22 de ago de 2015

A sentença do juiz a favor de Gentili é uma piada

Ele é uma piada
Você é Lula. Insultam você. Você vai à Justiça.

E então seu caso cai nas mãos de um juiz que tem como referências jornalísticas William Waack e Míriam Leitão.

Bem, você está frito.

Foi, em resumo, o que aconteceu agora com Lula ao interpelar Danilo Gentili depois que este disse que o atentado no Instituto Lula foi uma farsa.


Franco disse que era uma piada.

O único problema da sentença é o seguinte: não era piada. Você pode até argumentar que Gentili é um comediante tão fraco que não dá para distinguir quando ele está fazendo piada ou falando sério.

Mas, no caso em questão, ele evidentemente não estava fazendo piada.

Estava tripudiando, insultando, caluniando.

A sentença peca, entre outras coisas, por uma interpretação deficiente de texto.

Franco tem no currículo passagens marcantes. Numa delas, entendeu que chamar alguém de gay não é ofensa.

Aqui, era o jogador Richarlyson que se queixara na Justiça de um cartola que insinuara num programa de tevê que ele era gay.

Outra sentença peculiar de Franco foi desfavorável a um empresário que impetrou queixa crime contra três homens que, num vídeo no YouTube, o acusaram de praticar fraude.

“Os crimes contra a honra só se caracterizam se houver intenção específica de denegrir ou ofender”, escreveu o juiz na sentença.

Isso quer dizer então que, pela estranha lógica de Franco, se você acusar alguém de cometer fraude não vai significar intenção de “denegrir ou ofender”.

Um quadro clássico de um antigo programa humorístico tinha a seguinte frase final: “Entendi, mas não compreendi.” Era quando o protagonista pedia uma explicação ao interlocutor e, depois de uma arenga confusa, este perguntava se ele entendera.

Pois é.

Entendi, mas não a compreendi.

Franco, na prática, deu carta branca a Gentili para que este possa falar as barbaridades que quiser sob o pretexto der que é “piada”.

Comediantes são inimputáveis, segundo este raciocínio que é, em si, uma piada.

Lula pode recorrer, e é bom que ele faça. Mais que um direito, é um dever perante a sociedade, que não pode ficar exposta à canalhice pseudoengraçada de Gentili.

Ele tem que enfrentar consequências quando extrapolar.

Claro que existe o risco de o recurso terminar nas mãos de outro admirador de Waack e Míriam Leitão.

Mas há ter otimismo.

Não é possível que todos os juízes brasileiros vejam a Globonews e leiam a Veja.

Paulo Nogueira
No DCM
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Desculpe a pausa


Previsão de retorno para terça-feira, dia 25 de agosto de 2015.

Obrigado.

PS: Durante este período poderão ser feitas atualizações esporádicas.
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O caso Cunha e Assembleia de Deus: a igreja lava mais branco


O uso de igrejas como canal de lavagem de dinheiro não é propriamente uma novidade. Mas, com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o depósito de R$ 250 mil numa conta da Assembleia de Deus, a lavagem de dinheiro alcançou uma igreja tradicional, fundada no Brasil há mais de cem anos.

“É impossível auditar as doações dos fiéis. E isso é ideal para quem precisa camuflar o aumento de sua renda, escapar da tributação e lavar dinheiro do crime organizado”, diz o desembargador Fausto de Sanctis, aquele da operação Satiagraha, um dos maiores especialistas brasileiros estudos sobre lavagem de dinheiro.

O desembargador De Sanctis lançou este ano nos Estados Unidos uma obra sobre o tema: “Churches, Temples, and Financial Crimes”  – A Judicial Perspective of the Abuse of Faith (Igrejas, Templos e Crimes financeiros – Uma perspectiva judicial do abuso de fé).

A obra ainda não foi traduzida para o português, mas trata das investigações policiais realizadas no Brasil, entre elas a da Universal do Reino de Deus, a Igreja Mundial do Poder de Deus e a Renascer em Cristo, igrejas grandes, mas com menos de 40 anos de história.

O dono de uma grande incorporadora de Santana, Zona Norte de São Paulo, contou-me que há alguns anos vendeu uma cobertura para o líder da Igreja Deus É Amor e teve muito trabalho, não para receber, porque o pastor pagou em dinheiro vivo, mas para passar a escritura no nome dele.

“Ele não queria de jeito nenhum. Passaram-se alguns anos até que eu disse: pastor, não dá mais”, contou o empresário. Só assim a cobertura saiu do nome da incorporadora e foi para o do pastor David Miranda, falecido recentemente.

O poder das igrejas tem levado a disputas ferrenhas, no caso daquelas que promovem algum tipo de processo eleitoral para escolher sua direção.

Um pastor com direito a voto numa grande igreja evangélica me disse que, quando havia eleição, evitava beber água no local de votação, com medo de que algum adversário tivesse colocado sonífero.

Na igreja de Eduardo Cunha, este problema não existe mais. Manuel Ferreira, líder nacional da Assembleia de Deus – Ministério Madureira, mudou o estatuto há alguns anos e transformou a presidência num cargo vitalício.

Assim, ele e os filhos — Abner, que comanda a igreja no Rio de Janeiro, e Samuel Ferreira, o chefe em São Paulo —, só deixarão o posto depois de mortos e serão sucedidos pelos filhos.

A vitaliciedade e hereditariedade não impedem que os Ferreira participem ativamente da atividade democrática externa. Um missionário da igreja, Samuel Aragão, gravou um vídeo em que diz que o apoio nas eleições é em troca de cargos no governo e de outras vantagens.

Em 2012, na eleição para vereador, Samuel Ferreira dividiu São Paulo em regiões e as entregou a candidatos de vários partidos, nem todos evangélicos. Em 2014, a igreja fez campanha para alguns deputados federais. No Rio de Janeiro, um deles era Eduardo Cunha.

Samuel Ferreira se apresenta com roupas de grifes e, em seus deslocamentos pelo Brasil, utiliza avião particular, nada de voos comerciais. Há 10 anos, Ferreira era o responsável pela igreja em Campinas.

Ganhou poder, ao ser escolhido para governar a igreja no Estado, e perdeu peso, com uma redução no estômago que eliminou metade dos seus quase 150 quilos. Em Campinas, quem manda agora é o filho, nomeado pastor, apesar de bastante jovem.

Com mais de cem anos de história, a Assembleia de Deus comandada pela família Ferreira é uma dissidência da Assembleia de Deus original, chamada Missão.

Nesta Assembleia de Deus, existe eleição, mas desde 1988 ninguém bate o pastor José Wellington. Dois filhos de José Wellington estão na política. A filha é deputada estadual em São Paulo e o filho, deputado federal.

“O que as lideranças das igrejas querem é o poder, e nenhuma aliança na Assembleia de Deus é feita de graça”, contou-me ex-deputado federal eleito muitas vezes com o apoio das igrejas evangélicas.

A promiscuidade das igrejas com o poder não é exclusiva do universo evangélico. Nessa história, se feito um exame de DNA, a paternidade será encontrada na Igreja Católica — até porque é muito mais antiga —, citada no livro do desembargador Fausto de Sanctis sobre lavagem de dinheiro por causa do escândalo do banco do Vaticano.

O papa Francisco fez lá uma limpa recentemente. Mas essa limpeza vai durar até quando?  Num ambiente religioso, a fé pode não mover montanhas, mas é usada para comprar todo tipo de riquezas.

Serve também para vender o voto do eleitor, e agora, como indica o depósito da propina na conta da Assembleia de Deus, negociar o poder de lavar mais branco.



Joaquim de Carvalho
No DCM
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