau, uma das principais investigadas na Zelotes. Foram três doações entre agosto e setembro daquele ano.

Lucas Rohan
No Sul21
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Não há motivos para tirar Dilma do cargo, diz presidente do Itaú Unibanco

O presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setúbal, em SP
Claudio Belli
Uma das vozes mais influentes do empresariado brasileiro, o banqueiro Roberto Setúbal faz uma defesa contundente da permanência da presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. Impeachment por corrupção, "pelo que vi até agora, não tem cabimento", afirma o presidente do Itaú Unibanco.

"Pelo contrário, o que a gente vê é que Dilma permitiu uma investigação total sobre o tema." Outro argumento usado pela oposição, as manobras para melhorar as contas do governo (pedaladas fiscais), podem "merecer punição", mas não são "motivo para tirar a presidente", segundo o banqueiro.

Maior banco privado do país, o Itaú foi fortemente hostilizado pelo PT na campanha presidencial de 2014.

Na visão de Setúbal, tirar a presidente do poder agora "criaria uma instabilidade ruim para nossa democracia". Na semana passada, entidades do setor econômico fizeram manifestações públicas pela estabilidade do país.

A seguir, trechos da entrevista à Folha

A presidente Dilma está sofrendo ameaça de um processo de impeachment, pressão por sua renúncia e manifestações de rua contra seu governo. O sr. vê motivos para tirá-la do Planalto?

Nada do que vi ou ouvi até agora me faz achar que há condições para um impeachment. Por corrupção, até aqui, não tem cabimento. Não há nenhum sinal de envolvimento dela com esquemas de corrupção.

Pelo contrário, o que a gente vê é que Dilma permitiu uma investigação total sobre o tema [corrupção na Petrobras]. Era difícil imaginar no Brasil uma investigação com tanta independência. A Dilma tem crédito nisso.

E as pedaladas fiscais?

Isso é grave e pode merecer algum tipo de punição. Mas não me parece ser motivo para tirar a presidente. Até porque presidentes anteriores a ela passaram por situações semelhantes. Seria um artificialismo querer tirar a presidente neste momento. Criaria uma instabilidade ruim para nossa democracia.

Empresários dizem que, se o vice Michel Temer entrasse no lugar de Dilma, o país teria mais chance de sair da crise...

Não se pode tirar um presidente do cargo porque ele momentaneamente está impopular. É preciso respeitar as regras do jogo, precisa respeitar a Constituição. Eu sou a favor da Constituição.

Como avalia o comportamento da oposição nessa crise?

Não vou falar especificamente da oposição. Mas o que está faltando é discutir o país. Há uma grande discussão sobre poder e pouca discussão sobre o país. Precisamos debater quais as reformas necessárias para que o país possa se recuperar. Só estou vendo muita discussão de poder pelo poder.

Os empresários saudaram Joaquim Levy [Fazenda] como ideal para tirar o país da crise econômica. Por que ele não está dando certo?

Ele está fazendo as coisas certas, mas os efeitos positivos ainda não vieram. Vai muito além da capacidade de um ministro, sozinho, resolver os problemas do país. Ele precisa de apoio político tanto da presidente como do Congresso.

O governo usou bancos públicos novamente para salvar a economia, política já criticada por Levy. Não é um sinal de que o ministro está fraco?

Não vejo isso como uma direção do governo — se ficar nisso, claro. Acho uma medida pontual, sem muito impacto na economia.

A Agenda Brasil, apresentada como um pacote de reformas para empurrar o país para a frente, tem mais de 40 medidas. É para ser levada a sério?

Nessas medidas há passos necessários que precisamos dar, como a reoneração da folha de pagamentos [aumento de tributos para alguns setores]. Mas são medidas menores para ir levando o país e sair um pouco dessa crise.

Para que o país volte a crescer a um ritmo mais elevado, precisamos de reformas mais amplas. Mas isso não foi tratado na campanha presidencial do ano passado e também não é isso o que o Congresso está discutindo hoje.

Quais são essas reformas?

A reforma política é muito importante. O país tem mais de 30 partidos, isso não funciona. Não vejo nenhuma razão para ter mais do que seis, oito, no máximo dez agremiações. Dá para acomodar perfeitamente todas as linhas ideológicas neles.

A necessidade dos governos de ter maioria no Congresso obriga a alianças muito amplas e negociações que nem sempre são boas para o país. Esse tipo de concertação é uma das razões para a situação em que estamos.

O governo acaba fazendo tantas concessões para satisfazer tantos partidos que desfigura os projetos, leva a ineficiências, a decisões erradas e interesses muito pequenos.

Onde mais o sr. mexeria?

A reforma trabalhista.

O Brasil é um dos países com mais ações trabalhistas no mundo. No Japão há 7.000 ações trabalhistas. Nos Estados Unidos, não chegam a 70 mil. No Brasil, temos alguns milhões.

Criou-se uma indústria de ação trabalhista no Brasil, que é um negócio que precisa ser repensado.

Não seria por que aqui muitas empresas não respeitam os direitos de seus trabalhadores?

Isso tudo é muito em razão de uma legislação que nenhuma empresa consegue cumprir. O Itaú tem enorme dedicação a isso, somos superlegalistas, mas simplesmente é impossível cumprir todos os detalhes.

Para mim, o primeiro passo seria permitir que os sindicatos negociassem diretamente com as empresas contornos sobre a legislação trabalhistas. Não é mudar a lei, mas permitir que setores diferentes negociem em função das suas características, das suas peculiaridades, permitir negociação setor a setor.

Tem mais?

Tem muita coisa. É essencial criar uma agenda para melhorar a produtividade, e, para isso, é inevitável passar por um processo de maior abertura econômica.

Agora, uma coisa que está começando a mudar no Brasil, e é superimportante, é a questão da impunidade.

A lei antes parecia não ser igual para todos. Agora estamos avançando nisso.

O sr. identifica a Operação Lava Jato como um passo nessa direção?

Sim. A Lava Jato só foi viável por causa de três leis bastante recentes, nas quais se baseia toda a investigação: a lei da delação premiada, que foi aperfeiçoada, já no período Dilma; a lei anticorrupção; a lei de lavagem de dinheiro.

Essas três leis tornaram possível a investigação e a caracterização dos crimes de corrupção que estamos vendo aqui.

Com a estrutura legal de cinco ou dez anos atrás — a época do mensalão, por exemplo —, não seria possível um enquadramento tão adequado quanto estamos conseguindo hoje. Vejo uma evolução nesse campo.

Voltando a nossa crise do momento, o sr. acha que a situação vai piorar?

A saída da crise será longa, nosso período de recuperação será lento.

Estamos vivendo aquele momento mais difícil em que as medidas duras foram tomadas e a gente ainda não tem nenhum benefício delas.

Os economistas do próprio Itaú estimam queda de 1% do PIB no ano que vem. Quando o sr. acha que o país sai da recessão?

A situação econômica é difícil, mas eu também olho para a frente e vejo algumas coisas melhorando. A balança de pagamentos começou a reagir e as exportações estão crescendo. Acho que o setor externo vai puxar a recuperação e pode haver alguma surpresa nessa área. Ainda não tenho certeza de que o ano que vem terá PIB negativo.

A recessão vai jogar a taxa Selic para baixo daqui a pouco? Ou os juros ainda vão continuar altos por muito tempo?

O Banco Central está fazendo uma política monetária restritiva, que a meu ver era necessária.

Difícil dizer qual o momento correto de reduzir os juros, mas acho que não é agora.

A inflação ainda está em níveis elevados.

Por que o Itaú não fez oferta pelo HSBC? Para muitos analistas, vocês tentariam comprar o banco para não deixá-lo cair nas mãos do Bradesco.

A gente fez um lance, mas não foi agressivo.

Nossa estratégia é investir em tecnologia como caminho para o futuro. Estamos investindo mais em agências digitais, em serviços digitais para os clientes, via aparelho celular e internet, e menos na rede de agências.

Já servimos assim mais de 1 milhão de clientes e queremos aumentar esse número rapidamente. O plano é crescer mais por meio de tecnologia do que por abertura de agências.

Ainda há bancos para comprar aqui?

No Brasil, a última grande instituição para ser comprada foi o HSBC. No exterior continuamos com nossa agenda de expansão na América Latina. Já estamos no Chile, na Colômbia, na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. Queremos ter banco de varejo também no México e no Peru.

A procura de empresas interessadas em vender seus ativos para enfrentar a crise aumentou?

Neste momento, quem estiver disposto a adquirir ativos maiores tem oportunidades bastante interessantes.

Mas quem são os possíveis compradores?

Investidores estrangeiros, por exemplo. O ajuste do câmbio aumenta o interesse deles. É evidente que o Brasil tem riscos elevados no momento, mas tem coisas bastante atrativas que podem ser adquiridas.

O que os estrangeiros dizem sobre o Brasil?

Evidente que há incerteza em relação ao cenário atual, tanto político quanto econômico. Mas eles também reconhecem que o câmbio está interessante para investir no Brasil e sabem que há retornos elevados em ativos que estão à venda.

À medida que a economia comece a dar sinais de recuperação e o cenário político se estabilize, as coisas tendam a melhorar.

Seu pai foi prefeito de São Paulo e ministro do governo Sarney. E sua irmã, Neca, foi uma das principais coordenadoras da campanha de Marina Silva à Presidência no ano passado. Como é a sua relação com a política?

Distante. Adoro meu país e acredito muito nele, mas acho que minha contribuição é do lado do setor privado. Acho que, de certa forma, contribuo, administrando o banco. E não me vejo envolvido na política.

Sua irmã foi muito hostilizada pelo PT e pela campanha de Dilma na última eleição. Isso chegou a afetar o banco?

Nada. Fizemos até pesquisa com clientes para ver se aquilo estaria tendo alguma influência. Zero. E minha irmã foi muito cuidadosa, sempre evitou fazer qualquer ligação com o banco. A imprensa e os políticos é que faziam mais.

Neca acredita nas coisas dela de forma legítima. Ela milita na área de educação desde sempre. Faz um trabalho belíssimo, reconhecido. Enfim, acho que ela ainda tem a intenção de contribuir para o país no setor em que atua. Infelizmente foi mal compreendida.
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A guerra primitiva dos paulistanos contra a bicicleta e contra o progresso

Punido por tentar tirar SP do atraso
Você mede hoje o avanço social de uma grande cidade pelas bicicletas.

Quanto mais ciclistas, mais avançada.

Copenhague e Amsterdã são modelos mundiais.

Londres, Nova York e Paris se empenham tenazmente para aumentar o número de bicicletas nas ruas e reduzir o de carros.

São Paulo, miseravelmente, ficou para trás, por conta de administrações ineptas.

E quando aparece enfim um prefeito disposto a corrigir um atraso humilhante ele é recebido não com aplausos — mas com uma camada selvagem de resistência.

Um dia vamos tentar entender como São Paulo se tornou uma cidade tão infestada de pessoas que abominam inovações e mudanças.

O túmulo do samba se converteu no túmulo das novidades.

Haddad não inventou a roda. Estava na cara, quando ele assumiu a prefeitura, que o maior drama da cidade era a mobilidade.

Se antecessores como Serra e Kassab não viram isso é porque a incompetência deles é desumana.

Haddad viu, portanto, o óbvio.

E agiu.

Sob o estímulo de uma mídia cujo cérebro estacionou no século passado, os donos de carros começaram a criar problemas sobre problemas.

É como se a cidade pertencesse a eles.

Em sua cegueira egoísta, não se deram conta de que a diminuição dos carros nas ruas seria um bem para todos.

Haddad teve a explicar a jornalistas ignorantes como o professor Villa que primeiro você tem que abrir ciclovias para depois aparecerem e se multiplicarem os ciclistas.

Nas eleições municipais do ano que vem, é possível que Haddad seja punido por ter tentado tirar São Paulo do primitivismo em termos de bicicletas.

Mas a história da cidade reconhecerá nele um espírito sintonizado com o sue tempo.

Pois não é possível que, indefinidamente, os paulistanos serão cobertos pelo grau de obtusidade e reacionarismo que é hoje a marca de uma metrópole que foi sempre tão dinâmica e aberta a novas ideias.

Paulo Nogueira



O dia em que a avenida Paulista se transformou em um grande parque

Pela segunda vez a prefeitura de São Paulo fechou a avenida Paulista para carros e abriu para pedestres e o resultado foi surpreendente; confira imagens

Quem passou pela avenida Paulista neste domingo (23) presenciou uma cena que provavelmente nunca foi vista na história da cidade: sua principal via interditada para carros e ocupada por ciclistas, pedestres, famílias fazendo piquenique, pessoas tomando sol ou simplesmente passeando. Ou seja, praticamente um parque.

Essa é a segunda vez que o prefeito Fernando Haddad (PT) decide abrir a avenida Paulista somente aos pedestres e ciclistas em um domingo. A ideia é estudar os impactos para que, em breve, a via passe a ser oficialmente fechada para carros todos os domingos.

De acordo com Haddad, no futuro cada suprefeitura da cidade deve contar com uma via fechada aos domingos para o lazer.

“Toda subprefeitura terá uma rua (fechada). Na periferia temos preocupação maior porque é onde mais falta área de lazer”, disse ao inaugurar, também neste domingo (23), a ciclovia na avenida Bernardino de Campos, que também foi fechada.

Apesar de muitas críticas vindas principalmente de motoristas contrários ao fechamento da Paulista, o resultado deste domingo foi surpreendente e espontâneo. Confira abaixo algumas imagens:

Foto: Reprodução/Facebook Pelo Centro
Foto: Reprodução/Facebook Pelo Centro
Foto: Reprodução/Facebook Não Só o Galo
Foto: Reprodução/Facebook Não Só o Galo
Foto: Reprodução/Facebook Ana Estela Haddad
Foto: Reprodução/Facebook Ana Estela Haddad
Foto: Reprodução/Facebook Não Só o Galo
Foto: Reprodução/Facebook Não Só o Galo
Foto: Reprodução Facebook Cidade Ativa
Foto: Reprodução Facebook Cidade Ativa
Foto: Reprodução/Facebook Ricardo Baitelo
Foto: Reprodução/Facebook Ricardo Baitelo
Foto: Reprodução/Facebook Cidade Ativa
Foto: Reprodução/Facebook Cidade Ativa
Foto: Reprodução/Facebook Martins Fontes
Foto: Reprodução/Facebook Martins Fontes
Foto: Reprodução/Facebook Catraca Livre
Foto: Reprodução/Facebook Catraca Livre

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Não foi na ciclovia: como a lógica e a verdade foram atropelados sob o Minhocão

A ciclovia sob o Minhocão
A ciclovia sob o Minhocão
Após uma perícia, a Polícia Civil de São Paulo confirmou que o zelador Florisvaldo Carvalho Rocha, de 78 anos, morreu no corredor de ônibus sob o Elevado Costa e Silva.

Essa era a versão do administrador Gilmar Raimundo de Alencar, que atropelou Florisvaldo com sua bicicleta. “Se eu cometi alguma conduta incorreta, preciso assumir a responsabilidade”, disse Gilmar.

A tragédia suscitou um debate histérico, surreal e oportunista.

Há três dias, antes de qualquer laudo, antes de qualquer prova, os suspeitos de sempre cravaram que o acidente aconteceu na ciclovia — e que o assassino, por extensão, era o prefeito obcecado com elas, Fernando Haddad.

Na Jovem Pan, o historiador Marco Antonio Villa achou um genial neologismo: “ciclomortes”. Villa discursou que “um senhor estava atravessando na faixa intermediária, que antigamente era só uma calçada, hoje é calçada e ciclovia, acabou sendo atropelado e veio a falecer”.

É uma “contabilidade macabra”, definiu. “Quem é o responsável? O prefeito”.

Para o delegado Lupércio Dimov, que estava tocando o caso, “a prefeitura tem que se preocupar com campanhas educativas, não impor as coisas, colocar uma ciclovia e pronto”.

Como fica esse pessoal agora que se sabe que Florisvaldo não morreu na ciclovia? Alguém vai se retratar pela torcida para que o pior acontecesse?

Um relatório divulgado pela CET em maio aponta que houve 538 óbitos por atropelamento em 2014. A bicicleta aparece com duas ocorrências e os carros com 200. Duzentos.

Há uma questão aí: o paulistano a pé é um pária, um coitado. Mas, se você quer mesmo protegê-lo, o vilão da história é o automóvel. Nos últimos 50 anos, ninguém nunca reclamou de uma avenida, um viaduto ou uma marginal, mal ou bem planejados. Ser esmagado por um Honda Civic está dentro do script.

Gente como Villa e Datena dá uma contribuição enorme para atirar o nível do debate sobre mobilidade urbana no lixo, enfiando burrice, desinformação e ódio goela abaixo de seu público.

São Paulo é o lugar onde a lógica e a chance de uma conversa civilizada sobre o trânsito são atropeladas todos os dias pelos mesmos irresponsáveis.

Kiko Nogueira
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Inverdades sobre o aeródromo de Cláudio


O jornalista norte-americano Henry Louis Mencken, mestre das tiradas antológicas, cunhou uma, há quase um século, que caberia perfeitamente no Brasil destes tempos: "É difícil acreditar que um homem esteja dizendo a verdade quando você sabe muito bem que mentiria se estivesse no lugar dele".

Lembrei-me da frase de Mencken ao ler o artigo do deputado federal Domingos Savio (PSDB), publicado neste espaço no domingo passado (16), sobre a construção do aeroporto de Cláudio, em Minas Gerais, erguido em terras de um familiar do senador Aécio Neves (PSDB). A obra do Executivo mineiro foi concluída em 2010, no final do segundo mandato do tucano no Estado.

Citando o recente arquivamento de investigação do Ministério Público de Minas Gerais, que pela segunda vez apurou o caso e não encontrou irregularidades na construção da pista, o deputado cobra reparação a Aécio, que teria sido injustiçado por uma "falsa acusação". Classificando a reportagem de "ficção", ele escreve que a história "não é", como "nunca foi", verdadeira.

Ao defender o aliado, o presidente do PSDB de Minas omite e falseia deliberadamente informações que foram publicadas na Folha.

Logo ele, cuja atuação parlamentar se entrelaça com a história do aeródromo: o deputado batizou o local, por meio de lei aprovada no Legislativo mineiro, com o nome do finado Oswaldo Tolentino, um dos tios-avôs de Aécio e irmão de Múcio, o proprietário do terreno desapropriado para o aeroporto.

Todos os detalhes do episódio — a obra ao custo de R$ 14 milhões, a antiga pendência judicial pela posse da área, o funcionamento irregular e privado da pista, que era controlada por familiares de Aécio — foram relatados e documentados em reportagem de minha autoria, publicada em julho de 2014.

A 6 km da pista está a fazenda da Mata, da família do senador e um de seus refúgios preferidos, descrita por ele, à revista "Piauí", como o "meu Palácio de Versalhes".

Além de informações extraídas de documentos judiciais e do governo estadual — todos públicos —, duas fontes primárias foram fundamentais para sustentar o relato exposto no jornal. As declarações, gravadas, foram apagadas da memória de conveniência do deputado.

Domingos Savio afirma que, à época das reportagens, a gestão do aeroporto já era de responsabilidade da Prefeitura de Cláudio, que teria também as chaves da pista.

O que emerge da reportagem é outra coisa: o chefe de gabinete da prefeitura não soube explicar o funcionamento do aeroporto, pois este não era controlado pela administração municipal, mas, sim, pela família de Múcio Tolentino.

O filho de Múcio confirmou que a família tinha a posse das chaves. Disse que abriria a pista para quem precisasse utilizá-la, sem custo algum, e ressaltou: "O aeroporto, para todos os efeitos, ainda é nosso".

Quatro anos depois de ser construído, era esse o panorama do aeródromo: além do controle privado, ele operava de forma irregular, sem a homologação da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

Todos esses fatos não sofreram reparo, nem judicial nem editorial. Houve só um equívoco, corrigido na seção "Erramos" do jornal: o aeródromo de Cláudio tem capacidade para receber aeronaves com no máximo 18 passageiros, e não 50, como citado na primeira reportagem.

O arquivamento do caso, que em si nada significa, não apaga os fatos levantados e comprovados em uma investigação jornalística legítima e autônoma.

O engraçado é que a segunda investigação da Promotoria mineira, instaurada após a revelação da Folha, ignorou todos os elementos expostos na reportagem. Talvez os promotores tenham alguma explicação.

Como diria Mencken, "pode ser um pecado pensar mal dos outros, mas raramente será um engano".

Lucas Ferraz, é repórter da Folha, autor da reportagem que revelou o caso do aeroporto de Cláudio (MG)
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Esclarecimentos: Sérgio Moro entra com ação contra o blog Limpinho & Cheiroso


Antes de mais nada, agradeço muito as mensagens de apoio e solidariedade recebidas pessoalmente, pelas redes sociais e por alguns blogs.

Na tarde de sexta-feira, dia 21/8, um oficial de justiça do Ministério Público Federal de São Paulo foi à sede (minha casa) do blog Limpinho & Cheiroso entregar uma intimação do doutor Sérgio Fernando Moro para eu prestar “esclarecimentos em procedimento penal instaurado pela suposta prática de crime contra a honra de servidor público em exercício da função, de acordo com os fatos narrados nos documentos em anexo” [leia a íntegra no final deste post].

No documento PR-SP-00058151/2015 – Intimação 73/2015, assinado pela doutora Heloisa Maria Fontes Barreto, procuradora da República em São Paulo do Ministério Público Federal, o doutor Sérgio Moro diz que, devido a seu envolvimento na Operação Lava-Jato, são publicadas notícias das mais variadas posições.
“A abordagem [das notícias] tem sido majoritariamente favorável aos trabalhos realizados.

O ora requerente [Sérgio Moro] acredita que a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa são fundamentais ao exercício da democracia.

[…]

Não obstante, principalmente em alguns blogs da internet de reputação duvidosa têm sido veiculadas afirmações falsas, caluniosas, difamatórias e injuriosas a respeito do ora requerente [Sérgio Moro].”
Depois disso, o documento afirma que outros blogs, além do Limpinho, veiculam “afirmações falsas, caluniosas, difamatórias e injuriosas” contra ele. Sérgio Moro também avalia que as pessoas atacadas no post têm reputação ilibada e o “advogado Irivaldo Joaquim de Souza é um dos homens mais honrados que ele já conheceu”. Além disso, Moro declara que ele e sua esposa, Rosângela Moro, estão sendo alvo de notícias caluniosos devido a seu trabalho na Operação Lava-Jato.

Esclarecimento do blog

O Limpinho, que é um clipping de notícias de outros blogs, replicou a matéria, que motivou a ação, do Plantão Brasil, mas poderia ter pego o texto de qualquer outro blog, como se pode perceber numa rápida pesquisa no Google. Nunca, jamais, em tempo algum, o Limpinho quer caluniar, difamar e injuriar qualquer pessoa ou instituição. Nosso intuito é trazer o maior número possível de informações que não constam (ou estão escondidas) na “grande mídia” e em blogs. Na ação de crime contra sua honra, doutor Moro não ataca a liberdade de imprensa, mas o modo como a notícia foi publicada e que, segundo ele, é falsa.

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Minha consciência está tranquila quanto ao “crime” (que não cometi) contra a honra do doutor Sérgio Moro. Até fui alertado em um comentário feito pelo “Agente da Cia Sibá” que seria processado. Pelas palavras usadas, percebe-se o nível do comentarista-fake.
“esse coro dos desesperados é enfadonho e hilário ao mm tempo. perdeu cambada de fdp petralha! Dei print e vou entrar na justiça por difam e calúnia, seus bostas moles.”
Sergio_Moro40_Post_Comentario

Na segunda-feira, dia 23/8, vou conversar com os advogados do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo para encaminhar minha defesa. Não comentarei mais sobre o assunto até seu desfecho, mas o blog funcionará normalmente (até onde der). Depois, faço outro post com mais informações.

Há braços de luta

Miguel Baia Bargas
Editor, dono e único postador do Limpinho & Cheiroso
23/8/2015

Atualização: O documento abaixo foi inserido no post em 23/8/2015 às 18:25.

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Acordo com Cunha é novo mensalão-PSDB-MG


A indignação diante da generosidade exibida pelo PSDB em função da denúncia de que Eduardo Cunha recebeu uma propina de US$ 5 milhões não deve iludir ninguém. Apenas demonstra que, mesmo celebrada com trombetas quando ajuda a atacar o adversário, a ética é uma planta destinada a subordinar-se às necessidades da política.

Creio que ninguém esqueceu o que se passou com o mensalão do PSDB-MG. Mais antigo do que o esquema de financiamento do PT, o esquema tucano começou a ser apurado mais tarde, permitindo que a impunidade geral dos acusados fosse garantida em duas etapas. Primeiro, os réus foram separados em dois grupos — aqueles que tinham direito a foro privilegiado, e seriam, em tese, julgados pelo STF. O segundo grupo, formado por réus sem mandato, seria julgado numa vara de primeira instância da Justiça comum. Na segunda etapa, os réus com direito a foro puderam renunciar a seus cargos e, com autorização do STF, conseguiram que o caso fosse examinado em primeira instância. Até hoje, o julgamento sequer terminou — a juíza encarregada até se aposentou, veja só. Ninguém recebeu sentença definitiva.

No julgamento dos réus do PT, o advogado Márcio Thomaz Bastos pediu que fosse feito o desmembramento, também. Perdeu por 9 votos a 2, no mesmo plenário que fizera a separação de acusados do PSDB.

Outro dia, o ministro Gilmar Mendes falou que era possível encontrar o DNA da Lava Jato no mensalão. Um membro do Ministério Público concordou.

Estão certos, mas pelo motivo errado. O DNA é a seletividade.

Estabeleceu-se, em 2012, a jurisprudência bem definida por mestre Jânio de Freitas: dois pesos, dois mensalões.

Em 2015, PSDB e lideranças favoráveis ao impeachment querem aprovar o afastamento de Dilma Rousseff pelo mesmo caminho. Mas não podem dispensar os serviços de Eduardo Cunha, aliado fiel desde a campanha de 2014 — foi até capaz de enfrentar Michel Temer na tentativa de levar o partido para uma aliança com Aécio Neves. As esperanças dos aliados de Cunha eram tão grandes que conseguiram plantar entre jornalistas amigos a informação, errada, de que apoio do partido a Dilma estava em risco.

O agravante é que não há prova de crime contra a presidente e, contra Eduardo Cunha, há razões para imaginar que os US$ 5 milhões sejam apenas o começo.

Apesar dos apelos indignados pela moralidade, a questão não será resolvida nesse terreno, mas pelos interesses da política.

A autoridade de Eduardo Cunha fica obviamente abalada pela denúncia, mas ele está longe de ser um moribundo. Possui uma bancada que lhe deve o financiamento e o respaldo político que lhe permitiu a aquisição de seus mandatos — e este é um tipo de favor difícil de negar, sabemos todo.

Assegurando a Cunha todo oxigênio necessário à sobrevivência, a oposição revela a verdade sobre o projeto de impeachment: sem qualquer prova material, é um produto da baixíssima política.

Paulo Moreira Leite
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Nota longa

A “Suíte para orquestra nº 3 em ré maior”, de Johann Sebastian Bach, é famosa pela sua ouverture retumbante, mas principalmente pelo belo air que se segue. Air vem do francês e pode ser air tendre, air gai, air noble etc. O air da suíte do Bach é definitivamente tendre. E começa com uma única nota prolongada, tão longa que — penso eu — nunca tinha sido ouvida antes de Bach. Os ouvintes da época devem ter ficado atordoados com aquela nota que nunca acabava, e se perguntado o que Herr Bach estava inventando. Bach seguia as estritas convenções da música barroca, mas sua obra está cheia de novidades como a da nota espichada do air. Cheia de liberdades pequenas mas revolucionárias.

Com alguma ginástica mental, pode-se dizer que Orson Welles fez coisa parecida com a nota interminável do Bach no filme “Marca da maldade”. O começo do filme é uma tomada contínua com uma câmera acrobática que segue os movimentos de um carro e, ao mesmo tempo, revela o cenário em que se passará a historia, uma sórdida cidade de fronteira entre os Estados Unidos e o México — tudo sem um corte. A tomada termina com a explosão do carro, e com a plateia tão admirada quanto, provavelmente, os primeiros ouvintes da nota do Bach.

Outros diretores, como o Brian de Palma, por exemplo, experimentaram com longas tomadas sem cortes, mas a ouverture do Welles em “Marca da maldade” permanece um clássico imbatível. O grande Hitchcock, em “Festim diabólico” (título cretino para “Rope”) quis fazer todo o filme com uma tomada só, apenas camuflando os cortes a que era obrigado para trocar as bobinas da câmera a cada dez minutos. Na época, a técnica não estava à altura do gênio. Mas Hitchcock também fez uma abertura antológica: com uma única passagem pelos quadros na parede do personagem do James Steward no começo de “Janela indiscreta”, ele nos mostra quem é o personagem, o que ele faz na vida e como foi o acidente que resultou na sua perna engessada.

Bach levou uma vida sem percalços de burgomestre, mas foi um protótipo do criador que, num único lance inesperado de audácia, fulmina a ortodoxia. Anos depois de Bach, Gustave Flaubert daria a receita para todo artista: viva como um pacato burguês, e enlouqueça na sua arte.

Luís Fernando Veríssimo
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O que significa o silêncio de Aécio e FHC sobre Cunha

Hahaha
Tão tagarelas ao dar lições de moral nos últimos meses, FHC e Aécio estão mantendo um silêncio de vaca amarela sobre o caso Eduardo Cunha.


Tem um preço este mutismo de ocasião.


Cada palavra silenciada desmoraliza as pronunciadas contra o governo Dilma.


FHC e Aécio simbolizam o Brasil farisaico, em que a corrupção é encarada conforme a ocasião.


Você faz cara de indignado se o acusado é um petista. Condena liminarmente.


E se cala se o acusado não é petista. No limite, diz que os fatos têm que ser devidamente apurados.


A pressa neurótica em condenar é substituída por uma calma imperturbável na espera da palavra sempre tardia da Justiça.


É a moralidade fajuta, feita não para promover a ética mas para enganar ingênips e manipular a opinião pública.


As evidências contra Eduardo Cunha são espetaculares.


Como esquecer o rosto amedrontado do delator Júlio Camargo ao rememorar o achaque de que foi vítima por Cunha?


Todas as peças se encaixaram no depoimento. No achaque, como ficou provado, Cunha utilizou até o expediente de ameaçar investigar na Câmara uma empresa que lhe devia dinheiro de propina.


Esmagado pela descoberta de seus crimes, Cunha faz o que agora, além de contar com o silêncio obsequioso dos Catões de araque como FHC e Aécio?


Ele se declara vítima.


Diz que foi escolhido para responder pelo que fez na certeza de que estava tudo sob controle.


Parece um batedor de carteira que, apanhado, olha para seus captores e diz, peito cheio de indignação: “Por que eu?”


Sua defesa, publicada no Facebook, é o oposto da peça de acusação de 85 páginas preparada pela equipe do procurador geral Rodrigo Janot.


Onde Janot traz fatos, Cunha contrapõe evasivas autovitimizadoras.


Pior do que ele só os caciques da Nova UDN, o PSDB.


Seu silêncio não apenas não ajuda Cunha como tem o efeito de desmascará-los.


É como se FHC e Aécio estivessem gritando: “O que nós falamos não vale nada. Não nos levem a sério.”

Paulo Nogueira
No DCM
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Gaspari arrasa FHC e Aécio pela blindagem a Cunha


A blindagem de Eduardo Cunha

Os interesses que protegem Eduardo Cunha têm pouco a ver com ele, o que buscam é conter a Lava Jato

Fernando Henrique Cardoso disse o seguinte:

"Se a própria presidente não for capaz do gesto de grandeza (renúncia ou a voz franca de que errou e sabe apontar os caminhos da recuperação nacional), assistiremos à desarticulação crescente do governo e do Congresso, a golpes de Lava Jato."

Poderia ter dito a mesma coisa a respeito de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, denunciado pelo procurador-geral da República junto ao Supremo Tribunal Federal. Não disse. Nem FHC, nem qualquer outro grão-tucano.

Até agora, Dilma é acusada no Tribunal de Contas da União de ter pedalado as contas públicas. O TCU não é um tribunal, mas um conselho assessor da Câmara. Ademais, a acusação ainda não foi formalizada. Eduardo Cunha foi acusado pelo Ministério Público de ter entrado numa propina de US$ 5 milhões. O PSDB quer tirar Dilma do Planalto e admite manter Eduardo Cunha na presidência da Câmara.

Surgiu em Brasília o fantasma de um "acordão". Nele juntaram-se Dilma e Renan Calheiros. Há outro: ele junta Eduardo Cunha, o PSDB, DEM e PPS. Um destina-se a segurar Dilma. O outro, a derrubá-la. À primeira vista, são conflitantes, mas têm uma área de interesse comum: nos dois acordões há gente incomodada com a Lava Jato. A proteção a Dilma embute a contenção da Lava Jato, evitando que chegue ao Planalto ou a Lula. A proteção a Eduardo Cunha pretende conter a responsabilização dos políticos de todos os partidos metidos em roubalheiras.

É sempre bom lembrar que Fernando Collor, também denunciado por Janot, renunciou ao mandato em 1992, mas foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal. Renan Calheiros foi líder do governo Collor e Eduardo Cunha dele recebeu a presidência da Telerj.

Elio Gaspari
No 247
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Nota à imprensa

O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom),  Edinho Silva, divulgou nota nesta sábado (22) sobre decisão do ministro Gilmar Mendes, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Confira a íntegra:

1 – A decisão tomada pelo ministro Gilmar Mendes em relação à prestação de contas da campanha da presidenta Dilma Rousseff será devidamente questionada no TSE. Desde o final do segundo turno eleitoral, outros três processos estão em curso na Justiça Eleitoral, com o claro objetivo por parte do PSDB de questionar uma vitória eleitoral conquistada legitimamente na eleição presidencial de 2014.

2 – Mais uma vez, líderes oposicionistas procuram, a partir de processo judicial criar, de forma oportunista, um factoide político completamente descabido. Aliás, o PSDB chegou a solicitar até mesmo uma auditoria das urnas eletrônicas, que são sabidamente seguras.

3 – Reitera-se, novamente, que todos os recursos financeiros utilizados na campanha da presidenta Dilma Rousseff foram arrecadados de forma absolutamente legal e lícita. As contas de campanha da presidenta Dilma foram aprovadas por unanimidade pelo TSE, com parecer favorável do procurador eleitoral do Ministério Público Federal, após rigorosa auditoria.

4 – Felizmente, o Brasil é uma democracia sólida e aqueles que perdem as eleições devem respeitar o resultado das urnas.

Edinho Silva
Ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom)
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A bomba

Se não fosse a escravatura, nós não teríamos o samba, o jazz e os ritmos caribenhos, sem falar em todas as outras contribuições dos negros para a cultura ocidental. O mesmo elogio por vias tortas pode ser feito ao comunismo, ao fascismo e outros ismos persecutórios, que mandaram artistas como Billy Wilder, Saul Steinberg, Thomas Mann, Vladimir Nabokov e tantos outros para a América. 

Foi esta oportunidade, e os meios oferecidos pela rica América, que atraíram os cientistas da Europa para também fazerem a sua arte no exílio. O exemplo mais notório dessa arte aplicada é a bomba atômica. 

O físico alemão Werner Heisenberg visitou o físico dinamarquês Niels Bohr em Copenhague, em1941. Heisenberg dirigia o programa nuclear da Alemanha, e nunca se ficou sabendo exatamente sobre o que os dois amigos conversaram na casa de Bohr, naquele setembro. Especulou-se que Heisenberg teria levado a Bohr a proposta de um compromisso, a ser assumido por cientistas dos dois lados, de não construir a bomba ou de sabotar a sua construção, em nome de valores humanísticos acima de lealdades passageiras a pátrias e regimes. Documentos depois publicados mostram que Heisenberg não propôs nada parecido a Bohr, que só guardou da visita a certeza de que Heisenberg e sua turma não estavam nem perto de construir uma bomba nuclear. O que atrasou o programa nuclear alemão não foi a consciência, mas o preconceito burro: os nazistas achavam que física teórica era “coisa de judeu” e custaram a entender todas as implicações do átomo partido. Da mesma forma, foram as novas leis raciais italianas, inspiradas pelas nazistas, que forçaram a ida de Enrico Fermi, cuja mulher era judia, para os Estados Unidos e a emigração da maioria da sua equipe.

Heisenberg foi o gênio nuclear que não cruzou o Atlântico, o antiexilado, o que não aproveitou a terra da oportunidade e fracassou. Todos os cientistas que participaram do Projeto Manhattan, de construção da bomba, descreveram aquela época de oportunidade irrestrita como excitante, inesquecível, a melhor das suas vidas. Com recursos inesgotáveis, participavam da maior aventura científica de todos os tempos, sem dúvidas e hesitações europeias. Robert Oppenheimer, o cientista que comandava o projeto, conta que sua primeira reação ao saber que a primeira bomba explodira sobre Hiroshima fora um extático “Funcionou!”. O primeiro pensamento da ciência é o da sua própria validação pela eficiência. Os segundos pensamentos custam a chegar. Oppenheimer só pensou aos mortos depois, se opôs ao desenvolvimento da bomba de hidrogênio e acabou sendo chamado de antipatriota. 

Sem o vício do antissemitismo, os alemães teriam feito a bomba antes? Talvez lhe faltasse a oportunidade da América, onde os europeus iam para recomeçar, onde tudo estava sempre recomeçando, e onde um delirante arabesco do Steinberg e um cogumelo nuclear nasciam da mesma paisagem sem história. De qualquer jeito, quem ficou com a bomba, sem nenhum escrúpulo de usá-la contra populações civis, não foi o Hitler, foi o Truman.

Luís Fernando Veríssimo
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Provas no hospício

É até engraçada, sem que deixe de ser o oposto disso, a expectativa generalizada sobre o que um acusado da extorsão de US$ 5 milhões causará ao país: vai abalá-lo ainda mais com suas pautas-bombas, ou enfim vai reprimir sua natureza? Incluirá na pauta da Câmara um pedido de impeachment, ou vai investir contra o procurador-geral da República?

Se um país chega a esse ponto, com o ambiente político e econômico em dependência tão patética, está muito enfermo. Fosse gente, seria recolhido ao hospício. Como não é gente, faz suspeitar de que seja o próprio hospício.

Logo, falemos de Eduardo Cunha. Para começar, duvidando de que alguém possa prever com razoável segurança a conduta do presidente da Câmara no futuro imediato. Apesar disso, pode-se sondar, em linhas gerais, hipóteses que tenha à sua frente.

A primeira: agravar a linha provocativa que mantém na Câmara pode ser negativo para sua situação judicial. Como resposta, é bastante provável que o Judiciário e o Ministério Público se sintam no dever de acelerar a tramitação do processo, para que seus ritmos habituais não sejam acusados de dar oportunidade à conturbação política. Não é menos provável que o apoio dos oposicionistas da linha Aécio incentive a tendência natural de Eduardo Cunha para a pauta-bomba e bombas sem pauta.

A hipótese de autocontenção valeria ao menos como originalidade biográfica para Eduardo Cunha — ao custo de parte do apoio que recebe do oposicionismo extremado, como o grupo aecista do PSDB, e peemedebistas paus-mandados. A liderança de Eduardo Cunha perderia alguma coisa, e é muito incerto que ele conceda essa perda.

Eduardo Cunha tem uma inteligência esperta. Até hoje, não foi capaz de convencer da sua inocência nas irregularidades, graves todas, em que figurou. Mas está na presidência da Câmara, não está arruinado. As acusações que o Ministério Público agora lhe faz em 85 páginas (ou um terço disso em espaço normal) são mesmo pesadas. Mostram, inclusive, conhecimento de truques atribuídos ao acusado, como uso de igreja evangélica para recebimento de suborno.

Mas, teoricamente, condenação depende de prova. É verdade que o Supremo já teve prática diferente e, na Lava Jato, o juiz Sergio Moro já emitiu condenação em cuja sentença admite falta de provas. É recomendável esperar o confronto entre as acusações duras e as respostas experientes de Eduardo Cunha.

A denúncia entregue ao Supremo suscita duas observações. Ficou claro que Rodrigo Janot esperou a condenação de Nestor Cerveró e Fernando Soares por Sergio Moro. Citar na acusação a Eduardo Cunha duas condenações consumadas pelos mesmos fatos dá um reforço e tanto contra o deputado, que fica como comparsa de criminosos condenados.

Nota-se ainda que Janot preserva linguagem apenas profissional, técnica. Não a violenta com os insultos e impropérios usuais em seus antecessores Antonio Fernando de Souza (hoje defensor de Eduardo Cunha) e Roberto Gurgel, sem que sequer os alvos das ofensas estivessem condenados.

De passagem, a denúncia usa de uma expressão perigosíssima para Eduardo Cunha: "desvio de finalidade", aplicada como referência indireta aos ameaçadores pedidos de informação, em nome da Câmara, que Eduardo Cunha teria feito com assinatura da então deputada Solange Almeida. Destinavam-se, disse o lobista delator, a pressionar ele e uma empresa para quitarem o saldo de US$ 5 milhões do suborno. Tal uso da Câmara é conduta que justifica processo interno de perda de mandato. Bem entendido, em Câmaras com certa dignidade.

Janio de Freitas
No fAlha
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