9 de ago de 2015

Humberto Costa e o alerta da bancada do PT ao dono da Globo


O Diário do Centro do Mundo publicou neste domingo 8 artigo, que revela um encontro do senhor João Roberto Marinho, um dos donos da Globo, com os senadores do PT.

De fato, o encontro ocorreu. Foi na quarta-feira, 5 de agosto, mesmo dia em que Marinho foi a uma sessão no Senado em homenagem aos 50 anos da TV Globo.

A iniciativa partiu dele. O convite foi feito ao líder do PT no Senado, senador Humberto Costa (PT-PE), que o estendeu aos demais colegas. Dos 13 senadores da bancada petista, a maioria participou.

Nós conversamos com o senador Humberto Costa sobre o encontro.

— Que motivo João Roberto Marinho alegou para pedir essa conversa com o senhor?

Havia uma homenagem à Rede Globo em Brasília e, pelo que eu entendi, ele aproveitou para ter algumas conversas. Não sei se chegou a ter reunião com outras bancadas, mas certamente tinha reuniões marcadas com alguns ministros. Uma delas era com o ministro Ricardo Berzoini [das Comunicações], que acabou não acontecendo, porque a nossa conversa demorou muito.

Ele foi na linha de querer ouvir o que a gente tinha a dizer sobre esse momento político.

Na verdade, não era um convite só para mim. Era um convite para quem eu achasse que valesse a pena participar dessa conversa. Como a nossa bancada é pequena, eu convidei todo mundo. Ninguém se recusou, não. Alguns não puderam participar, porque já tinham outros compromissos agendados naquele horário.

— O que ele conversou com os senhores? O que saiu no Diário do Centro do Mundo procede?

— Mais ou menos. Algumas coisas que estão ditas têm alguma procedência. Outras, não.

Ele falou apenas que tinha interesse em ouvir a bancada do PT sobre o momento político que nós estamos vivendo, especialmente no que diz respeito à instabilidade política.

Ele queria saber a nossa opinião. Ele não falou de “maluquices” do Eduardo Cunha, não. Ele falou da preocupação com algumas decisões que estavam sendo tomadas no Congresso, que iam na contramão do ajuste e estavam produzindo inseguranças.

Então, foi um pouco por aí. Foi uma conversa cordial.

Nós, da bancada, colocamos a nossa preocupação com a questão do impeachment da presidenta Dilma. Ele disse que a posição dele e da empresa não é de defender o impeachment da presidenta Dilma. Disse que considerava que não havia elementos que justificassem uma coisa como essa, mas que o governo precisava garantir a governabilidade. Falou ainda que ele estava muito preocupado com a governabilidade e queria saber de que maneira a gente estava imaginando que isso [a governabilidade] acontecesse.

— O que os senhores disseram a ele?

Várias dessas coisas que estão ditas [no artigo do DCM], foram faladas por nós, principalmente essa questão do impeachment da presidenta Dilma.

Alguns senadores falaram que a Globo não fazia uma cobertura isenta. Ele negou.

Ele disse, de certa forma, até “ou a gente está errando” ou “vocês estão percebendo errado”.

Não foi  uma coisa de ele admitir: “olha, nós estamos errados”. Ele passou a ideia de que era um problema de interpretação da nossa parte e da dele também.

Ele disse: “Olha, nós vamos inclusive conversar com o nosso conselho editorial… Se está passando isso [cobertura não isenta], não é o que nós queremos. Foi o que ele disse”.

— E a questão do ex-presidente Lula como foi colocada?

— Nós colocamos para ele o seguinte. Para quem está preocupado com a estabilidade política, o impeachment da presidenta Dilma não é a saída. Podem inventar uma razão qualquer que não seja historicamente defensável, que não tenha uma base que se sustente… Pode até, no primeiro momento após a saída, você ter um quadro de perplexidade na base social de esquerda do governo.

Mas não leva 30 dias para que a instabilidade seja instalada, seja quem for o presidente — Temer, Eduardo Cunha…

Quanto a uma nova eleição, além de não ter uma base constitucional para poder se realizar, também tem esse outro componente aí de instabilidade.

Nós colocamos: o pior de tudo é, além de derrubar o governo, destruir o único interlocutor político que num momento de crise aguda tem legitimidade para se sentar a uma mesa e participar de um acordo, poder falar para milhões de pessoas…  Então, era um erro que alguém pretendesse, além de derrubar a presidente Dilma, destruir a liderança de Lula. Foi um pouco por aí também a nossa conversa.

— Senador, a Globo faz campanha diuturna contra a presidenta Dilma, o ex-presidente Lula e o PT. Agora, o senhor João Roberto Marinho procura os senhores, aparece com o discurso de que nem ele nem a Globo defendem o impeachment da presidenta. Ele estaria preocupado com possibilidade de a Globo ficar com a imagem de golpista, como aconteceu em 1964, quando ela apoiou o golpe e apoiou a ditadura civil militar?

— Eu não sei. O que eu senti  foi mais uma preocupação  com esse momento de instabilidade política que pode produzir prejuízos do ponto de vista da economia que sejam praticamente irreversíveis.  A instabilidade política está alimentando um ambiente de muita incerteza na questão econômica.  Enfim, é isso.

— Senador, uma última pergunta…

— Eu estou superocupado…

— Só mais uma, senador.  Por gentileza, que colegas seus que não participaram da conversa?

— Eu não me lembro, não.  Alguns entraram e saíram… Eu não me lembro, não.

Segundo o Diário do Centro do Mundo do Mundo, dos 13 senadores da bancada petista, quatro não estiveram presentes à conversa. Até a publicação desta matéria, só tínhamos conseguido confirmar um dos nomes: senadora Fátima Bezerra (PT-RN).

Conceição Lemes
No Viomundo
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Brasil: o buraco é mais em cima

Uma amiga minha, veterana militante do Partido Socialista no começo dos anos 50, me contou a seguinte historia. No dia 24 de agosto de 1954 ela se preparava, na cidade onde vivia, no interior paulista, para sair à rua comemorando com outros militantes comunistas a queda de Getúlio Vargas. Neste momento, ela e todos os outros foram surpreendidos pela noticia do suicídio e a leitura da Carta Testamento no Repórter Esso. Ficaram perplexos, atônitos, nada fizeram.

Enquanto isso, “as massas” saíam às ruas, notadamente no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, depredando os jornais e as sedes dos partidos conservadores. Militantes do PC tentaram assumir o controle das manifestações, em parte para “dirigi-las”, em parte para evitar que suas sedes fossem igualmente empasteladas (na época o termo era este), como foram rádios e jornais conservadores. A foto com uma caminhonete do jornal O Globo virada deveria servir de exemplo para os aprendizes de golpe de hoje, mas certamente será em vão.

A perplexidade de minha amiga dura até hoje.

Sinal de que ela ainda não entendeu o que então estava acontecendo.

Dá pra compreender. As esquerdas tinham um esquema na cabeça. E o que o primeiro período Vargas provocara fugia aos esquemas. Era mais fácil então sair pelo esquema moralista de se refugiar nas denúncias programadas pelo grupo liberal — com Lacerda, ex-comuna à frente — do que tentar o vislumbre do que acontecera nos últimos vinte e tantos anos, desde 1930.

A partir de 30 duas coisas tinham se consolidado: uma classe média ciente de seus direitos — que consideravam privilégios — e que se identificava com Lacerda, e uma classe trabalhadora urbana, recém-ciente de seus direitos e de suas conquistas, e que se identificava com as propostas de Vargas, CLT, nacionalismo, etc. O conflito social se expressou através dos manifestos do estamento militar - o famoso “dos Coronéis" à frente - e da pressão para que Getúlio caísse.

O caso se resolveu à bala. Uma única, que postergou o golpe por dez anos, apesar das novas tentativas contra Juscelino e a de 1961.

Por trás da crise política havia de fato uma crise social que não cabia nos manuais da esquerda de então. Supostamente, nos manuais comunistas, o Brasil vivia uma crise de um sistema feudal pre-capitalista que necessitava passar ao “estágio do capitalismo superior”. Nas teorias mais radicais, o conflito entre capital e trabalho estava adormecido pelas políticas populistas de Vargas. E o que acontecera de fato, a imersão de uma novel massa de trabalhadores no mundo capitalista urbano, ávida de seus direitos, passava desapercebido, ou era desconsiderado. A crise social ficava em segundo plano, a crise política aparecia no primeiro e a esquerda via tudo como uma crise moral - como queria a propaganda lacerdista.

Hoje acontece algo análogo. Há de fato uma crise política. Ressentidos se agrupam em torno de um candidato derrotado, mas inapetente pela busca de vencer a eleição seguinte, até por medo de seus correligionários. O governo, inepto em matéria de comunicação, comete erros atrás de erros, como o de ter seu chefe da Casa Civil fazendo um mea-culpa sem razão de ser diante de inimigos que só querem sangue de pescoço.

A extrema-esquerda, com seus braços acadêmicos, se esmera em tentar fazer o Brasil retornar a seus esquemas teóricos insuficientes. Clama que os governos Lula, Dilma e FHC são braços do mesmo tronco. No meio disso um deputado em busca de uma corda de salvação para o poço em que vai afundar promete um processo de impeachment sem qualquer base legal, mas que satisfaz a seus anseios, ao do candidato derrotado que quer reverter o relógio da historia, e ao ex-presidente meio avariado pela ameaça de ver seu sonhado reino submergir como um mero interregno entre a era Vargas e a era Lula. De quebra, vozes da mídia conservadora e esclerosada querem ganhar a medalha do mérito lacerdista, contribuindo para ou derrubando um governo de esquerda.

Mas ninguém presta atenção no pano de fundo que dá adubo a esta crise política, que é de fato uma crise de natureza social. Alias, este sim é um erro que o PT — genericamente falando — cometeu. Qual seja, o de imaginar que a paisagem social brasileira poderia mudar sem conflitos emergindo. Como em 54, há uma burguesia e uma classe media que se sente ameaçada pela ascensão social de setores dos “de baixo”, como dizia o saudoso Florestan Fernandes. A estrutura social não mudou, é certo, como quer a extrema-esquerda e seus porta-vozes acadêmicos, que, entra e sai, querem enquadrar o Brasil pleno — ou pós-PT nos seus moldes nos quais ele não cabe mais. Mas a composição social da paisagem mudou, com mais gente no convés do meio, menos no de baixo, e o da turma da primeira-classe se sentido ameaçada pelo acesso crescente dos “de baixo” às escadas, até então acesso privilegiado dos “de cima”: de aeroportos a shopping centers e universidades, nesta ordem de importância atribuída pelos usuários.

Esta é a raiz dos panelaços: gente que não se sentia ameaçada, agora se sente perdida. Ou sente que vai perder os anéis e os dedos. Este é o caldo de cultura em que os golpistas de hoje navegam.

Vão se dar mal, ganhem ou percam. Se perderem, vão amargar mais uma derrota. Se ganharem, e conseguirem derrubar o atual governo, vão herdar uma massa falida — não a da esquerda ou a do governo — mas a própria. As direitas hoje não têm qualquer projeto para o país. Alias, se há algo completamente estranho ao seu universo, é esta palavra — país. O que veem é um espolio de passado colonial à venda, sendo a questão mais importante a de definir quem vai recolher o produto da venda, ou a mais valia decorrente do processo. À extrema-esquerda interessa revogar — como em 54 — o “empecilho” de um governo que “adormece” as massas. E o Brasil que vá às traças. Melhor salvaguardar as teorias, para os acadêmicos, do que se por mãos a obras e pesquisar o novo para entender o que está se passando. É mais fácil desqualificar o que aconteceu — construir a saída de milhões de pessoas da miséria e da pobreza — do que tentar entender o que aconteceu, por que acontece e o que a partir daí pode acontecer.

Para as direitas só interessa morder o governo, desprezar a democracia e semear o caos.

Há um senão nisso tudo. As direitas de hoje são muito mais díspares do que as de 64 ou de 54. Vão resistir ao próprio caos em que navegam? Não vão. Nem mesmo se sabe se conseguirão seu objetivo imediato, tao frágil ele é de qualquer ponto de vista que se olhe, do jurídico ao moral, e sem apoio na caserna militar. O que pode lhes sobrar é uma tremenda ressaca, que já houve no período entre abril e agora, agosto.

Agosto, mês de desgosto. Cuidado, pode ser para todos.

Flavio Aguiar
No Blog do Miro
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O dia que a tela do Jornal Nacional ficou negra

Durante alguns segundos a tela do Jornal Nacional foi tomada por dois jornalistas negros, uma mulher e um homem. Os comentários em relação a uma postagem sobre o fato dizem muito sobre como as pessoas lidam com a questão racial


A imagem que ilustra esta crônica apresenta situação de trabalho dos jornalistas Heraldo Pereira, substituto eventual do âncora do Jornal Nacional, e Maria Júlia Coutinho, responsável pelos criativos anúncios e comentários sobre chuvas, sol e temperaturas no país.

Costumo responder à pergunta sobre a hipotética influência ou impacto da recepção dos meus textos veiculados na web em minha forma de escrever por meio de uma negativa, ou seja, não me influencia. Escrevo o que quero e como quero, sem me preocupar com a recepção, entretanto, quando arranjo tempo para acompanhar algum debate gerado pela crônica, os posicionamentos costumam suscitar outra escrita.

Foi o que ocorreu com a imagem acima, postada por mim em minha linha do tempo de uma rede social, precedida do seguinte comentário: “Maria Júlia Coutinho e Heraldo Pereira no Jornal Nacional de ontem, vale o destaque pelo ineditismo da cena (ainda que estejamos na segunda década do século XXI)”.  O conjunto imagem / afirmação não viralizou, porém, para minha surpresa, rendeu volume significativo de participações via compartilhamentos e, principalmente, comentários. Confesso que me divirto analisando a recepção do que escrevo e é publicado no cyberespaço. É um satélite muito diferente do planeta da publicação impressa, mas isso é tema para outra crônica.

Maria Júlia Coutinho havia superado o episódio recente de discriminação racial sofrida na web, encerrado com direito de resposta em grande estilo na tela do programa jornalístico. Heraldo Pereira, com o bom desempenho de sempre, nos embalava com  voz doce e dicção perfeita, afinada, até. E então, os dois protagonistas negros, de maneira inédita na história da TV brasileira, adentraram as casas de milhões de pessoas, guiados pela sobriedade e competência habituais, mas juntos, ao mesmo tempo. Durante alguns segundos a tela do Jornal Nacional foi tomada por dois jornalistas negros, uma mulher e um homem.

No dia seguinte fiz a singela postagem referida, uma percepção óbvia e ácida da novidade. Entretanto, chocada pela novidade, muita gente sentiu necessidade de se posicionar. A começar por um cidadão que louvou o meu entusiasmo, algo que, em absoluto, não intentei sugerir. Apenas fui irônica, o entusiasmo é por conta da interpretação dele. No entanto, reconheço que, mesmo escritora de ofício, corro o risco de não lograr dizer o que pretendo e talvez por isso um leitor confunda ironia com entusiasmo.

A reação numericamente majoritária foi a dos que desejam que tudo continue como dantes no quartel das assimetrias raciais de Abrantes, haja vista que seus postos e patentes estão salvaguardados e qualquer movimento construtivo no cenário racial pode abalar os privilégios dos herdeiros da casa grande. Foram abundantes frases como: “precisa dessa apologia? Por que o fato de serem dois negros tem-se que achar ineditismo?” Ou, “Viu como tem racistas? Eles sempre veem racismo em tudo! Eu só fui entender o assunto após ler os comentários”.

Percebamos que não é necessário para o seguidor de Abrantes explicitar a apologia criticada, porque existe algo dado, o interdito do racismo brasileiro, orientador poderoso mais frequente nas relações humanas por aqui. Além disso, no mundo desenhado por Abrantes, seria muito comum ver pessoas negras em posição de destaque na principal rede televisiva do país. Logo, não se justificaria o espanto. E a pá de cal é a acusação de que são os negros com suas expressões incorretas (o destacado ineditismo da cena) que instauram o racismo.

Ainda no diapasão de manutenção do status quo, registraram-se as afirmações: “isso quer dizer que eles venceram na vida” e mais meia dúzia de bobagens (ou racismo cristalizado como açúcar), tais como, “no cemitério tem buraco igual pra todo mundo”; “deus criou o ser humano”… e toca-lhe conhecimento pseudocientífico sobre melanina.

A frase-clichê “eu fico triste com o ser humano que presta atenção nesse detalhe. Para mim vejo duas pessoas. Se é branco, preto, albino, amarelo… somos todos seres humanos iguais, filhos do mesmo pai”, abre o pelotão dos ingênuos no trato das assimetrias raciais. Houve os que disseram que não perceberam, para eles foi normal. Seria a normalidade sinônimo de habitualidade? Eu me perguntei.

Brotaram também os mais descolados que ingênuos, no melhor estilo Fernanda Lima: “ué! Acho tudo tão normal. O que houve de extraordinário? Dois ótimos profissionais, não é isso? Uma dupla como outra qualquer.” Oxalá, um dia seja, mas nos padrões raciais eurocêntricos hegemônicos que regem a sociedade brasileira, dois profissionais negros, juntos, naquela condição, são raros.

Além do collour blind, manifestaram-se os pretensamente ingênuos. “Não entendi o espanto da imagem. São excelentes repórteres no exercício da profissão” e ainda, “como os dois (negros de um modo geral) tem que revidar com competência e isso eles têm”. O xarope inócuo da meritocracia é apresentado reiteradas vezes como panaceia para o problema do negro no Brasil, contudo, o suposto ingênuo não abre mão da pretensão e da arrogância para prescrever como os negros devem se comportar rumo à superação do problema racial.

Houve também aqueles que caracterizei como otimistas e que asseveraram coisas como: “e a história continua mudando, outros tempos. Quem achou que isso não fosse acontecer, errou”. É importante mesmo nutrir visões otimistas da humanidade e vibrar com as conquistas, mas sem perder de vista a criticidade. Houve também o sentimento de recompensa, talvez externado por alguém calejado na luta contra o racismo: “achei que nunca veria isso”.

O ufanismo tomou conta de muitos: “estava adorando esse dia”; “adorei, momento lindo”; “show”; “fiquei tão feliz”; “sensacional.” Por fim, segundo a versão entusiasta, “devemos todos nos sentir orgulhosos.”

O estranhamento das opiniões críticas foi o que mais acrescentou ao debate: “por alguns minutos pensei que estava na casa do primo que mora em Toronto”; “eu bati o olho e pensei que fosse um canal de TV norte-americano”; “a aparição foi simbólica porque quebrou a convenção do telejornalismo dinamarquês praticado no país”. Os jovens com a irreverência permitida pela idade trataram logo de berrar: “vai tá tendo negros em todos os lugares, sim. É bom ir se acostumando”. Outros destacaram os bons exemplos de negros bem sucedidos, necessários à formação dos filhos e também exemplificaram situações correntes de discriminação no mundo midiático.

Diversos críticos focaram a artilharia na demagogia, cinismo e hipocrisia da Rede Globo no tratamento dispensado à política, às questões raciais e às pessoas. E depois que Maria Júlia Coutinho entrou de férias dois ou três dias após a dobradinha histórica com Heraldo Pereira, faz todo sentido o excerto crítico final: “toda vez que vejo a Globo fazendo coisas que parecem avanço, me pergunto o que eles querem com isso”.

Cidinha da Silva
No Fórum



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Globo quer enganar os trouxas do governo e do PT


A notícia, estranhíssima por vir de uma fonte “anônima”, confirma minha tese.

A Globo está apostando alto no impeachment, mas sabe que sua imagem não resistirá a mais uma traição à democracia brasileira.

Então iniciou uma série de operações, lideradas pelo próprio dono da emissora, para tirar o corpo fora.

A Globo nasceu de uma ditadura, uma ditadura surgida de um golpe fruto de conspirações entre Roberto Marinho, outros barões de mídia, alguns governadores do sudeste, generais, além dos americanos.

Um sujeito como João Roberto Marinho pode pagar os melhores consultores políticos do mundo, e eles devem ter lhe dito o que nós, blogueiros, lhe dizemos todos os dias: apoiar um golpe de Estado contra um presidente eleito mancha qualquer empresa de jornalismo; apoiar dois golpes de Estado, não importa se travestido de impeachment, pode representar o seu fim.

Sem querer parecer pretensioso, mas notícias como o furo publicado no Cafezinho, anunciando uma estranha e secreta reunião, a portas fechadas, entre Cunha e os editores do jornal O Globo, abalaram a família Marinho.

O plano é não se meter, porque qualquer interferência midiática num processo de deposição de presidente será denunciado internacionalmente como um atentado à democracia.

A Globo sentiu que o golpe, organizado por ela mesmo,  tomou vida própria e agora lava as mãos.

Há um outro fator em jogo também que pode ter embaralhado um pouco as cartas: as declarações de Emílio Odebrecht contra a oposição.

O patriarca da Odebrecht, segundo relatou o jornalista Jorge Bastos Moreno, estaria furioso em ver seu filho engolfado por uma conspiração golpista midiático-judicial, com viés fascista, em que nenhum direito à defesa é respeitado, e onde a mídia joga todo o seu peso para promover um linchamento moral e político de todos os réus.

Será que Emílio andou ameaçando jogar no ventilador os podres do PSDB e da Globo?

De qualquer forma, a Globo, se quiser que acreditemos em suas histórias de carochinha, contadas apenas para enganar os trouxas do governo e do PT, e fazê-los se desmobilizarem e baixarem a guarda, terá que fazer mais do que plantar notinhas anônimas nos blogs.

(Aliás, quem diria, hein? A Globo plantando notinha anônima nos blogs…)

Terá que combater o golpe e denunciar a hipocrisia e a corrupção tucanas.

Terá, enfim, que fazer jornalismo.

Mas como diz um amigo blogueiro, que adora citar um famoso general, quem acredita nisso, acredita em tudo.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Bate papo no Cafezinho!

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Condor


Condor foi o nome dado à sinistra "Operação Condor", conexão entre as ditaduras do cone sul nos anos 70 entre governos militares sul-americanos e com o apoio da CIA, que culminou com a morte de cerca de 30 mil pessoas. Outros 400 mil foram presos e 4 milhões exilados.

Roberto Mader conta essa história através de depoimentos emocionantes e surpreendentes de generais e ativistas políticos, torturadores, vítimas e parentes dos desaparecidos.

Condor foi filmado em quatro países e traz um material de arquivo, acompanhado de belas composições de Victor Biglione.

Vencedor dos prêmios de Melhor Documentário no Festival do Rio e Prêmio Especial do Júri em Gramado em 2007.

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Un misil ponzoñoso contra Lula

El ex guerrillero José Dirceu, jefe de gabinete del primer gobierno de Lula da Silva ha sido arrestado por orden del juez Sergio Moro. La fiscalía lo acusa de ser autor intelectual y beneficiario del presunto esquema de corrupción en la estatal Petrobras que sacude a Brasil desde el año pasado.

El hecho marca un hito en la gigantesca operación de desprestigio de la derecha y los pulpos mediáticos brasileños contra la presidenta Dilma Rousseff, su administración y el gobernante Partido de los Trabajadores(PT).

Curiosamente, pese a que hay políticos de todos los grandes partidos involucrados en la trama, a los únicos que machacan el juez Moro y los medios corporativos son a los del PT y sus aliados en el gobierno. Juristas de prestigio no simpatizantes del gobierno han expresado dudas sobre la imparcialidad y apego a la ley de Moro, que está apoyando sus acusaciones en testimonios obtenidos a cambio de reducción de sentencia.

Pero no es Dilma el más importante blanco de la operación. No, el objetivo principal es Lula, único líder popular en Brasil con carisma, prestigio y capacidad para reconstituir el proyecto de justicia social, soberanía nacional y apoyo a la unidad e integración latino-caribeña iniciado en su dos mandatos y para ganar cómodamente una elección a cualquiera de los candidatos de la derecha.

La prueba es que mientras la feroz y bien orquestada conspiración derechista, y, también, la situación económica y errores del gobierno, han hecho hundirse estrepitosamente la popularidad de Dilma y del PT, la de Lula sigue indemne. En círculos políticos y periodísticos se afirma que después de la detención de Dirceu puede venir la de Lula en cualquier momento. Aunque el ex presidente todavía no ha sido acusado de nada, Dirceu fue su asesor y hombre de confianza hasta que renunció en 2005, secretario general del Partido de los Trabajadores de 1995 a 2002 y jefe de su campaña cuando llegó a la presidencia. La oposición ha convocado a una marcha el 16 de agosto supuestamente contra la corrupción en Petrobras que considera el preámbulo del juicio político a Dilma.

Dirceu ya estaba en prisión domiciliaria desde 2012, urdida por jueces y medios de difusión venales, que entonces, igual que ahora, intentaban acabar políticamente con Lula. Se basaron en un caso real de corrupción que involucraba de lleno al PT y llevó a Dirceu a la renuncia. La corrupción es particularmente consustancial a buena parte de la política brasileña.

El juez Moro es una ficha de la cadena O Globo y de la derecha local, dedicados a tiempo completo a lograr la restauración neoliberal en el país. No es casual que el magistrado haya sido nombrado Personalidad del Año por esa corporación mediática y que se haya convertido en la estrella rutilante de la gran prensa brasileña: reaccionaria, proimperialista y enemiga jurada de Lula desde que era candidato.

Pero esta operación, en la que participan el capital financiero internacional y casi seguramente los servicios secretos de Estados Unidos — que espiaron descaradamente a Dilma —, no lleva solo dedicatoria a Brasil. Puesto que si Lula fuera procesado y condenado, la restauración conservadora en el gigante suramericano parecería imposible de detener, lo que implicaría, a su vez, un rudo golpe a la unidad e integración de América Latina y el Caribe (ALC).

La ofensiva oligárquico-imperialista en nuestra región ya lleva tiempo. Condujo a los golpes de Estado y derrocamiento de los presidentes de Honduras y Paraguay, Manuel Zelaya y Fernando Lugo. Mucho más, a intentos golpistas contra todos los gobiernos posneliberales, excepto el de Uruguay, y hoy, además de en Brasil, continúan los aprestos desestabilizadores en Ecuador, Argentina, El Salvador y, por supuesto, Venezuela, a dónde Washington y la derecha internacional dirigen el golpe principal dado su carácter de puntal del proceso de unidad e integración regional, además de poseer las mayores reservas de petróleo en el planeta.

En Ecuador y Argentina se corrobora estos días que la derecha y el imperialismo solamente aceptan el juego democrático cuando es funcional a sus intereses. Imposibilitados de derrotar electoralmente a Correa o al kirchnerismo, su arma principal es el llamado golpe blando mediante las campañas de calumnias de las corporaciones mediáticas y, también la violencia, con tal de echar abajo a proyectos que han demostrado cuánto bienestar puede proporcionarse al pueblo aplicando políticas distintas a las neoliberales.

Ángel Guerra
No teleSUR
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Gim Argello recebeu R$ 5 mi para blindar UTC na CPI da Petrobras


Propina repassada ao ex-senador teria sido redistribuída a candidatos da coligação de José Roberto Arruda (PR), que teve registro barrado e renunciou à candidatura em 2014

O ex-senador Gim Argello (PTB-DF), que assumiu a vaga no Senado Federal após renúncia do ex-senador e ex-governador do DF Joaquim Roriz, recebeu R$ 5 milhões da UTC para proteger a empreiteira na CPI da Petrobras, em 2014. Argello, que não foi reeleito, era vice-presidente do grupo.

A empresa é uma das investigadas na Operação Lava Jato. O dono da UTC, Ricardo Pessoa, informou que o dinheiro foi repassado a Argello por meio de doações eleitorais.

A propina repassada ao ex-senador teria sido redistribuída a candidatos da coligação de José Roberto Arruda (PR), que teve registro barrado e renunciou à candidatura em 2014. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Arruda foi barrado com base na Lei da Ficha Limpa.

O então candidato ao governo do Distrito Federal foi condenado pelo Tribunal de Justiça do DF por improbidade administrativa no dia 9 de julho, por envolvimento no esquema de corrupção conhecido por ‘Mensalão do DEM’.

Somente a campanha de Arruda e a do deputado Alberto Fraga (DEM) receberam R$ 1 milhão da UTC, cada. Além disso, a deputada Liliane Roriz teve 99% da campanha bancada pela empreiteira e também recebeu R$ 1 milhão.
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Por que seis haitianos baleados no centro de SP não são notícia

Obra dos Revoltados On Line
Ainda precisa ser apurado o caso dos seis haitianos que foram baleados no sábado passado, dia 1º, no centro de São Paulo.

De acordo com um padre responsável pela paróquia que acolhe os imigrantes, os ocupantes de um carro gritaram “vocês roubam os nossos empregos” antes de disparar.

Convenhamos que é um grito meio absurdo desde um automóvel em movimento. Pode ter sido tudo — vingança, drogas, inclusive xenofobia.

De qualquer maneira, a probabilidade de você saber o que aconteceu realmente é mínima, e por uma única razão: ninguém se importa com os haitianos. Ninguém está nem aí.

O ataque aconteceu há sete dias. Saiu somente hoje nos jornais, de maneira burocrática. Os homens passaram por ao menos dois hospitais antes de conseguir tratamento.

O padre Patrick Illes declarou que foram vítimas de racismo. Está sendo apurada uma denúncia de negligência médica.

Calcula-se que 50 mil haitianos vivam no Brasil, mais da metade em São Paulo. Estão instalado no bairro do Glicério, onde ocorreu o tiroteio.

Trabalham, a maioria, em condições análogas à escravidão. Uma ONG chamada Missão de Paz tenta encontrar-lhes serviço.

São invisíveis e estigmatizados. Ronaldo Caiado, sempre ele, acusou-os de estar sendo recrutados para formar um exército bolivariano.

Os meliantes do Revoltados On Line divulgaram uma montagem de uma foto, em março, com um hatiano num protesto na Petrobras e a seguinte legenda: “Agora está explicado por que a quadrilha do PT trouxe essas merdas aqui pro Brasil!”

Como eles chegam com nada, nada representam de valor. Como são negros, são bandidos.

Qual será a senha para que comecem a ser eliminados? Em Ruanda, a matança dos tutsis foi deflagrada de vez em 1994, quando o rádio os chamava de “baratas” e dava instruções sobre que facas eram mais indicadas para cada situação.

A Carta das Nações Unidas defende “a dignidade inata de todos os membros da família humana”. São palavras vazias quando se trata dos haitianos no Brasil. Eles não merecem sequer ser classificados de insetos. O silêncio é mais eficiente.

Kiko Nogueira
No DCM



Haitianos baleados e fascistas soltos!



No sábado passado (1), seis haitianos foram baleados na Baixada do Glicério, região central de São Paulo. O triste episódio não teve qualquer repercussão na mídia — nem nos programas policialescos que exploram a violência e estimulam o ódio na sociedade. Os feridos, entre eles uma mulher, foram internados no Hospital do Tatuapé, na zona leste da capital, com as balas alojadas nas pernas e nos quadris. Tudo indica que o ataque teve motivação politica, incentivado pela recente onda fascista na sociedade. Do carro em que foram feitos os disparos, um boçal gritou; "Haitianos, vocês roubam os nossos empregos" — relatou o jovem haitiano Patrick Dieudanne, que ajudou no socorro às vítimas.

Segundo a União Social de Imigrantes Haitianos (USIH), entidade filiada à central sindical Conlutas, o atentado confirma o aumento da xenofobia no país. Recentemente, ela já havia denunciado o ataque a dois haitianos em Curitiba (PR). A entidade pretende acionar o Ministério da Justiça para investigar o episódio. "A associação irá denunciar e buscar justiça, bem como dar atendimento aos feridos e aos familiares das vítimas... Pedimos a todos os sindicatos, movimentos sociais e ativistas que ajudem na denúncia e apoiem essa luta da USIH", afirma Wilson Ribeiro, dirigente da Conlutas.

A cena deprimente faz lembrar, de imediato, o vídeo postado por um integrante do grupo 'Revoltados Online' no início de junho passado. Daniel Barbosa, trajando roupas militares, ameaçou um haitiano durante seu trabalho como frentista de um posto de gasolina de Canoas (RS). Xenófobo e racista, ele acusou o governo “comunista” de Dilma Rousseff de tirar o emprego de brasileiros para beneficiar os imigrantes. Ele também questionou o haitiano sobre treinamento militar. Após a ação fascista, a Rádio Guaíba revelou que o sujeito é um marginal, com várias passagens pela polícia gaúcha:

"A Polícia Civil começou a investigar as ofensas proferidas a um haitiano que trabalha num posto de combustíveis de Canoas, na região metropolitana. A 20ª Delegacia da Capital registrou a ocorrência ao identificar o caso via internet. Um vídeo foi feito pelo agressor e divulgado na rede mundial de computadores. A polícia não informou o nome do agressor, mas confirmou que, na sua ficha criminal, há antecedentes por roubo a estabelecimentos comerciais e sequestro. A TV Record identificou que o homem que aparece no vídeo é Daniel Barbosa”. Ainda segundo a rádio, o escrivão da 20ª Delegacia, Leonel Radde, registrou queixa contra o fascista por crime de preconceito racial.

Também na ocasião, o sempre antenado Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, foi conferir a história bizarra. Ele descobriu que Daniel Barbosa é um dos chefetes do grupo fascista “Revoltados Online”, que organizou em março e abril as marchas pelo impeachment de Dilma e pela volta dos militares ao governo — e que está convocando um novo protesto para 16 de agosto. Até hoje, porém, nada foi feito para incriminar o fascista que ameaçou o jovem frentista. Agora, seis haitianos foram baleados. Até quando as autoridades públicas vão deixar impunes estes trogloditas, que pregam o ódio racial, o preconceito e atentam contra a democracia no Brasil? O ovo da serpente fascista já foi chocado e a impunidade só estimula novos e mais bárbaros atos de violência no país.

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Desconversa

Motorista de táxi e passageira.

– Quente, né?

– Nem parece inverno...

– Mas acho que vai chover.

– Tá com cara...

O tempo é um assunto seguro. De todas as coisas que as duas pessoas num táxi ou lado a lado num ônibus têm indiscutivelmente em comum (ambas são seres humanos, falam a mesma língua, estão ali com um destino ou um objetivo igual e são contemporâneas) o fato de estarem experimentando as mesmas condições climáticas é a mais indiscutível de todas.

– Ontem deu uma refrescadinha.

– É verdade. Pelo fim da tarde.

– Isso.

Falar sobre futebol é arriscado. Política, nem pensar. E não ficaria bem comentarem sua humanidade comum, suas afinidades básicas como espécie. 

– Não pude deixar de observar que a senhora é uma bípede mamífera de sangue quente. Como eu.

– Que coincidência! 

Melhor falar sobre o tempo. É o assunto mais à mão, e o único com cem por cento de garantia de interessar a todos e fazer parte de uma experiência universal.

*

Mas existe outro assunto comum a toda a espécie, talvez o assunto prioritário da espécie, que só não inaugura todas as conversas porque também é o seu principal terror. A morte. Falamos do tempo para não falarmos da nossa outra afinidade óbvia, a mortalidade. Ou, talvez, quando falamos do tempo, estejamos falando sobre a morte, em código.

– Quente, né? (Você sabe que nós vamos morrer, não sabe?).

– Nem parece inverno. (Sei. Todos sabem.)

– Mas acho que vai chover. (O jeito é viver como se não soubéssemos. Você concorda?) 

– Tá com cara... (Pode ser. Seria impossível levar uma vida normal se não conseguíssemos conviver com nossa mortalidade, e acomodá-la, como uma hérnia inoperável.)

– Se chover hoje, talvez refresque de novo. (Temos é que negociar com a morte o tempo todo, como se negocia um armistício. Reconhecendo a sua vitória e o seu domínio, mas exigindo tratamento digno, como é o direito de todo prisioneiro.)

– Geralmente é assim. (Mas não se pode racionalizar com a morte. A morte está além de qualquer racionalização. A única maneira de tratar a morte é nos seus próprios termos: ignorá-la, e tentar viver como se ela não existisse, ou matá-la, com um tiro certeiro na nossa têmpora).

– Eu não aguento calor. (É o nosso corpo que nos mata. Matá-lo primeiro, francamente, me parece uma forma de colaboracionismo.)

– Eu também prefiro o frio. (Negociar com a morte significa reduzir toda a nossa vida a um pedido de clemência. Toda conversa que não é com ou sobre a morte, é desconversa.)

*

E há quem diga que toda conversa, no fundo, é sobre sexo. Outro assunto universal.

– Quente, né? (Topas?)

Luís Fernando Veríssimo
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Relator da OEA diz que regulação da mídia está atrasada na América Latina

Os governos da América Latina tiveram pouco sucesso ao enfrentar a falta de pluralidade e de diversidade na mídia, ocasionada pela concentração dos meios de comunicação. A avaliação é do relator especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), Edison Lanza.

No Brasil para cumprir agenda com parlamentares e órgãos de governo, ele se reúne segunda-feira (10), em Brasília, com o ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, e com o Assessor Regional de Comunicação e Informação da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para o Mercosul e Chile, Guilherme Canela.

Lanza disse que a ausência de controle sobre a mídia na região, por anos, é uma das origens da falta de pluralidade e diversidade. Assim, com base em acordos internacionais para garantia da liberdade de expressão e de informação, ele defendeu a atuação dos estados, a contragosto de empresas do setor.

“Os meios de comunicação são veículos para o exercício de poder que, agora, se veem com razão muito forte de dizer: ‘já tenho direito adquirido aqui, não me toque’”, avaliou. Porém, ponderou, “monopólios ou oligopólios privados ou públicos afetam a liberdade de expressão e é obrigação dos estados fomentar uma comunicação que tenha pluralidade de proprietários e vozes”.

Na região, o relator disse que grupos de mídia tentam polarizar o debate com falsas premissas, principalmente, depois de experiências regulatórias da Argentina, Equador e Uruguai.

No Brasil, a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Suzy dos Santos, afirmou que os oligopólios e monopólios que tentam interditar o debate, alegando que a regulação é uma forma de censura, têm origem no “coronelismo eletrônico”. Segundo ela, no país as mesmas famílias que dominam a política são donas dos meios de comunicação. O efeito, avaliou, é a falta de diversidade de ideias na sociedade a invisibilidade de grupos sociais.

O relator da OEA destacou, ainda, que a regulação deve ser feita sob a perspectiva da democracia e dos direitos humanos, como na Europa e nos Estados Unidos. Nos países onde não há clima, sugere que os primeiros passos se deem por meio de políticas públicas.

“Uma lei [que regula a mídia] é ótima, mas há medidas parciais que podem ser tomadas por meio de atos administrativos como, por exemplo, a reserva de espectro para incluir rádios comunitárias [no dial] com facilidade para que consigam as concessões”, citou. Outra medida pode ser a “orientação para que as polícias e os ministérios públicos não reprimam aqueles que fazem uso da liberdade de expressão” como as rádios comunitárias. “A aplicação do direito penal nesses casos é condenada por ser desproporcional e desnecessária”, afirmou o relator.

Políticas para que a sociedade civil tenha condições de produzir e veicular informação própria também são fundamentais. Edison Lanza contou que, no Uruguai, seu país de origem, onde se aprovou recentemente uma lei para regular a mídia, a principal central sindical do país, ao receber um canal de televisão, avaliou que era caro mantê-lo e cogitou devolvê-lo ao governo.

À espera de mudanças no cenário nacional, um dos organizadores do evento com o representante da OEA, a organização Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social – não vê possibilidade de avanços na aprovação de um marco regulatório no Brasil, tampouco crê em medidas administrativas para enfrentar o monopólio de grupos que interditam o debate.

“Nossa cobrança é pelo que já pode ser feito”, disse Iara Moura, da coordenação executiva da entidade, sobre as leis que impedem a concessão de canais de rádio e televisão a políticos, por exemplo. “Atos administrativos requerem uma boa vontade que, atualmente, o governo brasileiro não tem”, frisou. “A criminalização das rádios comunitárias escancara isso”, completou.

Isabela Vieira
No Agência Brasil
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O que levou a Globo a mudar de atitude?


A Globo não é exatamente original quando procura argumentos para suas atitudes.

O que a move é sempre um desses três fatores: dinheiro, dinheiro e dinheiro.

É dentro dessa premissa imutável que se deve buscar a grande questão que emergiu depois do editorial em que a empresa rompe com o golpe.

Em 1964, a adesão aos golpistas foi motivada por dinheiro. E isso veio em proporções monumentais.

Uma editora medíocre, com um jornal de segunda linha, virou o que virou com as mamatas dadas pelos militares em troca do apoio à ditadura.

Agora, a Globo perderia muito dinheiro — e provavelmente o futuro — se alinhando com os golpistas.

Não dando certo o golpe — e não daria — o risco era ver secar a verba multimilionária da propaganda federal.

Sem esse dinheiro, a Globo mingua. A internet já vai transformando-a em dinossauro. Sem o meio bilhão anual da propaganda das estatais, o seu Anualão, a Globo em pouco tempo se transforma numa Abril, uma morta-viva.

Para além disso, reforçando o fator monetário da virada, os Marinhos bobos não são.

Eles estão vendo o que aconteceu com a Abril quando decidiu partir para o valetudo para derrubar o PT.

A empresa respeitada e admirada que foi a Abril se tornou um símbolo nacional de abominação.

Não haverá volta para a Veja e para a Abril. A credibilidade e o respeito, quando perdidos, não se recuperam. É como virgindade.

E a Globo estava prestes a se transformar numa nova segunda Abril na guerra contra o PT.

Estava sendo perdido o controle.

O exemplo mais visível disso é a revista da casa, a Época. Com mudanças na direção, e a chegada de uma cria da Abril, Diego Escosteguy, a revista ficou tão infame quanto a Veja.

Semanalmente, as duas revistas estavam disputando quem cometia o maior número de canalhines e disparates editoriais.

Se a Veja anunciou a delação do homem da OAS como o fim do governo e de Lula, a Época deu na capa que Marcelo Odebrecht decidira delatar e a República, nada menos que isso, cairia.

Os fatos estão aí.

O gesto da Globo se explica e se encerra no dinheiro.

Muito se especulará sobre os detalhes que se traduzirão nisso — dinheiro.

Mas uma coisa é batata.

Os aloprados da Globo entenderam perfeitamente o editorial.

Assim como elevaram brutalmente o tom nos últimos meses, agora diminuirão na mesma proporção.

Roberto Marinho sabidamente gostava de papistas, gente que obedece sem restrições ao Papa.

Evandro de Andrade, chefe de jornalismo do Globo e depois da TV Globo, convenceu RM a dar-lhe o cargo com uma carta em que garantia ser papista.

Os irmãos Marinhos, como o pai, também gostam de papistas.

Dada a ordem contida no editorial, esperarão de seus aloprados, de Kamel a Merval, uma resposta imediata.

E eles sabem disso.

Paulo Nogueira
No DCM



Como Aécio reagirá ao editorial do Globo? E os comentaristas da casa?

Essa bravura toda tende a sumir
Essa bravura toda tende a sumir
Acabou a farra para os golpistas.

Um editorial do Globo deixou claro que eles não terão um apoio sem o qual não são nada.

O que terá levado a família Marinho a dizer basta às especulações em torno do impeachment ninguém sabe ao certo.

A Globo não dá nada sem levar muito mais em troca, mas ainda é um mistério a real motivação da empresa.

De concreto, o editorial põe fim, nesta sexta, às especulações em torno do impeachment. Isso passa a ser assunto de malucos como Lobão, Olavo de Carvalho, Revoltados Online e MBL.

Dilma vai até 2018. Ponto.

Na verdade, ela iria mesmo. Não havia a menor condição política e jurídica de afastá-la.

Mas a barulheira golpista continuaria a atormentar os ouvidos da sociedade pelo caminho clássico: políticos, sobretudo tucanos, e a mídia para repercuti-los incessantemente.

Sem a Globo, o estrondo morre.

Restará a Veja, em sua louca cavalgada. Mas quem ainda leva a sério a Veja?

Será divertido observar a reação de gente como Aécio ao editorial.

Aécio, como de resto o seu partido, aproximou-se ao longo dos anos não do povo, não das massas, não dos eleitores — e sim dos donos das empresas jornalísticas.

Sem o apoio dos barões, o PSDB seria muito menor do que já é.

Isso significa o seguinte.

Aécio tem duas opções agora: ou continuar a pedir novas eleições imediatamente, e a se comportar como o presidente que não é, ou seguir o comando da Globo e contribuir para a governabilidade de Dilma.

Aécio teria que ser muito corajoso para manter sua postura destrutiva. (Inconsequente, segundo o Globo.)

Se a Globo decide parar de blindá-lo, ele está frito.

Imagine, por exemplo, se o Jornal Nacional vai atrás da história do helicóptero dos Perrelas, ou decide investigar o aeroporto de Claudio?

A farsa rui imediatamente.

É absolutamente previsível que Aécio, e com ele o PSDB, opte por obedecer aos Marinhos.

Também vai ser engraçado ver os colunistas e comentaristas das várias mídias da Globo.

Como eles, que promovem alucinadamente o golpe, vão agora se adaptar aos novos tempos?

Ainda ontem, o diretor geral de mídias digitais da Globo, Erick Bretas, anunciou o fim do governo Dilma em seu Facebook, depois do panelaço.

“Game over”, decretou ele.

Bretas definitivamente não decretaria o fim do jogo hoje, depois do editorial.

Como se comportará a revista Época, que se tornou uma segunda Veja ao importar para a chefia Diego Escosteguy, o Kim Kataguiri das redações?

No Twitter, Escosteguy anunciou nas últimas semanas várias vezes o fim do governo. Mais até, a derrocada da república como a conhecemos.

Mesmo Moro: como ele vai ler o editorial? Quanto tempo dura Moro se a Globo passa a enxergar nele um fator de instabilidade institucional?

Antes que os progressistas festejem, que fique claro que um acerto patrocinado pela Globo representa uma nova Carta aos Brasileiros.

Adeus à esperança de pautas mais avançadas, como a regulação da mídia.

Para os genuinamente progressistas, a resposta vai estar nas ruas.

A Carta aos Brasileiros — pela qual Lula se comprometeu a seguir numa trilha conservadora — imobilizou os movimentos sociais petistas, com consequências devastadoras para eles e para o PT.

Terminada oficialmente a palhaçada que pretendia cassar 54 milhões de votos, o novo Brasil vai ser moldado por quem tiver mais força nas ruas.

O resto, como escreveu Shakespeare, é silêncio.

Paulo Nogueira
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Dilma deve ser sucedida por quem ganhar em 2018, disse dono da Globo a senadores do PT

João Roberto Marinho pediu encontro com os senadores do PT, na última quarta-feira.

Dos 13, nove aceitaram.

Durou quase duas horas. Ele abriu, dizendo-se muito preocupado com as “maluquices” de Eduardo Cunha na Câmara, que não comprometem apenas o próximo governo, mas  o futuro do País; afirmou, ainda, que o que ele defende é que Dilma seja sucedida por quem  ganhar as eleições de 2018, ou seja, impeachment, não.

Durante todo o tempo, escutou as queixas dos senadores, um por  um, sobre a parcialidade, os dois pesos, duas medidas, as abordagens dos repórteres querendo declarações que apenas preencham a verdade que já está pré-estabelecida, a repercussão nula do que os governos Lula e Dilma fizeram pelo Brasil.

Recados que foram dados a ele: 1) não mexam com Lula (todos estavam ainda muito mordidos com a charge do Chico do dia anterior (“agora só falta você”), pois o Brasil pode pegar fogo e eles não vão ser bombeiros; na mesma direção, não temos controle sobre nossa base social e é imprevisível a reação que se virá ante uma hipotética prisão de Lula.

Ele pediu desculpas, “ou os senhores estão enganados, ou nós estamos errando feio”, comprometendo-se a levar a avaliação geral dos senadores para os editores.

Disse ainda que, realmente, a cumplicidade entre jornalistas e procuradores de Curitiba, hoje, representa um fator de instabilidade, mas jogou a culpa no PT, “que deu início a essa parceria”. Ao final, pediu para o governo controlar sua base na Câmara.

Anônimo
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Finalmente, o bom senso contra os piromaníacos

Um conjunto de iniciativas coloca um ponto final na novela do impeachment, deixando inúmeros incendiários com a tocha na mão.

Os grupos de mídia dividiram-se em dois. Os que têm atividade econômica equilibrada, embora sofrendo com a crise, entenderam os terríveis reflexos da desorganização da economia sobre seus negócios e pularam do barco. Foi o caso da Folha/UOL e das Organizações Globo.

Persistiram no jogo os que se encontram em crise terminal e só veem saída na queda da presidente e na ascensão de outro, que comande novas operações de salvamento de mídia, seguindo o padrão histórico.

* * *

Esse movimento de bom senso foi impulsionado pelos alertas das grandes organizações econômicas, Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Fierj (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e a entrevista definitiva de Luiz Trabucco, presidente do Bradesco.

Mal contado pelos grupos de mídia, houve também um movimento de aproximação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, propondo um encontro com Lula. O encontro foi negociado em lugar neutro e discreto. De sua parte, Lula propôs que houvesse pelo menos uma testemunha neutra assistindo a conversa.

O vazamento e a exploração política do episódio esvaziaram a iniciativa.

Mas, àquela altura, as vozes da pacificação já se faziam ouvir. Editoriais em defesa do mandato de Dilma, chegaram até ao Financial Times, porta-voz máximo do sistema financeiro internacional.

* * *

Pesaram nesse movimento o cenário de um país que poderia cair nas mãos impensáveis de Eduardo Cunha ou Aécio Neves, a radicalização que já se manifesta nos atentados ao Instituto Lula e na morte de haitianos em São Paulo e a mediação de Michel Temer (leia o post abaixo "O dia seguinte ao impeachment").
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* * *

Ainda se tem um longo trajeto pela frente. Há um desafio premente que é desarmar a rebelião do baixo clero da Câmara. Será rápido, à medida em que se proceda à degola de Eduardo Cunha.

Outro, também pouco problemático, será baixar a bola de Aécio Neves.

O período pós-eleitoral liquidou não apenas com a imagem de Dilma Rousseff, mas com a de Aécio. Os dois viraram pó na mesma velocidade, mas em graus diversos.

De Dilma sobressaem aspectos negativos menores, a teimosia, a falta de cintura política. Tem recuperação desde que acerte o passo.

De Aécio, a irresponsabilidade institucional, a arrogância, a falta de escrúpulos e de esperteza de expor o lado agressivo e primário.

Sem holofotes da mídia, Aécio não existe. Seu grau de desinformação e falta de esperteza política são um desaforo à grande escola política mineira.

Perdeu o bonde, especialmente depois que o lado paulista se antecipou e se apresentou como guardião da responsabilidade institucional, através de Geraldo Alckmin e José Serra.

Não se julgue por aí seu legalismo, mas o senso de oportunidade. Ambos — e seu guru FHC — perceberam o exagero da luta política sem limites e o desgaste da bandeira, especialmente junto ao meio empresarial. E pensaram, especialmente, no dia seguinte.

* * *

A crítica pesada do filósofo José Arthur Gianotti ao PSDB é muito mais reveladora pelas relações de Gianortti do que as críticas em si. O filósofo é umbilicalmente ligado a Serra e a FHC. Na entrevista ao El Pais, formula críticas pesadíssimas ao PSDB e elogios a Serra e FHC.

* * *

Agora, com um mínimo de espaço, caberá a Dilma começar a governar.

Luís Nassif
No GGN



O dia seguinte ao impeachment


Montando os Atos Institucionais e a lista de cassações, Costa e Silva chamou o Ministro da Fazenda Delfim Netto e indagou o que ocorreria se incluísse na lista o banqueiro Walther Moreira Salles.

Delfim disse que nada demais. Haveria problemas com os bancos nova-iorquinos e europeus, sem dúvida. Também com a mídia norte-americana, já que Moreira Salles era amigo pessoal dos donos da CBS, do New York Times e do Washington Post. Fora isso, nada demais.

* * *

A mesma coisa se sair o impeachment de Dilma. Pouca coisa mudará, com exceção das seguintes:

* Do lado esquerdo, movimentos sociais, sindicatos e estudantes sairão às ruas protestando. Do lado direito, sairão os grupos vociferantes que dominaram as ruas nas últimas manifestações. Entre ambos, os inevitáveis black blocs e baderneiros em geral.

* Para manter a ordem, governos estaduais darão um liberou geral para suas Polícias Militares. Dado o grau de exacerbação produzido pelo impeachment, as pancadarias de Curitiba parecerão bailes de debutantes perto do novo quadro.

* A bandeira da anticorrupção será levantada em todos os rincões do país e se transformará em palavra de ordem. De nada adiantará Aécio Neves prometer blindagem para os políticos peemedebistas citados na Lava Jato.  Depois que Sérgio Moro provou o poder de um juiz de Primeira Instância — prendendo sem motivo aparente o presidente do maior grupo nacional — o exemplo se espalhará pelo país. Bastará o casamento de um juiz de primeira instância justiceiro com um procurador vingador para os mais poderosos se abalarem e os menos poderosos serem varridos do mapa.

* Haverá uma caça às bruxas na qual grupos de extrema direita, a exemplo do antigo CCC (Comando de Caça aos Comunistas), sairão a campo para denunciar, prender e agredir os recalcitrantes. A enxurrada levará não apenas militantes petistas, mas quem ousar investir contra a onda.

* Do outro lado, o sentimento de indignação e impotência poderá levar a atitudes radicais, como as que produziu o AI-5.

* Lula não poderá sair sem escolta nas ruas. Mas Fernando Henrique Cardoso também não. O sentimento de ódio prevalecerá em todas as instâncias.
  • Em pouco tempo, os novos vitoriosos estarão se digladiando pelo botim. Eduardo Cunha e Renan Calheiros brandirão o tacape do controle das bancadas. E os jornais junto com o PSDB tentarão  carrear a vaga do denuncismo para o lado deles.
* Pouco importa se a guerra quebrar grandes grupos, produzir estragos nos pequenos e médios, ampliar o desemprego e o descontrole. O que importa é o poder.

* Quando o grau de fervura estiver insuportável, serão convocadas as Forças Armadas, para colocar um mínimo de ordem no caos produzido pela elite política. Dependendo do grau de conflitos, há a possibilidade de se invocar a Lei de Segurança Nacional, com desdobramentos sobre a mídia e sobre as redes sociais. E, se a bandeira anticorrupção estiver a pleno vapor ainda, não faltarão motivos para estender a longa mão de Moro sobre outros presidenciáveis e outros partidos.

Fora isso, nada demais ocorreria em caso de impeachment.

Daí porque o maior risco não é a possibilidade de um impeachment. Mas de Dilma jogar a toalha.

Luís Nassif
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Os sinos de Ouro Preto

Contam que só uma igreja de Ouro Preto anunciou a morte do Tiradentes com o toque fúnebre dos seus sinos. Todas as outras saudaram a execução do danado com um toque festivo. Não se conhece a explicação para os solitários sinos destoantes de Ouro Preto. Talvez o pároco da igreja enxergasse mais longe do que os outros e previsse que a História transformaria o réprobo em herói. Talvez o pároco fosse um admirador dos inconfidentes, sem medo de afrontar a Coroa com o toque lamentoso. Ou talvez o sineiro da igreja tivesse apenas se enganado e escolhido o toque errado. Não se sabe.

Como não se sabe — ou eu não sei — que santo dava nome à igreja. Se a história dos sinos é real, ele poderia ser uma espécie de padroeiro dos que resistem a julgamentos apressados e preferem ver quem, no longo prazo — a longue durée do historiador Fernand Braudel — continuará réprobo e quem virará herói. O único problema com esperar o julgamento da História é que o longo prazo geralmente redime quem não está mais vivo para festejar sua reabilitação. O longo prazo custa a passar.

A longo prazo, uma verdadeira loooongue durée, o que se saberá deste período da nossa história sem a distração das badaladas e das paixões do momento, com perdão da literatice? Para não ir muito longe no tempo, comecemos pela carta de suicida do Getúlio. Desde então, entre tudo o que aconteceu e deixou de acontecer no Brasil, tivemos repetidas tentativas frustradas de livrar o Brasil das tais forças ocultas e escancaradas, de fora e de dentro do país, que só se transformaram em folclore da esquerda porque nunca puderam ser denunciadas com clareza e consequência. Independentemente do que se pensa do desastre Jango, sua destituição por militares brasileiros com apoio americano e do patriciado nacional, significa mais, para o longo prazo, do que sua breve passagem pelo poder. Independentemente do que se pensa da atual agonia do PT, se ele também está se suicidando ou sendo assassinado, o fato é que se trata de mais uma tentativa frustrada.

Não pergunte por quem dobravam os sinos prescientes de Ouro Preto. Dobravam por nós. Continuam dobrando.

Luís Fernando Veríssimo
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Os vencedores e seus aliados

Eduardo Cunha e Renan Calheiros venceram. E venceram andando no fio da navalha. Ambos merecem o reconhecimento de que se impuseram às adversidades e aos adversários. Se amanhã caírem, não será uma negação de sua vitória atual. Nem será surpresa para eles.

Eduardo Cunha entrou a semana sobrecarregado de perdas na sua tropa de deputados e danos pessoais. Atingido pela acusação na Lava Jato de extorquir US$ 5 milhões, consumiu as férias parlamentares ilegais esforçando-se para aparentar inteireza, mas o abatimento e certo desespero não se escondiam.

Em 24 horas, seus comandados estavam todos, outra vez, de braços com ele. As vestais do PSDB na Câmara perderam os escrúpulos e se entregaram a Cunha. Que se viu de braço dado ainda com PDT e PTB, até então "governistas". Condições ótimas, portanto, para acionar a pauta-bomba, como foi feito.

O que sobrou de voz adversária a Eduardo Cunha, na semana, foram dois editoriais. Mas não é Eduardo Cunha o alvo adequado de críticas à pauta-bomba e ao boicote da Câmara a medidas do "ajuste fiscal". As bombas são criadas na cabeça dele, é certo. Quem as detona, porém, são os peemedebistas de Cunha com o apoio decisivo do PSDB, secundados pelo restante da oposição. E, em certas ocasiões, também de ditos aliados do governo e até do PT.

Em artigo na Folha ("Somos todos Câmara", 7.ago), diz Eduardo Cunha: "Não sou ativador de pautas-bomba". E joga uma pequena bomba no colo dos seus companheiros de bombardeio: "As pautas são elaboradas pelo colégio de líderes". Mas também é verdade que a maioria dos líderes, a começar pelos líderes de bancadas oposicionistas, é dominada por ele. E estende a sujeição às bancadas.

Aí está a usina da crise, nesse conluio de oportunismos mesquinhos, entre aproveitadores e ambiciosos levianos. O que foi feito da crítica moral à eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara, já como personagem de suspeitas e acusações graves? Onde foi parar a grande reação moral às explicações fraudulentas de Renan Calheiros, quando revelada sua dependência ao cofre da empreiteira Mendes Jr. e mais ilegalidades? Dos dois casos para cá, não sobrou nada de caráter nos deputados indignados e em seus dirigentes partidários para manter um pouco de dignidade na relação com seus ex-criticados?

Não. Logo, merecem estar sob o comando de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, beneficiários, porém nenhum dos dois culpado da baixeza alheia. Mas muito menos culpado é o país. E está pagando, no presente e em comprometimentos do futuro, pelo estado ensandecido que a Câmara esparge no país, e se tem chamado apenas de crise.

Pode-se perceber essa origem com clareza, se não houver o propósito preliminar de acobertar oposicionistas e a obsessão de atingir o governo. Nos últimos dias, por exemplo, a situação caótica agravou-se e a pregação de impeachment recrudesceu, com a arrogância de Aécio & cia. querendo derrubar, além da presidente, a própria Constituição em suas regras sucessórias.

O governo errou muito, em política e em economia (vale a pena: para afinal entender o que levou à crise econômica, recupere o artigo fácil e inteligente da professora Laura Carvalho na Folha de sexta 7.ago, pág. A24). Mas o que fez o governo na semana passada que agravou a situação crítica? Nada. Humildemente nada.

Houve o agravamento, no entanto. Todo ele produzido na Câmara e no Senado. Com votações antigoverno, que incluíram o exame de contas de governos passados para preparar a reprovação das contas de Dilma, caminho para o impeachment. E com a ameaça de reprovação à permanência de Rodrigo Janot, como punição à decência do seu atual mandato.

Eduardo Cunha e Renan Calheiros subjugaram parte dos adversários e inutilizaram os demais. Dois vencedores. Apesar de si mesmos.

A propósito, ou quase: antes de discutir a delação premiada, Fernando Soares, ou Fernando Baiano, dado como elo de grandes lances de corrupção envolvendo figuras do PMDB, decidiu providenciar a ida da mulher e dos filhos para os Estados Unidos. Sinal de que alguém perigoso está sob risco de revelações.

Janio de Freitas
No fAlha
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