16 de ago de 2015

Golpistas levam menos gente para manifestações: Lula vira alvo nas ruas e na tela da Globo

http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/palavra-minha/golpistas-levam-menos-gente-para-manifestacoes-lula-vira-alvo-nas-ruas-e-na-tela-da-globo/

 Faixa-símbolo de um protesto que dessa vez levou menos gente às ruas
As primeiras cenas, ainda de manhã, provocam desânimo entre âncoras e repórteres da Globo. No intervalo do programa esportivo, perto de 10 horas da manhã, entra o link de Brasilia: “são 500 pessoas na Esplanada dos Ministérios…”, diz o repórter. A imagem mostra um imenso vazio. Claro que logo começa um incrível atropelo de números: 2 mil, 5 mil, logo 25 mil pessoas. E segue a imagem do vazio.

De repente, na transmissão de Brasília, o áudio da Globo falha, a câmera treme, e do estúdio o apresentador tenta salvar a situação: chama agora imagens de Belém (PA), e ali parece haver mais gente. A Globo trabalha com takes fechados durante toda a manhã. Repete-se a tática de março: manifestações, mesmo esvaziadas, Brasil afora servem como “esquenta” para o ato em São Paulo na parte da tarde.

Em Salvador, o take mais aberto derruba a
estratégia da Globo: pouca gente na rua
Mas nem os takes fechados são capazes de disfarçar que em Belo Horizonte, Maceió, Salvador e no Recife os protestos são pífios. No Rio, há mais gente na praia do que no asfalto de Copacabana — onde se repete o discurso de ódio e os apelos por intervenção militar.

Logo fica claro que a decisão da Globo de poupar Dilma e o governo, para evitar o desarranjo da economia, não significa recuo nos ataques a Lula e ao PT.

No Recife, o cinegrafista da Globo passeia pela manifestação, e encontra cartazes pedindo a prisão de Lula. O enquadramento muda rápido para um plano mais geral (o profissional deve ter achado que aquilo estava demais). Mas a câmera logo volta aos cartazes, agora em take bem fechado: Lula atrás das grades.

A impressão foi de que alguém deu a instrução, pelo “ponto”: foca no barbudo.

Logo depois, Alex Escobar (narrador esportivo medíocre) tenta “narrar” a manifestação de Belém. Ele lê para o telespectador uma faixa agressiva contra Lula e Dilma. E conclui: “um claro protesto contra a corrupção.”

Não, caro Alex: o protesto não é contra a corrupção. Mas contra o PT. Se fosse contra a corrupção, Aécio não teria se sentido tão à vontade para desfilar no também esvaziado ato de BH. E Cunha não teria sido poupado. Aliás, uma faixa aberta em BH chegava a afirmar (em lapso freudiano): “somos milhões de Cunhas”. Aí, tudo ficou mais claro.

Cunha poupado. E todo ódio centrado em outro personagem: Lula, Lula, Lula. Esse era o nome. Era isso que importava.

Se esse dia de manifestações mais fracas por todo o país teve um toque diferente foi o fato de Lula ter sido transformado em alvo central. Tanto nas ruas quanto nos comentários de quem estava no estúdio.

Outro exemplo: a equipe da Globo mostra manifestação de apoio ao ex-presidente, em frente ao Instituto Lula em São Paulo. Manifestantes gritam: “mexeu com Lula, mexeu comigo”. Cristiana Lobo, no estúdio, comenta: “é… mas a sociedade vai querer mexer sim com o Lula.”

Hum… Qual sociedade, Cristiana? Ela procura falar em nome da sociedade. Mas fala mesmo em nome dos patrões.

Nada, na Globo, se faz sem a decisão tomada nas reuniões do “comitê” (que reúne João Roberto Marinho e os dirigentes dos principais veículos da família: jornais, TV, rádio, internet). Cristiana Lobo se traiu no ar: a decisão é levar Lula para o canto do ringue. E depois, se possível, para a cadeia. Com ou sem provas. A decisão já está tomada. Isso está claro.

Este blogueiro passou no fim da tarde pela manifestação petista em frente ao Instituto Lula, e ouviu exatamente essa análise de duas pessoas próximas ao ex-presidente: “a Globo não vai aliviar para o Lula, vai partir pra cima. Temos informações claras sobre isso.”

Guerra de Imagens

Um boneco de Lula, com roupa de presidiário e marcado com o número 13, foi o principal “fato” do dia na guerra de imagens. A figura apareceu no esvaziado protesto de Brasília. E deve povoar as capas de jornais nesta segunda-feira.

O Lula “presidiário” cumpre a clara tarefa de dar fôlego à narrativa de que a prisão do ex-presidente é algo desejável e “natural”.

As manifestações do dia 16 tiveram mais uma vez cartazes absurdos, com pedido de golpe e intervenção militar. Em quase todo o país, o número de participantes foi muito inferior ao que se viu em março. Em São Paulo, também, menos gente foi às ruas; mas a queda não foi tão grande. E de toda forma mais de 100 mil pessoas estiveram na Paulista – segundo o “DataFolha”.

Este blogueiro passou por lá, conversou com muita gente, e pode dizer que a maioria absoluta era formada por anti-petistas raivosos. Gente que sempre detestou Lula e o PT, e agora se sente mais à vontade pra manifestar esse ódio. O povão que votou em Dilma, e está ressabiado com o governo, este não foi pra rua — de novo.

Aécio derrotado

Mãos ao alto: Aécio saudado em BH, pelos
manifestantes do protesto “apartidário”
As manifestações terminam também com um claro derrotado: Aécio Neves. Ele precisava de um “estouro da boiada” nas ruas, para pressionar Globo e grandes empresários a centrar fogo em Dilma, e “bombar” de novo o impeachment. Com menos gente na rua do que em março, o delírio golpista de Aécio fica inviabilizado.

Parece ganhar força no PSDB a ala mais moderada, que aposta em manter Dilma cambaleando no governo, ao mesmo tempo em que se sangra a figura pública de Lula — ara evitar sustos em 2018.

Ninguém deve se enganar: o tom da cobertura na Globo mostra que Lula agora é o alvo central.

As condições para uma eventual prisão do ex-presidente não estão dadas. Juridicamente, não há nada concreto contra ele. Mas o jogo começou.

A narrativa midiática

A essa altura, o que se procura é construir uma narrativa midiática que permita — ainda que com indícios absolutamente frágeis — submeter Lula a um constrangimento absoluto, sob a condução do juiz Sergio Moro na Lava-Jato.

Ninguém deve ter dúvidas: Moro vai tentar. Ninguém deve ter dúvidas: a operação já começou. E ninguém deve ter dúvidas: a operação de caça a Lula conta com apoio decidido dos principais meios de comunicação do país, especialmente a Globo.

Dilma ganhou tempo pra respirar (sobre isso, clique aqui para ler o texto de Renato Rovai). E Lula ganhou a certeza de que é o alvo da operação jurídico-midiática que tenta, já em 2015, antecipar o resultado e liquidar a fatura da eleição de 2018.



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O PT, o Facebook, e as mortes de Lula e Dilma

http://www.maurosantayana.com/2015/08/o-pt-o-facebook-e-as-mortes-de-lula-e.html


O Instituto Lula pediu ao Facebook que retire da rede a página em que centenas de usuários de direita e extrema direita pedem a morte do ex-presidente da República, na qual aparece também, em um comentário, a mórbida, macabra, montagem acima, mas nenhuma atitude foi tomada pela empresa até agora.

Como quase sempre ocorre do ponto de vista da comunicação, e de sua própria defesa, a assessoria de Lula errou estrategicamente e errou feio.

Páginas como essa, e a da comunidade MORTE À DILMA, que também está no ar, não devem ser eliminadas, até mesmo porque as mesmas ameaças continuarão a ser replicadas em outros lugares, ad aeternum.

É preciso que elas continuem acessíveis, para que possam ser imediatamente identificados — basta fazer um print — pelos advogados de Lula e da Presidente da República, os indivíduos que estão ameaçando sua vida e sua integridade física, para que sejam denunciados, um por um, e judicialmente interpelados, processados e responsabilizados pela justiça.

Se isso tivesse sido feito, desde o início, nos últimos anos, com base em uma atitude de tolerância zero — (ver O PT, o PSDB e a arte de cevar os urubus) — a cada ataque, insulto, calúnia recebidos, como fazem aliás outros homens públicos e partidos — nem Lula, nem Dilma nem o PT estariam na situação em que se encontram do ponto de vista da opinião pública.

Quem cala, consente.

Seja qual for sua situação ou posição ideológica, quem é injustamente citado ou ameaçado na internet precisa aprender que na rede a responsabilidade direta e primária é a individual, de quem está fazendo a ameaça ou publicando caluniando terceiros, mesmo que sites e portais, ou redes como o Facebook possam eventualmente também ser processados, mais tarde, por permitir esse tipo de ação ou iniciativa.
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Protestos: o que vai mudar no dia seguinte? Nada

http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2015/08/16/protestos-o-que-vai-mudar-no-dia-seguinte-nada/


Está acabando mais um dia de protestos. Pouco mais de seis da tarde deste domingo, 16 de agosto, as bandeiras, os balões, cartazes e bonecos já foram recolhidos, e o pessoal volta para suas casas. Alguns carros passam buzinando e ouvem-se vuvuzelas ao longe, como após o encerramento dos jogos de futebol.

O número de participantes em cada cidade varia de um portal para outro, mas uma constatação é comum em todos eles: as manifestações foram menores do que as de março e abril, embora a aprovação do governo tenha caído drásticamente neste período e aumentado na mesma proporção o tamanho da crise.

Sob o apoteótico título "A marcha da História", um dos porta-vozes do Instituto Millenium previu em sua coluna: "As manifestações marcadas para este domingo darão hoje a dimensão da crise que estamos vivendo, e o tamanho das massas nas ruas será decisivo para os desdobramentos políticos, mas não definitivo".

A julgar pelo "tamanho das massas" vistas nas principais capitais, apesar dos esforços de repórteres de TV e rádio de algumas emissoras de notícias, nas ruas desde cedo para ajudar a enche-las, poder-se-ia então concluir que a dimensão da crise diminuiu, mas nem o governo deve estar pensando nesta hipótese.

"Um domingo decisivo na vida dos brasileiros",  anunciou outro arauto do fim do mundo. A esta altura, mais uma vez, depois de passarem as últimas semanas promovendo os protestos e analisando suas consequências, eles devem estar se perguntando: onde foi que erramos?

Além do visível esvaziamento do "movimento das ruas" em relação aos eventos anteriores, a única novidade foi a aparição ao vivo do ex-presidenciável e atual presidente do PSDB, senador Aécio Neves, em Belo Horizonte. Subiu em dois caminhões de som, repetiu os mesmos discursos raivosos contra o governo, ficou meia hora entre os manifestantes, e foi embora. Nada que mude o rumo da História.

Na verdade, passada a régua no fim do dia, o que restou? O que vai mudar na vida dos brasileiros no dia seguinte? Pensando bem, nada.

Nesta segunda-feira, todos os nossos problemas continuarão exatamente do mesmo tamanho.  As novas manifestações serviram apenas para confirmar que as oposições oficiais, virtuais e midiáticas continuam sem nenhuma proposta concreta para o País e enfrentam tambem uma carência de lideranças. Parece que o povo está ficando cansado disso.

E vamos que vamos.
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Apontamentos sobre o dia 16

As ruas, nesse dia 16
Ainda que a conjuntura política brasileira esteja um pouco confusa, com um partido de trabalhadores no governo jogando contra os trabalhadores, as manifestações desse dia 16 de agosto aparecem como um momento único para pensar a luta de classes no Brasil. E, apesar do fato de muita gente sequer desconfiar o significado das palavras de ordem que carregam nos cartazes, há duas visões de mundo em batalha nesses dias de agosto.

Uma delas é a visão socialista. A busca por uma maneira de organizar a vida que não explore o outro, que não concentre os meios de produção e a riqueza nas mãos de poucos, que garanta o direito à saúde, educação, moradia, segurança, que se faça dentro de uma democracia participativa, na qual as pessoas possam decidir a vida, sem o acosso do dinheiro e da corrupção.  Essa proposta certamente não está no governo, o qual os manifestantes do dia 16 querem derrubar. Mas, apesar disso, ela assoma, porque é contra isso que os que exigem o "fora PT" mais clamam.

A outra visão em disputa é a defesa de uma via autoritária do sistema capitalista vigente que, para existir, precisa da exploração do outro, da pobreza, da dor, da miséria, da exclusão. Um sistema que se baseia numa falsa democracia pois, nele, o que impera, é o poder do dinheiro. Só quem tem a grana é o que pode ser cidadão da polis. 

Alguém pode dizer que não é nada disso, e que o que está em jogo é apenas o "fora Dilma" e o "fora PT". Mas, em verdade, o fora Dilma é só a forma como esse debate aparece. A essência do conflito é o modo de organizar a vida, ou seja: capitalismo x socialismo.

Na esquerda brasileira há muito tempo que se sabe que o PT não representa o  socialismo, apesar de os seus adversários tentarem - e de certa forma conseguirem - colar no partido de Lula essa etiqueta. E só acredita nisso quem não tem mesmo qualquer conhecimento sobre o que seja o socialismo. A verdade sobre o caminho que o PT escolheria estando no poder apareceu três meses depois da posse de Lula, em 2003, quando o governo iniciou a Reforma da Previdência, uma perversa retirada de direitos que inaugurou uma série de outros golpes nos trabalhadores. E, ainda que o PT tenha implantado um jamais visto processo de redução da pobreza, tudo se limitou ao campo das políticas públicas, sem qualquer passo além no rumo de uma outra forma de ser Estado. 

É fato que o PT, durante o chamado "espetáculo do crescimento", acabou com a fome crônica que havia no país (mais de 30 milhões de pessoas), criou universidades, aumentou significativamente o número de jovens na faculdade e deu possibilidade da casa própria para milhares de famílias. Mas, ao mesmo tempo, foi o tempo em que a fronteira agrícola expandiu de forma assustadora, com assassinatos de camponeses e indígenas, sem que o latifúndio fosse tocado. Pelo contrário, no segundo mandato de Dilma, o latifúndio até ganhou o Ministério da Agricultura. Também o sistema financeiro seguiu intacto, com os filhos diletos do capital comandando a economia brasileira, e a dívida pública sendo paga religiosamente, sem que a proposta de auditoria fosse levada à sério. Igualmente a indústria brasileira caiu de produção, com o crescimento vertiginoso da exportação de bens e até de comida. O Brasil aumentou o número de universidades, mas não investiu na ciência, preferindo o dependente caminho da inovação.

Assim, o PT jamais sequer se aproximou que qualquer proposta socialista, que dirá comunista, que é o momento do fim das classes e do estado. Não. O PT seguiu a mesma velha cartilha do capitalismo dependente, com a formulação de algumas políticas públicas que permitiram a entrada de milhões de pessoas na roda do consumo. Isso gerou o chamado neodesenvolvimentismo que, afinal, teve vida curta, com o governo agora aplicando um violento ajuste para poder manter os compromissos com os credores. 

Mas, então, se o PT não é socialista e governa mais para os ricos que para os pobres, por que os velhos grupos de poder querem o seu fim? A resposta é simples: eles não querem concorrência.

Os grupos que comandam as marchas contra a corrupção são os mesmos que comandaram o país por décadas, enchendo os bolsos, e estão repeltos de gente manchada pelo que dizem repudiar: a corrupção. O ex-presidente FHC foi o responsável por um tremendo esquema criado pelas privatizações, que desmontou empresas públicas e vendeu o patrimônio nacional à preço de banana. O senador Ronaldo Caiado, líder da velha UDR (União Democrática Ruralista) , braço armado do latifúndio, já foi pego com trabalhadores escravos nas suas fazendas. O atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, também está envolvido em corrupção ativa. As igrejas que integram a bancada da Bíblia no Congresso insuflam o ódio e o fundamentalismo. É um circo de horrores. Para eles, derrubar o PT é apenas abrir caminho para suas próprias demandas. E, nelas, está, principalmente, a instituição de uma mão dura capaz e impedir o pensamento crítico e as reivindicações populares.

Não é sem razão que nas passeatas chamadas por esses grupos apareça um festival de bizarrice. Pessoas reivindicando o assassinato dos comunistas, outras chamando os milicos para um "intervenção temporária", garotas com cartazes dizendo "não ao gênero", tudo em nome de deus e da família. E se algum defensor do governo fala em pegar em armas, esse é acusado de "terrorista". Ou seja, apontam o dedo para o outro sem ver a trava no próprio olho.

As bancadas da bala, da bíblia e do boi representam o pensamento mais atrasado que há no país e são elas as que têm dado a linha nos protestos. É uma corruptela conservadora do capitalismo que, ao mesmo tempo que quer garantir o acúmulo das riquezas, também pretende implantar o obscurantismo, num minotáurico sistema de lucro para alguns, misturado ao atraso mental. Assim, garantem um regime duro, sem perder as benesses do sistema. A proposta política é o aprofundamento da dependência econômica e uma ligação de vassalagem mais profunda com os países centrais. Não são à toa os cartazes escritos em inglês, enviando mensagens aos "mestres" estrangeiros. Nesse dia 16, por exemplo, circulava no facebook a mensagem: "Amigos, a ONU já autorizou a intervenção militar no Brasil. Tudo vai ficar bem". Essa é a ideia. 

Então, o discurso conservador, de morte ao comunismo (?) e pela mão-dura dos militares, tão igual ao do pré-golpe de 1964, é o que acabou levando as pessoas para a rua. Não que no meio delas não existam cidadãos de boa fé, que, contrários às políticas do governos, se somam — ingenuamente — aos delírios golpistas dos comandantes da oligarquia.  Há os que verdadeiramente acreditam que o PT é comunista e vai levar o Brasil ao caos. Mas, mesmo assim, ainda que se possa entender o pensamento ingênuo, é grande o nível de violência que cabe dentro dos discursos.

Vai daí que voltamos a luta de classe. Marx dizia que a violência é a parteira da história e qualquer um que tenha estudado um mínimo da história da humanidade sabe disso. Os conflitos contra os interesses das classes empobrecidas sempre são eivados de violência por parte de quem detém o controle da força. E, mesmo nos confrontos mais sangrentos da humanidade, sempre há os que — sob o manto da servidão voluntária — se juntam aos poderosos contra os de sua própria classe, preferindo viver como escravo a ser livre. 

No Brasil de 2015 estamos assim, caminhando entre três veredas. Numa está o conservadorismo mais primário que recrudesceu sua força, perdeu a vergonha, não se esconde, está nas ruas.  Na outra está o governismo, de um conservadorismo não tão grotesco como o da oligarquia, que consiste em todo um conjunto de forças que não quer perder o espaço que garantiu no poder, e não arrisca buscar novos caminhos. E, por fim, na terceira rota vão os que conseguem sair da consciência ingênua, que fazem a crítica ao governo e que avançam na  construção de um outro modo de organizar a vida. Nem o obscurantismo rural/religioso, que prega o golpe, nem o PT. Mas, essa é uma rota difícil, principalmente porque a direita tradicional conseguiu colar no PT o selo de "esquerda" e isso torna mais duro o processo de reconstrução de um espaço crítico e socialista.

Não bastasse isso, nos últimos dias pode-se perceber uma viragem na conduta do maior meio de comunicação de massa, a TV Globo, que "misteriosamente" parou de fomentar o golpe contra a presidenta Dilma. Isso pode significar que um grande acordo foi firmado, o que pode atrasar ainda mais as possibilidades de retomada do caminho pela esquerda, afinal, 98% do país recebe o sinal aberto da Globo e esse ainda é um poderoso instrumento de produção da mais-valia ideológica. Através das notícias, dos programas de entretenimento e das novelas, a ideologia produzida ofusca o pensamento crítico e consolida a ideia de que o  mundo do consumo é melhor dos mundos, ainda que boa parte das gentes não tenha como entrar. E se estiver colado no governismo, a coisa piora.

Para os que durante uma vida inteira caminharam pela rota da esquerda, sem desviar o curso por conta de promessa socialdemocrata, a realidade é de luta e enfrentamento. Nesse dia 16, isso ficou patente. Quando as passeatas são de reivindicação de direitos ou contra os ataques das transnacionais ou do governo, a polícia é chamada para reprimir e golpear. Quando a manifestação é chamada pela oligarquia as ruas das grandes cidades são também tomadas pela polícia. Mas, nesse caso, os que se manifestam pelo golpe e pela ditadura militar, são chamados de "pessoas de bem", e as tropas estão ali para protegê-los de qualquer perigo que possa vir dos "terroristas" (leia-se petistas ou qualquer um de camisa vermelha). Assim, os manifestantes respondem tirando fotos abraçados às forças da lei. Enquanto nas passeatas de luta por direitos, o que sobra é gás, bala e porrada para quem luta. 

Retomando a tese inicial, a essência de tudo isso é, então, o modelo de organização da vida. E se não queremos nem uma ditadura, nem o PT, resta-nos seguir na luta, reconstituindo a difícil malha de uma força de esquerda capaz de oferecer, verdadeiramente, uma outra proposta para o país. 

Elaine Tavares
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Sob gritos de "ladrão", Aécio bate em retirada da manifestação


A aparição do senador Aécio Neves (PSDB-MG) na manifestação dos coxinhas a favor da ditadura, do golpe e da corrupção tucana foi relâmpago.

Apesar do ambiente controlado e do cordão de isolamento formado pela assessoria tucana em Belo Horizonte, o que seus assessores temiam ocorreu.

Ao ver a presença do tucano, um manifestante gritou: "Eu quero é o povo na rua, não político ladrão".

Aécio mal ficou meia hora na manifestação. Chegou por vota das 11h30 em um carro que parou perto de um caminhão de som, caminhou alguns metros, cercado de seguranças e assessores tucanos. Subiu no caminhão e falou pouco, logo batendo em retirada, com medo de sua presença atrair hostilidade como ocorreu com o manifestante que gritou "político ladrão".

Em uma área mais reservada dos olhares do público, protegido pela claque tucana, gravou cenas para os telejornais, posou para fotos e falou rapidamente para a imprensa. Foi embora às 12hs.

No Amigos do Presidente Lula
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Gostos

Muita gente se surpreendeu quando John Lewis, pianista do Quarteto de Jazz Moderno, declarou que o futuro do jazz era Ornette Coleman. A música do saxofonista Coleman, que morreu há poucas semanas, era quase o oposto do que Lewis fazia, no piano e nas suas composições para o quarteto. Coleman levou o jazz a extremos experimentais beirando a cacofonia, o quarteto tocava com uma limpidez formal beirando o preciosismo. Era de se supor que Lewis esperasse que o jazz seguiria o caminho que ele mesmo escolhera para o seu quarteto, o do jazz de câmara, longe das estridências de Coleman e suas bandas (quase sempre quartetos também) e de outros praticantes do “free jazz”. O próprio Coleman deve ter se surpreendido com a previsão de Lewis.

É verdade que a crítica que se fazia ao quarteto, a de ser refinado demais, era imerecida. A grande mágica do Quarteto de Jazz Moderno e a razão do seu sucesso artístico e comercial era a combinação do estilo de Lewis, tão evocativo do espírito barroco que ele às vezes preferia o cravo ao piano, e o estilo do vibrafonista Milt Jackson, um dos grandes improvisadores da história do jazz e um blueseiro autêntico. Lewis e Jackson formavam uma paradoxal dupla de contrários que se completavam, e há poucos prazeres musicais maiores do que ouvir o vibrafonista se soltando em cima de um bem pensado “riff” de apoio do pianista. Mesmo assim, a declaração de Lewis sobre Coleman pareceu estranha. Especulou-se que o que ele quis dizer foi que seu quarteto representava o fim de um tipo de jazz, “com alma”, mas racional, antes da chegada dos libertários estridentes. Algo como “depois de nós, o dilúvio”.

Gosto é o que mais se discute, e alguns gostos são difíceis de explicar. O trompetista Miles Davis tocou com alguns dos melhores pianistas do seu tempo (Bill Evans e Keith Jarrett, para citar só dois). Supõe-se que os convocou para apresentações dos seus lendários grupos e para suas gravações antológicas. Mas Miles era, notoriamente, fã de Ahmad Jamal, um bom pianista, mas de segundo time. Nunca, que eu saiba, tocou com ele, mas o elogiava e dizia que sua baixa cotação entre os críticos, apesar da sua popularidade, era injusta. Uma possível interpretação para a opinião insólita de Miles seria que, elogiando Jamal, que usava muito espaços de silêncio nas suas interpretações, estivesse mandando um recado velado para seus pianistas, pedindo mais silêncios e menos virtuosismo. Miles era um mestre dos silêncios bem espacejados.

Pensei em tudo isto revendo na TV o excelente documentário sobre o Nelson Freire feito pelo Waltinho Moreira Salles. A certa altura do filme, Freire confessa que tem muita inveja dos pianistas de jazz, e dá como exemplo de quem gostaria de ser... o Errol Gardner. Tudo bem. Gardner tocava com a alegria que Freire admirava. Era um dos mais bem-sucedidos músicos americanos da sua época e agradava a todo tipo de plateia, não apenas aos aficionados do jazz. Seu sucesso como compositor (é dele o Misty) também contribuiu para sua popularidade. Mas nenhum crítico sério o colocaria entre os grandes. Mais compreensível seria se Freire — que saberia como ninguém identificar os maiores no seu instrumento — escolhesse a mistura de técnica impecável, criatividade e sentimento de um Oscar Peterson, por exemplo. Quem explica?

Luís Fernando Veríssimo
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Por quem as panelas batem

Temos toda a razão de bater panelas quando a presidente aparece na TV dizendo que a culpa por nossa pindaíba é da crise internacional. Mas por que não batemos panelas quando Eduardo Cunha, o líder dos "black blocs" brasileiros, vândalo que faz política com pedras, bombas e coquetéis molotov, vai em rede nacional dizer que trabalha "para o povo", "sempre atento à governabilidade do país"?

Temos toda a razão de bater panelas contra a corrupção da Petrobras. Mas por que não batemos panelas contra o mensalão mineiro ou o cartel do metrô paulistano? Por que não batemos panelas contra a compra de votos para a reeleição do FHC? Por acaso pagar apoio na Câmara é mais grave do que pagar emenda na Constituição?

Temos toda a razão de bater panelas contra o retrocesso econômico de 2015. Mas como podemos não bater panelas contra o anel de pobreza que desde sempre engloba as metrópoles brasileiras, essa Faixa de Gaza de tijolo aparente, essa Cabul de laje batida onde se amontoa boa parte da população?

Temos toda a razão de bater panelas quando o governo se cala diante dos descalabros venezuelanos e da ditadura cubana. Mas por que não batemos panelas diante do fato de nosso principal parceiro comercial ser a China, maior ditadura do planeta? O tofu que alimenta aquela tirania é feito com a nossa soja e os fazendeiros, ruralistas e empresários que acusam a "venezualização" do Brasil são os mesmos que lucram com o dinheiro comunista. Ninguém bate woks por causa disso?

Temos toda a razão de bater panelas contra o estelionato eleitoral do PT. Mas por que não batemos panelas contra o estelionato eleitoral do PSDB, que elege repetidamente um governador tipo "gerente", prometendo "e-fi-ci-ên-ci-a" em cada sílaba, mas coloca São Paulo à beira do co-lap-so-hí-dri-co"? Um cristão cuja polícia, não raro, participa de grupos de extermínio, na periferia. Esta semana, foram 18 chacinados em Osasco e Barueri. Imagina se fosse no Iguatemi? E o estelionato das UPPs, no Rio, que prometem paz, mas torturam um cidadão até a morte e somem com o corpo?

"Não, não, isso não! Me mata, mas não faz isso comigo!", gritava o Amarildo, segundo um policial que testemunhou a barbárie, dentro de um contêiner. Como pode a nossa maior preocupação em relação ao Rio, hoje, ser com a qualidade das águas para as Olimpíadas de 2016? Cadê o Amarildo? Cadê as panelas?

Temos toda a razão de sair pra rua, neste domingo, para protestar contra a incompetência, a corrupção e a burrice do governo. Mas por que não sair pra rua para protestar contra a incompetência, a corrupção e a burrice do país como um todo? Um país que mata seus jovens, sonega impostos, polui, compra carteira de motorista, licença ambiental, alvará, dirige pelo acostamento, estupra, espanca e esfaqueia mulher (mas retira a discussão de gênero do currículo escolar), um país onde os negros correspondem a 15% dos alunos universitários e a 67% da população carcerária.

Este ódio cego, esta parcialidade hipócrita, este bombardeio cirúrgico que pretende eliminar o PT — e só o PT — para "libertar o Brasil", empoderando Renan Calheiros e Eduardo Cunha, não é o desabrochar da consciência cívica, é mais um fruto da nossa incompetência, mais uma vitória da corrupção; palmas para a nossa burrice.

Antonio Prata
No Esquerda Caviar
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Dez condições para ir às ruas de consciência tranquila

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=7474

1 — Não cometer qualquer tipo de burla na declaração do imposto de renda

2 — Jamais pedir ou dar nota fria

3 — Nunca dirigir falando ao celular

4 — Jamais pedir favor a político

5 — Não furar fila

6 — Não cometer conscientemente qualquer infração de trânsito

7 — Não praticar nepotismo

8 — Ser contra qualquer tipo de privilégio pessoal como auxílio-moradia para magistrados

9 — Sendo funcionário público, não ganhar acima do teto

10 — Não acumular gordas aposentadorias
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Transei com Gugu

Mais importante que uma boa matéria é um título impactante. Não, eu não transei com o Gugu Liberato, mas arrisco dizer que muita gente vai começar a espalhar por aí que sim. Talvez esse se torne um dos meus artigos mais compartilhados. O que acontece é que (números do DataFábio) 80% das pessoas não leem o texto todo, só o título e já formulam suas opiniões.

Um dia, tive uma crítica péssima de uma peça de teatro publicada no jornal. Dizia que meu texto era péssimo, não tinha graça e as atuações eram pífias. Mas o que aparecia como chamada em letras garrafais era: “Comédia é para fazer rir”. Recebi algumas ligações de pessoas me dando parabéns pela crítica.

Ler dá trabalho e somos um país que não lê e a internet está nos provando cada vez mais isso. O público se baseia em seu próprio (pré)preconceito para dar uma opinião. Não vou nem entrar no mérito de que a maioria das pessoas ouve apenas um só lado da história (e geralmente o lado que reforça a sua opinião), porque ultimamente as pessoas não estão ouvindo nem a história propriamente dita. O que vem acontecendo na internet é que, de um modo geral, as pessoas não têm o menor comprometimento com o impacto da s ua opinião.

A sede por falar mal e “desmascarar” alguém é muito grande. Tanto faz se a notícia é verdadeira ou falsa. Se sai em algum lugar que todas as músicas do Caetano Veloso na verdade não são dele, mas sim plagiadas, imediatamente alguém irá publicar no seu Facebook ou no twitter: eu sabia. Esse imbecil retardado nunca poderia compor aquelas músicas sozinho. Aí, no dia seguinte, se descobre que isso foi uma notícia completamente mentirosa. Esse mesmo alguém jamais irá dizer que errou e que na verdade o Caetano é incrível mesmo. O importante não é ter uma opinião fundamentada, o importante é ter opinião. Qualquer que seja. De preferência que bata em alguém. E, mesmo se a sua opinião é boa, haverá um comentário de alguém dizendo que a sua opinião é um lixo e você é um idiota. E, como se não bastasse o público em geral, alguns jornalistas/formadores de opinião tecem comentários e escrevem artigos em cima de casos completamente deturpados.

Recentemente, a apresentadora Regina Casé foi envolvida em uma confusão por causa de uma matéria equivocada que saiu no jornal. Ela teve que dar explicações sobre um fato que não ocorreu. Quer dizer, você tá lá no seu canto, fazendo suas coisas, alguém resolve te atacar pra conseguir cliques numa matéria torta e, o pior de tudo, quem se sai mal nessa história é você, que tava na boa, quietinho e agora vai ter que se justificar e mostrar que nada daquilo tem sentido. O que fica para o público é que provavelmente a Regina deve ser a errada, afinal ela teve que se defender. O jornalista, ninguém nem sabe quem é e nem precisou falar nada, porque pra ele não fez a menor diferença. Um dia, vi uma chamada: Rafinha Bastos não estará na próxima edição de A Fazenda. Quer dizer, estamos vivendo a Era da não-notícia. A reencarnação do Buda também não estará na próxima edição de A Fazenda, o Papa Francisco também não e o Neymar também não.

Na verdade, 7 bilhões de pessoas mais ou menos não estarão. A não ser que a pessoa tenha anunciado que estaria, a notícia tem que ser quem vai estar! Essa foi a notícia mais clicada no dia. Pena. Aliás, um abraço pro Gugu Liberato!

Fábio Porchat
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Vai ter selfies com os PMs de Osasco?

Nas marchas golpistas de março e abril, uma cena patética virou motivo de galhofa nas redes sociais. Dignos representantes das elites paulistas, hoje batizados de "coxinhas", fizeram questão de tirar suas egocêntricas selfies com soldados do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Ao mesmo tempo que rosnavam pelo "Fora Dilma" e até pela volta dos generais ao poder, eles explicitaram o seu apoio incondicional à repressão policial. Neste domingo (16), estes adoradores da violência e do ódio bem que podiam fazer uma homenagem aos soldados da PM que assassinaram 18 pessoas em Osasco, na região metropolitana de São Paulo. Golpistas e carrascos em selfies simbólicas da barbárie.

A chacina ocorreu na quinta-feira (13). Homens encapuzados, de armas em punho, entraram em um bar na periferia da cidade e fuzilaram oito clientes. Na sequência, os assassinos percorreram outros 11 locais. Em cerca de três horas, 18 pessoas foram mortas e seis ficaram feridas em Osasco e Barueri. Apenas seis dos mortos tinham passagem pela polícia. A cena de violência revoltou os moradores da região. "Quando morre um policial, pode saber que em até 15 dias vai ter chacina. Nunca vai mudar, aqui não existe Justiça", lamenta a costureira Rosângela Gonçalves — que há três anos perdeu um filho numa chacina e que na quinta-feira perdeu um amigo.

Tudo indica que o massacre foi planejado por um grupo de extermínio formado por PMs dispostos a vingar a morte de um policial na semana passada em um posto de gasolina — cena que ganhou enorme repercussão nos programas policialesco da televisão. "Se a hipótese for confirmada, o episódio não constituirá caso isolado. Ao contrário, a desconfiança quanto à participação de agentes de segurança se repete nas cinco principais chacinas registradas em São Paulo desde 2013", aponta o editorial da Folha deste sábado (15). Nestes cinco massacres foram mortas 42 pessoas. 

 "Manifestações desse tipo expressam com crueza o quanto há de nefasto na existência de esquadrões da morte. Se as forças legalmente constituídas para garantir o respeito às leis não hesitam em violá-las, por que a população deveria confiar no Estado de Direito? O combate ao crime é um desejo de toda a sociedade, mas não pode ser feito ao arrepio das instituições. Fora dos marcos constitucionais não há ordem, mas barbárie; do 'cada um por si' resulta apenas mais violência e insegurança", alerta a da Folha tucana, que sempre fez esforços para blindar o governador Geraldo Alckmin.

Será que os "coxinhas", que voltarão a esbanjar seu ódio de classe contra pobres, negros e moradores da periferia neste domingo, vão tirar suas selfies sorridentes com os policiais de Osasco? Ou será que terão o mínimo de dignidade e exigirão uma imediata atitude do "picolé de chuchu" que ajudaram a eleger no primeiro turno das eleições de outubro passado? Os leitores já conhecem a resposta!

Altamiro Borges
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Cachimbo

Descobriram traços do que pode ser maconha em cachimbos que Shakespeare talvez fumasse. Não é certo que consumissem maconha na Inglaterra elizabetana — parece que a preferencia era pelo ópio — e não há como provar que os cachimbos eram mesmo do Shakespeare, mas só a possibilidade de isto ser verdade já é instigante.

— Anne, meu cachimbo.

— William, você sabe o que aconteceu da ultima vez...

— Meu cachimbo, mulher!

— Lembra da peça que você escreveu fumando o cachimbo sem parar e mandaram de volta, porque ninguém entendeu nada? Disseram que era irreal...

— Bobagem. Mandei a peça outra vez, só mudando o título para “Sonho de uma noite de verão”, e todo o mundo adorou. Onde está o meu cachimbo?

— Escondi! E a erva maldita também. Não quero ver você destruindo seu talento desse jeito, escrevendo coisas sem nexo, malucas. Sua última peça, “A tempestade”, é claramente o produto de uma mente destorcida pelo vício. Pare enquanto é tempo, William!

— Iniquidade, teu nome é mulher!

— Eu sei que você vai querer se vingar de mim, como já fez no passado, maltratando suas personagens femininas. Ofélia, levada ao suicídio. A pobrezinha da Desdêmona, morta por injúria. Os críticos viam na sua misoginia apenas um aspecto do seu gênio. Eu sabia que era contra mim. Você me matava, matando, sadicamente, suas personagens. Mas não me importo. Vou salvá-lo de qualquer jeito.

— Meu cachimbo!

— Não.

— Estão esperando minha peça nova. Não posso escrevê-la sem a ajuda do cachimbo. Só mais esta, Anne!

— Não-o.

— Meu reino por um cachimbo!

— Não seja tão dramático, Will.

Luís Fernando Veríssimo
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Em nome da democracia

"Isso é democracia". Não é, não. Um dos componentes essenciais e inflexíveis da democracia é o respeito às regras que a instituem. As regras existem no Brasil, precisas e claras na Constituição, mas o respeito é negado onde e por quem mais deveria fortalecê-las. O que está sob ataque não é mandato algum, são as regras da democracia e, portanto, a própria democracia que se vinha construindo.

Não há disfarce capaz de encobrir o propósito difundido por falsos democratas instalados no Congresso e em meios de comunicação: reverter a decisão eleitoral para a Presidência sem respeitar as exigências e regras para tanto fixadas pela Constituição e pela democracia. Há mais de nove meses, a cada dia surge novo pretexto em busca de uma brecha — no Congresso, em um dos diferentes tribunais, nas ruas — na qual enfim prospere o intuito de derrubar o resultado eleitoral.

O regime democrático é tratado na Constituição como "cláusula pétrea", que se pretende com solidez granítica. O que não significa ser impossível transgredi-lo. Mas significa que quem o faça ou tente fazê-lo comete crime. E quem o comete criminoso é de fato, haja ou não a condenação que assim o defina. Tal é a condição que muitos ostentam e outros tantos elaboram para si.

A pregação de parlamentares identificáveis como um núcleo de agitação e provocação atenta contra a democracia. A excitação de hostilidades que esses parlamentares propagam pelo país é indução de animosidade antidemocrática — sem que isso suscite reação alguma, o que é, por si mesmo, indício da precária condição da democracia e da Constituição.

O que se passa hoje na Câmara, como método e objetivos da atividade, não é próprio de Congresso de regime democrático. Em muitos sentidos, restaura a Câmara controlada e subserviente da ditadura. Em outros aspectos, assume presunções autoritárias, de típico teor antidemocrático, ao ameaçar até aprovações do Senado de punitivas suspensões da sua tramitação.

Afinal, um dos focos da corrupção é arrombado. Os procuradores e juízes do caso receberam tarefa de importância extraordinária. Mas não é garantido que estejam plenamente respeitados nessa tarefa os limites das regras democráticas. À parte condutas funcionais que não cabe considerar neste sobrevoo do momento do país, é notória no grupo, e dele difundida, uma incitação a ânimos não condizentes com investigações e justiça na democracia. Pôr-se como salvadores da pátria, a partir dos quais "o Brasil agora será outro", não é só um equívoco da ingenuidade. É uma ameaça, senão já algumas práticas, de poderes e atitudes exacerbados que fogem às regras.

Um exemplo que recebeu tolerância incompatível com sua importância: difundir informações inverídicas e sensacionalistas à imprensa, e ao país, "para estimular mais informantes" — como feito e dito por um procurador —, não é ético nem democrático. É autopermissão abusiva. E incitação a ânimos públicos que já recebem das realidades circundantes o bastante para serem exaltados.

O espírito antidemocrático não é alheio nem ao Supremo Tribunal Federal. É nele que um juiz pode impedir a conclusão de um julgamento tão significativo como o financiamento das eleições dos governantes e congressistas. Ou seja, dos que determinam os destinos do país e de seus mais de 200 milhões habitantes. Se alguém achar que é deboche, não vale a pena contestar. Mas convém lembrar que é uma evidência perfeita da prepotência primária, apenas ilusoriamente culta, que sobreviveu muito bem à ruína do seu sistema escravocrata.

Movimentos de ocupações urbanas e rurais são acusados de violar a democracia. É engano. Ilegais, sim, mas não são democráticos nem antidemocráticos. Sequer estão incluídos na democracia, desprovidos que são, todos os padecentes de grandes desigualdades econômicas sociais, de meios democráticos para obter os direitos que a Constituição lhes destina.

E os jornais, a TV, as revistas, o rádio — na verdade, os jornalistas que os fazem — nesse país que concebe a democracia como uma bola, tanto a ser chutada sempre, como a oferecer grandes e efêmeras euforias? Agradeço à sogra de um jogador de futebol, Rosangela Lyra, que me dispensa de alguns desagrados. Disse ela, à Folha, das pequenas e iradas manifestações que organiza pela derrubada do resultado da eleição presidencial: "As redes sociais amplificam e a mídia quintuplica". Entregou. Delação de dar inveja aos gatunos da Petrobras.

"Isso é democracia" como slogan de antidemocracia só indica que o Brasil ainda não é ou já não é democracia.

Janio de Freitas
No fAlha
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Preso pela PF e condenado pela justiça, advogado convoca para manifestação anti-corrupção


Preso pela Polícia Federal em 2006, na operação "Galilélia", o advogado Nelson Marzullo foi acusado de formação de quadrilha, desvio de dinheiro público e outros crimes cometidos na CDP (Companhia das Docas do Pará). Galiléia é o nome de um mar em Israel, e a escolha pela PF se deu em referência ao "mar de lama" que assolava a estatal.

Segundo a Justiça, houve fraudes em licitações, pagamentos em valores superiores aos pagos pelo mercado, vantagens indevidas a empresários e agentes públicos, uso indevido de bens e valores do patrimônio da companhia e uma série de outras irregularidades que violaram os deveres de honestidade, imparcialidade e legalidade.

Segundo o Ministério Público Federal, Nelson Marzullo Maia, assessor jurídico na CDP na época das irregularidades foi condenado ao ressarcimento de R$ 1 milhão aos cofres públicos, juntamente com outros condenados. Teve os direitos políticos suspensos por cinco anos e ficou proibido de contratar com o poder público ou de receber incentivos fiscais ou creditícios por cinco anos. Multado em R$ 10 mil.

Como pode agora estar convocando para manifestação contra a corrupção?

Fonte: Site do MPF-PA - Caso Galiléia: Justiça Federal já condenou 22 fraudadores da Companhia Docas do Pará.

No As Falas da Pólis
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