14 de jun de 2015

Esquema do “envelope no banheiro” pode derrubar tucano Beto Richa

Demorou, mas acabou acontecendo, apesar da negativa dos envolvidos no escândalo. Primo distante do governador do Paraná, Carlos Alberto Richa (PSDB), o empresário londrinense Luiz Abi Antoun entregou-se à polícia por volta das 22 horas de quinta-feira (11), após passar dias como foragido da Justiça.

Abi é acusado de participar de um esquema de corrupção na Receita paranaense, que, segundo as investigações, teria alimentado o caixa da campanha de Richa à reeleição. Não é de hoje que Luiz Abi é conhecido como um dos homens fortes de Beto Richa. O governador alega que Antoun é um parente distante, mas sua atuação vem de longa data, desde quando o agora preso foi assessor parlamentar de Richa, o que se repetiu na prefeitura de Curitiba.

Abi foi investigado na Operação Publicano, que apura esquema de corrupção e sonegação fiscal na receita do Paraná, sendo que a Justiça expediu 68 mandados de prisão. Auditores fiscais são suspeitos de cobrar propina de empresários para abater ou anular dívidas, sendo que parte do montante acabou ajudando na reeleição de Richa.

Há muito que o governo de Beto Richa vem sofrendo com acusações de corrupção. O primeiro grande escândalo surgiu no rastro das denúncias feitas por uma empresária do setor de transporte de veículos, que disse ter pago propina a integrantes do governo para conseguir um contrato com a montadora Renault, localizada em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba.

Luiz Abi, que já ameaçou processar o editor do UCHO.INFO por causa de matéria sobre os radares da capital paranaense, quando Richa era prefeito, também foi investigado na Operação Voldemort, que apura fraude em licitação para manutenção de veículos oficiais do governo estadual.

Desde as primeiras denúncias de corrupção, o governador tem negado qualquer envolvimento no caso, mas o tucano tinha conhecimento do que acontecia na estrutura do governo.

O editor do site conversou com alguns empresários que aceitaram pagar propina para conseguir negócios no Paraná, sendo que alguns, arrependidos, pensam em revelar detalhes do esquema. Um dos nossos interlocutores esmiuçou como funcionava a cobrança e o pagamento da propina exigida por pessoa próxima ao governador.

De acordo com o nosso entrevistado, os acertos normalmente ocorriam em determinada secretária do governo, sempre com um servidor graduado e de confiança de Beto Richa. Não se pode afirmar que o governador sabia do esquema criminoso, mas qualquer governante sério desconfiaria da meteórica evolução patrimonial de alguns assessores.

Um desses estafetas marginais criou uma forma dantesca de receber o dinheiro sujo da corrupção, sem que, em tese, fosse descoberto. Os acertos ocorriam em seu gabinete, no último andar do prédio onde funciona a secretaria, mas o dinheiro era colocado em um envelope, sempre deixado em local previamente combinado em banheiro do edifício. O servidor despedia-se do corruptor passivo e na sequência saía em busca do envelope.

Um dos nossos entrevistados disse que está avaliando com advogados a possibilidade de revelar o modus operandi à Justiça. Se isso acontecer, não apenas o governador Richa ficará em péssima situação, mas alguns políticos que até recentemente eram considerados ilibados. O editor sabe quem são esses marginais e espera a delação para revelar os nomes.

Comenta-se nos bastidores da política paranaense que um dos envolvidos, que vivia esmolando quireras para sobreviver, tem nos dias atuais patrimônio próximo de R$ 5 milhões, milagre que só foi possível depois de sua nomeação para dois cargos de confiança na estrutura do governo. Em uma das situações, o amigo de Richa assumiu uma secretaria de Estado.

Cicero Cattani
No Blog do Mario
Leia Mais ►

A fé, a razão e outras crenças

Sou filho de mãe judia e pai católico. Cresci indo a sinagogas e igrejas. Aos 15 anos, fiz um intercâmbio no exterior e vivi com uma adorável família presbiteriana. Ao fazer meu mestrado na Universidade Yale, nos Estados Unidos, meu vizinho de porta e amigo era muçulmano, da Arábia Saudita.

Desde cedo aprendi a conviver com a diversidade e a apreciá-la. Ao longo do tempo, reforcei a minha convicção de que as pessoas são essencialmente iguais. Não consigo imaginar nada mais triste para o espírito do que uma pessoa se achar melhor do que a outra, seja por sua crença, cor, sexo, origem ou por qualquer outro motivo.

No Supremo Tribunal Federal, sou relator de uma ação direta de inconstitucionalidade na qual se discute o papel do ensino da religião nas escolas públicas. Há basicamente duas posições em debate.

De um lado, há os que defendem que o ensino religioso possa ser ligado a uma religião específica, sendo ministrado, por exemplo, por um padre, um pastor ou um rabino. É o que se chama de ensino religioso confessional.

De outro, há os que sustentam que o Estado é laico e que o ensino de religião tem de ser de caráter histórico e plural, com a apresentação de todas as principais doutrinas. Isto é: não pode ser ligado a um credo específico.

São diferentes formas de ver o papel da educação religiosa. Ao Supremo Tribunal Federal caberá determinar qual dessas duas posições realiza mais adequadamente a vontade constitucional.

A Constituição não tem uma norma expressa a respeito, mas prevê a existência de ensino religioso facultativo, assim como prevê que o Estado é laico e que não deve apoiar ou embaraçar qualquer culto.

Convoquei para esta segunda-feira (15/6), no Supremo, uma audiência pública para debater o tema e convidei representantes de todas as principais religiões no país. Com essa iniciativa, busco promover um debate aberto e plural, no qual pretendo colher a opinião de todos.

Também se inscreveram pensadores religiosos, leigos e ateus, que igualmente serão ouvidos. Em seguida, farei um relatório com as principais posições e apresentarei meu voto em Plenário.

Há três grandes valores em questão. O primeiro é a liberdade de religião, a possibilidade legítima de se professar uma crença e pretender conquistar adeptos para ela.

O segundo é o dever de neutralidade do Estado, que deve se abster de promover qualquer religião, bem como de dificultar o seu exercício.

O terceiro valor envolve o papel da religião na educação e no espaço público, no âmbito de um Estado democrático e de uma sociedade multicultural.

A vida civilizada aspira ao bem, ao correto e ao justo. Há os que buscam esse caminho em princípios religiosos. Há os que o procuram na filosofia moral. Muitas pessoas combinam ambas, a verdade revelada e a ética. E há muitos que professam um humanismo agnóstico ou ateu.

A verdade não tem dono, e o papel do Estado é assegurar que cada um possa viver a sua convicção, sem a exclusão do outro. O caminho do meio, feito do respeito ao próximo e da tolerância.

Como ensinam o Velho Testamento, os evangelhos, o budismo, Aristóteles, Immanuel Kant e todos aqueles que viveram para um mundo melhor e maior.

Luís Roberto Barroso
No fAlha
Leia Mais ►

Ódio 'cristão'

Um amigo chegado à galhofa sempre repete: não dá para esperar muito de pessoas que seguem uma religião cujo principal símbolo é um instrumento de tortura.

Sim, a cruz é um instrumento de tortura, utilizada a torto e direito pelos romanos, mas que permitiu que o martírio de Jesus se transformasse, para todos os que creem no Cristo, em exemplo de abnegação, humildade, perdão.

Exatamente tudo o que não se vê no comportamento dos ditos seguidores do Senhor, que não têm poupado palavras e ações para manifestar seu ódio a quem não pensa exatamente igual a eles. Do ponto de vista cristão, isso totalmente é anticristão, mas...

Sob a alegação de que defendem valores religiosos (no caso, a cruz e sua simbologia), agridem, ofendem, injuriam. Para impor suas vontades hegemônicas de "eu estou certo e o resto é coisa do diabo", ameaçam, tumultuam, censuram e caluniam.

Talvez nunca tantos tenham falado tanta besteira com tanta repercussão, e, nesse rol de obscurantismo, os ditos cristãos que não passam de fanáticos destacam-se com estratégia e ação política.

Seria patético se não fosse perigoso, já que estão em todo canto — mídia, Congresso, governos — e com muito poder nas mãos. Seria muita paranoia achar que não está longe o dia em que um deles chegará à presidência do Brasil, e daí sim estaríamos todos relegados a trevas de fazer inveja ao Estado Islâmico? Creio que não.

Mas, se temos a tecnologia a amplificar o discurso do ódio, não podemos abdicar deste mesmo predicado, ou seja, a capacidade de ampliar e disseminar ideias que as mídias sociais nos fornecem, para argumentar, ponderar, resistir, boicotando-os ou combatendo-os.

Antes que seja tarde demais.

Luiz Caversan
No Esquerda Caviar
Leia Mais ►

Uma comparação entre Joaquim Barbosa e os juízes escandinavos

Relação promíscua com a mídia: JB premiado pela Globo
Poucas semanas atrás, Joaquim Barbosa postou no Twitter que os juízes têm que ganhar um salário muito alto para não se exporem às tentações.

De novo: não basta o salário ser alto. Tem que ser muito alto.

Mesmo ali, entre seguidores obtusos que enxergam nele um Batman, a reação foi imediata e negativa.

JB colocou o dinheiro na frente do caráter.

Lembrei disso quando li a reportagem de Claudia Wallin, no DCM, sobre os privilégios que os juízes se autoconcedem no Brasil.

É uma festa indecente e contínua, contra a qual não existe panelaço e nem fiscalização decente da mídia.

O que mais me chamou a atenção, no texto de Claudia, foi a reação escandalizada de juízes suecos à farra de seus colegas nacionais.

Ela vive em Estocolmo, e conversou com magistrados locais.

Os juízes suecos são discretos, e evitam palpitar em coisas de outros países.

Mas não resistiram ao ouvir o relato das mordomias.

Goran Lambertz, da Suprema Corte, disse o seguinte. “É absolutamente inacreditável que juízes tenham o descaramento e a audácia de serem tão egocêntricos e tão egoístas a ponto de buscar benefícios como auxílio-alimentação e auxílio escola para seus filhos. Nunca ouvi falar de nenhum outro país onde juízes tenham feito uso de sua posição a este nível para beneficiar a si próprios e enriquecer.”

Não preciso descrever minha satisfação ao ver o texto de Claudia viralizar. Desde ontem, quando foi publicado, é o mais lido do DCM. Você pode lê-lo aqui.

Neste momento, tem 21 mil curtidas no Facebook e 545 retuítes.

(Claudia está escalada para fazer uma série de artigos na mesma linha sobre a realidade na Escandinávia. Estamos nos momentos finais da arrecadação de recursos que permitam a empreitada. O site para contribuições é este.)

Outros sites republicaram o artigo, um fato cotidiano do DCM, e o espalharam ainda mais.

A fala de Lambertz, para minha surpresa, foi transformada em meme, e está circulando nas redes sociais.

Sugeri a Claudia que a enviasse ao juiz.

O meme
O meme
E de Lambertz vamos para Joaquim Barbosa. Compare as mensagens dos dois. E as práticas.

Nem bem se tornara presidente do Supremo Joaquim Barbosa encomendou uma reforma de 90 mil reais nos banheiros do seu apartamento funcional.

Na presidência, torrou dinheiro público em coisas como levar jornalistas num avião da FAB para a Costa Rica para cobrirem uma palestra de imensa desimportância que ele daria.

Os juízes suecos não têm mamata nenhuma. Pagam suas próprias casas e seus pratos de comida, como todo mundo. Abastecem seus carros particulares com seu dinheiro. Recebem seus salários e ponto.

Numa capa tragicômica, a Veja disse que Joaquim Barbosa mudou o Brasil.

Ora, ele não mudou sequer a si próprio, e nem à Justiça brasileira.

Quando JB falou qualquer coisa que pudessem resultar na moralização da Justiça?

Ao tocar em remuneração, ele se sai com aquele disparate. Os salários têm que ser muito altos.

Sonhar não custa nada.

Importamos médicos cubanos. Bem que podíamos importar também juízes escandinavos.

Paulo Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Fernando Haddad confuso


Leia Mais ►

O tamanho do ódio

Pesquisa recente do Vox Populi aponta: o eleitorado que diz detestar o PT representa 12% do total. Não é pouco, mas menos do que muitos imaginam

O ex-presidente Lula e a presidenta Dilma Rousseff
durante o 5º Congresso Nacional do PT
Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Nestes tempos em que a intolerância, o preconceito e o ódio se tornaram parte de nosso cotidiano político, é fácil se assustar. É mesmo tão grande quanto parece a onda autoritária em formação?

Quem se expõe aos meios de comunicação corre o risco de nada entender, pois só toma contato com o que pensa um lado. Será majoritária a parcela da opinião pública que se regozija ao ouvir os líderes conservadores e assistir aos comentaristas da televisão despejar seu ódio?

Recente pesquisa do Instituto Vox Populi permite responder a algumas dessas perguntas. E seus resultados ensejam otimismo: o ódio na política atinge um segmento menor do que se poderia imaginar. O Diabo talvez não seja tão feio como se pinta.

Em vez de perguntar a respeito de simpatias ou antipatias partidárias, na pesquisa foi pedido aos entrevistados que dissessem se “detestavam o PT”, “não gostavam do PT, mas sem detestá-lo”, “eram indiferentes ao partido”, “gostavam do PT, sem se sentir petistas” ou “sentiam-se petistas”.

Os resultados indicam: permanecem fundamentalmente inalteradas as proporções de “petistas” (em graus diversos), “antipetistas” (mais ou menos hostis ao partido) e “indiferentes” (os que não são uma coisa ou outra), cada qual com cerca de um terço do eleitorado. Vinte e cinco anos depois de o PT firmar-se nacionalmente e apesar de tudo o que aconteceu de lá para cá, pouca coisa mudou nesse aspecto.

Nessa análise, interessam-nos aqueles que “detestam o PT”. São 12% do total dos entrevistados. Esse contingente tem, claro, tamanho significativo. A existência de cerca de 10% do eleitorado que diz “detestar” um partido político não é pouco, mas é um número bem menor do que seria esperado se levarmos em conta a intensidade e a duração da campanha contra a legenda.

A contraparte dos 12% a detestar o PT são os quase 90% que não o detestam. Passada quase uma década de “denúncias” (o “mensalão” como pontapé inicial) e após três anos de bombardeio antipetista ininterrupto (do “julgamento do mensalão” a este momento), a vasta maioria da população não parece haver sido contagiada pelo ódio ao partido.

A pesquisa não perguntou há quanto tempo quem detesta o PT se sente assim. Mas é razoável supor que muitos são antipetistas de carteirinha. A proporção de entrevistados com aversão ao partido é maior entre indivíduos mais velhos, outro sinal de que é modesto o impacto na sociedade da militância antipetista da mídia.

Como seria de esperar, o ódio ao PT não se distribui de maneira homogênea. Em termos regionais, atinge o ápice no Sul (onde alcança 17%) e o mínimo no Nordeste (onde é de 8%). É maior nas capitais (no patamar de 17%) que no interior (4% em áreas rurais). É ligeiramente mais comum entre homens (14%) que mulheres (10%). Detestam a legenda 20% dos entrevistados com renda familiar maior que cinco salários mínimos, quase três vezes mais que entre quem ganha até dois salários. É a diferença mais dilatada apontada pela pesquisa, o que sugere que esse ódio tem um real componente de classe.

Na pesquisa, o recorte mais antipetista é formado pelo eleitorado de renda elevada das capitais do Sudeste. E o que menos odeia o PT é o dos eleitores de renda baixa de municípios menores do Nordeste. No primeiro, 21% dos entrevistados, em média, detestam o PT. No segundo, a proporção cai para 6%.

Não vamos de 0 a 100% em nenhuma parte. A sociologia, portanto, não explica tudo: não há lugares onde todos detestam o PT ou lugares onde todos são petistas, por mais determinantes que possam ser as condições socioeconômicas. Há um significativo componente propriamente político na explicação desses fenômenos.

O principal: mesmo no ambiente mais propício, o ódio ao PT é minoritário e contamina apenas um quinto da população. Daí se extraem duas consequências. Erra a oposição ao fincar sua bandeira na minoria visceralmente antipetista. Querer representá-la pode até ser legítimo, mas é burro, se o projeto for vencer eleições majoritárias.

Erra o petismo ao se amedrontar e supor ter de enfrentar a imaginária maioria do antipetismo radical. Só um desinformado ignora os problemas atuais da legenda. Mas superestimá-los é um equívoco igualmente grave.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
Leia Mais ►

Entrevista com Celso Amorim


Leia Mais ►

Os podres

A conversa entre os dois casais estava boa, até que a Márcia resolveu criticar o marido.

— Sabem que o Alaor não joga papel fora?

— Marcinha... – tentou protestar o Alaor.

Mas Márcia continuou:

— Não joga nem deixa eu jogar. Há anos que ele acumula papéis. Revistas, recortes de jornal...

— Marcinha, precisa falar nisso agora?

— Precisa, Alaor. Precisa porque eu não sei mais o que fazer com tanto papel dentro de casa. Desculpe, mas eu não aguentou mais.

O desabafo de Márcia criou um constrangimento no outro casal. Mas Márcia não parou.

— Vocês sabem que ele encheu um armário inteiro com revistas velhas? Aí eu não aguentei. Botei todas fora.

— É. Minha coleção da Placar. Desde o primeiro número. Você jogou no lixo!

— Precisava do armário para guardar roupa. Armário é pra isso.

— A coleção inteira!

— Sabem esses volantes que distribuem na rua? Ele pega todos. A casa está cheia de volantes. De telepizzas, de detetives, de tudo. Até de cartomante. Vocês acreditam? Cartomante!

Agora o Alaor estava brabo:

— Já que estamos botando os podres pra fora, o que você me diz das suas calcinhas?

— O que que tem as minhas calcinhas?

— As suas calcinhas penduradas no banheiro. Há anos que eu pergunto por que tem calcinhas penduradas no banheiro e você não dá bola. Explique, agora. Na frente de testemunhas. Por que nosso banheiro tem calcinhas penduradas por tudo que é lado?

— Que ridículo, Alaor.

— Há anos eu peço uma explicação, que não vem. Anos!

Quando Márcia e Alaor saíram, o outro casal ficou comentando aquela explosão intempestiva de ressentimentos domésticos. Como era que um casal chegava àquele ponto?

— Se bem – disse a mulher — que a Márcia tem um pouco de razão. Você também tem mania de colecionar papel...

— Peralá. Eu só guardo suplemento literário para ler depois.

— E nunca lê. Mas francamente, guardar volante de cartomante é demais.

Mais tarde, na cama:

— Bem...

— Mmm?

— Por que mesmo suas calcinhas ficam pendurada no banheiro?

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

O dia em que a Folha voltou a ser a Folha


Com dez anos de atraso, a Folha retomou — não se sabe se definitiva ou pontualmente — a saga que a levou a ser, nos anos 70, um refrigério dentro das limitações impostas pela ditadura e, nos anos 80 e 90, um jornal amado.

O jornal não se fez simplesmente aderindo às diretas. Durante os anos 80 e 90, passou a representar a jovem geração moderna, com seus hábitos arejados, novos padrões culturais, que vinham à tona com a gradativa descompressão da sociedade civil e com a modernização de hábitos e costumes.

Representava novos costumes, nova tolerância, a defesa contra toda espécie de corporativismo, a temática cultural nova.

Mesmo a porraloquice era perdoada, as matérias construídas como produto, imitando uma Veja que ainda não se metera no esgoto do jornalismo. Com todas suas deficiências, foi o jornal que melhor expressou o grande pacto civilizatório representado pela Constituição de 1988.

Os leitores sabiam que esbirros autoritários de quem fosse,  demonstrações de poder de tiranetes, abusos contra a consciência cívica em algum momento provocariam uma reação da Folha, através de editoriais, reportagens ou de colunistas que gozavam de relativa margem de liberdade.

Era o único jornal de quem se poderia esperar investir contra a manada, embora, muitas vezes, conduzisse seus shows de linchamento.

As pesquisas internas mostravam um perfil de leitor essencialmente social-democrata, com uma maioria tucana, um tucanato liberal, com o perfil de Covas e Montoro; um bom percentual petista, e uma faixa conservadora-civilizada, sem enveredar pelo bolor do conservadorismo anacrônico de outros veículos.

Há dez anos, ainda líder do mercado de opinião no país, o jornal jamais poderia ter se colocado a reboque do jornalismo mais execrável já produzido em tempos modernos, o esgoto que Roberto Civita plantou na Abril e jorra intermitente da Veja.

Dia a dia, todos os grandes momentos da Folha foram sendo engolfados por essa incorporação do espírito Veja.  A coragem de defender as eleições diretas, o dia em que se insurgiu com as jogadas da Veja com Golbery,  o editorial destemido com que encarou Fernando Collor, no auge de seu poder, os grandes gestos passaram a ser encobertos por loas à ditabranda, o fim da diversidade que marcou a melhor fase do jornal e a celebração diuturna do preconceito e do ódio.

Cega, sem saber como se colocar na transição mais complicada já enfrentada por grupos de mídia, nos últimos anos a Folha cometeu vários ilícitos jornalísticos.

Abraçou o obscurantismo, investiu em reportagens escandalosamente armadas, copiando em segunda mão o estilo vergonhoso da Veja. Junto com os demais grupos de mídia, abriu espaço para que a oposição ganhasse a cara macilenta de um José Serra, Aloyzio Nunes, Carlos Sampaio, Demóstenes Torres.

Chegou a abrir espaço para que um colunista de fora do jornal ocupasse a nobre página de Opinião para tratar como quadrilheiros repórteres que ousaram criticar o discurso obscurantista de Demóstenes no Supremo, contrário às cotas — do qual o próprio colunista havia sido o ghost writer.

Há algum tempo a cobertura do jornal vem mostrando respiros civilizatórios perceptíveis.

Mantem o velho vício do esquentamento de manchetes, muitas vezes indo contra o espírito da reportagem. Exercita idiossincrasias que ficariam melhor no Estadão.

Mas o editorial de hoje — contra os abusos dos presidentes da Câmara e do Senado —, é um marco, tão fundamental quanto o editorial que segurou os esbirros autoritários de Fernando Collor.

Rompe-se a blindagem inexplicável da mídia que, em nome do combate político, aceitou incensar os piores políticos da República, portadores dos mais anacrônicos princípios morais e do mais deslavado negocismo. E, na alma da Folha, a imagem do velho Frias se sobrepõe, finalmente, à de Roberto Civita.

A grande próxima batalha se dará em torno da recondução de Rodrigo Janot ao cargo de Procurador Geral da República. Com todas as críticas que se possa fazer ao seu estilo, sua eventual derrota para um Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Fernando Collor será uma derrota das instituições para o coronelismo mais desbragado.
EDITORIAL

Submissão


Num futuro não muito distante, a aliança entre grupos políticos moderados e fundamentalistas religiosos obtém expressiva vitória eleitoral. Logo se estabelece, num país de tradições laicas e liberais, o predomínio da repressão, do obscurantismo e do preconceito.


Em "Submissão", polêmico livro de Michel Houellebecq recém-traduzido no Brasil, imagina-se o domínio de certa "Fraternidade Muçulmana" sobre o Estado francês.


O Brasil por certo não é a França retratada nesse romance, e se o fanatismo de alguns grupos traz perigo à sociedade ocidental, não há sinais de sua atividade em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Brasília.


Um espírito crescente de fundamentalismo se manifesta, contudo, em setores da sociedade brasileira — e, como nunca, o Congresso Nacional parece empenhado em refleti-lo, intensificá-lo e instrumentalizá-lo com fins demagógicos e de promoção pessoal.


O ativismo legislativo que se iniciou com a gestão de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Câmara dos Deputados, e que Renan Calheiros (PMDB-AL) não deixou de seguir no Senado, possui o aspecto louvável de recuperar para o Parlamento um padrão de atuação e de debate por muito tempo sufocado.


Essa aparência de progresso institucional se acompanha, porém, dos mais visíveis sintomas de reacionarismo político, prepotência pessoal e intimidação ideológica.


Tornou-se rotineiro, nos debates do Congresso, que este ou aquele parlamentar invoque razões bíblicas para decisões que cumpre tratar com racionalidade e informação.


Condena-se a união homoafetiva, por exemplo, em nome de preceitos religiosos e de textos — não importa se a Bíblia ou o Corão — que podem muito bem ser obedecidos na esfera privada, mas pouco têm a contribuir para a coexistência entre indivíduos numa sociedade civilizada e plural.


Muitas religiões pregam a submissão da mulher ao homem, abominam o divórcio, estabelecem proibições a determinado tipo de alimento, condenam o consumo do álcool, reprovam o onanismo, legislam sobre o vestuário ou o corte de cabelo.


Nem por isso se pretende, nas sociedades ocidentais, adaptar o Código Penal a esse tipo de prescrições, dos quais muitos exemplos podem ser encontrados no texto bíblico. Sobretudo, não é função do Estado legislar sobre a vida privada.


Ainda assim, num evidente aceno a parcelas crescentes do eleitorado, uma verbiagem religiosa toma conta do Congresso.


Nos tempos de Eduardo Cunha, mais do que nunca a bancada evangélica se associa à bancada da bala para impor um modelo de sociedade mais repressivo, mais intolerante, mais preconceituoso do que tem sido a tradição constitucional brasileira.


O conservadorismo sem dúvida é forte no Brasil; a pena de morte, a redução da maioridade penal, a rejeição ao aborto e à liberação das drogas têm apoio em larga parcela da população — e diante de tais assuntos, naturalmente, cada pessoa tem o direito de se posicionar como lhe parecer melhor.


Mas nossa sociedade também é, felizmente, mais complexa do que pretendem os mais conservadores.


A tradição do sincretismo religioso, da liberalidade sexual, do bom humor, da convivência com pessoas vindas de todos os países e das mais diversas culturas, a prática do respeito, da cortesia e do perdão constituem elementos tão cultivados na identidade brasileira quanto o que possa haver — e indiscutivelmente há — de autoritário e violento em nosso cotidiano.


O debate entre essas forças contraditórias é constante e, a rigor, interminável. Não combina com o açodamento das decisões que, em campos diversos, têm sido tomadas na Câmara dos Deputados.


Seria equivocado criticar seu presidente por ter finalmente posto em votação algo que se arrastava há anos nos labirintos da Casa, como a reforma política. É inegável, entretanto, que Eduardo Cunha atropelou as próprias instâncias institucionais ao impor ideias como a do distritão na pauta de votações.


A toque de caixa, questões intrincadas como a do financiamento às campanhas eleitorais sofreram apreciações seguidas, e nada comprova mais a precipitação do processo do que o fato de que, em cerca de 24 horas, inverteram-se os resultados do plenário.


Uma espécie de furor sacrossanto, para o qual contribui em grande medida o interesse fisiológico de pressionar o Executivo, alastra-se para o Senado. No susto, acaba-se com a reeleição e se altera a duração dos mandatos políticos. O cidadão assiste a tudo sem sentir que foi consultado.


No meio dessa febre decisória, há espaço para que o Legislativo comece a transformar-se numa espécie de picadeiro pseudorreligioso, onde se encenam orações e onde se reprime, com gás pimenta, quem protesta contra leis penais duras e sabidamente ineficazes.


Setores políticos moderados se veem quase compelidos a conciliar-se com a virulência ideológica dos que consideram a defesa dos direitos humanos uma complacência diante do crime; dos que consideram a defesa do Estado laico uma agressão contra a fé; dos que consideram a racionalidade ocidental uma forma de subversão, e as conquistas do iluminismo uma espécie de conspiração diabólica.


Os inquisidores da irmandade evangélica, os demagogos da bala e da tortura avançam sobre a ordem democrática e sobre a cultura liberal do Estado; que, diante deles, não prevaleça a submissão.
Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►

Eduardo Cunha, presidente do Estado Evangélico do Brasil

Ele
Eduardo Cunha aparelhou e domesticou o legislativo com seu time de evangélicos. No vácuo de poder deixado por uma presidente enfraquecida, ele é, efetivamente, quem pauta a agenda política.

O estilo cesarista casa perfeitamente com o medievalismo de seus aliados pentecostais. Aos poucos, diante de pouca ou nenhuma resistência, eles foram entrando como ratos em cada cômodo da casa.

Cunha anunciou que acha normal manifestações religiosas na Câmara, como a que aconteceu na semana passada quando deputados rezaram o Pai Nosso e berraram “Viva Jesus” num protesto contra a Parada Gay. Absolutamente à vontade, os pseudo ultrajados passearam pelas tribunas, subiram na mesa, fizeram o diabo.

Foi tudo planejado na véspera com Cunha, embora ele afetasse surpresa quando lhe foi cobrada a afronta à laicidade. “Não posso impedir a manifestação do parlamentar, não posso calar a boca de parlamentar, como não impedi de bater panela”, disse.

A ocasião faz o ladrão e Cunha aproveitou para dar caráter de urgência a um projeto de lei que criminaliza a “cristofobia”. Não foi, evidentemente, a primeira demanda evangélica a que ele dá sustentação e prioridade total.

Anunciou que aborto não vai pautar nem que a vaca tussa, mas reenviou o projeto de proibição de adoção de crianças por casais homossexuais. Ressuscitou a palhaçada do Dia do Orgulho Hétero.

Nomeou para a Diretoria de Recursos Humanos uma certa Maria Madalena da Silva Carneiro, evangélica, advogada e teóloga (pobres teólogos, deus os livre e guarde). Maria Madalena cuidará de 80% do orçamento da Câmara (4,189 bilhões de reais).

Ela não passou por concurso público. Uma semana antes da indicação, Cunha conseguiu a aprovação do plenário de um projeto que lhe deu o poder de escolher o secretário de comunicação social. Chamou o deputado Cleber Verde, da bancada da Bíblia, cujo Partido Republicano Brasileiro é ligado à Igreja Universal.

Incorporou no pacote fiscal uma isenção tributária às igrejas que, se aprovada, pode resultar na anulação de impostos de igrejas que remontam a mais de 300 milhões de reais. Falta a sanção de Dilma.

Algumas das atitudes de Cunha são mais abertas que outras. Na surdina, por exemplo, loteou o nome de Jesus Cristo na internet. Todas as variações de JC com o termo “facebook” são dele, como ”jesusfacebook.com.br”, “facebookjesus.com.br” e “facejesusbook.com.br”. São 212 nomes de site com cunho religioso, 154 deles mencionando “Jesus”.

Por trás de tanta preocupação com a moral e os bons costumes está a tentativa de não se chamuscar na Lava Jato. Na quinta feira passada, quando houve a convocação de Paulo Okamoto, do Instituto Lula, para depor, personagens que o comprometiam foram “poupados” e não foram chamados.

Nada vai parar Eduardo Cunha, o presidente do Estado Evangélico do Brasil. Nem Jesus. Pobre Brasil.

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Na Câmara, FNDC denuncia concentração do mercado de comunicação

A formação de cadeias de emissoras afiliadas e associadas, a propriedade cruzada e o controle das verbas publicitárias são mecanismos ilegais que reforçam a concentração no setor

A formação de cadeias e de redes conglomeradas a partir de emissoras afiliadas e associadas é hoje um dos principais mecanismos de concentração da propriedade dos meios de comunicação no Brasil. Apesar de proibidas pelo Decreto-Lei 236/67 (Art. 12), grandes redes de mídia vêm se beneficiando dessa prática para controlar o mercado da comunicação. O exemplo mais conhecido é das Organizações Globo, que apesar de ter apenas cinco emissoras registradas sob seu CNPJ, possui 117 emissoras afiliadas e controla 70% do mercado nacional.

A situação foi ressaltada pela secretária de Comunicação do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e coordenadora-geral do Coletivo Intervozes, a jornalista Bia Barbosa, na audiência pública que debateu limites à concentração econômica dos meios de comunicação pela Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados.  Realizada na manhã desta quinta (11/6), a reunião foi requerida pela deputada Luiza Erundina (PSB-SP) após o deputado Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), relator dos projetos de lei 4.026/04 e 6667/09, ter emitido parecer contrário à sua aprovação.

Como “cabeça” do sistema, Globo, Record, SBT e outras emissoras têm poder absoluto para decidir que programação deve ser transmitida simultaneamente por todas as afiliadas. “O poder das “cabeças” é tão grade que elas decidem, inclusive, a programação que suas afiliadas e associadas devem exibir durante a “janela” de programação local, que equivale a cerca de 15% da programação total”, observou Bia. “Apesar do Decreto-Lei 236/67 proibir a formação dessas cadeias, o Ministério das Comunicações (MiniCom), pelo que temos acompanhado, não tem atuado para cumpri-lo”, denunciou.

Bia citou dados levantados pela própria CCTCI, referentes ao ano de 2013, que já mostravam, naquela época, que a Rede Globo tinha 79 emissoras afiliadas, enquanto sua maior concorrente, a Record, tinha 25. “Nos últimos anos a situação só evoluiu. Isso mostra que mesmo defasada e limitada a legislação existente cumpriria um papel mínimo se fosse respeitada, mas não vem considerada nem para fins de renovação dessas outorgas nem para fins de atuação do Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica]. Então, se não enfrentarmos, no debate sobre regulação econômica dos meios de comunicação no Brasil, a questão de limites à formação de redes e cadeias associadas, a gente vai enxugar gelo”, ponderou.

Propriedade cruzada e limites à audiência

A concentração do mercado de comunicação também se dá por meio da propriedade cruzada e da falta de mecanismos que imponham limites à audiência de uma emissora, das quais trata o Projeto de Lei 6667/09, de autoria do deputado Ivan Valente (PSol-SP). Nos Estados Unidos, por exemplo, a regulação do setor trata dessas questões desde 1943. "Estamos pelo menos 70 anos atrasados", observou Bia. Alemanha, França e Reino Unido também contêm mecanismos que limitam tanto a audiência como impedem a propriedade cruzada.

A representante do FNDC afirmou que os grupos empresariais que controlam o mercado de mídia no Brasil não querem se submeter a nenhuma regra e, por isso, distorcem o significado da regulação. Ela ressaltou que não é preciso que uma empresa ou um grupo empresarial controle 100% de um setor econômico para que o monopólio seja caracterizado. “Nosso cenário é de uma única empresa controlando 70% do capital do setor. As principais concorrentes da Globo não obtêm sequer o equivalente a 10% do seu lucro. Isso é monopólio!”, reafirmou Bia.

Outro parâmetro de concentração é o controle que a Globo e suas emissoras detêm sobre a verba publicitária nacional. Em 2009, segundo Bia, a média de audiência dos veículos das Organizações Globo não chegava a 45%, mas ela já concentrava mais de 70% das verbas publicitárias do mercado. "Então, tanto do ponto de vista da formação de redes e da concentração da propriedade quanto do ponto de vista da captação de receita por meio de verbas publicitárias a gente tem um quadro de brutal concentração que, por sua vez, caracteriza monopólio".  

Propostas devem ser postas em votação

O FNDC defendeu, ainda, a aprovação dos projetos de lei 4.026/04 e 6667/09 pela CCTCI, apesar do parecer contrário do relator. A recolocação das propostas na pauta da comissão é uma prerrogativa do presidente, deputado Fábio Sousa (PSDB-GO), que não participou da audiência pública. Por telefone, a secretaria da CCTCI informou que pelo menos na pauta da próxima reunião não foi incluída a apreciação das propostas.

Nova lei geral

Bia Barbosa afirmou que o FNDC luta por uma nova lei geral que regule o setor de comunicação há mais de 20 anos e que é preciso que o Brasil atualize o Código Brasileiro de Telecomunicações (Lei 4.117/62). “Estamos ansiosos para que o MiniCom lance esse debate com a sociedade civil brasileira. Agora, não é porque esse debate não avançou que essa Casa não pode avançar fazendo a regulamentação dos artigos da Constituição Federal pertinentes ao tema. Os projetos em debate aqui regulamentam pelo menos um deles, que é o Art. 220, por isso fica nosso apelo para que sejam aprovados”.

A jornalista ressaltou que a sociedade civil quer fazer esse debate e tem propostas para isso. “Temos um projeto de lei de iniciativa popular desde 2013, para o qual diversas entidades vêm coletando assinaturas em todo o país. Nosso projeto também prevê o combate da concentração de propriedade por meio da limitação à formação de redes e à propriedade cruzada, mas é importante que o Ministério das Comunicações também entre nesse debate com um projeto de lei que possa ser debatido publicamente para que possamos avançar nesse tema”.

A audiência pública também teve a participação de Octávio Pieranti, do Ministério das Comunicações; Ana Carolina Lopes de Carvalho, assessora da presidência do Cade; e Murilo César Ramos, coordenador do Laboratório de Políticas de Comunicação (LapCom) da Universidade de Brasília (UnB). A reunião foi presidida pelo deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP).

No FNDC
Leia Mais ►

"Delação não é prova, é indício" diz Luiz Edson Fachin

Fachin conversou pela primeira vez com a imprensa local após ter a indicação para o STF aprovada.
Em sua primeira entrevista após a sabatina que aprovou a indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro ainda não empossado Luiz Edson Fachin afirmou que é preciso levar à sociedade o debate sobre o papel que o Judiciário deve exercer hoje e como deve se portar diante da inércia legislativa. “O juiz não pode tomar o lugar do legislador”, ressaltou.

Fachin recebeu jornalistas paranaenses para uma conversa na manhã desta sexta-feira (12), na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A assessoria do jurista advertiu que não se tratava de uma coletiva, pois a recomendação é que ele não conceda entrevistas até a posse, marcada para 16 de junho.

Fachin fez um breve pronunciamento e depois pediu que as câmeras fossem desligadas para que a conversa seguisse de maneira informal.

Apesar da solicitação da assessoria para que questões relativas ao STF não fossem abordadas, ele foi questionado sobre a atuação do Judiciário. O professor, como prefere ser chamado até a posse, falou apenas em tese. Disse que o protagonismo do Judiciário vem como efeito de um crescimento do acesso a direitos, que se intensificou desde a promulgação da Constituição.

Sobre a atuação do Judiciário em casos que envolvem investigação criminal, sem citar nenhum caso específico, Fachin disse que “delação não é prova, é indício” e apontou como um grande desafio manter os direitos de presunção de inocência dos acusados. “É preciso ir além da aparência para encontrar a essência”, explicou.

Em relação a questões políticas, disse que ingressa na Corte sem qualquer preocupação com quem quer que seja. “Minha alma está muito leve”, afirmou.

Sabatina

Fachin contou que a sabatina a que foi submetido no Senado durou bem mais de 12 horas. Começou, segundo ele, durante as visitas aos gabinetes dos senadores. Foram 81 gabinetes e 78 senadores visitados. Em muitos casos, o jurista tinha pouca oportunidade de falar sobre seu currículo. Houve situações em que foi recebido com perguntas bem diretas do tipo: “Qual a sua opinião sobre a redução da maioridade penal?”.

Um aprendizado, segundo ele. “Toda conclusão a que se chega sobre questões cruciais, requer diálogo. O consenso se constrói a partir do dissenso. É preciso ter espinha democrática.

Rotina

O novo ministro do STF contou que teve de rever a agenda, remarcando ou cancelando compromissos que caiam nas terças, quartas e quintas-feiras, dias em que há sessão no Supremo — ele pretende estar em todas. “Não posso incidir na crítica que fiz”, disse ele, que pretende ser discreto durante o período que estiver no cargo. “O juiz fala no processo”, afirmou.

Por fim, se disse honrado com a união do estado em torno da aprovação de sua indicação. “Temos que manter essa união acesa. O Paraná não pode se desmobilizar”, ressaltou. “Precisamos acabar com o mito de que os paranaenses não formam uma comunidade de interesses que se conectam”, acrescentou.

No Gazeta do Povo
Leia Mais ►

Estranho

A temporada teatral de 2014/2015 na Broadway foi a melhor de todos os tempos, com o público lotando teatros, principalmente para ver musicais, como nunca. A maior parte do público foi de turistas e, entre os turistas estrangeiros, a maior parte foi de ingleses e, em segundo lugar — sério, deu no “New York Times” —, brasileiros. As duas estatísticas intrigam. Quase todos os grandes sucessos da Broadway têm versões inglesas e ninguém precisa sair de Londres para vê-los. Em vez de terem que ir à Broadway, a Broadway vai até eles, geralmente em produções comparáveis, em qualidade, às americanas. Mas a Inglaterra é uma das potências econômicas do mundo, não surpreende que tantos ingleses cruzem o Atlântico só para poderem dizer que viram a versão original dos espetáculos. Mas que estranha potência é esse Brasil, devem se perguntar os produtores americanos ao contabilizar seus lucros, que pode mandar tantos dos seus cidadãos a Nova York para ver musicais, quando as notícias que se tem de lá são de privação econômica e panelaços contra o governo? Há uma discrepância aí, em algum lugar, devem pensar os produtores. Mas que continuem vindo os brasileiros e nos trazendo seus dólares, saiam de onde saírem.

O fato é que hoje não são só as estatísticas que representam pouco, há uma crise de representatividade generalizada. Não é por nada que partidos políticos se reestruturam em toda parte, para salvarem algum tipo de coerência da confusão. Um exemplo é o PT, com suas várias correntes em luta para definir uma identidade para o partido ou resgatar uma identidade perdida. Na França, o partido do Sarkozy, a UMP, até mudou de nome, agora é Republicains, enquanto os socialistas tentam salvar seu PS do desastre François Hollande com outras lideranças e outros rumos. E na Inglaterra os trabalhistas continuam tentando descobrir o que representam de diferente dos conservadores no poder, que, por sua vez, também não sabem mais exatamente o que são.

Brasileiros enchendo teatros em Nova York significariam que o Brasil vai muito bem. Mas isto se qualquer coisa significasse alguma coisa.

Esqueci

Devo estar com um escapamento de neurônios. Só isto explica eu ter lembrado vários times do passado que disputariam com o atual Barcelona o título de melhor da História e ter esquecido a seleção brasileira de 70, de Pelé, Gérson, Rivelino, Jairzinho e Tostão. Imperdoável.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

A verdade por trás do “deboche” de Lula sobre as demissões na imprensa

Não disse o que disseram que ele disse no Congresso do PT

Alguém posta no Twitter uma nota do Painel da Folha, e acabo lendo a coluna toda.

Eles sempre destacam uma frase, e foi ela, a deste domingo, que me chamou a atenção.

É de Cássio Cunha Lima, senador do PSDB. Trata-se de um caso raro: mesmo sendo do PSDB ele conseguiu ser cassado quando era governador da Paraíba.

Dado o regime de impunidade para tucanos que vigora no país, você pode imaginar as coisas que ele fez para ser chutado do poder.

Ele se elegeu senador em 2010, mas foi impugnado pela Lei da Ficha Limpa. Mas recebeu uma mãozinha do STF, que decidiu fazer valer a lei para apenas a partir das eleições municipais de 2012.

E então esse ínclito senhor conquistou sua vaga no Senado.

Para ganhar o destaque do Painel da Folha, ele fez o básico, uma tática infalível para os que querem os holofotes da mídia: atacou Lula.

Segundo ele, e a Folha consequentemente, Lula perdeu “completamente o pudor por comemorar a demissão de jornalistas”.

A mesma tese fora defendida já pelo blogueiro Josias de Souza em outra empresa de mídia da Folha, o UOL.

Josias usou apenas um verbo diferente: de acordo com ele, Lula “debochou” dos jornalistas demitidos.

Deboche ou comemoração, isso teria ocorrido no Congresso do PT em Salvador.

O único problema é o seguinte: Lula não comemorou as demissões e nem muito menos debochou dos demitidos.

O vídeo da fala deixa claro isso.

É um caso de brutal má fé, de distorção selvagem de palavras, de atribuição canalha de intenções.

Lula simplesmente registrou as demissões na mídia. Seu ponto era que as pessoas parecem ter se cansado de ouvir as mentiras da imprensa.

Mentiras, por exemplo, como estas do UOL e, pela boca do impoluto senador tucano, da Folha.

Como um estudioso da mídia, eu acrescentaria que Lula contou parte da história — a desonestidade da imprensa.

A outra parte é a Era Digital, que transformou em dinossauros as grandes corporações jornalísticas.

Mesmo que fossem imparciais, bem escritos, brilhantes, jornais e revistas não escapariam da agonia, uma vez que o consumo de notícias se consagrou na internet.

Muito melhor e maior do que similares brasileiros, a revista americana Time agoniza.

Os donos da Time — durante décadas uma referência mundial de jornalismo — tentam há anos encontrar comprador para a revista, inutilmente.

A grande rival da Time, Newsweek, outro símbolo para jornalistas da minha geração, simplesmente desapareceu.

A Veja, que nasceu como cópia da Time, agoniza como a revista que a inspirou. Com publicidade despencando, ela se agarra a uma última falácia: a da circulação de 1 milhão.

A Abril gasta uma fortuna para manter essa miragem. Milhares e milhares de ex-assinantes continuam a receber a revista sem pagar nada.

Antes, a conta — cada exemplar custa alguns reais — era paga pela publicidade. Agora que os anúncios se foram, a empresa tem que gastar dinheiro dela mesma para imprimir revistas distribuídas gratuitamente.

É mais que previsível que, em breve, a Abril faça um ajuste na circulação da Veja para trazê-la para a dura realidade — talvez, com sorte, metade do falso milhão.

Lula não colocou este contexto ao falar na crise da imprensa, mas ele não estava numa conferência de mídia.

E muito menos comemorou ou debochou: registrou um fato.

O problema maior não está nos jornalistas demitidos: a carreira jornalística acabará se reorganizando na internet.

O drama real está nas grandes empresas — para as quais o destino tende fortemente a ser o dos fabricantes de carruagens quando surgiram os carros.

Dado o mal que elas fazem à sociedade ao defender um modelo de privilégios e desigualdade, quem lamenta?

Paulo Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Um lado e a outra

O motivo do plural é obscuro. Claro e certo é que o sujeito "nós" refere-se, no mínimo, ao emitente da frase. No caso, Dilma Rousseff, que brindou o 5º Congresso do PT com esta criação sua: "Nós não mudamos de lado".

Quanto aos outros possíveis componentes do "nós", além de desconhecidos, tudo indica estarem na frase, se estão mesmo, à revelia. E indefesos. Mas Dilma é uma certeza, por evidências bastante simples.

As centenas de milhares, senão já os milhões, que estão perdendo os empregos, encarando forte aumento do custo de vida, aturdidos com a perda das pequenas conquistas em anos recentes, não podem estar no mesmo lado de quem os lança em sua situação atual.

Estiveram do mesmo lado, sim, quando Dilma representou nas eleições o oposto das políticas defendidas por seu adversário e hoje vigentes, apesar de derrotadas na urnas.

Se há autores e vítimas de tais políticas, um dos lados mudou. Mas a possibilidade de mudança daqueles milhares ou milhões de sacrificados pelas políticas de governo é limitada e já se deu: foi a mudança forçada do lado de dentro para o lado de fora da empresa empregadora.

Se os outros que defendem as políticas de atenuação do drama social brasileiro puderam votar em Dilma e veem, hoje, a imposição das políticas opostas, alguém mudou de lado. Os eleitores não teriam por que e como fazê-lo.

Joaquim Levy, a quem a eleita entregou a elaboração das políticas que negam as posições proclamadas pela candidata, não mudou de lado: era neoliberal fora do governo e age como neoliberal no governo de quem se dizia contrária ao neoliberalismo. Se estão juntos, um dos dois mudou.

Se Dilma Rousseff presidente fosse leal à Dilma candidata, não precisaria, hoje, recorrer a fugas verbais. Como esta outra: "Essa é a hora de ver quem é quem", pretensa intimidação moral à plateia petista em silêncio patético. Mas a hora a que se refere ficou lá atrás. Quando, sabendo muito bem que há maneiras e maneiras de corrigir os sempre possíveis percalços da economia, Dilma abdicou do que representava, e entregou o poder recebido aos que fizeram tudo para evitar que o recebesse.

Hediondos

Era esperado que os senadores se lembrassem de que todos são iguais perante a lei. Mas o Senado aprovou o projeto da Câmara, de autoria do peemedebista Leonardo Picciani e de Carlos Sampaio, do PSDB, que eleva a crime hediondo o assassinato de policiais, militares e carcereiros, estejam ou não em serviço. E agrava as penas também para quem atacar parentes de policiais até terceiro grau.

Os parentes dos demais brasileiros, e os próprios, têm vidas menos valiosas, podem ser apenas vítimas vulgares. Exceto, claro, a dinastia dos Picciani, felizes produtos da política fluminense, e do explosivo Carlos Sampaio. E Renan Calheiros, com a profundidade de percepção e ideias que se conhece, considerou o projeto uma das "ações profundas que a segurança pública pede".

Afora o seu período de teatro de sordidez da ditadura, jamais houve no Congresso tantas ações parlamentares hediondas.

Entre estas há de ficar também, para a história e para certas biografias, a redução da idade mínima de candidatos ao Senado e a governos estaduais. Aprovada como "reforma política", no país de mais de 200 milhões de habitantes, pelo interesse de um só, o milionário paraibano (des)conhecido como Wilson Filho.

O deputado Rodrigo Maia a incluiu no relatório, e os seguidores de Eduardo Cunha aprovaram a idade estapafúrdia de 29 anos.

Isso é que é maioridade penal. Devia submeter aqueles deputados ao Código Penal, com investigação e acompanhamento dos seus patrimônios.

Agora é ver como os senadores tratarão o interesse de Wilson Filho. Ou como o interesse de Wilson Filho os tratará.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

O jornalixo da fAlha de S.Paulo - Um jornal (?) a serviço dos tucanos


“Colegas,

A capa desse pasquim é em agradecimento aos milhões que receberam durante todos esses anos do Governo do Estado de São Paulo pelas assinaturas que chegam diariamente nas escolas e que contribuem para que parte dos professores não só votem no PSDB, mas que continuem fazendo de conta que ensinam! Se tem alguém derrotado é o povo paulista, as filhas e filhos dos trabalhadores que estudam na escola pública paulista!!

A luta continua, na sala de aula, onde cada um de nós tem por obrigação desmontar o discurso dessa Mídia canalha!”

Profª. Sandra Brandini
Leia Mais ►