6 de jul de 2015

Como preparar a resistência a um golpe

Vira-latas golpistas estão nas ruas
Tenho visto pessoas aflitas com a possibilidade de um golpe reacionário ser praticado no Brasil, mas quero ao mesmo tempo dar a esperança de que este golpe não ocorrerá, também alertar para que todos estejam prontos para uma reação imediata caso ocorra uma ruptura institucional.

Primeiro entendamos qual é a estratégia golpista e como ela tem procurado instalar o clima do golpe. Em segundo lugar, compreendamos como agir a fim de não deixar o golpe acontecer e caso aconteça, como revertê-lo. Por fim, que fique claro que não existe nada na história que é dado até que aconteça e mesmo o que acontece pode ser um fator aglutinador de resistência.

As forças interessadas no golpe atualmente são exatamente as mesmas que o fizeram em 1954 e 1964. São os meios comunicações hegemônicos (Globo, Veja, Folha, Estadão, etc), as grandes empresas multinacionais (em especial as petrolíferas concorrentes da Petrobrás), o imperialismo dos Estados Unidos (que não aceita a integração latino-americana e o BRICS) e a direita golpista (fascistas, ultraliberais e fundamentalistas religiosos). Este consórcio perdeu as eleições de 2002, 2006, 2010 e 2014 e está disposto a ir às útlimas consequências com o golpe para barrar o projeto de desenvolvimento autônomo com distribuição de renda que, aos trancos e barrancos, ainda é o que de melhor o cenário político nacional é capaz de oferecer.

A estratégia golpista tem sido experimentada de várias formas. A tentativa de invalidar as eleições, a rejeição das contas do governo pelo TCU ou da campanha de Dilma pelo TSE, alguma delação "premiada" que mesmo virtualmente associe a operação "Lava Jato" ao governo ou qualquer outro tipo de pretexto. Tudo isto está fácil com o Congresso controlado pelo PMDB de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, que ainda têm o vice-presidente Michel Temer (os três na linha de sucessão). Muito provavelmente eles tentarão o golpe da mesma forma usada em Honduras ou no Paraguai, via legislativo ou judiciário. Vale lembrar que a mesma embaixadora dos Estados Unidos em Assunção na ocasião da deposição de Lugo, está hoje alocada em Brasília.

Mas um golpe sem apoio de parcelas significativas da população não se sustenta. Por isto vem o bombardeio dos meios de comunicação. Neste fim de semana, estava uma chuva tremenda, a estrada cheia de lama e o ônibus largou todos os passageiros no meio do caminho. Todos ficaram indignados, mas um senhor surpreendeu-me dizendo: "culpa dessa Dilma que essa estrada está deste jeito". Por sorte recordei-o de que quem deveria cumprir este papel era o prefeito e, depois de um certo conflito mental, parece que o senhor aceitou que nem todos os problemas políticos do mundo são culpas do bode expiatório fabricado pela mídia: a presidente e seu partido (Hoje, o bode espiatório chama-se Dilma. Ontem chamou Jango e anteontem seu nome era Getúlio). Este é um típico exemplo da desinformação propagada pela mídia.

E assim funciona a onda da ignorância: espalham por todos os meios que a culpa é de uma pessoa e de um partido. Enquanto só falam deles, todos os outros roubam à vontade, tocam o terror nos poderes legislativos e judiciários, fazem os piores crimes de descaso com a população no nível municipal e estadual, mas sempre nos fazem lembrar que a culpa é do bode expiatório. Os outros partidos, em especial o PSDB e o PMDB, podem roubar à vontade que ficam blindados pela mídia. E é exatamente por isso que interessa a eles o golpe.

Depois das manifestações "contra a corrupção com a camisa da CBF", a direita golpista mostrou sua cara. Mas seu intento de seguir mobilizada fracassou com o discurso do ódio prevalecendo na pauta. No entanto, várias ações fascistas isoladas têm proliferado como agressões a membros do partido da presidente e mesmo ataques à suas sedes. Isto, infelizmente, não tem sido enfrentado por parte do governo, que parece inerte perante tantas agressões. Além de ter uma péssima política de comunicação social, o governo tem agido de forma burocrática com despachos de gabinete sem travar o debate na sociedade, o que dificulta a resistência. Mas mesmo assim, é preciso lutar para que o golpe não ocorra e caso ocorra, ele precisa ser revertido, denunciado seus autores punindo-os devidamente.

É preciso construir uma frente ampla em defesa da democracia com partidos, movimentos sociais e a sociedade civil organizada. Também deve-se avançar na luta antifascista e na formação ideológica das forças populares e democráticas. Este caldo é fundamental para resistir a uma eventual quebra da institucionalidade democrática. Vale lembrar que existem muitos exemplos de contragolpes que foram não apenas bem sucedidos, mas principalmente reverteram as limitações do governo anterior e repactuaram as forças políticas do país num sentido mais progressista.

De fato, é preciso ter claro que este golpe não visa melhorar o país, tampouco salvá-lo de qualquer coisa. Ele simplesmente pretende barrar os avanços sociais da última década que foram importantes, mas pequenos. Porém, foram o suficiente para despertarem o ódio das elites que sempre entregaram nossos recursos naturais ao imperialismo e sempre tiveram por projeto a submissão do Brasil ao grande capital estrangeiro. Ou seja, trata-se de um golpe para mudar tudo, desde que tudo fique como está.

Portanto, transformemos a crise em oportunidade. Ao invés de caírmos num pessimismo ou autoflagelo da esquerda, estejamos com a certeza de que vale a pena lutar e resistir. Não esperemos uma reação do governo. Tomemos as ruas e as redes com palavras de ordens consequentes. Derrotar o fascismo, o golpismo e o entreguismo é dever e honra desta geração. Lutemos de cabeça erguida para que fique registrado nos anais da história não apenas que esta geração não fugiu à luta, mas que ela foi vitoriosa em garantir a democracia.

Professor Thomas de Toledo
No Esquerda Caviar
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O STF vai lavar as mãos diante do golpe de Cunha contra o povo e a Constituição? Ministros, coragem!


Em 2003, na primeira edição do Brasil de Fato, Celso Furtado disse: “Lula deve ter coragem se quiser conter a desagregação que ameaça o Brasil”.

Hoje, na minha maior e pura imaginação e com devoção e respeito ao professor, diria que esta seria a mesma observação que ele faria aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em períodos de  esgarçamento da democracia, o Poder Judiciário é colocado em xeque face ao seu papel de guardião da democracia. No período da ditadura de 1964, até certo momento, o STF foi um alento diante das violações,mas com o AI-5, foi castrado na sua atribuição de órgão que compõe o sistema dos três poderes, independentes e harmônicos. Ministros fizeram suas escolhas e por esta razão alguns foram cassados ou se afastaram. São ícones da nossa história, como o Ministro Evandro Lins e Silva.

Hoje, como  nunca, é necessário que o STF seja a expressão maior de um poder da República, um órgão da soberania nacional, entendido na perspectiva da subordinação ao povo, nos termos do ordenamento jurídico democraticamente construído.

A “polis” determinou na Constituição Federal qual é a sociedade que almeja, sob quais princípios, fundamentos e patamares éticos. Nenhum juiz ou legislador pode substituir essas diretrizes pelas suas.

Mas, no período de um mês, tivemos dois episódios, da maior gravidade, que demonstram que os legisladores, querem tratorar a Constituição e substituir o povo, que deveriam representar.

Refiro-me às PECs da menoridade e do financiamento empresarial de campanha eleitoral, que instauraram um período sombrio no Poder Legislativo. Vários juristas já anteviam o agravamento desta situação ao subscreverem o Manifesto em Defesa da Constituição e do Parlamento, registrando a importância de manutenção de um Legislativo íntegro.

Nestas dois casos, o que tivemos foi um golpe do legislativo contra o povo, dos mais abjetos, na medida que rompeu com a regra da Constituição, que só pode ser mudada dentro do estabelecido pelo sistema democrático.

A Constituição não permite a reapreciação de um projeto de lei em determinado lapso temporal , e assim o fez para a necessária estabilidade legislativa, fundamental para a existência da democracia. O Poder Legislativo é um dos tripés do Estado Democrático de Direito, que só poderá existir se mantida a dignidade do processo legislativo.

Pois bem, o que foi feito pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e muitos outros violadores do processo legislativo que o seguiram, diante de um resultado que não os agradava? Maquiaram uma proposta, dando o nome de “aglutinativa”, usando a proposta rejeitada, suprimindo parte dela, para colocar novamente em votação, o que é absolutamente vedado.

Admitir que projetos rejeitados fossem recortados e novas emendas apresentadas, infinitamente, até que se chegasse ao resultado pretendido — sabe-se lá Deus com que tipo de persuasão! — não é o que determina e almeja a Constituição.

Cabe agora ao Supremo Tribunal Federal colocar as coisas nos trilhos, nos processos que lhe são apresentados. Medidas devem ser tomadas rapidamente, pois o povo e a democracia não pode ficar à mercê do tempo ou mesmo da vontade particular dos ministros.

O Supremo Tribunal Federal tem processos em suas mãos e todos cidadãos esperam uma resposta, com a urgência e magnitude de tudo o que está envolvido.

Em relação ao financiamento de campanha, passou da hora do STF decidir a ADI proposta pela OAB, que discute o financiamento empresarial (Ministro Gilmar Mendes disse que devolveria em junho, mas não devolveu; e no mês de julho o STF não julga ADI em razão do recesso). Se o julgamento tivesse sido realizado, o Legislativo já saberia o patamar definitivo sobre o tema.

A urgência é aflitiva, pois em breve teremos eleição em todas as cidades e o Supremo precisa dizer que empresas não podem financiar campanha eleitoral, como já afirmou a maioria dos ministros. Se o STF não julgar, coonestará com o que ocorre em relação ao sistema eleitoral, admitindo que milhões e milhões e milhões de reais sejam despejados pelas empresas nas mãos dos nossos futuros políticos.

Também necessário que a ação (mandado de segurança) referente à violação do procedimento legislativo seja julgado o mais rápido possível, para que diga, como órgão jurisdicional que detém a última palavra, se valeu ou não a segunda votação que foi feita.

No que diz respeito à PEC da menoridade, imprescindível que seja proposta ação perante o STF.

O Supremo Tribunal Federal é o responsável para que a Constituição Federal não se torne letra morta. A ele cabe a manutenção da higidez constitucional, a afirmação do Estado Democrático de Direito, o que não se concretizará pela omissão, segurando processos.

Muitas outras ações no STF estão paradas há muitos anos. Entre elas, a da demarcação de terras indígenas, cuja omissão traz um flagelo inominável aos povos indígenas, e a que pede a realização de auditoria da dívida pública brasileira (como determinado na Constituição).

O Supremo Tribunal Federal é o responsável para que a Constituição Federal não se torne letra morta. A ele cabe a manutenção da higidez constitucional, a afirmação do Estado Democrático de Direito, o que não se concretizará pela omissão, segurando processos.

Muitas outras ações no STF estão paradas há muitos anos. Entre elas, a da demarcação de terras indígenas, cuja omissão traz um flagelo inominável aos povos indígenas, e a que pede a realização de auditoria da dívida pública brasileira (como determinado na Constituição).

Diante desse quadro, preocupadíssima, pergunto: O STF vai lavar as mãos diante do golpe de Eduardo Cunha e muitos outros violadores contra o povo e a Constituição

Na democracia não dá para lavar as mãos. É preciso ter coragem.

Engana-se Eduardo Cunha se pensa que é dono do brinquedo, da bola. Ele não é dono do poder, o poder pertence ao povo.

Kenarik Boujikian, magistrada no Tribunal de Justiça de São Paulo e  cofundadora da Associação Juízes para a Democracia
No Viomundo
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Oportunidades iguais a pessoas com deficiência fortalecem democracia, afirma Dilma

Dilma: nova lei define pena de reclusão de um a três anos para quem discriminar pessoas com deficiência.
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

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A mídia comanda o retrocesso

Uma fotomontagem em que a presidenta Dilma Roussef aparece de pernas abertas, na boca de um tanque de gasolina de automóvel, jogou mais combustível na fogueira de ódio e insensatez que se espalha por todo o país. A imagem é chocante e não ofende apenas a mais alta autoridade do país, mas todos os cidadãos e, principalmente, as mulheres, no Brasil e no mundo. A metáfora visual é a de uma penetração sexual, de um estupro.

Essa afronta não é um caso isolado. Pelo contrário, a passividade das principais autoridades do país tem autorizado uma série de crimes, contra a democracia e contra a dignidade humana.

Por trás de gestos mais raivosos, tresloucados e imbecilizados, foi tecida uma competente estratégia de propagar o ódio e promover a agitação social necessária à aplicação de um golpe de estado para o qual só parece faltar o acerto de data. Mais que um golpe contra o resultado das urnas, seria um golpe contra boa parte dos avanços civilizatórios duramente conquistados desde o fim da ditadura de 64.

Some-se a isso uma intolerância religiosa que era até então desconhecida no país e que hoje grita seus slogans medievais muito além dos púlpitos, nos parlamentos e nas emissoras de rádio e tevê.

Depois da quarta derrota eleitoral à presidência, os setores mais conservadores da sociedade brasileira perceberam que, pela via democrática, suas chances de ascender ao Palácio do Planalto tornaram-se remotas. Se não foi possível convencer pelo voto, importantes setores da mídia, do parlamento e do judiciário desenharam nova estratégia.

Os principais veículos de comunicação passaram a desenvolver, diariamente, uma estratégia que consiste em omitir o que há de positivo no país e exagerar na análise pessimista. Mais que isso: o que poderia ser uma excelente oportunidade para desnudar como funciona o esquema de financiamento de campanhas políticas e o uso da máquina pública e de empresas estatais para troca de favores — em todas as esferas, federais, estaduais e municipais — resultou em uma justiça caolha, uma mídia manipuladora e um Congresso Nacional retrógrado, centrados no objetivo de criminalizar um único partido, um único governo e, especialmente, Lula e Dilma.

O festival de imagens agressivas vem sendo produzido há muito tempo. Um dos casos mais recentes ocorreu na coluna do jornalista Ricardo Noblat, no jornal O Globo (29/6/2015), que pôs a cabeça degolada da presidenta Dilma em uma bandeja. O título acompanha o “primor” da ilustração: “Em jogo, a cabeça de Dilma”.

O jornal Correio Braziliense publicou no dia 8/9/2014, na capa, uma foto de Beto Barata em que uma metralhadora é apontada contra a face da presidenta, durante desfile militar de 7 de Setembro.

O mesmo truque de angulação — usado à exaustão e, portanto, já sem nenhuma originalidade — deu a Wilton Júnior (O Estado de S. Paulo) o Prêmio Esso de Fotografia de 2012. Ilusoriamente uma espada trespassa o corpo da presidenta durante uma cerimônia na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ).

Se alguns dos principais veículos de comunicação, por repetidas vezes, simulam que a presidenta deve ser executada — e aí não há nenhuma possibilidade de inocência nessa metáfora de “morte à presidenta” —, porque deveríamos estranhar que essa convocação à “malhação de Judas” não encontraria campo fértil em meio a milhares de internautas ávidos por exibir toda a sanha reacionária e a falta de escrúpulo no debate político? Por que nos surpreenderíamos com tantos cartazes pedindo a volta da ditadura em passeatas que a mídia louva como a fina flor da democracia? Por que nos espantaríamos com as bancadas evangélicas, da bala e do latifúndio a vociferar contra os direitos humanos?

Houve quem tenha se recusado a reproduzir, nas redes sociais, a imagem sórdida de uma mulher, de pernas abertas na boca do tanque de combustível de um automóvel.  Compreendo e louvo a tentativa de evitar a banalização da cena. Inclino-me, no entanto, na direção contrária, por uma razão: não podemos deixar de ver, compreender e estar alerta contra o que ameaça destruir a dignidade humana. Ver para não se iludir sobre o crescimento da barbárie. Ver para denunciar o ódio que cega tantas pessoas que se consideram humanas, amorosas.

Estranhamente, começaram a surgir, também na internet, os indignados contra quem se indignou. Houve muitas críticas aos que optaram por mostrar as imagens anexas aos textos de protesto a esse ato de misoginia. Boa parte dos críticos não atacou os autores da fotomontagem que escandalizou o país. Preferiu desviar o foco do debate, para tentar atingir apenas aqueles que se disseram profundamente impactados pelo ato vil.

A imagem é grosseira e não cabe banalizá-la com reproduções gratuitas e comentários machistas. Mas é preciso mostrá-la a quem ainda não viu, para que percebam a extensão do que acontece hoje no Brasil, e acordem a tempo de evitar o pior. Há uma profusão de atentados à democracia e à dignidade humana. E, por serem desferidas contra o atual governo, contra Lula, Dilma e o PT, não faltam incentivadores desse ódio que brota de nossas raízes racistas, conservadoras e elitistas.

Há coisas que precisam ser vistas. Não há como esconder as atrocidades que o ser humano já foi capaz de perpetrar, ao longo de milênios. Algumas imagens têm o poder de alertar contra a fera humana, sempre numa tênue fronteira entre civilização e barbárie.

A imagem que repugnou o país é somente o ápice de uma ação que tem os donos da mídia como principais articuladores. É um movimento que também grita contra os direitos humanos, que não se conforma com a inclusão social, não se importa em entregar as riquezas e o futuro do país aos interesses do capital internacional, não se importa com uma justiça de duas caras, dois pesos e duas medidas, que não aceita as mudanças que ocorreram nos últimos anos beneficiando sobretudo os mais pobres. Essa imagem é só uma amostra do nível de degradação a que estaremos expostos se as forças reacionárias dominarem novamente o Brasil.

Celso Vicenzi
No Viomundo
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Não vai haver golpe, e aqui estão as razões

Ela vai até 2018
Cansei.

Cansei do clima de derrota, de desolação, de paranoia que se alastrou pelos círculos progressistas nas redes sociais.

É como se o golpe fosse uma coisa inevitável.

Não poderia haver coisa mais errada.

Não vai haver golpe. Repito. NÃO vai haver golpe. Lamento as maiúsculas, mas são necessárias neste caso.

2015 não é 1954 e não é 1964.

As circunstâncias são diferentes, completamente diversas — exceto pela vontade da direita de subverter o resultado das urnas e a democracia.

Alguns pontos:
  • Não vivemos numa Guerra Fria. Os Estados Unidos, consequentemente, não têm marines prontos para despachar para o Brasil para defender os golpistas de direita;
  • Não existe, no Brasil, um exército mobilizado para colocar os tanques nas ruas. Foi tão funesta a experiência dos militares no poder — 21 anos de poder e uma desastrosa obra em todos os campos, da política à economia, para não falar da questão social — que não existe a mais remota chance de uma segunda aventura dos generais por séculos.
  • Nem Jango e nem Getúlio tiveram a internet como contrapartida para o massacre da mídia.
  • Mesmo com o desgaste dos anos e de alianças bisonhas, o PT tem uma base social que ninguém pode subestimar. O Brasil entraria numa convulsão, e a direita sabe disso. Toda a raiva acumulada pela campanha de ódio da direita se traduziria em ódio na mesma medida da esquerda, e o país poderia virtualmente entrar numa guerra civil.
Por tudo isso, e por outras coisas que tornariam este artigo interminável, não vai haver golpe.

O que a direita quer, com sua gritaria histérica e alucinada, com suas ameaças tonitruantes e vazias, é manter os progressistas acoelhados, imobilizados até 2018.

E está conseguindo.

Espinha ereta: é isto que está faltando para os progressistas.

Coragem.

E discernimento.

Nestes dias, amigos no Facebook compartilharam, amedrontados, uma nota do Painel da Folha em que estava, segundo eles, o “roteiro do golpe”.

O Painel é feito pela mulher de um assessor de Aécio, e ex-editor da Veja.

Levar a sério?

Faz meses, anos, que a Veja afirma que o governo petista vai cair. Foi assim com Lula, é assim com Dilma.

É a vontade da Veja, porque um presidente amigo prolongaria com dinheiro público a vida da Abril, agonizante.

Só que entre a vontade da Veja e a realidade vai uma distância enorme.

Mas os progressistas parecem desconsiderar, e entram em pânico.

O medo imobiliza, e este é o principal problema para os progressistas.

Você sente desânimo para dar a melhor resposta para a gritaria conservadora: sair às ruas.

É nas ruas que a batalha vai ser ganha ou perdida. E não estou falando em golpe, mas em 2018.

Termino com Montaigne.

Num de seus melhores ensaios, ele afirmou: “Meu maior medo é ter medo.”

Os progressistas estão com medo — e a hora é para adultos, não para meninos assustados.

Paulo Nogueira
No DCM
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Eduardo Cunha e o contrato insuficiente

Neste momento, não há quem não esteja intrigado com a desfaçatez de Eduardo Cunha ao driblar a Constituição pra conseguir aprovar a emenda que reduz a idade penal no Brasil de 18 para 16 anos. Quer dizer, há: mas somente aqueles que são radicalmente favoráveis a ela. Por outro lado, OAB e a parte derrotada do Congresso já anunciaram que vão recorrer ao Supremo para denunciar a reapresentação do texto, com apenas algumas pequenas alterações, menos de 24 horas após o primeiro resultado, que não havia atingido o número necessário de votos para sua aprovação.

A manobra é vedada pela carta magna, justamente porque, se possível, permitiria a sondagem antecipada de votos dissonantes no plenário — já que eles são públicos — e eventuais práticas coercitivas de convencimento para a virada pouco tempo depois.

Neste momento, são muitas as perguntas: como isso foi possível? Ninguém pode barrá-lo? O que explica o tamanho da aceitação de uma gambiarra com a maior referência legal do país?

Em Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, Christian Dunker oferece uma importante ferramenta pra desvendar esse embaraço. De acordo com o psicanalista, o modo de vida que proliferou no Brasil a partir dos anos 70 contribuiu significativamente para a dilatação do contrato social que nos rege, diante do reconhecimento de uma falência generalizada do espaço público.

É no interior dos muros dos condomínios que a vida que não funcionou lá fora pode dar certo. Verdade seja dita, este é um dos ingredientes da ascensão do neoliberalismo no Ocidente a partir de então, quando todos os aspectos da vida passaram a ser incorporados pelo mercado, inclusive a segurança e a felicidade. "Porque aqui é domingo todos os dias", seduz um dos anúncios de lotes à venda.

Entre "iguais", a sensação de segurança aumenta exponencialmente. Por "iguais", entenda-se: aqueles que podem pagar pelo conforto de uma vida paralela a comum, aquela perigosa do lado de lá do muro. Mas, segundo Dunker, o sonho do domingo repetido virou pesadelo. E é Freud quem explica: entre semelhantes, as pequenas diferenças se avolumam, produzindo o que ele chamou de "narcisismo das pequenas diferenças". Daí a sensação de que o contrato social precisa ser constantemente refeito, atendendo pequenos e insignificantes conflitos, potencializados, no entanto, pela igualdade de condição entre os diferentes.

É o que ajuda a explicar o crescente fenômeno dos justiçamentos, que aumentaram brutalmente nos últimos anos junto com a ideia de que o número de leis no país é insuficiente e só contribui para a insegurança. Com a proposta de redução da maioridade penal não é diferente: não resolve, em nenhum país resolveu, mas a medida funciona como uma espécie de morfina pro sofrimento daqueles que se contaminaram com a paranoia de que a delinquência juvenil é o retrato da impunidade no país.

Nas redes sociais, assim como houve no próprio Congresso durante a sessão que aprovou a emenda, Cunha é ovacionado como um líder corajoso que desafiou o PT e a bancada dos Direitos Humanos. Ainda que legalmente errado, está moralmente certo diante do imaginário popular e, neste caso, a Constituição é vista somente como uma barreira, um impasse, uma burocracia. Cunha reproduz aquilo que Christian Dunker aponta como uma tendência no Brasil entre muros: é preciso alguém que ande à margem da lei pra que a lei seja restabelecida. Está longe de ser aleatória a presença do personagem de Batman nos últimos protestos por intervenção militar no país.

Aconteceu há pouco com Joaquim Barbosa e se repete com Cunha a materialização de um sentimento que está nas ruas e que precisa ser compreendido pra que o estado de direito não se dissolva de vez. Mais do que a idade penal, o que está em jogo é a democracia e tudo o que de mais importante ela garante, inclusive o direito de comemorar a sua derrocada.

Murilo Cleto
No Blog do Miro
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PSDB quer dar um Golpe (só de) branco!



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Não somos nazistas: Judeus e petistas

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Dilma e o PT: mirem-se no exemplo daquelas pessoas de Atenas

http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/palavra-minha/dilma-e-o-pt-mirem-se-exemplo-daquelas-pessoas-de-atenas/


A “Folha” abriu de forma curiosa o texto em que noticia a vitória do NÃO na Grécia: “em um resultado surpreendente…” De fato, o rechaço ao programa liberal imposto aos gregos foi surpresa — mas apenas para quem se baseia nas agências de notícias internacionais e nos comentaristas da GloboNews.

Acontece que o mundo real não aboliu a política.

Vejamos: o ajuste ultraliberal imposto à Grécia nos últimos 5 ou 6 anos foi aceito pelo PASOK (histórico partido de centro-esquerda, que se desmoralizou e perdeu base social justamente por ter cedido ao FMI e à União Europeia/UE). Humilhados, os socialistas do PASOK tiveram que ser substituídos por um governo “técnico” liderado por Samaras (e este seguiu na mesma linha ultraliberal).

O ajuste provocou uma tragédia social. O resultado veio nas urnas. O partido Syriza ganhou em 2014, dizendo que romperia com o ajuste liberal.

O que fizeram os banqueiros, o FMI e os burocratas da UE? Disseram assim: danem-se as urnas, o programa liberal não muda, e deve ser aplicado seja qual for o vencedor nas urnas. É como se a democracia tivesse sido substituída por uma tecnocracia econômica que diz o que é bom pra todos nós.

O Syriza não aceitou a chantagem. Não foi tampouco “juvenil” nem panfletário. Sentou à mesa, tentou negociar. Diante da arrogância europeia, resolveu consultar o povo. O referendo de domingo foi um reforço no mandato popular que o Syriza já possuía.

O paralelo com o Brasil é evidente. Claro que a crise grega é dez vezes mais grave. O Brasil não adotou um ajuste tão severo como o imposto a Atenas. Ok. Mas o paralelo serve para entender a questão democrática.

Dilma foi eleita dizendo que não cederia à chantagem do “mercado” e cunhou a famosa frase: “nem que a vaca tussa”. Passada a eleição, virou as costas para o programa vencedor.

É como se  o Syriza tivesse aceito a chantagem da UE…

Dilma cedeu à chantagem liberal, desagradou sua base eleitoral, e não ganhou o outro lado que já a detestava.

Em fevereiro isso já estava claro. Foi o que escrevi há cinco meses (clique aqui para ler o texto completo):
O PT manterá alguma capacidade para ser força aglutinadora (uma entre várias forças) de uma nova Frente de Esquerda — que parece ser a saída para se enfrentar o novo ciclo histórico?

O Quinto Congresso do partido, que acontece este ano, terá papel definitivo. Se o PT seguir amortecido, incapaz de se renovar como força aglutinadora do bloco popular, terá selado seu destino.

O tempo dos acordos e do “reformismo fraco” está encerrado. Sem renovação imediata, o PT não vai “acabar” (como afirmou Marta, de forma açodada e oportunista), mas definhar. Nesse caso, o PT não seria derrotado pelo “mar de lama” — como afirmam mervais e colunistas toscos na revista da marginal. Mas pela falta de capacidade de reagir à agenda conservadora, e pelo fato de não propor um novo modelo de desenvolvimento alternativo ao neoliberal.

O PT, se não reagir, abrirá caminho para sua pasokização (PASOK é o partido socialista grego, que costumava ter um terço dos votos, e depois de trair os trabalhadores com um programa ultraliberal, teve menos de 5% na última eleição).

A esquerda, nesse caso, terá que encontrar outras instrumentos políticos para enfrentar a ofensiva conservadora — que tende a se tornar ainda mais dura nos próximos anos.

Esse processo, na verdade, já se iniciou. Mas não está definido.
De lá pra cá, não houve reação. Dilma afunda em 10% apenas de ótimo/bom. E a direita prepara-se para avançar num golpe paraguaio. Quem defenderá Dilma nas ruas, agora?

Reparem que, para o PSDB de São Paulo e Eduardo Cunha, o ideal seria prolongar a agonia do governo Dilma. Mas a inação governista pode levar a um desfecho mais rápido. Se Dilma cair num golpe, Temer assumiria para completar o mandato (e aprofundar o ajuste)? Ficaria com a pecha de traidor, e talvez atraísse para o PMDB a ira popular por um ajuste que levará a desemprego e recessão…

Outra saída: Dilma e Temer seriam derrubados, e haveria novas eleições.

Reparemos que, na teoria, há mais de 60% de brasileiros insatisfeitos com a forma de Dilma governar. Mas Aécio, o “grande líder da oposição”, aparece com 35% dos votos se uma nova eleição ocorresse hoje.

Isso significa que a base lulista (em boa parte) abandonou Dilma, mas não se bandeou para o tucanato. Uma nova eleição pode ser a chance dessa base se reorganizar — em outros termos.

Por isso, a direita ainda titubeia. Nova eleição não significa (necessariamente) vitória de Aécio — apesar de isso ser possível.

Ninguém deve-se iludir. A marcha do golpe começou. E o certo é que Dilma, com esse ajuste liberal, não sobrevive. Isso está claro.

O PT, se mantiver a subserviência ao governo, vai virar um PASOK.

Uma nova frente de esquerda (incluindo a imensa base petista, combativa e disposta a romper com o liberalismo de ocasião) parece ser a melhor ferramenta para quem pretende manter as conquistas dos últimos 12 anos, e aprofundar as reformas.

Isso precisa ser feito agora. De forma rápida. Com coragem, sem devaneios panfletários.

Alguns, nas redes sociais, se irritam quando digo isso. “Ah, você deveria defender a Dilma!”

Defendo a Democracia — sim — e rechaço golpismo. Defendo um programa de reformas, que foi vitorioso nas urnas em 2014. O governo Dilma é que deixou de defender esse programa. Esse é o no da questão. Não adiante brigar com os fatos.
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Ex-presidente da OAB, petista diz que Cunha e Moro rasgam a Constituição

Candidato em 2014, Wadih Damous teve quase 38 mil votos e ficou na suplência, mas saiu do banco de reservas e desembarcou em Brasília para ajudar na reconstrução do PT

O ano está tão difícil para o PT que uma articulação do partido, comandada pelo ex-presidente Lula, tirou Wadih Damous do banco de reservas e lhe garantiu uma vaga na Câmara dos Deputados. Candidato em 2014, ele teve quase 38 mil votos e ficou na suplência, mas desembarcou em Brasília para ajudar na reconstrução do partido. Ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio e da Comissão Estadual da Verdade, o deputado aponta erros do PT, dispara contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e o juiz federal Sérgio Moro, responsável pelas investigações da Operação Lava Jato. Para Wadih, os dois estão rasgando a Constituição.


"A oposição é boa para ganhar pesquisa,
mas não ganha eleição”, diz deputado
Foto:  Alexandre Vieira / Agência O Dia
A Câmara dos Deputados aprovou, na semana passada, a redução da maioridade penal para crimes violentos, menos de 24 horas depois de um texto semelhante ser rejeitado em plenário. Qual sua avaliação?

Na primeira noite de votação, a civilização venceu a barbárie. Depois, a barbárie venceu com base no golpe comandado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha. A Constituição foi violada e está sendo suja por ele, que faz manobras e age como se fosse proprietário do Legislativo.

Está jogando lama na Carta Magna: se ele perdesse, ele ia colocar várias emendas até ganhar. Mas creio que o Senado irá corrigir essa monstruosidade. Espero que essa discussão seja feita sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que é uma lei ordinária. A Constituição deve ser mexida o mínimo possível.

Houve mudança de posição de deputados, determinante para aprovação do novo texto para reduzir a idade penal. Por quê? Houve pressão?

Essas pressões não acontecem à luz do dia. Não ocorreram em público. Não sei se foi num restaurante, no gabinete do presidente... Hoje, na Câmara, não há a menor possibilidade de vencer qualquer votação que o Eduardo Cunha não queira.

Para defender-se das acusações de ‘golpista’, Cunha e seus aliados têm dito que interpretações do regimento não podem ser judicializadas. Esse argumento é plausível?

Quem diz isso ou não sabe o que está dizendo ou age de má-fé. Não há nada acima da Constituição. O que acontece lá é a manipulação do regimento. Enquanto a Câmara estiver com esta presidência, vamos caminhar na mediocridade e tudo o que há de pior vai passar. Estou lá pela primeira vez, mas tenho certeza de que esta é a pior representação da história do Legislativo.

Cunha, teoricamente, faz parte do partido que é a base aliada do governo. E o PT nada conseguiu fazer para evitar sua presidência. Lançou o Arlindo Chinaglia (SP), mas ele foi derrotado. O partido, então, não tem culpa na sua própria insatisfação?

Não tenho elementos para avaliar quem estava certo ou errado. Não estava lá. O PT comete erros. Talvez o partido não tenha entendido o impacto que seria o Eduardo Cunha ali. Talvez tivesse sido melhor apoiar outro candidato, de outro partido, para a presidência da Câmara. Não há nada independente na Casa hoje. A maioria está dominada pelo presidente Cunha. O que se pode fazer é dialogar com movimentos sociais, recorrer ao Supremo Tribunal Federal, como fizemos neste caso da maioridade penal. Esse mal não vai durar para sempre.

Segundo pesquisa Ibope, a presidenta Dilma Rousseff atingiu apenas 9% de aprovação. Há salvação para o governo?

A oposição é boa para ganhar pesquisa, mas não ganha eleição. Dilma ainda tem três anos e meio de governo e pode reverter isso. Agora, não minimizo que esse é o pior quadro já enfrentado desde que o PT chegou ao governo. É um momento muito grave. A economia vai mal, a política vai mal, mas há ainda chances de melhorar. Depende da política econômica, da atitude do governo.

As ‘pedaladas fiscais’, como são chamadas as maquiagens feitas nas contas públicas de 2014 do governo e apontadas pelo Tribunal de Contas da União, podem resultar em impeachment?

A oposição procura uma razão para impeachment desde que acabaram as eleições. As pedaladas foram inventadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ninguém nunca falou disso. O PT contribui para esta crise no TCU, porque não acabou com a indicação política e com o apadrinhamento no órgão, por conta de uma suposta base aliada. O PT fez aliança para governar e hoje é subalterno nela.

No fim de junho, o ex-presidente Lula disse que, hoje, o PT só se preocupa com cargos. Concorda com a tese?

Isso acontece com todos os partidos populares que chegam ao governo. O PT percebeu que governar é diferente de ser oposição, que o buraco é mais embaixo, mas se descaracterizou muito. Não tem mais o militante que veste a camisa, vai panfletar.

Acabou o orgulho de ser militante do PT?

O orgulho não foi perdido. Está adormecido. Quando esse militante viu o risco da derrota em 2014, foi para a rua. Não sei como recuperar. Agora, é necessário provar para as pessoas que o ajuste vai melhorar.

Há insatisfação de petistas com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo? Seu nome é incluído no rol dos que estariam criticando o ministro por causa dos rumos da Operação Lava Jato, que investiga o escândalo de corrupção na Petrobras.

Desminto qualquer coisa nesse sentido. Sou amigo do ministro Cardozo. Em qualquer governo, há insatisfeitos. No PT, muitos estão insatisfeitos com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, por exemplo. O problema da Lava Jato não é o Ministério da Justiça e sim o juiz federal Sérgio Moro (responsável pelos processos da Lava Jato em primeira instância).

O que há de errado?

Tudo. Ele age contra a Constituição e estabeleceu a prisão preventiva como padrão e não como exceção. Essa Operação Lava Jato apreendeu arquivos de defesa, coisa que a ditadura militar fez em apenas um caso. Com todas as arbitrariedades, o juiz Sérgio Moro pode estar decretando a nulidade de tudo o que construiu. Juiz não é salvador de nada.

Essas prisões preventivas são feitas com qual objetivo?

Obter delações premiadas, que nada mais é do que o ‘dedo-duro’. O delator é o mau-caráter. Não existe nenhum arrependido. E, quando o juiz aceita a delação, aceita-se o mau-caratismo como prática. Não se sabe se é verdade, mentira, mas só que são pessoas dando depoimentos para amenizar suas penas. E esses delatores estão há meses presos. Falam o que se quer ouvir.

São nessas delações que se baseiam as investigações. Depoimento do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, por exemplo, serviu como mote para que o Superior Tribunal de Justiça investigasse o governador Luiz Fernando Pezão e o ex-governador Sérgio Cabral.

Nenhum está preso, pois não estão sobre a guarda do Sérgio Moro. Que provas esses delatores têm? Eles não as apresentam. Hoje, o fascismo brasileiro não é feito por baionetas, e sim pelos órgãos do Estado, do Judiciário. É um Estado de exceção.

A alta popularidade do juiz Sérgio Moro pode ser comparada àquela obtida pelo ex-presidente do STF Joaquim Barbosa durante o julgamento do Mensalão?

A Constituição é entrave para esse tipo de julgador, que acha que pode sair julgando só porque tem apoio popular. Hitler teve apoio popular. Jesus foi crucificado com apoio popular. As autoridades tem que combater qualquer ilícito, mas não se pode jogar a lei no lixo em nome disso. A ministra do STF Rosa Weber disse durante o julgamento do Mensalão que poderia condenar sem provas. Sabe quem era o assessor penal dela? O juiz Sérgio

A Operação Lava Jato vai chegar ao ex-presidente Lula?

Não sei por que chegaria. Ele seria preso porque incentivou empresas a fazerem negócios no exterior? Então, prendam o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton também. E todos os presidentes que tentaram fazer negócios fora de seu país.

O senhor foi colocado na CPI da Petrobras para tirar o foco do PT?

Participei da segunda sessão na CPI. Ela não substitui a PF, o Judiciário, o MP. Se quiser trabalhar sério, vai aperfeiçoar a lei para punir quem vaza delação premiada, por exemplo. Há na CPI atropelo seletivo da ordem. Tem deputado que ofende o depoente e vai embora.

Envolto em tantas turbulências, é possível projetar de que forma o partido sairá para disputar as eleições presidenciais de 2018?

Não sei como fica a conjuntura até lá. Não vai ser fácil. Já vai ter eleição no ano que vem, e será um termômetro. O PT está numa situação complicada, é claro que ele vai ter que enfrentar esse quadro. Hoje, quando se tenta chegar ao Lula de qualquer maneira , fica claro de que não querem de jeito algum que ele seja candidato. Se ele disser que não quer ser candidato, vão parar de pegar no pé dele: enfrentá-lo no voto não é algo que está a altura do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e do governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB).

Num cenário melhor que o atual, então, o partido fecha questão em torno do nome dele.

Fecha. Infelizmente, a única liderança nacional que o PT tem é o Lula. Deveria aproveitar, aliás, para forjar novas lideranças agora, pois não existem líderes que surjam em bons momentos, só em crises. Seria bom que o PT tivesse outras alternativas.

O que se comenta, também, é de uma possibilidade de composição futura do Lula com o prefeito do Rio Eduardo Paes (PMDB). Eles são bem próximos.

O ex-presidente tem grande estima pelo Eduardo Paes. A despeito de qualquer restrição ao Paes, trata-se de uma liderança. Se o prefeito assumisse determinadas bandeiras, com um governo hegemonizado pelo PT... Há resistências no partido, mas ainda falta muito tempo para as eleições.

Para 2016, prevê-se novamente um desembarque de petistas insatisfeitos com a aliança com o PMDB no Rio na candidatura do deputado estadual Marcelo Freixo (Psol). De que lado o senhor ficará?

O PT, por mais atormentado que esteja, precisa pensar em ter uma candidatura própria. Escolher entre o Pedro Paulo (PMDB) e o Freixo não conta com minha simpatia. Devemos apostar sem prejuízos em um candidato com as tradições do partido.

Leandro Resende
No O Dia
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As agruras do jornalismo honesto

Ao manifestar antipatia pelo delator, a presidenta exprime um sentimento global. Mas basta isso para sermos tachados de dilmistas, lulopetistas, bolivarianos

Um simpático encontro em Washington
Até o mundo mineral não nutre maior apreço pela figura do delator. A personagem não é simpática, nem mesmo quando sua delação é legalmente premiada. A mídia nativa, somente ela, e quem acredita nela, foge à regra, ao sentimento comum não somente do Oiapoque ao Chuí, mas também de um polo a outro do planeta Terra.

Mídia peculiar, empenhada em enganar seus leitores, a precipitá-los no equívoco a respeito da verdadeira essência e dos alcances da delação. Sem falar do insondável mistério de tantos vazamentos, o que o delator delata terá de ser provado. Exponho o óbvio. Parece-me, porém, que os crentes na mídia, ao lerem as manchetes ou ao ouvirem âncoras, locutores e comentaristas, supõem ler e ouvir a sacrossanta verdade factual.

Coisas de um país que, de muitos pontos de vista, vive uma espécie de Idade Média, como acaba de dizer a presidenta Dilma Rousseff, a reforçar o vetusto e insubstituível conceito: in dubio pro reo. A imprensa da quarta 1º de julho, a mesma que remeteu enviados especiais a Washington para produzirem provas excelentes (eles, sim) do estágio patético da nossa mídia, esmeraram-se em críticas e outros azedumes às declarações de Dilma sobre a Lava Jato, conduzida, de fato, ao sabor de um cardápio de arbitrariedades variadas.

A presidenta tem todo o direito de dizer o que pensa a respeito do delator, como númeno e como fenômeno, e a mim agradou bastante que, ao falar do seu passado na luta armada, evocasse quantos não foram delatores mesmo sob tortura. Houve um colunista, disposto a ironizar Dilma “por confundir o STF com o DOI-Codi”. Se a comparação for possível, cabe dizer que a masmorra dos torturadores foi mais coerente com a ferocidade da ditadura civil-militar do que a atual Suprema Corte, tão escassamente parecida com as similares do mundo civilizado, em relação a um regime democrático. Ali a política pesa mais que a Justiça, e não faltam provas a respeito.

Sei que, ao tecer tais considerações, corro o risco de ser tachado de dilmista, lulopetista, bolivariano. Ocorre que a mídia nativa, intérprete do reacionarismo à brasileira, não perdoa a singular presença de praticantes do jornalismo honesto. No caso de CartaCapital, sofremos os ataques dos sabujos do baronato midiático, simplesmente porque apoiamos as duas candidaturas do PT à Presidência da República. Definir a posição tão logo comece oficialmente a campanha eleitoral, além de ser ato comum na mídia de países democráticos e civilizados, é próprio do jornalismo honesto, em lugar de uma isenção diuturnamente desmentida.

Gráfico-Chapa-Branca

A bem da verdade factual, o acima assinado manifesta-se a favor da candidatura de Lula desde as primeiras Diretas pós-ditadura, onde quer que estivesse nas minhas andanças profissionais. Nem por isso CartaCapital deixou de criticar o governo do metalúrgico, no primeiro e no segundo mandato. Lamentamos, logo de saída, a escolha de Henrique Meirelles para o Banco Central ou, mais tarde, a entrada dos transgênicos na lavoura nacional. Por ocasião do enterro da Satiagraha e na condução do Caso Battisti. E não escondemos os envolvimentos em mazelas variadas de dois dos seus mais importantes ministros, José Dirceu e Antonio Palocci. De Lula, no entanto, valeram muito mais seus notáveis méritos. Em primeiro lugar, a política social e a internacional.

Ao apoiá-lo em 2002, víamos nele o único, autêntico líder popular brasileiro, e assim o vemos até hoje. Ao apoiar Dilma em 2010, a entendemos capaz de levar adiante a linha definida por Lula. Mas não deixamos de ser críticos do seu primeiro governo e, sem meios-termos, do PT: desde os tempos de Lula presidente, condenamos o partido por igualar-se aos demais, depois de ter sido, na oposição, uma forte esperança de resgate da senzala.

Dilma foi também criticada em diversas oportunidades: pela escolha de certos ministros, pela formulação de um código florestal que favorece os latifundiários, pelo abrandamento do tom e do estilo da política exterior, pelos numerosos erros da política econômica, pela falta de apetite da própria presidenta por uma atuação política destinada a facilitar o diálogo com o Congresso e com o empresariado. Mesmo assim, confirmamos nosso apoio ao seu segundo mandato, como alternativa exclusiva ao PSDB, partido da reação.

Hoje sublinho que o próprio Lula confirma nossas críticas a Dilma e ao PT, ela descumpridora das promessas da campanha, o partido cópia dos demais. Faço questão de acentuar que nunca fui filiado a qualquer agremiação política e que a amizade pessoal com Lula me honra e me alegra faz 38 anos. Recordo que, recém-empossado, o velho amigo me chamou a Brasília para uma conversa a respeito de assuntos públicos e privados.

Falamos também da publicidade dita governista, assunto significativo para quem fora praticamente ignorado pelo governo de Fernando Henrique e seu solerte ministro Andrezinho Matarazzo. Disse então a Lula: “Não peço favores, basta a isonomia”. E isonomia foi. De pouco mais de 500 mil reais em 2001, quando a revista passou em agosto de quinzenal para semanal, e de pouco mais de 1 milhão em 2002, avançamos para 4 milhões em 2003. Enquanto isso, naquele mesmo ano, Veja recebia 40 milhões. Época, 13, IstoÉ, 10. Trata-se de dados que a Secom acaba de divulgar.

A contribuição mais rica do financiamento estatal ao ódio antigovernista, para Veja deu-se em 2009, com 43,7 milhões, para Época em 2010, com 19. Sem contar a desbordante injeção de recursos aos cofres da Globo. No quadro acima, a média anual da publicidade estatal nas quatro semanais, de 2002 a 2013, mostra que nunca fomos favorecidos.

Nada disso nos poupou das agressões de quantos apontam CartaCapital como revista “chapa-branca”. Nada de surpresas: no país da casa-grande e da senzala, jornalista honesto é, automaticamente, lulopetista, dilmista, bolivariano. Aqui deste lado, entendemos que nossa existência, e de outros respeitáveis praticantes do jornalismo honesto, minora as lacunas da pretensa democracia brasileira.

Mino Carta
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Golpe de Estado: O espírito e a herança de 1964 ainda ameaçam o Brasil













Golpe de Estado: O espírito e a herança de 1964 ainda ameaçam o Brasil
Autores: Palmério Dória e Mylton Severiano
Gênero: Reportagem
Acabamento: Brochura
Formato: 15,6 x 23 cm
Págs: 266
Peso: 367gr
ISBN: 978-85-8130-270-6
Preço: R$29,90


O Entulho que a Ditadura nos Deixou: Pagamos até Hoje pelo Golpe de 1964

Um livro indispensável para quem quer conhecer e entender a história do país pós-1964, ano de implantação da ditadura militar que conduziu o país até 1984, quando foi eleito — de forma indireta — o presidente Tancredo Neves, que morreu e foi substituído pelo vice José Sarney — assim pode ser visto “Golpe de Estado”, mais uma obra polêmica de Palmério Dória e Mylton Severiano da Silva, autores dos best-sellers “Honoráveis Bandidos” e “O Príncipe da Privataria”, todos pela igualmente polêmica Geração Editorial.

Ao relembrar como uma elite financeira, industrial e agrária conservadora levou a classe média à histeria no início dos anos 60, preparando o terreno para o golpe militar de 1964, o livro lança luzes sobre os dias de hoje, quando jornais, rádios e TVs clamam aos céus contra a “corrupção”, levando com eles os desinformados que desfilam nas ruas e batem panelas de suas varandas.

“A corrupção — ressalta o editor Luiz Fernando Emediato — foi sempre a palavra de ordem dos golpistas nos anos 50 (para derrubar o governo eleito de Getúlio Vargas, que se matou) e, aliada à ameaça comunista, também nos anos 60, para seduzir os militares fiéis aos norte-americanos. A palavra voltou agora, quando se pretende destruir um partido, o PT”.

Mas, cuidadoso, o editor acrescenta: “Claro que nenhum de nós, cidadãos honestos, podemos aceitar a corrupção. No entanto, quando as denúncias vêm daqueles que sempre a praticaram, aí é bom desconfiar”.

Testemunhas da História

Os jornalistas Palmério Dória e Mylton Severiano da Silva (que morreu antes de ver o livro lançado) recuperam histórias da época, muitas das quais eles mesmos participaram, como agentes ou testemunhas, algumas delas pouco conhecidas. Eles pesquisaram os fatos e entrevistaram outros jornalistas, políticos e personalidades que, assim coo eles,viveram os fatos e sofreram suas consequências.

A ideia que os norteia é simples: provar que a ditadura nos legou um entulho de que estamos nos livrando, mas de maneira precária, com fortes recaídas no autoritarismo e com uma sociedade que, em matéria de desigualdade, violência, elitismo e exclusão, continua imbatível. Uma sociedade dividida e grande parte dela igualmente autoritária e conservadora.

Uma frase de Walter Benjamin, afirmando que o estado de exceção é o de regra geral, dá o tom do livro, que tem 32 capítulos e uma providencial linha do tempo com os fatos de maior importância entre 1882 e 2014, quando o golpe militar “comemorou” 50 anos.

O autores, algo saudosos do jornalismo heroico da primeira metade do século XX, lamentam o fato de o jornalismo ter se transformado um negócio comercial, com mais espaço para frivolidades e serviços; a cultura massacrada e transformada em mero objeto de consumo; o predomínio das finanças (agora sob o império global) sobre o investimento, que gera riqueza real; e a persistência da pobreza, da desigualdade e da injustiça social, tendo em vista o estancamento das reformas que tornariam possível o crescimento do país e uma melhor distribuição da renda e das riquezas.

O livro resgata também a imagem do presidente deposto João Goulart, tido na época como homem fraco e dispersivo, mas que, na verdade, tinha grandes projetos sociais para o país e antes do golpe, segundo o Ibope, contava com 86% de popularidade.

Um país pronto para decolar — como aconteceu com a Coreia do Sul — é revelado, com o chocante estancamento do processo que tornaria o desenvolvimento possível, segundo Goulart e seu cunhado, o então ex-governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola. O que se seguiu ao golpe — violações de direitos humanos, prisões, torturas, assassinatos de adversários políticos e até de inocentes — é revelado cruamente, o que pode chocar quem não tem muita informação sobre o período.

Sobre os autores:

Mylton Severiano e Palmério Dória — Envolvidos na análise dos fatos que precipitaram 1964 e em suas consequências nefastas, Mylton Severiano e Palmério Dória testemunharam os crimes e desmandos daquela era, pois Severiano esteve na lendária revista “Realidade”, extinguida pelo AI-5 em 1968, e Palmério Dória, entre outros feitos, escreveu o único livro existente sobre o pistoleiro Alcino João de Nascimento, envolvido no polêmico “atentado de Toneleros” que precipitou o suicídio de Getúlio Vargas em 1954. Ambos documentaram também a era Sarney e a era FHC em livros de denúncia que foram grandes sucessos de vendagem e leitura, “Honoráveis Bandidos” e “O Príncipe da Privataria”.
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Depoimento de Hildegard Angel no Barão de Itararé


Por ocasião do lançamento dos livros "Golpe de Estado" de Palmério Dória e "Lamarca o capitão da guerrilha" de Emiliano Queiróz, na sede do "Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé" em São Paulo (04/07/2015) Hildegard Angel, filha de Zuzu e irmã de Stuart fez esse comovente depoimento a partir do momento em que citava sua ultima conversa com o saudoso ator Hugo Carvana dias antes de sua partida.

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Dez razões para dar vivas à Grécia

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=7322

1 — Ao dizer não ao plano proposto pelos agiotas europeus, a Grécia mostrou altivez.

2 — Ao recusar a austeridade que nutre o parisitismo do capitalismo financeiro, os gregos colocaram a vida das pessoas em primeiro lugar e sinalizaram que, tendo vivido desde a antiguidade sem a troika, podem continuar a fazê-lo.

3 — Ao rejeitar a agiotagem europeia os gregos tiveram a coragem de resistir ao terrorismo midiático.

4 — A dívida grega é um amontoado de juros obscenos.

5 — Um país não é um devedor individual que pode quebrar.

6 — Os argumentos simplórios da direita internacional, do tipo quem mandou se endividar, são economicamente falando, indigentes e foram, como o não, devidamente descartados como um mero argumento de abutre.

7 — Um país não pode abrir de fazer política monetária.

8 — Pode ser uma boa pista para o Brasil, que entregou sua política econômica para a direita, traindo o eleitor. O ministro das Finanças gregas, um dos homens mais corajosos do momento, demitiu-se depois do plebiscito. Joaquim Lévy poderia fazer o mesmo no Brasil. O seu ajuste fiscal é um embuste que protege as grandes fortunas.

9 — A Grécia volta a dar aulas de democracia ao mundo.

10 — O não da Grécia é um etiqueta colocado na troika: agiotas.
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Vitória do Não pode mudar curso da História — e não só da Grécia


Num país onde programas de austeridade fizeram a riqueza encolher 30% em cinco anos, o absurdo seria imaginar uma vitória do "Sim"

Vamos combinar que a espetacular vitória do Não, com 61% votos a favor, margem que não permite dúvidas sobre a vontade da população da Grécia, é acima de tudo uma vitória da dignidade humana. A fé na humanidade só pode ficar um pouquinho maior — apesar de todas as ressalvas — após o resultado de ontem.

Não pode haver argumento possível para convencer um povo que enfrentou uma redução de 30% em sua riqueza nacional a dizer “Sim” a um projeto de austeridade de natureza neo-colonial, imposto de fora para dentro, sem respeito a soberania do país.

E no entanto havia quem defendesse o “Sim.” Quem tentasse explicar que não havia outra saída. Que não há alternativa possível fora de uma austeridade que atingiu um nível criminoso.

Estes perderam — e esta é uma lição universal, tão antiga como útil.

Vamos pensar. Supondo só por hipótese que essa redução da riqueza tenha sido linear, atingindo igualmente os mais ricos, os remediados e os mais pobres — nós sabemos que não é assim, certo? — pense no sujeito que passou a comer 30% a menos. A dar 30% a menos de mesada para o filho. A ter menos 30% para o supermercado, a farmácia, as férias e o café com os amigos. Mesmo admitindo que a historia humana exibe reações espantosas de conformidade e paralisia em situações extremas e difíceis, é bom reconhecer que chegou-se a um limite inaceitável.

Nada seria mais deprimente, nessa situação, do que um voto a favor da prorrogação de uma política econômica fracassada. Se programas anti-populares dessa natureza podem ser aplicados a partir de regimes ditatoriais, o plebiscito mostrou que é irracional pensar que podem ser referendados numa democracia. Salvo em situações de extremo auto-desprezo político, um caso não só para analises políticas, mas para psicólogos e psicanalistas, historiadores que décadas depois iriam tentar explicar por que um povo foi capaz de caminhar voluntariamente para o matadouro, quando teve a opção de votar por outra coisa.

Já lemos muitos trabalhos a esse respeito sobre outros povos e países, não é mesmo?

Imagine acreditar em “ajuda” do FMI, em “socorro” de Angela Merkel após um programa desastres perseguido com clareza e determinação desde o colapso de 2008/2009. A postura arrogante, os ultimatos, as cobranças permanentes sempre deixaram claro que não havia um debate técnico entre o governo grego e a Europa — apenas uma política de domínio e submissão.

É certo que há um elemento desconhecido depois de ontem. Os dois lados passarão a viajar por mares nunca antes navegados desde a formação da União Européia. Mas, quando o conhecido mostra-se insuportavel um certo risco torna-se necessário — aprende-se a partir de tantas mudanças ocorridas na História.

Mesmo olhando o futuro com uma perspectiva muito modesta, ficou mais fácil, agora, enxergar qualquer concessão, ainda que minúscula, do que antes. A saída do Ministro das Finanças é um sinal de que o primeiro-ministro Alexis Tsripas pretende encontrar uma solução negociada. É um mistério saber até onde irá receber benefícios reais. Podem mesmo ocorrer novos sacrifícios.

A vitória no plebiscito teve o papel de confirmar o resultado das eleições em janeiro. O “Sim” teria sido um atestado de óbito para o primeiro ministro Alexis Tsripas, seis meses depois da posse. O “Não” lhe garante oxigênio, impede o sufoco numa situação desfavorável pela hegemonia absurda dos programas de austeridade no Velho Mundo, onde o capital financeiro parecia ter construído uma fortaleza inexpugnável.

Para lembrar outros momentos históricos, em outras época, com outros personagens, pode-se dizer que ontem quebrou-se o elo mais fraco de uma cadeia. Outras rupturas podem apresentar-se no horizonte, a começar pela Espanha, onde ocorrem eleições em novembro.

O mundo inteiro só tem a ganhar com isso.

Paulo Moreira Leite




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Tucanos são professores em descaso com a Educação


Alckmin inflou dado sobre salário de professor do Estado de São Paulo

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) inflou dados sobre salários dos professores da rede estadual paulista em meio à maior greve da categoria, que durou 89 dias e atingiu parcialmente a rede até o mês passado.

O tucano dizia que a paralisação não fazia sentido, pois, segundo ele, os professores tinham recebido reajuste de 45% ao longo do seu mandato anterior (2011-2014).

Na realidade, professores da ativa da rede estadual tiveram 12,3% de aumento no valor que recebem mensalmente, descontada inflação.

O detalhamento do reajuste foi informado pelo governo do PSDB à Folha somente no fim do mês passado, após o governo ser acionado via Lei de Acesso à Informação.

A reportagem cobrava a Secretaria de Educação desde abril. O prazo para resposta chegou a vencer, e as informações foram encaminhadas só após o fim da paralisação.

Até então, o governo não informava quanto dos 45% de reajuste se referia à incorporação de gratificações.

A incorporação significa que o valor que o professor recebia como um extra passou a ser pago no salário-base.

É uma medida que beneficia os aposentados, que não recebem gratificações. Por outro lado, não contempla na mesma proporção os profissionais da ativa, que já recebiam o dinheiro mensalmente. Para eles, a maior vantagem da medida vem do fato de alguns benefícios serem calculados pelo salário-base.

Segundo os dados informados agora pelo governo, o salário-base aumentou 11,2% com a incorporação das gratificações. Como a inflação no mandato anterior de Alckmin (2011 a 2014) ficou em 21,5%, (IPC-Fipe), o ganho real da remuneração mensal dos docentes ativos foi de 12,3% durante esse período da gestão.

Esse ganho real cai para 5,3% se considerada também a inflação dos cinco primeiros meses deste ano.

O governo analisa uma política salarial para os professores, que saíram da greve sem proposta concreta de aumento. Durante a paralisação, o reajuste já concedido foi um dos pontos de embate entre a Apeoesp (sindicato dos docentes) e o governo.

O sindicato dizia que os 45% não eram reais, considerando inflação e gratificações já existentes. Ao longo da greve, o governador passou a ponderar que, de fato, parte do ganho real havia sido anulado pela inflação, mas não citava as incorporações.


Juiz determina retificação de salários de professores no site do governo do Paraná

Liminar dá prazo de 90 dias para “correção” e define uma multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento

O governo do Paraná recebeu um prazo de 90 dias para “corrigir” os valores dos salários dos professores divulgados na internet, no site oficial do Executivo. A ordem de retificação é do juiz Guilherme de Paula Rezende, da 4ª Vara da Fazenda Pública de Curitiba, em despacho assinado no último dia 29. Ele atende a um pedido de liminar proposto pela APP-Sindicato, entidade que representa os servidores da educação no estado. Em caso de descumprimento, o juiz ainda define uma multa diária de R$ 10 mil ao governo estadual.

A polêmica sobre os salários dos professores surgiu em meio à greve dos professores, encerrada há cerca de um mês. No site oficial do Executivo, a remuneração dos professores, que já constava no Portal da Transparência, recebeu destaque na página, com um link específico de acesso. Em seguida, professores reclamaram que os valores exibidos na página estavam distorcidos, conforme corrobora o juiz, em seu despacho: “A título de exemplo (...), no mês de maio/2015, muitos servidores perceberam rendimentos acumulados dos anos anteriores, por vezes correspondentes ao triplo de seu salário-base mensal, o que impulsionou consideravelmente seu rendimento bruto. Porém, tais valores não correspondem ao recebido a título de vencimento mês a mês”.

Agora, o juiz pede que o governo estadual faça a retificação no Portal da Transparência, “mediante discriminação dos valores relativos ao vencimento-base e à remuneração (vantagens pecuniárias) dos servidores”. Em seu despacho, o magistrado defende a divulgação de tais informações, já que atende ao princípio constitucional da transparência, mas ressalta para a necessidade de se obter dados de forma “plena e satisfatória”.

“Assim, em um dos muitos capítulos desse movimento paradista, que se apresentou com forte polarização política entre os envolvidos, o noticiado pelo Estado do Paraná em seu portal acabou por se afastar de seu cunho informativo e passou a ser fonte de manipulação para fins outros, sendo certo que o enfraquecimento de instituições sempre interessa a alguém, máxime em tempos de informações rasas e sensacionalistas. Percebeu-se que o Estado acabou por se afastar da discussão e entrou em cena o agente político, que, por sua vez, protagonizou mais um conflito com a categoria”, escreveu o juiz.

O juiz também determina a retirada, em um prazo de 48 horas, da matéria cujo título é “Em 111 cidades, salários dos professores são maiores que os dos prefeitos”. A matéria está no site da Agência de Notícias do Estado, órgão oficial de comunicação do governo do Paraná.
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Ilusão de Dilma

A presidenta insiste em buscar a convivência democrática com uma mídia disposta a derrubá-la do governo ou, por tolerância, aceitar a rendição total

Toda sorridente no Programa do Jô, amenidades
em lugar do revide certo
Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma Rousseff tem uma corajosa história de vida que vai muito além da valentia de machões guarnecidos pela imunidade no sinuoso ambiente da política. Muitos deles a discriminam por ser mulher. O que fazer? A presidenta parece capaz de se submeter a sacrifícios pessoais e políticos para atingir os objetivos dela ou para cumprir acordos assumidos.

Como qualquer um, Dilma ora acerta, ora se equivoca. Dois equívocos. Nos anos de chumbo fez um desvio arriscado à esquerda. Perdeu. Agora, na Presidência da República, pela segunda vez, virou precipitadamente à direita, embora a sinalização sugerisse: “Vire à esquerda”. Aguardemos o desfecho.

Recentemente, a presidenta participou de uma cerimônia patrocinada pelo jornal O Globo. Ao discursar, condenou a censura e defendeu os princípios da liberdade de expressão. Muito bem. Agradou ao anfitrião e, por isso, mereceu uma chamada anêmica na primeira página do jornal.

Dilma fez silêncio, mais uma vez, sobre a regulação dos meios de comunicação proposta pelo jornalista Franklin Martins, ministro-chefe da Secretaria da Comunicação Social do governo Lula. O assunto desagrada a certos anfitriões. Dilma o evita.

A regulação está engavetada. Enfrenta enorme resistência da mídia, que desfila segurando um estandarte falso: a censura. Martins não propõe, como dizem, interferência no conteúdo das informações. Invocar esse fantasma é um jogo sujo e hipócrita. Uma nova lei de regulamentação deverá buscar e desmanchar, nos limites legais, a absurda concentração dos meios de comunicação no Brasil.

Artigo publicado na Revista Brasileira da Comunicação, assinado pelos professores Juliano Domingues, da Universidade Católica de Pernambuco, e Jorge Zaverucha, Dalson Figueiredo e Enivaldo da Rocha, da Federal de Pernambuco, responde a seguinte pergunta: “Mais concentração de propriedade da mídia, menos democracia?” Eles dão a resposta: sim. E com segurança fazem a afirmação de que, quanto menos concentrada a mídia, mais democrático tende a ser o país. E assinam embaixo: “Os dados indicam uma correlação positiva entre qualidade da democracia e a diversidade da mídia”.

Nesse sobe e desce fica claro que, quanto maior a diversidade dos meios de comunicação, melhor a democracia. A elite brasileira, já se disse e é bom repetir, apenas tolera o jogo democrático. Mesmo assim, a presidenta caminha contra o vento e insiste na aproximação com os barões da mídia. Tem sido recusada. Batem a porta na cara dela com total deselegância e arrogância.

Na entrevista dada a Jô Soares, semanas atrás, Dilma manifestou suas tristezas com as críticas recebidas. Críticas? Nada demais. É saudável. Nesse momento contornou, evitou fazer referência aos excessos da imprensa, como, por exemplo, a pregação da deposição dela valendo-se de recursos sem sustentação legal. Entre outros absurdos antijornalísticos. Dilma cultiva a ilusão de oferecer a paz em troca da reciprocidade. Um acordo impossível. A mídia força o impeachment ou, no mínimo, a rendição total dela.

Maurício Dias
No CartaCapital
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O golpe está em marcha

As últimas estocadas da oposição provam estar em curso uma operação sistemática para derrubar a presidente Dilma.

Relembrando fatos. A investida desesperada às vésperas da eleição para incriminar Lula e a então candidata. Não deu certo. Recontem-se os votos, decretaram os derrotados. Parece piada, mas isso aconteceu. Também fracassou, tal qual a pecha de estelionato eleitoral! (Alguém esqueceu da desvalorização brutal da moeda em 1999?)

A essa altura, as acusações de roubalheira da Petrobras embaladas pela compra de uma refinaria pareciam cair do céu para um impeachment. Fiasco, até porque o negócio foi recomendado pelo Citibank e avalizado por um conselho composto de ricaços: Jorge Gerdau, Cláudio Haddad, Fábio Barbosa etc.

A história azedou ainda mais quando o executivo petroleiro Pedro Barusco contou que a corrupção estatal avançou no governo do PSDB, turbinada por uma lei que aboliu licitações. Detalhe: Barusco prometeu devolver centenas de milhões de dólares depositados no exterior. Mas a grana não era para o PT? Como estava na conta pessoal dele? Bem, isso não vem ao caso.

Aí surgiu a novela das pedaladas fiscais. Novo fracasso. Todos que conhecem a política mesmo superficialmente sabem que o Tribunal de Contas da União é um almoxarifado para acomodar políticos decadentes, uma espécie de prêmio de consolação para sabujos fiéis a favor ou contra, tanto faz. A coisa ficou mais incômoda quando descobriram que as pedaladas começaram na administração Fernando Henrique Cardoso.

Bem, sempre tem o pessoal do Moro e sua equipe de delações. Incrível: o Brasil é o único lugar teoricamente democrático em que candidatos a réus são informados de crimes pelo jornal, TV ou internet. O conteúdo, então, é de espantar.

"O doleiro [Alberto Youssef] não identifica com precisão a pessoa que o teria procurado para pedir ajuda, e deixa claro que não participou da campanha da presidente [...] Se não me engano, o pai dele tinha uma empreiteira. Não consigo lembrar do nome da empreiteira [...] O doleiro afirmou não saber se Felipe (acusado de ser o intermediário) buscou outros operadores. Questionado sobre o valor do dinheiro a ser internalizado, o doleiro respondeu: 'Acho que era em torno de R$ 20 milhões'". (FSP, 03/07, Pág. A4)

Tal depoimento, como se percebe robusto, cheio de evidências, em que o acusador ignora o nome do interlocutor, desconhece para quem ele trabalha e sequer sabe o valor exato da propina — tal depoimento está no processo que serviu de base para o PSDB pedir a cassação de Dilma!

Para completar a mistificação, aparece a entrevista do delegado geral da Polícia Federal ao "Estado de S. Paulo". Somos informados que na democracia da jabuticaba existem quatro poderes: o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e a... Polícia Federal. "O ministro da Justiça não é o seu chefe?", perguntam as repórteres. Resposta: "O ministro da Justiça é o responsável pela PF, mas na esfera administrativa. As ações da PF na esfera de investigação são feitas no limite da lei".

Pelo jeito, a mesma lei que muda votações na Câmara ao sabor de um presidente que dispensa comentários; deixa impunes sonegadores graúdos da Receita; fornece habeas corpus a banqueiros selecionados; prende antes de julgar e vem transformando o Supremo Tribunal Federal num órgão tão decisivo quanto cerimônias de chá na Academia Brasileira de Letras.

E o governo, o ministro da Justiça, não têm nada a dizer antes que seja tarde?

Ricardo Melo
No fAlha
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