11 de ago de 2015

As desculpas do humorista do “Pânico” e as bananas de Gentili

Sterblitch
O “Pânico” e o comediante Eduardo Sterblitch tomaram a decisão ajuizada de tirar do ar o quadro do “Africano” depois que a palhaçada foi alvo de uma denúncia encaminhada à Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) da Presidência da República.

Além dos protestos de brasileiros, o personagem já havia sido destrinchado num site do Senegal, Seneweb. A autora da postagem pergunta: “Brésil un Pays Raciste?” (a resposta óbvia é “mais oui!”)

Sterblitch escreveu em sua defesa: “Não sou racista! E também estou chorando… A quem deixei triste ou pior, peço desculpas por minha IGNORÂNCIA! Que, pelo menos, eu sirva de exemplo! Para que isso não aconteça mais.”

Assisti a coisa. Pintado de preto, o tipo “recebe entidades”, faz grunhidos — enfim, é difícil imaginar que alguém consiga rir daquilo, não apenas por ser absurdamente ofensivo.

Não há razão para crer que Sterblitch esteja sendo cínico. Aparentemente, não é um idiota. Já declarou que admira a peça “Esperando Godot”, de Beckett, e autores como Nietzsche e James Joyce — o que, mais uma vez está comprovado, não quer dizer nada.

Mas merece crédito por ter assumido que cometeu uma enorme estupidez.

Poderia ter se saído com o velho blábláblá sobre a liberdade de expressão, os limites do humor etc. Poderia ter culpado “a ditadura do politicamente correto”, apelar para o coitadismo e lembrado dos bons tempos dos chatos Trapalhões, como faz seu colega Danilo Gentili.

Gentili é o símbolo maior de um humor brasileiro covarde e de baixo nível. Poder-se-ia dizer o pai do “Africano”. Curiosamente, ficou em silêncio, até agora, no caso Sterblitch.

No ano passado, o juiz Marcelo Matias Pereira o absolveu do crime de injúria racial numa ação movida por um jovem negro de nome Thiago Ribeiro.

Ribeiro publicou no Twitter diversas mensagens se queixando de manifestações racistas de Gentili. A certa altura, o humorista lhe propôs: “Quantas bananas você quer para deixar esta história para lá?”

Alguns anos antes, ele já havia feito uma “brincadeira”: “King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”

Ribeiro o processou. O juiz conseguiu jogar a conta nas costas da vítima, no que virou uma sentença clássica pelas razões erradas. “A pessoa que não tem condições de participar de brincadeiras e piadas não deve evidentemente interagir com um [perfil de] Twitter com essa finalidade”.

Gentili jamais pediu perdão. Ao contrário, transformou o episódio em uma luta do indivíduo contra a “patrulha do pensamento”, ou algo que o valha, dando um alento a milhares de boçais que hoje criam páginas celebrando o racismo.

Essa valentia, claro, serve para os negros. Gentili ofendeu também os judeus numa blague inacreditável: “Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz”.

Naquela ocasião, no entanto, fez um mea culpa: “Minha intenção como comediante nunca foi trazer nenhum outro sentimento ao público q não fosse alegria. Peço perdão se falhei nesse meu objetivo com a piada q fiz essa tarde. Me coloco a disposição da comunidade Judaica para me redimir” (sic).

Não se sabe de seus serviços para a comunidade judaica, mas ele foi trabalhar com Silvio Santos.

Recentemente, Amy Schumer, sensação da comédia americana, se desculpou por um número com latinos. “Quando percebi que tinha mais olhos e ouvidos sobre mim e que exercia uma influência maior, parei de contar piadas como essa no palco”, afirmou. “Estou evoluindo como artista”.

Eduardo Sterblitch tomou para si a responsabilidade. Eventualmente, isso resultará num artista melhor (já o “Pânico não tem salvação). A outra opção é culpar os ofendidos, se fingir de quixote, denunciar o estado opressor — e permanecer um imbecil sem graça, falando eternamente para uma plateia de imbecis.

Kiko Nogueira
No DCM
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Onde foram parar os valentes jornalistas da Globo que defendiam o impeachment?

O patriarca morreu, mas o papismo foi mantido pelos três herdeiros
Uma coisa eu preciso reconhecer na família Marinho: ela sabe dar ordens.

Nisso, é bem diferente da família Civita, que não consegue pedir um café para o mordomo.

Nem bem João Roberto Marinho disse aos senadores do PT que transmitiria a seus editores o que ouvira deles, o noticiário da Globo mudou consideravelmente.

Em todas as mídias.

O que João ouviu é o que todos já sabiam: que a cobertura da Globo vinha sendo escandolasamente enviesada contra o governo.

João prometeu aos senadores que iria avisá-los do diagnóstico prontamente.

Presumo, pelo que conheço da Globo, que ele mandou um email sintético, que é seu estilo, aos integrantes do Conedit, o Conselho Editorial.

Acabou.

No Jornal Nacional da sexta-feira, um milagre: a dupla aparição de Dilma e Lula em reportagens diferentes.

Há quanto tempo o JN não abria espaço duplo para coisas do PT? Uma eternidade.

Os jornalistas da Globo sabem que o preço da visibilidade é a submissão.

Ou o papismo.

Na biografia de Bial sobre Roberto Marinho, um episódio revelador é narrado.

O jornalista Evandro de Andrade estava conversando com Roberto Marinho sobre a possibilidade de chefiar o Globo.

Evandro, numa carta, garantiu a RM que era “papista”. O papa falou, acabou: passemos para o próximo assunto.

Imagine, apenas a título de especulação, que Ali Kamel se insurgisse e continuasse a acelerar enquanto os patrões pedem que se freie.

Quantas horas até ele ser removido? E alguém trataria de espalhar, nos corredores do poder na Globo, que Kamel foi vitimado pelo Ibope. Pegou, afinal, o Jornal Nacional com mais que o dobro da audiência atual.

Mas isso não vai acontecer, porque Kamel é papista. Você não faz carreira na Globo se não for.

A Globo freando, as demais empresas jornalísticas fizeram o mesmo, excetuada a Abril com a Veja.

Para a Veja, não há mais recuo possível. O estrago por anos de jornalismo criminoso é de tal monta que simplesmente não existe um caminho de volta.

Os atuais leitores — analfabetos políticos de classe média que tem raiva de pobres, negros, homossexuais, índios e demais minorias — debandariam. E os antigos jamais retornariam.

A Folha e o UOL, da família Frias, parecem ter também desistido de atear fogo. Todos os dias, na home do UOL, o blogueiro Josias de Souza decretava o fim do governo.

Procurei Josias hoje, na home, e não encontrei. Fui a seu blog, e encontrei um tom que nada tem a ver com a gritaria dos últimos meses.

A coragem dos colunistas e comentaristas da grande mídia vai até o exíguo limite de uma ordem patronal.

No Facebook, Eric Bretas, diretor de mídias digitais da Globo, disse que o editorial da Globo provava que jornalistas e donos não têm a mesma opinião.

Respondi que respeitaria os aloprados da Globo se eles, diante das novas instruções de JRM, continuassem a fazer o que vinham fazendo.

Claro que isso não aconteceu.

Certamente os papistas da Globo encontraram, como sempre, vários motivos para pensar exatamente igual aos donos.

Paulo Nogueira
No DCM
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Sobre Duvivier


Que aos 16 anos Duvivier se considerasse prepotente e tivesse uma visão heroica sobre o poder de seu voto, tudo bem, é ele quem está dizendo e não serei eu a contrariar.

Mas não está tudo bem quando em 2015 ele faz uma revisão histórica, na qual sinaliza para a esquerda mas vira para a direita.

Pois é este o conteúdo político real da frase segundo a qual "quem elegeu o Lula — isso logo ficou claro — foi o José Alencar, os Sarney, o Garotinho, foi aquela Carta aos Brasileiros e a promessa de que o Lulinha era Paz, Amor e Continuidade. Sobretudo continuidade".

Parece uma crítica pela esquerda, mas é uma crítica impotente. E falsa como nota de dois dólares.

Quem elegeu o Lula em 2002 foi tudo junto e misturado. Que tenham prevalecido uns e não outros, foi resultado da disputa política. Na qual gente que acreditava no poder mediúnico do voto, na prática (por ação ou inação) ajudou o predomínio dos conservadores.

Também me impressiona o parágrafo a seguir, que tanto pode ser lido como uma crítica de esquerda, como pode ser lido como um chororô impotente, mas acima de tudo é falso, falso: "Lula só alugou esse apartamento por quatro anos porque assinou um contrato de locação onde prometia entregar o imóvel i-gual-zi-nho. E Lula, por quatro anos, foi um inquilino dos sonhos — tanto é que renovou o contrato e ainda foi fiador da locatária seguinte. Fizeram algumas mudanças — as empregadas passaram a ganhar mais —, mas não fizeram o mais importante: uma desratização. Muito pelo contrário: os ratos de sempre fizeram a festa".

Notem: Duvivier fala de 2003 a 2006. Me digam, senhores e senhoras, não falta algo nesta descrição?

Lembram de 2005? Pois é. Que "inquilino dos sonhos" foi este que quase foi despejado?

Mas o que importa é a conclusão, certo? E a conclusão é igualzinha a da direita coxinha, a saber: que o problema são os ratos.

Aliás, coxinhas de direita e nazistas sempre terminam com a imagem dos ratos. Pois no fundo no fundo parecem mesmo estar preocupados em saber quem mexeu no queijo deles.

E notem que "divertido": a mensagem fundamental do texto é... se reconciliar com aqueles que odeiam o PT.

Palavras dele: "Caros amigos que odeiam o PT: podem ter certeza de que odeio o PT tanto quanto vocês — mas por razões diferentes".

É o "jeito de pensar de certa esquerda que a direita adora", que acha que se diferencia cantando a mesma música mas com letra diferente. Tipo japonês tem quatro filhos...

Esta esquerda que a direita adora tem seus representantes no governo, mas também tem seus representantes na oposição..

O mais "legal" de tudo é que, ao fim e ao cabo, a conclusão é, como já dissemos: "o PT é indefensável".

E como nesta visão de mundo quem está movendo a ação de despejo são os "ratos que o PT não teve coragem de expulsar", os que pensam que "não fomos nós que elegemos Lula" podem lavar as mãos.

E ficar olhando.

E odiando.


Por que odiar o PT | Por Gregório Duvivier em 10 de agosto de 2015
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Deputado da Iurd se defende com insinuação cafajeste — assista

"O que a jornalista
 'deu' para ter
 informação?"
Em um discurso para tentar se defender da acusação do Ministério Público de que contratou uma pessoa como fantasma para desviar dinheiro da Assembleia Legislativa do Paraná, o deputado Pastor Edson Praczyk (PRB), na foto, fez um comentário cafajeste em relação à jornalista Paola Manfroi (na foto abaixo).

Disse: “O que essa jornalista 'deu' para conseguir essas informações privilegiadas? Como conseguiu isso? Se nem eu sabia que tinham embargado, bloqueado minha conta bancária? Como pode?” (Ver vídeo abaixo).


Paola foi vítima da
fúria do deputado
O deputado e pastor da Igreja Universal não se conformou com o fato de a jornalista da RPC TV, afiliada da Rede Globo no Paraná, ter obtido antes dele a informação de que a Justiça, a pedido do Ministério Público do Paraná, tinha bloqueado suas contas bancárias no valor total de R$ 308 mil.

O Ministério Público denunciou (acusação formal na Justiça) Praczyk por ter recebido o salário de uma funcionária fantasma de 2001 a 2005, no total de R$ 35 mil.

De acordo com investigações da Polícia Federal, um assessor do deputado registrou uma fiel da Universal como funcionária fantasma do gabinete de Praczyk, pegando com ela documentos com o propósito de benzê-los.

Valentão ofendeu a jornalista,
mas não a PF nem o MP



No Paulopes
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Eduardo Cunha tem que sair da presidência da Câmara


São visíveis os sinais de descontrole de Eduardo Cunha, por enquanto presidente da Câmara Federal.

Não se avalie apenas pelo olhar alucinado, que não consegue se fixar em nenhum ponto, pela fala descontrolada, pelos tiros que dispara a esmo, contra qualquer alvo que o descontente. Ele está clara e ostensivamente desequilibrado.

Fosse um piloto de avião, seria interditado. Se policial, tirariam suas armas até se submeter a um teste psicotécnico. Estivesse internado, seria confinado em uma área reservada a pacientes de alto risco.

Esse descontrole não recomenda que seja mantido à frente da Câmara, principalmente depois que for denunciado pelo Procurador Geral da República.

No cargo, ele pode armar barganhas, inclusive atropelando o regimento, como se observou no caso da votação da Lei da Maioridade Penal. Além disso,  possui poder de retaliação e já demonstrou pretender utilizar as instituições públicas para livrar-se da denúncia.

Testemunhas apontam-no como um sujeito perigoso — daí a importância de ser apeado do cargo, inclusive para que a Polícia Federal possa monitorá-lo, impedindo  ações de retaliação contra testemunhas.

Não se trata de um parlamentar comum, mas de uma ameaça pública — e ameaça individual aos seus adversários.

Luís Nassif
No GGN
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Seca em SP tem nome: Alckmim e Serra!


O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE) responsabilizou todos os governos, desde 2004, pela crise hídrica que passa o estado. Para a Corte, a crise hídrica “é o resultado da falta de planejamento das ações da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos”.

De acordo com o tribunal, os governos de Geraldo Alckmin (PSDB), passando por Cláudio Lembo (DEM), José Serra (PSDB), Alberto Goldman (PSDB) e novamente Alckmin, foram alertados sobre a necessidade de um plano de contingência para eventuais riscos de escassez de água no estado.

O deputado estadual Ênio Tatto (PT) lembra que, entre 2003 e 2004, foram feitos debates e apresentação de estudos e projetos de investimento em interligação das represas e reservatórios. Outro problema apontado pelo deputado foi o desmantelamento da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), com a abertura do capital da empresa e a venda de 49% de suas ações.

“Foram feitos estudos e previsto investimentos, mas não foi feito o dever de casa. Na Assembleia Legislativa tinha projetos que orientavam que 80% dos lucros da Sabesp fossem aplicados em investimentos”, ressalta Tatto.

Crise sem obras

De acordo com reportagem do jornal ‘Folha de S. Paulo’, publicada nesta terça-feira (11), devido à baixa vazão dos rios Atibaia e Jaguari, o sistema Cantareira recebe, atualmente, apenas ¼ do volume de água esperado para época. Das cinco milhões de pessoas dependentes do Cantareira, os 6.600 litros por segundo que entraram no sistema nos primeiros dias de agosto, atendem a dois milhões de habitantes.

De acordo com o deputado, nenhuma das obras emergenciais propostas pelo governo ficará pronta em 2015. Para Tatto, o uso da represa do Guarapiranga e da parte menos poluída da Billings para abastecer parte do sistema Cantareira são insuficientes para enfrentar a seca até o fim de outubro. O deputado lembrou que a região metropolitana não tem problema de falta d’água, mas de interligação de suas reservas hídricas.

“Há obras em andamento, falam em 75% de execução, mas demoram de dois a três anos. Vai ter problema, é bastante pessimista a perspectiva. Na verdade, água tem, não tem planejamento”, ressalta o deputado.

Guilherme Ferreira
No Agência PT de Notícias
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Dilma anuncia investimentos de R$ 186 bilhões em energia




Com o intuito de dar celeridade aos projetos de ampliação de geração e de transmissão de energia no país, o governo federal lançou hoje (11) o Programa de Investimento em Energia Elétrica (PIEE), que prevê a aplicação de R$ 186 bilhões entre agosto de 2015 e dezembro de 2018. Do total, R$ 116 bilhões serão investidos em obras de geração e R$ 70 bilhões em linhas de transmissão.

Ao ampliar a oferta de energia, o governo busca ampliar a competitividade do setor, de forma a reduzir o custo da energia no país. Com os novos projetos de geração de energia a serem contratados, serão investidos R$ 42 bilhões até 2018, e outros R$ 74 bilhões após 2018. Essas obras vão aumentar entre 25 mil megawatts (MW) e 31,5 mil MW a energia fornecida ao sistema.

Serão leiloados 37,6 mil quilômetros de linhas de transmissão, a um custo previsto de R$ 70 bilhões. Deste total, R$ 39 bilhões serão executados até 2018, e R$ 31 bilhões a partir de 2018.

Entre as obras planejadas, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, destacou a construção das hidrelétricas de Tapajós e Jatobá, ambas no Rio Tapajós. “Nosso objetivo é fazer esses leilões até o final deste ano”, disse Braga.

De acordo com o Ministério de Minas e Energia, entre 2001 e 2014 a geração elétrica cresceu 67%, passando de 80 mil MW para 134 mil MW. Em 2014, foram agregados mais 7,5 mil MW ao Sistema Interligado Nacional. Já na transmissão, o crescimento foi 80% no mesmo período, passando de 70 mil quilômetros de linhas para cerca de 125 mil, sendo que cerca de 9 mil quilômetros foram instalados no ano passado.

A energia eólica tem sido uma das prioridades do governo. Por meio do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foram feitos financiamentos para 291 parques eólicos entre 2005 e 2014, agregando mais 7,5 mil MW na capacidade instalada do país. Com isso, a expectativa é que em 2023 as usinas eólicas sejam responsáveis por 11,4% da produção elétrica do país — o que representa uma potência instalada de 22,4 mil MW.

Pedro Peduzzi e Paula Laboissière
No Agência Brasil
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Cadê a esquerda?

Houve tempo em que o PT foi crível, mas o tucanato nunca enganou

Ele quer que o PT se penitencie. A penitência dele deveria vir em dobro
Hélvio Romero
Meus inquietos botões permitem-se a dúvida: não teriam mentido inúmeros nativos que se apresentavam como esquerdistas convictos? Responde, indiretamente, a peremptória afirmação de quem entende superada a questão e obsoleta a indagação dos botões, ambas a cheirar a bolor, como a exalar de um velho baú abandonado no sótão. Batem na mesma tecla desde a queda do Muro de Berlim.

De minha parte, fico com a lição do Norberto Bobbio, e ouso a constatação de que coincide (estranhamento? Surpreendentemente?) com a palavra de papa Francisco: intransponível a dicotomia entre luz e treva, bem e mal, Deus e Diabo, se quiserem, ser de esquerda significa defender a igualdade, pois a liberdade por si só acaba por valer somente para poucos. Tanto mais no Brasil da casa-grande e da senzala, ainda de pé, implacáveis.

Penso em José Dirceu e em tantos outros, que ganharam fama de guerrilheiros da igualdade ao sabor de ideologias mais ou menos contingentes. Penso nos rebeldes que hoje pretendem voar com as asas inúteis do tucano, ou na patética turmeta da chamada Libelu, mais fanáticos do que o fanatismo no seu empenho medieval. Entre estes milita certo Antonio Palocci, ainda dará o que falar além do que já se falou. Grande Operador, como P. C. Farias, mas este, ao menos, nunca se disse de esquerda.

Quando, do alto da boleia de um caminhão, José Dirceu exibia às calçadas a camisa ensanguentada do estudante assassinado pela ditadura, cerca de 50 anos atrás, acreditava na fé que aparentemente o movia? Não me atiro a negar. Nego, porém, qualquer semelhança entre aquele e o atual, lobista do banqueiro Daniel Dantas e outros graúdos. O mesmo Dantas que já ofereceu apoio ao jornalista (jornalista?) criador do site 247, o preferido do PT, embora ele tenha passado boa parte da vida a agredir o próprio partido e seus governos, sem hesitar em mentir, omitir e inventar. E ainda lhe pagam os serviços.

Figura central, e sempre protegida neste enredo trágico, o fantasmagórico DD, inatingível, cabe suspeitar, porque dono dos segredos da República. Houve, em tempos tucanos, quem pretendesse torná-lo ministro, declinada a oferta com a seguinte observação: “Serei mais útil no bastidor”. Márcio Thomas Bastos, apressadamente santificado, sabia disso tudo, bem como José Dirceu, que pressionou para que o disco rígido do Opportunity capturado pela Operação Chacal fosse jogado ao lixo. Foi atendido.

Se me dissessem, faz 35 anos, que o PT no poder se portaria como todos os demais partidos (partidos?) brasileiros, excluiria a possibilidade. Não havia, então, qualquer dúvida de que o partido nascia à esquerda, e valia confiar em quem o fundava. Que sobrou daquela plataforma ideológica, daquele programa, corajoso e justo? A imagem de uma agremiação à deriva, esmagada por seus erros e pelo vácuo de quadros, incapaz de definir uma linha diferente, oposta mesmo, àquela dos clubes recreativos dos donos do poder.

Neste momento, não como petista que nunca fui, como cidadão simplesmente envolvido nos destinos do País e como jornalista honesto, declaro espanto e desalento, diante de um espetáculo em que se mesclam incompetência e cobiça. Elementar, chã, primitiva, a cobiça dos falsos líderes. Sejamos claros, contudo: a traição do PT a si mesmo estava desenhada desde o primeiro mandato de Lula e CartaCapital não deixou de registrá-la.

Quanto ao tucanato, Fernando Henrique à testa, nunca me enganou. Neste exato instante, o ex-presidente social-democrata (social-democrata?) pede que o PT pecador faça ato de contrição, aquele que lhe caberia em dobro: durante seu governo FHC quebrou o País três vezes, aumentou a dívida e esvaziou suas burras, comprou votos parlamentares para se reeleger e comandou a maior bandalheira-roubalheira da história. Agora não hesita em desenrolar sua versão a respeito do encontro que não houve com Lula. Mais uma aula de hipocrisia e desfaçatez.

Mino Carta
No CartaCapital
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Alemanha: as reformas Volkswagen e a fome

O "modelo alemão"... um sonho.

Austeridade? Sim, ok, pode não ser bonita: mas os resultados, meus senhores, queremos falar dos resultados?

Ontem

Em 2003, o chanceler Gerhard Schroeder introduziu as reformas no mundo do trabalho mais ampla da história alemã, a assim chamada "Reformas Hartz". O nome tem que ser explicado: deriva do presidente do comitê que estudou o caso e sugeriu as reformas ao chanceler. O presidente do comitê era Peter Hatz, que era ao mesmo tempo o chefe dos Recursos Humanos da Volkswagen.

E aqui já há algo que deixa um pouco... como dizer? "Surpreendido"? Não, surpreendido não. Diria mais "deprimido": porque quando o executivo de uma multinacional lidera o comitê que tem como objetivo reformular o mundo do trabalho, podemos ter a certeza que algo vai correr mal.

E correu, de fato.  

Schroeder recebeu e aplicou as ordens... desculpem, os conselhos de Hartz e os resultados começaram logo a ser visíveis: flexibilidade selvagem, liberdade de demissões, fortes limites no subsídio de desemprego. Apareceram também os mini-jobs (mini-trabalhos), aqueles onde o trabalhador é chamado para trabalhar ao longo de 24 horas, uma semana, um mês. Hoje um mini-job na Alemanha paga 450 Euros. Livre de impostos, é verdade, mas sempre miséria é, sem contribuições para aposentadoria, sem auxílio-maternidade, etc. E Schroeder era do Partido Social Democrata, teoricamente de Centro-Esquerda: imaginem tivesse sido de Direita...

A liderança industrial alemã, obviamente, ficou entusiasta: Berlim olhava para os Países do Leste, aqueles ex-comunistas, mesmo alí atrás da fronteira e havia fome de trabalho. Como hoje lembra o simpático Jorge Kramer, chefe-economista da Commerzbank,:
Os sindicatos eram chantageados dizendo-lhes que ou aceitavam os cortes salariais e a flexibilidade ou os empresários iriam recrutar os azarados do Leste.
Bastante claro, não é?

Hoje

Resultado: a Alemanha tem salários médios em estagnação, que não seguem os ritmos da inflação, há 10 anos. Hoje, a Alemanha tem a maior proporção de trabalhadores com baixos salários (quando comparados com o rendimento médio nacional) de toda a Europa.

Há mais de 6 milhões de mini-jobs na Alemanha, três quartos dos quais afetam as mulheres. Impossível sobreviver com um rendimento assim, impossível planejar casamento, casa ou filhos: como o mini-job hoje trabalhas, amanhã já não se sabe.

E as famílias alemãs devem ir buscar as poupanças para sustentar os filhos: porque os mini-jobs afetam em primeiro lugar os jovens com menos de 25 anos. E em segundo lugar? Os idosos, os pensionistas, forçados a voltar ao trabalho para sobreviver: porque a reforma Hartz atingiu também as aposentadorias e o setor da proteção social, esta insuficiente para milhões de indivíduos.

O ponto mais baixo deste desastre é contado pela revista Der Spiegel: na Alemanha existem quase um milhar de organizações que fornecem comida aos pobres, entre os quais encontram-se as faixas "protegidas" pela reforma Hartz. Falamos de meio milhão de alemães que não têm nada para comer.

E pior: a situação dessa enorme massa de cidadãos tornou-se tão precária que as organizações de caridade têm sido forçadas a expandir as suas intervenções em âmbitos que antes eram prerrogativas do Estado social. Mas o resultado é catastrófico: as organizações não têm fundos para conseguir estes objetivos e estão falindo.

Há também uma percentagem crescente de estudantes que são forçados a comer nas "cozinhas da caridade". Claro, depois do horário escolar, depois de horas de estudo, depois dum mini-job (quando é que há), com 450 Euros por mês ou há os pais que ajudam ou sobra a esmola para os pobres.

Finalmente, a Merkel se orgulha da baixa taxa de desemprego: 5,2%. A simpática Ângela, como é claro, não diz o que todos sabem: o departamento de estatística trabalha diligentemente marcando os trabalhadores dos mini-jobs como "ocupados", o mesmo triste truque utilizado nos EUA há 25 anos. Na verdade, a central de estatística da União Europeia (Eurostat) avalia o desemprego real alemão na casa dos 11,9%. Mais do que o dobro dos dígitos utilizados pela Merkel nos seus discursos de propaganda, até maior do que a média europeia.

Há 15 anos na Alemanha um trabalhador da Volkswagen ganhava bem, muito bem mesmo. Depois chegaram as reformas e agora temos o "milagre alemão", a "locomotiva europeia", aquela que criou um exército de mortos de fome e que se arroga o direito de estabelecer as regras da União.

Ipse dixit.


Der Spiegel: uma lista de artigos que a revista alemã dedicou aos problemas do trabalho na Alemanha durante os últimos anos (em inglês):




Alemanha lucrou mais de 100 bilhões de euros com a crise na Grécia, diz estudo

Instituto considera que o valor representa a poupança garantida pela Alemanha com a atração de investidores assustados com a instabilidade grega.

PPE/FlickrA Alemanha "se beneficiou claramente com a crise grega", em mais de 100 bilhões de euros, segundo um estudo divulgado hoje (10) pelo Instituto de Investigação Econômica Leibniz, informou a agência France Presse. O instituto, sem fins lucrativos, considerou que o valor representa a poupança garantida pela Alemanha por meio de baixas taxas de juros sobre as suas obrigações, resultantes da atração da sua economia sobre investidores assustados com a instabilidade grega.

Quando os investidores enfrentam dificuldades, procuram tipicamente um mercado seguro para o seu dinheiro, e a sólida economia alemã "se beneficiou desproporcionalmente" desse fato durante a crise da dívida na Grécia, diz o estudo, acrescentando que as poupanças "excedem os custos da crise, mesmo se a Grécia não pagasse todas as suas dívidas."

"Nos anos recentes, cada vez que os mercados financeiros souberam de notícias negativas sobre a Grécia, as taxas de juros sobre as obrigações do governo alemão caíram, e cada vez que as notícias foram boas, estas subiram", defende o documento.

A Alemanha exigiu à Grécia disciplina fiscal e duras reformas econômicas em troca da ajuda de credores internacionais.

O ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, opôs-se a uma reestruturação da dívida grega, apontando para o orçamento equilibrado do seu governo. O instituto, porém, defende que o equilíbrio orçamental alemão só foi possível graças às poupanças em taxas de juros por causa da crise de dívida grega.

Os estimados 100 bilhões de euros que a Alemanha poupou desde 2010 constituíram cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Outros países como os Estados Unidos, a França e a Holanda também beneficiaram, mas "a um nível muito mais reduzido". O dinheiro investido pela Alemanha em pacotes de resgate internacionais chegou a cerca de 90 bilhões de euros.

No EBC
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Marina rumo a 2018

Ao se descolar dos movimentos pró-impeachment, ela rejeita o papel de coadjuvante

Marina larga bem e não tem adversários internos
em relação aos quais precisa se impor.
Os resultados da eleição presidencial de 2014 fizeram bem a alguns dos candidatos derrotados e mal a outros. Marina Silva é quem parece ter mais aprendido. Aécio Neves é exemplo de quem andou para trás.

A ex-senadora, em pronunciamentos e entrevistas recentes, revela-se muito mais próxima hoje daquilo que dela esperavam seus simpatizantes durante a campanha. Naquele momento, provavelmente ainda sob a decepção de ter de concorrer ligada a partidos e políticos com quem tinha pequena afinidade, Marina assumiu um tom pouco condizente com sua biografia. Quis tornar-se algo que não podia ser, considerado seu passado e trajetória.

A radicalização antipetista não fazia sentido para alguém como ela e foi a incongruência que mais a deixou vulnerável. Quando habilmente a campanha do PSDB explorou essa vulnerabilidade, ela ficou sem resposta. Aécio reivindicou o lugar que Marina pretendia ocupar e assim detonou sua candidatura.

Ao contrário de muitos tucanos, Marina mostra, no entanto, ter superado o trauma de 2014. Olha para o futuro e caminha para chegar a 2018 de forma competitiva. Recusar-se a integrar a atual coalizão pró-impeachment é um passo, provavelmente o mais importante.

Depois da adesão à candidatura de Aécio Neves no segundo turno, Marina corria o risco de nunca mais escapar da subalternidade. Se não tomasse cuidado, estava-lhe reservado, na eleição de 2018, no máximo o papel de figurante de luxo, a quem apenas caberia dar cor brasileira e popular à velha oposição.

Ao deixar claro que repudia as conversas a respeito do impeachment de Dilma Rousseff, Marina mostra não fazer parte da turma que o busca a qualquer preço. Revela ser diferente da mistura de velhos e novos conservadores, saudosistas da ditadura e oportunistas de sempre, reunidos pelo ódio contra o PT e suas lideranças.

Sem ela, a coalizão pró-impeachment fica menos atraente para jovens, indivíduos preocupados com a sustentabilidade e a ecologia e progressistas descontentes com os rumos do PT. Sua presença, claro, não bastaria para levar esses segmentos a apoiar o impeachment, mas seria, com certeza, significativa.

O caráter restrito dessa coalizão estabelece nítida diferença em relação ao quadro que vivíamos antes da saída de Fernando Collor da Presidência em 1992. Naquela quadra, os movimentos sociais favoráveis ao impeachment eram amplos e reuniam o conjunto do Brasil moderno. Agora, como mostram as pesquisas sobre o perfil dos manifestantes atuais, quem deles participa é quase exclusivamente o eleitorado de direita, em especial das facções mais anacrônicas e reacionárias.

A maioria da opinião pública os percebe dessa maneira. Em pesquisas qualitativas realizadas ao longo do primeiro semestre pelo Instituto Vox Populi, constata-se que as manifestações de 2015 contra o governo e o PT, convocadas oficialmente ou não pela oposição tradicional, perderam a característica de universalidade que aquelas de 2013 possuíam aos olhos da população. Dois anos atrás, os protestos eram “de todos” e “lutavam por direitos e melhoras para todos”. As recentes são “da classe média contrária ao PT” e “apenas defendem seus próprios interesses”.

Marina age com inteligência quando evita a companhia dos políticos pró-impeachment e se recusa a avalizar as manifestações que estimulam. Mesmo se isso implicar a perda do apoio da mídia conservadora, que tem deixado de tratá-la com a simpatia dedicada aos correligionários. Não é por acaso que ela sumiu da cobertura dos veículos de comunicação que a endeusavam quando era vista como aposta para derrotar o PT.

A presidenciável sabe o que faz. Embora diga não se preocupar em ser candidata em 2018, dessa maneira aumenta seu cacife para a próxima eleição. Mostra compreensão maior da sociedade brasileira que a velha oposição, partidária ou midiática.

Daqui a três anos, estaremos em plena eleição. Apenas de uma coisa podemos estar certos: Dilma não será candidata. O que torna praticamente irrelevante a discussão de seus atuais problemas de imagem. Do lado do PT, há ainda muita coisa para definir. Mas, nas oposições, Marina larga bem. E não tem adversários internos em relação aos quais precisa se impor.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
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Carlos Araújo, o guru à beira do Guaiba


Nos últimos anos, em sua casa à beira do rio Guaíba, o advogado e político Carlos Araújo transformou-se em uma espécie de guru de parte do mundo político. Em parte pelo fato de ser ex-marido, amigo, e um dos conselheiros da presidente Dilma Rousseff. Muito pela visão política e estratégica e pela abertura de se relacionar com políticos de todos os quadrantes.

* * *

Embora não seja muito ouvido — como todos os conselheiros da presidente — coube a ele o aconselhamento para que Dilma levasse para o Ministério o deputado Eliseu Padilha, considerado grande articulador da base.

Meses atrás, quando se montou a enorme frente para derrubar Dilma, Araújo manteve o sangue frio e previu que era questão de tempo para a frente se esfacelar, devido à sua heterogeneidade e aos efeitos futuro da Lava Jato.

Na semana passada, sua previsão se confirmou.

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Em pleno tiroteio, com campanhas pelo impeachment e passeatas monumentais, Araújo se mostra tranquilo. Para tirar Dilma, só atropelando a Constituição e as leis, diz ele. E o país cresceu o suficiente para não aceitar mais essas aventuras. Por seus cálculos, bastariam 171 deputados ou 23 senadores para brecar qualquer tentativa de impeachment.

Além disso, seu cenário futuro prevê uma recuperação da economia até o final do ano. E, para ele, a crise política é decorrência única do mal-estar econômico. A crise desbasta a popularidade da presidente e os deputados da base não querem associar sua imagem a de uma presidente desgastada.

Esse círculo vicioso será interrompido, diz Araújo, assim que a economia mostrar os primeiros sinais de recuperação.

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Araújo tem plena confiança na habilidade política e na lealdade do vice-presidente Michel Temer. E Dilma tem também.

Sua noção de política segue a do seu guru Getúlio Vargas. A caminhada política de Araújo começou pelo Partido Comunista, na juventude. Com a morte de Getúlio e a divulgação dos crimes de Stalin, percebeu que os comunistas não tinham pátria, projeto e povo. Saiu do Partidão, passou pela luta armada e, depois de solto, ingressou no trabalhismo. Só se muda um país com um projeto nacional, diz ele, algo que ia contra o pensamento internacionalista do Partidão.

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Dilma acompanhou-o nessa trajetória política. E, através desse aprendizado, deu-se conta de que um projeto de país não pode ser exclusivista, ideologicamente fechado e maniqueísta. Tem que envolver os trabalhadores, o empresariado e todos os setores econômicos e sociais, sem abdicar dos princípios da luta pela inclusão e pela igualdade.

Conhece como poucos os detalhes da vida de Vargas e gosta de relembrar Vargas presidente, montando um ministério conservador. Quando os aliados vieram cobrar dele esse paradoxo, sua resposta foi objetiva: vocês já têm o presidente, não precisam de mais.

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Não tem afinidade com o PT nacional e o estadual, mas nutre profunda admiração por Lula. Analisa que todo o terremoto de agora não visa tirar Dilma mas antecipar a batalha de 2018. Tem certeza de que, em qualquer situação, Lula é favorito. “Ele sabe tirar votos da cartola”, diz Araújo.

Uma das grandes dificuldades em enfrentar a crise é o esfacelamento do poder em todos os níveis — inclusive na oposição — e a falta de estadistas capazes de organizar o caos. Em sua opinião, o único estadista atual é Lula, mas seria ótimo se a oposição tivesse alguém com capacidade de unificar o discurso.

Acha que Aécio Neves se isolou no PSDB, com os demais caciques pulando fora da tática incendiária.

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Para Dilma completar a travessia da crise, falta um projeto de país, diz ele, admitindo que se avançou pouco nessa direção.

Luís Nassif
No GGN
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Que interesses estão por trás do projeto do Serra que abre a exploração do pré-sal?


11 de agosto é o Dia do Estudante.

Desde 1827, quando foi criada, a data é celebrada em todo o País.

O 11 de agosto de 2015, especificamente, visa defender a democracia, a educação e a Petrobras.

Para isso, entidades ligadas à Educação e aos trabalhadores (a lista, no cartaz acima) e a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Petrobras realizam hoje, na Câmara dos Deputados, ato público em defesa da estatal brasileira e contra o projeto 131/2015 do senador José Serra (PSDB-SP).

O projeto do tucano visa alterar o marco regulatório da exploração do pré-sal. Ele quer que a Petrobras deixe de ser a operadora única do pré-sal brasileiro, abrindo a sua exploração para as petrolíferas internacionais, como a Chevron, Exxon, BP e Shell.

A senadora Fátima Bezerra (PT-RN), uma das integrantes da Frente em Defesa da Petrobras, está muito envolvida na mobilização para o ato desta terça.

Com mais de 40 anos de militância em defesa da Educação, Fátima coordena o núcleo de Educação da bancada do PT no Senado, onde é vice-presidente da Comissão de Educação (Romário é o presidente).

Como muitos colegas, Fátima diz que foi surpreendida com o projeto de Serra no início do trabalho legislativo de 2015. Se não foi a primeira iniciativa dele como senador, após ser eleito em outubro de 2014, foi uma das primeiras.

— O que te espanta mais, senadora, com o projeto de Serra?

— O marco regulatório do pré-sal é uma lei muito recente, que foi discutida exaustivamente quando o ex-presidente Lula enviou o projeto para o Congresso.  Foram anos de discussão, inclusive com a sociedade. Por que querer alterá-lo tão precocemente e, ainda, de forma tão açodada? Nós achamos que alterar a legislação neste momento não é bom para o Estado brasileiro, não é bom para a Educação de maneira alguma. Pelo contrário.

— Caso o projeto de Serra seja aprovado, que impacto terá na Educação? 

  Nós –movimentos sociais e instituições ligadas à luta em defesa da Educação — temos uma compreensão muito clara de que ele terá impacto direto, negativo, muito grave no campo da Educação.

— Em artigo que republicamos recentemente no Viomundo,  Pedro Celestino, candidato à presidência do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, denunciou: A serviço das petrolíferas estrangeiras, Serra manipula dados para entregar o pré-sal   detona os erros de Serra para entrega do pré-sal. 

Nos comentários, um  leitor rebateu: “É mentirosa a versão de que o projeto faz parte de uma estratégia para se entregar o pré-sal ao ‘império do mal’…”; pelo projeto de Serra, “ a cada nova área leiloada, caberá à Petrobras fazer a análise de interesse comercial e financeiro para decidir se ela quer ser a operadora daquele poço. CASO a Petrobras decida livremente por não exercer esse direito, então uma outra empresa poderá fazer esse papel!”

Eu pergunto então à senhora: O projeto de Serra não deixa a exploração do pré-sal a gosto de cada um que estiver na presidência da Petrobras?

Com certeza. Como deputada federal, eu acompanhei todo o debate sobre o marco regulatório do pré-sal feito, quando o ex-presidente Lula mandou o projeto para o Congresso. Nós conseguimos aprovar a lei que estabelece que 75% dos royalties do petróleo sejam para a Educação e os 25% restantes para as outras áreas. A lei estabelece também que 50% do Fundo Social do pré-sal destinem-se à Educação.

Essa lei foi aprovada num contexto muito importante e decisivo para o país, que coincidiu com o desfecho da aprovação do PNE — o Plano Nacional de Educação. Os recursos do pré-sal terão peso muito significativo no sentido de complementar o financiamento que o país precisa para atingir as metas do PNE nos próximos dez anos.

— Se o projeto do Serra estivesse em vigor, quanto o Estado perderia?

Para começar, a Petrobras poderia ficar de fora do consórcio de Libra, único bloco do pré-sal já licitado.  Isso  acarretaria para o Estado brasileiro perda de R$ 246 bilhões.

Além do mais, se o projeto for aprovado, o fundo social perderá R$ 100 bilhões. Portanto, a Educação deixará de receber 50 bilhões, já que pela atual legislação 50% dos recursos do fundo social do pré-sal destinam-se à Educação.

Eu falo isso sem nenhuma emocionalidade. Falo pela convicção de mais de 40 anos de militância na área da Educação. Eu sei o que tem representado para a Educação os recursos do pré-sal. Ao mesmo tempo, tenho consciência do enorme passivo que existe nessa área.

Acredito que a sociedade brasileira tenha consciência hoje de que o desafio de termos mais creches, mais educação em tempo integral, mais escolas técnicas, mais educação em todos os níveis, enfim, depende dos recursos do pré-sal.

—  Serra alardeia que o projeto dele não trará prejuízo para a Educação. 

Discordo do senador. Eu já disse a ele em debate no Senado: “Eu respeito as contas que o senhor apresenta, mas fico com a outra conta, que é a que nos é apresentada por estudiosos da questão”.

As contas dos especialistas que nós respeitamos mostram claramente que o projeto de Serra implica redução de recursos para a Educação. Não vamos aceitar que um centavo seja tirado da Educação. Esse dinheiro fará muita diferença diante do desafio para se cumprir as metas do novo PNE. O novo Plano de Educação é uma das apostas mais saudáveis e fortes do Brasil que a gente quer.

— O marco regulatório da exploração do pré-sal levou cerca de quatro anos sendo debatido no Congresso. Agora, graças a uma manobra articulada com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o projeto de Serra em três meses de tramitação já está para ser votado no plenário sem sequer ter passado pelas comissões especiais da Casa.  Por quê?

— É o que nós nos perguntamos. Por que tanta pressa com uma lei tão recente? Que inspiração está por trás disso? Quais os interesses?  Comenta-se num acerto entre Renan e Serra, pelo qual Serra sairia candidato a presidente em 2018 pelo  PMDB. Será isso mesmo?

O fato é que, antes do recesso, nós passamos momentos momentos de muita apreensão. Por pouco o projeto de Serra não foi aprovado. Nós conseguimos derrubar a urgência e agora o projeto vai ser debatido numa comissão especial. Nós ganhamos uma batalha, mas não a guerra.

— O que a senhora espera com o ato desta terça-feira?

—  O ato faz parte do calendário de mobilização e vigília permanente para se contrapor ao projeto do senador José Serra. Nós vamos aproveitar o ato para continuar buscando diálogo com o conjunto da sociedade. O foco é exatamente uma agenda nobilíssima, a da Educação, que tem de estar vinculada aos recursos do pré-sal. Ou seja, o pré-sal é da Educação.

Conceição Lemes
No Viomundo
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Flávio Dino com o povo: não vai ter Golpe!


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Alckmin, Globo e Renan isolam golpismo de Aécio


O senador Aécio Neves (PSDB-MG), que no fim de semana concedeu uma entrevista prevendo que será chamado em breve a salvar o País (leia aqui), foi abandonado à beira da estrada.

Nos últimos dias, três movimentos simultâneos praticamente liquidaram a possibilidade do golpe contra a democracia, que vinha sendo tramado e liderado por aliados de Aécio.

O primeiro ato se deu no encontro entre João Roberto Marinho, um dos sócios da Globo, e senadores petistas, quando ele afirmou que o sucessor de Dilma será aquele que conseguir se eleger em 2018 (leia aqui). Mais do que respeitar o calendário eleitoral e abandonar o golpe, a Globo também rifou Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, que seria peça-chave na orquestração golpista (leia aqui).

O segundo ato partiu daquele que, no PSDB, reúne hoje as melhores condições para se colocar como candidato natural do partido: o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Ontem, ao participar de uma homenagem ao ex-governador pernambucano Eduardo Campos, ele afirmou que 'a questão do impeachment não está colocada' (leia aqui).

Não é exatamente o que pensam tenentes aecistas, como o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) e o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), mas o fato é que a opinião de Alckmin tem muito mais peso.

Por último, o terceiro ato ocorreu na noite de ontem, quando, em sintonia com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), lançou a chamada "Agenda Brasil", um pacote de reformas de longo prazo, que sinalizam a retomada da governabilidade e da responsabilidade fiscal.

Os três movimentos, simultâneos, podem ser resumidos numa frase: Dilma fica, terá condições de governar e Geraldo Alckmin será o candidato do PSDB em 2018.



Aécio viaja na maionese e quer se lançar candidato a eleição que não existirá


Derrotado na disputa presidencial de 2014, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) quer ser candidato ao Palácio do Planalto em 2015.

O anúncio foi feito pelo deputado Marcus Pestana (PSDB-MG), um de seus principais aliados, que defende eleições antecipadas como remédio contra a crise política.

"Essa alternativa casa com a motivação de Aécio e é inegável que o favorece", disse Pestana, em entrevista ao jornal Valor Econômico. "Mas não é porque o favorece que nós construímos essa tese".

Segundo Pestana, tanto a presidente Dilma Rousseff como o vice Michel Temer deveriam ser cassados pelo Tribunal Superior Eleitoral por abuso de poder econômico, obrigando novas eleições para presidente.

O problema é que a tese aecista não interessa a ninguém, a não ser ao grupo aecista. Em editorial recente, a Folha de S. Paulo afirmou que a democracia não pode ser vergada em favor de interesses pessoais.

No 247
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A “morosidade” da Justiça, o linchamento judicial de Moro e a lição de Montesquieu


A um juiz, pela importância da função que exerce, exige-se, antes de tudo, decoro, prudência e discrição.

O Dr. Sérgio Moro não cansa de — elevado ao estrelato de Juiz Supremo do Brasil — expor ao país a boa razão de esperarem-se tais coisas de um magistrado.

Ontem, está no Estadão, não perdeu a chance de usurpar as funções que não são suas e proclamar-se juiz dos desejos do povo, no mais deslavado populismo judicial.

“A população quer saber o ‘efeito final’ dos processos criminais, ‘saber se a Justiça funciona ou não’. Não podemos ter a Operação Lava Jato como um soluço que não gere frutos para o futuro”.

Não, Dr. Moro, o papel de Justiça é ser justa, equilibrada, garantidora não apenas do cumprimento da lei, mas da universalidade dos direitos, não importa a quem.

Não é a de se substituir ao linchamento popular dizendo: “podem deixar que eu espanco ele”…

“No Brasil, existem casos criminais em que a prova incriminatória é esmagadora, mastodôntica, com a responsabilidade demonstrada, e o réu insiste em ir até o final do processo, apostando na impunidade.”

É direito do réu, de qualquer réu, esgotar suas possibilidades de defesa.

O que compete ao Judiciário é fazer com que este processo de garantia do reexame de decisões — quase todas de um só homem — seja rápido, não o de eliminar esta garantia.

Garantia, inclusive, do poder persecutório do Estado, que pode e deve recorrer de decisões que não considerem “esmagadoras e mastodônticas” as decisões do juiz ou as penas aplicadas, porque não há proibição, quando não é apenas a defesa quem recorre, de agravarem-se as penas. Só no caso de recurso exclusivo da defesa há a vedação do aumento de pena, o tal “reformatio in pejus” de que falam os advogados.

Mas vai-se adiante no estilo judicial que não busca apenas ternos em Miami, mas modelos de Justiça, ao arreppio da Constituição brasileira que diz, em seu o art. 5º, LV, que “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”.

Sérgio Moro verbaliza aquilo que, há dias um colega seu, o juiz Alexandre Morais da Rosa, adverte da ideia de copiar o sistema americano de transformar a aplicação da lei ao um mero “negócio entre partes”, o acusador e o acusado, chegando ao “extremo de termos uma pena sem processo e sem juiz”.

O acusado, assim, praticamente se transforma num sequestrado, que deve pagar com algo — ou a delação de terceiros ou a assunção de uma pena “vantajosa” — pelo direito de ser condenado com “limite” de pena e sem a chance de lutar por sua eventual inocência.

Não há mais inocentes, há apenas os que não quiseram confessar e que, por isso, já estão condenados.

Escreve o Dr. Morais da Rosa:
“A negotiation viola desde logo o pressuposto fundamental da jurisdição, pois a violência repressiva da pena não passa mais pelo controle jurisdicional e tampouco se submete aos limites da legalidade, senão que está nas mãos do Ministério Público e submetida à sua discricionariedade. Isso significa uma inequívoca incursão do Ministério Público em uma área que deveria ser dominada pelo tribunal, que erroneamente limita­-se a homologar o resultado do acordo entre o acusado e o promotor. Não sem razão, afirma-se que o promotor é o juiz às portas do tribunal. O pacto no processo penal pode se constituir em um perverso intercâmbio, que transforma a acusação em um instrumento de pressão, capaz de gerar autoacusações falsas, testemunhos caluniosos por conveniência, obstrucionismo ou prevaricações sobre a defesa, desigualdade de tratamento e insegurança. O furor negociador da acusação pode levar à perversão burocrática, em que a parte passiva não disposta ao “acordo” vê o processo penal transformar‑se em uma complexa e burocrática guerra”.
Aliás, a condenação precede mesmo o julgamento, porque o Dr. Moro provou que é possível — e triste — que se mantenha alguém preso por meses a fio sem que nada haja contra si, senão a versão unilateral de um delator que aponta o dedo a alguém para se safar, no possível, de seus próprios delitos.

Alem do mais, a banalização da transação penal tem efeitos pra lá de discutíveis sobre a eficácia do sistema judicial em si, quando não se considera o interesse — ou, quem sabe, o desejo — de envolver e culpabilizar terceiros. Qualquer pessoa do povo sabe que, nos crimes de menor poder ofensivo, o “pagamento de cestas básicas” tornou-se uma espécie de garantia de impunidade de fato, como pode se tornar o pagamento de multas e a “deduração” de outrem.

O discurso do Dr. Sergio Moro não é o da elevação do papel do Juiz, mas o seu rebaixamento à condição de “justiceiro”, como se a punição e não a justiça fosse o cerne de sua ação.

Há, contudo, um aspecto de imensa perversidade quando se nega a presunção da inocência até a apreciação de recursos e a condenação transitada em julgado, pretendendo a execução prévia de pena e recusando o que disse Montesquieu há mais de 250 anos, em seu Espírito das Leis: quando a (presunção da) inocência dos cidadãos não é assegurada, a liberdade também não o é”.

Porque a lei é feita para todos os homens e mulheres, não para os criminosos e, portanto, deve cuidar antes de proteger o inocente que de castigar o transgressor.

É, dizia dizia o velho pensador, em que se funda boa parte da ideia moderna de estado, uma regra que vale tanto para o indivíduo quanto para a sociedade:
“Quando uma república conseguiu destruir aqueles que queriam derrubá-la, deve-se apressar em pôr fim às vinganças, às penas e até mesmo às recompensas. Não se podem realizar grandes punições, e por conseguinte, grandes mudanças, sem colocar entre as mãos de alguns cidadãos um grande poder. Logo, é melhor, neste caso, muito perdoar do que muito punir; pouco exilar do que muito exilar; deixar os bens do que multiplicar os confiscos. Sob pretexto da vingança da república, seria estabelecida a tirania dos vingadores. Não se trata de destruir aquele que domina, e sim a dominação. Deve-se voltar o mais rápido possível para o andamento normal do governo, onde as leis protegem tudo e não se armam contra ninguém.”
Nem Stálin nem Hitler pensavam assim.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Afagando cérebro — A oposição e o imponderável

http://www.maurosantayana.com/2015/08/afagando-cerbero-oposicao-e-o.html

Talvez influenciado pelo fato de estar sendo entrevistado por uma publicação estrangeira — em certos países e organismos multilaterais se conhece bem os avanços alcançados pelo Brasil nos últimos anos — o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou, para a revista alemã Kapital, que a Presidente Dilma Roussef é "honrada", e que o ex-presidente Lula é um líder "popular" cuja prisão, caso viesse a acontecer, poderia dividir o país.

Foi o que bastou para que fosse imediatamente execrado pela parcela da opinião pública que ocupa, destilando bílis, os sites e portais mais reacionários — para dizer o mínimo — da internet brasileira.

O que importa, não é saber — embora torçamos para que isso tenha ocorrido — se FHC foi sincero em suas considerações sobre a Presidente Dilma, e, sim, prestar atenção à verdadeira avalanche de estupidez que suscitaram suas palavras.

"Doido", "senil", "demente", "gagá", "caduco", "bipolar" — odioso, preconceituoso e covarde, o fascismo despreza e confunde a idade com fraqueza e costuma ser particularmente impiedoso com os mais velhos, as mulheres e as crianças — "doente de Alzheimer", e o já tradicional apelo do "morre de uma vez" (como fez o "educado" internauta que atende por Paulo Votan, acima, no print que precede este texto) foram alguns dos epítetos lançados pela malta nos grandes portais da internet, contra o ex-presidente da República. Outros o acusaram de "pateta", "traidor", "idiota", "maconheiro", "THC"— lembrando sua defesa da descriminalização da Cannabis — e de "cara de pau", "sem-vergonha", e ladrão — acusando-o de estar "roubando também", ou de já ter se encontrado secretamente com Lula para conchavos.

E os mais "espertos", a serviço da nefasta "via alternativa", que espreita, como hiena, nos meandros da história, os países que se rendem aos que fomentam o caos e a cizânia, preferiram, como sempre, aproveitar a oportunidade para intensificar os ataques contra a democracia — "político é tudo lixo", "farinha do mesmo saco"; defender a violência: "é preciso amarrar a boca do saco", "matar todo mundo a paulada" e "jogar o saco no rio"; e propagar a teoria — esse é "esquerda caviar", "comunista enrustido" — da conspiração, segundo a qual PT e PSDB representariam, na verdade, duas faces da mesma moeda, da "tática da tesoura stalinista", de disfarçar parte da esquerda como direita; tomariam parte da estratégia de conquista da hegemonia, por meios pacíficos e "gramscianos", do poder, e atuariam seguindo os padrões do "marxismo cultural", como fantasiam, e pregam certas correntes da imbecilidade neo-direitista antinacional. Tudo isso coroado pelos pedidos de instalação no país de nova ditadura — agora com caráter "policial-jurídico-militar" — e os indefectíveis slogans da campanha — que já está no ar há muito tempo — de BOLSONARO 2018 para a Presidência da República.

Na página do ex-capitão do Exército, no Facebook, por exemplo — que, significativamente, já tem mais de 3 vezes o número de curtidas (1.5 milhão contra 450.000) que a página oficial de FHC, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso aparece como defensor das drogas ao lado do ex-presidente uruguaio José Mujica, em contraponto ao próprio Deputado Bolsonaro, que se destaca, convenientemente, à direita, ao lado da figura do Presidente da Indonésia — país que pune o tráfico com a pena de morte — Joko Vidodo (que é, na verdade, um fabricante e exportador de móveis) em uniforme militar.

Em outras páginas — e cabeças — aparecem, como se fosse normal, propostas de se identificar e eliminar, no nascimento, no futuro, bebês que tenham propensão criminosa; de se substituir o povo por "Deus" no parágrafo único do Artigo Primeiro, que define a fonte do poder do Estado no texto constitucional; de se punir com até 3 meses de prisão professores que abordem assuntos políticos na sala de aula; de se submeter as decisões do Supremo Tribunal Federal a igrejas, depois de já aprovada, por iniciativa do Senhor Eduardo Cunha, a isenção de impostos no "repasse" de dinheiro a pastores, como se, em pleno século XXI, tivéssemos entrado em uma máquina que nos teletransportasse, em um piscar de olhos, para um hospício, ou, de volta, no tempo, para mais ou menos 100 anos atrás.

Enquanto o setor de óleo e gás — de alta tecnologia — corre o risco de desmantelamento, a indústria naval é destruída, com o fechamento de vários estaleiros, a indústria de defesa se desarticula, com seus principais projetos sendo ameaçados, e as maiores empresas do Brasil são arrebentadas, milhares de seus fornecedores quebram, e se pretende impor a elas multas absurdas de bilhões de reais — para que não sobre pedra sobre pedra — eliminando-se milhares de empregos, brasileiros que fazem questão de ignorar que ainda somos — apesar de tudo — a oitava economia do mundo e o terceiro maior credor individual externo dos Estados Unidos, e que o nosso desemprego é de um terço de países como a Espanha, e nossa inflação a metade do que era há pouco mais que uma década, comemoram em grupos como o Direitas Já, Direita Brasil, Direita Conservadora, Direita Realista, Direita Política, Tradutores de Direita, Direita Forte, Rede da Direita Nacional, Canal de Direita, Professores de Direita, Direita Atual, Direita Ocidental, Extrema Direita Nacionalista Brasileira, Linhas Direitas, Jovens de Direita, Militantes de Direita, Garotas Direitas, Sou de Direita, Extrema-Direita, Direita Unida, Direita Única, Direita Blindada, Direita Conservadora, Direita Brasil, Rua Direita, Direita Nacional Brasileira, Vem pra Direita Brasil, Skins Direitista (sic) e dezenas de outras comunidades menores, os problemas do país, torcendo, muitas vezes abertamente, pela derrocada da Nação, a quebra do Estado de Direito e a inviabilização da economia e da governabilidade.

É principalmente quado o tufão se aproxima, que é preciso escutar a voz da razão.

A reação — nos dois sentidos — contra as declarações de Fernando Henrique Cardoso na internet é apenas a ponta do iceberg de um quadro claro, para o qual os setores mais influentes da sociedade brasileira ainda não acordaram — ou só estão começando — talvez tardiamente - a atentar.

O PSDB corre grandes riscos se não souber corrigir o rumo de sua nau em meio à tempestade que ele mesmo ajudou a conjurar, e mesmo com o risco de perder o mandato, já existe quem esteja, como a Senadora Lúcia Vânia, de Goiás, tomando a decisão de abandonar esse barco no meio do caminho, alegando não acreditar em uma "oposição movida a ódio", e fazendo apelo a mais "equilíbrio e sensatez", diante da gravíssima situação política que está sendo enfrentada pelo país.

Ao embarcar na "direitização" da classe média, e endossar, de forma atravessada, indireta, e, eventualmente, interesseira, o discurso da exageração da crise, da criminalização dos políticos, da judicialização da política, e da repetição da irresponsável e continua multiplicação, à estratosfera, de cifras (da ordem de dezenas, centenas, de bilhões de reais) em pseudo prejuízos da corrupção que não correspondem aos fatos nem às provas efetivamente, inequivocamente, colhidas até agora, o PSDB - deixando-se seduzir pelas perspectivas do caos — está brincando de afagar as cabeças de Cérbero — o cão mitológico que guarda a passagem para Hades — na ante-sala do inferno.

Mais importante do que se haverá ou não impeachment, é o Brasil que sobrará desse processo.

A História avança em ciclos.

Ciclos que, depois de iniciados, dificilmente são detidos, e que cobram pesados tributos, em atraso e em sangue, antes de que venham a se encerrar.

É preciso que as lideranças tucanas percebam — e há outras personalidades que também foram lembradas — e muitas vezes criticadas — nos ataques da direita radical contra FHC esta semana, que o imponderável é — por sua própria natureza — incontrolável e voraz. E que, ao abrir a porta para o desconhecido, o PSDB poderá não voltar ao poder em 2018.

Pelo contrário.

Existe uma grande chance de que venha a entregar o país — ou boa parte dele — ao fascismo, e de que venha a ser vitimado, mais cedo do que tarde, pelo fascismo, da mesma forma que ocorre com o PT.
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Jato silencioso

É com jato, também, que se prova a permanência dos acobertamentos e da impunidade que o otimismo, ou a ingenuidade, supõe em extinção como obra da Lava Jato. Não por acaso, nos ingredientes da permanência assegurada consta a presença, neste caso afinal discreta, da própria Lava Jato.

Ao completar-se, na próxima quinta-feira, um ano da morte de Eduardo Campos, faz um ano que as famílias cujas casas foram atingidas pelo jato esperam as devidas atenções e, sobre todas, a mais necessária delas: a indenização para remediar as perdas do que não lhes chegou de graça.

A juíza do caso, Natália Monti, de Santos, disse à Folha que a "obscuridade" em torno do proprietário do jato "torna praticamente inviável a reparação".

Estendeu-se no tempo, portanto, e passou ao processo levado à Justiça, a deliberada mixórdia em torno da propriedade do avião, quando do acidente. Entre as meias versões, a alegada compra do jato por uma borracharia que talvez só pudesse ter uma bicicleta, e que afinal fez a compra mas não tinha o avião, e por aí afora.

Não há terceira hipótese: ou o jato não mudou de propriedade ou houve uma venda. Em qualquer caso, há um registro seu na Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac. Esse jato, que não era novo, decolou e pousou em aeroportos, logo, tinha a licença que legitimava o seu prefixo, inscrito na fuselagem. Como, para ter essa licença renovável a períodos determinados, é necessária a identificação da propriedade, parte do que é obscuro se iluminaria aí.

Se o jato foi vendido, alguém recebeu e alguém pagou na transação. A partir daí, seria só um rastreamento, simples e rápido, para chegar ao novo dono, fosse ou não o pagador. Isso, se a fiscalização da Anac não estivesse acompanhando, como deve, a regularidade do jato.

O nível de competência que a Polícia Federal alcançou não admite a hipótese de dificuldade, por menor que fosse, para identificar a propriedade do avião. A Anac, por mais insuficiente que seja, a ponto de estar há longo tempo sem deliberações por falta de dois diretores para o quorum decisório, tampouco teria problema para levantar o histórico do avião.

Ou a identificação foi deixada de lado por pressões injustificáveis, ou está feita e silenciada sob pressão. Há acobertamento.

Um candidato à Presidência da República dispondo de um avião que não pudesse ser identificado, já seria um fato bastante brasileiro. Mas o que está em questão não é isso. É o direito legítimo de reparação devido a pessoas que dela têm necessidade, e veem a proteção ser dada, não ao seu direito, mas a quem dispõe de influência para negá-lo.

Um dos vazamentos feitos pela Lava Jato, lá atrás, ligou Eduardo Campos a uma das acusações. Desde então, os cruzados da operação nem inocentaram o ex-governador, nem trouxeram outro esclarecimento. Mas também aí o jato ficou de fora.

Enfim

A adoção do panelaço pinochetista não proporciona só uma sonoridade mais popular à pregação do impeachment de Dilma. Trouxe também uma experiência nova a muitas dondocas: puseram a mão em panela.

Janio de Freitas
No fAlha
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