27 de jul de 2015

Gabrielli rebate massacre midiático

“Prezad@s

Gostaria de compartilhar com vocês minha indignação com dois atuais episódios de massacre midiático a que fui submetido neste fim de semana: a ampla divulgação de um relatório de peritos policiais, sugerindo a quebra de meus sigilos bancários e fiscal, e um suposto brinde com pinturas de alto valor, oferecido pela Odebrecht, segundo o Ministério Público Federal do Paraná.

No primeiro caso, o Estadão publicou a minha resposta na íntegra em que eu dizia:

“Não tenho qualquer temor com a quebra do meu sigilo fiscal ou bancário em relação a comportamentos ilícitos. Todas as minhas operações financeiras e tributárias se pautaram pela extrema transparência e legalidade. Tenho, no entanto, indignação com o abuso de poder que é determinar esta invasão de privacidade, sem indícios de ilicitudes, somente para testar as hipóteses dos policiais que acham que talvez eles possam existir. O material divulgado sequer levanta qualquer dúvida, como no trecho a seguir, retirado do material vazado seletivamente – ‘Por fim tem o próprio Gabrielli como última tentativa, que poderia fazer. Ele não gosta da gente (Suzano, Quattor, sondas), mas a tese eh boa e talvez quem sabe?’.”

Acontece que esta notícia foi reproduzida, até o sábado, por mais de 170 veículos pelo pais afora e a maioria destas publicações omitia completamente a minha resposta, ou a cortava, limitando-se a reproduzir apenas a sua primeira frase. As manchetes destacavam a quebra do sigilo, insinuando culpabilidade a priori.

O outro episódio é de hoje, segunda-feira. No sábado, às 11:12 hs uma repórter do Estadão manda um email solicitando uma resposta sobre a acusação de que eu teria recebido “pinturas de alto valor”, como brinde da Odebrecht. Por várias razões estive desconectado da Internet, no sábado e domingo, e só vi o email na manhã de hoje.

Mandei para o Estadão a seguinte resposta:

Estive sem conexão com a Internet neste fim de semana e não pude responder a tempo seu email enviado no final da manha de sábado.

É absolutamente falsa a informação de que recebi “pinturas de alto valor” como brindes da empresa Odebrecht. Os brindes que recebi foram livros editados pela empresa e outros brindes típicos. Nunca recebi quadros.

De novo, a enorme reprodução da nota do Estadão, com informação completamente desprovida de veracidade, vira verdade pela sua repetição sucessiva.”

da assessoria de José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, via e-mail
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O Google e a manipulação midiática

http://www.maurosantayana.com/2015/07/o-google-e-manipulacao-midiatica.html


Quando as grandes empresas de internet surgiram, nascidas nas universidades, e não nos grandes grupos de comunicação que já existiam, houve esperança de que elas viessem a contribuir para a consolidação de um ambiente de produção, publicação e troca de informações realmente livre.

Um novo espaço que privilegiasse o indivíduo no lugar do Sistema, ajudando-o a libertar-se do deletério domínio da mídia tradicional, umbilicalmente ligada, de parte a parte, por milhares de tentáculos, aos maiores grupos empresariais privados, que, no mundo inteiro, e em cada país, trabalham para manter o status quo e defender seus interesses, entre eles o de continuar — mesmo depois do surgimento da Rede Mundial de Computadores — a manipular e a explorar, do nascimento à morte, o homem comum.

Website mais visitado do mundo, e a marca mais valiosa do planeta, com aproximadamente 25.000 funcionários, um enorme faturamento e bilhões de usuários, o Google parecia ser uma dessas empresas, voltada, como rezava a missão inicial do “navegador” criado por Larry Page e Serguey Bryn, para “tornar a informação mundial universalmente útil e acessível.”

A primeira impressão, era a de que o Google buscava, ao menos aparentemente, uma aura de identificação e comprometimento com os “melhores” valores, que se refletia no lema “dont be evil” — “não seja mau”, e outros slogans relacionados de sua “filosofia corporativa”, como “você pode ganhar dinheiro sem fazer o mal”, ou “você pode ser sério sem um terno”.

Uma impressão reforçada — teoricamente — pelo fato do Google não perder uma oportunidade de declarar seu “marcante” comprometimento com a neutralidade da internet, como diz, quase sempre, seu vice-presidente e “Chief Internet Evangelist”, Vint Cerf, quando afirma que “não se pode permitir que os provedores de acesso controlem o que as pessoas vêem e fazem online.”

No entanto, o Google, além de ter tido problemas em vários países do mundo no quesito privacidade, sempre esteve estreitamente ligado à comunidade de informações norte-americana, como revelaram jornais como o The Huffington Post, no ano passado, reproduzindo e-mails divulgados pela Al Jazeera America, trocados entre o Presidente da NSA (Agência Nacional de Segurança) dos EUA, o general Keith Alexander, o Presidente do Google, Erick Schmidt, e um dos seus fundadores, Serguey Bryn, nos anos de 2011 e 2012.

Afinal, porque o Google — em uma excelente jogada de relações públicas — por meio do seu presidente Erick Schmidt — fez questão de receber na sede da empresa a Presidente brasileira Dilma Roussef em sua recente visita aos Estados Unidos?

Não apenas porque o Brasil é o quinto país do mundo em usuários de internet ou abriga o único Centro de Desenvolvimento Tecnólógico do Google na América Latina.

Mas também, e principalmente, porque no auge do escândalo de vigilância global da NSA, e dos Five Eyes — a aliança de espionagem anglosaxônica que reúne os EUA, a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia e o Reino Unido e “parceiros privados” — em que Edward Snowden desnudou ao mundo o gigantesco sistema de monitoramento em massa e a íntima correlação entre agências de informação dos EUA e grandes empresas norte-americanas que dominam o negócio da internet — incluindo, como vimos, o Google — foi Dilma Roussef que liderou a reação mundial aos EUA, suspendendo sua visita de Estado aos Estados Unidos, e aliando-se à Chanceler alemã Angela Merkel, na apresentação e aprovação, na ONU, por 193 países — contra a vontade de Washington — das diretrizes de uma “lei de internet mundial” a resolução sobre “O Direito à Privacidade na Era Digital”.

Diante do gigantismo do Google e do dinheiro que aplica em marketing — incluindo um bilhão de dólares para um fundo de filantropia — é preciso prestar a atenção em detalhes para encontrar provas de seu claro comprometimento com o status quo e as forças mais conservadoras em cada país em que atua.

Talvez a mais evidente delas, que pode passar — e essa é a sua função — desapercebida pela maioria dos leitores, é a presença de uma seção denominada de “Sugestões dos Editores”, que se pode ver no alto da tela, na coluna da direita, da página inicial do Google Notícias.

Dependendo do momento em que estiver olhando, o leitor pode se deparar com chamadas para matérias prosaicas, como dicas de beleza, dietas, etc.

Mas, na maioria das vezes, ele terá chance encontrar, “casualmente”, no mesmo espaço, no Brasil, por exemplo — mas não apenas em nosso país — o mesmo tipo de conteúdo reacionário, anacrônico e fascista, que intoxica maciçamente a internet brasileira, hoje, o que leva, naturalmente, qualquer leitor mais atento a se perguntar: que raios de “editores” são esses?

Seriam “editores” do Google? Ou “editores” voluntários, organizados em grupos de leitores?

Não. Trata-se de “editores” de veículos de informação “tradicionais”, que enviam suas “sugestões”, principalmente de artigos de opinião, ao Google, por meio de feeds.

Em suas informações sobre a seção, o Google explica que qualquer veículo pode enviar uma sugestão.

Mas quem escolhe quais e em que ordem essas sugestões irão ser publicadas na primeira página do Google News?

Se fossemos pensar no âmbito exclusivamente empresarial, compreende-se que, procurando fabricar de óculos a relógios, de carros a balões de reprodução de sinal de internet — e ampliando suas atividades para serviços correlatos de fornecimento de banda larga para usuários finais, que acaba de lançar nos EUA — o Google se sinta cada vez mais como parte do ambiente empresarial tradicional, voltado para ganhar dinheiro e lucrar com o consumidor final — no seu caso, bilhões de consumidores finais — com os quais estabelece contato, por meio de seu brownser, todos os dias.

Também se comprende que o Google busque boas relações com grandes empresas jornalísticas dos países em que está presente, de onde busca — ainda — a maior parte do conteúdo informativo apresentado a seus usuários por seu motor de pesquisa, principalmente depois que foi proibido de indexar esse conteúdo — por ter se recusado a pagar por ele —, em países como a Espanha.

O problema é que, ao fazer isso — dar destaque às “sugestões dos editores” — um eufemismo para levar o consumidor a ter acesso destacado e facilitado, no alto de página, ao diktat da mídia tradicional, manipuladora e conservadora que predomina nos países em que atua, o Google está tomando uma atitude política, e também está renegando, descaradamente, o seu “GUIA DE NEUTRALIDADE DA REDE” e os princípios que ele evidencia, quando afirma que:

“Neutralidade da rede é o princípio de que os usuários da Internet devem estar no CONTROLE DO CONTEÚDO QUE ELES VÊEM e de quais aplicações eles usam na internet. A Internet tem operado de acordo com este princípio de neutralidade desde seus primeiros dias... Fundamentalmente, a neutralidade da rede é a igualdade de acesso à Internet. Em nossa opinião, as operadoras de banda larga não devem ser autorizadas a usar seu poder de mercado para discriminar candidatos ou conteúdos concorrentes. Assim como as empresas de telefonia não estão autorizadas a dizer aos consumidores para quem eles devem ligar ou o que eles podem dizer, as operadoras de banda larga não devem ser autorizadas a utilizar seu poder de mercado para controlar a atividade online.”

E também está, na verdade, rasgando os compromissos assumidos com o público, quando do lançamento do seu serviço de notícias, em 2002, quando afirmou que havia criado um site “altamente incomum” que oferecia um serviço de notícias compilado UNICAMENTE por algoritmos de computador, SEM INTERVENÇÃO HUMANA, ressaltando que para esse serviço não empregava “editores, editores de gestão, ou editores executivos.”

Como os usuários devem estar no controle do que eles vêem? Como “unicamente” por “algoritmos de computador” e sem “intervenção humana”?

São robôs os “editores” privados que determinam com suas “sugestões” no alto da coluna da direita, da página inicial do Google News, todos os dias, o que o leitor deve ler, nos países em que o Google atua, começando pelos Estados Unidos?

Desse ponto de vista, o Google pode não estar empregando “editores”. Mas nem precisa.

Ao menos nessa seção, o maior site de buscas do planeta preferiu terceirizar o trabalho de escolher o que seus usuários devem ler para os grandes grupos de mídia. Abrindo mão de estabelecer — por meio da internet — um marco na história da comunicação — um novo patamar na relação entre o indivíduo e o universo informacional, para transformar-se, como um mero aparelho de rádio ou televisão, em apenas mais um instrumento de repetição e disseminação do que dizem os maiores jornais e revistas de cada país em que atua. Delegando a essas empresas e jornais — que tem seus próprios compromissos e interesses — o direito de determinar o que eles acham que é mais importante e conveniente — para eles e seus anunciantes, é claro — que os usuários vejam e leiam.

Ainda em suas informações sobre o serviço, o Google diz que é possível para o leitor escolher com que “editores” prefere ter mais “vínculos”, e existe até mesmo uma barra deslizante para que ele possa “personalizar esta fonte de notícias”, mas a maioria dos usuários tem tempo, conhecimento, ou iniciativa para trabalhar com ela?

E como fica isso no caso das centenas de milhões de usuários que acessam o Google News sem ter uma conta do Google, ou em “lan houses” e “cybercafés” — como ocorre na maioria dos países mais pobres — ou de seu trabalho, por exemplo?

Eles vão deixar de ler, e de ser influenciados, pelas chamadas dessa seção específica?

Seria mais honesto que — caso se visse a isso obrigado, mesmo considerando-se o público que já acarreta para os portais da mídia tradicional — o Google colocasse como publicidade claramente identificada, banners dirigidos para o conteúdo desses veículos na primeira página do Google News e cobrasse — claramente — por esse serviço.

Ao disfarçar esse conteúdo, colocando-o no alto da página, mas obedecendo ao mesmo layout, tamanho de letra, etc, das chamadas normais de conteúdo automaticamente indexado, o Google mostra que tem reforçado, ao longo do tempo, de forma sutil, mas reconhecível, uma decisão clara: a de ficar ao lado do Sistema e não do cidadão, ajudando a reproduzir os esquemas de poder, dominação e manipulação que existem no mercado editorial e jornalístico de cada país, na rede mundial de computadores.

Transformando-se em um instrumento e uma extensão a mais da "fabricação do consenso", ou do consentimento, de que fala Noam Chomsky e do controle do sistema jornalístico tradicional sobre o homem comum, e contribuindo para estender o poder dos grandes grupos empresariais de comunicação de cada país sobre a opinião pública.

Com seus carros que andam sozinhos, o Google Earth, o novo serviço que permite chamar do Gmail para telefones, e suas ações no apoio à pesquisa científica e à filantropia, a marca Google pretende ser apresentar-se e ser identificada com uma empresa inovadora, que pareça estar voltada, como um farol, para o século XXI e o futuro.

Livrar-se dessa excrescência incômoda, do ponto de vista moral e político, deixando apenas os algoritmos, a busca temática, e o critério de relevância arimética, como mecanismos de escolha do leitor, na primeira página de seu serviço de notícias — isso, sim, faria do Google, ao menos aparentemente, uma marca realmente inovadora do ponto de vista da relação da mídia com a opinião pública.

Quem sabe, assim, o Google poderia abrir caminho para se transformar em uma companhia verdadeiramente global — da forma como pretende apresentar-se e quer que o público o reconheça — e não — como ele parece ser agora — uma mera extensão do poder do establishment norte-americano — e de seus prepostos locais — sobre a internet e os seus usuários em todo o mundo.
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Tucano oculto


A matéria é ótima, mas não escapou da blindagem tucana.

Botaram o acordo com a bandidagem na conta de Cláudio Lembo, do DEM, que havia assumido o governo de São Paulo porque Geraldo Alckmin, do PSDB, havia renunciado para se candidatar à Presidência da República, em 2006.

Toda a cúpula da segurança pública era de Alckmin e o acordo com o PCC não teria sido feito sem a autorização do tucano, jamais.

Quero só ver se Lembo, uma das poucas cabeças pensantes da direita brasileira, vai assumir essa bronca sozinho.

E se Alckmin vai ter a cara de pau de dizer que não sabia de nada.


Leandro Fortes
No Esquerda Caviar
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O que o PCC ganhou, realmente, no acordo com o governo de São Paulo?

Alckmin em 2010 com o então candidato a deputado estadual Ney Santos, acusado de ligação com o PCC
O que o PCC ganhou no acordo com o governo paulista em 2006?

Na época, a facção realizou vários ataques, especialmente a postos da Polícia Militar, de maneira coordenada. Eles foram interrompidos após uma reunião no presídio de Presidente Bernardes, no interior do estado.

De acordo com o Estadão, a solução foi encaminhada pela advogada Iracema Vasciaveo, então presidente da ONG Nova Ordem, que defendia os direitos dos presos e representava o PCC.

Iracema esteve com Marcola, o líder. O substituto de Geraldo, Claudio Lembo, deu aval para o encontro, bem como os secretários da Segurança Pública e da Administração Penitenciária — Saulo de Castro Abreu Filho e Nagashi Furukawa, respectivamente.

A história foi revelada pelo delegado José Luiz Ramos Cavalcanti, que depunha  num processo contra advogadas supostamente ligadas ao crime organizado. “Eu apenas autorizei a viagem. O que aconteceu lá dentro, não tenho detalhes”, afirma Lembo.

O diabo está nos detalhes. Em tese, garantiu-se a rendição dos criminosos, desde que se assegurasse a integridade física deles. Os atentados cessaram, subitamente, e o poder do PCC só fez crescer. Geraldo sempre negou qualquer tipo de acordo, mas o fato é que a relação com o Primeiro Comando da Capital só se tornou mais confusa, para usar um eufemismo, com o passar do tempo.

O deputado Conte Lopes, ex-delegado, declarou, certa vez, que “essa facção criminosa é cria do PSDB”. O PCC nasceu em 1993 na Cadeia Pública de Taubaté e sua relação com o governo paulista é recheada de episódios assombrosamente estranhos.

Em 2010, Alckmin pediu votos para um candidato a deputado estadual do PSC chamado Claudiney Alves dos Santos, conhecido como Ney Santos.

Pouco depois, Santos foi preso, acusado de adulteração de combustível, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e formação de quadrilha. Era também investigado por envolvimento com o PCC. Em seu nome, possuía um patrimônio de 50 milhões de reais, incluindo uma Ferrari e um Porsche.

Ok. Alckmin muito provavelmente não sabia do passado, do presente e do futuro de Santos. Mas nem sua equipe?

Em 2012, um inquérito sobre o envolvimento de PMs com o PCC foi arquivado. Um ano depois, aconteceu outro episódio de ampla repercussão, em que o governador saiu-se como herói na luta contra os bandidos.

Ele teria sido ameaçado de morte, segundo um recado interceptado. “Os bandidos dizem que as coisas ficaram mais difíceis para eles, pois eu quero dizer que vai ficar muito mais difícil”, disse GA, triunfal, em Mirassol. “Nós não vamos nos intimidar. É nosso dever zelar pelo interesse público.”

Não contavam com a astúcia do ex-secretário Antônio Ferreira Pinto, que revelou que a escuta dos membros do PCC circulava desde 2011.

“Esse fato não tinha credibilidade nenhuma. A informação é importante desde que você analise e veja se ela tem ou não consistência. Essas gravações não tinham. Tanto que o promotor passou ao largo delas”, falou.

“Aí vem o governo e diz: ‘Não vou me intimidar’. Ele está aproveitando para colher dividendos políticos”. De novo: Geraldo, muito possivelmente, não tinha ideia de que as tais ameaças tinham dois anos de idade e nunca foram levadas a sério.

No início de 2014, outro evento inacreditável. Um relatório vazado do Ministério Público dava conta de um esquema para tirar Marcola e outros três chefões da penitenciária de Presidente Venceslau.

O plano estaria sendo arquitetado há oito meses. Os homens já tinham serrado as grades das janelas de suas celas, colocando-as de volta em seguida, devidamente pintadas. Eles sairiam dali para uma área do presídio sem cobertura de cabos de aço, de onde seriam içados por um helicóptero com adesivos da Polícia Militar.

O “vazamento” do documento criou situações surreais. Policiais ficaram de tocaia aguardando os meliantes. Jornalistas correram para lá. No Jornal Nacional, um repórter perguntava, sussurrando, a um franco atirador como funcionava a arma dele. Diante da falta de ação, era o jeito.

Claro que não aconteceu nada. Alckmin, no entanto, estava pronto para faturar. Na Jovem Pan, elogiou “o empenho da polícia de São Paulo, 24 horas, permanentemente, contra qualquer tipo de organização criminosa, tenha a sigla que tiver. São Paulo não retroage, não se intimida”. Para ele, “lamentavelmente, isso acabou vazando.”

Nomeado em janeiro, o secretário de segurança pública Alexandre Moraes é advogado em ao menos 123 processos de uma cooperativa denominada Transcooper, citada em investigações que apuram lavagem de dinheiro do PCC. Em nota, avisou que “renunciou a todos os processos que atuava como um dos sócios do escritório de advocacia”.

O PCC, hoje, controla áreas inteiras da cidade, as cadeias, tem ligação com escolas de samba e mantém bases no Paraguai e na Bolívia. Um fenômeno.

Naquele ano de 2006, Geraldo deu uma entrevista a uma rede de televisão australiana. A jornalista quis saber sobre os “grupos de extermínio” e sobre as ações da facção. Irritado, ele se levantou da cadeira e encerrou o papo.

“Esse é um problema do governo estadual. Você deveria ir falar com eles. Tchau, tchau. Bye, bye”, diz. “Se eu soubesse que era sobre isso, não tinha entrevista. Não faz o menor sentido”. A entrevistadora ainda tentou, inutilmente, um apelo: “Alguém precisa falar sobre isso”.

O que o PCC levou, de fato, no tal acordo permanece uma incógnita. Geraldo Alckmin, ao menos, vem levando excelentes dividendos políticos com um pacto cujo preço é pago por seus eleitores.



Kiko Nogueira
No DCM
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Haddad: ‘Quem não tem projeto usa a irracionalidade para interditar o debate’

Para prefeito de São Paulo, artificialismo do noticiário interessa ao conservadorismo. E manter a irracionalidade na discussão sobre políticas públicas serve para desviar atenção do projeto de cidade


O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, não tem ilusões de que o ambiente das eleições municipais, no próximo ano, privilegie o debate de ideias sobre projetos de ampliação do exercício da cidadania. “O que vai acontecer em São Paulo no ano que vem, e de uma maneira geral, nas grandes cidades, tem a ver com a questão nacional”, acredita. Em conversa com jornalistas na semana passada, o prefeito disse acreditar que o campo conservador não tem qualidade para vencer o debate e tentará colher, nas próximas eleições, os frutos de ter desviado o debate para o que chama de “subterrâneos” da política.

“O que vivemos hoje começou a germinar há pelo menos dez anos. Desde a reeleição do Lula se cultiva um sentimento no subterrâneo da sociedade, contraditório com os índices de aprovação das próprias pesquisas. A popularidade do Lula não parava de subir, chegando a mais de 80%, o ruim e péssimo do Lula chegaram a 4%. Nem assim se dava de barato que a Dilma seria eleita. Como é que com 83% de aprovação ainda se podia ter dúvidas sobre a vitória?”, questiona, observando que o conservadorismo, na ocasião “sem chance campo socioeconômico”, impôs-se no campo do moralismo, do comportamento, da cultura. O prefeito admite que a situação econômica hoje já não é tão favorável, pelo fato de o governo ter cometido erros de diagnóstico — “temos que calibrar (o ajuste) para antecipar a retomada do crescimento”.

Mas ainda vê muito espaço para o debate de ideias e projetos, algo que falta no espectro oposicionista. “Os adversários estão errando a mão, com faziam há dez anos. Batiam todo santo dia no Bolsa Família. Você não ia conseguir nunca para o Bolsa Família, nem com R$ 1 bilhão de publicidade, o que conseguiu com o Jornal Nacional, por vias tortas”, ironizou. Para Haddad, não resta à esquerda opção que não seja conduzir o debate para o campo do projeto: “Eles não poderiam perder uma eleição nunca com o poder econômico e político e midiático concentrado do jeito que é. Perdem porque são ruins. Observe o que estão fazendo no Plano Nacional, o Aécio é visto hoje por muita gente boa como patético”.

Leia a seguir alguns dos trechos das intervenções do prefeito.

‘Em 2012 não fugimos da discussão
ética. E não vamos fugir em 2016’

“Ainda existe espaço de autonomia no debate de questões locais. Em 2012, fizeram coincidir o julgamento do mensalão durante os 45 dias do programa eleitoral gratuito na TV. Às vésperas do primeiro turno, o Jornal Nacional levou um especial que durou uns 18 minutos para praticamente proferir a sentença de um julgamento que não havia ocorrido ainda. Mesmo com tudo isso, conseguimos travar um debate na cidade, que passou também pela ética. Não fugimos disso, como não vamos fugir ano que vem. E o fato é que tivemos êxito.

“As pessoas costumam dizer que São Paulo é uma cidade conservadora e eu sempre respondo: é uma cidade onde atuam forças conservadoras. Nunca dou de barato que a cidade é conservadora, mesmo porque a gente ganha, às vezes. Isso significa que tem espaço para o jogo aqui. O que nós estamos vivendo hoje, na verdade começou a germinar há pelo menos dez anos. Desde a reeleição do Lula se cultiva um sentimento no subterrâneo da sociedade, inclusive contraditório com os índices de aprovação das próprias pesquisas. A popularidade do Lula não parava de subir, chegando a mais de 80%, o ruim e péssimo do Lula chegaram a 4%. Nem assim se dava de barato que a Dilma seria eleita, por exemplo. As chances eram boas, mas como é com 83% de aprovação ainda se podia ter dúvidas sobre a vitória?

“A gente sabia que no subterrâneo da sociedade se travava outro tipo de disputa. Como naquela ocasião o debate socioeconômico estava vencido, a vitória estava dada no campo progressista, começaram a impor uma posição no campo do comportamento, da cultura, e não é por outra razão que eles fizeram várias tentativas de criar uma animosidade sobre temas caros à esquerda. Perderam — mas tentaram.

“Por exemplo, a questão da transferência de renda, a primeira tentativa foi tentar dizer que os pobres iam acabar se acomodando, que era um paternalismo, clientelismo. Quando na verdade era um programa anticlientelista, por ser universal, de superação da extrema pobreza no país, hoje vitrine no mundo inteiro. Mas houve uma tentativa da direita de desconstituir o Bolsa Família, tentando fazer com que a maioria da população não beneficiada se voltasse contra os beneficiários.”

‘O Serra se aliou às trevas e ao submundo’

“Outra tentativa deles foi dizer que a meritocracia estava sendo colocada de lado... Aqui em São Paulo, a primeira atitude minha foi cravar cotas raciais — não é nem social, era racial, para negros no serviço público. Não tinha um procurador negro. No último concurso, de 70, 14 entraram. E estamos melhor do que estávamos. Em 2010, a discussão do aborto, que queira ou não queira é debate sobre gênero — também tentaram entrar nessa. Em 2012, veio a questão LGBT. Usaram o fato de eu ter sido ministro da Educação para vir com aquela história de kit gay, coisa absurda, o que foi derrotado depois, quando se mostrou que os materiais eram muito semelhantes aos já distribuídos pelo governo do estado. Eles foram pra cima, e se nós tivéssemos recuado, como a Marina fez em 2014, eu não sei o que teria acontecido.

“Se eu tivesse piscado, quando o Malafaia veio a convite do Serra para São Paulo, e ele disse que ia “me destruir”, se eu tivesse reagido ali com um “olha, vamos conversar?, vou sentar com o Malafaia para me explicar...” Eu falei simplesmente que o Serra estava se aliando às trevas, e que o submundo da política não vai ditar as normas aqui em São Paulo. Saiu em todo lugar que eu chamei o Serra de submundo, de trevas. Dentro do PT teve quem disse ‘pô, você está louco, falando mal de pastor?’

“Então, não teve tema em que esses caras não tentaram colocar as camadas da sociedade umas contra as outras. Eles não tiveram êxito eleitoral, mas houve impacto. Essa ação de dez anos cultivando a intolerância tem efeito sobre a sociedade. Como disse o Umberto Eco, a internet é dar um microfone na mão de todo mundo, inclusive na dos idiotas também. O que acaba acontecendo com isso é que se você conversar hoje com uma parte da juventude, ela está contaminada com o discurso de intolerância. E mesmo nas camadas ascendentes que deveriam ser protagonistas de um avanço maior no ponto de vista civilizatória, muitos estão reféns deste discurso de intolerância.”

‘Problema não é fiscal, é monetário.
Juro de 14% ao ano é insustentável’

“Meu pai dizia ‘não se mata uma vaca que não deu leite em um ano’, e aqui em um ano eles vêm e passam a faca. Não estou dizendo que o governo não errou. Houve problemas de diagnóstico, e algumas medidas que foram tomadas agravaram — na boa intenção de mitigar. Houve uma série de políticas anticíclicas que não surtiram efeito. O problema da política atual nem é a política fiscal. Na verdade, criamos um buraco fiscal que momentaneamente precisa ser observado. Mas a política monetária atual, esta sim, pode comprometer não só o crescimento como o próprio ajuste fiscal, do qual dependemos para retomar o crescimento. É completamente insustentável taxa de juros em 14% ao ano, nas condições dadas de retração do PIB, do desemprego em 8%, inflação perto de 10%.

“Então, estamos vivendo um momento em que houve um trabalho no campo do comportamento, da cultura, durante dez anos, que já está tendo algum êxito. Você tem uma parte de população que já nem vota. E um governo tinha 85% de aprovação em 2010 e ganhamos de 55% a 45%. Não tem moleza. Daí hoje vem a crise econômica e junto toda uma operação jurídico midiática em torno da questão da Petrobras, você tem todos os ingredientes de uma crise institucional. Essa que é a verdade. O governo tem de ter um pé de apoio.

“Neste contexto, o que podemos fazer? Executar nossa visão de cidade. Educação, moradia, mobilidade, tudo. Não estou querendo aqui condescendência, mas não é fácil ser prefeito convivendo com zero porcento de crescimento. Em todo o meu mandato, a economia do país terá crescido zero, e a paulistana terá decrescido. Eu não conheço um governante que tenha vivido esta situação: zero de crescimento durante quatro anos, R$ 2,3 bi de perda de arrecadação de tarifa, R$ 1 bi de IPTU e R$ 1,5 bi de pagamento de precatórios a mais do que se pagava — isso em três anos, com precatórios ainda não sei o que vai ser da minha vida ano que vem. Depende de decisão do Supremo e do Congresso."

‘Em dois anos recebemos R$ 400 milhões
do PAC; o Rio, em um ano, teve o dobro’

“O milagroso dessa história toda é que no ano passado nós batemos o recorde de investimentos. E o que nós fizemos foi atuar sobre o custeio como nunca se atuou. Cada contrato dessa prefeitura foi revisto, começando pelos maiores. Teve contrato que nós tiramos 25% do valor sem mexer na quantidade, só mexendo no preço. Então foi se criando um espaço de atuação junto à dívida ativa, uma série de procedimentos, que nos deu sustentabilidade, apesar dessa conjuntura. Não estou recebendo apoio federal, desde que tomei posse. Em dois anos de gestão entregaram R$ 400 milhões do PAC – e só ano passado o Rio de Janeiro levou R$ 800 milhões. A renda da situação da dívida foi deixada para o ultimo ano. Fiquei três anos pagando. Conseguimos (rever toda a dívida), mas para as próximas administrações; para o meu atual governo, se tiver, vai ser para o ano que vem. Muito em cima da eleição.

“E mesmo assim por que eu acho que ainda somos competitivos, dentro deste contexto? Porque em São Paulo está se discutindo política pública. Ninguém está discutindo se sou honesto ou não. Está se discutindo a mais avançada política pública possível em uma cidade. Tem feito muito sucesso na periferia você levar universidade pública para os CEUs, Para um sujeito que mora na periferia a USP não existe, é um sonho irrealizável. Mas se você fala que no CEU ali e tem uma vaga pública, começa a aproximar o jovem de periferia.

“Na questão da mobilidade estamos no terceiro ano de mudanças. Primeiro ano, foi pau nas faixas de ônibus. Só parou com ciclovia. Esqueceram a faixa de ônibus, e pau na ciclovia. Largaram a ciclovia agora, e pau na questão da redução da velocidade. Então, as duas primeiras já vencemos, consolidou. E essa ultima ainda vamos vencer, porque o resultado é muito importante. Li numa reportagem do Le Monde que a redução da velocidade em Paris, de 80 (km/h) para 70, aumentou em 18% a velocidade média dos carros. Os prefeitos de Londres e de Paris estão sabendo o que está acontecendo aqui em São Paulo. Quando eu falei que a OAB ia entrar com uma ação contra a redução, me perguntaram: ‘Como assim? A Ordem dos Advogados vai entrar com uma ação contra a prefeitura?’ Os dois me disseram: ‘Olha, no caso do ônibus e ciclovias, o retorno é muito de médio e longo prazo, mas na redução em dois, três meses vai ter o que apresentar. Segura firme que vai passar’.

“Na campanha dará tempo de mostrar que isso vai salvar vidas e melhorar a fluidez no trânsito, porque hoje ninguém quer saber. Você tem Bandeirantes, Jovem Pan, Estadão batendo... Não querem nem saber. O jornal que elogiou o Kassab quando reduziu a velocidade na Avenida 23 de Maio é o mesmo que critica a redução nas marginais. Na 23 de Maio já melhorou a situação. Mas ninguém quer saber. A irracionalidade que hoje tem uma dose forte de artificialismo interessa à política conservadora. Manter o quadro de irracionalidade. De interdição do debate sobre políticas públicas. Tudo isso desvia a atenção do que está em jogo.”

No combate à corrupção, não tem
governo que tenha feito mais’

“Numericamente, estamos entrando em todas as áreas da prefeitura, subprefeituras, secretarias, passando pente fino em tudo. Contrato por contrato, servidor por servidor, toda a evolução patrimonial, inclusive dos gestores políticos, tudo é conferido e acompanhado. Não tem um debate que não podemos ganhar. Mas vai ser a eleição mais difícil do mundo. É mais fácil estar melhores condições em 2018 do que e 2016.

“Os adversários estão errando na mão pois estão criticando coisas que são parecidas com o que faziam há dez anos. (E causando um efeito inverso.) Batiam todo santo dia no Bolsa Família. Você não ia conseguir essas publicidade nunca para o Bolsa Família como a imprensa acabou fazendo. Se tornou uma coisa só, Lula e Bolsa Família. Nem com R$ 1 bilhão de publicidade você ia conseguir o que conseguiu com o Jornal Nacional, por vias tortas. Não criticavam exatamente, mas ficavam problematizando, aquilo foi colando e se agigantou.

“Eles não poderiam perder uma eleição nunca com o poder econômico e político e midiático concentrado do jeito que é. Perdem porque são ruins. Observe o que estão fazendo no plano nacional, estão se desconstruindo. O Aécio é visto hoje por muita gente boa como uma pessoa patética.

“Mas vai ser um ano daqueles. Vão centrar muita força. Em 2012, o que eles fizeram quando perderam em São Paulo foi vergonhoso. Eles vão redobrar as energias para tentar nos fazer perder em 2016 e selar o destino das próximas eleições presidenciais. Agora, temos de ver o que acontece até o final do ano. Vai ser um semestre complicado, teste de fogo para o governo federal. E vai depender muito do desfecho desta crise internacional o que que vai ser da esquerda a partir do ano que vem. Então, é um semestre delicado, até porque também estamos errando do nosso lado. Temos que calibrar (o ajuste) para antecipar a retomada do crescimento.”

Paulo Donizetti de Souza
No RBA
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O lulismo, ontem e hoje

O contingente que vota ou poderia votar em Lula continua majoritário entre os eleitores

A última pesquisa do Instituto Vox Populi, realizada em maio, perguntou aos entrevistados como se sentiam em relação à possibilidade de votar em Lula. Não se especificou se em uma eleição presidencial e menos ainda se na próxima, mas é razoável supor que muitos responderam com a cabeça em 2018.

Havia seis opções de resposta, da simples "certamente votaria nele" à inversa "nunca votei e nunca votaria nele". A primeira foi escolhida por 29% dos entrevistados e a segunda por 16%.

Três das demais possibilidades de resposta envolviam a ideia de "decepção". Uma era "já apoiei Lula, mas ele me decepcionou e nunca mais votaria nele" e outra "já apoiei, me decepcionei e é muito difícil que vote nele outra vez", diferente na ênfase da anterior. Escolheram a mais intensa 14% dos entrevistados, enquanto 12% optaram pela segunda.

A terceira, "já apoiei, me decepcionei, mas é possível que volte a votar nele" foi escolhida por 16% dos entrevistados. Restam 6% que, por qualquer motivo, "nunca haviam votado em Lula, mas que consideravam possível" fazê-lo futuramente e 7% que não souberam responder.

A soma daqueles que, em graus diferentes, podem ser considerados "eleitores potenciais" de Lula chega a 51% e a dos não eleitores a 42%. Alguns dos possíveis eleitores, claro, talvez não confirmassem o voto, assim como alguns não eleitores talvez se decidissem por ele. Fato: o eleitorado potencialmente lulista é majoritário na sociedade.

Mais relevante: essas respostas são quase idênticas àquelas obtidas há dez anos em pesquisa também realizada pelo Vox Populi. Em abril de 2006, seis meses antes da eleição na qual Lula foi reeleito, a mesma pergunta havia sido feita. Seus resultados mostram quão estáveis são os sentimentos profundos do eleitorado.

O agregado daqueles que votariam "com certeza" somados aos que, embora "decepcionados" (naquela altura com o mensalão), achavam "possível votar outra vez", chegava a 47% e agora ficou em 45% (incluídos os "decepcionados" do momento). Quem afirmou nunca ter votado, "mas achava possível votar" formava um contingente de 7% e agora 6%.

Em 2006, baseado no "voto potencial" projetado pela pesquisa, Lula obteria 54% do voto total e 59% do válido. Não custa lembrar que, quando as urnas do segundo turno foram computadas, o petista venceu a eleição com 61%.

Quem quiser se iludir com pesquisas de intenção de voto para 2018 que exibem números para Lula entre 20% e 25% que o faça. Na melhor das hipóteses, os resultados tornam conjunturais fenômenos que nada de conjuntural possuem. Ao se pensar no momento presente avalia-se um governo, mas não é a partir do raciocínio em relação ao que acontece hoje que o eleitor escolhe um candidato a presidente.

As pesquisas mostram, no fundo, a força de Lula, mesmo quando se considera o mau momento que a presidenta Dilma Rousseff e o PT atravessam. E sugerem que qualquer melhora na percepção dos resultados da ação do governo, provável no horizonte de 2018, tende a aumentá-la.

A força de Lula vem de ao menos de três fontes. A primeira é sua base eleitoral muito grande, maior e mais sólida do que a de qualquer político em nossa história. Ela foi construída ao longo de uma sucessão de candidaturas nacionais, próprias ou não, que fizeram dele um personagem cuja presença no centro da vida política brasileira dura quase o dobro do que durou toda a República de 1946, a única experiência de democracia que conhecemos até o fim do século XX.

As identidades políticas (como outras, associativas, clubistas etc,), formam-se no tempo e na repetição, à medida que o indivíduo se define e se confirma nela. Os lulistas tornaram-se, cada vez que votavam de novo em Lula, mais lulistas, mais comprometidos com suas escolhas passadas e mais predispostos a, mesmo na adversidade, permanecer lulistas.

A segunda fonte é a satisfação da vasta maioria da opinião pública com o desempenho de Lula no governo. Sua vantagem em relação ao melhor nome que as oposições tiveram para contrapor-se a ele, o de Fernando Henrique Cardoso, chega a ser acachapante em algumas áreas. No quesito "O presidente que teve mais preocupação com os pobres" bate o tucano por 77% a 6%.

A terceira é a mais óbvia: a identificação do cidadão comum com sua figura. Diante de adversários com rosto e biografia típicos das elites tradicionais, é fácil ter mais confiança em alguém como ele.

A próxima eleição está distante e ninguém sabe como será disputada. Mas de uma coisa podemos estar certos: se for candidato, Lula é favorito.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
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E agora, a lista do HSBC

O disco do Opportunity não foi aberto. Dez anos depois, o Brasil parece disposto a deixar em paz os sonegadores graúdos, protagonistas em ambos os casos

A capa de 12 de outubro de 2005 conta um
enredo melancólico que ameaça repetir-se,
para a felicidade da casa-grande
Delicioso editorial do Estadão de terça 21, a lembrar os melhores textos do senhor Pott, inolvidável diretor da Gazeta de Eatanswill em os Pickwick Papers de Dickens. Lê-se no jornalão que o ex-presidente Lula “só pensa em 2018”. Era do hábito do senhor Pott que a verdade factual pouco lhe importasse, tratava-se de alguém dotado exclusivamente de certezas. Parece difícil acreditar que Lula, neste exato instante, só pense em 2018. Quem, pelo contrário, cultiva a obsessão aterrorizada do retorno do ex-metalúrgico à Presidência é, de fato, a mídia nativa.

Aos barões midiáticos desaconselho fervorosamente a leitura da coluna de Marcos Coimbra, desde que se dignem a tanto. O diretor do respeitável Instituto Vox Populi aponta em Lula o favorito do próximo pleito presidencial, a despeito das turbulências atuais, com efeitos semelhantes àqueles precipitados pelo chamado “mensalão”. 

Só faltava esta, mas Coimbra é cidadão desassombrado. Há escândalos e escândalos, está claro, para influenciar momentos políticos variados, e não me referirei desta vez aos eclodidos durante o governo de Fernando Henrique, monumentais e mesmo assim silenciados. Estrondosamente. Mas também há presidentes e presidentes.

Não preciso perguntar aos meus botões por que a Operação Lava Jato prossegue impávida, a nos brindar com acusações a serem provadas, e até condenações, enquanto em torno da célebre lista dos grandes sonegadores brasileiros que filtrou através do sigilo do HSBC suíço fecha-se a omertà, como se diria na Sicília, igual ao mar sobre um barco furado. Inclusive por parte do jornalista nativo que milita em um Consórcio de dimensões globais, em poder de uma parte do elenco vip.

Moita. Caluda. E não se trata de café-pequeno, e sim de mais de 7 bilhões de dólares escondidos em cofres pretensamente seguros. Me sobe à memória o episódio protagonizado, dez anos atrás, pelo disco rígido capturado pela Operação Chacal na sede do Opportunity do indestrutível, onipresente Daniel Dantas. Aquele mesmo que, preso anos após pela Operação Satiagraha, contou com o pronto socorro de Gilmar Mendes, o ministro do STF disposto a “chamar às falas” o então presidente Lula e provocar o desterro do honrado e competente delegado Paulo Lacerda.

Esquecido o disco rígido, enterrada a Satiagraha. Em 2005, o disco foi entregue ao STF pela PF dirigida por Lacerda, que no segundo mandato de Lula se transferiria para a Abin, substituído por um duvidoso Luiz Fernando Corrêa. O disco acabou nas mãos da ministra Ellen Gracie, a qual nunca disse por que o seu conteúdo deixou de ser revelado. Em oportunidades diversas, duas autoridades de alto nível pronunciaram em benefício dos meus ouvidos, e na presença de testemunhas, a seguinte frase: “Se abrirem o disco, cai a República”. Não era conjectura. E uma das fontes admitiria que parlamentares exerciam pressões no sentido de jogar ao lixo o fatídico apetrecho, e também um ministro, o chefe da Casa Civil José Dirceu.

Nada disso me surpreendeu, a corrupção é doença endêmica. Hoje em dia o Partido dos Trabalhadores, que vi nascer esperançoso, encanta-se com um site de obscura origem, que desconfio abastecido por dinheiro do inesgotável Dantas, quem sabe com o beneplácito ou intermediação de Dirceu. Cruzam-se os caminhos da corrupção, a bem da confirmação de um vetusto enredo, que não exclui o moralismo primário dos ingênuos e dos hipócritas.

Dispensados de saída, os botões murmuram sinistramente a probabilidade de que os nomes ilustres elencados no disco do Opportunity figurem em parte, ou mesmo in totum, na lista do HSBC. Machuca, soletram constrangidos, que a Argentina mais uma vez mostre a qualidade da sua democracia na comparação com a nossa incipiente, ao investigar seus sonegadores, com a colaboração de Hervé Falciani, revelador do escândalo, entrevistado páginas adiante e pronto a colaborar também com o Brasil.

Pois é, a Argentina... Somos também o país onde os torturadores não são punidos, os ditadores tornam-se nome de ponte e rodovia, e uma comissão dita da verdade, com V pateticamente grande, cuida de preservar uma Lei da Anistia imposta pela ditadura. Meus botões confessam a dúvida: talvez sejamos o que merecemos.

Mino Carta
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Jornalista entra com representação contra advogado que acusou Dilma de ‘traficante, trambiqueira'

Sérgio Cypriano e José Matos

O advogado é Sergio Cypriano de Moura Ribeiro Marques (OAB/SP 261.179).

O jornalista, José Matos, de Indaiatuba, interior de São Paulo, filiado ao PT desde 1991.

advogada Fabíola Marques compartilhou em seu perfil no Facebook o repúdio da senadora Gleisy Hoffmann (PT-PR) ao adesivo, que simulava estupro da presidenta Dilma e estimulava a violência contra as mulheres em geral.

Em resposta, o advogado Sergio Cypriano de Moura Ribeiro Marques postou no mural da colega de profissão um comentário machista, difamatório e acusador. Além de colocar em dúvida a existência do adesivo misógino, criminoso, acusa Dilma de “traficante, trambiqueira, terrorista”.

O jornalista José Matos, filiado ao PT desde 1991, rechaçou.

A partir daí, os dois começaram a debater. Primeiro, em mensagens públicas. Depois, a pedido de Sergio Cypriano de Moura Ribeiro Marques, no privado, in box.

O advogado chamou José Matos de “vagabundo”, ameaçou-o (“Te marquei e vou te achar”), disse que ele “deve receber dinheiro roubado”, “dinheiro de quadrilha”, arrematando: “A tua mãe [a de José Matos] é puta e por isso não respeito mesmo”.

O jornalista José Matos denunciou: “O advogado Sergio Cypriano de Moura Ribeiro Marques ultrapassou todos os limites. É um disparate sem tamanho que ofende todas as brasileiras”. E advertiu: “Sergio Cypriano de Moura Ribeiro Marques é reflexo da impunidade. Chega de sermos desrespeitados, agredidos  física e moralmente, e de deixarmos barato!”

O jornalista cumpriu o que prometeu. Nesta semana, deve interpelar cível e criminalmente Sergio Cypriano de Moura Ribeiro Marques.

Na quinta-feira passada, 23 de julho, José Matos entrou com representação na OAB-SP contra o advogado Sergio Cypriano de Moura Ribeiro Marques.

A representação (na íntegra, ao final) contém 20 páginas mais 59 de documentos anexos, entre os quais a matéria do Viomundo.

Nela, Matos descreve em detalhes o que aconteceu, adverte que a internet não pode ser tratada como terra de ninguém, mostra que o advogado entrou com ações contra ex-namoradas, diz que ele cometeu várias infrações disciplinares e requer que a representação seja admitida e instaurado processo disciplinar. Alguns trechos:

OAB 1 a novo-001
Representação à OAB 1-004
OAB 2aa-001
OAB 2 a-003
OAB 3 a

A propósito. Bem no final da reportagem que publicamos em 14 de julho, Advogado, que acusa Dilma de traficante e trambiqueira e jornalista de receber dinheiro de quadrilha, não é professor da USPfizemos vários questionamentos.

Ao presidente da OAB Nacional, doutor Marcus Vinicius Furtado Coêlho:

O que acha sobre um advogado que diz que a OAB é “laranja” e cujo comportamento em público e no privado é de absoluta baixaria?

— A OAB Nacional tomará alguma medida? Qual ou quais? E quando?

Ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo:

— Quando finalmente o senhor vai  acordar para as barbaridades sexistas, machistas, criminosas, que estão sendo cometidas contra a presidenta Dilma e outras mulheres nas redes sociais?

À ministra Eleonora Menecucci, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República:

— Já não está passando da hora de ser mais drástica e ágil contra os que incitam violência em geral contra as mulheres?

— A senhora concorda que a postura de Sergio Cypriano de Moura Ribeiro Marques é também um ato de violência contra as mulheres e ele como advogado sabe muito bem disso?

— Será que mais esse caso vai ficar impune?

Após a publicação da matéria, contatamos por e-mail e telefone as assessorias (várias vezes) de imprensa desses órgãos, pedindo que seus titulares comentassem e fazendo os questionamentos acima aos seus titulares.


Lamentavelmente Nenhum retorno da OAB (motivos corporativos?) nem do Ministério da Justiça.

Apenas a SPM, após muita insistência, limitou-se a uma nota burocrática, insípida, que cabe em qualquer circunstância e “vai sozinha” para a redação .

O governo está investindo no enfrentamento da violência contra a mulher, tanto no cumprimento da Lei Maria da Penha, quando na nova Lei do Feminicídio e em uma mudança de comportamento com o Humaniza Redes. Nossa ação é para que todos que cometem atos de violência contra as mulheres, de qualquer natureza, sejam responsabilizados. O Estado brasileiro — órgãos da justiça, Ministério Público e poderes executivos — vem travando uma luta incansável para sair da situação em que estamos no ranking mundial da violência.

Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República.

“É visível no comportamento desse advogado a sensação de impunidade e desrespeito às leis e aos bons costumes. Ele não respeita nem o órgão que o representa, chama seus membros e colegas de profissão de ‘laranjas'”, atenta o jornalista João Matos. “É um caluniador e difamador habitual e agressivo em relação às mulheres. Ele não mede palavras para ofender, agredir, caluniar, violar e afrontar a dignidade humana.”

“A decisão disciplinar da OAB em relação a ele será uma resposta à sociedade de como deve se portar os seus associados”, avalia José Matos. “O que está em discussão é se Estatuto do Advogado tem valor prático, de fato e de direito, e se pode ser evocado quando a sociedade é vítima de algum dos seus associados.”

Representação à OAB-SP de José Matos contra Sérgio Cypriano de Moura Ribeiro Marques



Conceição Lemes
No Viomundo
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Uber

Protesto contra excelência

Nós, taxistas, gostaríamos de protestar contra o excelente serviço prestado pela empresa Uber. Do jeito que a coisa anda, tudo indica que, em breve, todo passageiro vai querer respeito, conforto e educação.

Outro dia um passageiro veio me pedir pra abaixar o som. Aí você me pergunta: o carro é dele? Não. Então por que é que ele quer mandar no volume? Se o motorista quer digitar no WhatsApp enquanto dirige falando no Nextel e ouvindo a rádio do pastor é um direito dele.

O mesmo sujeito perguntou se eu tinha uma garrafinha de água. Eu lá tenho cara de Sabesp? Parei pra mijar no poste. Ele reclamou, disse que tava atrasado. Pelo amor de Deus. Sabe o que eu devia ter feito? Mijado numa garrafinha. Toma a sua água, tá feliz? Daí passou um pivete e eu disse que eles tinham mais é que morrer fuzilados. O cliente ficou horrorizado. Pediu pra sair. Gente, "pivete tem mais é que ser fuzilado" é o nosso "bom dia". Nunca chocou ninguém. Daqui a pouco não vou mais poder ter saudades da ditadura. Aí acabou o assunto de vez.

Meu colega tava parado no ponto e veio um passageiro querendo ir pro subúrbio. O colega recusou. É direito dele: o colega simplesmente não estava com vontade de ir para o subúrbio, era muito fora de mão para ele, não iria ter passageiro para ele no subúrbio, enfim, uma porrada de razões. O passageiro chamou um Uber. Daqui a pouco não vai mais ser permitido recusar um passageiro só porque a gente não foi com a cara dele.

Existem duas possibilidades. Ou se investe em melhoria da frota e educação dos motoristas para que os táxis estejam à altura da concorrência ou se proíbe de vez a concorrência. Uma das opções é cara e demorada. A outra é vapt-vupt. A sorte é que o secretário dos transportes do Rio já garantiu que tá do nosso lado.

Gastei R$ 200 mil pra comprar meu alvará. Não foi fácil chegar até aqui. Alugo essa licença para um outro taxista que me paga R$ 150 por diária de 12 horas.

Ainda não paguei nem metade dos 200 mil e os locatários não estão conseguindo chegar nem na diária de 150. Daqui a pouco vão querer trabalhar de graça. E quem quebra sou eu.

Imagina que, de repente, o Rio resolvesse investir em metrô de qualidade. Ia ser um tal de companhia de ônibus decretando falência. Por isso que o metrô tá bom assim, mirrado. Vocês reclamam que o país tá subdesenvolvido, mas é isso que garante o emprego de muita gente.

Gregório Duvivier
No fAlha







“Uber: como é usar o serviço do carro preto”


Ontem à noite usei o serviço Uber pela primeira vez em São Paulo. Acompanho as idas e vindas do app-que-pede-um-carro-preto-e-que-chega-logo-e-cobra-direto-do-cartão-de-crédito pelo mundo e resolvi experimentar.

Pra quem não conhece, o Uber é invenção do Vale do Silício. Em 2009, com um monte de dinheiro de investimento de venture capital, a startup começou a operar em algumas cidades nos Estados Unidos e foi expandindo aos poucos para o resto do mundo, e no Brasil já presta serviços em São Paulo (incluindo aeroporto de Cumbica), Rio de Janeiro e, em breve, Brasília. Números enormes: é uma empresa avaliada em US$ 17 bilhões (!!!).

E, a cada cidade que chega, causa confusão e discórdia. O Uber, como qualquer produto internético da Califórnia, prega a disruptura de serviços — nesse caso, o mercado a mudar/transformar é o de transporte. E, claro, os taxistas reclamam (mês passado diversas cidades na Europa viveram o caos por conta de taxistas revoltados contra o Uber. Hotéis fecharam por causa do AirBnbn? Não. A lógica aqui é a mesma.

Resultado? Mais publicidade gratuita para o serviço e um aumento na procura (mesmo com o mundo todo sabendo que o fundador-CEO é meio babaca e que a empresa tem fama de aproveitadora em momentos de necessidade).

Mas, sim, Uber ainda é clandestino no Brasil, já que não contrata motoristas. 

Qualquer pessoa com um carro com especificações X ou Y (novo, preto, de luxo, com bancos de couro) pode virar um Uber-motorista. E a lei brasileira impede que veículos particulares transportem passageiros por pagamento. Na prática, o Uber é um grande organizador de caronas pagas, e isso é proibido.

Fica a dica pros taxistas brasileiros: não reclamem muito (mais do que já reclamam). Menos de um ano atrás os taxistas (em São Paulo pelo menos) odiavam aplicativos de chamar táxi (oi 99Taxi! oi Easy!). Hoje quase todos têm — e as cooperativas, que mais chiaram, também adotaram o modelo (sempre vale o exemplo ruim da situação de ter que pedir um táxi-de-cooperativa-com-boleto no Parque Ibirapuera e teve que ouvir da operadora “Mas senhor, qual o endereço correto desse parque?”).

De qualquer modo, Uber não é para matar o serviço de táxi. É para complementar o transporte em cidades. Em São Paulo, FALTAM taxistas (e metrô e água), então parem de reclamar (prefeituras: resolvam isso de forma educada). Ninguém é obrigado a usar Uber. Usa quem quer.

Mas voltando à vaca fria, andei duas vezes de Uber ontem, para ir e voltar do lançamento do LG G3.

Como moro em uma região mais residencial/menos comercial da cidade, sair de Uber de casa demora. Esperei meia hora por um carro, que estava na região da av. Paulista (uns 15 min sem trânsito daqui). Enquanto escrevo esse texto, entro no app para capturar a tela abaixo e vejo que não tenho sorte mesmo: se precisar agora, mais meia hora de espera.

E usei o Uber porque um amigo (tks Yassuda!) usou e postou seu link de desconto (por enquanto, R$ 55 de bônus. Ao me cadastrar e usar, meu amigo também ganhou novo bônus de R$ 55. É uma estratégia bastante agressiva: force o uso do app dando descontos!)

Diferente dos apps de táxi, o Uber só mostra um carro na tela: aquele que vai te pegar. O motorista não escolhe a chamada nem sabe o destino. Dá para simular o valor final da tarifa no aplicativo.

uber-2

Ao pedir o táxi, o Uber manda um SMS com o nome do motorista e o tempo estimado de chegada do carro. Quando o veículo chega, outra mensagem aparece. O motorista da ida, em um Ford Focus preto com bancos de couro e ar-condicionado, parou na frente de casa, abriu a porta pra mim, pegou água, me ofereceu e fomos pra Vila Olímpia. O motorista pergunta se vamos por algum caminho que eu quero (sim) ou se pode ligar o GPS.

Fomos pelo meu caminho, zero trânsito (milagre), cheguei em meia hora. O motorista falou bastante sobre como está fazendo um monte de corridas pela cidade e que gringos são o principal usuário do Uber, “porque já usam lá fora”. “Vou precisar aprender inglês”, comentou.

Ao chegar ao destino, o motorista toca a tela do iPhone no console do carro, fecha a corrida: R$ 40, cobrados direto no cartão de crédito (como me cadastrei por uma promoção, tinha R$ 55 de bônus, logo não paguei nada pela ida). O valor aparece no seu smartphone (iOS ou Android) e pronto. Sem dinheiro, sem complicação — e um pedido de avaliação da corrida.

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Na volta, a mesma coisa. Como estava na Vila Olímpia, o carro (Nissan Sentra preto, bancos de couro, ar condicionado) chegou em menos de 10 minutos. Note na tela acima que, enquanto você espera o carro, vê a avaliação do motorista — 5 estrelas. Ele também avalia o passageiro no final da corrida.

O mapa deu algum problema e o motorista veio me buscar a pé — ele estava com o carro no quarteirão seguinte. Sergio me explicou que o motorista mesmo estava no carro, ele é um instrutor da Uber para novos motoristas. Em 15 minutos estava em casa, a corrida saiu um pouco mais cara (R$ 44, ainda tinha R$ 15 de bônus, paguei R$ 29).

O preço, no fim das contas, é similar ao de um táxi bandeira 2 pra casa à noite. Ah sim, como o Uber está em fase de testes, o motorista ainda não usa camisa social e gravata (sério, me perguntaram isso quando disse que tinha ido de Uber pro evento).

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Não vou deixar de usar táxis (ou ônibus ou metrô) por causa do Uber.

Não tenho carro (nem quero ter, e é difícil pra nossos governantes e demais cidadãos paulistanos obcecados por carro entenderem isso), e o Uber é mais uma alternativa de transporte pra mim. O que gasto de táxi por mês não paga a mensalidade de um estacionamento na Faria Lima. E, na próxima viagem que precisar ir ou voltar por Cumbica, certamente será minha opção — graças aos inúmeros e escabrosos casos de assalto aos táxis do aeroporto.

Henrique Martin
No DCM







Assista também: Globo não sabe porquê é expulsa do protesto de taxistas cariocas
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Sabe aquela revista inglesa que vive dando aula para o Brasil? Está à venda

Em apuros
Sabe aquela revista que vive dando lições para o Brasil? Façam isso, façam aquilo, sempre pontificando, sempre doutoral.

A inglesa Economist.

Ela está à venda. Não está conseguindo sobreviver à Era Digital. Tão boa para oferecer soluções para o Brasil e para o mundo, a Economist não encontra saída para si própria.

E não está também encontrando comprador.

A Economist é 50% da Pearson, que acaba de vender para um grupo japonês o também professoral diário Financial Times.

Algumas grandes editoras — Bloomberg, Thomson Reuters e Axel Springer — foram procuradas para ver se se interessavam pela Economist.

Nenhuma topou.

Calcula-se que a fatia da Pearson valha 400 milhões de libras, quase 2 bilhões de reais.

A Pearson, aparentemente, quer se encontrar apenas em seus negócios no campo da educação.

Mas quem quer comprar jornal e revista em pleno ano de 2015?

Talvez em países emergentes, por razões específicas. Chineses, no ano passado, arrebataram a Forbes, que foi símbolo de publicação de negócios nos Estados Unidos durante décadas.

No caso do FT, o comprador é também asiático — japonês.

Pode ser importante para países emergentes, em sua escalada internacional, ter a posse de companhias respeitadas de mídia.

E aí chegamos a uma situação anedótica.

Os donos das grandes empresas de jornalismo do Brasil não podem vendê-las para compradores de fora.

Isso por causa da reserva de mercado.

Foi uma forma de protegê-las da competição externa. Quando quase todos os setores da economia brasileira já tinham sido abertos ao mundo, a proteção — algo que vai contra o espírito puro do capitalismo — continuou a vigorar para a mídia, tamanha a força do lobby da mídia.

Era mais uma mamata, até virar uma desvantagem.

Presumivelmente, a China gostaria de comprar alguma empresa relevante de mídia brasileira, dada a importância do Brasil em sua geopolítica.

Digamos a Abril, ou o Estadão, as duas grandes empresas familiares em situação mais dramática.

Mas isso não vai acontecer.

Pela lei, apenas 30% das ações das empresas de mídia podem estar em mãos estrangeiras.

Privilégios, depois de algum tempo, podem virar o oposto: esta é a lição da reserva de mercado para a mídia.

Quanto à Economist, que salva a humanidade toda semana mas não a si própria, convém ler com cuidado cada vez que ela disser o que o governo brasileiro deve fazer ou não fazer.

Paulo Nogueira
No DCM
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"Cunha é principal fator de instabilidade no País"

Para presidente da Associação de Ciência Política, agosto testará estabilidade nacional com denúncias da Lava Jato e 'Fora Dilma'

Eduardo Cunha está no centro de uma encrenca
que envolve diversas instituições
Na antessala de uma denúncia criminal à Justiça por corrupção, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), reagiu com tiros para todo lado à revelação de um lobista de que teria cobrado 5 milhões de dólares em propina. De uma vez só, atacou Palácio do Planalto, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o juiz Sergio Moro. À luz do dia e nos bastidores, distribui ameaças de retaliação ao governo.

Para o presidente da Associação Brasileira de Ciência Política, Leonardo Avritzer, o comportamento do deputado não deixa dúvidas: “Eduardo Cunha é o principal componente de instabilidade no País hoje, não é a presidenta [Dilma Rousseff]”. “Mas ele não tem nenhuma condição de sustentar esse nível de conflito com todos os poderes. Pode talvez causar um pequeno dano ao governo no ajuste fiscal”, diz.

Pode e já dá mostras de que vai. Um dia depois de o governo anunciar que iria propor ao Congresso o rebaixamento da meta fiscal de 2015, de 1,1% para 0,15% do PIB, Cunha avisou via mídia que o Planalto terá “dias difíceis” para aprovar a mudança no Parlamento. Sem a alteração, Dilma poderá incorrer em crime de responsabilidade, ponto de partida para um processo de impeachment.

Para Avritzer, a situação de Cunha lembra a do ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti. Eleito para o cargo em 2005 graças ao baixo clero, tropa de parlamentares inexpressivos e apelo midiático, a mesma que deu poder a Cunha, Cavalcanti foi forçado a deixar o posto sete meses depois, sob a acusação de receber “mensalinho”. “A situação em 2005 só se estabilizou com a renúncia do Severino”, lembra o cientista político. Mas será que o baixo clero continuará com Cunha para o que der e vier? “É difícil saber, é a grande incógnita.”

A postura do baixo clero será importante para o futuro de Cunha, mas não será a única. E talvez nem a decisiva. “Ele é um presidente muito atípico. É forte no baixo clero, mas transita bem entre as lideranças da Câmara e até do Senado, como o [senador tucano] Aécio Neves.” Por isso, diz Avritzer, não é certo que as manifestações pela renúncia de Cunha feitas por deputados experientes como Miro Teixeira (PROS-RJ) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) ganhem corpo na Casa.

A iminente denúncia preparada por Janot contra Cunha será um dos elementos a fazer de agosto um mês decisivo. Uma penca de políticos processados pela Lava Jato, nova passeata “Fora Dilma”, julgamento das contas fiscais do governo, Cunha na oposição, re-indicação de Janot por Dilma para o cargo de procurador-geral. “Agosto vai testar a estabilidade das instituições políticas do País. Desde a redemocratização, nunca tantas instituições estiveram envolvidas em um momento de forte impasse”, afirma Avritzer.

E, desta vez, ressalta ele, a turbulência esperada dentro do Legislativo será de um tipo diferente. Janot denunciará não só o presidente da Câmara, como também o do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) e uma leva de deputados e senadores, todos enroscadas com falcatruas na Petrobras. “Crise simultânea na Câmara e no Senado é rara. A novidade para o segundo semestre é esta, a possibilidade de crise simultânea nas duas Casas”, diz o analista.

A crise do “mensalão” em 2005 e 2006, por exemplo, limitou-se à Câmara. Nos dois anos seguintes, Calheiros e depois José Sarney (PMDB-AP) enfrentaram dramas particulares à frente do Senado, mas sem que isso contaminasse o ambiente entre os deputados.

Mesmo que também seja alvejado por Janot — e será —, Calheiros parece estar em condições melhores de sobreviver do que Cunha, na avaliação de Avritzer. “O Renan é uma crise mais clássica, ele já passou por isso antes, tem apoio forte no PMDB do Senado. O Eduardo Cunha é mais difícil de prever. Poucas pessoas atiraram em tantas direções no mesmo dia. Se ele provocar uma crise aguda entre o Poder Legislativo e o Poder Judiciário, e não é improvável, o Renan pode se dar bem.”

Não é à toa que no PT e no Planalto, algumas vozes já aconselhem Dilma a tentar aproximar-se de Calheiros, a fim de não ter contra si Câmara e Senado ao mesmo tempo. Mas será que a petista topa mudar de postura? “Se ela tirar as lições da instabilidade do primeiro semestre, atuar junto ao Poder Judiciário, saber se defender no Congresso e falar às ruas, se for exitosa nisso, estabiliza a crise com ela. Mas, pelo que se viu no primeiro semestre, não parece provável”, afirma Avritzer.

De qualquer forma, ainda que o turbulento agosto detone uma campanha de impeachment, no embalo de manifestações de rua, “pedaladas fiscais” e mau humor do Legislativo, Avritzer entende que um Congresso devastado pela Lava Jato não tem autoridade para depor a presidenta. “Impeachment é uma questão política e legal que também exige uma base moral. Não me parece haver nem base política, nem base moral para este Congresso cassar hoje a presidenta.”

André Barrocal
No CartaCapital
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Ministro do TCU é acusado de receber dinheiro desviado

O ex-tesoureiro da Prefeitura de Campina Grande (PB) Rennan Trajano Farias afirmou que, em 2010, fez entregas de dinheiro em espécie ao então candidato ao Senado Vital do Rêgo (PMDB-PB), hoje ministro do TCU (Tribunal de Contas da União).

O dinheiro foi desviado, segundo Farias, de um contrato de R$ 10,3 milhões entre a prefeitura e uma empreiteira que não executou os serviços.

Farias, que gravou um vídeo para o TV Folha, (assista baixo), com a acusação, disse que também fez entregas ao irmão do ministro, o deputado federal Veneziano Vital do Rêgo (PMDB-PB), e a firmas que atuavam nas campanhas da família.

Em 2010, o ministro do TCU disputou e ganhou uma vaga no Senado pelo PMDB-PB. Veneziano era prefeito de Campina Grande. Eles negam as acusações (leia abaixo).

No TCU, Vital será um dos nove ministros a analisar as contas de 2014 da presidente Dilma Rousseff. Ele é ligado ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). A análise é vista pela oposição como possível via para um processo de impeachment.

Farias foi uma importante peça das duas gestões de Veneziano (2005-2012) em Campina Grande. Diretor financeiro da Secretaria de Finanças, era responsável pelo fluxo de caixa do município.

Na segunda gestão, ele e Veneziano se distanciaram e romperam. Segundo Farias, isso ocorreu porque os Vital do Rêgo deixaram de reconhecer as dívidas que ele contraía com agiotas para financiar as campanhas do grupo. O ex-tesoureiro disse que "perdeu tudo" para quitar os compromissos e ainda deve cerca de R$ 1 milhão.

Farias disse que foi ameaçado de morte pelos agiotas e tentou se suicidar, tendo sido salvo por um amigo. Passou a frequentar uma igreja evangélica e decidiu que deveria tirar o "peso da consciência".

"Eu participei e eu também devo e mereço receber a minha sentença para que eu possa, arrependido desses erros, buscar sair dessa prisão de consciência", disse.

O ex-tesoureiro contou ter feito as entregas de dinheiro "diretamente no apartamento" do hoje ministro do TCU, no bairro da Prata, em Campina Grande: "[Eu] deixava lá o pacote, ou a caixa, ou a sacola, a caixa de uísque [com dinheiro], depois ele fazia toda a repartição, a divisão, e resolvia seus problemas de campanha", disse.

Farias afirma que assinou cheques no esquema e estima os desvios em em pelo menos R$ 4 milhões. A Folha obteve cópias de documentos que comprovam as assinaturas dele no processo de liberação de verba da prefeitura.

O esquema, disse, funcionou da seguinte forma: a prefeitura assinou contrato com uma empreiteira chamada JGR, que previa genericamente obras "em diversas ruas de diversos bairros" da cidade.

A JGR, diz, só tinha uma secretária e não realizou os serviços. Os cheques da prefeitura eram repassados a outras firmas, Compecc e Contérmica, sediadas em João Pessoa. Essas sacavam o dinheiro e repassavam a Farias para ser entregue aos políticos da família Vital do Rêgo.

Além dos desvios da prefeitura, Farias disse ter levantado cerca de R$ 10 milhões junto a agiotas para as campanhas dos Vital do Rêgo. E falou da existência de um "mensalinho" na Câmara Municipal de Campina Grande.

Outro lado

Em nota, o ministro do TCU Vital do Rêgo negou ter recebido recursos do ex-tesoureiro da Prefeitura de Campina Grande Rennan Trajano Farias e disse que não tem "relações de qualquer natureza com as pessoas citadas no referido e-mail" enviado pela Folha com perguntas.

Vital do Rêgo afirmou ter interpelado judicialmente Farias em dezembro de 2013, para que confirmasse ou negasse o que disse em um vídeo divulgado por um blog da Paraíba na internet, no qual o ex-tesoureiro promete revelar fatos comprometedores sobre Vital do Rêgo e seu irmão Veneziano.

Em janeiro do ano seguinte, a representação foi arquivada por decisão judicial "em razão da não apresentação de explicações por parte do interpelado [Farias]".

Segundo o ministro do TCU, "fazer uso do foro competente não foi o interesse deste conhecido cidadão [Farias], que esquivou de se manifestar nos autos do referido processo de interpelação judicial. Aliás, este comportamento soa como subterfúgio de um cidadão que é notoriamente conhecido na Paraíba pela prática de atos reprováveis, como a transferência de recursos públicos para a sua conta pessoal (matéria veiculada pela mídia paraibana)".

Em sua nota, o ministro disse que o ex-tesoureiro "procurou" a Folha — na verdade ocorreu o contrário, a reportagem é que procurou e entrevistou Farias.

Já Veneziano Rêgo (PMDB-PB) disse que as declarações de Farias são "infâmias" e "delinquências verbais" sobre as quais "certamente não faltam estímulos e subvenções".

"A obtenção de recursos financeiros em minhas campanhas eleitorais sempre ocorreu conforme as regras legais, sendo as contas respectivas devidamente aprovadas", escreveu o deputado.

Rennan Farias disse que não respondeu à interpelação de Vital do Rêgo, em 2013, porque foi orientado pelo seu advogado, mas "em nenhum momento" recuou das declarações.

Foro

Farias também tomou duas medidas para, segundo ele, levar o Judiciário a apurar o caso, além de aceitar fechar um acordo de delação premiada: protocolou representação no Ministério Público da Paraíba e procurou o Ministério Público Federal de Campina Grande, que repassou o assunto para a PGR (Procuradoria Geral da República), em Brasília, pois Vital tem foro privilegiado.

Em ambos os casos, Farias ainda não foi ouvido.

Sobre o depósito em sua conta, Farias afirmou que houve um engano da prefeitura e o valor foi devolvido no mesmo dia da operação.

O empresário Eduardo Ribeiro Victor, da empreiteira Compecc, negou participação em irregularidades no contrato da JGR. "Não tenho nada a ver com isso, não", disse.

Victor alegou que Farias "ligou para todo mundo pedindo dinheiro", caso contrário iria procurar a imprensa, o que Farias nega.



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