20 de jul de 2015

Cunha vai ao STF contra Sérgio Moro e delações


A defesa do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), apresentou nesta segunda-feira (20) uma reclamação ao Supremo Tribunal Federal contra o juiz Sérgio Moro, responsável pela investigação do esquema de corrupção da Petrobras. Os advogados pedem uma liminar para que o processo que corre na Justiça Federal do Paraná sobre suposta corrupção na contratação de navio sonda pela estatal seja suspenso na Justiça no Paraná e enviado ao STF e requerem ainda que, no mérito do caso, o STF determine a anulação de eventuais provas produzidas contra o peemedebista sob a condução de Moro. A medida teria efeito sobre o depoimento do consultor Júlio Camargo, que o acusou de receber US$ 5 milhões em propina.

O argumento do presidente da Câmara é de que o juiz feriu competência do Supremo ao investiga-lo, sendo que a Constituição garante que deputados só pode ser alvo de apuração no STF. Os advogados dizem que Sérgio Moro induziu o lobista a implicar Cunha no caso. "Mostra-se fartamente demonstrado que o juízo reclamado, ao realizar atos manifestamente investigatórios em face de agente público com prerrogativa de foro, usurpou de forma flagrante a competência desta Suprema Corte", diz. O pedido de liminar será analisado pelo presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, que é responsável pelo tribunal no recesso do Judiciário.

Ao STF, a defesa do presidente da Câmara aproveitou para apontar que há especulações de que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot trabalha para afastar Cunha do cargo e que isso atenderia a interesses políticos, dentro de um cenário de crise e tensões entre Legislativo e Executivo.

No 247
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Quanto custa ser picado por uma cascavel nos EUA


O Sistema Único de Saúde tem problemas, certamente.

Mas, bem ou mal, temos atendimento médico gratuito a toda a população.

Quem prefere — e pode — paga um plano de saúde privado.

Porém o Brasil é um dos poucos países com uma população tão grande que oferece esse tipo de serviço público.

Se você domina a língua inglesa, vale a pena ler os comentários do lugar onde eu achei a imagem acima: This is the cost of a rattlesnake bite in America.

A fatura traz um valor de 153 mil dólares por um tratamento que, no Brasil, não custaria nada ao paciente.

Alguns dos comentários das pessoas que compartilharam esta imagem a partir da minha conta do Facebook.

“Eu sei, o SUS tem problemas, principalmente porque os gestores municipais não cumprem o papel deles, a maioria da casta médica não agem conforme o seu compromisso profissional e ético, mas em nenhum lugar do mundo tem um sistema público de saúde, que atende a todos sem custo pró usuário e sem distinção. Vamos exigir as melhorias e que prefeitos e médicos principalmente cumpram com suas obrigações.”

“Se vc pensa que o SUS é ruim, é porque vc não viu isso. Preço do tratamento para uma picada de cascavel nos EUA.”

“No Brasil seria custo zero no SUS. Se bem que não seria fácil achar a vacina contra o veneno. Interessante tbm ler os comentários. Na Europa e no Canadá, através da saúde pública, o custo seria de alguns trocados. O Brasil é um dos únicos países do mundo com mais de 200 milhões de habitantes a oferecer tratamento grátis à toda população. Se melhorar o serviço será perfeito! Falem mal, olhem o copo meio vazio… já imaginaram receber uma conta de 450 mil reais depois de ser picado por uma cobra? E ter duas semanas para pagar?”

“E você aí, reclamando do SUS…  Não que seja uma maravilha, porém o modelo liberal me parece pior, não acham?”

“Gentchy. Uma conhecida gastou 11.000,00 doletas Pq o filho teve o mau gosto de quebrar o braço. Mas isso é insólito.”

Quem fala demais em meritocracia está há um passo de falar sobre quem merece ou não ser tratado por uma picada de cobra.

Cuidado para não morder a própria língua.

No Blog do Mario
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Intolerância



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Eduardo Cunha exagera e mente em pronunciamento em cadeia nacional


Analisamos o pronunciamento do presidente da Câmara em cadeia nacional de rádio e TV nesta sexta-feira (17):



EXAGERADO
Aprovamos projetos que combatem a impunidade, pois é ela que estimula o crime e amedronta a população. Com coragem e maturidade, votamos a redução da maioridade  —  e aprovamos o projeto com 323 votos, ampla maioria.
Não há números definitivos que comprovem que a redução da maioridade penal impacta diretamente na criminalidade, apenas a percepção de que jovens se aproveitam da falta de punições mais rígidas para cometer crimes.

Tanto o governo quanto organizações internacionais, como Unicef, usam números oficiais que afirmam que, dos 21.744 atos infracionais cometidos entre 2011 e 2012 por adolescentes, 12% (2.609) foram homicídio, latrocínio e estupro  —  crimes considerados graves.

Segundo o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), jovens a partir de 12 anos já podem ser punidos, com detenção máxima de até três anos. No Brasil, atualmente, há 23 mil adolescentes privados de liberdade. O grau de reincidência nas medidas socioeducativas é de 43,3%, o que deixa clara a ineficácia dessa forma de punição.

Também não é possível dizer que houve “ampla maioria” na votação da PEC (proposta de emenda constitucional) da redução da maioridade penal. Para uma PEC passar em primeiro turno na Câmara, é necessário ter ao menos 308 votos  —  isto é 2/3 da Casa a favor do projeto.

Embora o número de 323 votos esteja certo e confirme maioria, esta é a quantidade de deputados a favor numa segunda votação, resultante de manobra regimental do próprio presidente da Câmara. No dia anterior à sua aprovação, a matéria foi rejeitada. Foram 303 votos a favor da redução, mas eram necessários no mínimo 308.

A favor de Cunha, entretanto, estava fatia significativa da população.Segundo o Datafolha, 93% dos paulistanos querem a redução da maioridade, sobretudo para homicídio (82%).
FALSO
Colocamos em votação o projeto que regulamenta os direitos do trabalhador terceirizado com o apoio de grande parte das centrais sindicais.
A única central que apoiou abertamente o projeto foi a Força Sindical, liderada por Paulinho da Força (SD-SP). Ela tem 1.624 entidades filiadas e aparece como a segunda maior instituição do tipo no país.

A CUT (Central Única dos Trabalhadores) é a maior de todas, com 2.299 sindicatos filiados, mas foi contra. A CSB (Central dos Sindicatos Brasileiros) também se posicionou contrária à proposta.

As demais  —  UGT (União Geral dos Trabalhadores), CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e NCST (Nova Central Sindical de Trabalhadores) —  condicionaram seu apoio sob a condição de que, do projeto, não constasse a previsão de regulamentação da terceirização para atividade-fim. As centrais acabaram contrariadas. Hoje, atuam junto ao Senado para reverter a decisão patrocinada por Cunha na Câmara.

No Brasil, há 9.154.248 trabalhadores associados a sindicatos filiados a alguma central. Segundo o Ministério do Trabalho, a CUT responde a 31,73% dos sindicatos filiados a alguma central; a Força Sindical, a 10,82%; a UGT, 10,30%; a CTB , 10,36%; a NCST, 7,65%; e a CSB , 7,15%.
IMPRECISO
Também criamos o comprovante de voto impresso em papel, garantindo que o seu voto seja respeitado, e a eleição, mais transparente.
Não há como garantir que o comprovante de votação impresso confira mais transparência ao processo eleitoral. Também é impossível dizer que não dá.

Nunca houve experiência do tipo no Brasil democrático, mas detratores da decisão afirmam que, além de ser inconstitucional, por ameaçar o direito ao voto secreto, pode ser uma arma para o voto de cabresto. O argumento é que o voto poderia ser controlado em regiões dominadas, por exemplo, por máfias e facções criminosas.

Já os que defendem a medida acreditam que pode ser uma forma de proteger o voto, que é depositado em um software cuja vulnerabilidade não se sabe quantificar.

O projeto, que deverá ainda ser votado em dois turnos pelo Senado, prevê que o voto será feito por meio da urna eletrônica, como é hoje, e, depois de concluído, o recibo será emitido e depositado em uma urna no local de votação. A cédula permaneceria anônima.

A Justiça Eleitoral já fornece um comprovante em papel, que é entregue a todos os eleitores no momento do voto. É obrigatória sua apresentação em atividades como retirada de passaporte e inscrição em concurso público. Nele, entretanto, não há inscrição do voto.

VERDADEIRO
Estamos avançando, votando temas que a sociedade aguarda há anos  —  em alguns casos, há décadas. Nunca a Câmara trabalhou tanto como agora.
Temas como a redução da maioridade penal, o fim do fator previdenciário e a regulamentação da terceirização estavam na pauta do governo há anos, porém sem avanços significativos. O problema sempre foi que o Palácio do Planalto, desde que a presidente Dilma Rousseff assumiu, nunca conseguiu apoio suficiente no Legislativo que o deixasse em uma situação confortável para votar questões polêmicas.

Foram, ao todo, 95 matérias aprovadas, dentre elas projetos de lei, PECs, medidas provisórias, projetos de decreto legislativo, projetos de lei complementar e projetos de resolução. Em 2011, primeiro ano da legislatura 2011–2014, foram 89. No ano passado, foram 72, conforme dados da Câmara dos Deputados.

Foram 109 sessões deliberativas em 2015, contra 102 no ano passado e 84 em 2011. Já a Comissão de Constituição e Justiça aprovou mais 80 projetos sem análise do plenário  — questão contestada por detratores de Cunha, acusado de não dar prazo suficiente para discutir o teor das matérias.

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Primeiro-ministro de Portugal desmente matéria de 'O Globo' contra Lula

Pedro Passos Coelho afirmou à imprensa portuguesa: "O ex-presidente Lula da Silva não me veio meter nenhuma cunha para nenhuma empresa brasileira"

Coelho: "Não me veio dizer: há aqui uma empresa que eu gostava
que o senhor, se pudesse, desse ali um jeitinho"
O primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, desmentiu hoje (20) matéria do jornal O Globo, publicada ontem (19), sobre suposto lobby do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em favor da construtora Odebrecht. "O ex-presidente Lula da Silva não me veio meter nenhuma cunha para nenhuma empresa brasileira", afirmou o primeiro-ministro à imprensa portuguesa.

"Para ser uma coisa que toda a gente perceba direitinho, é assim. Não me veio dizer: há aqui uma empresa que eu gostava que o senhor, se pudesse, desse ali um jeitinho. Isso não aconteceu. E nem aconteceria, estou eu convencido, nem da parte dele, nem da minha parte", afirmou também o primeiro-ministro português.

A expressão “meter uma cunha” a que Coelho se refere significa em Portugal “fazer lobby” e se fosse dita por aqui daria margem a interpretações ambíguas em razão de o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), vir atuando em sua gestão com mão pesada em favor dos interesses conservadores. Não demoraria para que “meter uma cunha” por aqui ganhasse muitos significados sobre o comportamento pouco democrático do presidente da Câmara.

De acordo com a reportagem do jornal, o pedido de Lula em favor da Odebrecht teria relação com a privatização da Empresa Geral de Fomento (EGF), de Portugal. Em nota divulgada ontem, a assessoria de imprensa do Instituto Lula acusou o jornal da família Marinho de omitir informações sobre o assunto. “O jornal O Globo não se atenta aos fatos e faz distorções para prejudicar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.”

No RBA
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A Memória, os Elefantes e o Financiamento Empresarial de Campanha

http://www.maurosantayana.com/2015/07/a-memoria-os-elefantes-e-o-futuro-do.html


Os segmentos que hoje comemoram as dificuldades do governo — e do país — decorrentes, no plano econômico e institucional, da Operação Lava-Jato, que não se iludam. O alto empresariado brasileiro tem memória de elefante e da forma como estão sendo tratadas suas empresas e seus dirigentes — na maioria das vezes sem nenhuma prova real — dificilmente companhias de qualquer área de atividade, principalmente as de construção, engenharia e infraestrutura, voltarão a reservar um centavo de seu dinheiro para apoiar candidatos ou partidos políticos no Brasil, por mais que a cínica "reforma" política em andamento o permita, com a previsão de elástico patamar de gastos, para o qual, na verdade, não há mais do que o céu como limite.

Já se provou, na prática, que não existe mais doação legal de campanha em nosso país. Os critérios de legalidade ou ilegalidade desse mecanismo podem ser mutantes, subjetivos ou seletivos e dependem, basicamente, da eventual interpretação de quem estiver investigando algo em um determinado momento.

Ao ver alguns de seus principais colegas sendo algemados, e confinados indefinidamente na cadeia, independentemente do pretexto ou da legislação, grandes empresários já admitem que fugirão, doravante, do envolvimento com campanhas políticas como o diabo da cruz, mantendo delas a mesma distância de uma multidão se afastando, apavorada, em polvorosa, de um bando de leprosos nos tempos de Jesus.

O fechamento, que, pelo menos nos próximos anos, tende a ser praticamente definitivo, das torneiras do financiamento empresarial, deverá privilegiar, individualmente, os candidatos mais ricos, mas também levará, paradoxalmente, mais água para o moinho — e mais votos — para os partidos que tiverem maior penetração junto às chamadas organizações populares, e por meio delas, junto às camadas menos favorecidas da população.
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Quando os evangélicos vão se pronunciar a respeito de Eduardo Cunha?

Eles
A bíblia de alguns evangélicos não é apenas literalista, mas cheia de indignação seletiva. Nenhuma liderança se manifestou sobre as denúncias envolvendo Eduardo Cunha. Aliás, as de sempre apareceram — como se esperava, a favor de Cunha.

O velho e bom Marco Feliciano, num texto nas redes sociais repleto de exclamações, deu seu apoio ao deputado: “Ele tem o meu respeito! Fala como um estadista. É preparado e amedronta os farsantes do PT!

Força Cunha!”, escreveu.

Feliciano, cuja carreira se fez com julgamentos e condenações de quem nunca pôde se defender, invocou a “presunção da inocência (ou princípio da não-culpabilidade, segundo parte da doutrina jurídica)”.

Não esqueceu de bajular o chefe. “Minha força é pequena mas coloco-a a sua disposição meu presidente (sic)”.

Seus seguidores repetem o blablabla. “O Cunha defende os princípios bíblicos, isto incomoda ladrões, gays, corruptos, ditadores que perseguem cristãos”, escreveu um deles.

MF pediu um afastamento: o do deputado Silvio Costa (PSC-PE), que argumentou que Cunha não tinha condições morais de continuar na presidência da Câmara. Costa estaria agindo de maneira “espetaculosa” e incorrendo em infidelidade partidária.

Silas Malafaia, um pouco mais contido — por enquanto —, afirmou que acha estranho que membros do PT mencionados na Lava Jato não fossem denunciados pelo procurador Janot.

Marisa Lobo, que se apresenta sob a alcunha de “psicóloga cristã”, especialista na “cura gay” e consultora da bancada nesse tema, fez um alerta: “Acorda povo!! A quem interessa a saída de Cunha?”, perguntou. “Se vocês #Esquerdistas e #Ptistas odeiam cunha, então ele é muito bom para o Brasil (sic)”.

Eduardo Cunha tem um salvo conduto desses religiosos para fazer o que quiser, desde que contra o que consideram seus inimigos. Sua ficha corrida é extensa e remonta ao tempo em que era o braço direito de PC Farias, mas isso não virá ao caso para eles.

São 22 processos no STF, entre eles três inquéritos que apuram possíveis crimes da época em que foi presidente da Companhia de Habitação do Estado do Rio de Janeiro (CEHB-RJ), entre 1999 e 2000.

Nada disso importa para os evangélicos. Para além do corporativismo e do protagonismo desempenhado por um fiel da Assembleia de Deus de Madureira, Cunha é também um crente que, segundo Feliciano, “chegou lá”. Ele tem um “passado de lutas e décadas de serviços prestados à Nação, sem nunca ter seu nome manchado nem envolvido em qualquer ato que o desabonasse”.

Além da burrice, isso é também resultado de décadas em que essas igrejas vêm pregando que a prosperidade material não é pecado, com pastores enriquecendo rapidamente enquanto seus seguidores continuam pobres.

É o lado mais obscuro do neopentecostalismo. Condena-se veementemente o “gayzismo”, o “abortismo”, o “bolivarianismo” etc, mas não a ganância desmedida (e, em última análise, o roubo).

Manuel Arturo Vasquez, professor de religião da Universidade da Flórida, especialista em seitas pentecostais no Brasil, diz que, quando fica explícita a ligação entre o mundo material e o espiritual, surge enorme espaço para o abuso. “As pessoas usam alguns dos recursos provenientes das congregações para seu próprio lucro”, afirma.

O dinheiro que Cunha ganhou serve a um propósito maior, não importa a maneira como ele obteve. Nesse momento, somem todos os versículos que costumam ser tirados do bolso para condenar os “esquerdopatas”.

Ninguém nunca verá felicianos e malafaias recitando o sétimo mandamento ou um trecho de Efésios (“O que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo algo de útil com as mãos, para que tenha o que repartir com quem estiver em necessidade”).

Em 2012, Malafaia tratou da questão de corrupção nas igrejas num culto. O vídeo virou hit no YouTube: “Quem é que toca no ungido do Senhor e fica impune? Ungido do Senhor é problema do Senhor, não teu. Teu pastor é ladrão? É pilantra? Você não está gostando? Sai de lá e vai pra outra igreja. Não se mete nisso não, porque não é da tua conta”, berra. “Rapaz, aprenda isso: eu já vi gente morrer por causa disso, meu irmão”.



Cunha é ungido do Senhor. Não se mete nisso. Não está gostando? Muda de país.

Kiko Nogueira
No DCM
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Jean Wyllys escrevere carta de amor para o presidente da Câmara

De: Jean Wyllys

Para: O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha

Brasília, inverno de 2015

Senhor Eduardo Cunha (não me sinto à vontade de me dirigir a você como “caro”, pois você ainda não me é caro; e estou usando o pronome “você” porque não estamos em sessão da Câmara Federal, logo, estou livre da obrigação de me dirigir a você como “vossa excelência”, e porque, confesso, não reconheço em você qualquer excelência além dessa conferida pela liturgia do parlamento),

escrevo-lhe estas linhas a pedido de terceiros. Estes me desafiaram a abrir um diálogo com alguém que não tivesse qualquer empatia em relação a mim ou àqueles e àquelas que represento (as e os integrantes dos “grupos difamados”, como definiu a filósofa judia Hannah Arendt, cuja obra você talvez nunca tenha lido). Quando me fizeram esta proposta, pensei imediatamente em você. Pensei também no questionamento levantado por outra filósofa, a minha amiga Marcia Tiburi: é possível conversar com um fascista? Eu decidi que vale a pena tentar, principalmente se o objetivo da conversa é tentar despertar, no fascista, algum tipo de emoção política benéfica, como o amor, a empatia, a compaixão e a solidariedade.

Tenho certeza de que ocupado como você está em se manter na presidência da Câmara (conquistada graças aos favores que parte expressiva do baixo clero lhe deve, sobretudo no que diz respeito ao financiamento de suas campanhas por grandes empresas e igrejas evangélicas com as quais você tem relações estreitas) e em chantagear a presidenta Dilma com a desgovernabilidade, caso ela não lhe ceda os cargos que deseja na administração pública e por meio dos quais espera manter e estender sua influência política, você não tenha atentado para a notícia de que a Controladoria Geral da União determinou, no último dia 9 de junho e com base na Lei de Acesso à Informação, que a Fundação Casa de Rui Barbosa liberasse o trecho de uma carta do escritor Mário de Andrade ao colega Manuel Bandeira. Nela, o primeiro trata de sua homossexualidade policiada e reprimida por pessoas homofóbicas do meio social e intelectual em que circulava — repressão e policiamento que perduraram inclusive na decisão dos guardiões dos acervos de ambos os escritores de não permitirem, nos anos que se sucederam às mortes de Mário de Andrade e Manuel Bandeira, o acesso de pesquisadores ao referido trecho da carta.

Como suponho que você, Cunha, não leia romances, novelas, contos, crônicas nem poemas — do contrário, teria um mínimo de interesse por modos de vida e valores que não estivessem atrelados ao acúmulo de riquezas materiais e poderes —, informo-lhe que Mário de Andrade é um dos artífices do modernismo brasileiro e autor de um romance clássico cujo título não poderia ser mais providencial a esta carta que ora lhe escrevo: Amar, verbo intransitivo. Você já foi capaz de pensar no verbo amar sem transitividade, Cunha? De amar mais que pessoas específicas — esposa, filhos — e objetos? De amar sem objetos?

Eu decidi lhe falar sobre essa notícia porque o conteúdo a que ela se refere significa mais que um evento literário e o fim de uma especulação: tem a ver com a homofobia — sistema de repressões, opressões, humilhações e exclusões do qual você é, hoje mais que antes, ícone e mantenedor.

A homofobia (entenda esta palavra tão usada e abusada como o conjunto das violências simbólicas e reais perpetradas contra a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) não é uma questão política menor, como o querem os cínicos e analfabetos políticos. Por meio dela, os heterossexuais asseguram sua suposta “superioridade moral” e prioridade nas políticas públicas; parlamentares canalhas associados a igrejas fundamentalistas enriquecem e acumulam poder político; e religiões milenares disputam o controle da sexualidade humana. A homofobia é relevante politicamente também porque incide negativamente sobre o PIB, o IDH e o progresso da nação, já que elimina (ou dificulta drasticamente) o desenvolvimento intelectual e social de milhões de brasileiras e brasileiros.

Quantas mentes brilhantes não puderam se inserir no mercado de trabalho, contribuir mais ou foram ceifadas por causa desse sistema? Gênios como Mário de Andrade, Santos Dumont e Assis Valente não se destacaram por causa da homofobia, mas apesar da homofobia! Para uma pessoa homossexual (e principalmente para uma pessoa transexual) ser reconhecida nessa sociedade sexista e homofóbica é necessário um esforço mil vezes maior do que o que precisa uma pessoa heterossexual e cisgênero. Ela é vítima daquilo que o sociólogo Göran Therborn chama de “desigualdade existencial”. Consegue entender, Cunha? Se não, posso dar outro exemplo: o escritor João Silvério Trevisan, um dos mais talentosos que conheço, amarga hoje relativo ostracismo por ser homossexual assumido e ativista, enquanto impostores e sem-talento heterossexuais são eleitos “imortais” por uma Academia Brasileira de Letras ainda misógina e homofóbica.

O apagamento da homossexualidade das biografias de alguns gênios e heróis, mesmo quando feito por eles mesmos em função do estigma e/ou da homofobia que internalizaram, priva as gerações mais novas de referências positivas que lhes permitiriam viver sua orientação sexual sem vergonha e com orgulho. A homossexualidade não é um fato “escabroso” para ser apagado da biografia de uma pessoa pública. Muito menos algo que deva ficar encerrado “entre quatro paredes”, na medida em que nunca se apaga, da biografia de gênios e heróis heterossexuais, as relações sexuais e amorosas que tiveram ao longo de suas vidas (as histórias sobre as muitas mulheres do poeta Vinicius de Moraes estão aí pra provar).

Não reproduzirei aqui todo o trecho da carta de Mário a Manuel, mas peço que você preste atenção neste pedacinho: “Me dão todos os vícios que, por ignorância ou por interesse de intriga, são por eles considerados ridículos”. Consegue identificar a que ele se refere? À difamação! Processo de destruição da imagem pública por meio de mentiras e calúnias facilmente assimiláveis por ignorantes e preconceituosos. Processo de que sou vítima hoje e que é tocado por seus aliados ou paus-mandados dentro e fora do Congresso Nacional. Ou você vai negar que houve dedo seu naquela presepada constrangedora feita pela Frente Evangélica no plenário da Câmara, usando fotos fraudulentas, com o intuito de difamar a Parada LGBT de São Paulo?

O que Mário pede a Manuel é, não de maneira explícita, que este se coloque em seu lugar de modo a reconhecer e compreender seu sofrimento. Este exercício aparentemente simples, mas ainda pouco praticado, se chama empatia. Empatia é quase amor, se não for amor mesmo. Jesus, nos evangelhos, traduziu esse exercício em uma frase que se tornou a ética de seus primeiros seguidores: “Amai-vos uns aos outros como a vós mesmos!”.

Colocar-me em seu lugar é muito fácil, já que você está no lugar privilegiado de um homem branco, heterossexual, cisgênero, adulto, cristão, riquíssimo e presidente da Câmara dos Deputados. Difícil é lhe amar! Mas eu sou capaz de lhe amar caso você mude e deixe de ser um fascista.

Você, Cunha, e todos os seus asseclas, que gostam tanto de usar o nome de Jesus em vão ou para fins de manipulação do eleitorado cristão, seriam capazes desse exercício de empatia prescrito por Ele? Seriam capazes de se colocar no lugar do outro, como Jesus o fez tantas vezes? Seriam capazes de amar de verdade e intransitivamente alguém radicalmente diferente de vocês?

Está aberto o diálogo.

Jean Wyllys

No TPM
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Elite odeia o fato de Lula ser mascate do Brasil no mundo. “Road-show” para FHC privatizar, vale


28 de maio de 1996.

Depois de dias de chuva e frio, a terça-feira era um agradável dia de primavera em Paris, relata a repórter Clara Fávilla, um dia tão bonito que Fernando Henrique Cardoso resolveu, como o Pombo Enigmático de Paulo Mendes Campos, ir a pé para o Hotel George V, caminhando ao lado de Jean Gandois, presidente do Conselho Nacional do Patronato Francês, entidade dos empresários da indústria, comércio, e serviços, incluídos aí os  bancos.

Estava satisfeito: acabara de participar de um “road-show”, ao lado de Sérgio Mota, sobre as oportunidades de negócios para os estrangeiros na privatização das telecomunicações brasileiras. Todos se recordam que, entre as boas condições oferecidas aos negócio, estavam os financiamentos do BNDES e a política generosa de reajustes tarifários que assegurava bons lucros. E o cardápio oferecido a eles era bem mais suculento do que o almoço, daí a minutos, que saborearia com os “investidores” e suas bocas cheias d’água.

Conto esta pequena — e verdadeira — história (aqui está a agenda presidencial, publicada pela Folha, à época) para que o caro leitor veja o quanto é ridícula esta história que, apesar de todas as evidências, a imprensa insiste em manter sobre o suposto lobby de Lula em favor de empresas brasileiras no exterior.

Muito diferente do que fazia o antecessor tucano que, em lugar de vender produtos e serviços brasileiros, vendia o patrimônio público nacional, com o governo providenciando os mais generosos empréstimos para quem os quisesse comprar.

Lula, ao contrário do agenciador chique da venda do Brasil, foi e é, durante e depois de seu mandato, uma espécie de “camelô” promovendo a venda de produtos e serviços brasileiros. Ele mesmo sempre fez questão de dizer, como neste vídeo (veja ao final), de 2008, quando o mundo mergulhava na crise:

— Nós temos que colocar os nossos produtos em cima da cabeça — e eu tenho o maior orgulho de ser garoto-propaganda dos produtos brasileiros, quaisquer que sejam eles — porque é assim que a gente constrói uma nação grande. Eu estou à disposição deles (empresários) para viajar o continente africano, vendendo máquina, vendendo trator, vendendo biodiesel, vendendo o que tiver para vender. Eu não terei o menor problema em ser um mascate do Brasil para colocar os seus produtos no mundo.

Aí está: abertamente, publicamente, patrioticamente e não como um vilão da soberania brasileira ou um vendilhão de nossas riquezas.

A elite brasileira — e a mídia que lhe é servil — não perdoa esta diferença essencial.

E dá cobertura a um  negligente e irresponsável como o procurador da República que, submetido a um processo disciplinar por suas faltas funcionais, resolveu proteger-se politicamente com um inquérito esdrúxulo contra Lula.

Não o perdoam por ser um “camelô” a favor do Brasil e não um vendedor do que pertence aos brasileiros.



Fernando Brito
No Tijolaço
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Conselho do Ministério Público deve colocar ordem na casa


Ao receber o pedido de nulidade do Pedido de Investigação Criminal contra Luiz Inácio Lula da Silva, formulado por um procurador que bateu o recorde de 245 denúncias por negligência, o Conselho Nacional do Ministério Público ganhou a oportunidade de dar uma contribuição para se colocar ordem nas relações entre o Ministério Público e o regime democrático.

Você pode ter a opinião que quiser sobre a atividade de Lula no exterior. Pode achar, como eu, que ele nada mais tem feito do que trabalhar pela ampliação dos mercados externos para os produtos brasileiros, num esforço equivalente ao de Bill Clinton, Tony Blair e outros ex-chefes de Estado nestes tempos de globalização. Você também pode achar que Lula está errado, e que tudo não passa de uma ação exibicionista de quem pretende concorrer a eleição em 2018. Você pode até imaginar que há algo suspeito nessas viagens de Lula e que o presidente deve mesmo ser investigado por tráfico de influência internacional.

Neste caso, a legislação prevê que se reúnam os chamados "indícios probatórios" para justificar uma investigação sobre qualquer pessoa. É uma garantia que não existe nas ditaduras mas é um elemento típico dos regimes democráticos. Ninguém pode ser chamado sequer para prestar depoimento, mesmo numa delegacia de bairro, se não houver um fato a ser esclarecido. É preciso apontar um fato determinado, com alguma consistência. Uma nota técnica do advogado e deputado Wadih Damous, publicada no 247, demonstrou que a denúncia de "trafico de influência internacional" não tem pé na realidade — apenas no desejo de quem deseja fazer uma denúncia de qualquer jeito.

O problema do Pedido de Investigação contra Lula é este.

Mesmo que tivesse sido formulado pelo mais competente e ativo membro do Ministério Público do Distrito Federal, sem nenhuma mancha no currículo, precisaria ter algo mais do que ilações a partir de recortes de jornal. Para decepção de quem adora lançar suspeitas e insinuações contra Lula, é dessa forma que a procuradora Mirella Aguiar, que tem poderes legais para resolver o que se faz no caso, avalia o material disponível contra o ex-presidente.

Mirella escreveu: "Os parcos elementos contidos nos autos — narrativas do representante e da imprensa desprovidos de suporte provatório suficiente — não autorizam a instauração de imediata investigação formal em desfavor do representado." Ou seja, não há razão para abertura de inquérito.

Sem acrescentar um único fato novo ao que a procuradora Mirella examinou, o procurador Valtan Timbó decidiu pedir a investigação. Nesta conjuntura em que a Justiça, em si, transformou-se num espetáculo, o pedido tenta produzir um fato político.

Representa um esforço para criar dificuldades para uma decisão serena, fundamentada em fatos, como devem ser as decisões do judiciário. A partir de agora, será preciso explicar por que o inquérito não será aberto — mesmo que não haja dúvidas de que se trata a decisão mais correta a se tomar.

O que se pretende é tentar criar um ambiente de tensão e suspeita.

Desse ponto de vista, pouco importam os absurdos erros de procedimento que justificam que o pedido seja simplesmente declarado nulo. Até porque o recordista em negligência está tentando assumir funções que não lhe cabem.

Se Mirella encontra-se de férias, ela tem substitutos naturais para ocupar suas funções em caso de necessidade. Valtan Timbó não se encontra entre eles. O trabalho de Mirella poderia ser feito por quem faz parte do 1º, 2º ou 3º Ofício de Combate à Corrupção — dos quais o procurador também não faz parte.

Agindo para defender a lei e suas regras de funcionamento, o Conselho Nacional do Ministério Público tomará uma medida necessária à preservação das instituições brasileiras, que não podem ser ameaçadas por aventuras nem gestos de tumulto.

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A Globo é o principal agente da imbecilização da sociedade


A Rede Globo é o aparelho ideológico mais eficiente que as classes dominantes já construíram no Brasil desde o início do século XX. Substitui perfeitamente a Igreja Católica como instrumento de controle das mentes e do comportamento.

A Globo esteve ao lado de todos os governos de direita, desde o regime militar — no qual se transformou no gigante que é hoje — até Fernando Henrique Cardoso. Serviu caninamente à ditadura, demonizando as forças de esquerda e endossando o discurso ufanista do tipo "Brasil Ame-o ou Deixe-o" e as versões sabidamente falsas sobre a morte de combatentes da resistência assassinados na tortura e apresentados como caídos em tiroteios. Mais tarde, após o fim da ditadura, alinhou-se no apoio à implantação do neoliberalismo, apresentado como a única forma possível de organizar a economia e a sociedade.

No plano cultural, é impossível medir o imenso prejuízo causado pela Rede Globo, que opera como o principal agente da imbecilização da sociedade brasileira. Começando pelas novelas, seguindo pelos reality shows, pelos programas de auditório, o papel da Globo é sempre o de anestesiar as consciências, bloquear qualquer tipo de reflexão crítica.

A Globo impôs um português brasileiro "standard", que anula o que as culturas regionais têm de mais importante — o sotaque local, a maneira específica de falar de cada região. Pratica ativamente o racismo, ao destinar aos personagens da raça negra papéis secundários e subalternos nas novelas em que os heróis e heroínas são sempre brancos. Os personagens brancos são os únicos que têm personalidade própria, psicologia complexa, os únicos capazes de despertar empatia dos telespectadores, enquanto os negros se limitam a funções de apoio. Aliás, são os únicos que aparecem em cena trabalhando, em qualquer novela, os únicos que se dedicam a labores manuais.

A postura racista da Globo não poupa nem sequer as crianças, induzidas, há várias gerações, a valorizar a pele branca e os cabelos loiros como o padrão superior de beleza, a partir de programas como o da Xuxa.

O jornalismo da Globo contraria os padrões básicos da ética, ao negar o direito ao contraditório. Só a versão ou ponto de vista do interesse da empresa é que é veiculado. Ocorre nos programas jornalísticos da Globo a manipulação constante dos fatos. As greves, por exemplo, são apresentadas sempre do ponto de vista dos patrões, ou seja, como transtorno ou bagunça, sem que os trabalhadores tenham direito à voz. Os movimentos sociais são caluniados e a violência policial raramente aparece. Ao contrário, procura-se sempre disseminar na sociedade um clima de medo, com uma abordagem exagerada e sensacionalista das questões de segurança pública, a fim de favorecer as falsas soluções de caráter violento e os atores políticos que as defendem.

No plano da política, a Rede Globo tem adotado perante os governos petistas uma conduta de sabotagem permanente, omitindo todos os fatos que possam apresentar uma visão positiva da administração federal, ao mesmo tempo em que as notícias de corrupção são apresentadas, muitas vezes sem a sustentação em provas e evidências, de forma escandalosa, em uma postura de constante denuncismo.

A Globo pratica o monopólio dos meios de comunicação, ao controlar simultaneamente as principais emissoras de TV e rádio em todos os Estados brasileiros juntamente com uma rede de jornais, revistas, emissoras de TV a cabo e portais na internet.

Uma verdadeira democratização das comunicações no Brasil passa, necessariamente, pela adoção de medidas contra a Rede Globo, para que o monopólio seja desmontado e que a sua programação tenha de se submeter a critérios pautados pela ética jornalística, pelo respeito aos direitos humanos e pelo interesse público.

Igor Fuser
No Fórum
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Você sabe discordar?

Aprenda a discordar usando a lógica do papel higiênico


Qual é a forma certa de se colocar um rolo de papel higiênico no banheiro?

POR CIMA!

60% das pessoas têm a certeza absoluta que o certo é o estilo “cachoeira”, com o papel saindo por cima. É mais fácil achar a ponta, dá pra rasgar certinho no picote, não fica raspando a mão na parede (menos bactérias!) e hotéis podem sinalizar aos seus hóspedes que o banheiro foi higienizado, com dobras elaboradas ou colando selinhos.

POR BAIXO!

Os outros 40% acham esses 60% uns loucos e estão certos que o melhor é por baixo. O “caimento” é melhor, o papel não fica sobrando, gatos e crianças não conseguem desenrrolar um monte de papel e basta uma puxadinha para rasgar um quadradinho, porque para baixo tem mais tração.


Mas, afinal, quem está certo e quem está errado? Todo mundo. Não tem certo nem errado. O papel higiênico é seu, e você usa do jeito que quiser. É uma decisão totalmente pessoal, influenciada apenas por hábitos, com as duas maneiras suportadas por motivos bastante pertinentes.

POR QUE ISSO INTERESSA?

Essa questão bizarra do papel higiênico serve como dinâmica para colocar o foco na nossa habilidade de argumentação e não para se chegar a uma resposta, já que não tem o certo nem o errado. Por exemplo, o professor de sociologia Edgar Alan Burns, do Eastern Institute of Technology Sociology, usa esse truque no primeiro dia de aula. Ele pergunta aos seus alunos:

“Como vocês acham que o papel higiênico deve ser colocado?”

E nos 50 minutos seguintes, os alunos naturalmente começam a avaliar os MOTIVOS para suas respostas e acabam chegando sozinhos a questões sociais muito maiores como:

• diferenças de papéis sociais entre homens e mulheres;

• diferenças entre comportamentos públicos e privados;

• diferenças entre classes sociais;

• etc.

São relações de construção social que nunca pararam para pensar antes, mas que agora, sem que ninguém os orientasse, conseguiram enxergar. Sozinhos, começaram a raciocinar e perceberam correlações e fatos. E, principalmente, começaram a argumentar.

No dia-a-dia, quase nunca fazemos isso. Geralmente, tomamos um partido e passamos a defendê-lo de forma passional, enxergando só o que nos interessa. Somos bons de discutir, mas ruins para argumentar. Piores ainda para mudar de ideia. Mais para o boxe do que para o tênis.

O que parece ser uma estratégia não muito inteligente para encarar essa nova sociedade em que conversamos com muito mais gente, sobre muito mais coisas, todo santo dia.

APRENDER A DISCORDAR

A aula do papel higiênico devia ser dada de cara para crianças. A escola ensina que existe o certo e o errado, e dá notas baseadas nisso. Mas podia estimular abordagens diferentes, habilidade de argumentação, capacidade de deduzir (algumas já fazem, eu sei, mas a maioria ainda não).

Do mesmo jeito que tem nota para as melhores respostas, deveria ter para as melhores perguntas também. Senão a gente vai continuar crescendo com essa mania de preferir estar certo do que aprender algo novo, do que parar pra pensar e repensar sempre. Aproveitar a bagagem e o raciocínio do outro.

Já reparou como a maioria dos comentários feitos todos os dias na internet não tem elaboração nenhuma? Ou é genial ou é a coisa mais estúpida que já se viu em toda a a história da humanidade. O programador Paul Grahan fez um gráfico bacana, que mostra a “Hierarquia da Discordância”, do mais ao menos elegante, do mais ao menos eficiente.


O design thinking é isso. A maneira de pensar de um designer não é a do certo ou do errado, porque não existe certo ou errado na hora de projetar um bule de café. Mas existe o melhor, o mais eficiente. É uma maneira de pensar em que se evolui a realidade.

Quem sabe um dia a gente consegue argumentar sobre futebol, política e religião. Dizem que não se discute, mas a recomendação só existe porque somos meio trogloditas. A propósito, o grande designer Donald Norman coloca os rolos de papel higiênico na sua casa… assim:


No Ligia Deslandes



As redes sociais e seus demônios

Dias há que não consigo passear pelas postagens de alguns seres humanos que compartilham informações e notícias comigo. Muitos desses seres são pessoas boníssimas, que fazem coisas lindas, que gostam dos animais, que conhecem livros fundamentais, que amam seus filhos. Mas, por algum motivo, são também criaturas abjetas, com ideias estranhas, desumanas, fascistas.

Sim, bem sei. Somos seres de luz e sombra e a nenhum de nós escapa essa dicotomia. Ainda que não seja comum, vez ou outra assoma algum pensamento ruim, uma maldade. Mas, tratamos de superar. E, no geral, quando isso acontece nos envergonhamos de tal maneira que jamais pensaríamos em verbalizar publicamente esses sentimentos. E, depois, nos consumimos em remorsos por dias.

Então, me pergunto, como algumas pessoas podem compartilhar coisas tão horríveis, publicizando sentimentos que nos fariam corar se ousássemos sentir? Outro dia vi um desses que mostrava uma foto de vários negros haitianos e, embaixo, o texto gritava: Por que essas pessoas chegam aqui sozinhas? Onde estão suas famílias? Seus filhos? E aventava a possibilidade de eles estarem aqui para roubarem empregos e coisa assim. Enregelei ao ver tamanha maldade.

Entendo que muitas pessoas não conhecem nada do Haiti. Não sabem que foi o primeiro e único estado no mundo no qual uma rebelião de escravos garantiu a liberdade. Que teve grandes líderes, os que, inclusive, ajudaram de maneira fundamental a acontecer a libertação de toda a América Latina da mão dos espanhóis. Não sabem que, desde então, os haitianos vem pagando muito caro por isso, com ditaduras sanguinárias e agora com uma ocupação interminável.

Talvez também esses seres não saibam que todas essas criaturas vindas do Haiti sem família, sem filhos, buscam desesperadamente garantir a vida dos seus parentes, enviando daqui dinheiro. Buscam eles mesmos sobreviver ao terror cotidiano da pequena ilha onde estavam largados para morrer.

Mas, creio que quem cria essas postagens não é um ignorante, como muitos que as reproduzem. Faz isso por que realmente não suporta negros, nem pobres, nem dividir aquilo que pensa ser unicamente seu, no caso o território brasileiro. E creio que disseminar o ódio e a intolerância seja a forma que encontra para manter seus pequenos privilégios. Quanta maldade podem provocar.

Penso ainda que é por conta desse tipo de pensamento que vimos gente linchando gente, que vimos gente maltratando animais, gente pedindo cadeia para crianças, gente que não percebe que um menino que mata é um menino que já foi morto na sua meninice. Gente que não consegue fazer as ligações sobre a realidade.

"Leva pra casa os bandidos", nos dizem. E não percebem que são eles mesmos os que os criam com a intolerância e com o ódio. Por isso dias há em que eu não quero fazer parte dessa rede de absurdos e dores. Falta-me força e eu desabo, buscando amparo na solidão. Sei que a fuga não é o melhor caminho, mas, vez ou outra é necessária, até para que possamos nos fortalecer.

Diz Rubem Alves num de seus textos que todos nós temos dentro da gente uma legião de demônios, com os dentes arreganhados, prontos para sair o tempo todo, provocando desastres. A batalha diária é essa: segurar as rédeas desses monstrinhos e fazer com que se deitem, quietos. E o que vemos nas redes é que essas legiões não estão mais sendo domadas...

Olhando para tudo isso, assomam os meus, prontos para saltar. Não bastassem todas as lutas, mais essa...

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Paulo Henrique Amorim entrevista Fábio Konder Comparato



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Blatter toma chuva de dólares em coletiva da Fifa


Ele pensa em pegar algumas notas até perceber que são falsas


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Eduardo Cunha ainda não está “morto”


Muita gente séria tem afirmado que Eduardo Cunha, o famoso 'achacador' que hoje preside a Câmara Federal, está “morto politicamente”. Há quem garanta que as denúncias feitas pelo empresário Júlio Camargo, de que o lobista recebeu US$ 5 milhões em propina, pode até resultar no seu impeachment e na sua prisão. Até setores da mídia, que sempre estimularam o oposicionismo do “peemedebista rebelde”, já preveem o seu total isolamento. A revista Época, da famiglia Marinho, registrou uma cena curiosa que confirmaria a difícil situação do seu aliado temporário no ódio ao governo Dilma. Vale conferir a notinha do jornalista Ricardo Della Coletta:

Ninguém esperava muitos parlamentares circulando pela Câmara Federal numa sexta-feira que inaugura o recesso parlamentar, mas chamou a atenção de quem acompanhou a coletiva de imprensa, na qual o presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ) anunciou que estava rompido com o governo, a presença de apenas quatro deputados a seu lado: Hildo Rocha (PMDB-MA), Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC), Édio Lopes (PMDB-RR) e André Moura (PSC-SE). Destes, apenas Moura é líder de bancada. Graúdos da Câmara lá não apareceram.

A cena revela, de fato, a solidão momentânea do 'imperador'. Ele também foi rifado pelo seu partido, o PMDB, que soltou nota oficial afirmando que o tal rompimento é “posição pessoal”; levou uma canelada do juiz Sérgio Moro, o seu aliado na midiática Operação Lava-Jato; e não recebeu nem a solidariedade dos seus amigos da oposição demotucana. Mesmo assim, é bom não esquecer que o Congresso Nacional, o primeiro ironicamente eleito com base na “lei da ficha limpa”, é o mais conservador desde o fim da ditadura militar — quando só existiam os partidos do “sim” e do “sim senhor”. O que impera no parlamento é a chamada “bancada do BBB”, com representantes da Bala, da Bíblia e dos Bois. Eduardo Cunha é o rei do gado nesta composição reacionária.

A bancada do BBB e a costa quente

A própria Folha, que recentemente se distanciou do deputado carioca temendo seu fundamentalismo religioso e seu radicalismo aventureiro, fez um importante alerta neste sábado (18): “A entrevista do presidente da Câmara [em que ele declarou guerra a Dilma] deflagrou uma insurgência silenciosa de aliados que se dispõem a abandoná-lo. É cedo, porém, para declarar seu isolamento. Com o apoio dos empresários, ele ajudou a financiar a campanha de mais de cem deputados”. Mais de cem devedores do lobista! Além da bancada do BBB, Eduardo Cunha tem “costa quente” e conta com fortes apoios:

— Dos empresários que financiaram sua campanha para receber em troca o apoio aos seus projetos de interesse. As multinacionais das telecomunicações, as agressivas mineradoras, as empresas do ramo farmacêutico, entre outras, contam com o lobista para impor suas pautas. Mesmo os setores patronais que não doaram dinheiro para o caixa de Eduardo Cunha sabem que contam com os seus préstimos. Vide a votação acelerada da terceirização, que precariza o trabalho e serve unicamente às empresas. Eduardo Cunha é um político orgânico do capital.

— Dos setores da mídia, como a Rede Globo e a revista “Veja”, que seguem blindando o parlamentar com o objetivo exclusivo de fustigar o governo Dilma. Em certo sentido, Eduardo Cunha é refém dos impérios midiáticos, que conhecem toda sua trajetória — a sua folha corrida —, mas evitam fazer alarde para não prejudicar o seu oposicionismo. O presidente da Câmara Federal é pautado pelos barões da mídia e não pode "mijar fora do penico". Neste momento de dificuldades, ele deverá radicalizar ainda mais sua postura — o que serve perfeitamente aos interesses da mídia monopolista e oposicionista.

— Dos setores mais reacionários da sociedade — incluindo os "milicos de pijama" saudosos da ditadura, as seitas fundamentalistas que destilam ódio e preconceito contra as chamadas "minorias" e os grupos que organizaram as recentes marchas golpistas. Estes setores inclusive já manifestaram solidariedade a Eduardo Cunha contra as denúncias de corrupção. Os fascistas mirins dos grupelhos "Revoltados Online" e Movimento Brasil Livre (MBL), entre outros, estiveram recentemente com o presidente da Câmara e depositam todas as fichas na sua disposição de abrir o processo de impeachment de Dilma. "Todos temos simpatia pelas ações do Cunha e pela saída da presidente", afirmou na ocasião Danilo Amaral, o fascistóide que agrediu o ex-ministro Alexandre Padilha e lidera a seita "Acorda Brasil".

Um lobista sedutor e agressivo

Além destes apoios, Eduardo Cunha é um político habilidoso. Ele sabe mesclar sedução e violência e conhece, como poucos, o regimento interno do Legislativo. Em maio, por exemplo, ele aprovou — "na surdina", segundo a Folha — norma que garante isenção tributária às igrejas. "Com o aval de Eduardo Cunha, evangélico, o artigo foi incorporado na medida provisória do ajuste fiscal... O benefício pode garantir a anulação de autuações fiscais que extrapolam R$ 300 milhões", descreveu o jornal paulista. Generosidades como estas reforçam as promiscuas relações da bancada do BBB e ainda seduzem os parlamentares do "baixo clero", que adoram sugar os cofres públicos com a sua visão patrimonialista.

Já diante dos seus desafetos, o lobista é implacável. Logo após assumir a presidência da Câmara, ele isolou seus críticos nas 36 comissões especiais da Casa. Com esse controle absoluto, Eduardo Cunha impôs o seu ritmo e garantiu a tramitação de vários projetos do seu interesse — e dos seus doadores de campanha. Mesmo quando foi derrotado em plenário - como no fim do financiamento privado e na maioridade penal —, ele simplesmente desconheceu o resultado e impôs novas votações. Agressivo e vingativo, ele não perdoa ninguém. Na semana passada, a Procuradoria-Geral da República recebeu denúncias de que o lobista ameaçou seus delatores na midiática Operação Lava-Jato. A PGR chegou a sugerir a prisão preventiva do presidente da Câmara para garantir a continuidade das investigações.

Estes e outros fatos mostram que não se deve subestimar Eduardo Cunha. Ele ainda não está "morto politicamente" e ainda pode causar muitos estragos à frágil democracia brasileira.

Altamiro Borges
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O dramático depoimento de Renan Calheiros na TV Senado pode ser traduzido numa frase: “Tô frito!”

Fim de festa
O dramático depoimento de Renan Calheiros na TV Senado pode ser traduzido numa frase: “Tô frito!”

Renan, numa atitude clássica, projeta no mundo seus problemas pessoais. Mais especificamente: no Brasil e no governo Dilma.

Coloquemos as coisas na devida dimensão.

O Brasil é afetado por uma crise econômica internacional. A maior prova do poder dessa crise é que até a China, inexpugnável aparentemente durante tanto tempo, está sofrendo um castigo.

Como todas as crises, esta vai passar, e o Brasil voltará a crescer como antes, bem como a economia mundial.

O que não deve passar tão cedo são os apuros de Renan.

Para ele, como para Eduardo Cunha, a casa caiu.

Renan é um dos citados na Lista de Janot, e agora é tempo de os políticos que nela aparecem prestarem contas.

Muitos deles, particularmente os pertencentes ao PMDB, acharam que a farra era eterna.

Abraçados sempre ao poder, se tinham na conta de invulneráveis.

Era como se tivessem descoberto a fórmula do crime perfeito.

Tiveram uma contribuição formidável para que a cena política nacional virasse objeto de desprezo e escárnio entre os brasileiros.

Nas pequenas e nas grandes coisas, exorbitaram.

Como esquecer o avião da FAB utilizado por Renan para uma viagem destinada a um implante de cabelos?

Não que ele fosse um caso único.

Joaquim Barbosa, o Platão da República, requisitou também, quando presidente do STF, o avião da FAB para levar uma comitiva de jornalistas bajuladores que testemunhassem uma palestra sua em Costa Rica de superior irrelevância.

A parte mais patética das lamúrias de Renan disse respeito a Eduardo Cunha. Renan prestou a ele um bizarro tributo num momento em que os brasileiros souberam que as pessoas que fazem negócios com o presidente da Câmara temem pela integridade de seus familiares caso não sigam suas recomendações.

Renan falou no trabalho de Cunha à frente da Câmara, ou Câmera, como diz o juiz Moro.

A que ele se refere?

Às infames trapaças cometidas à luz do sol por Cunha para aprovar coisas como a redução da maioridade penal e o financiamento de campanhas?

Apenas para lembrar: a raiz da corrupção está exatamente no financiamento das campanhas.

O pior Congresso da história do Brasil é filho do dinheiro despejado por empresas nas campanhas de políticos que fariam depois coisas do interesse delas.

Isso tem que acabar, e já.

Quanto a Renan, ele parece ter dado em Cunha o chamado abraço dos afogados.

Que as profundezas os devorem.

Paulo Nogueira
No DCM
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My name is Cunha

Você conhece. Você confia. Please allow me to introduce myself. My name is Cunha, mas pode me chamar de Cramunhão, de Sete-Pele, Coisa-Ruim, Cão-Tinhoso, Cabrunco, Gota-Serena, Caralho-de-Asa, Sinteco Gelado. Escrevo porque tem uma garotada por aí que está achando que eu vou cair. Mua-ha-há (difícil digitar risada malévola). Meninada, vamos ter uma a aula de história? Eba. Vamos!

Sou muito, mas muito mais antigo do que vocês pensam. Cheguei aqui há uns 500 anos, na primeira chacina de índios batizada de descobrimento. Lembra dos navios negreiros? My bad. Guerra do Paraguai? Sorry about that. Tiradentes? Eu que esquartejei aquele comuna safado. Cabanagem, Sabinada, Balaiada, Canudos, eu que abafei a badernagem toda. Mua-ha-há.

Aí você me pergunta: "Como saber que você é você, príncipe das trevas?". Dica: não procurem por um rabo pontudo, chifres, pele vermelha. Esse look é muito século 12. Dica: a-do-ro um terno cinzão. Com uma gravata azul-bebê.

Também não tenho partido, muito menos ideologia. Cuidava da polícia política do Vargas ao mesmo tempo em que tocava fogo na favela em nome do Lacerda. 1964? Check. Benário, Herzog, Paiva, Angel, Chico Mendes, Amarildo? Check, check, check. Carandiru? My fucking idea. Candelária? Me, good old me. Meu nome é Legião. Mas não adianta procurar legião no Face. No momento, atendo por outro nome.

Cansado de ser Sarney, saí do Maranhão com a sensação de dever cumprido. Vim para o Rio porque tenho muitos correligionários (PMDB rules, hehe). Assumi o nome de Cunha — abreviação de Cramunhão, quem pegar pegou — e não planejo sair deste corpo tão cedo. A-mo um implante malfeito e uma boca babada.

Uma dica: estou só começando neste corpo. Falta fazer muita coisa. Falta reduzir a maioridade penal para oito anos, falta intervenção militar, falta poder para as igrejas (sim, sou neopentecostal, ób-vio).

Acho fo-fo quem acha que vou cair. O homem que me nomeou presidente da Telerj, meu muso Fernando Collor, caiu. E eu, nada. Meu compadre PC Farias, que me trouxe para a política, caiu. Tomou teco. E eu, nada.

Filhão, é como diz o outro: "Mil cairão ao meu lado, 10 mil à minha direita, mas eu não serei atingido".

Já protagonizei 20 escândalos de corrupção e não caí. Se vocês acham mesmo que é uma miserinha de US$ 5 milhões que vai me derrubar... Vocês definitivamente não me conhecem.

Gregório Duvivier
No fAlha
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Conspiração não entra em recesso

A Folha (14/07) noticiou um fato da maior gravidade. Na residência oficial da Presidência da Câmara dos Deputados, o chefe da Casa, Eduardo Cunha, dividiu o "breakfast" com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o impagável Paulinho da Força, do partido Solidariedade. Além de guloseimas habituais, constou do cardápio nada menos que o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Boquirroto como sempre, Gilmar confirmou o debate sobre o assunto. "Ele [Cunha] falou dos problemas de impeachment, esses cenários todos". Perguntados pela reportagem, Paulinho da Força e o presidente da Câmara tergiversaram, sem convencer. O texto afirma que o deputado do Solidariedade especulou que a derrubada da presidente (pois é disso que se trata) supõe um acordo entre Eduardo Cunha, o vice Michel Temer, Renan Calheiros, chefe do Senado, e o presidente do PSDB, Aécio Neves.

Se isto não é conspiração, é bom tirar a palavra do dicionário. Que diabo pode representar a reunião entre o terceiro nome da linha de sucessão do Planalto, um ministro da mais alta corte da Justiça e um parlamentar adversário obsessivo do governo — os três para discutir a deposição de uma presidente eleita?

A qualidade dos interlocutores dissipa dúvidas. A capivara é geral. O presidente da Câmara, de currículo mais do que suspeito, foi acusado de embolsar milhões de dólares em negociatas. O ministro Gilmar, dono de um prontuário de atitudes controversas, é conhecido por travar o fim do financiamento empresarial nas eleições.

A presença de Paulinho da Força mostra-se tão exótica quanto reveladora. Exótica porque se desconhece, pelo menos em público, qual credencial do insignificante Solidariedade para participar no colóquio. A contribuição mais relevante da legenda vem sendo a de responder "impeachment" a qualquer questão do cenário político.

Reveladora quando se sabe que o ex-sindicalista protagoniza vários processos e membros do seu grupo estão enrolados até o pescoço na Lava Jato. Detalhe: o partido destacou-se como o único a soltar nota de solidariedade, sem trocadilho, ao pronunciamento destemperado de Eduardo Cunha após ser acusado de beneficiário da corrupção. Nem a legenda dele, PMDB, atreveu-se a tanto.

Nesse clima, nenhum recesso parlamentar coloca tropas em descanso. A coisa é bem maior. Na verdade, a conspiração sempre prefere trabalhar à sorrelfa. Limites constitucionais, veleidades jurídicas e direitos elementares mais atrapalham do que ajudam num cenário de vale tudo.

As denúncias contra o ex-presidente Lula trazem novo exemplo. Vão das baixarias das "nove digitais" esgrimidas num documento tucano até acusações de... ajudar a expandir negócios do Brasil no exterior quando já havia deixado o cargo público! Por causa disso, Lula virou alvo de ação estimulada por um procurador notório pela campanha nas redes sociais contra o PT; e por outro que tem mais de 200 ocorrências de negligência no exercício da função. Já a fundamentação judicial nem zero tiraria em redação de vestibular.

Quem vai assumir a responsabilidade por tanta irresponsabilidade? A sensação é a de um conjunto de forças sem liderança. Sua única bandeira parece ser Delenda est PT. Em torno dela, cada um opera a seu bel prazer — Sergio Moro, Rodrigo Janot, procuradores excitados, Polícia Federal desgovernada, parlamentares paroquiais — tudo isso diante de um governo entre atônito e preocupado, mas sem iniciativa face à degradação das condições de vida da maioria. Cabe lembrar: nem sempre do caos nasce a ordem.

Ricardo Melo
No fAlha
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O que explica o silêncio do PSDB no caso Eduardo Cunha

Eles
O PSDB tem um velho problema crônico de não se posicionar diante de certos casos de repercussão nacional — uma atitude que, paradoxalmente, escancara suas intenções.

O silêncio do maior partido de oposição em torno de Eduardo Cunha está longe de ser um episódio isolado.

Apenas para citar alguns eventos recentes em se verificou essa mudez: a execução do brasileiro Marco Archer na Indonésia, o espancamento dos professores pelo governador do Paraná Beto Richa e a cafajestada de Bolsonaro com a colega Maria do Rosário.

Aécio foi provocado a falar de Cunha e deu um recado burocrático, quase triste. Ele acompanha “com preocupação” o agravamento do quadro político no país e defende a investigação das denúncias de corrupção.

Sem citar nomes, também afirmou que continuará defendendo “as nossas instituições para que elas cumpram suas funções constitucionais”.

Vindo de um senador que trabalhou contra as instituições, é uma piada. Mas o que chama a atenção é menos a hipocrisia e a mais a certeza de que o PSDB repete o truque.

Quem dizer, não todo. Alberto Goldman — o mesmo que admitiu que o partido “não tem projeto” — falou que a denúncia de propina “afeta a capacidade de liderança do presidente da Câmara dos Deputados e o apoio que ele conquistou para sua eleição ao cargo”.

A desgraça de Cunha é ruim para os pessedebistas. Ele era um aliado importante na batalha pela instabilidade. O que era bom para Cunha era bom para o PSDB, ao menos até a página 2.

A proximidade da relação se dá na agenda e em outros detalhes. Quem produziu o pronunciamento de Cunha na TV foi um marqueteiro que compôs a equipe da campanha aecista.

O imbloglio em que está metido Eduardo Cunha tira de cena um ator importante para as pretensões de Aécio e do PSDB. O Solidariedade foi o único a sair do armário e abraçar o presidente da Câmara. O Psol pediu impeachment.

O PSDB prefere o silêncio, que faz muito mais barulho.

Kiko Nogueira
No DCM
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Renan chama ajuste fiscal de "tacanho" e elogia Cunha


O presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB-AL), criticou duramente o ajuste fiscal proposto pelo Executivo, classificando-o de "tacanho" e "insuficiente", e previu meses "nebulosos" pela frente.

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Traição anunciada

Ousemos imaginar que o Congresso decide o impeachment de Dilma: Renan Calheiros e Eduardo Cunha votam com o governo ou com a oposição?

Senado e Câmara, sob controle dos peemedebistas
Renan Calheiros e Eduardo Cunha, respectivamente, aprofundaram os
problemas erguendo barreiras para descarrilar a economia.
Admitamos uma hipótese altamente improvável, para não dizer impossível, por amor ao raciocínio. E se o Congresso fosse chamado a tomar a decisão do impeachment de Dilma Rousseff?

Caso isso ocorresse será sempre, como em outros casos, um julgamento político que, na Câmara de Deputados, por exemplo, depende de 342 votos, em 513, para alcançar aquilo que, objetivamente, nas circunstâncias de agora, pode ser tratado como golpe. O número de apoios entre deputados é difícil de ser alcançado, a não ser que aconteça uma traição na base do governo.

Como se sabe, a fragilidade governista foi desencadeada pela baixa popularidade gerada no início do segundo governo, atacado pela corrosão da economia. Aí foi gerado o efeito dominó que atingiu as outras instâncias do poder, como ocorreu no Parlamento.

Senado e Câmara, sob controle dos peemedebistas Renan Calheiros e Eduardo Cunha, respectivamente, aprofundaram os problemas erguendo barreiras para descarrilar a economia. Os dois abalaram definitivamente a base de Dilma no Congresso. Tudo parece correr por um caminho marginal sem volta.

Daí nasce a seguinte interrogação: se houver uma hora decisiva, o PMDB sustentará seu apoio ao governo ou Renan e Cunha trairão a presidenta? Infiltrados na base governista, eles poderiam se tornar aquilo que é chamado historicamente de quinta-coluna?

Obviamente, sim. Nesse sentido, aliás, os dois sinalizam desde agora.

Até então a coisa era outra. O partido aliou-se ao PT e ganhou as eleições de 2006, 2010 e 2014. Em 2002, com a primeira vitória de Lula, os peemedebistas desfizeram a aliança com o PSDB e aderiram. Regalaram-se com o sucesso dos dois governos do presidente Lula e, justiça seja feita, foram fiéis aliados.

Amamentados pelo leite do poder, cresceram e engordaram. Têm mais de 2 milhões de filiados. Contam com 7 governadores, 80 deputados federais e 17 senadores. São, portanto, os mais fortes no Senado e na Câmara. Por outro lado, lideram o ranking da corrupção entre os partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral, conforme indica o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral.

Entre 2000 e 2007, o partido perdeu, por cassação, 66 parlamentares.

Bem, o PT digeriu tudo isso e Michel Temer, presidente do PMDB, tornou-se vice-presidente. Sem “eles”, dizem os petistas, Lula e Dilma não governariam. Com isso, entretanto, há outros riscos. Surgidos principalmente após a morte de Ulysses Guimarães.

Os petistas não impuseram limites aos peemedebistas da base aliada, de 11 partidos. Muitos deles capazes de fazer qualquer pacto. Não há santos, mas, a exemplo das igrejas, o PMDB nunca fecha as portas. Entra quem quiser. Quem quiser também pode sair. E, em seguida, voltar.

Aconteceu assim com o ex-deputado Moreira Franco. Era do PMDB. Em 1977, entretanto, elegeu-se prefeito da cidade de Niterói (RJ) pelo PDS, então sustentáculo da ditadura. Recentemente Moreira veio a público com uma afirmação forte: “Não somos golpistas”. O plural talvez traia sua ligação com Michel Temer.

Esse brado pouco retumbante não explica tudo. Aponta, porém, o risco de, na hora H, Renan e Cunha, arautos do PMDB, apunhalarem Dilma, como Brutus apunhalou César.

Maurício Dias
No CartaCapital
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