4 de jul de 2015

Altamiro Borges diz que país vive onda de incerteza, ódio e fascismo criado pela mídia tradicional


O jornalista Altamiro Borges está preocupado. E não é paranoia de blogueiro esquerdista. Faz muito sentido essa preocupação. Tem fundamento e provas na prática. Pensemos que, desde 1998, na Venezuela, uma vanguarda se estabeleceu na América Latina. Foram eleitos governos progressistas, preocupados com o combate à desigualdade social, com a democratização do acesso a direitos. Mas esse modelo vive uma crise, uma encruzilhada, uma incerteza, como repetiu o painelista da 17ª Conferência Estadual de Bancários(as), em seu painel, do sábado, 4/7, no Hotel Embaixador em Porto Alegre.

Se a Argentina conseguiu regular os meios de comunicação, no Brasil os 12 anos de governos Lula e Dilma, não conseguiu trilhar o mesmo caminho, a não ser pela moderna lei de internet. Os dois presidentes optaram por não enfrentar esses verdadeiros responsáveis pela onda de ódio que circula pelas redes sociais, pela opção de telejornais e jornalistas e que tem na defesa do retorno do neoliberalismo a bandeira de luta. Sim, a bandeira é de luta para enfrentar o ocaso do neoliberalismo no mundo.

Altamiro diz que a crise econômica faz parte de uma estratégia política de desgaste de presidentes progressistas. “Esses governos foram de reformismo brando. As políticas sociais são importantes, mas insuficientes. Essas políticas não foram acompanhadas da politização. Pobre que entrou na universidade diz que conseguiu por causa da meritocracia. Se não tivesse política, ele não teria ingressado na universidade.”

O modus operandi aparece em vários exemplos. Basta ligar a televisão, acessar as redes sociais. Vemos uma jornalista da TV Globo ser corrigida pelo presidente estadunidense Barack Obama sobre o papel de referência do Brasil como player político mundial e não meramente regional como ela disse durante a visita da presidenta Dilma aos Estados Unidos. Vemos também a presidente Dilma ser ofendida e agredida por um jovem fascista de direita nos Estados Unidos e uma quantidade de material machista que tenta (e consegue) desgastar a imagem da presidenta. “Derrotamos a direita, mas perdemos o debate. O movimento sindical cuida das pautas dos trabalhadores, mas deixou de politizar a sociedade”, acrescentou o painelista.

Altamiro diz que a América Latina, a partir de 1998, enfrentou a hegemonia neoliberal e agora ocorre o que ele chama de um período muito perigoso de incertezas. O caso da eleição do Syritza, na Grécia é exemplar. Os governos centrais da Europa impõem uma agenda de recessão, que procura colocar o partido grego de joelhos, asfixiá-lo. Apesar de os governos progressistas terem chegado ao poder e implantado políticas de combate a desigualdade social, no Brasil, por exemplo, faltou ao presidente Lula e a presidenta Dilma enfrentarem a mídia tradicional com regulação. “O capitalismo está numa fase agressiva, repressiva e de retirada de direitos e vive uma crise prolongada e sistêmica de reestruturação produtiva”, enumera.

América Latina: de laboratório à resistência

O final dos anos 1970 foi marcado pela construção política da hegemonia do neoliberalismo na América Latina. A região foi o laboratório do Consenso de Washington. Altamiro diz que o neoliberalismo se fundou sob um tripé. A estratégia é desmontar o Estado, a nação e o trabalho. Não por acaso as empresas tradicionais de mídia desempenham um papel fundamental, se comportam como verdadeiros partidos políticos.

Citando o sociólogo Perseu Abramo, Altamiro refere as duas formas clássicas de manipulação dos meios de comunicação. Foi selecionando os assuntos que deveriam chamar a atenção da massa e defendendo as privatizações, a terceirização e o banco de horas que os meios de comunicação montaram o contexto para a chegada do neoliberalismo. “A América Latina se iludiu. Essas teorias foram apresentadas pela mídia como teorias inevitáveis”, diz.

Altamiro refere que essa estratégia politicamente se esgotou, a não ser pelo discurso de crise e de necessidade de uma nova reorganização do capitalismo. A vanguarda de um movimento dialético, iniciado no Brasil, em Porto Alegre, com o Fórum Social Mundial “Quando os partidos da direita entram em crise, os jornais assumem o seu lugar.”

No início da década passada, criou uma vanguarda de resistência e levou ao poder progressistas em toda a América Latina. Altamiro chama este fenômeno de vanguarda mundial, mas alerta para o seu esgotamento. “Quando os partidos da direita entram em crise, os jornais assumem o seu lugar. Estamos num momento em que precisamos resistir e atuar juntos”, explica.

O que fazer e o papel dos Sindicatos

Os meios de comunicação de massa privados realçam aquilo que lhes interessa e omitem o que lhes prejudica, como já dito acima. É a tal seletividade. Não fosse assim, por que apoiaram a Ditadura Militar no Brasil, da qual Roberto Marinho, fundador da Globo, nunca se arrependeu, ou por que esconderiam agora investigações que apuram casos de corrupção, como a Operação Zelotes, da Polícia Federal? A Operação Zelotes, que investiga o Grupo RBS, sumiu dos jornais. De novo, a tal seletividade. “A imprensa precisa o tempo todo desconstituir a política. Precisa publicar um escândalo atrás do outro porque, se a política funciona a mídia perde importância”, afirma.

Mas o que aconteceu que nos levou do topo para o abismo: da eleição de uma presidenta com amplo apoio social no final de 2014 para o atual estado de vandalismo, desrespeito e ódio. Tudo é culpa da Dilma. Por certo, isso é uma estratégia comunicacional de repetição e ocupação dos meios de comunicação. Altamiro refere que essa onda de fascismo foi criada pela mídia. “Apesar de eu ter críticas contra o atual governo, entendo que é difícil governar. Reconhecemos os avanços sociais dos governos Dilma e Lula, mas todos os partidos de esquerda enfrentam o mesmo problema quando administram. Forte oposição da mídia e a necessidade de fazer concessões políticas para governar”, diz Altamiro

Mas e os Sindicatos? Altamiro puxou as orelhas dos sindicalistas. Diz que é tempo de investir, de não pensar em comunicação como gasto. É tempo de aproveitar que a internet ainda é um ambiente com relativa liberdade. Afinal, como o filósofo italiano Antonio Gramsci ensinou e foi citado por Altamiro, é preciso disputar a hegemonia num ambiente de batalha de comunicação. Parte desse problema relaciona-se à falta de uma política de enfrentamento da mídia. Altamiro diz que o atual governo é um reformador “brando” e não enfrentou a mídia.

É preciso voltar a debater com a sociedade. Criar espaços na internet e debater, acima de tudo, a sociedade. Precisamos politizar. “A mídia brasileira é tão colonizada que diz que nós queremos trazer o modelo da Venezuela de comunicação. Nós queremos o modelo dos Estados Unidos. E por uma questão muito simples. A legislação estadunidense proíbe a propriedade cruzada. Não pode ter rádio, internet e jornal ao mesmo tempo”, diz Altamiro.

Tempos difíceis, mas importantes. É preciso enfrentar o debate por uma comunicação com interesse público e não de um público. O modelo brasileiro de comunicação de massa é comercial, neoliberal e fascista ao repetir que a política e os partidos políticos acabaram. Na crise do capitalismo, quando começam a perder audiência para as redes sociais, a estratégia é se juntar ainda mais aos aliados, os partidos e políticos de direita, para defenderem suas visões de mundo.

Palavras de Altamiro Borges

Incertezas

“Temos no mundo uma perigosíssima onda neofascista. Vivemos uma ditadura do capital financeiro no mundo”.

Fenômeno

“A América Latina começou uma vanguarda de resistência ao neoliberalismo a partir de 1998 na Venezuela. Depois, Equador, Argentina, Bolívia e Brasil. Foi uma vanguarda mundial. Todos esses governos estão passando por problemas. Há um processo de asfixiar e de derrubar esses governos.”

Encruzilhada

“Esses governos foram de reformismo brando. As políticas sociais são importantes, mas insuficientes. Essas políticas não foram acompanhadas da politização. Pobre que entrou na universidade diz que conseguiu por causa da meritocracia. Se não tivesse política, ele não teria ingressado na universidade.”

Batalha da Comunicação

“Tanto Dilma quanto Lula optaram por não enfrentar a batalha da comunicação. Estamos vivendo um momento muito perigoso.”

Onda

“Elegemos o Congresso Nacional mais sujo da história do Brasil.”

Ofensiva Conservadora

“Derrotamos a direita, mas perdemos o debate. O movimento sindical cuida das pautas dos trabalhadores, mas deixou de politizar a sociedade.”

Papel da Mídia

“Quando os partidos da direita entram em crise, os jornais assumem o seus lugar.”

No SindBancários
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Muito além da idade penal

Kayser
Junto à maioridade penal, caíram a democracia, o Estado de direito e um pouco da nossa humanidade. Quem comemora o resultado da manobra de Eduardo Cunha pode até não saber, mas está sendo arrastado também

Considerando a proporção, 87% da internet amanheceu radiante na última quinta-feira (2). Em 24 horas, o Congresso reverteu o resultado anunciado na última madrugada e aprovou a emenda que reduz a maioridade penal no Brasil de 18 para 16 anos nos casos de homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte e demais atos considerados hediondos. O clima na sessão anunciou e o das redes sociais confirmou: o gozo da vitória está muito além do concentrado na matéria votada em plenário.

Além do visível ataque ao governo, que se posiciona veementemente contrário à medida, e à bancada dos Direitos Humanos, demonizada como nunca, o resultado derruba muito mais do que a idade penal e pode ajudar a descortinar o que se passa com a democracia no país.

Em primeiro lugar, junto com a maioridade também foi atacada a Constituição. Eduardo Cunha conseguiu a proeza de feri-la duas vezes numa mesma sessão, tanto por acolher uma PEC que altera cláusula pétrea quanto por reapresentar matéria vencida, manobra vedada pelo artigo 60 da Carta Magna. O dispositivo existe justamente pra evitar que as votações sirvam como uma espécie de sondagem a vozes dissonantes e que elas sejam de alguma forma coagidas.

Aconteceu exatamente a mesma coisa com a PEC do financiamento empresarial de campanha, derrotado numa noite e reapresentado com pequenas alterações na seguinte, pra finalmente ser aprovado depois de uma sombria virada. Apesar de o texto permanecer quase idêntico ao apresentado na terça, 24 deputados mudaram repentinamente de opinião e passaram do “não” para o “sim”, inclusive aqueles que haviam fundamentado posição publicamente. Foi o caso de Mara Gabrilli (PSDB-SP), que apareceu no dia seguinte para justificar a conversão numa constrangedora declaração em que afirma ser o “novo projeto mais aprimorado”.

Gabrilli pode servir de ponte para a segunda derrocada anunciada pela sessão. Aquilo que chamam popularmente de “vergonha na cara” também não resistiu. A deputada Keiko Ota (PSB-SP) fez discurso emocionado na noite de terça-feira pedindo encarecidamente a aprovação da emenda, com a imagem do filho estampada na camiseta. O pequeno Ives, de apenas 8 anos, foi brutalmente assassinado em 1997 por três maiores de idade. Dois deles eram policiais militares. Cristiane Brasil (PTB-RJ), presidente nacional do PTB, recorreu à idade de responsabilização civil como se fosse idade penal. Cercado de correligionários, Paulo Maluf (PP-SP) recorreu, aos berros, ao axioma preferido da torcida pelo “sim”: “Direitos Humanos são pra humanos direitos”. Foi ovacionado. Assim como foi Luis Carlos Heinze (PP-RS), aquele que declarou que índios, quilombolas e gays não prestam.

Mas não é só isso. Com a maioridade penal, caiu também a máscara de um Legislativo não mais inoperante, mas desonesto e nocivo. Em duas longas noites, não houve um parlamentar sequer que tenha utilizado referências da literatura criminológica para justificar sua posição favorável à redução. O que mais se viu, além da gritaria, foi a exaustiva repetição de cláusulas pétreas do imaginário conservador: “Tá com dó, leva pra casa”, “[Esses são] bandidos travestidos de menores”, disseram dois deles. Fausto Pinato (PRB-SP) cravou que “o ECA é uma lei que vem matando os nossos jovens”. Houve também quem reclamou da distribuição do orçamento pra medidas preventivas, ignorando a própria corresponsabilidade na sua elaboração, pra justificar a emenda corretiva.

Por incrível que pareça, foi o próprio Pinato quem ofereceu a chave para desvendar o cenário. “Meu Facebook está bombando”, vangloriou-se um pouco antes de agradecer aos fãs virtuais. E, de fato, é disso que estamos falando, não de segurança pública.

O alemão Harald Kindermann chamou este fenômeno de “legislação simbólica”, uma tendência de conversão de valores sociais em leis, ainda que elas não produzam efeitos instrumentais. Isso significa, a rigor, que a espetacularização midiática de problemas reais tende a provocar a multiplicação de medidas de efeito latente, meramente simbólico. O que aconteceu nesta semana é mais um sintoma desse processo, que vem se agravando em velocidade progressiva nos últimos anos, graças à avalanche de pautas morais no debate político, fruto também de uma perversa confusão entre o público e o privado. Não é por acaso que o álibi para medidas estruturais venha comumente de histórias particularmente comoventes. Ninguém quer saber de estatísticas. Aliás, elas nos faltam – e muito. E também ninguém está preocupado com essa ausência antes de mandar reduzir a idade penal. Assim como ninguém se pergunta como pode a Constituição ser fundamentalmente alterada num intervalo de apenas 24 horas. Independentemente dos termos e também das regras, o importante era passar.

Apesar do maciço apoio popular e das manobras da bancada que a aprovou no Congresso, é bem mais que provável que a emenda não seja incluída na Constituição, seja pela reprovação do Senado ou pelo impedimento do Supremo Tribunal Federal, que tem pelo menos duas prerrogativas para barrá-la. Mas esse jogo já tem um vencedor faz muito tempo. Que caia a proposta, permanece o imaginário que separa com nitidez quem somos “nós” e quem são “eles” na sociedade. “Nós”, os cidadãos de bem, que temos a cor certa na pele e habitamos os espaços certos na cidade, e “eles”, que vão continuar morrendo como bichos sem que se faça rigorosamente nada além de gritar o que a massa quer ouvir.

Que não produza resultado algum, a medida já reforçou, com peso significativo, o álibi de um Estado que, onde lhe é permitido, mata primeiro para julgar depois. E isso já se naturalizou entre nós de modo aparentemente irreversível. A popularidade de programas policiais que acompanham e incentivam as execuções nas periferias, ao vivo e em rede nacional, só confirma essa hipótese.

E é bom que se reforce: a última coisa que caiu na madrugada desta quinta-feira foi a maioridade penal. Antes disso, caíram a democracia, o Estado de direito e um pouco da nossa humanidade. Quem celebra o resultado pode até não saber, mas está sendo arrastado também.

Murilo Cleto
No Fórum
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Por que o PSDB apoiou em peso a redução da maioridade penal na Câmara?

Nomes da fundação do partido, como FHC, afirmaram ser contra redução que nova geração do PSDB aprova
"Impressionante. Que país é esse aqui que, para reduzir a criminalidade, tem que reduzir a idade? Nós só queremos fazer adultos criminosos? Que bobagem é essa? Eu sou rigorosamente contra. Não vejo nenhuma razão que, para você resolver o problema da criança infratora, você tenha que diminuir a idade da pena, de 18 anos passa a ser 16 anos."



Essa foi a resposta do então governador do São Paulo Mário Covas, um dos fundadores do PSDB, ao ser questionado sobre a redução da maioridade penal no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1999. Um vídeo com declarações dele sobre o tema passou a circular nas redes sociais depois que a Câmara dos Deputados aprovou nesta semana, ainda em primeiro turno, a redução da idade mínima para que um jovem possa ser julgado como adulto de 18 para 16 anos, no caso de alguns crimes graves.

A bancada do PSDB na Câmara apoiou em peso a proposta e foi fundamental para a aprovação, que passou com margem de 15 votos — foram a favor da mudança 49 dos 52 tucanos presentes na sessão (são 53 no total). Entre os que votaram "sim", estava Bruno Covas, neto do ex-governador paulista.

Segundo ele, hoje os jovens de 16 e 17 anos têm condições de saber o que é "certo e errado" e responder por seus atos. "O mundo mudou. Quando o partido foi criado, em 1988, ainda existia muro de Berlim. O muro caiu, você tem a globalização, internet, as redes sociais, uma outra juventude, com mais acesso à informação", disse à BBC Brasil.

"Nesse momento, votamos ao lado de 90% da população. Em outros momentos, pensando no futuro do país, o partido apoiou medidas impopulares, mas necessárias", acrescentou.

Histórico

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Mario Covas chegou a dizer, em 1999, que
redução da maioridade penal era "bobagem"
O resultado indica como o partido, nascido da vertente mais progressista do PMDB ao final da ditadura militar, pode ter caminhado nos últimos anos para o espectro mais à direita da política brasileira.

Figura mais importante da história do partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sempre se opôs à medida e voltou a criticá-la em um evento realizado abril deste ano.

Durante a administração dele, de 1995 a 2002, o governo federal se opôs à redução da maioridade penal. Ao comentar o assunto em um evento em dezembro de 2001, FHC afirmou: "Não podemos, por causa da violência, nos envolver pela insensatez e buscarmos bodes expiatórios. Esse seria o caminho mais fácil. Daria uma sensação de que a sociedade estaria sendo dura, quando, na verdade, seria um simples escapismo".

Na época, o Ministro da Justiça era o atual senador Aloysio Nunes, que hoje defende a redução da maioridade, embora em termos mais brandos do que o texto aprovado pela Câmara. A proposta dele é de que a idade penal seja reduzida para crimes graves, mas não seria automática — em cada caso, o promotor e o juiz avaliariam se o acusado deveria ou não ser julgado como adulto, a depender da sua periculosidade e do grau de consciência sobre seus atos.

Para José Gregori, que antecedeu Aloysio Nunes no Ministério da Justiça no governo FHC e foi também ministro dos Direitos Humanos, a posição da atual bancada do partido na Câmara foi "sem dúvida, um afastamento da posição histórica do PSDB". Na opinião dele, o papel dos políticos que fundaram o partido em 1988 foi importante para que a maioridade penal fosse fixada em 18 anos na Constituição Federal.

"É possível que, historicamente, essa fixação da idade tenha sido uma conquista nossa, muito mais da corrente do PSDB (quando ainda fazia parte do PMDB). Todos que são do PSDB, que defendem direitos humanos há muitos anos, defendem essa posição. Todos os Ministros da Justiça (do governo tucano) foram contra a redução da maioridade, o presidente Fernando Henrique sempre foi contra. Quando o Aloysio era ministro, ele era contra", afirmou.

Aloysio Nunes, porém, contesta essa visão, argumentando que nunca houve um posicionamento oficial, cristalizado no programa do partido. "Eu não me lembro disso, sinceramente. Não é uma posição histórica do PSDB. Essa é uma matéria controvertida. Tem gente que é a favor, tem gente que é contra", afirmou à BBC Brasil.

"Gregori pode ter a opinião dele. Naquela época, eu nem sei o que eu pensava a respeito. Era um assunto que não estava na ordem do dia, na agenda do Congresso. Não havia uma posição do governo sobre isso."

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Deputado Bruno Covas, neto de Mario Covas, é um dos tucanos que defende, hoje, a redução da idade penal
Por que mudou?

Com todo esse histórico, o que levou os deputados do PSDB a votarem em peso a favor da redução da maioridade?

Para o cientista político da USP José Álvaro Moisés, os tucanos entraram na discussão "sem maior cuidado, sem um debate mais crítico", com objetivo de impor uma derrota ao governo petista.

"Talvez com o objetivo de derrotar o governo, porque o governo Dilma e o PT são contra a redução, o PSDB se associou com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e com o PMDB e aprovou a redução da maioridade. Eu considero isso um equívoco total", disse.

Gregori, por sua vez, acredita que o partido se deixou influenciar pela opinião pública. Na avaliação dele, hoje há muito mais informação sobre crimes, devido ao avanço da democracia e da liberdade de expressão.

"Eu acho que ela (a bancada tucana) embarcou na questão da pressão social. Quer dizer, não estudou com profundidade a questão", afirmou o ex-ministro de FHC.

A visão, no entanto, é rechaçada por membros da bancada. Deputado federal mais votado de Goiás, o delegado Waldir personifica o lado mais conservador do PSDB de hoje. Ele é um dos maiores entusiastas da redução da maioridade.

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Políticos consideram que bancada tucana na Câmara está à direita de bancada do partido no Senado
"É uma bancada (de deputados) diferente, é uma bancada conservadora. Mas as bancadas se renovam. A bancada da época do FHC era uma, essa bancada foi eleita com o Aécio Neves (na campanha de 2014, quando disputou a presidência com Dilma), que defendia a redução da maioridade penal", observa Waldir.

"O PSDB, ao longo da sua história, foi muito criticado por ficar em cima do muro, por não ter posições populares, com o povo. Com essa mudança agora, nós estamos ao lado do povo", acrescentou o deputado goiano.

Entre políticos, há uma leitura de que, hoje, o PSDB da Câmara está à direita do PSDB do Senado. Por esta razão, acredita-se que será mais difícil ver aprovada a redução da maioridade penal pelos senadores — para uma Proposta de Emenda à Constituição passar no Congresso, é preciso que ela seja aprovada, sem qualquer alteração de texto, por 60% da Câmara e do Senado, em duas votações em cada casa.

As lideranças mais antigas do PSDB, como o senador José Serra, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o ex-presidente FHC vêm defendendo a reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente, com objetivo de elevar o tempo máximo de internação dos jovens e ampliar a pena de adultos que cooptarem menores para o crime. A proposta ganhou apoio do governo Dilma Rousseff, como alternativa à redução da maioridade.

"Tenho informações de que no Senado não passa (a redução da maioridade)", afirma Betinho Gomes, um dos três deputados federais tucanos que votaram contra a proposta aprovada na Câmara.

"O debate com a bancada foi fraterno. Mas fui atacado de toda forma no Twitter e no Facebook por causa do meu voto. O elogio mais generoso que recebi foi de assassino", relatou.

Mariana Schreiber
NoBBC Brasil
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JN censura nomes de políticos do PSDB, DEM delatados por Ricardo Pessoa




O Jornal Nacional da TV Globo não foi honesto com o telespectador na hora de noticiar a suposta delação premiada Ricardo Pessoa. Fez manipulação grotesca de informações, de forma a esconder os nomes de políticos "amigos" dos interesses da emissora.

O JN mostrou seletivamente algumas páginas do suposto documento do acordo de delação, vazado clandestinamente. As páginas são legíveis pelo telespectador, menos a página onde aparecem os nomes de políticos de 15 partidos.

Essa página é a única que apareceu desfocada, borrada, tornando impossível a leitura pelo telespectador de algum nome, diferente das outras páginas mostradas.

Na hora de ressaltar trechos desta página, tanto na imagem como na narração da apresentadora, o JN só mostrou as siglas PSDB, DEM, SD, PPS, PSC, PMDB, etc, sem citar nenhum nome de políticos destes partidos.

Qualquer jornalismo decente com acesso a um documento deste, citaria pelo menos os nomes de políticos notáveis que constassem ali.

A manipulação do JN revela a blindagem que políticos tucanos, do DEM, do PMDB desfrutam na tela da Globo.

Todo o resto da reportagem foi dirigida para desgastar membros do PT, sem explicar corretamente se as citações descrevem condutas legais ou ilícitas.

Detalhe: dos fragmentos que conseguimos ler do documento, Ricardo Pessoa descreve muita atividade de lobismo dentro da lei, ou seja, defender seus interesses de classe e o que interessa à sua empresa, mas poucas condutas descritas podem se enquadrar como atitudes criminosas previstas no Código Penal apenas pelo que está na delação. Nestes trechos sequer vi menção a palavras como propinas, suborno, corrupção, vantagem indevida, etc. Quando o documento inteiro vier a público, ficará mais fácil compreender e avaliar o real alcance e consequências da suposta delação.

Além dos petistas, apenas um ex-deputado do PR, Valdemar Costa Neto, e outro do PP, o senador Ciro Nogueira, foram alvo da reportagem. Mas só citar os dois não disfarça o caráter de panfletagem anti-petista da reportagem, nem a blindagem a demotucanos e a outros oposicionistas "amiguinhos" da Globo.

No Amigos do Presidente Lula
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A impotância das ciclovias: uma aula de urbanismo



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Eram os deuses ignorância?


A proteção constitucional e penal da liberdade de crença e do livre exercício dos cultos religiosos é necessária justamente por causa das religiões. A fé estimula violência e agressões verbais contra seguidores de outros credos.

O Estado Islâmico é exemplo extremo da ira divina replicada no pensamento de seres humanos. A notícia de que o governo federal contabilizou no Brasil uma denúncia de intolerância religiosa a cada três dias entre 2011 e 2014, grande parte contra seguidores de cultos de matriz africana, como candomblé, não é propriamente alarmante (temos epidemias criminais mais agudas, como a do estupro), mas indica que o ódio é pavio curto e seco, sempre pronto a reacender.

Miséria, medo, ignorância, tradição e fragilidades pessoais são explicações comuns para a crença em Deus. A ciência eliminou grande parte dos chamados mistérios da vida e da morte –sabemos que a Terra gira em torno do sol, da evolução das espécies, do Big Bang-, mas a irracionalidade ainda prevalece, mesmo entre cientistas.

Como justificar a permanência de fundamentos religiosos contra a vacinação que previne doenças ou contra a transfusão de sangue, como mostra o delicado romance "A Balada de Adam Henry", de Ian McEwan?

Em pleno século 21, milagres e exorcismos são transmitidos ao vivo pela TV. O programa de multiplicação de santos já fez do papa Francisco o recordista de canonizações na história do catolicismo. Novas igrejas surgem todos os dias para aproveitamento de isenções tributárias: acaba de ser oficializada em Indiana (EUA) uma que prega o culto do amor, do bom humor e da cannabis (maconha), que, objetivamente, é tão extravagante quanto o culto da ressurreição.

Política e religião fazem parte de uma equação global que interfere na vida cotidiana e no ensino de crianças. Bancadas evangélicas operam em casas legislativas para institucionalizar suas verdades. O secretário de Estado do Vaticano define o resultado do plebiscito na Irlanda, a favor do casamento gay, como uma "derrota da humanidade".

Na mesma semana em que o presidente Obama canta o hino protestante "Amazing Grace" no funeral do pastor Clementa Pinckney, na Carolina do Sul, em comovente manifestação contra a violência, a presidente Dilma, pragmática, sanciona dispositivo incluído na MP 668, convertida na lei 13.137/15, que amplia a imunidade fiscal de religiosos: agora, "os valores despendidos, ainda que pagos de forma e montante diferenciados, em pecúnia ou a título de ajuda de custo de moradia, transporte, formação educacional, vinculados exclusivamente à atividade religiosa não configuram remuneração direta ou indireta".

O legado histórico das religiões para a formação do patrimônio ético e moral da humanidade são inegáveis, perenes, mas a crença em Deus não é essencial para a paz e para a felicidade. E podemos conviver com mistérios, deixando para a ciência o papel de desvendá-los.

A doce utopia do fim das religiões parece distante. Se ainda cabe ao Estado assegurar liberdade de credo e de culto, é seu dever também identificar o que as superstições acumulam de intolerância e preconceito. A cobrança de impostos dos que enriquecem pregando seria um passo civilizatório.

Luís Francisco Carvalho Filho
No Esquerda Caviar
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A influência de Danilo Gentili no caso de racismo contra Maju Coutinho.

Inspirador
Sabe por que fanáticos se atreveram a publicar insultos à luz do dia contra a jornalista Maju Coutinho?

Porque eles viram o que aconteceu com Danilo Gentili — herói deles — quando, numa discussão numa rede social, ele mandou um homem negro comer bananas.

Nada. Aconteceu nada.

O insultado foi à Justiça e perdeu. Numa das sentenças mais infames da República, o juiz considerou que não havia ofensa na atitude de Gentili.

Bons exemplos prosperam, e maus ainda mais.

Tivesse Gentili recebido a devida punição, os racistas que atacaram Maju guardariam seu ódio e seu fascismo para si próprios.

Você tem que castigar exemplarmente manifestações de racismo.

Não muito tempo atrás, no Twitter, um internauta postou comentários racistas sobre a agonia de um jogador de futebol que tivera uma parada cardíaca súbita em pleno jogo.

A Inglaterra instantaneamente se comoveu com o caso, mas o internauta começou a fazer piadas com bananas e outras coisas.

Na manhã seguinte, a polícia estava na sua casa para prendê-lo. Rapidamente julgado, foi condenado a prestar serviços comunitários.

A opinião pública se revoltou com o engraçadinho, e a mídia deu amplo espaço para a história.

Ninguém mais fez nada parecido nas redes sociais na Inglaterra.

No Brasil, o caso Gentili teve o desfecho oposto, e acabou inspirando outros sociopatas.

Sociedades avançadas utilizam a técnica, em situações como esta, do name and shame. Você publica o nome do agressor para envergonhá-lo.

A leniência brasileira está cobrando um preço alto.

E não houve punição nenhuma
E não houve punição nenhuma
Como observou sabiamente o professor brasileiro da universidade em que Dilma foi atacada nos Estados Unidos, manifestações de caráter fascista não podem ser toleradas, ou a sociedade se esgarça.

O fascismo está no racismo, na homofobia e em coisas do gênero.

O professor chamou a atenção para uma coisa interessante: não é um problema apenas do governo, mas também da oposição.

Oposição democrática e civilizada é uma coisa. Oposição fascista — em cuja agenda figura a cruzada pela volta da ditadura militar — é outra coisa.

O fascismo tem que ser exemplarmente reprimido pelo governo, e uma oposição decente tem que condená-lo.

Mas cadê as ações enérgicas do governo? Onde palavras em favor da civilização da parte de homens como FHC?

A oposição, a começar por Aécio, fica calada, criminosamente calada, porque acha que a ação dos sociopatas de alguma forma a ajuda na tentativa de eliminar por vias sujas 54 milhões de votos.

Mas é um erro absurdo. Não é um partido que está sendo insanamente atacado. É a decência. É a ideia de um país civilizado.

Numa mesma semana, tivemos os adesivos pornográficos, os insultos a Dilma nos EUA e o racismo despejado contra Maju Coutinho.

São coisas que fazem parte de uma sociedade que se adoentou.

Os sinais já estavam claros quando um juiz — refletindo a mentalidade dominante na Justiça — inocentou Danilo Gentili de um crime racial.

Gentili saiu impune, e hoje arrasta seu Ibope miserável na emissora de Silvio Santos.

Que o mesmo não aconteça com os celerados que brutalizaram Maju Coutinho — e nem com os responsáveis pelos adesivos e pelo ataque a Dilma nos Estados Unidos.

Paulo Nogueira
No DCM
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Mídia grega manipula e cria pânico

"Não há história de sucesso, onde a troika esteja envolvida", disse Aris Chatzistefanou.
Foto: Telesur
Os principais meios de comunicação gregos são controlados por grandes corporações que manipulam as pessoas e exercem pressão sobre o Governo de Alexis Tsipras.

Jornalista e cineasta grego Aris Chatzistefanou em uma entrevista para o programa Cruce de palabras da Telesur, disse que a mídia de massa naquele país manipula e cria pânico na população.

"Minutos depois que Alexis Tsipras anunciou o referendo, muitas pessoas foram aos bancos para retirar dinheiro e os meios de comunicação estavam ali para mostrar imagens do "pânico" da população, disse ele.

"Enquanto a mídia corporativa fala abertamente sobre sua propensão para o sim, eu acho que o clima é totalmente o oposto. As pessoas vão respeitar a democracia, vão respeitar o seu direito à auto-determinação e dizer não neste referendo ", disse Chatzistefanou.

Esta é a pergunta do referendo grego:


Qual é o papel da mídia nessa crise?

"Você tem que entender que a grande mídia grega é controlada pelas grandes corporações. O que eles estão fazendo é controlar esses meios para exercer pressão sobre o Governo de Tsipras. Agora eles temem perder o que ganharam nos últimos cinco ou seis anos com estes grandes cortes sociais contra a população".

Chatzistefanou disse que os cortes sociais foram classificados por muitos como um genocídio social que só beneficiou as corporações e tem arrastado o povo para a miséria.

Nos últimos cinco anos, o povo grego enfrenta uma crise humanitária. O aumento das taxas de suicídio, de desemprego e da pobreza são exemplos claros deste genocídio social, explicou Chatzistefanou.

No teleSUR
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Três perguntas sobre a direita brasileira

A Pública entrevistou o cientista político Adriano Codato, da Universidade Federal do Paraná, para saber sua visão sobre a nova direita brasileira

A direita jovem que emergiu no Brasil principalmente no período eleitoral do ano passado é um fenômeno social que ainda não foi suficientemente estudado pela academia, explica o professor Adriano Codato, da pós-graduação da UFPR. “Estas são impressões iniciais sobre um fenômeno aparentemente novo. Minhas respostas devem ser tomadas, portanto, como sugestões para que reportagens jornalísticas e pesquisas acadêmicas possam ilustrar e comprovar ou não o acerto delas”. Veja aqui suas respostas.

Vemos cada vez mais sites de direita e demonstrações nas ruas que exibem faixas contra Bolsa-Família, Cotas Raciais, e até uma curiosa palavra de ordem, defendida pelo jovem líder do MBL, Kim Kataguiri, pedindo “Mais Mises, menos Marx”. A direita cresceu entre a juventude ou saiu do armário? O senhor diria que ela foi mobilizada principalmente contra os programas sociais dos governos do PT?

Há as duas coisas. A direita, como corrente parlamentar, voltou a crescer, revertendo o movimento de queda constante do número de representantes na Câmara dos Deputados que se observava desde 1994. A extrema-direita, como corrente de opinião, começou a aparecer com uma estridência até então inédita (ou ao menos sem precedentes desde o fim do comunismo). Ocorre que se essa extrema-direita é, em termos ideológicos, idêntica àquela do período da Guerra Fria, hoje tem, graças ao estrondo proporcionado pelas novas mídias e à bajulação da velha mídia, um alcance muito maior do que jamais teve. Por sua vez, se a direita parlamentar conta ainda com o concurso das suas figuras políticas tradicionais (o grande proprietário, o médio empresário, o cacique partidário, etc.), hoje se vê revigorada por uma nova legião de políticos dos partidos fisiológicos e pela figura emblemática do pastor-deputado. Temos assim um cenário em que uma extrema-direita pretensamente moderna (“menos estado, mais mercado”) precisa se contentar em se ver representada politicamente pelo baixo clero e por tudo o que há de mais atrasado, reacionário e obscurantista em termos civilizacionais que a cena política do Brasil pode produzir. A fotografia em que os líderes dos Revoltados on line e do Movimento Brasil Livre posam alegremente com os deputados Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha é, me parece, a síntese disso. Essa é, por enquanto, a vanguarda da oposição, visto que o PSDB, ou melhor dizendo, alguns dos seus líderes, não parece muito à vontade para assumir, ainda, uma agenda abertamente de direita.

Os que se dizem “liberais” no país vão desde empresários que participaram de conselhos de administração de estatais e câmaras do setor empresarial, como Gerdau, até outros que se dizem libertarians como Salim Mattar, da Localiza. Pode se falar em tendências de direita no Brasil como os Libertarians, os Tea Partiers ou os Evangélicos americanos? Há uma aliança programática entre as diversas tendências da direita para derrubar o estado de bem-estar social que identificam com o PT?

Talvez Geraldo Alckimin, da Opus Dei, possa fazer essa síntese ultraconservadora em 2018.

Não há essa aliança, nem em termos programáticos, nem em termos político-eleitorais. Ou no Brasil não há ainda uma aliança entre antiestatistas (nosso equivalente dos Libertarians), antipetistas (nossos Tea Partiers, só que menos ideológicos) e antiminorias (a santa cruzada dos nossos Evangélicos) porque, penso eu, as agendas dos três grupos ainda não se aproximou suficientemente uma da outra. E porque, principalmente, não há um líder ou um partido que possa encarnar num mesmo movimento as três bandeiras. Celebridades de internet e polígrafos das várias mídias não contam a não ser como agitadores e propagandistas das três figuras da direita nacional. Talvez Geraldo Alckimin, da Opus Dei, dizem os entendidos em sua biografia, possa fazer essa síntese ultraconservadora em 2018. Eduardo Cunha pode ser entendido então como um experimento para ver se a coisa engrena. Nesse contexto, a ojeriza ao Bolsa Família (seu “assistencialismo”), o ódio às Cotas Raciais (a sabotagem da “meritocracia”), o espanto diante da abertura dos bens de consumo privativos das classes médias aos remediados (o “capitalismo”, enfim…) são mais a desculpa para se opor ao PT e ao seu governo do que a razão real que os anima. Quem de fato se aflige com tudo isso são as altas camadas médias, que aliás estão onde sempre estiveram, nem mais à direita nem mais à esquerda, e que pensam como sempre pensaram: que a política é um privilégio dos letrados, que os cursos superiores são o destino dos bem-nascidos, que a corrupção é o único mal nacional e que pobre deveria é andar de ônibus.

Como o senhor dividiria a direita brasileira? Em que facções? Elas se distribuem em diferentes partidos ou podemos considerar algum deles como sede da direita ideológica?

Sugiro, provisoriamente, uma divisão dessa direita em três grandes alas: a político-institucional, a moral-comportamental e a econômico-liberal.

Será necessário nos próximos anos um baita esforço por parte da academia para compreender essa nova/velha direita brasileira. Nesse sentido, a topografia desse grande campo reacionário ainda está por ser feita. Sugiro, provisoriamente, uma divisão dessa direita, que ainda teima em não dizer seu nome, em três grandes alas: a político-institucional, a moral-comportamental e a econômico-liberal. As duas primeiras se encontram e se resumem na figura do pastor-deputado, mas, para usar a linguagem dos Evangelhos, não há só uma forma de manifestação desse fenômeno. Seu “nome é Legião, porque são muitos”. A direita institucional tem progressivamente deixado de concorrer às eleições proporcionais pelos grandes partidos (DEM, PP, PTB) e se alojado nas micro-legendas que costumamos chamar de partidos fisiológicos (por oposição aos ideológicos). Vamos ver aonde isso vai. A direita “comportamental” tem uma agenda conservadora bem definida contra todos os direitos do século XX: os direitos das minorias de gênero, os direitos humanos, os direitos trabalhistas, o direito penal, etc. Essa variante da direita brasileira se acha em quase todos os partidos do Congresso e seus apóstolos não são sempre e necessariamente o pastor-deputado. Até porque é preciso lutar em várias frentes. A direita “liberal” (em termos econômicos) é, me parece, a que está aí há mais tempo: escreve nos jornais, recita no rádio, declama na TV, posta na internet o receituário de sempre em defesa do capital rentista (“apertar o cinto e gastar com juros”). Enfim: que uns tenham PhD por Chicago e outros sejam pregadores na Baixada Fluminense, que uns se metam em parecer Carlos Lacerda na tribuna e outros ressuscitem o militar autoritário são instantâneos de uma corrente política que parece estar se firmando entre o eleitorado das grandes cidades. A ver.

Marina Amaral
No Pública
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#corrupçãonão

Passando na frente do prédio do MP vi uma faixa com os dizeres #corrupçãonão. Enquanto consultava meus botões, uma pulga saltou detrás da orelha. Então resolvi consultar a página do Ministério Público Federal para confirmar se era essa mesmo a missão do MP. Lá está escrito: MISSÃO do MPF: Promover a realização da Justiça, a bem da sociedade e em defesa do estado democrático de direito.

Por lá também se encontra escrito algo que passa longe da atual atuação do MP: “Cabe ao MP a defesa dos direitos sociais e individuais indisponíveis, da ordem jurídica e do regime democrático. As funções do MP incluem também a fiscalização da aplicação das leis, a defesa do patrimônio público e o zelo pelo efetivo respeito dos poderes públicos aos direitos assegurados na Constituição.” Afinal, quais são as premissas para um “regime democrático”? Certamente não é o viés partidário, nem a lei de dois pesos e duas medidas…

A única fiscalização do MP é feita pelo CNMP. Além disso, parolagem. A pergunta que deveria ser feita pelo próprio MP quanto está custando a sua campanha de combate à corrupção em 21 países?! Quem está pagando esta conta da atuação do MP no exterior?

Veja, o combate à corrupção não se sobrepõe à fiscalização da aplicação das leis e muito menos ao “regime democrático”. Não vi escrito mas acho que não seja assunto estranho ao MP o tratamento isonômico. Tratar igualmente os iguais, desigualmente os desiguais. Se o MP tivesse outro interesse que não o compadrio com golpismo, teria buscado a punição de seus membros que não só não combatem a corrupção, como dão guarida a ela. Por exemplo, como o MP trata seu membro Rodrigo de Grandis?! Qual é a transparência que o MP dá para os casos de corrupção no próprio MP? Alguém sabe quem fiscaliza o MP?

Por que a corrupção política é combatida com viés partidário a ponto de um deputado gaúcho do PSDB esnobar da possibilidade de que venha a ser punido?! Jorge Pozzobom falava do Poder Judiciário, talvez sabendo que há um costume não escrito no MP de tratar de forma diferente políticos do PSDB de políticos do PT, por exemplo. Não é um escárnio que aquele cérebro à procura de uma ideia seja um ferrenho parceiro do MP no combate à corrupção?! Outro parceiro do atual momento do MP é o cara que comprou a reeleição. Imagine-se Aécio Neves do alto de sua idoneidade moral, de dedo em riste, deixado incólume pelo MP, vituperar contra a corrupção. Claro, construir aeroportos nas terras do Tio Quedo, com dinheiro público, não é corrupção. Aliás, porque a Lista de Furnas nunca chamou a atenção do MP?

Os envolvidos no propinoduto dos trens em São Paulo foram condenados na Suíça e na Alemanha. No Brasil, se depender do MP, serão todos canonizados. 

Aliás, será que o MP dá a mesma importância para um helipóptero com 450 kg de cocaína que deu para a cunhada do Vaccari?!

A faixa estendida na frente do MP me faz lembrar de um antigo texto do Paulo Leminski, explicando os tempos do Honorável Bandido e seu Plano Cruzado, com Paulo Brossard a cavalo procurando boi gordo no pasto: “Se a gente está valorizando tanto isso aí, é porque está faltado. Hoje, você fala em boi de um jeito que não se falava há três meses atrás, porque o boi está faltando, não porque esteja sobrando, de um modo geral, dentro do quadro brasileiro.” O MP não está combatendo a corrupção, está empregando uma palavra para escamotear sua atuação. Até parece que, contrariando Ricardo Semler, para o MP a corrupção no Brasil só existiu em dois momentos: antes do golpe de 1964 e agora.

Em outras palavras. A campanha do MP tem o mesmo sentido de botarmos no elevador: #proibidopum. Será que alguém discordaria da proibição de pum em elevador?

Agora me responda. Você compraria carne num açougue que tivesse na porta uma faixa #proibidovendercarnepodre?!

Segundo a filósofa Márcia Tiburi, “O sistema da corrupção é composto de um jogo de forças do qual uma das mais importantes é a “força do sentido”. Pobre, porém honesto! Rico, porém corrupto? Na moral, é só moralismo… Moralismo hiPÓcrita!!

Se fosse um templo, igreja, mesquita, sinagoga, até entenderia, já que são lugares moralistas por excelência. Se fosse no prédio da Polícia Federal eu também entenderia. Contudo, o viés que vemos hoje no combate à corrupção é o mesmo que antecedeu o golpe de 1964. O MP não está combatendo a corrupção. Pelo estrabismo de sua atuação, está apenas buscando eliminar a concorrência na corrupção.

Por que o MP está dando mais valor ao moralismo seletivo do que à defesa do “regime democrático”?!

Gilmar Crestani
No Ficha Corrida
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Brasília altera nome de ponte que homenageia general da ditadura

A Ponte Costa e Silva passará a se chamar Honestino Guimarães, em homenagem a estudante que lutou contra o regime militar


Trinta anos se passaram desde o fim de um dos capítulos mais sombrios da história do Brasil. Apesar das três décadas de democracia, o País ainda convive com resquícios da Ditadura Militar, como o batismo de ruas, pontes e equipamentos públicos com nomes dos generais-presidentes.

No Distrito Federal (DF), uma das homenagens aos ditadores será finalmente apagada. A Câmara Legislativa do DF (CLDF) aprovou, no dia 30 de junho, a mudança do nome da Ponte Costa e Silva para Ponte Honestino Guimarães.

De autoria do deputado distrital Ricardo Vale (PT), o PL 130/2015 foi aprovado com 14 votos favoráveis, 5 abstenções e 5 ausências.

A homenagem ao segundo presidente do regime militar e que instituiu o Ato Institucional nº5 (AI-5) será substituída pela homenagem a Honestino Guimarães, estudante da Universidade de Brasília (UnB) que lutou no movimento contra a ditadura e é um dos desaparecidos da época.

o-PONTES-facebook“É um simbolismo muito importante. Honestino foi preso e desapareceu em razão de sua luta contra o regime militar”, afirma Vale.

Segundo o deputado, além de fazer a homenagem a quem se tornou símbolo da luta contra o governo de exceção, o objetivo do Projeto de Lei é trazer o debate de volta à sociedade do que foi a ditadura militar instaurada no Brasil a partir de 1964.

“A troca do nome é importante principalmente neste momento político que o País vive em que setores da sociedade vão às ruas pedir a volta dos militares ao poder. Não podemos permitir essa volta e temos de manter viva a democracia. Honestino morreu por ela”, comenta.

O deputado petista ressalta ainda que o relatório final da Comissão da Verdade apontou que o Brasil deveria trabalhar na perspectiva de tirar todos os nomes de militares e de pessoas identificadas com a ditadura militar dos aparelhos públicos.

“O Distrito Federal está dando um pontapé importante nesse sentido. Caso ainda haja outros equipamentos públicos com nome de militares da Ditadura, vamos solicitar a troca”, garante Ricardo Vale. A mudança do nome ainda aguarda a sanção do governador Rodrigo Rollemberg (PSB).

A ponte Costa e Silva foi batizada assim por decreto em 1969. O trecho liga o bairro da Asa Sul, no centro de Brasília, ao Lago Sul, bairro nobre da capital. Com 400 metros de extensão, foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e inaugurada em 1976, na época da Ditadura Militar.

Luana Spinillo
No Agência PT de Notícias
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Emídio: oposição quer nova eleição já

zé da Justiça tem que demitir na Polícia Federal




A rejeição pelo TCU (Tribunal de Contas da União) das contas de 2014 do Governo Federal é uma possibilidade que o presidente do PT de São Paulo, Emídio de Souza, vê como “estratégica” para que a oposição peça o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff.

Em 17 de junho, o tribunal deu prazo de 30 dias para que a Presidenta esclareça as chamadas “pedaladas fiscais”. Ao todo, são 13 questionamentos. Nunca antes, a corte votou pela rejeição das contas de um presidente.

“A oposição tem uma estratégia, que é a questão das pedaladas fiscais, que aconteceram no governo deles. Eles querem transformar isso em uma das razões para o impeachment. E a outra é a tentativa de dizer que recursos desviados da Petrobras teriam sido usados na campanha da Presidenta”, afirmou Emídio nesta sexta-feira (3) em entrevista exclusiva a Paulo Henrique Amorim.

“Ela [a oposição] quer aproveitar o momento de desgaste, tirar a Presidenta da República agora junto com o vice Michel Temer para que Eduardo Cunha [presidente da Câmara] assuma. Imagine ele presidente?”, se questiona o petista.

O responsável pelo relatório preliminar que detectou possíveis irregularidades nas contas do primeiro mandato de Dilma foi o ministro Augusto Nardes.

Ele foi investigado na Operação Castelo de Areia, como lembra reportagem de Rodrigo Martins na Carta Capital desta semana. Em documentos apreendidos com executivos da Camargo Correa, o nome de Nardes aparece relacionado a propinas em obras públicas.

Outro caso de ministro do TCU investigado, lembra a publicação, é Aroldo Cedraz. Na verdade, o filho dele, de nome Tiago Cedraz. Segundo o empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, que é investigado na Operação Lava-Jato, ele dava uma mesada de R$ 50 mil ao filho do presidente do TCU.

Para Emídio, a tentativa de impeachment “sem base legal” acontece por medo da volta de Lula. “A oposição perdeu quatro eleições seguidas e teme perder uma próxima com a volta do Presidente”, confirma.

Os nove ministros do TCU, a partir de CartaCapital:

Aroldo Cedraz — foi deputado pelo antigo PFL de Antonio Carlos Magalhães (hoje DEM) da Bahia. Foi empossado em 2007 por indicação da Câmara dos Deputados.

José Múcio Monteiro Filho — foi deputado federal pelo PTB de Pernambuco e ministro de Relações Institucionais do governo Lula. Ocupou o cargo de ministro do TCU em 2009.

Bruno Dantas — Assumiu a cadeira no TCU em 2014, com apoio do senador Renan Calheiros.

Ana Arraes — Foi indicada pela Câmara dos Deputados em 2011. Venceu o atual ministro da Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo. É mãe do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

Vital do Rego — Assumiu a cadeira no TCU em fevereiro deste ano e teve como principal aliado o presidente do Senado, Renan Calheiros.

Raimundo Carreiro — Assumiu o cargo em 2007, após anos como servidor de carreira do Senado.

Walton Alencar Rodrigues — Foi indicado em 1999 pelo Ministério Público. Antes, foi Procurador concursado do próprio Tribunal.

Augusto Nardes — Tomou posse em 2005 após longa trajetória política na Arena, no PDS, PPR, PPB e PP. Pelo último foi deputado.

Benjamim Zymler — A data da sua posse foi setembro de 2001. Ele foi indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso após carreira no próprio TCU

Operação Lava-Jato

Na entrevista, o presidente do PT paulista fez duras críticas a atuação da Polícia Federal nas investigações da Operação Lava-Jato.

“Eu acho que o Governo precisa reagir. Não é possível que a PF use de instrumentos como esse [em referência ao grampo na cela do doleiro Alberto Youssef]. É uma coisa fora do processo democrático. O José Eduardo Cardozo [ministro da Justiça] deveria trocar o comando da Polícia nos estados em que isso aconteceu”, concluiu.

O PT em São Paulo

Na opinião de Emídio, o PT precisa dialogar e divulgar o que fez a frente dos governos federais para a população do estado de São Paulo.

“Provavelmente, na história de São Paulo, nunca o Governo Federal investiu tanto aqui como com Lula e Dilma. Em metrô, rodoanel, programas sociais. Por exemplo, a Companhia de Habitação do Estado (CDHU) criada em 1986 construiu em todos esses anos menos de 500 mil moradias em todo Estado, nos cinco anos do Minha Casa Minha Vida já foram construídas 600 mil no Estado”, enaltece.

Reeleição de Fernando Haddad

“Eu vejo três candidaturas que disputam a mesma faixa: Haddad, Marta Suplicy e Celso Russomano”

“Não vejo a Marta entrando no eleitorado da classe média”

Alisson Matos
No Conversa Afiada
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Somos todos... o quê?

(Um post com duas historinhas.)

Ao contrário do que a revista Veja afirmou em uma matéria de capa há algum tempo, o racismo não acabou no Brasil. Ao contrário: encontra-se em uma de suas fases mais intensas se considerarmos os últimos 30 anos.

A diferença é que sua vítima mais recente é famosa. Estou falando, claro, de Maju Coutinho, a jornalista do Jornal Nacional que hoje recebeu dezenas de mensagens absolutamente odiosas através de redes sociais. Isto, claro, inspirou mais uma daquelas hashtags bem intencionadas — ‪#‎SomosTodosMajuCoutinho‬ — que, temo, provocam também certa apatia ao criarem a ilusão de que fizemos algo de relevante quando, na realidade, apenas ocupamos os Trending Topics do Twitter por algumas horas.

O fato é que este recrudescimento da intolerância no país está diretamente ligado ao crescimento de uma atmosfera fascista capitaneada pela neodireita — e onde o fascismo ganha força, ganham força também o racismo, a misoginia, a homofobia, a xenofobia e o ódio de modo geral.

E a única forma de combatê-los é enfrentando os fascistas. Não se calando.

Todos os dias recebo mensagens de leitores dizendo que pararam de escrever sobre aquilo em que acreditam por não aguentarem mais os insultos. Infelizmente, quando nos calamos, eles se tornam mais fortes e a intolerância cresce. Não podemos permitir isso.

Enquanto isso, hashtags como #SomosTodosMajuCoutinho (pronto, usei duas vezes), embora positivas em seus propósitos, levam ao sentimento de dever cumprido, mas são falsas em sua essência. Não sou Maju Coutinho. Não sei o que é ser mulher ou negra. O que é viver com medo de assédio ou sofrer insultos constantes.

Há alguns meses, quando estava em Nova York para o festival de Tribeca, passei por uma experiência que me fez perceber esta distância entre realidades: numa estação do metrô no Upper West Side (uma região habitada por quem tem mais dinheiro), decidi caminhar em direção ao meio da plataforma para ficar mais próximo da saída quando descesse do trem. Enquanto caminhava, notei uma mulher (branca, loira, olhos azuis) que, a alguns metros, me encarava. Ao me ver aproximando, ela puxou para si as duas crianças que a acompanhavam e me olhou com expressão óbvia de medo.

Provavelmente, viu em mim um latino com aspecto ameaçador. E me julgou pela aparência e reagiu com temor. Isto me deixou chateado. De verdade. E foi uma experiência pontual.

Agora imaginem enfrentar este tipo de preconceito o TEMPO TODO, TODOS OS DIAS?

Mas é difícil nos colocarmos na pele do outro. Mesmo quando nos julgamos esclarecidos, repletos de empatia.

O que me faz lembrar de outra historinha: há algum tempo, uma amiga me pediu indicações de cinema em São Paulo. Falei de alguns na Consolação e ela perguntou se não era perigoso passar por ali à noite. "Que nada", respondi. "Durante a mostra, estou cansado de subir a Augusta por volta de uma da manhã e nunca aconteceu nada."

"É, mas eu sou mulher.", ela disse.

Foi um daqueles momentos de clareza súbita. Claro, Eu não temia a região à noite porque não sabia o que era viver com medo de ser estuprado ou de sofrer outros tipos de assédio. Do alto de meus privilégios como homem branco (já que também não temia ser abordado à toa pela polícia por ter "aparência suspeita"), encarava minha experiência do mundo como algo universal, quando estava longe de sê-lo.

Saber-se uma criatura de privilégios pode ser chocante. E triste. Faz com que percebamos por que tantos falam de "meritocracia" e criticam feministas e ativistas negros e LGBT: porque não fazem ideia do que mulheres, negros e gays enfrentam TODO DIA.

Como homem branco, acordo todos os dias para um mundo receptivo às minhas ideias, à minha presença e sempre preparado para me recompensar por qualquer esforço que eu faça sem antes resistir às minhas ações por me julgar inferior.

E é por isso que precisamos seguir combatendo. Debatendo. Espalhando a semente da tolerância, da empatia, da aceitação da realidade do outro.

Porque, no final das contas, somos todos os mesmos — ou deveríamos ser. Mas precisamos mais do que hashtags para alcançar isso. Muito mais.

Pablo Villaça
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Veja descobre um tucano gordo na Lava-Jato


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WikiLeaks: NSA espionou assistente pessoal de Dilma e avião presidencial

Novo vazamento revela lista de pessoas alvejadas no Brasil; entre elas, Palocci, o ministro do Planejamento Nelson Barbosa e o atual embaixador nos EUA

Na mesma semana em que Dilma Rousseff realizou a primeira viagem presidencial aos Estados Unidos, informações secretas obtidas pelo WikiLeaks revelam detalhes sobre a espionagem da NSA, sigla em inglês da Agência Nacional de Segurança, contra a presidente e assessores próximos, ministros e um integrante do Banco Central.
Dilma Rousseff é recebida por Barack Obama no EUA.
Foto: Agência Brasil
As informações, às quais a Agência Pública e a Revista Carta Capital tiveram acesso em primeira mão, revelam que a espionagem da NSA no início do governo Dilma se centrava não só na figura da presidente, mas em integrantes ou ex-integrantes importantes do governo nas áreas econômica, financeira e diplomática. São 29 “alvos”. Entre eles, Antônio Palocci, então chefe da Casa Civil.

O celular do assistente da presidente, Anderson Dornelles, responsável por cuidar das ligações pessoais de Dilma, também estava na mira da NSA. Nem o avião presidencial escapou da bisbilhotagem norte-americana.

As informações provêm de uma base de dados usada pela NSA para selecionar “alvos” cujas comunicações devem ser analisadas. Os arquivos sobre alvos (ou “selectors”) brasileiros referem-se ao ano de 2011 e fazem parte de uma série de vazamentos realizados nas últimas semanas. O WikiLeaks já havia publicado uma lista de 69 nomes que seriam alvos da NSA na Alemanha, incluídos ministros e representantes para comércio, finanças e agricultura, além do assistente pessoal da chanceler Angela Merkel. Também foram publicados três resumos de conversas interceptadas em 2011. Em uma delas, Merkel discute com seu assistente a crise grega.

No fim de junho, o WikiLeaks revelou que os EUA espionaram o presidente francês Francois Hollande e dois ex-presidentes, Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy, além de ministros das finanças e empresários. Em resposta, Hollande realizou uma reunião de emergência do seu gabinete para discutir o tema e ligou em seguida para Obama, que garantiu que os EUA deixaram de fazer espionagem. O ministro de Relações Exteriores convocou o embaixador americano em Paris para pedir explicações. Merkel fez o mesmo.

Diferentemente dos vazamentos europeus, os dados sobre o Brasil não contêm mensagens interceptadas, apenas enumera os alvos preferenciais dos EUA.

Para monitorar a chefe do executivo brasileiro, a NSA selecionou nada menos que 10 telefones diretamente ligados a Dilma. São telefones fixos de escritórios, como aquele usado pelo comitê de campanha em 2010 no Lago Sul de Brasília, celulares marcados como “relações de Dilma” (“liaison”, em inglês) e a linha fixa do Palácio do Planalto.

Dornelles, assessor pessoal de Dilma, foi incluído na lista de “alvos” da NSA no primeiro ano do mandato, e seu celular passou a ser atentamente monitorado. O gaúcho de 35 anos, chamado pela presidente carinhosamente de “bebê” e “menino”, é há duas décadas seu fiel escudeiro. Começou a trabalhar como office-boy da presidente aos 14 anos, quando ela presidia a Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, e a acompanhou em todos os cargos públicos desde então.

O tema de interesse em espionar Anderson está descrito como “Brasil: Assuntos Políticos”. Espioná-lo era considerado como prioridade de nível “3” para o governo dos EUA. Quanto mais baixo o número, segundo a classificação da NSA, maior a prioridade.

Antonio Palocci by agencia brasil
Celular do ex Chefe da Casa Civil Antônio Palocci também foi espionado.
Foto: Agência Brasil
Todos os alvos brasileiros têm prioridade “3” enquanto os alemães são de prioridade “2”, assim como os presidentes franceses.

Outro integrante espionado foi Palocci, que deixou o governo em junho de 2011 após denúncias de enriquecimento ilícito: seu patrimônio aumentou 20 vezes entre 2006 e 2010. O ministro Palocci era o principal articulador político do governo.

A presidente não era deixada em paz pelos ouvidos atentos da NSA nem mesmo quando estava em viagem. O telefone via satélite instalado no avião presidencial, o Airbus Força Aérea 1 também estava na mira. O avião é equipado com sistema de comunicação por satélite da empresa britânica Inmarsat, que opera onze equipamentos posicionados em órbita geoestacionária ao redor da Terra. Nada disso evitou que os espiões norte-americanos pudessem acessar livremente o conteúdo das chamadas presidenciais a bordo do avião.

Assim como no caso da Alemanha e França, o novo vazamento do WikiLeaks é eloquente ao mostrar que o governo dos EUA tinha como alvos preferenciais negociadores da política econômica e financeira. Nelson Barbosa, hoje Ministro do Planejamento, foi espionado quando era secretário-executivo do Ministério da Fazenda. O número fixo assinalado pela NSA é usado ainda hoje pela Secretaria.

Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Foto: Agência Brasil
Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa.
Foto: Agência Brasil
Outro espionado foi o ex-chefe de gabinete do Ministério da Fazenda Marcelo Estrela Fiche, exonerado em dezembro de 2013. O embaixador Luís Antonio Balduíno Carneiro, que em 2011 era diretor do Departamento de Assuntos Financeiros do Itamaraty e atualmente é diretor da Secretaria de Assuntos Internacionais do ministério da Fazenda, e o subsecretário de Relações Internacionais, Fernando Meirelles de Azevedo Pimentel, também constam na lista. Sobre ele, a NSA anota que conduzia o mesmo tipo de vigilância exercido sobre diversos países — de olho no mercado financeiro. “Multi-pases: desenvolvimentos financeiros internacionais”, diz o registro.

A procuradora-geral da Fazenda, Adriana Queiroz de Carvalho, era outro alvo. Vinculada à Advocacia Geral da União, a Procuradoria representa a União em disputas judiciais e dá assessoria jurídica ao ministério sobre créditos tributários, entre outros assuntos.

Luiz Awazu Pereira da Silva, que se prepara para assumir a vice-presidência no Banco de Compensações Internacionais, considerado o Banco Central dos Bancos Centrais, não escapou. Era diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central. Posteriormente comandou a Diretoria de Regulação do Sistema Financeiro e a diretoria de Política Econômica do BC. Nesse posto, atuou diretamente sobre a política de juros, como os aumentos ou redução da taxa Selic.

Além dele, também foi espionado o atual embaixador brasileiro nos EUA, Luiz Alberto Figueiredo Machado. O interesse em Machado teria relação com as negociações de acordos climáticos. Em 2011, Machado era diretor do Departamento de Meio Ambiente e temas especiais do Itamaraty. Foi secretário-executivo da Rio+20 e chefiou ao menos três delegações brasileiras nas Conferências da ONU para o Clima. Machado assumiu o Itamaraty após a saída de Antônio Patriota em 2013 e permaneceu até o fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff.

A NSA monitorou ainda o telefone da residência do embaixador Luiz Filipe de Macedo Soares Guimarães em Genebra, o atual embaixador na Argentina Everton Vieira Vargas, quando era representante na Alemanha, e a embaixada brasileira em Paris, segundo os arquivos. Procurados, nenhum dos “alvos” quis se pronunciar.

Aviao Presidencial by agencia brasil
Até as comunicações via satélite do avião presidencial foram alvejadas, segundo WikiLeaks.
Foto: Agência Brasil
As novas revelações do WikiLeaks mostram pela primeira vez os alvos específicos da NSA no Brasil. Em 2013, documentos vazados por Edward Snowden haviam revelado que milhões de e-mails e ligações de brasileiros e estrangeiros em trânsito no país foram monitorados. Snowden também revelou que as comunicações da Petrobras e de Dilma Rousseff eram espionadas.

Em resposta, a presidente cancelou uma viagem aos EUA que estava agendada e criticou publicamente a espionagem americana na Assembleia-Geral da ONU. Junto com o governo alemão o Brasil propôs ainda à ONU uma proposta que prevê regras para garantir o direito à privacidade na era digital.

Porém, antes da recente viagem aos EUA, Dilma Rousseff já dizia considerar o conflito como “uma coisa do passado”. Agora, depois da visita, considerada bem-sucedida, resta saber como o governo vai lidar com essas novas — e preocupantes — revelações. Afinal, pouco se sabe ainda sobre quais informações sigilosas foram acessadas e como isso foi usado para o benefício econômico e político dos americanos.

O que ensinam os documentos

A base de dados publicada pelo WikiLeaks demostra como funciona o aparato de espionagem da NSA. Embora o órgão americano intercepte milhões de registros de telefonemas em diversos países, apenas alguns telefones são considerados alvos prioritários, aos quais os analistas devem estar sempre atentos.

Para que a espionagem seja conduzida é necessário que ela siga uma ordem de “Necessidade de Informação” promulgada pelo Departamento de Inteligência Nacional. O código dessa autorização aparece em todas as comunicações, bem como a unidade dentro da NSA que é encarregada de espionar as conversas.

Um documento de “Necessidade de Informação” de 2002, feito sob medida para espionar os franceses, estabelece como áreas de interesse informações sobre relações econômicas bilaterais, política macroeconômica e financeira, orçamento, contratos internacionais e negociações com instituições financeiras internacionais. Documento semelhante foi produzido sobre o Brasil, segundo consta na base de dados, mas seu teor não consta do vazamento do WikiLeaks.

Julian Assange, Natalia Viana
Colaborou Renan Truffi
No Pública
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