3 de ago de 2015

O novo Canal de Suez: a obra faraônica que o Egito fez em um ano

Reuters
O teste no novo canal foi realizado sob um forte esquema de segurança, com helicópteros e navios militares
É uma obra faraônica concluída em apenas um ano.




Trata-se do novo Canal de Suez, no Egito, que, após testes, será inaugurado oficialmente no dia 6 de agosto.

A obra é considerada essencial para o comércio regional e global.

A construção da nova via, que passa ao lado da maior parte do canal original, começou há menos de um ano.

A rota de 72 km permite a navegação em dois sentidos de barcos de grande porte.

Vários navios com contêineres de todo o mundo, escoltados por helicópteros e embarcações militares, passaram pelo canal desde o último sábado como parte desse ensaio.

O esquema de segurança tem suas razões, segundo autoridades egípcias.

A península do Sinai, nas imediações do canal, é uma região com atividade intensa de grupos islâmicos extremistas. Os militantes mataram centenas de civis desde o golpe militar que derrubou o presidente Mohammed Morsi em 2013.

Estímulo ao comércio

O canal de Suez original, inaugurado há quase 150 anos, une os mares Mediterrâneo e Vermelho.


O atual presidente do Egito, Abdel Fattah al Sisi, afirma que a expansão de uma das rotas de navegacão comercial mais importantes do mundo dará forte impulso à economia do país.

Pelo canal de Suez passa atualmente 7% do comércio mundial baseado em navegação.

A via é ainda uma das principais fontes de recursos para o Egito.

Estima-se que a construção do novo canal tenha custado US$ 8,5 bilhões. As obras — realizadas em regime de 24 horas — ficaram a cargo das Forças Armadas.


A passagem será inaugurada em 6 de agosto, exatamente um ano depois do começo dos trabalhos, seguindo a meta ambiciosa do presidente Al Sisi.

O chefe da Autoridade do Canal de Suez, almirante Mohab Mameesh, disse que o projeto significa um "renascimento" para o Egito.

Mas há quem critique a ideia. Alguns especialistas questionam os lucros projetados pelo governo e dizem que o dinheiro poderia ter sido gasto em demandas mais urgentes.

"É, sobretudo, um projeto patriótico, e isso é muito difícil de quantificar", afirmou à BBC o analista financeiro britânico Angus Blair, baseado no Cairo.

No último final de semana, o almirante Mameesh anunciou planos de construir outro canal mais próximo de Port Said, no Mediterrâneo.

A estimativa é que esse projeto consuma US$ 60 milhões, com extensão de 9,5 km, segundo a agência de notícias Reuters.
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FHC tem agropecuária dentro da cidade

Se, em vez de FHC, fosse um petista o dono da empresa agropecuária em Osasco, cidade sem zona rural e onde nenhum sócio reside, choveriam ilações nas três revistas de maior circulação

Pelo Google Maps, a imagem que identifica o endereço é uma
residência simples. Seria uma empresa de fachada?
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é sócio de seus três filhos na empresa Goytacazes Participações Ltda, cujas atividades registradas na Junta Comercial de São Paulo são serviços de agronomia e de consultoria às atividades agrícolas e pecuárias.

No Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica, na Receita Federal, a empresa tem como atividade principal o cultivo de cana-de-açúcar. As atividades secundárias são a criação de bovinos para corte e cultivo de outras plantas de lavoura.


O curioso é que a empresa está sediada na cidade de Osasco, na Grande São Paulo, ou seja, não é uma área rural. E o mais curioso ainda é que, quando se faz uma busca no Google Maps, a imagem que identifica o endereço é uma residência simples. Seria uma empresa de fachada?

Nenhum dos quatro sócios mora em Osasco. O ex-presidente reside em São Paulo, uma filha reside em Brasília, outra no Rio de Janeiro, assim como seu filho.

Antes de ser político, FHC nunca foi ruralista. Formou-se em Sociologia e sempre trabalhou como professor, até ingressar na política.

O interesse pela, digamos, "sociologia bovina", só surgiu aos 58 anos, quando ele já era senador. Em 1989, adquiriu a fazenda Córrego da Ponte, de 1046 hectares, em Buritis (MG), próximo de Brasília. Comprou em sociedade com seu amigo e ex-ministro Sérgio Motta, um engenheiro e político de vida urbana que, assim como FHC, causou surpresa o súbito pendor ruralista, já passados da meia idade.

Motta faleceu em 1998 e FHC passou a fazenda para os filhos que venderam a propriedade em 2003. Só em 2012 a empresa Goytacazes Participações foi aberta em Osasco.

Em 1999, a revista IstoÉ publicou uma reportagem sobre a construção em 1995, quando FHC já era presidente, de um aeroporto construído pela Camargo Corrêa na fazenda Pontezinha da empreiteira, vizinha da propriedade do ex-presidente. Segundo a reportagem, o aeroporto era usado sobretudo para atender à família Cardoso. Este compadrio não despertou na época a curiosidade do Ministério Público, pelo menos para conferir, confirmando a tradição de engavetamento quando suspeitas atingem tucanos.

Se em vez de ser FHC, fosse um petista o dono de empresa agropecuária em Osasco, cidade sem zona rural e onde nenhum sócio reside, choveriam ilações nas três revistas de maior circulação e, dada as relações de compadrio no passado com a Camargo Corrêa, a força-tarefa da Lava Jato muito provavelmente colocaria a empresa na mira das investigações. Mas trata-se de gente do PSDB, então... deixa pra lá.

Helena Sthephanowitz
No RBA
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Para jurista, prisão de Dirceu não tem nenhuma justificativa

Ordem para prisão foi emitida há uma semana pelo juiz Sérgio Moro
A prisão do ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, detido pela Polícia Federal na manhã desta segunda, 3, em Brasília, na 17° fase da operação Lava Jato, batizada de Pixuleco, não se justifica, segundo o ex-procurador de Estado, Márcio Sotelo Felippe.

“Preciso ser convencido de que não se trata de uma arbitrariedade. Não há necessidade de prisão. Ele tem endereço certo. Não conheço as provas. Falo sobre o aspecto das liberdades fundamentais. A prisão preventiva de quem está cumprindo pena em regime semiaberto causa profunda estranheza. Pode ser mais um capítulo desse espetáculo do Estado policialesco, que vem criminalizando a política. Preciso ser convencido de que não se trata de uma arbitrariedade”, frisa.

O jurista não descarta a hipótese de que a medida tenha sido posta em prática para desviar a atenção do atentado à bomba contra o Instituto Lula e ajudar na mobilização da manifestação convocada pela oposição contra a presidente Dilma, marcada para o próximo dia 16. “São especulações razoáveis.”

A decisão com a ordem para a prisão de Dirceu foi assinada eletronicamente pelo juiz Sérgio Moro às 11h38 da segunda-feira passada, 27, há exatamente uma semana.

No despacho, além da prisão do ex-ministro, Moro salienta outras medidas relacionadas a ele e a associados, como buscas e apreensões.

Na operação, a Polícia Federal também prendeu o irmão de Dirceu, Luiz Eduardo Oliveira e Silva, e seu ex-assessor, Roberto Marques, o Bob.

A ordem de prisão também determinou o bloqueio dos ativos mantidos em conta e investimentos bancários dos três acusados, além da empresa de Dirceu. Outros três acusados e a TGS Consultoria e Assessoria em Administração também foram atingidos por essa determinação.

Dirceu é acusado de ter recebido propinas que teriam sido disfarçadas na forma de consultorias prestadas por sua empresa de assessoria JD. A empresa já está desativada.

Os presos deverão ser conduzidos para Curitiba, onde corre o processo da Lava Jato.

Lúcia Rodrigues
No Caros Amigos
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Prisão de Dirceu, greves, invasões: agosto começou

http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2015/08/03/prisao-de-dirceu-greves-invasoes-agosto-comecou/


Ex-ministro José Dirceu preso pela Operação Lava Jato em Brasília, acusado de ser o mentor e organizador do sistema de corrupção na Petrobras. Greves de ônibus no Recife e em Porto Alegre. Invasões do Movimento dos Sem Terra em prédios do Ministério da Fazenda em Brasília e no Recife.

No primeiro dia útil de agosto, antes da hora do almoço, já tivemos uma ideia do que nos espera. E o Congresso Nacional ainda nem tinha voltado a funcionar.

No Palácio do Planalto, a coordenação política fez a sua habitual reunião das segundas-feiras com a Presidente Dilma Rousseff para discutir as pautas-bomba anunciadas por Eduardo Cunha na Câmara e o julgamento das contas do governo no TCU, previsto para os próximos dias, mas a vida real se antecipou para tornar as nuvens da crise ainda mais carregadas em dia de sol.

O dólar subindo e o dólar caindo, enquanto Dirceu era levado para a sede da Polícia Federal, com o noticiário interrompido a todo momento por novas revelações da Operação Lava Jato e ondas de protestos, que iam dos motoristas de táxi de Brasília contra o aplicativo Uber, aos funcionários públicos do Rio Grande do Sul, que tiveram seus pagamentos parcelados pelo governo estadual por falta de dinheiro.

José Dirceu estava cumprindo prisão domiciliar quando a PF chegou logo cedo para lhe dar nova ordem de prisão assinada pelo juiz Sergio Moro. "Dirceu foi o responsável pela instituição do esquema de pagamento de propina enquanto ainda era ministro da Casa Civil, dando início ao esquema de corrupção na estatal", disse o procurador da República Carlos Fernando Lima, em entrevista coletiva convocada para explicar a ação da força-tarefa.

Segundo os investigadores, a PF identificou pagamentos para Dirceu através de sua empresa de consultoria e por pagamento de despesas pessoais do ex-ministro, como reforma de imóveis. "Nós entendemos que o DNA, como diz o ministro Gilmar Mendes, é o mesmo do mensalão e da Lava Jato. No caso do José Dirceu, nós temos provas de enriquecimento pessoal, não mais do dinheiro somente para o partido", acrescentou Lima após a coletiva.

No começo da tarde, a Polícia Federal ainda aguardava autorização para levar o ex-ministro a Curitiba, para onde foram encaminhados os demais presos da "Operação Pixuleco", como foi batizada a 17ª fase da Lava Jato.

Perguntado pelos repórteres sobre o ex-presidente Lula, Carlos Fernando Lima disse que "neste momento não existe nenhum indicativo de necessidade de prisão de quem quer que seja que não esteja preso", mas acrescentou que "nenhuma pessoa num regime republicano está isenta de ser investigada".

Os últimos acontecimentos aumentam a expectativa em torno do programa de televisão do PT, na quinta-feira, e dos protestos contra o governo marcados em todo o país para o próximo dia 16. A crise política está saindo dos gabinetes para as ruas com desdobramentos imprevisíveis.
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Impossível não lembrar...


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GloboNews afoga site 247 na Lava Jato

Dono é assim com Daniel Dantas, sabia, Moro?

Attuch, sócio do Sistema Dantas de Comunicação
O Delegado Márcio Adriano Anselmo falou na entrevista coletiva sobre a prisão do preso José Dirceu, que tem um jornalista investigado, mas que não poderia citar quem é.

Porém, informou que o suposto jornalista já foi citado em fases anteriores.

Jornalistas insistiram na pergunta, e ele não falou.

Acabou a coletiva, voltou para a apresentadora da GloboNews, que chamou uma repórter.



A repórter falou que o 247 já foi citado, e o responsável era Leonardo Attuch.


Leia mais sobre Leonardo Attuch e Daniel Dantas.

E aqui sobre o telefonema de Attuch a Naji Nahas para que processasse os f …da p… do Mino Carta e do ansioso blogueiro.

Paulo Henrique Amorim
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A coletiva de Guantánamo


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Servidores protestam contra Sartori em Porto Alegre


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Eduardo Cunha precisa ser afastado


Nessas alturas dos acontecimentos está claro que Eduardo Cunha não se afastará da presidência da Câmara dos Deputados, mesmo que passe da condição de investigado para a condição de denunciado. Numa democracia decente ele não poderia ter ficado num dos mais importantes cargos do Estado, mesmo na já grave condição de investigado. Provavelmente, um político nas suas condições e suspeições sequer chegaria a ocupar tão relevante cargo. Aqui, ele chegou ao poder pela  conjunção de interesses hipócritas, unindo em torno de si setores de bancadas dominados pelo oportunismo político e as bancadas da oposição, dominadas pelo espírito de vendeta política e por uma inescrupulosa irresponsabilidade institucional. Mantém-se no poder pela junção de tudo isto e pela total falta de decência da bancada do PT.

Integrantes da bancada do PT já haviam praticado os indigestos atos de louvação de Cunha na instalação da CPI da Petrobrás, numa vergonhosa seção de beija-pés do presidente da Câmara, quando ele já estava na condição de denunciado. Agora, o líder da bancada petista, Sibá Machado, vem a público e declara que não vê motivos para o afastamento de Cunha. Em termos partidários, somente as bancadas do PSOL e PPS se manifestaram de forma inequívoca pelo seu afastamento.


Em apenas seis meses no comando da Câmara, Cunha se ergueu na condição de homem acima da lei. Violou o regimento da Câmara, humilhou colegas, agrediu os princípios constitucionais do Estado laico, ignorou ritos e procedimentos legislativos consagrados, mandou aprovar matérias que ferem direitos, encaminhou uma reforma política que representa um retrocesso e se choca com os reclamos da sociedade brasileira, desestabilizou a ordem econômica ao patrocinar a aprovação de pautas que oneram o Estado no momento em que o mesmo precisa conter gastos e se instituiu como senhor da decisão se haverá ou não encaminhamento do processo de impeachment da presidente Dilma.

Depois de tudo isto, agora o noticiário veicula que parlamentares e membros da CPI estão agindo em nome de Cunha para intimidar testemunhas e depoentes, na Operação Lava Jato. Que a CPI se reduziu a um mero instrumento de defesa e de coação política e pessoal em benefício de Cunha, não resta dúvida. Não é a isenção investigativa que impera nessa Comissão. Não se trata de um instrumento que quer buscar a verdade das coisas. Não é um recurso usado para coibir a corrupção e para aconselhar medidas com vistas a melhorar a eficácia do Estado. Pelo contrário, esta CPI está a serviço do acobertamento da corrupção, da manipulação de interesses políticos escusos, da degradação da nossa precária democracia.

O STF e a Sociedade não Poderão Omitir-se

Afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara é uma demanda do que resta de dignidade do nosso sistema político. Afastar Cunha é uma demanda de justiça. Afastar Cunha é uma exigência moral do nosso tempo para que não seja coberto de opróbrio ainda maior nas páginas futuras da história. Nessas circunstâncias, o STF não poderá omitir-se no momento em que Cunha for denunciado. Deverá afastá-lo, impedindo que um dos mais importantes poderes da República seja maculado por tal situação inaceitável. A sociedade também não poderá omitir-se. Terá que exigir, seja através de entidades representativas, seja através de manifestações individuais nos mais variados ambientes em que isto é possível, que Cunha se afaste da presidência da Câmara. Já existem razões suficientes, mesmo antes da denúncia, para que se estabeleça a exigência de seu afastamento.

E dos partidos e dos políticos, o que esperar destes? Com as raras e honrosas exceções, não se pode esperar nada, absolutamente nada, a não ser a vergonhosa omissão de uns e a criminosa conivência de outros. Os partidos e os políticos deveriam saber que eles já não têm crédito e legitimidade junto a sociedade; deveriam saber que já não são ouvidos; que já não são respeitados e que não merecem confiança e fé.

Alguns desses políticos, de quase todos os partidos, enleados nas teias da corrupção, podem até escapar do julgamento da justiça. Os omissos e coniventes podem até escapar do julgamento das urnas. Na sua arrogante pavonice, podem até acreditar que são depositários de admiração. Mas deveriam saber que são causadores de repugnância.

Julgam eles que a sociedade ignora o mal ao poder público que eles representam? Julgam eles que a sociedade não sabe dos seus privilégios, das suas omissões e da sua incompetência? Pensam eles que não serão vistos, no futuro, como destruidores da dignidade da política e como cúmplices de um Estado que apodreceu pela corrupção? Sim, e mesmo assim, acreditam que poderão continuar por muito tempo enganando o povo, com sua perpetuação no poder, com as benesses e com os privilégios.

Mal sabem eles — partidos e políticos — que do ponto de vista do juízo histórico, estão sentados no banco dos réus. Mal sabem eles que o juízo da história não será complacente e que eles já estão e serão condenados com penas severas e duríssimas. Uns porque não tiveram limites em sua corrupção; outros, porque assumiram o figurino dos oportunistas, dos omissos e dos coniventes. Não pensem os políticos atuais que poderão se evadir do juízo da história, protegidos pela noite promíscua e escusa de Brasília.

Pensar que o atual sistema político e partidário, que tem em Eduardo Cunha um de seus ícones, possa mudar e remediar-se, é algo pueril. Num momento em que os apelos revolucionários caíram em desuso, só restam à sociedade dois caminhos para sair do atual beco sem saídas da política brasileira: apelar para que a sociedade civil se mobilize, se organize, cobre e participe; e apoiar as instituições do Estado, principalmente o Ministério Público, o Judiciário, a Polícia Federal e a Receita Federal, entre outras, para que radicalizem o processo de sua republicanização.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
No GGN
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Imprensa perdeu o sentido, diz Jorge Furtado



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Polícia Federal grampeou conversas de advogados da UTC


A fase da Operação Lava Jato deflagrada hoje (03) traz como ponto de partida as tratativas do presidente da UTC, Ricardo Pessoa, nos contratos da Petrobras. Antes de os 200 policiais federais cumprirem os mandados, a Folha já tinha publicado informações vazadas da PF de conversas de Pessoa com outras empreiteiras, para definirem um consenso sobre as possibilidades de acordos de delação com a Justiça Federal do Paraná. 


Dono da UTC cogitou acordo antes de ser preso, mas não queria acusar

Por Andréia Sadi e Aguirre Talento

Dias antes de ser preso pela Operação Lava Jato, em novembro do ano passado, o dono da UTC, Ricardo Pessoa, discutiu com interlocutores a possibilidade de um acordo entre as empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção da Petrobras, mas afirmou que só toparia se não tivesse que acusar ninguém.

Folha teve acesso a diálogos interceptados pela Polícia Federal que mostram que advogados da UTC discutiram com outras empresas a viabilidade de um acordo com as autoridades, em que todas as empresas pagariam multas, mas ninguém seria responsabilizado individualmente.

A ideia não foi levada adiante, entre outras razões, porque dias depois executivos de oito empreiteiras foram presos pela PF, entre eles Ricardo Pessoa, apontado como um dos líderes do grupo.

O ex-ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos, que morreu no final do ano passado, era o principal patrocinador da tentativa de acordo. Consultor da Odebrecht e da Camargo Corrêa, Thomaz Bastos atuava como interlocutor das outras empresas.

O advogado Alberto Toron, que representava a UTC na época, confirmou que foi a Curitiba para discutir com o Ministério Público Federal a possibilidade de um acordo, mas que não obteve êxito.

Pessoa saiu da cadeia em abril deste ano, libertado por ordem do STF (Supremo Tribunal Federal). Em junho, ele fechou acordo de delação premiada e passou a colaborar com as investigações, implicando ministros e políticos.

'Baboseira'

O empreiteiro nunca acreditou em saída indolor para o caso, mas nunca impediu as tratativas dos advogados. No momento, a UTC negocia um acordo administrativo com o governo federal para não ser declarada inidônea e poder continuar fazendo negócios com o setor público.

Em conversa com Renato Tai, funcionário do setor jurídico da UTC, em 12 de novembro de 2014 — dois dias antes de ser preso —, Pessoa disse que tinha "restrições" a um acordo entre as empreiteiras e chegou a chamá-lo de "baboseira". "Esse acordo aí não resolve porra nenhuma, viu? Não é assim não. Não acorde nada", recomendou.

"Só consigo fazer alguma coisa nesse sentido se eu não tiver que acusar nada", ressaltou. Renato respondeu que as outras empresas concordavam com ele: "Nesse ponto não tem ninguém pensando de forma diferente, não".

Depois de uma reunião dos advogados das empresas, Pessoa e Renato voltaram a se falar. "E Toron vai pra onde, Curitiba? Fazer [o quê], meu Deus?", questionou Pessoa. Renato disse que a intenção era ir "mais para ouvir do que falar" e "saber se os caras têm interesse em conversar".

Meses depois desses diálogos, o empreiteiro abandonou sua disposição inicial de "não acusar nada" ao fazer o acordo de delação premiada e citar entre os supostos beneficiários do esquema dois ministros da presidente Dilma Rousseff, o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva.

No GGN
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Da sabedoria que vem com a idade

Não pretendia voltar tão cedo ao tema, mas três veteranos das belas letras chamaram minha atenção, e como sempre obedeci aos mais velhos, tratemos novamente da manipulação da informação.


Os três textos comentados aqui estão na Folha de São Paulo de 02ago2015. Deus nos proteja... deste mês de agosto.

Começo com o texto do professor Arnaldo Niskier, “O preço alto da greve”.

Nele, o professor comenta a greve de 90 dias dos professores paulistas do ensino público. Mais precisamente, responsabiliza os professores pelos efeitos deletérios do pós-greve para a educação. Realmente, 90 dias de greve não podem ser compensados nos 30 dias das férias usados para aulas de reposição. Além do que, por óbvio, nesses dias, havia que ser servida a merenda aos alunos e fornecido o transporte escolar. Faltaram ou foram insuficientes.

Onde então o professor desliza? Quem lê o texto de Niskier, se não estiver muito atento, chega a acreditar que o calendário escolar e o fornecimento de alimentação e transporte são responsabilidades dos professores e não do governo estadual. O texto trata, na sua essência e conteúdo, dos professores públicos e não da administração da educação.

O professor reconhece que seus colegas da educação básica ganham muito mal e que a greve é um direito. Mas considera que seja um direito ao qual os professores não deveriam recorrer para não prejudicar os alunos. Como se professor mal pago já não fosse um prejuízo em si mesmo. Preconiza Niskier que os professores deveriam aguardar que se “rediscuta o relacionamento das autoridades com os integrantes do sistema”.

Ora, a greve só durou 90 dias por que o Governador Alckmin se recusou a negociar com os professores. Bastaria a Niskier, para saber disso, ler a própria Folha que comemorou o fim da greve em manchete na primeira página chamando os professores de derrotados.

Aliás, a considerar as declarações de Alckmin sobre a greve dos professores, Niskier estaria falando de uma inexistência. Alckmin repetidas vezes declarou que não existia a greve, já que em 95% das escolas estaduais havia aulas.

E como o tema deste post é manipulação da informação, tomo as palavras do governador para cometer a audácia de recomendar um livro ao professor Niskier: “Como mentir com a estatística” de Darrell Huff.

Mais um detalhe, em nenhum momento de seu texto, o professor Niskier cita o governador Alckmin. Creio que ele julgue que a greve foi apenas dos professores. Afinal, Alckmin foi trabalhar todos os dias.

Prosseguindo com Elio Gaspari.

Ah, meu dileto Elio Gaspari. Cito tanto Gaspari que já começo a despertar desconfianças em meus colegas de boteco.

Pois bem, em seu texto, “O dilema de Dilma”, Gaspari recomenda que a presidente adira à delação premiada na Lava Jato. Gaspari não adianta o que ou quem ele crê que Dilma deveria dedurar. Mas diz que, se não o fizer, Dilma estará cometendo o mesmo erro de Lula que não dedurou José Dirceu e Antonio Palocci, de Collor que não dedurou PC Farias e até do general Figueiredo que não dedurou os responsáveis pelo atentado do Riocentro.

Completando Gaspari, se Dilma sabe de algo condenável em seu governo e, em ralação a isso, nada faz, comete crime de responsabilidade.

Claro, como não vem ao caso, Gaspari não comenta que FHC tampouco dedurou quem deu o dinheiro para pagar R$ 200 mil por voto na compra da emenda da reeleição. Não dedurou igualmente quem, no seu ministério, ganhou dinheiro com a privataria tucana ou quanto Pedro Barusco embolsou de propina na Petrobras no período de 1998 a 2002.

Termino com Carlos Heitor Cony.

Em seu texto, “Marilyn Monroe e a inflação”, Cony responsabiliza Dilma pessoalmente pela inflação atual. E avia a receita do impeachment como único remédio para retomarmos a estabilidade financeira. Cony mostra-se ainda um saudoso da era FHC, período em que insinua que não houve inflação. Há “a inflação que começa a subir e inquietar cada dona de casa” e “tivemos a experiência da inflação anterior ao Plano Real”.

Já de tempos, Cony tem sido bastante duro com Dilma. Não entendia o porquê.

Cony e Dilma têm trajetórias até parecidas. Nos anos 60, ambos foram, a seus modos, resistentes à ditadura. Ambos foram prisioneiros  dos generais. Dilma foi brutalmente torturada, Cony foi severamente constrangido com, inclusive, ameaças à integridade física seus familiares.

Na redemocratização, Dilma se tornou presidente da República e Cony tornou-se milionário.

A resposta para a birra está no próprio texto de Cony. Ele não é apenas de críticas, é também revelador do que vai na alma do velho jornalista. A Marilyn Monroe citada no título é a própria presidente Dilma. Além da incompetência administrativa, Cony critica o “charme quase libidinoso” com o qual Dilma, bem maquiada, se exibe ao dar declarações à imprensa ou passear de bicicleta. Em Dilma, chama a atenção de Cony sua “expressão coquete que poderia aparecer na capa dessas revistas dedicadas aos homens solitários”.

Resta explicada a má vontade de Cony para com sua companheira de lutas na juventude: é tesão recolhido.

PS1: para quem tem algum tempo e dinheiro para perder, segue acesso aos textos da Folha: Cony, Niskier e Gaspari.

PS2: para quem só dispõem de tempo que jogar fora: oficina de concertos gerais e poesia.

Sérgio Saraiva
No GGN
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Prisão de Dirceu foi baseada em duas delações


O "fato novo" que levou o ex-ministro José Dirceu à prisão na manhã desta segunda-feira 3, pela 17ª fase da Operação Lava Jato, foi a delação premiada de Júlio Camargo, que teria admitido aos investigadores o pagamento de propina ao ex-ministro, disse o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima em coletiva de imprensa sobre a nova fase da investigação.

Antes, os indícios da participação de Dirceu no esquema vieram da delação do empresário Milton Pascowitch, informou o procurador. Segundo ele, depois do depoimento de Júlio Camargo, os investigadores tiveram "provas suficientes" para efetuar a prisão de José Dirceu.

"Temos claro que Dirceu era aquele que tinha a responsabilidade de definir os cargos na administração de Lula", disse ainda o procurador, citando, como exemplo, o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque.

Sem especificar valores que teriam sido recebidos por Dirceu, o delegado da Polícia Federal Márcio Adriano Anselmo citou, porém, que a quantia seria superior a R$ 20 milhões. Alguns repasses eram feitos "em espécie, mensalmente", não apenas à JD Consultoria, mas a "pessoas ligadas a José Dirceu", afirmou. 

A confirmação do pagamento de propina seriam repasses feitos por empreiteiras investigadas na Lava Jato à JD Consultoria, empresa de José Dirceu. O ex-ministro alega que esses pagamentos eram de serviços de consultoria prestados a essas empresas. Segundo os investigadores, as prestações de serviços não puderam ser comprovadas. De acordo com o delegado Anselmo, a JD Consultoria teria recebido, no total, R$ 39 milhões.

Luiz Eduardo de Oliveira e Silva, irmão e sócio na JD Consultoria com José Dirceu, e o ex-assessor do ex-ministro Roberto Marques também foram presos nesta manhã.

Questionado se o ex-presidente Lula pode vir a ser investigado, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima respondeu que "nenhuma pessoa está isenta de ser investigada", apenas os casos das "pessoas com foro privilegiado" seriam encaminhados ao STF. "No caso do ex-presidente, ele pode ser investigado em primeiro grau. Há uma série de investigações em andamento", disse.

No 247
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Como os fascistas chegam ao poder


Renzo de Felice, professor de História da Universidade de Roma, falecido em 1997, é por unanimidade considerado o maior historiador do Fascismo italiano. Sua monumental biografia de Benito Mussolini, em 4 volumes e 6.000 páginas se alinha com mais 8 livros, do qual o mais importante é La Interpretazione del Fascismo. Para De Felice , o Fascismo é uma IDEOLOGIA REVOLUCIONÁRIA E MODERNIZADORA DA CLASSE MÉDIA COM ORIGEM NO ILUMINISMO. De Felice era comunista histórico, rompeu com o PCI e entrou para o Partido Socialista.

Minha interpretação (não é a de De Felice) é alinhavada em certos princípios.

Ao contrário do que muitos pensam, o Fascismo não chega ao poder pela força das armas. O roteiro do Fascismo:

1 — Um pequeno núcleo DETERMINADO imbuído da ideia salvacionista e messiânica produz ações impactantes e surpreendentes para mostrar força perante a opinião pública.

2 — Esse pequeno núcleo não descansa, opera por "ondas" contínuas, sem intervalo e sem descanso, mostrando garras moralizadoras, para não dar tempo às forças contrárias de esboçar reação. Essas ondas vão em um crescendo de ousadia e audácia, deixando os opositores e os neutros surpreendidos a cada dia.

3 — A audácia e a ousadia só são possíveis pela existência de um fator central: O Fascismo opera CONTRA um regime desgastado, desorganizado, incapaz de reagir, após crises politicas sucessivas. Esse quadro de ESGOTAMENTO do regime cujo poder se assalta ocorreu na Itália com o País arruinado pela Guerra Mundial; na Áustria (com Dolfuss) com um regime desnorteado pela perda do Império; na Romênia (com o Marechal Antonescu) com um Rei repelido pelo Pais; na Hungria (com o Almirante Horthy) pela perda de referência nacional com o desmoronamento do Império Austro-Húngaro. Em um único País o Fascismo chegou pelas armas e pelo golpe militar: na Espanha de Franco.

Em Portugal o Fascismo ascendeu sem luta, pela ruína financeira do Estado que tornou possível convocar um modesto professor de economia para assumir o poder por 40 anos, criando seu próprio fascismo, a União Nacional.

Nos demais o grande elemento que favoreceu a ascensão do Fascismo foi a COVARDIA de todas as estruturas do Estado. COVARDIA do Rei, do Parlamento, da cúpula do Judiciário, dos empresários. Todos ficaram apalermados e inertes com a OUSADIA do pequeno grupo determinado, messiânico e salvacionista, que se considerava o único grupo capaz de salvar o Pais imbuídos de uma MISSÃO em que eles acreditam ou fingem acreditar.

O Fascismo não precisou de força armada para tomar o Poder nesses países. Bastou a AUDÁCIA. Mussolini liderou a Marcha sobre Roma com um punhado de arruaceiros. Meio batalhão do Exército liquidaria com o grupo em meia hora.

Mas quem daria a ordem de comando? Ninguém, pois todos se acovardaram. Os Fascistas são ousados e jogam com a sorte, como Hitler sabia que os aliados estavam acovardados de 36 a 39 e não reagiriam às suas investidas na Renânia, na Áustria, na Tchecoslováquia, só falhou na Polônia porque abusou da sorte, falhou porque não acreditava, até o último instante, que a Inglaterra reagiria e, com a invasão da Polônia, se iniciasse uma nova guerra mundial.

Na Alemanha, onde um desdobramento do Fascismo, mais agressivo e violento, chegou ao poder em eleições diretas, a audácia veio depois, com Hitler em pouco tempo rompendo a Constituição de Weimar para se tornar ditador.

O Fascismo é um movimento no início moralizador e de classe média. A corrupção inevitável vem depois. No começo veio para purificar as instituições, prender os corruptos, modernizar o País. Depois se torna ditadura e cria sua própria corrupção, afastando a corrupção do antigo regime.

De Felice é um Historiador visionário porque decifra o Fascismo em dois ângulos: como História de uma época e como Ideologia Salvacionista. Nesta segunda visão, se aplica a qualquer tempo, pois o Fascismo é uma ideologia atemporal.

André Araújo
No GGN
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Instituto Lula: a bomba que ninguém quer ver


Apenas uma anestesia nacional pode explicar o tratamento burocrático, próximo da indiferença, diante da bomba que explodiu na porta da garagem do Instituto Lula.

Compreende-se que parasitas que torcem desesperadamente por um possível golpe de Estado para afastar um governo eleito democraticamente tentem fingir que nada percebem e nada enxergam. É seu papel no jogo: desarmar, esconder, mentir. Tentam esconder o jogo sujo — sem deixar de fazer sua parte.   

Mas a bomba é um fato gravíssimo, por mais que nossa memória sobre esse tipo de violência não ajude muito, porque conta histórias de outra época.

O atentado do Rio Centro, planejado para ser um brutal ataque terrorista a um show com milhares de pessoas num 1º de maio de 1980, acabou dando errado — para sorte de todos.  A bomba explodiu antes da hora, e quem morreu foi um sargento do DOI, que a carregava no colo.

Mas, na mesma época, uma bomba enviada por carta a OAB matou Lyda Monteiro da Silva, secretaria de Eduardo Seabra Fagundes, presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Outros ataques ocorreram. Um deles chegou a ferir seis pessoas ligadas ao jornal Tribuna da Luta Operária, ligado ao PC do B.

A bomba que explodiu no Instituto Lula difere-se das anteriores por um elemento básico — a conjuntura política.

As bombas de 1980 eram uma ação do porão militar colocado na defensiva pelo processo de democratização. Após uma década e meia de ditadura, o movimento de resistência ao regime dos generais havia recobrado seus direitos. Apesar da repressão, da censura, da falta de liberdade, os candidatos do regime eram vencidos vergonhosamente em todas as eleições realizadas depois de 1974. Os estudantes tinham voltado às ruas, em 1977, e, no ano seguinte, a partir do ABC, os trabalhadores deixavam claro que não iriam suportar em silêncio os ataques a seus salários e seus direitos.

Naquela  conjuntura, as bombas eram a reação de quem marchava contra a vontade nítida dos brasileiros, numa operação destinada, no melhor dos casos, a tentar retardar um processo que poderia ser atrasado mas dificilmente seria impedido.

Era o povo no sentido político — inclusive empresários — que rejeitava a ditadura, condenava a tortura, cobrava direitos e pedia democracia. Dois anos depois, a oposição ganhava os governos nos principais estados brasileiros. Em 1984, as diretas levavam multidões às ruas. 

 Ainda que tenha sido um artefato caseiro,   bomba que explodiu no Instituto Lula surge em outro momento histórico e é de uma agressividade política brutal.

Não me lembro — e acho que em poucos países isso já tenha acontecido — de um atentado contra o local de trabalho de um ex-presidente da República, que deixou o governo com recordes de aprovação popular, que ali comparece  sempre que está em São Paulo, recebe convidados e amigos, despacha com assessores e  troca ideias. 

A bomba da noite de quinta-feira tem a ousadia inaceitável de um ataque à democracia. É uma ameaça  a direitos duramente conquistada pelos brasileiros, num processo, não custa lembrar, que teve em Lula um protagonista raro e, em certa medida, insubstituível.

A experiência ensina — e Jânio de Freitas recorda — que com bomba não se brinca.  Sempre será um risco, uma ameaça de morte.

Embora tivesse um endereço específico — e que endereço! — a bomba da semana passada era um crime que se dirigia a todos, inclusive eu e você, quem podia estar perto e quem só viu a fotografia, a quem estava passando na rua, a quem poderia estar no instituto naquela hora. 

Justamente Pelo caráter universal, a bomba tinha um alvo genérico: intimidar autoridades responsáveis pela defesa da Constituição, que juraram defender nossos direitos e liberdades.

Este é o alvo.

Querem paralisar quem tem o dever de agir. Quem pode e deve. Há novos protestos de caráter golpista na agenda, e a bomba se insere nesta paisagem.     

A intimidação, não custa recordar, é um ato peculiar das lutas políticas. Não envolve, num primeiro momento, a derrota do adversário. Cobra sua anuência, concordância, mesmo silenciosa. Uma certa covardia, vamos combinar, por mais que seja disfarçada de desprezo arrogante pelo perigo. 

A derrota total, absoluta, vem depois. Antes, é preciso uma certa cumplicidade com a própria desgraça, um fingir que não está vendo.   

As hordas fascistas de Mussolini passaram o ano de 1922 explodindo bombas em prefeituras e pequenas cidades da Itália. Dissolviam sindicatos de trabalhadores, invadiam locais de reunião. Agrediam, batiam. Matavam. No fim o ano, Mussolini tornou-se primeiro ministro.  

O plano dos fascistas, era derrubar um  governo de maioria parlamentar pela intimidação e seu método era o sangue. Conseguiram.

As lideranças que formavam o governo resistiam a tomar qualquer providência drástica, inclusive quando generais com liderança real no Exército se ofereceram para enfrentar os fascistas. No auge da violência, que já atingia vários escalões do governo, e ameaçava o cidadão comum, os ministros dormiam o sono dos inocentes e dos justos. 

Numa madrugada, enfim, o gabinete de ministros procurou o rei Vittorio Emanuel para pedir que decretasse o Estado de Sítio. O rei preferiu chamar  Mussolini para montar o governo. Até a mãe de Sua Magestade simpatizava com o fascismo. O governo do Duce  durou 20 anos.

Claro que o Brasil de 2015 não é a Itália de 1922.

Nem de longe. Também não é o Brasil de 1980, quando o governo da ditadura tinha cumplicidade com os atentados, e nada podia fazer.

Dilma fala pela democracia, é parte dela. A causa da democracia é a sua causa e a de todos.   
Seu governo tem obrigação de transformar a procura pelos responsáveis pela bomba em prioridade máxima. Não pode haver descanso nem dispersão.   

A bomba é um ataque covarde, que mudou a natureza dos ataques ao governo e a democracia. Só não vê quer não quer.  

Paulo Moreira Leite
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Barroso, Moro pode prender preso ?

Ou o Moro pode tudo?


Existe um pequeno obstáculo à decretação da prisão do Dirceu na Vara de Guantánamo.

Dirceu ESTÁ preso!

Pelo mensalão (o do PT), o Ministro Barroso determinou que Dirceu cumpra prisão domiciliar.

Como é que se prende um preso, amigo navegante?

Por que a PF do zé foi à casa do Dirceu prendê-lo?

Para exibi-lo algemado ao William Bonner?

O Ministro Barroso é quem decidirá se um preso sob sua guarda pode de novo ser preso.

Da categoria “domiciliar” a preso em regime perpétuo.

Viva o Brasil!

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De como a Lava Jato cometeu crime de imprensa com a Veja

Procuradores repassaram a Veja trechos da delação de Ricardo Pessoa antes de conferir sua veracidade.


O artigo na página de Opinião da Folha foi consagrador. “Lava Jato muda a Justiça e a advocacia”, de Joaquim Falcão (http://migre.me/r1khz).

O autor é professor de direito na FGV Direito e umbilicalmente ligado às Organizações Globo. Foi presidente da Fundação Roberto Marinho e um dos autores de uma biografia laudatória a Roberto Marinho.

Falcão discorre sobre os avanços ocorridos na cooperação internacional e tece loas á mudança de estilo das investigações. Diz que a nova geração de juízes, procuradores e delegados dá mais prioridade aos fatos que às doutrinas; têm mais pragmatismo e menos bacharelismo. E “valorizam a força das imagens que entram via Internet, televisão, lares e ruas, nos autos e tribunais” - seja lá o que a frase signifique.

Faz uma enfática defesa da “liberdade de imprensa” e afirma que os procuradores sabem se valer bem dela.

Falcão é um intimorato defensor da voz das ruas influenciando julgamentos.

A quais “doutrinas” bacharelescas Falcão se refere?

Talvez ao Artigo 20 do Código Civil

Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais. (Vide ADIN 4815).

Talvez o artigo 21:
Art. 21. A vida privada da pessoa natural é inviolável, e o juiz, a requerimento do interessado, adotará as providências necessárias para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma. (Vide ADIN 4815)

Ou talvez o artigo 138 do Código Penal

Art. 138 - Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato definido como crime:

Pena - detenção, de seis meses a dois anos, e multa.

§ 1º - Na mesma pena incorre quem, sabendo falsa a imputação, a propala ou divulga.

Provavelmente o Artigo 201 paragrafo 6 do Código de Processo Penal

§ 6 - O juiz tomará as providências necessárias à preservação da intimidade, vida privada, honra e imagem do ofendido, podendo, inclusive, determinar o segredo de justiça em relação aos dados, depoimentos e outras informações constantes dos autos a seu respeito para evitar sua exposição a meios de comunicação.
Mas, segundo Joaquim Falcão, submeter-se às doutrinas pode ser sinal de falta de pragmatismo e excesso de bacharelismo.

Vamos analisar as belas palavras de Joaquim Falcão à luz de alguns fatos recentes, do assassinato de reputação de Valter Cardeal.

O técnico que é amigo de Dilma

Valter Cardeal tem 45 anos de setor elétrico, 30 como diretor, os últimos 13 como executivo do governo federal. Trouxe na biografia a participação no governo Alceu Collares, quando Dilma Rousseff era Secretária de Energia.

Essa ligação custou-lhe 13 anos de marcação cerrada, na qual levantaram apenas dois episódios contra ele. Mas deu-lhe o mérito de desenvolver um dos mais importantes programas sociais da era Lula, o programa Luz Para Todos.

O primeiro episódio, de um suposto envolvimento em escândalos na Eletrobras em 2010. A Polícia Federal captou uma escuta que, fora a linguagem coloquial, não tinha um indício sequer de atos irregulares. O caso acabou arquivado pelo Ministério Público Federal depois que o próprio TCU constatou a lisura do processo.

Outro caso foi de um diretor da Eletrobras que respondia a uma ação de improbidade. O problema não foi detectado nem pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e nem pela Polícia Federal. A ficha vinda da Justiça omitia a informação. Pelo fato de sua assinatura estar no processo de contratação, o Ministério Público Federal abriu uma ação contra ele. O sujeito que sofreu a ação de improbidade nada sofreu. Cardeal responde à ação até hoje.

As contratações no setor elétrico

Cardeal não trabalha em Angra 3, não integra sequer o conselho da Eletronuclear. Em princípio nada tem a ver com as obras de Angra 3. Na condição de diretor de operações da Eletrobras, tem a responsabilidade de acompanhar indiretamente o avanço financeiro e físico da obra, já que a Eletronuclear é uma subsidiária.

O modelo de contratação do setor elétrico é totalmente diferente daquele que vigorava na Petrobras.

Fernando Henrique Cardoso tirou as amarras da Petrobras da Lei das Licitações, mas a empresa não desenvolveu normas de compliance para monitorar os processos decisórios. Diretores tinham autonomia para contratar até R$ 2 bilhões. Um diretor podia convocar as empresas, acertar o preço e contratar.

Na Eletrobras as contratações são submetidas à Lei 8666.

Na hora de licitar uma usina, a Eletrobras procede ao estudo de licenciamento ambiental, componente indígenas, questão social, o EVTE (Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica). Analisa o CAPEX (o total de investimentos) e o OPEX (o total a ser gasto na operação) para chegar ao preço da energia.

Esses estudos são apresentados à EPE (Empresa de Planejamento Energético) que analisa e faz ajustes pontuais. Ai vai para o TCU (Tribunal de Contas da União) que ajuda a estabelecer o preço final.

Terminado o processo, abre-se a licitação e a Eletrobras disputa o leilão de energia com outras empresas. Vencendo pelo critério do menor preço, o contrato é homologado pela ANEEL ou pelo poder concedente. E aí começa a correr o prazo.

A energia tem que ser entregue na data acertada em contrato. Tem que se calcular o período de construção, o da licença prévia, mais um período de licença de instalação de operação e, então, o início da geração comercial. Para entrar na licitação, a Eletrobras precisa assinar um pré-contrato com a empreiteira, para poder dar o lance final.

Há um embate permanente entre contratantes e contratados.

Se não entregar a energia no prazo combinado, a empresa terá que a adquirir no mercado à vista, a preços exorbitantes desde que a seca produziu desequilíbrios hidrológicos relevantes.

Sabendo disso, os empreiteiros fazem um jogo permanente. Mal começa a obra apelam aos chamados "claims" (cálculos de perdas em desvios contratuais). Contratam empresas especialistas para calcular perdas. Se uma fatura é atrasada por mais de 90 dias, têm direito de parar a obra. Se o contrato é por PU (Preço Unitário), aumentam a quantidade de unidades. Se Preço Global, sempre tratarão de identificar riscos geológicos maiores que os previstos. Começa um trabalho de procrastinar enquanto o calendário vai correndo.

As rixas com Ricardo Pessoa

Foi nesses embates que Cardeal conquistou um inimigo, Ricardo Pessoa, da UTC, apontado como coordenador informal do cartel de empreiteiras. Até  governo FHC o cartel envolvia 13 empresas. Com a explosão de obras no governo Lula, passou a contar com 26.

Os trabalhos de Angra 3 são  complexos. É uma usina antiga, totalmente analógica e teria que se terminar a construção com sistemas digitais modernos. Para tanto, teriam que contratar montagem eletromecânica.

O contrato estava andando quando, de repente, os preços originais de R$ 2,9 bilhões foram reajustados para R$ 3,3 bilhões.

Cardeal já tinha mais de 30 usinas nas costas e percebeu que o valor ficou alto demais. Com 1.450 MW, Belo Monte é maior que Itaipu e, para ela, a montagem foi contratada por R$ 1,2 bilhão.

A própria UTC integrava o consórcio contratado para Belo Monte e caiu fora porque não aceitou baixar o preço. Quando saiu do consórcio, foi admitida outra empresa e fechado o valor final de R$ 1,2 bilhão.

Logo em seguida a UTC apareceu em Angra 3 integrando um consórcio com a Camargo Correia e a Odebrechet. O preço já tinha sido adjudicado para o vencedor e publicado no Diário Oficial de forma relâmpago, com a aprovação da comissão de licitação.

Na hora de assinar o contrato, Cardeal recusou julgando o valor excessivo. O presidente da Eletronuclear, Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva temeu pelo atraso e alegou que nada poderiam fazer já que o orçamento havia sido aprovado no TCU e publicado no Diário Oficial.

Cardeal insistiu, estudou os contratos e descobriu uma cláusula que permitia uma redução de até 6% no valor da obra — que representava R$ 200 milhões — em caso de gestão compartilhada dos consórcios.

Pessoa alegou que a cláusula era opcional. Cardeal rebateu que poderia ser opcional para as empreiteiras, não para a Eletrobras. E solicitou que abrissem todos os custos.  Vieram com os custos abertos e a proposta de redução de 3,94%. Cardeal bateu o pé nos 6% e venceu. Tentou ampliar mais, mas o contrato não permitia.

A vingança de Pessoa

Aí entra a Lava Jato.

Após a visita aos Estados Unidos, a força tarefa da Lava Jato decidir focar o setor elétrico. Pessoa foi pressionado a ampliar a delação para além da Petrobrás. E viu a oportunidade de enredar Cardeal em sua delação.

Antes de confirmar qualquer dado, o procurador Dalton Dalagnol liberou as declarações de Pessoa criminalizando Cardeal para a revista Veja, mesmo estando protegidas por sigilo.

A versão era de um amplo non sense.

Segundo a matéria fornecida a Veja, a Eletrobras teria pedido um desconto de 10% no valor cobrado pelo consórcio. Este teria aceitado um abatimento de 6%. Segundo o jornalismo de baixo nível da revista, “a diferença não resultou em economia para os cofres públicos”  porque a diferença deveria ser doada para o PT.

Era óbvia a falta de nexo da matéria — e dos procuradores que passaram as informações.

Primeiro, o ineditismo de baixar o preço para cobrar propina. Mesmo que a tese fosse correta, não poderia ignorar que houve a redução de 6% na conta da Eletronuclear.

Além disso, pelas contas da Lava Jato, houve a transferência de R$ 7,5 milhões para a campanha do PT pela UTC. Ora, 4% do contrato equivaleriam a R$ 133 milhões. Como explicar essa desproporção entre a suposta delação de Pessoa e os valores apurados?

Se a força tarefa da Lava Jato se dispusesse a analisar documentos, antes de repassar a denúncia para revista Veja, poderia consultar  a Carta Eletronuclear à Eletrobras de 7 de abril de 2014 (clique aqui para baixar os documentos de defsa de Cardeal).

Na carta informa-se de uma reunião de 25.02.2014 conduzida pelo Diretor de Operações da Eletrobras (Valter Cardeal) na qual os consórcios apresentaram proposta conjunta de desconto de 3,94%. “Declaram, entretanto, concordar em elevar esse desconto para 6%, valor previsto no Edital para a situação de acordo operacional entre os consórcios vencedores”.

Cardeal tentou ampliar o desconto, mas não conseguiu.

A ata é conclusiva: “A Eletrobras Eletronuclear entende como louvável qualquer esforço na direção de conseguir menores preços para os empreendimentos e não temos a menor dúvida que este mesmo entendimento vem norteando a motivação do Dr. Valter Cardeal”.

Mesmo assim, apresentava 6 circunstâncias para concluir o processo licitatório. Alegava que poucos processos licitatórios haviam sido tão examinados como aquele. A postergação da assinatura dos contratos de montagem impactava diretamente o cronograma de conclusão.

Outro documento, de 26 de março de 2014, comprova que o consórcio propunha uma redução de apenas 3,94% no valor final do contrato.

No Estadão de ontem (http://migre.me/r1jJn), trechos de e-mails recolhidos do consórcio tratam Cardeal como “Eclesiástico”  e “Sua Santidade” e informam que ele questionou a Eletronuclear  sobre os preços cobrados.

De que adiantou? O rosto de Cardeal e a pecha de criminoso circularam por revistas do porte da Veja e , esta semana, da IstoÉ.

O excesso de pragmatismo

Voltemos à apologia de Joaquim Falcão aos métodos mais afeitos aos fatos do que à doutrina, de procuradores que sabem aproveitar a liberdade de imprensa.

Numa ponta tinha-se o líder de um cartel, Ricardo Pessoal, réu confesso, e uma revista — a Veja — até recentemente associada a uma organização criminosa, de Carlinhos Cachoeira. Veja participou ativamente das manobras para anular a Operação Satiagraha, divulgando informações falsas, promovendo assassinatos de reputação em troca de gordas verbas publicitárias do grupo Opportunity.

Na outra, um técnico do setor com 45 anos de carreira sobre a qual não pesa uma denúncia consistente sequer.

Se a doutrina tivesse sido seguida, Dallagnol não teria passado as informações para Veja antes de apurar sua consistência. Cardeal teria tido oportunidade de se defender e demonstrar sua inocência.

O preço dessa parceria midiática não se restringe aos inocentes fuzilados pelo caminho. A conta é muito mais cara.

Entra na conta a blindagem conferida à Editora Abril, depois das abundantes provas colhidas pela Operação Monte Carlo de envolvimento com Carlinhos Cachoeira; a blindagem assegurada à Globo, envolvida até o pescoço com os problemas da CBF e da FIFA; o prurido em divulgar qualquer informação sobre as contas do HSBC; o temor do Procurador Geral em desarquivar o processo contra Aécio Neves, por conta no paraíso fiscal de Lienchestein ou de aceitar a denúncia minuciosa do doleiro Alberto Yousseff sobre propinas cobradas em Furnas.

Ou seja, viva os novos métodos de investigação e a cooperação internacional, viva os jovens procuradores e seu afã em limpar o Brasil.

Mas não se venha com a hipocrisia de supor que a parceria com a mídia é neutra. Essa parceria emulou o velho modelo da República Velha. Quem estiver debaixo do guarda-chuva da mídia, estará a salvo. Para os demais, que se virem.


Luís Nassif
No GGN
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Operação Pixuleco é a PF trabalhando para a Veja

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2015/08/03/operacao-pixuleco-e-pf-trabalhando-para-veja/

zedirceu 
É impressionante como a Polícia Federal age atualmente sobre completo controle da pauta dos piores veículos de comunicação. A operação de hoje, denominada de Pixuleco, é a demonstração mais clara deste compromisso.

A palavra teria sido utilizada por Ricardo Pessoa, da UTC, um dos delatores, e atribuída ao ex-tesoureiro do PT, João Vaccari. Não há nada relacionado desse termo com José Dirceu ou com aos que devem ser presos hoje. Mas não importa. Vale a narrativa e não os fatos.

Ao fazer isso a PF se soma a bateria da escola de samba do golpe. Não se importando em jogar sua credibilidade na lata do lixo pra ajudar na construção de um enredo em que é preciso transformar a esquerda e o PT nos símbolos maiores da história da corrupção no país.

Como se o governo que permite que as investigações aconteçam não esteja sob o comando do partido. E sim do PSDB e do DEM.

Aliás, permitir e dar condições para que as investigações sejam limpas e justas é uma coisa.

Deixar o barco andar a esmo para o lado que interessa apenas ao tsunami é outra coisa.

E é o que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, tem feito.

O nome dessa operação é uma descarada tiração de sarro, uma palhaçada sem sentido, algo que deveria exigir do ministro uma ação clara contra o uso político da instituição.

Mas que nada. O ministro não parece estar preocupado com isso e nem com os policias que brincam de tiro ao alvo na imagem da presidenta Dilma.

O papel de José Eduardo Cardoso na perda da institucionalidade do país é algo que ainda será fruto de muita reflexão futura.

Ser republicano e não interferir nas investigações é uma coisa. Permitir que pessoas armadas e com poder para soltar e prender ajam de forma politizada e irresponsável é outra.

O pixuleco de hoje é apenas o fim do começo.

Se pode pixuleco, pode tudo.

Porque não uma operação chamada Sapo Barbudo ou Brahma? Mesmo porque, primeiro prende-se preventivamente e depois buscam-se as provas.

Está mais do que na hora de Dilma colocar um advogado respeitado pelos seus pares e que recupere o direito de defesa no Ministério da Justiça. Alguém que resgate a hierarquia institucional, não permitindo que o  Estado seja instrumentalizado para alimentar o golpismo.

Antes que seja tarde.
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“Sartori está fazendo muito mal para o Rio Grande do Sul”


Helenir Schürer: "É lamentável o nível de irresponsabilidade e de falta de compromisso com o servidor público demonstrado pelo governador José Ivo Sartori." (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Helenir Schürer: “É lamentável o nível de irresponsabilidade e de falta de compromisso com o servidor público
demonstrado pelo governador José Ivo Sartori.”
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Professores, policiais civis e militares, servidores da saúde e de outras áreas começam a semana com uma paralisação geral em protesto contra a decisão do governo de José Ivo Sartori (PMDB) de parcelar e atrasar os salários do funcionalismo. Desde a última sexta, o clima é de revolta e indignação entre os servidores. No sábado e no domingo, em vários cantos do Estado, já ocorreram manifestações como o protesto de familiares de brigadianos que ameaçou a realização do jogo entre Juventude e Brasil de Pelotas, sábado, em Caxias do Sul. A mobilização do funcionalismo público tem uma dimensão inédita: nunca houve uma aliança tão ampla entre as diferentes categorias de servidores. “O governador Sartori conseguiu unificar a todos com essa política irresponsável”, diz, em entrevista ao Sul21, a presidente do Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS Sindicato), Helenir Aguiar Schürer.

Na entrevista, a dirigente do CPERS fala sobre a paralisação geral dos trabalhadores nesta segunda e sobre a mobilização nos próximos dias em várias regiões do Estado que pretende trazer cerca de 40 mil servidores públicos para Porto Alegre no próximo dia 18 de agosto, na assembleia geral que será realizada no Largo Glênio Peres. Segundo ela, as diversas categorias de servidores conversarão com a população nos próximos dias para denunciar os efeitos das políticas do governo Sartori sobre a qualidade de serviços essenciais como educação, saúde e segurança.

“O que significa mesmo, para a população, zero por cento de investimento na saúde, na educação e na segurança? Não aceitamos e a sociedade como um todo não deve aceitar que tentem colocar no colo do servidor a responsabilidade por essa situação de caos. Esse caos tem nome, sobrenome e endereço. Esse caos está sendo causado pelo governador José Ivo Sartori e seu endereço é o Palácio Piratini”, afirma a professora.

A ameaça do parcelamento dos salários já vinha pairando sobre a cabeça dos servidores há alguns meses até que se concretizou neste final de julho. Como é que o CPERS recebeu essa decisão do governo do Estado?

Em primeiro lugar vamos colocar as palavras como elas devem ser colocadas. O que o governo chama de parcelamento nós estamos chamando de atraso de salários. A nossa Constituição é bem clara e o governo está infringindo uma norma constitucional. O servidor público tem que receber até o último dia do mês. Então, nós estamos com os nossos salários atrasados. Nós já estamos vivenciando essa ameaça há algum tempo e, ao longo do mês de julho, começamos a ter certeza que ela se concretizaria. Entre os dias 20 e 21 de cada mês, a gente dá uma olhada no portal do servidor para ter notícias do pagamento dos salários. Agora em julho, não havia absolutamente nada. Seguia não havendo nenhuma informação na manhã do dia 31 de julho.

Nos dias 28 e 29, começamos a receber telefonemas da nossa base, indignada com o que estava acontecendo em suas contas no Banrisul. O nosso complemento de salário é fazer crédito minuto e usar o Banricompras. Pois o Banrisul, mesmo sabendo que o Estado não havia depositado o nosso salário, descontou absolutamente tudo o que devíamos pagar. E isso não aconteceu só na nossa categoria. Há muitas pessoas que tiveram o seu cartão do Banricompras bloqueado por insuficiência de fundos. Achamos essa atitude extremamente desrespeitosa. O governo não cumpre com um de seus deveres básicos, que é pagar seus servidores, e o banco do Estado não pensou na possibilidade de agir de modo diferente diante do atraso no pagamento dos salários? É lamentável o nível de irresponsabilidade e de falta de compromisso com o servidor público demonstrado pelo governador José Ivo Sartori.

E quais são as primeiras medidas que o CPERS tomou diante dessa situação?

O Conselho Geral da nossa entidade decidiu na sexta-feira que vamos acompanhar a pauta do movimento unificado dos servidores e que vamos cruzar os braços nesta segunda-feira. Nos outros dias da semana, vamos fazer períodos reduzidos e vamos começar a conversar com os nossos alunos para contar o que está acontecendo no Estado do Rio Grande do Sul. A questão do atraso dos nossos salários representa, na verdade, o início de uma nova etapa sobre a qual já estamos discutindo há bastante tempo e que tem a ver sobre qual é a saída para a crise do Estado. O governador Sartori fez a opção de tentar superar essa crise colocando o servidor como motivo central da crise. Isso não é verdade. Em mais de uma ocasião, o governador disse que, como precisava pagar o salário dos servidores, não poderia fazer o repasse para a Saúde, para o transporte escolar e mesmo para socorrer as vítimas de alagamentos no Estado.

Parece que ele é o primeiro governador do Estado do Rio Grande do Sul que precisa pagar os servidores. Até o dia 31 de dezembro, essa crise existia, mas não tínhamos esse caos, e aí, a partir do dia 1º de janeiro, não havia mais dinheiro para pagar os servidores? Ou melhor, não foi a partir do dia 1º de janeiro, pois houve o reajuste de 46% para o próprio governador e de 64% para os seus secretários, sancionado pelo governador, apesar de nós termos pedido para que ele não o fizesse. Isso, em um cenário de uma inflação acumulada de 26%. Então, em primeiro lugar, houve um belo reajuste salarial para quem quer hoje vender o discurso da crise. Se o governador sabia que não havia recursos, como é que ele sancionou esse aumento para deputados, secretários e para si mesmo?

Nós tivemos reuniões com os auditores fiscais, que trabalham exatamente com a arrecadação do Estado. Eles nos disseram que o Rio Grande do Sul deixa de arrecadar, só em sonegação de ICMS, cerca de 7 bilhões por ano. Além disso, há uma dívida ativa com o Estado de mais de 30 bilhões de reais. Desse total, eles reconhecem que 8 bilhões podem ser recuperados. Em Brasília, está parada no Congresso a lei para regulamentar a distribuição dos royalties do pré-sal. A questão envolvendo estes e outros temas é que nós não vemos o governador fazendo absolutamente nenhum movimento. Talvez agora ele deixe de falar, mas quando ele apresentou as metas do governo em julho abriu sua fala dizendo: “ainda não me caiu a ficha que eu ganhei”. O governador está assinando embaixo disso. A impressão que nós temos é que ainda não caiu a ficha mesmo, que ele não acreditava realmente que seria eleito. Parece que ainda não se deu conta de que é o governador e que vai ter que governar. O Estado do Rio Grande do Sul é hoje um navio à deriva, que pode rumar perigosamente para algum abismo.

Como está a articulação dos servidores para a assembleia geral marcada para o dia 18 de agosto, que pode aprovar uma greve geral de todas as categorias?

Tudo indica que nós vamos deflagrar uma greve geral no dia 18 de agosto. A comunidade vai perceber nesta segunda-feira, quando cruzarmos os braços, que ela também não merece ser tratada dessa forma por aquele que dizia que o seu partido era o Rio Grande. Estamos chamando a atenção da nossa sociedade para essa situação. Os brigadianos, nesta segunda, permanecerão aquartelados. A Polícia Civil também não estará na rua. As escolas estarão fechadas. Os postos de saúde com trabalhadores estaduais estarão fechados. Se alguém precisar de perícia, esse serviço também estará paralisado.

Não aceitamos e a sociedade como um todo não deve aceitar que tentem colocar no colo do servidor a responsabilidade por essa situação de caos. Esse caos tem nome, sobrenome e endereço. Esse caos está sendo causado pelo governador José Ivo Sartori e seu endereço é o Palácio Piratini. Infelizmente ele não fez nenhum gesto que pudesse, pelo menos, demonstrar que não teria vontade de penalizar os servidores e buscar novas alternativas. Nós tivemos nove encontros com o governo. Nos três últimos fomos muito incisivos e dissemos ao governador que queríamos conhecer o projeto que ele tinha para enfrentar o tema da sonegação. Nunca tivemos resposta. Fizemos até mais do que deveríamos, pois não é papel do servidor mostrar onde os governos devem ir buscar recursos.

Infelizmente, o governador decidiu penalizar os servidores e nos próximos dias deve apresentar um projeto propondo aumento de impostos. Esse filme a gente já viu. Como ele disse que ainda não tinha caído a ficha e que ainda não tinha projeto, deve ter mexido em algumas gavetas e encontrado o projeto Britto. É a mesma velha receita de volta: privatização, diminuição do Estado, elevação de impostos e arrocho sobre os servidores. A população gaúcha não merecia isso e nós vamos resistir. Os servidores públicos fizeram uma aliança histórica, reunindo quarenta entidades, entre sindicatos e associações.

Essa aliança é inédita, não, do ponto de vista histórico?

Sim. Acho que o governador Sartori vai ficar conhecido na história como o melhor mobilizador dos trabalhadores, pois ele conseguiu unificar a todos. Com essa política de desrespeitar absolutamente todos os servidores ele conseguiu nos unificar. Compreendemos que, para fazer frente a essas políticas, precisamos estar juntos. E aqui não estamos falando apenas do parcelamento e do atraso dos salários. Estamos falando da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentários), da previsão de investimento zero até 2016. Não se trata só de nossos salários e nós vamos conversar sobre isso com a sociedade. O que significa mesmo, para a população, zero por cento de investimento na saúde, na educação e na segurança? O que significa não investir nada para uma educação que já tem dois mil professores faltando, para hospitais que estão fechando as portas por falta de recursos, para a segurança que vive uma situação de aumento da violência?

Infelizmente essas são as opções que o governo está fazendo, prejudicando a imensa maioria do povo gaúcho. Nós não nos calaremos e faremos as denúncias necessárias, pelo tempo que for necessário, até que o governo Sartori respeite o povo gaúcho. Desde que assumiu, só ouvimos um discurso de terra arrasada. Por que alguém vai investir em um Estado assim? Como vamos trazer investimentos para cá com esse discurso de terra arrasada. O governador Sartori está fazendo muito mal para o Rio Grande do Sul. Espero que ele reflita um pouco sobre o que está produzindo. Está não só destruindo com o Estado do Rio Grande do Sul, mas abalando profundamente a auto estima do povo gaúcho, que sempre foi aguerrido, confiante e trabalhador.

O movimento unificado de servidores definiu um calendário que converge para a assembleia geral do dia 18, em Porto Alegre, que pode decretar a greve geral. Em função da evolução dos acontecimentos, é possível que haja uma antecipação nesse cronograma?

Não. Na última quarta-feira fizemos uma reunião extraordinária em função da iminência do não pagamento dos nossos salários e fizemos uma profunda reflexão. Nós já viemos de uma caminhada de muito tempo com muita guerra, mas estamos saindo de um período de férias. Então, precisamos rearticular nossas bases para poder mobilizar o pessoal. Nós temos outras categorias que, muitas vezes, não têm essa caminhada que nós temos.

Então decidimos que nos dias 4, 5 e 6 faremos assembleias regionais unificadas. Toda a nossa coordenação estadual participará dessas assembleias e estão sendo criadas coordenações regionais. A primeira dessas assembleias regionais ocorrerá em Pelotas. Estamos chamando todos os núcleos do CPERS daquela região e os servidores de outras categorias também e faremos um grande ato em praça pública, pois queremos conversar também com a população.

No dia 5, o mesmo ocorrerá em Santa Maria e no dia 6 em Santana do Livramento. No dia 11, estaremos em Caxias, dia 12 em Passo Fundo e encerraremos essas plenárias regionais em Ijuí, no dia 13. No dia 14 faremos uma avaliação e aí já estaremos quase no dia 18. Estamos dando esse tempo para mobilizar as nossas categorias e garantir o sucesso da assembleia do dia 18. Estamos trabalhando com a possibilidade de trazer 40 mil servidores para Porto Alegre. Faremos uma grande assembleia no Largo Glênio Peres e depois marcharemos para o Palácio Piratini.

Houve algum contato com o secretário da Educação nos últimos dias para tratar dessa questão do parcelamento e atraso dos salários dos servidores?

Não. Nós fomos o primeiro sindicato que conseguiu romper o decreto do governo e fazer nomeações. Nós dissemos ao secretário Vieira da Cunha, nas reuniões que tivemos com ele, que nossas conversas não conseguiam avançar e pedimos a presença do Secretário da Fazenda. Conseguimos fazer isso uma única vez. O secretário da Fazenda foi à reunião, sentou de braços cruzados e ficou quieto. Entrou mudo e saiu calado. Teve a atitude que a minha neta de três anos às vezes tem quando fica de castigo. Ficou emburrado e fez questão de demonstrar isso. Essa foi a atitude de um secretário que, ao menos, deveria ter consciência de qual o seu papel.

Naquele momento, nós dissemos ao governo para que não nos chamasse mais para conversar enquanto não tivesse uma proposta. Não fomos mais chamados para absolutamente nada. A resposta do governo foi enviar para a Assembleia projetos que nos atacam e que nos retiram direitos. O PL 206 é a cereja do bolo e pretende eliminar a possibilidade de que lutemos pelo nosso piso e pela valorização do nosso trabalho.

Nós temos um foco. A paralisação dessa segunda deixará claro que não aceitamos parcelamento. Mas seguiremos lutando também pela retirada do PL 206 de Assembleia, que prevê o congelamento de investimentos em saúde, educação, segurança e outras áreas. Nós vamos lutar muito e não iremos recuar. O governo tem que saber que há servidores que sabem resistir. Eu quero ver quantos dias o governo do Estado consegue segurar uma greve do magistério, da segurança e da saúde.

Já houve uma greve dessa dimensão na história do Rio Grande do Sul?

Nunca. O governador Sartori terá o prazer de ser o primeiro a conhecê-la.

Marco Weissheimer
No Sul21
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