30 de jul de 2015

Adir Assad, o doleiro das obras tucanas

Adir Assad, à esquerda, foi preso na décima fase da Lava Jato (foto: José Cruz/ABr). O então governador José
Serra e Paulo Preto (agachado com jornal na mão direita) em evento do Metrô do Estado de São Paulo
As investigações sobre o empresário abrem novas perspectivas

De origem libanesa, 62 anos, ele se identifica como um atleta de alta performance. Chegava a correr 17 quilômetros por dia e disputou a maratona de Nova York. Diz ter optado por uma vida saudável, motivo que o levou a se afastar dos negócios. Empresário do ramo de eventos há três décadas, trouxe ao Brasil estrelas da música, como a banda U2, a cantora Amy Winehouse e a diva pop Beyoncé. Fachada? Sim, segundo a Polícia Federal. Preso desde março por suposto envolvimento nos desvios da Petrobras, o doleiro Adir Assad notório frequentador das páginas policiais.

Há quatro meses a força-tarefa da Lava Jato tenta arrancar informações de Assad, detido na décima fase da operação. Até agora ele mantém o silêncio e nega participação no esquema. Ao juiz Sergio Moro declarou-se um “estranho no ninho” na penitenciária paranaense que também abriga o ex-tesoureiro do PT João Vaccari e o ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque.

Os investigadores o acusam de receber 40 milhões de reais como pagamento pela lavagem de dinheiro da Construtora Toyo Setal. Segundo a PF, o dinheiro seguiu para contas indicadas pelo operador Mário Góes ou foi encaminhado diretamente a Duque e a Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras também encarcerado. Os dois funcionários da estatal representariam os interesses do PT no esquema.

Não só. A prisão de Assad revigora outro escândalo já esquecido: o esquema da Construtora Delta e do bicheiro Carlinhos Cachoeira. O doleiro aparece principalmente nas histórias de desvios de obras no estado São Paulo, governado há mais de duas décadas pelo PSDB. Um novo documento nas mãos de procuradores e policiais federais tem o poder de revelar detalhes de um escândalo de proporções ainda desconhecidas no ninho tucano. Os promotores de São Paulo sabem da existência das operações e pretendem abrir inquéritos para apurar as operações financeiras.

O documento é um relatório de análise do Ministério Público Federal que enumera uma série de tabelas de pagamentos a cinco companhias. Segundo a PF, trata-se de empresas de fachada criadas para lavar o pagamento de propinas intermediadas por Assad. Entre elas aparece a Legend Engenheiros, responsável por movimentar 631 milhões de reais sem nunca ter tido um único funcionário, conforme a Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho.

A contabilidade da empresa exibe polpudos pagamentos de consórcios e empresas que realizaram obras bilionárias no governo de São Paulo durante os últimos 20 anos. O primeiro pagamento que salta aos olhos é um depósito de 37 milhões de reais ao Consórcio Nova Tietê. Liderado pela Construtora Delta, o consórcio levou as principais obras de alargamento das pistas da principal via da capital paulista em 2009, durante o governo de José Serra. O valor inicial do contrato previa gastos de 1 bilhão de reais, mas subiu para 1,75 bilhão, ou seja, acréscimo de 75%. Um inquérito sobre a inflação de custos chegou a ser aberto pelo Ministério Público de São Paulo. Acabou, como de costume em casos que envolvem tucanos, arquivado.

A obra foi acompanhada na época pela Dersa, empresa de economia mista na qual o principal acionista é o estado de São Paulo. Na assinatura do contrato entre o governo e o consórcio, o nome do representante da empresa estatal que aparece é o de um velho conhecido: Paulo Vieira de Souza, o famoso Paulo Preto, cuja trajetória e estripulias foram bastante comentadas durante a campanha presidencial de 2010. Acusado de falcatruas, Preto fez uma acusação velada a Serra e ao PSDB à época. “Não se abandona um líder ferido na estrada”, afirmou.

Outro consórcio que participou das obras da ampliação das marginais, o Consórcio Desenvolvimento Viário, também contribui com as contas de Assad. Liderado pela Construtora Egesa, foram 16,1 milhões nas contas da S.M. Terraplenagem Ltda. A Egesa, em consórcio com a EIT, foi responsável por um total de 18,32 quilômetros, considerando os dois sentidos da via, entre o Viaduto da CPTM e a Ponte das Bandeiras.

Durante a Operação Castelo de Areia, que investigou a suspeita de pagamento de propina a agentes públicos pela Camargo Corrêa, o nome de Paulo Preto aparece em uma anotação. Precede um valor: 416 mil reais. O ex-funcionário da Dersa nunca foi indiciado pela Polícia Federal. A Castelo de Areia acabou enterrada por uma decisão do Superior Tribunal de Justiça. Assad aparece ainda em outra operação federal, a Saqueador, paralisada desde 2013.

Talvez a “sorte” de Assad mude. Na página 41 do relatório do Ministério Público Federal deste ano, aparece outro pagamento, de 2,6 milhões de reais, da Concessionária do Sistema Anhanguera Bandeirantes à Rock Star Marketing, também de propriedade do doleiro. O sistema rodoviário interliga a capital paulista ao interior do estado e foi licitado em 1997. O vencedor foi o CCR, que tem entre seus acionistas a Camargo Corrêa e a Andrade Gutierrez. Esta, aponta o relatório, repassou à Legend 125 milhões de reais. O sistema possui oito praças de pedágio e, de acordo com o relatório aos investidores, só no ano passado gerou lucro líquido de 669 milhões. Detectou-se ainda um depósito de 624 mil reais na conta da Rock Star por uma empresa pertencente à CCR responsável pela exploração do sistema Castelo-Raposo, que liga a capital ao Oeste Paulista.

O Rodoanel também não deve escapar da mira dos procuradores. Orçada em 3,6 bilhões de reais, a obra foi dividida em cinco trechos. Vencedora de um dos lotes, a empresa Rodoanel Sul 5 Engenharia depositou 4,6 milhões na conta da Legend. Por receber repasses da União, o Rodoanel passou por uma auditoria do Tribunal de Contas da União. De acordo com um relatório do TCU, o consórcio formado pela empreiteira OAS e Mendes Júnior, também envolvidas no escândalo da Petrobras, incorporou irregularmente uma terceira empresa para a execução, uma violação das regras da licitação. Coincidência ou não, a OAS alimentou as contas de Assad. Um depósito de cerca de 2 milhões de reais foi identificado na quebra de sigilo. Outra concessionária responsável por erguer outro trecho do Rodoanel, a SP Mar, repassou 4,2 milhões à empresa de Assad. A SP Mar pertence ao Grupo Bertin e cuidou da interligação do trecho sul à Rodovia Presidente Dutra, em Arujá.

A lista é extensa. Das supostas cinco empresas de fachada foram encontradas movimentações de 1,2 bilhão em operações financeiras com cerca de cem consórcios e companhias, além de indivíduos. Sergio Moro tentou recuperar parte do dinheiro movimentado por Assad. Determinou o bloqueio de 40 milhões de reais. Mas para surpresa, ou não, as contas estavam zeradas.

Os depósitos servirão para novas linhas de investigação pela Promotoria de São Paulo, que também quer entender as planilhas de pagamento do doleiro Alberto Yousseff. Reportagem exclusiva de CartaCapital mostrou que o operador mantinha uma lista de 750 obras, entre elas construções da Sabesp, do Monotrilho e do Rodoanel.

Com uma prisão preventiva nas costas e, sem prazo para se esgotar, os investigadores ainda não conseguiram convencer o doleiro a optar pela delação premiada. O Ministério Público de São Paulo diz pretender ouvir Assad, em busca da origem e do destino dos repasses. Uma eventual colaboração do “empresário do show business” poderia ampliar o escopo das investigações da Lava Jato. Neste caso, a força-tarefa será obrigada a remar contra a maré. Quando não se trata de petistas e seus aliados, os investigadores já devem ter percebido, o ímpeto da mídia e o apoio da chamada “opinião pública” costumam minguar.
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E se a Petrobras fosse a Shell?


Uma notícia hoje  demonstra claramente como é primário — ou mal-intencionado, entre os que sabem tudo do setor de Petróleo — culpar a ladroagens de Paulo Roberto Costa e sua turma pelas dificuldades enfrentadas pela Petrobras.

A gigante Shell, informa o Financial Times (aqui a versão publicada pela Folha), está demitindo 6,5 mil de seus 94 mil trabalhadores, por conta da baixa do preço do petróleo.

Seria o equivalente a uma demissão em massa de 6 mil dos 86 mil empregados diretos da Petrobras.

Dá para imaginar como, se demitisse seis mil pessoas, a Petrobras estaria sendo tratada na mídia e na boca do tucanato?

A empresa anglo-holandesa, além disso, está abandonando projetos — inclusive na área nobre do Mar do Norte — e cortando os investimentos de US$ 30 bilhões para US$ 23 bilhões, quase 24% a menos.

Providência semelhante à tomada aqui, com um redução de 37% no plano de investimentos em cinco anos.

Alem disso, a Shell planeja desinvestir (vendendo ativos) cerca de US$ 50 bilhões.

Ninguém acusa — porque não é louco — a Shell de estar arruinada.

Mas fazem isso o tempo todo com a Petrobras.

O complexo de vira-latas incutido ao brasileiro é uma arma possante na mão dos que querem abocanhar nossas riquezas.

A Shell toma medidas por competência gerencial, nós porque estamos “quebrados”, embora elas sejam semelhantes ou, como no caso das demissões, muito mais prudentes aqui.

Fernando Brito
No Tijolaço
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As ameaças dos paus mandados


A gangue da CPI da Petrobras

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Atenção!!! Advogada diz que se sentiu ameaçada por integrantes da CPI da Petrobras


Em entrevista, a advogada Beatriz Catta Preta, especializada em delações premiadas, explica por que resolveu deixar casos da Lava Jato


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NYT, Lava Jato e o programa nuclear brasileiro


O jornal americano The New York Times registrou com clara satisfação a prisão do almirante Othon Pinheiro da Silva, presidente afastado da Eletronuclear, apontando-o como chefe de um programa nuclear clandestino durante a ditadura e um “militar nacionalista” resgatado do ostracismo em 2003 pelo governo do presidente Lula.

O programa nuclear brasileiro nunca foi clandestino, vinculando-se inicialmente a um acordo internacional com a Alemanha, que muito irritou os Estados Unidos. Foi o acordo que possibilitou a construção das usinas Angra I e Angra II. Mas Angra III já vem sendo construída com tecnologia nacional pela Eletronuclear,  tecnologia desenvolvida a partir das pesquisas estratégicas realizadas pela Marinha. Estas sim, tratadas como segredo de Estado, tanto quanto as empreendidas pelos países ricos nesta e em outras áreas. Othon teve papel relevante neste processo, do qual é considerado como principal líder intelectual.

Como escreveu o economista e jornalista José Carlos de Assis em artigo republicado pelo 247, “o almirante Othon é um arquivo vivo de tecnologia”. Foi sob sua coordenação que o projeto Aramar desenvolveu as super-centrífugas brasileiras que processam o urânio a custos 70% menores que outros países, inclusive os Estados Unidos, que sempre quiseram se apropriar da tecnologia brasileira.

O programa nuclear brasileiro foi metaforicamente detonado por Collor, quando fechou o “buraco da serra do Cachimbo”, depósito de dejetos nucleares do programa, em sinal de sua paralização. E por Fernando Henrique, quando deixou o projeto Aramar definhar por falta de verbas. Lula, depois de empossado, visitou o projeto e de fato resgatou o almirante Othon ao resgatar o programa e retomar os investimentos na construção da terceira usina nuclear.

O Brasil foi privilegiado pela natureza com um potencial invejável para a geração de energia hidrelétrica, limpa e relativamente barata. Mas esta fonte está se acabando, quase todos os rios já foram devidamente explorados, forçando a construção de novas usinas na região Norte. Em algum momento, a energia nuclear, bem como a de outras fontes, como a eólica, será fundamental para o desenvolvimento nacional.

A prisão do almirante Othon, um homem de 76 anos, tem uma relação direta com as questões acima. A Lava Jato não apresentou até agora provas de que os recursos na conta de sua empresa sejam oriundos de corrupção.   Ela presta serviços aos construtores das dezenas de pequenas hidrelétricas espalhadas pelo Brasil. Será preciso demonstrar a origem dos recursos.  Mas culpado ou inocente, por tudo o que ele sabe e representa, não pode ser submetido à sanha dos procuradores e delegados por delações premiadas. O Estado brasileiro tem grande responsabilidade por seu destino, ao qual estão vinculados segredos da política nacional de defesa.

Mas até agora, não se ouviu uma palavra do Governo.

Tereza Cruvinel
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Apesar de você, apesar da crise!


Um internauta amigo deixou um comentário na fanpage do Cafezinho, informando sobre um vídeo que ele mesmo fez, inspirado no texto de Pablo Villaça, "Apesar da crise".


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Quem é John Rawls, o filósofo citado pela misteriosa Rainha da Delação?

Rawls formulou uma teoria brilhante sobre a ‘sociedade justa’
Beatriz Catta Preta, a misteriosa Rainha da Delação Premiada que abandonou seus clientes da Lava Jato, deixou uma mensagem no Facebook do escritório em que trabalha.

Ei-la: “Cada pessoa, escreveu John Rawls, possui uma inviolabilidade fundada na Justiça que nem o bem-estar da sociedade como um todo pode sobrepor. Portanto numa sociedade justa os direitos assegurados pela Justiça não estão sujeitos à barganha política ou ao cálculo dos interesses sociais“.

Em sua ignorância desumana, a imprensa brasileira não avançou nenhuma informação sobre Rawls.

Os leitores do DCM sabem de quem se trata. Ninguém formulou uma teoria tão engenhosa sobre uma sociedade justa quanto John Rawls (1921-2002). Em 1971, Rawls publicou um livro aclamado: “A Teoria da Justiça”.

A idéia central de Rawls era a seguinte: uma sociedade justa é aquela na qual, por conhecê-la e confiar nela, você aceitaria ser colocado de maneira randômica, aleatória. Você estaria coberto pelo que Rawls chamou de “véu de ignorância” em relação à posição que lhe dariam, mas isso não seria um problema, uma vez que a sociedade é justa.

Mais de quarenta anos depois do lançamento da obra-prima de Rawls, dois acadêmicos americanos usaram sua fórmula para fazer um estudo. Um deles é Dan Ariely, da Universidade Duke, especializado em comportamento econômico. O outro é Mike Norton, professor da Harvard Business School.

Eles ouviram pessoas de diferentes classes sociais. Pediram a elas que imaginassem uma sociedade dividida em cinco fatias de 20%. E perguntaram qual a fatia de riqueza que elas supunham que estava concentrada em cada pedaço.

“As pessoas erraram completamente”, escreveu num artigo Ariely. “A realidade é que os 40% de baixo têm 0,3% da riqueza. Quase nada. Os 20% de cima têm 84%.”

Em seguida, eles aplicaram o “véu de ignorância de Rawls”. Como deveria ser a divisão da riqueza para que eles se sentissem seguros caso fossem colocados ao acaso na sociedade?

Veio então a maior surpresa dos dois acadêmicos: 94% dos entrevistados descreveram uma divisão que corresponde à escandinava, tão criticada pelos conservadores dos Estados Unidos por seu elevado nível de bem-estar social, e não à americana. Na Escandinávia, os 20% de cima têm 32% da riqueza. (Disse algumas vezes já e vou repetir: o modelo escandinavo é o mais interessante que existe no mundo, um tipo de capitalismo extremamente avançado do ponto de vista social.)

“Isso me levou a pensar”, escreveu Ariely. “O que fazer quando num estudo você descobre que as pessoas querem um determinado tipo de sociedade, mas ao olhar para a classe política parece que ninguém quer isso?”

A Rainha da Delação brilhou ao evocar Rawls. Lamentavelmente, o Brasil está muito distante da sociedade justa que ele tão magnificamente descreveu.

Entenda o conceito essencial de Rawls e você vai entender por que Beatriz Catta Preta se sentiu atemorizada. Numa sociedade injusta como a brasileira, os direitos assegurados pela Justiça, ao contrário do que disse Rawls, estão sujeitos à barganha política ou ao cálculo dos interesses sociais.

Paulo Nogueira
No DCM
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A misteriosa mudança da principal advogada da Lava Jato para Miami

Braço direito do juiz Sérgio Moro na Lava Jato, Catta Preta precisa
explicar porque abandonou tudo no Brasil e ‘fugiu’ para Miami
A advogada Beatriz Catta Preta promete esclarecer ‘em breve’ o motivo de ter se mudado para Miami, deixando para trás todos os seus clientes no Brasil.

De acordo com a colunista Mônica Bergamo, interlocutores da advogada dizem que ela deve dizer que se sente ameaçada no país.

Por conduzir 9 das 17 delações da operação Lava Jato, a advogada faturou R$ 22 milhões. Ela comunicou ao juiz Sérgio Moro que largou as defesas do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco e do ex-executivo da Toyo Setal Augusto de Mendonça.

Catta Preta ocupou papel decisivo na Lava Jato, tendo sido parceira e braço direito do juiz Sérgio Moro na condução das delações premiadas — que alguns preferem denominar de delações chantageadas. O rumo do processo possivelmente não seria o mesmo sem a sua parceria com o juiz Moro, que saiu em sua defesa contra a tentativa de integrantes da CPI da Petrobras de convocá-la a depor.

Motivo da renúncia?

A nebulosa motivação da renúncia e ‘fuga’ de Catta Preta para Miami está sendo pouco investigada pela mídia tradicional, sempre tão operosa em outras pautas. O que se sabe, porém, é que a advogada deixou a operação após o lobista Julio Camargo mudar sua versão e dizer ter pago US$ 5 milhões em propina ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A mudança na delação de Camargo ocorreu a contragosto das orientações de Catta Preta.

Desde então, a advogada começou a ser questionada, em requerimento do integrante da CPI da Petrobras, o deputado Celso Pansera (PMDB-RJ), sobre a origem do dinheiro que recebeu como pagamento dos réus da Lava Jato. Em outro pedido, dirigido a uma juíza do Paraná, exigiu a lista de todos os clientes da criminalista.

Na última sexta-feira, Catta Preta postou na página de seu escritório, no Facebook, mensagem enigmática: “Cada pessoa, escreveu John Rawls, possui uma inviolabilidade fundada na Justiça que nem o bem-estar da sociedade como um todo pode sobrepor. Portanto numa sociedade justa os direitos assegurados pela Justiça não estão sujeitos à barganha política ou ao cálculo dos interesses sociais“.

A decisão da advogada, tudo indica, envolve, portanto, mais do que a determinação de desfrutar uma vida de fastígio, sombra e água fresca em Miami, flutuando nos R$ 22 milhões que faturou na Lava Jato.

Sejam quais forem as suas razões, Beatriz Catta Preta é uma pauta quente da República, e o fato de não ser tratada assim nas redações dos grandes jornais apenas reforça essa percepção.

Um pouco do que se sabe dela, para além do semblante contido pelo aro de óculos de secretária-executiva, foi publicado no site do jornal i9, em novembro do ano passado. A advogada pertence a uma família influente em Minas Gerais, tendo um primo nomeado desembargador pelo governo do PSDB.

No Pragmatismo Político



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A advogada criminalista Beatriz Catta Preta conheceu Carlos Eduardo Catta Preta Júnior como cliente, preso por falsificação de dinheiro; nesta semana, ela anunciou deixar a defesa de três investigados na Lava Jato porque estaria de mudança para Miami, onde está com o marido, que foi flagrado pelo Denarc com mais de 350 mil dólares falsos em 2001; a advogada foi responsável por nove dos 17 acordos de colaboração premiada na investigação da Petrobras, com os quais pode ter amealhado até R$ 45 mi; quem fazia as cobranças de seus clientes era o marido linha-dura; a origem de pagamentos de investigados na Lava Jato à advogada é questionada por parlamentares da CPI da Petrobras, que querem ouvir seu depoimento

O motivo dado pela advogada Beatriz Catta Preta ao juiz Sérgio Moro para deixar a defesa de três investigados na Lava Jato esta semana — Júlio Camargo, Pedro Barusco e Augusto Ribeiro de Mendonça — foi sua mudança para Miami, nos Estados Unidos. É onde a criminalista, especialista em delação premiada, já está com o marido, condenado em 2003 por falsificação de dinheiro.

Carlos Eduardo Catta Preta foi flagrado e preso em 2001 em Alphaville, Grande São Paulo, com 50 mil dólares em notas falsas presas na cintura, segundo reportagem das jornalistas Mariana Barros e Laryssa Borges, de Veja. Agentes do Denarc — departamento de combate ao tráfico de drogas — encontraram em sua casa ainda 350 mil dólares falsos escondidos no banheiro.

O falsificador de dólares foi atrás de um advogado e, por indicação de um amigo, chegou ao escritório de Pedro Rotta, onde trabalhava Beatriz Lessa da Fonseca, então seu nome de solteira. Foi quando os dois se conheceram. Ela trabalhou em sua defesa e conseguiu que ele respondesse em liberdade. Carlos Eduardo foi condenado a três anos de prestação de serviços comunitários e começou a namorar Beatriz.

Os dois se casaram e tiveram dois filhos. Hoje, o marido é quem cuida das cobranças dos honorários dos clientes de Beatriz, chegando até a estabelecer os valores. A estratégia seria uma forma de evitar o desgaste da relação advogada-delator. Outra nota no site da revista, assinada por Ana Clara Costa, dá conta de que "doutor Carlos", como é chamado, usa métodos indelicados para fazer as cobranças, mesmo de famílias fragilizadas por conta das prisões dos acusados.

De acordo com relatos, não é incomum presenciar socos na mesa, gritos e xingamentos por parte do marido de Beatriz, que é ex-policial, sem distinção entre clientes. A cobrança conta com a mesma rispidez no caso de casos grandes, que rende quantias vultosas para o escritório, a exemplo da Lava Jato, ou de casos menores. Segundo amigos, ele exerce grande influência sobre a mulher.

Especula-se, no meio jurídico, que os honorários de Beatriz Catta Preta estejam entre R$ 2,5 milhões e R$ 5 milhões por causa. Tendo sido responsável por nove das 17 delações premiadas da Lava Jato — entre elas a do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que revelou todo o esquema de corrupção — ela deve ter partido para Miami com no mínimo R$ 22,5 milhões e pode ter amealhado, em toda a investigação da estatal, até R$ 45 milhões.

Atacada por críticos da delação premiada, a advogada decidiu deixar a defesa de Júlio Camargo duas semanas depois de ele ter revelado o repasse de US$ 5 milhões em propina ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que nunca havia sido citado por ele antes. Segundo o lobista, o motivo foi medo de perseguição por parte do deputado. Cunha usa o fato para se defender: considera "estranha" a nova informação no depoimento.

Desde então, Beatriz Catta Preta vem sendo questionada por parlamentares da CPI da Petrobras, na Câmara, sobre a origem de seus honorários. O deputado Celso Pansera (PMDB-RJ) apresentou um requerimento exigindo a convocação da criminalista para que explique se os pagamentos que recebe de seus clientes não são do esquema de corrupção e outro requerimento, para uma juíza do Paraná, solicitando a lista dos clientes da advogada.

No 247
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Alckmin critica impeachment e causa frustração em apresentadores da Jovem Pan


Apesar da pressão dos entrevistadores, como Rachel Sheherazade e Marco Antonio Villa, que tentavam forçar uma resposta a favor da derrubada da presidenta, o tucano rechaçou a ideia: “Nós precisamos falar a verdade para as pessoas. Se não tiver um embasamento jurídico, não vai ter impeachment porque o Supremo Tribunal Federal não vai deixar”



Em entrevista ao Jornal da Manhã, da rádio Jovem Pan, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), afirmou nesta quinta-feira (30) que não vê o impeachment da presidenta Dilma Rousseff como uma saída viável para o Brasil. “O impeachment é um trauma para o país”, disse. E completou: “Precisamos zelar pela democracia”.

O governador participou da conversa com os apresentadores Rachel Sheherazade, Paulo Pontes, Marco Antonio Villa, Reinaldo Azevedo, Thiago Uberreich, Antônio Freitas e César Rosa. Apesar da pressão de boa parte dos jornalistas, que tentava forçar uma resposta a favor da derrubada da presidenta, Alckmin se manteve contrário à ideia. “Nós precisamos falar a verdade para as pessoas. Se não tiver um embasamento jurídico, não vai ter impeachment porque o Supremo Tribunal Federal não vai deixar”, disse.

Segundo ele, é necessário cautela antes de fazer qualquer tipo de acusação. “Nós acabamos de sair de uma eleição. Precisa ter um fato concreto que a Constituição preveja para tomar uma medida”, observou. O tucano falou ainda sobre a reunião que irá participar hoje com Dilma e os outros 26 líderes estaduais em Brasília para tratar da governabilidade e assuntos econômicos.
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Imperdível: PHA sobre o Othon e a Globo !

Por que o FHC quis matar de inanição o programa nuclear?


Em abril de 2014, o PT Paulista realizou, em São José dos Campos (SP), o Camping Digital do partido.

O evento, que contou com oficinas, debates e análises sobre tecnologia e mídias sociais, teve a presença do ansioso blogueiro, que, à época, fez enfática defesa do Almirante Othon Silva, que é investigado e teve a prisão decretada pelo juiz Sérgio Moro nesta semana

Em sua palestra, PHA ainda afirmou que o PT devia uma Ley de Medios ao Brasil. A ocasião rendeu um importante post no Conversa Afiada.

O intuito do Camping Digital era formar a militância e destacar a importância do conhecimento nas novas mídias.

Um dos militantes filmou a participação de PHA e o vídeo reapareceu nos últimos dias nas redes sociais logo após o Almirante Othon ser preso na última terça-feira (28) durante a 16ª fase da Operação Lava Jato.

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A mídia e a cultura do silêncio


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Romário parte para o ataque e faz repórteres da Veja saírem do Facebook

Lauro Jardim, um dos editores da Veja, é questionado no Facebook sobre as acusações caluniosas contra Romário
(Pragmatismo Político)
O senador e eternamente marrento Romário tocou de lado para que seus eleitores chutassem.

Ontem,  publicou no Facebook a pergunta “inocente”:

Alguém aí tem notícias dos repórteres da revista Veja Thiago Prado e Leslie Leitão, que assinaram a matéria afirmando que tenho R$ 7,5 milhões não declarados na Suíça? E do diretor de redação Eurípedes Alcântara? Dos redatores-chefes Lauro Jardim, Fábio Altman, Policarpo Junior e Thaís Oyama?

Gostaria que eles explicassem como conseguiram este documento falso.

E tascou os links para as páginas de Facebook dos indigitados, sem sugerir nada, porque era desnecessário.

Foi uma avalanche de críticas e ironias nas páginas cujos endereços eletrônicos foram fornecidos pelo “baixinho”.

As de Thiago Prado e Leslie Leitão saíram do ar. A página de Lauro Jardim, que ainda funcionava hoje de manhã, tinha centenas de comentários que o ridicularizavam.

Certo que alguns exageradamente agressivos, mas a maioria indignados e irônicos:
  • E sobre o Romário Faria não vai falar nada ou vai desativar o Facebook também?
  • Amigo, explica como arranjaram o documento falso do Romário por gentileza? Abraço!
  • Quem foi o estelionatário que falsificou o documento da sua matéria contra o Romário? Algum parceiro seu? Peixe!
  •  É sobre o documento do Romário Faria? Sendo falso pode citar a fonte, ou será que é falsa a noticia?
E um dos mais engraçados:
  • Tem um vizinho meu aqui que tá me incomodando muito, já tivemos até algumas rusgas. Gostaria de saber quanto a Veja cobra para publicar uma matéria dizendo que ele tá enriquecendo urânio na casa dele?
A revista mantém o mais sepulcral silêncio desde que Romário contestou a informação publicada.

Nada, nem uma palavra ou explicação.

Se a revista confia no trabalho dos seus repórteres e na autenticidade do que publica, é óbvio que teria respondido.

Eles próprios deveriam exigi-lo. A redação inteira, aliás.

Se não descambar para a agressão, o método “cobrança direta” estimulado por Romário talvez seja uma boa lição.

Somos responsáveis pelo que escrevemos e, se erramos, temos de reconhecer que erramos e porque o fizemos.

Disse ontem aqui que não há “sigilo de fonte” quando se trata de uma falsificação para atingir a honra alheia.

E mais: se temos o direito e o dever de em nome da apuração jornalística publicar o que temos segurança de que é verdadeiro, também temos o dever de suportar as consequências disso.

Romário tem o direito de reagir e um argumento irrespondível para os que vierem com “punhos de renda” politicamente corretos contra sua iniciativa de publicar os endereços onde seus detratores tem de ler o que se leu acima.

Afinal, eles tem um império de comunicação para responder e, 24 horas depois de apontada a farsa, não o fizeram.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Como a Globo promove o apartheid no futebol

Cotas de televisão do campeonato brasileiro: “apartheid futebolístico” e risco de 
“espanholização”
Até 2011, os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro eram negociados pelo Clube dos Treze.

A entidade realizava, também, a divisão dos recursos — o que ficou conhecido por “cotas de TV”. Cenário que mudou em 2012. Após um racha na associação*, cada clube acordou individualmente com a Rede Globo.

O futebol brasileiro passou, então, de um modelo de negociação coletiva com divisão que não agredia a isonomia (causando, por isso, o que denomineiapartheid futebolístico), para o modelo de negociação individual (trazendo o risco da “espanholização”, em alusão à concentração em apenas dois clubes — na Espanha, Real Madrid e Barcelona).

Ironicamente, no ano em que o governo espanhol promulgou o Real Decreto-ley 5/2015, regulamentando uma negociação coletiva da exploração comercial dos conteúdos audiovisuais do campeonato espanhol, no Brasil o fosso entre os clubes deverá se aprofundar ainda mais.

A Globo prepara um novo contrato em que vai aumentar substancialmente os valores oferecidos a Flamengo e Corinthians. Este é o tema que analiso em meu livro, “Cotas de televisão do Campeonato Brasileiro: apartheid futebolístico e risco de espanholização”, que lanço nesta quinta-feira, 30 de julho.

O Clube dos Treze negociava os direitos de transmissão de todo o campeonato, incluindo não só os direitos de seus 20 membros, mas também dos demais clubes que não pertenciam à entidade.

A associação ainda adotava seu critério próprio de divisão dos recursos, privilegiando os seus associados em detrimento dos demais, que eram, inclusive, denominados como “convidados” (termo, por si só, absurdo, como se fosse possível “convidar” alguém para negociar aquilo que lhe era de direito — a imagem de transmissão de seus próprios jogos).

Dentro da própria entidade ainda havia uma estratificação hierárquica, que representava diferentes valores a serem auferidos. Criava, então, um pequeno, restrito e privilegiado grupo de elite, em prejuízo dos que não eram seus membros.

Tal situação gerava uma brutal desigualdade. Fazendo surgir, assim, o que denominei de apartheid futebolístico, em analogia ao que o Senador Cristovam Buarque tão bem definiu como apartheid social, quando analisou a triste realidade de desigualdade social e econômica do Brasil.

Parafraseando Cristovam Buarque, os membros do Clubes dos 13 eram os “incluídos”, ao passo que os não-membros, que a própria entidade referia como “convidados”, seriam os “excluídos”.

Esse modelo de negociação e divisão dos recursos não era justo, pois carecia de critérios pré-estabelecidos, que respeitassem a equidade. Quando se fala em isonomia, é bom ressaltar, não se busca a igualdade absoluta. Afinal, como preconizou Aristóteles, “a igualdade consiste em tratar os iguais igualmente e os desiguais na medida de sua desigualdade.”

O jurista Celso Antônio Bandeira de Mello elucida as dúvidas com seu questionamento essencial: “quem são os iguais e quem são os desiguais?”. Ou seja, ao invés dos critérios arbitrados pelo Clube dos Treze, seria imprenscindível a existência de critérios distintivos razoáveis que justificasse os tratamentos diversos.

Como escavar um abismo

O futebol brasileiro, contudo, passou de um modelo que gerava desigualdade para outro que tende a escavar ainda mais o fosso que divide um seleto e restrito grupo de grandes clubes de todas as outras agremiações que praticam futebolno Brasil.

Nas negociações individuais, a tendência, pelo que mostram experiências de campeonatos nacionais da Europa, é de se ampliar o individualismo, privilegiando os grandes clubes e prejudicando os menores. Assim, perspectiva-se o aumento da segregação dos clubes, reforçando a ideia de apartheid futebolístico no Brasil.

No nosso país, ao invés de se ter discutido a transição para modelos coletivos de negociação como os dos campeonatos da Inglaterra, Itália, Alemanha e França, permitiu-se que se passasse para as negociações individuais, tal qual ocorre em países como Portugal e Espanha. Quer dizer, neste último, ocorria.

Uma vez que na Espanha, após intervenção Estatal, o Real Decreto-ley 5/2015 veio para regulamentar a divisão do dinheiro dos direitos de transmissão. Portanto, enquanto os espanhóis caminham para corrigir a injustiça que impunham aos concorrentes (se é que se pode usar este termo, diante de tamanha distorção) de Real Madrid e Barcelona, os novos contratos no Brasil, que deverão viger no triênio 2016-2018, apresentam uma perspectiva ainda mais sombria, uma vez que Flamengo e Corinthians ampliarão, em valores brutos e percentuais, a distância para todos os oponentes do Campeonato Brasileiro.

Valores das cotas do Brasileirão 2012-2015

Grupo 1 – Flamengo e Corinthians: R$ 110 milhões

Grupo 2 – São Paulo: R$ 80 milhões

Grupo 3 – Vasco e Palmeiras: R$ 70 milhões

Grupo 4 – Santos: R$ 60 milhões

Grupo 5 – Cruzeiro, Atlético-MG, Grêmio, Internacional, Fluminense e Botafogo: R$ 45 milhões

Grupo 6 – Coritiba, Goiás, Sport, Vitória, Bahia e Atlético-PR: R$ 27 milhões

Grupo 7 – Atlético-GO (2012), Figueirense (2012), Náutico (2012 e 2013), Ponte Preta (2012 e 2013), Portuguesa (2012 e 2013) e Criciúma (2013): R$ 18 milhões.

A Rede Globo, ao negociar individualmente com cada clube, adotou, de certa forma, a estratificação que o Clube dos Treze adotava quando repartia o bolo dos recursos até 2011.

Dos antigos 20 membros do Clube dos Treze que estão na Série A, apenas a Portuguesa foi despromovida por parte da Globo. Se seguisse a antiga divisão interna do Clube dos Treze, a Globo pagaria R$27 milhões para a Lusa. Contudo, o time paulista recebeu em 2012 e 2013 o mesmo que Náutico e Ponte Preta, R$18 milhões.

Os clubes do “grupo 6”, onde se encontra o Náutico, recebem 21,4% do valor a que Flamengo e Corinthians têm direito. Analisando os recursos obtidos pelos dois rivais pernambucanos, o Náutico, com seus R$18 milhões, recebe 66% do valor que a Globo paga ao Sport (R$27 milhões).

Valores das cotas do Brasileirão 2016-2018

Grupo 1 – Flamengo e Corinthians: R$ 170 milhões

Grupo 2 – São Paulo: R$ 110 milhões

Grupo 3 – Vasco e Palmeiras: R$ 100 milhões

Grupo 4 – Santos: R$ 80 milhões

Grupo 5 – Cruzeiro, Atlético-MG, Grêmio, Internacional, Fluminense e Botafogo: R$ 60 milhões

Grupo 6 – Coritiba, Goiás, Sport, Vitória, Bahia e Atlético-PR: R$ 35 milhões

Grupo 7 – Demais clubes: negociações anuais com a Globo, a depender da participação na Série A

A partir de 2016, Flamengo e Corinthians, por exemplo, vão ampliar a diferença que hoje é de R$ 30 milhões em relação ao São Paulo (do segundo grupo) para R$ 60 milhões. Vasco e Palmeiras vão ver a diferença, que até 2015 era de R$ 40 milhões, subir para R$ 70 milhões, para citar outro exemplo.

A Europa e seus modelos conflitantes: negociações coletivas vs. negociações individuais

Nos campeonatos nacionais da Europa, países como Alemanha, Inglaterra, Itália e França adotam o modelo de negociações coletivas, com a primazia à competitividade através da divisão equânime dos recursos financeiros. Como já foi dito, a Espanha também passa a ter negociações coletivas. Assim, dentre as seis principais ligas do Velho Continente, apenas Portugal segue adotando a negociação individua. Restam, portanto, apenas ex-colônia e ex-metrópole, juntas, como símbolos de um modelo desigual.



Projeto de lei no Brasil

Em 2014, o então deputado federal Raul Henry, atual vice-governador de Pernambuco, apresentou o Projeto de Lei 7681/2014. Tomando como base os meus estudos que agora são apresentados no livro “Cotas de televisão do Campeonato Brasileiro: apartheid futebolístico e risco de espanholização”, o projeto previa o acréscimo de alguns dispositivos ao artigo 42 da Lei 9.615/1998 (“Lei Pelé”).

Como Henry deixou o Congresso Nacional, seu PL fora arquivado. Em março de 2015, porém, o deputado Betinho Gomes reapresentou a proposta. O agora PL 755/2015 tem o mesmo conteúdo do PL 7681/14 e segue em tramitação na Câmara dos Deputados. Se aprovado, traz regulamentação legal para a negociação coletiva para os contratos vindouros. Ou seja, aplicaria ao Brasil aquilo que foi feito na Itália em 2011 e o que acabou de ocorrer na Espanha.

Sobre o livro

O livro é fruto dos estudos do repórter Emanuel Leite Jr. para sua monografia de bacharelado em direito, concluído em 2008. Material que serviu de base para o projeto de lei 7681/14, do então deputado federal Raul Henry, atual vice-governador de Pernambuco (que assina o prefácio da obra).

No trabalho, o autor, a priori, busca lançar, sob a ótica de princípios constitucionais — como o princípio da igualdade, elemento fundamental de um Estado que se pressupõe democrático —, a questão da equidade sobre o tema. Num segundo momento, o autor passa à exploração do caso concreto.

Procura-se trazer o conhecimento teórico fruto de pesquisas trazendo para o debate a comparação com experiências bem-sucedidas (e as malsucedidas, do ponto de vista da preservação da equidade) das grandes ligas de futebol europeias, símbolos de sucesso tanto no âmbito desportivo quanto no âmbito do grande mercado do negócio dofutebol.

Serviço

Título: Cotas de televisão do Campeonato Brasileiro: “apartheid futebolístico” e “risco de espanholização”
Autor: Emanuel Leite Jr.
Preço: R$ 30 (com o autor)
Páginas: 120
Formato: 14×21
ISBN: 978-85-8165-341-9
Lançamento: 30 de julho (quinta-feira)
Horário: a partir das 19h30
Local: Winner Sports Bar (Rua Venezuela, 148, Espinheiro, Recife-PE)

PS1 do Viomundo: Num recente debate sobre o assunto, resumimos a situação assim. Na NFL, liga do futebol com as mãos dos Estados Unidos, oito cidades tiveram clubes campeões nacionais nos últimos dez anos; no Brasil, foram três. Três dos maiores mercados brasileiros — Salvador, Fortaleza e Brasília — estão fora do principal campeonato brasileiro (população superior a 8 milhões de telespectadores). Dos 20 clubes no Brasileiro, 18 são do Sul e do Sudeste. Média de público da NFL, que vende vários pacotes a diferentes emissoras: 68.331. Média de público na liga americana de soccer: 19.148. Média de público no País do Futebol: 16.555. Como a NFL divide os direitos de televisão? Igualmente entre os clubes, para equilibrar o campeonato e torná-lo mais competitivo. Mais gente no estádio, mais gente na TV vendo se o seu time será campeão. A NFL vende os direitos direto ou tem um intermediário? Vende direto. Na NFL não tem J. Hawilla, que no Brasil fazia o trabalho de… pagar a propina.

*PS2 do Viomundo: No livro O Lado Sujo do Futebol, demonstramos que a implosão do Grupo dos Treze foi promovida pelo então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, ao lado do presidente do Corinthians, Andres Sanchez. Teixeira, ao abandonar o cargo, perseguido por denúncias de corrupção, mereceu uma reportagem laudatória do Jornal Nacional. Por que?

Emanuel Leite Jr.
No Viomundo
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Reflexões sobre o momento atual


O Brasil atravessa um momento difícil de administrar e de superar, o que supõe tirar as viseiras das interpretações demasiado partidárias ou ideológicas. Completamos meio ano de um novo governo democrático, eleito legitimamente em 2014, em campanha com concorrência livre e transparente, compartilhada e acompanhada por toda a população, a imprensa, a polícia e todas as autoridades responsáveis.

A parte vencida na concorrência eleitoral não se conformou com o resultado das urnas e entrou em campanha, reacional e antidemocrática, sem fundamento jurídico nem político partidário. A imprensa dominante, seja qual for o seu interesse, tem dado apoio sistemático às aspirações delirantes da oposição que imagina a troca de governo antes do final do mandato, para o qual a governante foi legitimamente eleita e, para tanto, trabalha incansavelmente pela difamação e para o desprestígio e o enfraquecimento do governo eleito, e não só dele, mas de todos os políticos e mesmo, do estado de direito, quando insinua o argumento frágil do índice de popularidade em pesquisas de opinião.

Nesse ponto se fecha o círculo vicioso que foi montado para difamar e desprestigiar e diminuir a confiança e a popularidade e, supostamente, deslegitimar e, assim, atingir o objetivo vil do desrespeito ao resultado das urnas. 

As operações de investigação da chamada corrupção — termo que inclui, sob a mesma denominação, vaga e demasiado geral, práticas contábeis próprias do sistema capitalista e das campanhas eleitorais democráticas, algumas, mais ou menos legais, outras, abusivas —, evidentemente, fazem mais barulho da mídia e na opinião pública quando lançam suspeitas e parecem incriminar personagens que tem alguma relação com os partidos da base do governo atual, buscando preservar a imagem da oposição.

Lamentavelmente, todo esse círculo da acusação e da aparente busca da pureza de procedimentos atinge, ao mesmo tempo, a boa fama da vida política democrática, o valor das ações das grandes empresas na bolsa de valores, a confiança do setor produtivo e dos empresários para empreender.

É inútil a discussão se a crise é mais política ou se é mais econômica, pois parece evidente que, se há uma crise com aspectos políticos, ela começa num e termina no outro lado da dinâmica do funcionamento da sociedade, e nem é possível dizer ao certo se é mais política do que econômica, porque a economia está nos motivos da agitação política e, por outro lado, deixa-se prejudicar pela insegurança política.

Neste momento, interessa aos brasileiros todos que se afirme a nossa democracia e as nossas instituições possam funcionar bem, para continuar a proteger o trabalho e a renda, para aperfeiçoar nossa organização da educação, da saúde, da cultura, da justiça, do turismo, do esporte, do transporte público, etc. — tanta coisa boa em andamento e, neste momento, submetida a uma turbulência exagerada!

Que ao governo, ao poder executivo em todos os seus níveis, seja possibilitado continuar a realizar as obras que propõe e precisa realizar.

Que ao poder legislativo seja permitido funcionar de modo democrático, com toda a diversidade, a negociação e o conflito que isso significa.

Que o poder judiciário possa julgar com isenção, sem pressão exagerada do jogo midiático e das opiniões de ocasião.

Que o Ministério Público se mantenha em seu lugar discreto, para fazer a diferença.

Que a Polícia respeite às leis e aos princípios maiores dos Direitos Humanos.

Que nossas Forças Armadas se comportem no respeito à Constituição.

E que o chamado quarto poder tome vergonha na cara e modere o seu olhar de classe — ou será que o que lhes falta é mesmo informação? — e pense no povo brasileiro, acima das diferenças de partido e de região.

Suzana Guerra Albornoz é professora de Filosofia Política e Escritora
No GGN
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Retrocesso

Estão fazendo pouco desse deputado que sugeriu a identificação de um delinquente em potencial ainda no ventre da mãe, quando isto for cientificamente possível, e a interrupção da gravidez, mas sei não. A ideia da maioridade penal pré-natal é, no mínimo, coerente com o retrocesso generalizado em curso no País, onde até a UDN voltou, disfarçada, cada vez mais gente pensa, segundo as pesquisas, que no tempo da ditadura militar era melhor e Bolsonaro deixou de ser direita folclórica e já é direita factível. Nesse ritmo, ainda reinstauraremos a escravatura, que fomos os últimos no mundo a abandonar, com pesar. Só penso que o deputado exagera quando preconiza o aborto preventivo. Acho que, mais de acordo com a nossa tradição de povo cordial, se deveria esperar o bebê nascer para, então, lhe dar voz de prisão.

Velhos tempos

Estudei numa “high school” americana e durante três anos, todas as manhãs, botava a mão sobre o coração e jurava lealdade à bandeira dos Estados Unidos da América, uma só nação, sob Deus, com liberdade e justiça para todos. Bem, para todos não. As escolas eram segregadas, não tínhamos colegas negros. Eu estava lá quando a Corte Suprema ordenou a desagregação. Houve reação violenta em outras escolas brancas da região, mas a nossa aceitou a novidade sem problemas. Sempre atribuí isso à quantidade de judeus na escola, num tempo (que já passou) em que ativistas liberais judeus apoiavam os movimentos por direitos civis dos negros. 

Pensei nesses velhos tempos e em como as coisas mudaram vendo um presidente americano negro — desculpe, afrodescendente — visitando a terra dos seus ancestrais na África. Um presidente não apenas afrodescendente, mas afrodescendente direto, com parentes próximos na terra do seu pai. Pensei em que mais teria mudado, além da ascensão de Barack Obama e tudo que ela simbolizou. Não sei se, nas escolas, ainda fazem o juramento à bandeira como antigamente. Sei que o “sob Deus” foi discutido, não sei se permaneceu. Anos depois, fui visitar a minha escola em Washington. Não vi nenhum aluno branco. Era uma escola pública. A maioria dos brancos devia ter se transferido para escolas privadas. Extraoficialmente, a segregação continuava.

No meu tempo, num dia por semana, havia instrução militar. Eu tinha que ir à escola fantasiado de soldado, com quepe e tudo. Fazíamos ordem unida e eu apreendi a desmontar e remontar um rifle. Que seria inútil contra a maior ameaça aos Estados Unidos na época, um ataque nuclear dos russos. A intervalos, havia ensaios para o caso de bombardearem Washington. Íamos todos para o porão da escola, desconfiados de que ali não estaríamos muito mais seguros do que na superfície. Imagino que não façam mais isso, a não ser por medo de alguma loucura retrógrada do Putin.

Luís Fernando Veríssimo
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Decola o Gripen NG-BR

http://www.maurosantayana.com/2015/07/decola-o-gripen-ng-br.html


Com a assinatura pelos governos do Brasil e da Suécia, do contrato para o desenvolvimento conjunto de 36 novos caças Saab Gripen NG-BR, concretizada ontem, termina a novela do Programa F-X, que se arrastava desde os tempos de FHC, e o Brasil adquire tecnologia para o desenvolvimento futuro, para a Força Aérea Brasileira, de caças próprios de última geração.

A decisão do governo sueco, de dar quase 6 bilhões de dólares em financiamento ao Brasil — que tem 370 bilhões de dólares em caixa em reservas internacionais (eram 30 bilhões de dólares em 2002, mas havia uma dívida de 40 bilhões com o FMI) e é o terceiro maior credor individual externo dos EUA, a juros de 2.19% ao ano — menos do que o previsto inicialmente — com 25 anos de prazo para liquidar a dívida e oito anos de carência, mostra que o que vale, do ponto de vista da macroeconomia real, são fatos como este, e não a campanha antinacional em curso, e as sandices que são ditas lá fora, por veículos dirigidos e parciais — e frágeis a ponto de estarem sendo desnacionalizados — como o Financial Times.
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Prefeitura de Blumenau registra BO por suposto golpe de R$ 40 mil

O Procurador Geral do município, Rodrigo Diego Jansen, registrou um boletim de ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia Civil informando que a Prefeitura de Blumenau teria sido vítima de um estelionato. No final da tarde desta quarta-feira o caso se tornou público quando uma cópia do boletim de ocorrência começou a circular nas redes sociais.

Porém, apesar do documento relatar a conclusão do golpe, Jansen garante que percebeu a ação dos bandidos logo no início e atendeu os pedidos que eles fizeram para criar subsídios para que a polícia possa investigar o caso e identificar os estelionatários. Em paralelo à comunicação com os bandidos, o procurador afirma que comunicou a Polícia Civil e o banco, que teria bloqueado o saque dos cerca de R$ 40 mil que foram solicitados pelos bandidos. Segundo Jansen, o dinheiro será devolvido à conta do município até a manhã desta quinta-feira.

De acordo com o relato dos fatos registrado no boletim de ocorrência, o procurador teria recebido uma ligação às 14h50min desta terça-feira de uma pessoa que se identificou como servidora da 4ª Vara da Fazenda de Brasília informando que todas as contas do município seriam bloqueadas as 15h10min devido a uma liminar pelo não pagamento de um precatório do ano de 2011 no valor de R$ 39.998,33. A mulher teria informado também outros telefones de contato para que o procurador pudesse checar o problema e receber instruções para o pagamento.

O procurador entrou em contato com o número fornecido e uma segunda mulher, que se identificou como funcionária da ouvidoria do Banco Central teria confirmado as informações e informado a conta para o depósito do pagamento da suposta dívida. O procurador solicitou o pagamento à Secretaria da Fazenda, que foi realizado às 15h16min. Na sequência, ele entrou em contato com a Vara Federal, que informou que a situação se tratava de um golpe já aplicado em outras cidades do país.

A reportagem entrou em contato com o procurador Rodrigo Jansen para esclarecer a situação. Neste momento, ele informou que percebeu o golpe pelos procedimentos que os bandidos usaram:

— Eles são muito inteligentes, nem posso desmerecer, porque tinham muitos detalhes, muitas informações corretas, mas eu desconfiei de alguns procedimentos que eles pediram porque não são os normais. Nisso eu percebi que era um golpe, já na primeira ligação, e ao mesmo tempo que falava com eles já sinalizava para outras pessoas entrarem em contato com o banco e a polícia também.

Jansen explica que desde o início informou a Polícia Civil que acreditava que a situação era um golpe, mas queria levar até o final para que pudesse haver um fato concreto e mais informações para serem investigadas. O procurador também diz que enquanto tratava com os bandidos, informou ao banco que faria o depósito pedido, mas que o saque do valor deveria ser bloqueado.

— Desde o início o município se viu envolvido em uma tentativa de estelionato, que foi malsucedida, e não houve prejuízo nenhum aos cofres públicos. O dinheiro realmente foi depositado, mas o saque desse valor foi bloqueado pelo banco, que já sabia da situação, e amanhã de manhã ele já estará novamente na conta do município. Nós tomamos toda a cautela para que o dinheiro fosse transferido e voltasse aos cofres.

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Máquina de corrupção

Nem tanto pela prisão de alguém eminente como o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, posto sob suspeita de corrupção como presidente da Eletronuclear, mas pela abertura de nova frente de investigações, a Lava Jato dá um passo para a demonstração de que a máquina corruptora movida pelas empreiteiras não tem limites.

Hidrelétricas, estradas, pontes, infraestrutura de comunicações, metrôs, edificações — onde quer que as grandes empreiteiras estiveram ou estejam, é área minada por corrupção. Seja no nível federal, seja no estadual e no municipal. Licitações e contratos corretos por certo houve e há, mas como fatos fora do sistema. Assim é pelo menos desde a abertura da Transamazônica no período do general Médici — ocasião em que foram estabelecidas as fórmulas, hoje uma norma, de compartilhamento da obra e de entendimento entre as empreiteiras para divisão das oportunidades.

Faço eco do já escrito aqui muitas vezes: atacar a corrupção manobrada pelas grandes empreiteiras, para obras públicas e para seus negócios de concessões e privatizações, seria mudar toda a prática política no Brasil. A voracidade de parlamentares e partidos que oprime governos, para entrega de ministérios, secretarias e empresas a políticos e a indicados seus, origina-se nas grandes empreiteiras e seus interesses tentaculares, lançados sobre a administração pública.

Não há um só propósito legítimo para que partidos e seus políticos rebaixem-se até a condição de chantagistas para obter diretorias em estatais, autarquias e ministérios. Manietar as empreiteiras e, portanto, fechar aqueles guichês de corrupção seria, além do mais, dar a tais seções do serviço público a possibilidade de se tornarem mais eficientes. E a custos menores. Um Brasil que o Brasil não conhece.

Petrobras, Eletronuclear — vamos em frente?

Atômica

A Folha não se lembrou, mas "O Globo", por intermédio de José Casado, não esqueceu: "A 'Delta IV' (...) foi revelada pela repórter Tânia Malheiros. Estava em nome do capitão-de-fragata Marcos Honaiser e do seu chefe, Othon. Funcionava como caixa para pagamentos das compras feitas no submundo do comércio de materiais nucleares".

A revelação de Tânia Malheiros foi feita na Folha. Espetacular. Acompanhei-a de perto: trabalho cercado de perigos, inclusive ou sobretudo de morte, mas feito com persistência e perfeição técnica de apuração, até revelar o sistema de "Contas Delta" e prová-las. Fortunas que escorriam em segredo, por contas bancárias mascaradas e manipuladas por militares e uns poucos civis, sem controle algum e sem registro de seus destinos. Era a ditadura em ação para desenvolver a propulsão e a bomba nucleares.

O Othon citado por Casado é o almirante preso agora pela Lava Jato, suspeito de corrupção como presidente na Eletronuclear. O livro que Tânia escreveu a partir de suas reportagens foi editado aqui e no exterior. Na Alemanha, tem várias edições.

A imprensa é um território de pequenas e grandes injustiças, não só para fora. Meses depois do seu trabalho, e não por causa dele, Tânia não pôde continuar no jornal. Decidiu abandonar o jornalismo. Hoje é cantora, e vai abrindo um caminho de reconhecimento, crescente.

Na moita

O sucinto noticiário da palestra de Eduardo Cunha para empresários paulistas, anteontem, inovou.

Não fez a costumeira citação de notáveis presentes, não colheu as obviedades de praxe. Nem as imagens da plateia permitiam identificações.

Eduardo Cunha é atilado. Percebeu. Xiiiiii.

Janio de Freitas
No fAlha
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Quem daria o golpe? Quando e como?

Na foto, o que aconteceu para O Globo, em seguida à morte de Vargas: 25 de agosto de 1954
A oposição dos tempos atuais não sabe fazer oposição, até por ausência de competência e por nojo à democracia. Quer o poder e sabe-o inatingível por caminhos legais. Essa oposição golpista contou sempre com o apoio da imprensa, a escrita, a falada e a imaginada. O ruído provocado por ela atinge mais de 100 decibéis, que são completados com os famosos bater-as-panelas, nas coberturas dos apartamentos de abrigam o luxo das elites. Do que se sente falta? Da voz de autoridade que brade: moleques, ponham-se no lugar que lhes cabe, não golpe porque nós não queremos.

A História que se repete: Vargas eleito, Carlos Lacerda pregou o golpe. Dilma Rousseff reeleita, Aécio Cunha, FHC e seguidores pedem um terceiro turno, pregam um “golpe democrático”, ridículo em si, mas que não dispensa aponta-lo enquanto tal. O PSDB, sob a inspiração da ausência de escrúpulos de Jose Serra, não tem pejo em vestir-se de União Democrática Nacional-UDN, a que, por ser golpista, tornou-se a “vivandeira” dos quartéis. E por ai até que concordamos todos: não há mais disponibilidade de tanques de guerra, nem mesmo de fantasias de vacas fardadas, como as que se ostentaram em 1964.

Mas o que o PSDB/UDN não apreendeu ainda: essa elite anacrônica não representa mais o capital internacional, os banqueiros e os empresários, e nem a autoridade imperial dos Estados Unidos. Ela é exatamente o anacronismo que a Constituição de 1988 permitiu sobreviver. Alienados, os golpistas enxergam uma Presidente enfraquecida, a ser defenestrada por um simples sopro intestinal. Será assim?

Em diferentes momentos, o STF mostrou-se parcial e disposto a golpear a fundo o PT e os que o representam. Houve a sinfonia macabra, regida por um condutor catatônico. Ele não está mais e os seus sucessores, figuras infelizmente desconfiáveis, não possuem o mesmo grau de atrevimento. O ministro Mello não mostra insolência e reconhece a legitimidade do mandato outorgado pelo povo a Dilma Rousseff. Por certo, há um Gilmar Mendes, a cada dia mais andorinha só, a que não faz verão.

E a ameaça de reprovação de contas de campanha? Lembre-se o 10 de dezembro de 2014: A prestação de contas da campanha da candidata reeleita pelo PT à Presidência, Dilma Rousseff, foi aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Após julgamento que se estendeu por quase quatro horas na noite desta quarta-feira (10), por unanimidade, os ministros da Corte consideraram não ter havido falhas suficientes na documentação apresentada para reprovar as contas.

Bem, e o julgamento das “pedaladas” pelo TCU? Haja paciência. O TCU é uma repartição pública, prestigiada apenas pela imprensa. Hoje tem a presidência de Aroldo Cedraz, político pequeno, menino de recados de Antônio Carlos Magalhães. Não há mais o que comentar sobre isso, depois da fala de um senador da República, membro do PSDB. Tasso Jereissati, sobre tal figura, depois de ter ela cometido a ousadia de não atender a uma convocação da Casa:

“Aroldo Cedraz não está apto a ser presidente do TCU”. Ainda de acordo com o parlamentar, o ofício é uma afronta ao Congresso Nacional porque não gostaria de comparecer à casa antes da votação do Tribunal. “O presidente comete um grave erro. Ele não tem que gostar ou não gostar, o TCU é uma casa auxiliar do Congresso”, ressaltou. Jereissati afirmou ainda que o ofício foi ignorante. Pode-se imaginar, depois disso, que o Senado volte a considerar algo que tenha origem desse “órgão auxiliar.”? Só mesmo as analistas políticas, selecionadas pelo O Estado de São Paulo, ainda darão ouvidos ao auxiliar infante.

Sejamos pacientes, ouvindo os golpistas e seus porta-vozes da imprensa. Não compete à Justiça decidir sobre impedimento de um presidente, mas ao Congresso. Os jornalistas facciosamente apressados não contam a estória que precisa ser contada, para que o povo a entenda: é necessário que 2/3 dos deputados acusem em votação nominal a presidência, para que essa denúncia possa ser levada ao Senado, onde será necessária a maioria absoluta de 2/3 dos membros do Senado para que seja cassado o mandato presidencial. Esses são números inatingíveis. E sejamos muito claros no que todos sabem: derrotados fatalmente, os eleitores do impedimento poderão solicitar “auxílio desemprego”.

Já desprovidos de munição de poder de fogo maior, os golpistas passaram a usar um marionete, querendo fazê-lo tenor em teatro de ópera. Está moribundo e irá à falência, incapaz de um mínimo de dignidade. Senadores, membros do PSDB, dizem de voz bem dita que o impedimento de Dilma Rousseff não tem fundamento algum em nenhum lugar. Eduardo Cunha morre agora, sem choros e nem velas. Suicidou-se como decisão pessoal. O PMDB prescinde dele.

Sabidamente, não há qualquer possibilidade de destituição da PresidentA com o uso de instrumentos legais. Seria necessário um ato de violência. Quem poderia praticá-lo? E a que preço? O Senado Romano apunhalou Júlio Cesar. E que aconteceu com os senadores romanos?

Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras.
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