13 de jun de 2015

jn 'esquece' de dizer que o prefeito é tucano

Antonio Carlos Pannunzio
PSDB
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DNA tucano do petista Delcídio Amaral fala mais alto sobre o pré-sal

O bom filho à casa torna. A volta do tucano pródigo
O deputado federal Fernando Marroni (PT-RS) denunciou em artigo publicado no Viomundo“DNA do entreguismo está no sangue dos tucanos”.

É sobre o pré-sal. Marroni trata de dois projetos — um do deputado federal Jutahy Júnior (PSDB/BA) e outro do senador José Serra (PSDB-SP) —, que propõem o fim da obrigação de a Petrobras participar com, no mínimo, 30% na exploração do pré-sal  e de atuar como operadora única no setor.

“Dos entreguistas tucanos é o que espera”, observa nos comentários o leitor Francisco de Assis.”E quando essa postura é de um energúmeno do PT, o senador Delcídio Amaral (PT-MS), líder do governo Dilma, quando deixa aflorar o seu passado tucano?”

Assis denuncia:

Foi o que aconteceu em plena sessão do Senado de quarta-feira, 10 de junho, denuncia Assis. Nosso leitor detalha:

Delcídio tomou o microfone para elogiar José Serra e se disse “pessoalmente” de acordo com a proposta do representante paulista dos interesses da Chevron & Cia, no sentido de retirar a participação obrigatória de 30% da Petrobras na exploração do pré-sal.

Numa tremenda canalhice, Delcidio Amaral faz isto enquanto a Chefe do Governo, do qual ele é líder, está no exterior, com o mesmíssimo argumento de Serra de ‘ajudar’ a Petrobras.

Não à toa, recebeu em seguida os elogios fervorosos de Serra.

Lembrando que a situação no Senado foi criada pelo energúmeno Renan Calheiros, que pôs em votação diretamente no PLENÁRIO a proposta de Serra, sem encaminhá-la às comissões.

Será que alguém no V Congresso do PT vai denunciar o senador Delcídio Amaral?

Um tucano enrustido? Um quinta coluna do PSDB dentro da bancada do PT?

No início da carreira como engenheiro, Delcídio foi diretor da Shell na Holanda. De 1999 a 2001, no governo Fernando Henrique Cardoso, por indicação do senador Jader Barbalho (PMDB-PA), ele ocupou o cargo de diretor de Energia e Gás da Petrobras . Foi bem na época em que os tucanos pretendiam transformar a Petrobras em PetroBrax.

O fato é que:

1) Delcídio Amaral foi filiado ao PSDB. Chegou a gabar-se de sua ficha de inscrição ter sido abonada pelo então todo poderoso Sérgio Mota, ex-ministro das Comunicações do FHC.

2) Ele foi filiado ao PSDB de 1998 a 2000/2001.

3) Em outubro de 2001, ele deixou a diretoria de Energia e Gás da Petrobras para assumir a Secretaria de Infraestrutura e Habitação no governo de Zeca do PT. E filiou-se ao PT.


A decisão teria sido tomada após reunião com o prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), no fim de semana. Pela estratégia traçada até o momento, Delcídio deverá ser candidato ao governo do Estado pelo PSDB em uma aliança com o PFL. A notícia sobre a mudança ainda não foi confirmada pelo senador que, segundo sua assessoria, deverá falar sobre a decisão até o fim desta semana.

5) Delcídio, no entanto, ficou no PT, onde está desde o final de 2001.

7) Curiosamente, é só o que consta da biografia. Delcídio omite da biografia que está no seu site, assim como na Wikipedia, o seu passado de  filiado ao PSDB.

De qualquer forma, esta repórter foi atrás do pronunciamento feito pelo senador Delcídio Amaral em 10 de junho. Ele confirma a denúncia do leitor Francisco de Assis. Reproduzo abaixo alguns trechos da nota taquigráfica (na íntegra, ao final) publicada no portal do Senado:

Com relação ao requerimento do Senador Serra, eu quero aqui dizer o seguinte: existem divergências no que diz respeito à Petrobras atuar como operadora exclusiva e ter 30%. Eu vou ser muito sincero, Presidente. Eu sou Líder do Governo, mas, como Senador da República e como engenheiro, eu vou confessar a V. Exª que esses 30% apareceram faltando uma semana, ou dez dias, para encaminhamento do projeto da partilha. Nem na Petrobras há consenso com relação ao operador exclusivo, e acho — mas esta é uma opinião pessoal como Senador, e não como Líder do Governo — fundamental a gente debater.

Pergunto a V. Exª, Sr. Presidente: quando a Petrobras está revisando o seu plano de negócios, quando o dinheiro está curto, quando a Petrobras está fazendo ajustes internos importantes, se vier um leilão, a Petrobras vai ter que entrar com 30% em todos os leilões? Será que nos blocos que vão ser leiloados, a Petrobras tem um interesse tão importante quanto outras petroleiras?

E, Sr. Presidente, quero aqui registrar: operador exclusivo de campo — eu sei que Senadores e Senadoras aqui conhecem bem isto, mas não custa lembrar — faz a exploração, ele detém a tecnologia, ele contrata a engenharia, ele faz o procurement de equipamentos, ele contrata os equipamentos, ele faz o construction — por isso que é EPC, ele faz a construção — e ele opera, produz, explora.

Eu pergunto a V. Exª: outras grandes petroleiras do mundo, Shell, Chevron, Exxon — e eu acho que o Brasil precisa ter parceiros aqui para fazer frente aos desafios do pré-sal —, V. Exª acha que empresas como essas vão querer entrar atuando como investidores passivos e deixando a operação exclusiva com a Petrobras?

Eu acho muito pouco provável isso, e quem sai prejudicado é o País, porque nós precisamos, mais do que nunca, de empresas que detêm tecnologia para nos ajudar na exploração e na produção do pré-sal.

“É um absurdo, uma afronta, que o senador líder do governo venha a público a defender em público a perda de soberania energética do Brasil”, condena João Antônio de Moraes, diretor de Relações Internacionais da Federação Única dos Petroleiros (FUP). “A retirada da Petrobras como operadora única desfigura o regime de partilha.”

“Mais importante que o mercado e o petróleo que temos é o conhecimento que, através da Petrobras, o Brasil detém”, prossegue Moraes. “Se a Petrobras não for a única operadora, nós estaremos abrindo mão desse conhecimento para petrolíferas estrangeiras e da soberania energética.”

Outra questão crucial em jogo é o conteúdo local, que as petroleiras estrangeiras não têm cumprido. Mesmo assim, os tucanos são contra a obrigatoriedade do conteúdo local.

“Não tem nenhum navio ou plataforma encomendados por empresas estrangeiras no Brasil”, denuncia Moraes. “Só tem da Petrobras. Isso só reforça a importância da Petrobras como exploradora única do pré-sal. Se deixar com as outras petroleiras, elas não vão encomendar aqui. E não cumprindo o conteúdo local, elas não vão desenvolver o Brasil.”

– No seu pronunciamento, o senador diz que ‘nós precisamos, mais do que nunca, de empresas que detêm tecnologia para nos ajudar na exploração e na produção do pré-sal’.

Moraes rebate: “Não tem empresa nenhuma no mundo em condições de produzir no pré-sal como a Petrobras. Isso é consenso mundial. As outras empresas querem entrar justamente para aprender com a Petrobras”.

Aqui, é sempre bom lembrar o caso da Argentina, para não seguirmos o mau exemplo.

A Argentina transferiu os ativos e o conhecimento detido pela sua petrolífera estatal, a  YPF, principalmente para a espanhola Repson, que fez exploração predatória das reservas do país. Hoje, o nosso vizinho é obrigado a importar petróleo e tem um problema energético muito grave por conta da abertura paras empresas estrangeiras.

“Essa fala do senador é mais uma afronta, pois não considera o problema que está sendo para o nosso vizinho a transferência do controle da produção para uma estrangeira”,  enfatiza Moraes. “Se quisermos o pré-sal como promotor do desenvolvimento nacional, o regime tem de ser o de partilha e a Petrobras como única empresa na exploração do petróleo.”

Ou seja, apesar de no PT, o DNA do senador Delcídio Amaral é tucano. Pior é que de vez em quando ele “aflora”, como observou o nosso leitor Francisco de Assis, e dá bicadas para regozijo da tucanada.

Foi o que fez na última quarta-feira, 10 de junho, no plenário do Senado, quando engrossou o coro de Serra e demais oposicionistas, embora seja líder do governo de Dilma.

“Candidamente”, Delcídio disse: “Esta é uma opinião pessoal como Senador, não como líder do governo”.

Primeiro: Com um líder de governo como ele, para que a presidenta Dilma precisa de oposição?

Segundo: “Como senador”, sim. Tucano e não petista.

Em abril deste ano, a revista de Joyce Pascowitch publicou uma nota dizendo que o senador Delcídio está “insatisfeito no PT” e que “teria tido conversas políticas recentes em São Paulo com Fernando Henrique Cardoso”.

Será que o pronunciamento no Senado sobre o pré-sal seria um sinal de que ele estaria regressando ao velho ninho?

A íntegra do pronunciamento

O SR. DELCÍDIO DO AMARAL (Bloco Apoio Governo/PT – MS. Sem revisão do orador.) – Eu queria só fazer um registro, Sr. Presidente [Renan Calheiros].

Em relação ao requerimento de minha autoria, que diz respeito ao sistema de contratação simplificado da Petrobras, eu entendo – e há um consenso com relação a essa questão – que nós precisamos aprimorá-lo.

Agora, é importante registrar, Presidente, que essa proposta surgiu ainda na época em que foi quebrado o monopólio do petróleo. Por quê? Porque a Petrobras, trabalhando num sistema competitivo com outras companhias de petróleo, teria que ter agilidade para contratar, até porque o mercado é competitivo e aberto.

Portanto, esse processo não nasceu agora. Esse processo vem lá de trás, inclusive na época em que fui diretor da Petrobras. Agora, se há distorções, problemas — e eu concordo com as ponderações que foram apresentadas —, é fundamental que a gente qualifique esse debate, porque, sendo uma questão de tamanha relevância para uma empresa do tamanho da Petrobras, nós não podemos ser simplistas nessas discussões.

Sr. Presidente, eu quero fazer aqui um registro muito tranquilo com relação a isso. Eu tenho uma preocupação com relação aos debates nas comissões permanentes e no plenário. Para mim, as comissões permanentes, Presidente, são de extrema relevância, porque elas trabalham os textos. Quando a matéria vem para o plenário, o texto tem começo, meio e fim. Não estou dizendo que isso está acontecendo no Senado, mas nós temos verificado alguns projetos que têm sido votados, inclusive na outra Casa, que, quando se vota em plenário, acaba-se votando um Frankenstein! As coisas não se juntam. Portanto, o papel das comissões permanentes é muito importante.

Por isso, respeitando até a iniciativa do Senador Ferraço e as críticas que ele fez — e não tenho dúvida de que nós podemos aperfeiçoar esse sistema —, nós precisamos usar as comissões do Senado para qualificar ainda mais os textos que vêm para o plenário da nossa Casa. É essa a intenção, Sr. Presidente. Eu não estou questionando a iniciativa do Senador Ferraço. Portanto, entendo e compreendo a importância desse tema, mas nós precisamos ter mais tempo para trabalhar, e não procrastinar uma decisão, que é mais do que relevante, em função dos acontecimentos que nós temos vivenciado.

Com relação ao requerimento do Senador Serra, eu quero aqui dizer o seguinte: existem divergências no que diz respeito à Petrobras atuar como operadora exclusiva e ter 30%. Eu vou ser muito sincero, Presidente. Eu sou Líder do Governo, mas, como Senador da República e como engenheiro, eu vou confessar a V. Exª que esses 30% apareceram faltando uma semana, ou dez dias, para encaminhamento do projeto da partilha. Nem na Petrobras há consenso com relação ao operador exclusivo, e acho — mas esta é uma opinião pessoal como Senador, e não como Líder do Governo — fundamental a gente debater.

Pergunto a V. Exª, Sr. Presidente: quando a Petrobras está revisando o seu plano de negócios, quando o dinheiro está curto, quando a Petrobras está fazendo ajustes internos importantes, se vier um leilão, a Petrobras vai ter que entrar com 30% em todos os leilões? Será que nos blocos que vão ser leiloados, a Petrobras tem um interesse tão importante quanto outras petroleiras?

E, Sr. Presidente, quero aqui registrar: operador exclusivo de campo — eu sei que Senadores e Senadoras aqui conhecem bem isto, mas não custa lembrar — faz a exploração, ele detém a tecnologia, ele contrata a engenharia, ele faz o procurement de equipamentos, ele contrata os equipamentos, ele faz o construction — por isso que é EPC, ele faz a construção — e ele opera, produz, explora.

Eu pergunto a V. Exª: outras grandes petroleiras do mundo, Shell, Chevron, Exxon — e eu acho que o Brasil precisa ter parceiros aqui para fazer frente aos desafios do pré-sal —, V. Exª acha que empresas como essas vão querer entrar atuando como investidores passivos e deixando a operação exclusiva com a Petrobras?

Eu acho muito pouco provável isso, e quem sai prejudicado é o País, porque nós precisamos, mais do que nunca, de empresas que detêm tecnologia para nos ajudar na exploração e na produção do pré-sal.

Sr. Presidente, acho que são temas relevantes, mas, como tentamos encaminhar o acordo, e não houve essa possibilidade, eu acho que nós temos que sobrestar essa votação, até pelas iniciativas das Senadoras e dos Senadores aqui, para que a gente busque, dos dois requerimentos, uma solução até a próxima semana.

Conceição Lemes
No Viomundo
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Ruim demais para ser verdade


Conversa entre Mercadante e Temer sobre nomeações ganhou uma dimensão política exagerada, sem base na realidade

Há motivos para se acreditar que o rumor de que Aloizio Mercadante andou conspirando para enfraquecer Michel Temer na Secretaria de Relações Institucionais seja ruim demais para ser verdade.

Os fatos, na medida em que pode-se empregar essa palavra sobre ocorrências num encontro fechado entre quatro ministros, profissionais calejados da política, lembram uma conversa administrativa que poderia ocorrer em qualquer lugar.

Em reunião ocorrida na segunda-feira retrasada, entre ministros dedicados disciplinadamente a negociar nomeações com a base aliada, descobriu-se um lote de nomeações paradas — 38 nos vários ministérios, 32 na Secretaria.

Conforme relato feito ao 247 por um dos ministros presentes, neste momento Aloizio virou-se para Eliseu Padilha, secretário de Aviação Civil, mas considerado um ás em conversas no Congresso, e perguntou:

— Por que você não assume isso por um tempo, até as pendências se resolverem?

Conforme o mesmo relato, Padilha respondeu que já estava colaborando com as nomeações. Mas deixou claro que sentia-se bem na Aviação Civil e que, se tivesse de escolher um lugar no ministério, gostaria de permanecer na SAC.

Se a conversa era totalmente inocente — embora sempre se possa achar que anjos não costumem aparecer em Brasília para participar de reuniões políticas — deixou de ser quando se transformou em notinha nos jornais.

No segundo encontro, em nova reunião, Aloizio falou de novo sobre os cargos vazios e perguntou pelas nomeações. A colocação foi interpretada como uma crítica a Michel Temer, coisa que o próprio Aloizio assegura a interlocutores que não fez nem faria, “pois eu sempre soube da importância essencial que vem cumprimento no governo.”

A questão, diz, “não envolve o papel político de coordenar as nomeações, que sempre será do Temer, mas tem natureza operacional: conversar, propor, resolver.”

A disputa por cada centímetro quadrado no comando do governo, combinada com o estilo de Aloizio, que determinados colegas consideram excessivamente competitivo, ajuda a explicar a dimensão — que todas as partes reconhecem exagerada — assumida pelo caso.

O esforço para ligar o episódio ao golpe mais recente da CPI da Petrobrás, quando 140 requerimentos foram aprovados numa votação em lista para prestarem depoimentos — inclusive Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula — é visto como fantasia excessiva tanto por um deputado do PT como por um assessor da mesa, ambos ouvidos pelo 247. Eles se dizem convencidos de que uma coisa nada teve a ver com a outra. “O que se queria era seguir o ataque ao PT, através de uma manobra mafiosa”, afirma um deles.

Paulo Moreira Leite
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Umberto Eco: “A Internet pode tomar o lugar do mau jornalismo”

Em novo romance, filólogo italiano mergulha no mundo da "máquina de lama" das notícias

Umberto Eco caminha diante da estante de livros em sua casa
Umberto Eco tem na entrada de sua casa em Milão, antes de sua montanha de livros, o jornal de seu povoado (Alessandria, no Piemonte), que recebe diariamente. Quando pedimos fotos de sua juventude foi a um computador, que é o centro borgiano de seu Aleph particular, seu escritório, e encontrou as fotos que o levam ao princípio de sua vida, quando era um bebê de fraldas. Faz tudo com eficiência e bom humor, e rapidamente; tem na boca, quase sempre, um charuto apagado com o qual, com certeza, foge do charuto. Tem uma inteligência direta, não foge de nada, nem dá voltas. Acostumado a escolher as palavras, as diz como se viessem de um exercício intelectual que tem seu reflexo nos corredores superlotados dessa casa que se parece com o paraíso dos livros.

Está com 83 anos; emagreceu, pois faz uma dieta que o afastou do uísque (com o qual almoçava algumas vezes) e de outros excessos, de forma que mostra a barriga achatada como uma glória conquistada em uma batalha sem sangue. É um dos grandes filólogos do mundo; desde muito jovem ganhou notoriedade como tal, mas um dia quis demonstrar que o movimento narrativo se demonstra andando e publicou, com um sucesso planetário, o romance O Nome da Rosa (1980), cujo mistério, cultura e ironia impressionaram o mundo.

Passeamos junto com o escritor. Física e metaforicamente. Percorremos juntos a imponente biblioteca de sua casa em Milão, onde também repousam alguns de seus livros de maior sucesso, como O Pêndulo de Foucault e Apocalípticos e Integrados. Nas mesmas prateleiras também está seu novo romance, Número Zero, uma ficção sobre jornalismo inspirada na realidade. Um olhar sobre a informação no século XXI e a Internet, campo de batalha das ideias, das notícias e das mentiras. Controlar a verdade do que aparece na rede é, para Eco, imprescindível. Uma tarefa à qual deveriam se dedicar os jornais tradicionais, para que esses continuem sendo, no futuro, garantidores da democracia, da liberdade e da pluralidade.

Com esse sucesso que teria envaidecido qualquer um, não parou de trabalhar, como filósofo e romancista, e desde então o professor Eco é também o romancista Eco; agora aparece (em vários países do mundo) com um novo romance que nasce do centro de seus próprios interesses como cidadão: ele se sente um jornalista cujo compromisso civil o levou durante décadas a fazer autocrítica do ofício; seu romance Número Zero (cujos direitos no Brasil foram comprados pela Record, que deve lançá-lo neste ano) retrata um editor que monta um jornal que não sairá às ruas, mas cuja existência serve ao magnata para intimidar e chantagear seus adversários. Pode se pensar legitimamente que nesse editor está a metáfora de Berlusconi, o grande magnata dos meios de comunicação na Itália?, perguntei a Eco. O professor disse: “Se quiser ver em Vimecarte um Berlusconi, vá em frente, mas há muitos Vimecarte na Itália”.

Alessandria, 1932. Nasceu no Piemonte, na Itália,
onde foi educado pelos salesianos. Em 1954 se
formou doutor em Filosofia e Letras
na Universidade de Turim, onde também foi
professor, além de lecionar nas Universidades de
Florença, Milão e Bologna. Beirando os 50 anos,
Umberto Eco obteve um de seus maiores sucessos
literários com seu romance O Nome da Rosa,
traduzido para vários idiomas e levado ao cinema.
Ao longo de sua trajetória, conquistou inúmeras
premiações, como o Prêmio Príncipe de Astúrias
de Comunicação e Humanidades no ano 2000.
Também é cavaleiro da Grande Cruz da Ordem ao
Mérito da República Italiana e cavaleiro da Legião
de Honra francesa.
Um romance sobre o jornalismo. Por quê?

Escrevo críticas do ofício desde os anos 1960, além de ter na carteira o registro de jornalista. Tive um bom debate polêmico com Piero Ottone sobre a diferença entre notícia e comentário. Escrever sobre certo tipo de jornalismo era uma ideia que me passava pela cabeça desde sempre. Há leitores que encontraram em Número Zero o eco de muitos artigos meus, cuja substância utilizei porque já se sabe que as pessoas esquecem amanhã o que leram hoje. De fato, alguns me elogiaram. Por exemplo, há quem aplaudiu o que escrevo sobre o desmentido na imprensa, e já escrevi o mesmo sobre isso há 15 anos! De forma que abordei o tema porque o carrego comigo. Até o princípio do livro é muito meu, porque esse episódio em que a água não sai da torneira era também o princípio de O Pêndulo de Foucault. Para aquele alguém me disse que não era uma boa metáfora, e tirei; mas, para Número Zero, gostei dessa ideia, a água que fica presa na torneira e não sai, e você espera que saia pelo menos uma gota. Gostei dessa ideia, fui ao porão, encontrei aquele primeiro manuscrito e voltei a usar. Tudo é assim: na discussão que há com Bragadoccio [um jornalista fundamental na trama de Número Zero] sobre qual carro comprar, o que escrevo é uma lista que fiz nos anos 1990 quando eu mesmo não sabia qual automóvel queria...

O romance está cheio de referências ao cinismo do editor que cria um jornal para extorquir...

Tinha em mente um personagem da história da Itália, Pecorelli, um senhor que fazia uma espécie de boletim de agência de notícias que jamais chegava às bancas. Mas suas notícias acabavam na mesa de um ministro, e se transformavam, em seguida, em chantagem. Até que um dia foi assassinado. Disseram que foi por ordem de Andreotti, ou de outros... Era um jornalista que fazia chantagens e não precisava chegar às bancas: bastava que ameaçasse difundir uma notícia que poderia ser grave para os interesses de outro... Ao escrever o livro pensava nesse jornalismo que sempre existiu, e que na Itália recebeu recentemente o nome de “máquina de lama”.

No que consiste?

Em que para deslegitimar o adversário não é necessário acusá-lo de matar sua avó ou de ser um pedófilo: é suficiente difundir uma suspeita sobre suas atitudes cotidianas. No romance aparece um magistrado (que existiu de verdade) sobre quem se lança suspeitas, mas não se desqualifica diretamente, se diz simplesmente que é extravagante, que usa meias coloridas... É um fato verdadeiro, consequência da máquina de lama.

"A imprensa é ainda uma garantia de democracia."

O editor, o diretor do jornal que não chega a sair, diz por meio de seu testa-de-ferro: “É que a notícia não existe, o jornalista é que cria”.

Sim, naturalmente. Meu romance não é apenas um ato de pessimismo sobre o jornalismo da lama; acaba com um programa da BBC, que é um exemplo de fazer bem feito. Porque existe jornalismo e jornalismo. O impressionante é que quando se fala do mau, todos os jornais tratam de fazer acreditar que se está falando de outros... Muitos jornais se reconheceram em Número Zero, mas agiram como se estivessem falando de outro.

"Não pode se limitar apenas a falar do mundo, uma vez que disso a televisão já fala. Já disse: tem que opinar muito mais sobre o mundo virtual. Um jornal que soubesse analisar e criticar o que aparece na Internet hoje teria uma função."

O jornalista, em particular, está retratado também como um paranoico em busca de histórias custe o que custar, e fica babando quando acha ter encontrado...

Acontece quando Bragadoccio encontra a autópsia de Mussolini... Sempre disse, também quando escrevia romances históricos, que a realidade é mais fantástica que a ficção. Em A Ilha do Dia Anterior descrevo um personagem fazendo um estranho experimento para descobrir as longitudes; é muito engraçado, e as pessoas disseram: “Olha que bonita a invenção do Eco”. Pois era de Galileu, que também tinha ideias loucas de vez em quando e havia inventado essa máquina para vender aos holandeses. Se mergulhar na história pode encontrar episódios mais dramáticos, mais cômicos, e também mais verdadeiros do que os que qualquer romancista pode inventar. Por exemplo, enquanto buscava material para Número Zero, encontrei a autópsia inteira de Mussolini. Nenhum narrador de pesadelos e horrores jamais conseguiu imaginar uma história como essa, e é verdadeira. E a passei para o personagem Bragadoccio, jornalista investigativo, que babava enquanto a utilizava para sua crônica sobre conspiração que inventou.

O autor, em sua casa
E o senhor não a inventou, claro.

Está na Internet, é assim. Então é muito fácil imaginar que um personagem tão paranoico e tão obsessivo como esse jornalista comece a desfrutar tanto da autópsia como das caveiras que encontra na igreja de Milão por onde passa sua história. Também nesse caso da igreja tudo é verdadeiro: tentei desenhar uma Milão secreta, com essas ruas, essas igrejas, que abrigam realidades que pareceriam fantasias...

Agora a realidade e a fantasia têm um terceiro aliado, a Internet, que mudou por completo o jornalismo.

A Internet pode ter tomado o lugar do mau jornalismo... Se você sabe que está lendo um jornal como El País, La Repubblica, Il Corriere della Sera…, pode pensar que existe um certo controle da notícia e confia. Por outro lado, se você lê um jornal como aqueles vespertinos ingleses, sensacionalistas, não confia. Com a Internet acontece o contrário: confia em tudo porque não sabe diferenciar a fonte credenciada da disparatada. Basta pensar no sucesso que faz na Internet qualquer página web que fale de complôs ou que invente histórias absurdas: tem um acompanhamento incrível, de internautas e de pessoas importantes que as levam a sério.

"Internet pode ter tomado o posto do jornalismo mau."

Atualmente é difícil pensar no mundo do jornalismo que era protagonizado, aqui na Itália, por pessoas como Piero Ottone e Indro Montanelli…

Mas a crise do jornalismo no mundo começou nos anos 1950 e 1960, bem quando chegou a televisão, antes que eles desaparecessem! Até então o jornal te contava o que acontecia na tarde anterior, por isso muitos eram chamados jornais da tarde: Corriere della Sera, Le Soir, La Tarde, Evening Standard… Desde a invenção da televisão, o jornal te diz pela manhã o que você já sabe. E agora é a mesma coisa. O que um jornal deve fazer?

Diga o senhor.

Tem que se transformar em um semanário. Porque um semanário tem tempo, são sete dias para construir suas reportagens. Se você lê a Time ou a Newsweek vê que várias pessoas contribuíram para uma história concreta, que trabalharam nela semanas ou meses, enquanto que em um jornal tudo é feito da noite para o dia. Um jornal que em 1944 tinha quatro páginas hoje tem 64, então tem que preencher obsessivamente com notícias repetidas, cai na fofoca, não consegue evitar... A crise do jornalismo, então, começou há quase cinquenta anos e é um problema muito grave e importante.

Por que é tão grave?

Porque é verdade que, como dizia Hegel, a leitura dos jornais é a oração matinal do homem moderno. E eu não consigo tomar meu café da manhã se não folheio o jornal; mas é um ritual quase afetivo e religioso, porque folheio olhando os títulos, e por eles me dou conta de que quase tudo já sabia na noite anterior. No máximo, leio um editorial ou um artigo de opinião. Essa é a crise do jornalismo contemporâneo. E disso não sai!

Acredita de verdade que não?

O jornalismo poderia ter outra função. Estou pensando em alguém que faça uma crítica cotidiana da Internet, e é algo que acontece pouquíssimo. Um jornalismo que me diga: “Olha o que tem na Internet, olha que coisas falsas estão dizendo, reaja a isso, eu te mostro”. E isso pode ser feito tranquilamente. No entanto, ainda pensam que o jornal é feito para que seja lido por alguns velhos senhores — já que os jovens não leem — que ainda não usam a Internet. Teria que se fazer um jornal que não se torne apenas a crítica da realidade cotidiana, mas também a crítica da realidade virtual. Esse é um futuro possível para um bom jornalismo.

Em seu romance, um editor concebe um jornal que não vai sair às ruas, para dar medo. É uma metáfora do que acontece?

E não só isso. Em Número Zero aprofundo a técnica do dossiê. A chantagem consiste em anunciar uma documentação, um informe. A pasta pode estar vazia, mas a ameaça de que existe basta: cada um de nós tem um cadáver no armário ou pelo menos recebeu uma multa por excesso de velocidade há 30 anos. A ameaça da existência de um dossiê é fundamental. A técnica da documentação é como a técnica do segredo. Filósofos ilustres, como Simmel e outros, disseram que o segredo mais poderoso é o segredo vazio. É uma técnica infantil: o menino diz (enganando): “Eu sei uma coisa que você não sabe!”. Dizer que sabe uma coisa que o outro não sabe é uma ameaça. Muitos segredos são vazios, e por isso são muito mais poderosos. Depois você vê os verdadeiros documentos, e são apenas recortes de imprensa. São vendidos a um Governo e aos serviços secretos, ou para a polícia, e são dossiês vazios, cheios de coisas que todos sabiam, menos os serviços secretos.

Número Zero é um romance de ficção, mas tudo pode ser visto na realidade...

É do jornalismo real que eu falo. Os jornais especializados na máquina de lama existem. Nem todos os jornais usam essa máquina, mas existem os que a utilizam, e por uma modesta soma de dinheiro eu poderia te dar os nomes...

E como sair da lama?

Dando notícias credenciadas. O que é maquina de lama? Normalmente é utilizada para deslegitimar o adversário e desacreditá-lo sobre questões particulares. Quero dizer que, na época áurea, se você não gostava de um presidente dos Estados Unidos, já aconteceu com Lincoln e Kennedy, o matava; era, por assim dizer, um procedimento honesto, como se faz na guerra... Por outro lado, com Nixon e Clinton se produziu uma deslegitimação com base em questões particulares. Um incitava a roubar papéis, o outro fazia coisas com uma estagiária... Essa é a maquina de lama. Poderiam ter dito, algo que não aconteceu nos Estados Unidos, que Kennedy dormia com Marilyn Monroe; a máquina de lama teria feito isso... Aquele juiz de Rimini do meu livro (que existiu realmente, em outra cidade) foi colocado na máquina de lama: usava meias extravagantes, fumava demais. Na verdade, havia emitido uma sentença que naquele momento não tinha agradado Berlusconi. E o que o maquinário do ex-primeiro-ministro fez foi buscar desacreditar sua reputação por meio de episódios menores. Pode se deslegitimar Netanyahu pelo que faz com a Palestina. Mas acusá-lo, por exemplo, de pedófilo, então já não estará trabalhando com fatos, mas estará colocando em funcionamento a máquina de lama.

Contra a máquina de lama…

As provas, as notícias rebatidas. Para a máquina de lama é suficiente difundir uma sombra de suspeita ou trabalhar sobre uma fofoca menor. No fim, na Itália, Berlusconi foi colocado contra as cordas contando o que ele fazia à noite em sua casa. Podiam dizer dele, e disseram, coisas muito mais graves, sobre seus conflitos de interesse, por exemplo. Mas isso deixava o público indiferente. E quando se provou que ele estava com uma menor de idade, então se viu em dificuldades. Como você pode ver, até defendo o Berlusconi! Ele foi vencido a partir de revelações sobre sua vida pessoal mais do que por notícias sobre fatos verdadeiros e outras coisas pelas quais é responsável.

O senhor cita em seu livro a Operação Gládio em relação a fatos que ocorreram após a Segunda Guerra Mundial... Entram aí até as suspeitas sobre a autoria da matança dos advogados de Atocha... Aquela sombra da extrema direita agora volta ao mundo com os atentados islâmicos. Um mundo sombrio outra vez. Qual a sua opinião desse momento outra vez sangrento, protagonizado dessa vez pelos terroristas jihadistas?

É como o nazismo: pensava em restabelecer a dignidade do povo alemão matando todos os judeus. De onde nasce o nazismo? De uma profunda frustração. Tinham perdido uma guerra, e é nos momentos de grandes crises que o cacique de um povo pode congregar a opinião pública em torno do ódio contra um inimigo. Acontece agora com o mundo muçulmano: três séculos de frustração, após o império otomano, após o imperialismo, surge essa frustração em forma de ódio e fanatismo...

E como se luta contra isso?

Não sei. Estava muito claro como se podia lutar contra o fanatismo nazista, porque os nacional-socialistas estavam em um território identificável. Aqui a coisa é mais complexa.

Tem medo?

Não por mim, por meus netos.

O senhor escreveu um livro em que um jornal da lama faz batalhas sujas sem sair às ruas... Cogita que um dia não haja jornais?

É um risco muito grave, porque, depois de tudo que disse de mau sobre o jornalismo, a existência da imprensa ainda é uma garantia de democracia, de liberdade, porque especialmente a pluralidade dos jornais exerce uma função de controle. Mas, para não morrer, o jornal tem que saber mudar e se adaptar. Não pode se limitar apenas a falar do mundo, uma vez que disso a televisão já fala. Já disse: tem que opinar muito mais sobre o mundo virtual. Um jornal que soubesse analisar e criticar o que aparece na Internet hoje teria uma função, e até um rapaz ou uma moça jovem leriam para entender se o que encontraram online é verdadeiro ou falso. Por outro lado, acho que o jornal ainda funciona como se a Internet não existisse. Se olhar o jornal de hoje, no máximo encontrará uma ou duas notícias que falam da Internet. É como se as rotativas nunca se ocupassem de sua maior adversária!

É adversária?

Sim. Porque pode matá-la.



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Parada Gay de SP quer denunciar deputados ao MPF por protesto


Ativistas dizem que cartazes continham cenas de outros eventos.


Associação defende transexual simulou crucificação durante a Parada.



A organização da Parada Gay de São Paulo divulgou neste sábado (13) nota em que afirma que vai denunciar ao Ministério Público Federal deputados federais católicos e evangélicos que no dia 10 de junho levaram ao plenário da Câmara dos Deputados e compartilharam na internet montagem com fotos da 19º Parada LGBT misturadas a outras com sexo explícito e imagens religiosas. A 19ª Parada LGBT foi realizada no último dia 7, na Avenida Paulista.

O presidente da associação que organiza o desfile, Fernando Quaresma, disse que membros da bancada evangélica fizeram jogada suja ao juntar nos mesmos cartazes imagens da Parada LGBT com imagens de outros eventos para levar a população geral ao erro da interpretação, incentivar o boicote de patrocinadores e tentar inviabilizar as próximas manifestações.

Além de criticar os deputados por "incitação ao ódio e desrespeito explícito ao Estado laico", a associação defende a transexual que simulou a crucificação durante a parada. Os organizadores dizem que desconheciam previamente a realização do ato, mas consideram o protesto "legítimo".

Aos gritos de "respeito", deputados evangélicos e católicos fizeram na quarta-feira uma manifestação no plenário da Câmara contra a parada gay, a "marcha das vadias" e a "marcha da maconha". Com cartazes que traziam fotos da 19ª Parada do Orgulho LGBT, realizada no domingo (7), eles subiram à tribuna e pediram que atos públicos que "ferem a família" e a liberdade religiosa sejam transformados em "crime hediondo".

Os parlamentares religiosos criticaram, sobretudo, o fato de a atriz transexual Viviany Beleboni ter se prendido na cruz, durante a parada gay, para representar o sofrimento dos homossexuais no Brasil.

"Os ativistas do movimento LGBT cometerem crime de profanação contra símbolo religioso, ferindo a todos os cristãos ao usarem uma pessoa pregada na cruz, utilizando símbolos do cristianismo de forma escandalosa, zombando e ridicularizando o sacrifício de Jesus", diz nota de repúdio lida na tribuna pelo presidente da Frente Parlamentar Evangélica, João Campos (PSDB-GO).

A nota é assinada ainda pelo deputado Givaldo Carimbão (PROS-AL), presidente da Frente Parlamentar Mista Católica Apostólica Romana, e pelo deputado Alan Rick (PRB-AC), presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família.

"Temos que tipificar como crime hediondo essas cenas, que atingem nossas famílias", discursou o líder do PSD, Rogério Rosso (DF), que também participou do ato. Coube ao presidente do PPS, deputado Roberto Freire (SP), sair em defesa da "diversidade" e do Estado laico.

"Vivemos uma República laica. Não podemos transformar isso aqui numa igreja. Estou querendo trazer à lembrança de todos que não é para falar em nome dos 513 deputados. Respeitem a diversidade, respeitem a República laica", afirmou.

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A serpente já furou a casca

Toda vez que o país se deixa dominar pelo pensamento de direita, a sociedade se vê tomada pelos valores do autoritarismo
Os liberais, democratas e esquerdistas que estiverem tranquilos porque ódio só persegue Dilma e o PT, que ponham as barbas de molho

O que melhor pode caracterizar o pensamento de direita, senão a cultura do autoritarismo na formação da sociedade brasileira — na vida social, na vida política, na vida econômica, no cotidiano, na vida profissional, na vida doméstica — que se manifesta na grave disjuntiva  casa grande senzala, essa divisão colonial que sobrevive na democracia  moderna e na república sereníssima? De um lado o senhor — sujeito de direitos —, de outro, o 'pau mandado', objeto de deveres. O que melhor caracteriza a ação de direita — o ovo em que é gerada a serpente do fascismo — senão a violência, que, de início verbal, logo descamba para a ameaça e a violência físicas, quase sempre grupal, pois nos grupos os covardes se tornam valentes?

O autoritarismo traz consigo o germe da intolerância, estampada em slogans como o ‘Ame-o ou deixe-o’ da última ditadura, que, com um ufanismo de fancaria, fincado em um desenvolvimento puramente mercadológico, tentava abafar as dores dos torturados, fazendo com que a maioria se sentisse minoria em sua terra, exilada da política e exilada da pátria que lhe queriam negar, da nacionalidade que lhe queriam roubar. Pode haver violência maior? O autoritário é senhor de sua verdade, uma verdade absoluta que não permite contestação e à qual o outro deve obediência, sob pena de discriminação. É dessa falsa crença, da qual  se introjeta para melhor dominar, que o senhor extrai a intolerância,  a crença em sua superioridade e a violência com a qual a defenderá, quase sempre explicada como doação divina, mas realmente firmada de fato na propriedade privada, a fonte do fausto e do poder, pincipalmente do poder sobre os outros. 

 O autoritarismo traz consigo a xenofobia, a aversão ao diferente, o nordestino e o migrante de um modo geral, o pobre, o negro, a prostituta, o homossexual, o desviante enfim, todo aquele que ameace a segurança do pequeno-burguês, frágil como um balão de gás. A classe dominante brasileira — e como ela seus penduricalhos reflexos, como a classe-média alta —, detesta o país e seu povo, com o qual não se identifica, para ela uma ‘gentinha’ feia, magra, mal-vestida, mal cheirosa, gente boa tão-só para o serviço doméstico (sem acesso à sala de visitas nem ou à mesa dos banquetes), os chamados serviços sujos e pesados aos quais o senhor branco, e senhor porque branco, se nega. (Ao aprendiz de sociólogo que desejar conhecer como o complexo casa grande-senzala se reproduz em nossas cidades modernas bastará deter-se em qualquer edifício de apartamentos e comparar o ‘quarto da empregada’ com a suíte do patrão.)

O pobre, aqui, na sua terra, cumpre o papel que na Europa desempenham os turcos e os portugueses e os asiáticos, o emigrante pobre em geral, qual seja, o de executar na terra do outro as tarefas que hoje repugnam ao dono da casa. Esta é a ‘ordem natural das coisas’ do liberalismo, e tentar alterá-la é considerado crime. Se não de lesa-Pátria, de lesa-propriedade, ou seja, de lesa-desigualdade, pois na desigualdade, e na sua manutenção, se estrutura o Estado capitalista, fundado, como o regime da casa grande e senzala, na dominação e no mando. O nosso não é diferente de nenhum outro. No altar da classe-média o culto é ao deus consumismo.

Na verdade, a pomposa ‘paz social’ do liberalismo depende de os de cima mandarem, e os de baixo aceitarem como natural esse mando, ou seja, de não o questionarem. O menor estremecimento nessa base abala o vértice onde se agasalha  a classe dominante. Qualquer suspeita de desequilíbrio, o movimento mais irrelevante põe de pé a classe dominante e em guarda seus cães de fila, e ela, enfurecida é capaz de tudo. Ou seja, a ‘paz social’ depende de o pobre ‘conhecer o seu lugar’, e nele se conservar. Atiçada, ameaçada, a classe dominante reage com o retrocesso; voltar ao passado é sua resposta aos que reclamam pelo progresso.

Eis a chave da paz social da classe dominante que torce o nariz para a ascensão de classe e se incomoda com o progresso social.

O consumismo é o sonho capitalista que anima o empresário de todo o mundo, mas em nosso país, somente enquanto não  proporcionar a democratização do acesso aos bens de consumo. Isso é intolerável, isso incomoda. O que é possível na teoria liberal  é inaceitável na prática, na vida real, no cotidiano.

Toda vez que o país se deixa dominar pelo pensamento de direita, a sociedade se vê tomada pelos valores do autoritarismo,  que vem das raízes escravocratas da formação de nossas chamadas elites, preguiçosas e incultas e porque incultas profundamente preconceituosas, e profundamente perversas e, como as elites suas antepassadas que procuram emular, de cujo fausto têm saudade, desvinculadas da terra e de sua gente, cujo futuro não partilha com o seu. O autoritarismo brasileiro é reacionário por essência; repugna-lhe o avanço social.

Nesses momentos, o observador menos atento de nossa crônica se descobre vivendo em país violento, quando a história que lhe ensinaram na escola diz de um povo cordial, amoroso, mais sensual que cartesiano. A violência vem da reação dos que tendo muito, quase tudo, não compreendem que os outros possam ter alguma coisa. 

A emergência do pensamento de direita — que levou tantas e belas civilizações à guerra e à autodestruição — desperta na classe dominante brasileira suas raízes atávicas herdadas de uma colonização levada a cabo a ferro e fogo contra as nações indígenas, de início, e sempre contra o elemento negro escravizado, predatória contra a natureza e  o meio ambiente, contra a civilização, ainda que tudo, inclusive o genocídio de nossos ancestrais, se fizesse em nome de Deus, e sob o comando da cruz, confiado em cuja proteção, aliás,  se reúne, o Congresso nacional, para, em nome da minoria proprietária, subsumir os interesses da maioria, dos pobres, das mulheres e dos negros, dos trabalhadores enfim. 

Uma Câmara conservadora, comandada por um presidente prepotente, cujo mandato, desde o primeiro dia, é posto a serviço do atraso, do primitivo, da mediocridade  do evangelismo mais rastapé, está impondo à sociedade a ideologia do atraso: estímulo à homofobia, à comercialização do processo eleitoral mediante o financiamento privado dos partidos, redução da maioridade penal, rejeição à regulamentação do aborto, redução dos direitos trabalhistas, restrições aos direitos civis, fim da demarcação das terras indígenas.

Agora se discute, simultaneamente, a redução da maioridade penal e a revogação do Estatuto do Desarmamento. A respeito deste, entre outras sandices, a ´bancada da bala’,explorando o medo e o desconhecimento do cidadão mediano, propõe que o número de armas de fogo que cada brasileiro possa portar salte de seis para nove! Ou seja, em vez de os governos continuarem obrigados a executar políticas de segurança pública eficientes, a solução para o alarmante índice de homicídios seria cada cidadão tornar-se uma mini-milícia-paiol ambulante, potencialmente assassina e suicida. Faz sentido, desde que deixemos de lado a capacidade de raciocínio conquistada pela espécie humana ao longo do processo evolutivo.

Aliás, este é outro aspecto, o baixo nível cognitivo do baixo clero. O atual deputado médio não é apenas conservador e mesmo reacionário: ele é um néscio, incapaz de superar sua balbuciante estultície para debater com um semelhante — embora possa demonstrar destreza no manejo das artimanhas habituais da pequena política. 

O autoritário é senhor de sua verdade, uma verdade absoluta que não permite contestação e à qual o outro
deve obediência, sob pena de discriminação
Na última quarta-feira 10, os deputados da chamada bancada evangélica (também da bala e do boi), interromperam uma votação da Câmara do Deputados, ocuparam a Mesa,  ocuparam  as tribunas e os microfones  e de mãos dadas — sem em nenhum momento serem repreendidos pelo presidente da sessão, convenientemente presidida pelo colega Eduardo Cunha —, e, em um plenário constitucionalmente leigo, rezaram o Pai-Nosso e gritaram ‘Viva Jesus, Viva Jesus Cristo'. 

Enquanto isso, numa sala de comissões, recinto fechado, esbirros da polícia legislativa, convenientemente reforçada pela atual Mesa, atingiam jovens manifestantes com jatos de spray de gás de pimenta. Os estudantes pacificamente protestavam  contra o projeto de redução da maioridade penal, bandeira de Eduardo Cunha e do grupo que comanda a Casa, composta fundamentalmente pelos ditos evangélicos, a bancada da bala e a bancada do agronegócio.

Nas ruas, os representados por Eduardo Cunha e Renan Calheiros e outros quadros menores saúdam a violência policial e reclamam — numa agressão à memória nacional — a volta da ditadura. Nos restaurantes apupam homens de Estado dignos e dedicados ao país como os ex-ministros Alexandre Padilha e Guido Mantega, este já anteriormente agredido quando acompanhava sua esposa em exames médicos em famoso hospital paulistano.

Ao desembarcar de um voo a Brasília, um leitor de Carta Capital (por acaso um ‘ex-militante do movimento estudantil sequestrado e mantido preso por três dias em 1980 na Argentina’, diz-nos a Carta da semana passada) foi hostilizado por carregar consigo um exemplar da revista. Não me recordo de algum companheiro da esquerda, ainda nos tempos da ditadura, haver sido insultado por ter às mãos o Pasquim ou o Opinião, que carregávamos com orgulho e ostensivamente. Conta-nos  Elbio de Freitas Flores: “Estava com a revista na mão, me preparando para sair pelo corredor [do avião], quando ouvi: ‘Essa é uma revista idiota, quem lê é idiota’.

Era um homem de cabelos brancos de mais ou menos 50 anos, cuja valentia era estimulada pelo coro de um grupo formado na maioria por jovens: "Dilmão, eu quero,/Dilmão, eu quero/Dilmão eu quero mamar/dá uma teta/ dá uma teta/ dá uma teta para o petista roubar”. Segundo a revista, a súcia era formada por integrantes de um grupo autointitulado de 'La Banda Loka Liberal', que chegava a Brasília para participar de uma manifestação anti-Dilma, afinal esvaziada.

Os liberais e os democratas que estiverem tranquilos e se sentindo bem resguardados, porque até aqui  a onda reacionária só ameaça o andar de baixo; os liberais e os democratas e os esquerdistas que estiverem tranquilos pensando que o ódio só persegue a presidente Dilma e o PT, que ponham as barbas de molho. Lembro-lhes um esquecido poema de Bertolt Brecht (como todo poeta, ele via o que os outros não viam ou fingiam não ver) sobre o judeu ingênuo que jamais suspeitou que seria a próxima vítima, pois antes levaram os negros, e ele não era negro, levaram os operários mas ele não era operário, levaram os desempregados mas ele não era desempregado… Por fim foram buscá-lo e o encontraram só. Assim começou o que terminaria como holocausto de um povo.

Roberto Amaral
No CartaCapital
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O povo não é bobo

Uma pesquisa Ibope, escondida pela mídia, revela que muitos brasileiros veem o jornalismo empenhado em aderir ao “quanto pior melhor”

Durante a ditadura no Brasil, o Rei Pelé lançou um édito:
"O povo brasileiro não está preparado para votar".
Marcello Casal Jr.
Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, fora das quatro linhas onde conquistou, por méritos, o título de rei do futebol, pisa na bola com frequência. Ainda agora se meteu no escândalo da Fifa e manifestou apoio a Joseph Blatter, presidente renunciatário daquela entidade internacional corroída pela corrupção.

Nem de longe, no entanto, essa foi a pior interferência do jogador nas questões políticas. Durante a ditadura no Brasil, o Rei Pelé lançou um édito: “O povo brasileiro não está preparado para votar”.

Pelé fez um golaço. Daquela vez, já fora de campo, um golaço contra.

O eleitor brasileiro, ao contrário do que pensa Pelé, tem muito mais acertos do que erros, levando em consideração, por exemplo, as 11 eleições presidenciais diretas ocorridas ao longo dos últimos 70 anos da República. Sobre isso ele nada sabe e, para opinar, deveria saber. A afirmação de Pelé reflete a posição daqueles observadores movidos, em geral, pela ignorância ou pelo preconceito.

O povo não é bobo. A mais recente comprovação da correta percepção popular está nos números de uma pesquisa Ibope, feita em maio, sobre temas políticos e administrativos. A mídia silenciou sobre o assunto quando bateu de frente com a resposta dada à seguinte questão proposta ao entrevistado:

“A imprensa brasileira mostra o País numa situação econômica mais negativa do que a que percebo no meu dia a dia”.

O Ibope admite a influência da mídia “no sentimento de pessimismo dos brasileiros”. O instituto apoia-se no expressivo número de 41% dos entrevistados que acreditam nisso. Ou seja, “a imprensa mostra uma situação econômica mais negativa” do que parece ser.

Existe uma crise econômica inegável e o jornalismo não é por natureza mensageiro da bem-aventurança. É de Rubem Braga, o grande cronista, uma afirmação radical sobre isso: felicidade não dá manchete.

Apesar do bombardeio diário contra o governo, muitas vezes sem comprometimento com os fatos, desponta na resposta da maioria da população a restrição ao papel da mídia. Ela parece torcer contra e jogar na posição do quanto pior melhor.

Os entrevistados reconhecem isso. Por outro lado, andam, porém, mergulhados na descrença sobre o futuro do País porque vê e sente o desemprego em crescimento e a inflação em alta.

Entretanto, o problema neste caso não está contaminado pelo viés político-ideológico.

A mídia tem o direito de ser conservadora, reacionária ou o que mais quiser. Só não pode ser desonesta e esconder do leitor um fato, como o agora relatado, no fundo da gaveta.

Maurício Dias
No CartaCapital
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Jô Soares, o cara na Globo que gosta da Dilma

O beija-mão de Jô a Dilma
O ar désolé de William Waack no Jornal da Globo ao anunciar a próxima atração era uma pista para o que viria a seguir: o apresentador Jô Soares em um encontro para lá de amistoso com a presidente Dilma Rousseff no palácio da Alvorada. E “o gordo” já começou dizendo a que vinha: fazer uma entrevista-desagravo à presidente, que está sendo alvo, disse, de uma campanha “absurda” por parte de gente que não se conforma com o resultado da eleição.

“Eu comecei a ter uma reputação de petista fanático porque saí em sua defesa quando começou aquela onda absurda, louca, de ‘fora Dilma’. A pessoa não acredita muito que na democracia, quando a pessoa é eleita, tem que se respeitar o voto. Saí em sua defesa, não que você precisasse, mas tem certas coisas que me deixam indignado”, comentou Jô. Ou seja, o apresentador global deixou patente que vê as manifestações como choro de perdedor. Uau.

Jornalisticamente, é preciso que se diga, a entrevista não foi lá essas coisas. Uma entrevista rende muito mais quando se faz um bom número de perguntas ao entrevistado (não necessariamente ardilosas), sem deixá-lo falar tanto. Quanto maior a variedade de temas, mais variada, claro, fica a entrevista. Faltaram diversos temas, em minha opinião, principalmente provocações sobre a relação entre Dilma e os detentores do poder no Congresso, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros. Jô só tocou no nome deles en passant, e para criticá-los. Fiquei particularmente desapontada por Dilma não ter aproveitado o apoio explícito do apresentador ao imposto sobre grandes fortunas.

Mas há dois pontos a se levar em consideração: o primeiro é que Jô Soares não é jornalista e sim um entertainer — que tem, atenção, a “permissão” de se posicionar politicamente, ao contrário dos jornalistas, nos meios tradicionais. O segundo é que o objetivo dele com a entrevista não era colocar Dilma na parede, coisa que vimos à exaustão toda vez que ela apareceu diante das câmeras respondendo a jornalistas brasileiros — no Jornal Nacional, então, nem se fala. O objetivo de Jô era mostrar como Dilma pensa e como quer governar o País. E, neste aspecto, é possível dizer que foi a primeira entrevista que a presidente deu desde que se elegeu em 2010 em que pôde fazer isso. Todas as entrevistas de Dilma no Brasil tinham ar de duelo, normalmente concedidas no calor de uma campanha eleitoral.

Jô Soares, ao contrário, levantou a bola para Dilma cortar em praticamente todas as perguntas. À vontade, sem ser interrompida, a presidente, mesmo com a prolixidade habitual, pôde explicar o que tem feito e quais são suas metas para os próximos quatro anos. E, diferentemente da Dilma “marionete” de Lula que pintam, sobressaiu uma governante segura do que tem na cabeça. Para exasperação de seus opositores, Dilma transmitiu uma imagem de mulher extremamente preparada para o cargo. Quer você goste dela ou não, ficou bastante óbvio que ela não está ali por acaso e sabe exatamente o que está fazendo. Se você não concorda com o que ela está fazendo (e aqui incluo a esquerda que votou nela) é outra história, mas que ela tem a coisa clara na cabeça, tem.

A entrevista de Dilma Rousseff ao Jô foi praticamente um anti-panelaço: contra os que quiseram calar a presidente pelo grito, o entrevistador mais famoso do Brasil lhe ofereceu voz.  Elogiou seu gosto pela leitura, mostrou-se admirador de sua passagem pela luta armada durante a ditadura e não disfarçou sua confiança no projeto de governo dela. Jô gosta muito de Dilma, simpatiza com a pessoa dela, isso ficou evidente. O recado foi dado à emissora onde trabalha: “Vocês não gostam dela, mas eu gosto e vão ter que me engolir”. Aos 77 anos de idade e 54 anos de carreira, Jô Soares pode fazer isso. Para culminar, terminou a entrevista com um galanteio hilário à presidente em pleno dia dos namorados, antes de beijar sua mão: “Foi bom para você também?” E foi bem isso mesmo, um “beija-mão”. Jô estava ali para ser um gentleman com Dilma.

Na manhã seguinte à entrevista, as redes sociais estavam ouriçadas. Os “defensores da liberdade de expressão” de costume atacavam Jô Soares sem o menor respeito. “Fim de carreira”, “sem caráter”, “petralha”, “sempre foi fraco”, além dos xingamentos impublicáveis característicos ao grupo. Não poderiam faltar as acusações de que Jô “recebe dinheiro” do PT: a captação pela Lei Rouanet para a montagem da peça Troilo e Cressida, de Shakespeare, foi transformada imediatamente em suborno. Gente capaz de vender sua ideologia por 30 dinheiros acha que todo mundo faz o mesmo.

Pois eu achei uma atitude muito corajosa de Jô Soares de fazer este desagravo a Dilma, ainda mais em plena TV Globo, emissora que integra a oposição midiática ao PT e a seu governo. Jô demonstrou que não está disposto a abrir mão de suas convicções, ainda que isto lhe resulte em linchamento por parte de gente que aprova linchamentos. Coragem é sempre algo admirável em um personagem público.

Assista à íntegra da entrevista clicando aqui.

Cynara Menezes
No Socialista Morena
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A previsível miséria das críticas à entrevista de Dilma no Jô

Funcionou
A mídia política não surpreende. É previsível como um jogo de sinuca comprado.

A entrevista de Dilma no Jô, por exemplo.

Você sabia, muito antes de ela ir ao ar, que só haveria cacetadas. Os textos, a rigor, poderiam ser escritos sem que os jornalistas perdessem seu tempo precioso vendo o programa.

Não importa o nível das perguntas de Jô e nem o conteúdo das respostas. Só virão pedradas.

Um dos efeitos, não notados pelos jornalistas, é que você não precisa lê-los para saber o que eles dirão.

Me chamou a atenção, particularmente, o blogueiro Josias de Souza.

Em sua avaliação sobre a entrevista, ele acusou Dilma de ser “autocongratulatória”.

Se eu fosse editor de Josias, perguntaria: “O que você queria? Que ela atacasse a si própria, como se já não bastassem tantos caras como você? Que ela elogiasse o Aécio?”

Na ânsia desvairada de atacar Dilma, perde-se a noção do ridículo, como você percebe pelo artigo de Josias.

Ela falou o óbvio: não se pode falar em promessas descumpridas quando você está apenas no começo de um mandato.

E então Josias replica: mas e os primeiros quatro anos? De novo, caso eu o chefiasse: “Caramba, o povo acabou de fazer seu julgamento, nas urnas, sobre se ela cumpriu ou não as promessas do primeiro mandato. Isso apesar de uma multidão de jornalistas como você vociferarem contra ela o tempo todo. Que mais você quer?”

Josias também criticou a entrevista por ser “amável”.

Ele não é exatamente um jornalista mirim, e deveria saber que Dilma — e nem ninguém, incluído o próprio Josias — toparia dar uma entrevista voluntariamente se houvesse o risco de receber tiros.

O DCM tentou entrevistar, para ficar num caso, Fernando Rodrigues, colega de Josias no UOL, sobre o Swissleaks.

Estamos esperando resposta até hoje.

A entrevista, em si, foi boa. De um a dez, nota sete. Tanto funcionou que, no horário, Jô teve um Ibope acima do habitual: 6,7 pontos, com pico de 8,7. Jô deixou muito para trás Danilo Gentili, com 4,4%. Você pode imaginar o que aconteceria caso Gentili tivesse batido Jô.

Dilma estava à vontade, e se saiu bem. Falou mais pausadamente que de costume, se dispersou pouco nas respostas e quase não cometeu erros no português.

Jô, cavalheirescamente, deixou-a falar. Interveio apenas quando necessário.

Soube fazer perguntas que quase todos os jornalistas antes dele ignoraram. Por exemplo: as leituras da Bíblia por Dilma na época da prisão.

A Bíblia foi, muitas vezes, a única leitura possível para ela. Dilma, com toda a razão, sublinhou a extraordinária riqueza literária da Bíblia. (Dostoievski também só pode ler a Bíblia no tempo em que esteve preso, registrado em Recordação da Casa dos Mortos.)

Jô tocou num ponto que desperta curiosidade em todo mundo: como ela se sente diante das críticas ininterruptas?

Foi sábia a resposta de Dilma. Quem milita na política tem que saber distinguir as coisas. Não pode levar críticas para o campo pessoal, ou vive martirizado.

Jô citou sua própria dificuldade com críticas. Conheço bem, aliás.

Escrevi, quando editava a Exame, um artigo sobre um romance de Jô. Ele me telefonou tão logo saiu a revista, furioso.

A redação se juntou em torno de mim para acompanhar a conversa tensa que tivemos. Lembro que ele disse que na França o romance tinha sido elogiado. “E daí?”, respondi.

Também recordo que ele disse: “Sou amigo do Roberto Civita.” E eu, de novo: “E daí?”

Dilma também se saiu bem quando perguntada se tinha pavio curto. Ironicamente, disse que é uma “mulher dura no meio de homens meigos”.

Dilma deveria conceder mais entrevistas. Mas não a jornalistas como Josias e tantos outros, interessados apenas em destruí-la porque pensam assim agradar seus patrões.

Paulo Nogueira
No DCM
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Assista à entrevista completa de Dilma Rousseff no Programa do Jô


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Deputados usaram foto dos EUA para protestar contra gays no Brasil


Na faixa exposta na Câmara dos Deputados na quarta-feira (10), parlamentares evangélicos e católicos expuseram oito imagens do que consideram exemplos de ofensa à família e à fé cristã.

Sobre os dizeres "Você é a favor disso?", e fazendo relação com o patrocínio público, estavam fotos de uma transexual simulando uma crucificação durante a Parada Gay, de manifestantes das marchas da Maconha e das Vadias e de um "Jesus gay" beijando outro homem.

A última imagem, porém, não foi feita em nenhum evento com incentivo de empresas públicas brasileiras. Na verdade, não se trata nem de imagem feita no Brasil.

A mesma cena pode ser encontrada em uma reportagem de 2014 no site "Now The End Begins", que afirma ser uma "revista que registra" o apocalipse e outros sites e blogs estrangeiros.

A reportagem em que a foto foi publicada trata da polêmica que se criou nos Estados Unidos com o anúncio de que a peça "Corpus Christi", de Terrence McNally, iria ganhar um versão para as telas.

A montagem retrata Jesus como um homem gay e, desde que foi encenada pela primeira vez, em 1998, teve forte rejeição de setores religiosos daquele país.

"Vou levar isso ao conhecimento das frentes [evangélica e católica] para que elas possam dar uma satisfação ao público", disse à Folha o presidente da Frente Parlamentar Evangélica, deputado Paulo Freire (PR-SP).

Segundo ele, o protesto de quarta foi organizado pelos católicos "com apoio dos evangélicos". "Ficamos indignados com coisas que aconteceram na av. Paulista durante a Parada Gay", afirmou.

Outra foto estampada na mesma faixa com a legenda "Profanação duarante [sic] a Marcha das Vadias" mostrava duas mulheres seminuas e crucificadas se beijando em frente a uma igreja.

Esta também não corresponde ao evento citado. Trata-se de manifestação promovida pelas ativistas Sara Winter e Bia Spring, em outubro passado, em protesto a favor do voto laico, em frente a Igreja da Candelária, no Rio.

O ato foi organizado após o discurso do então candidato à presidência Levy Fidelix (PRTB) sobre a comunidade LGBT. "Foi o discurso de ódio do candidato, que pediu que a maioria heterossexual deveria combater a minoria homossexual, que nos levou a fazer este manifesto", afirmou Winter ao "O Dia" em 4 de outubro de 2014.

Autor do projeto de lei que torna crime hediondo a profanação de símbolos religiosos, o deputado Rogério Rosso (PSD-DF) disse que se sentiu emocionado com o ato na Câmara.

Ele afirma não ser contrário à Parada Gay, mas sim ao "bullying religioso" — promovido, frisa ele, por "poucos manifestantes".

Sobre o uso da foto do "Jesus gay", Rosso diz que "é irrelevante se ela foi feita na China ou em qualquer outro lugar". "A imagem símbolo é a crucificação ao longo da Parada LGBT. Foi a que mais me marcou. Poderiam ser 150 mil imagens, um trilhão, mas a imagem símbolo para mim é a da crucificação."

"Não é uma foto específica, mas um conceito, e o que está sendo cada vez mais recorrente: a mensagem que está sendo passada por esses manifestantes", afirmou.

No fAlha
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Lula mostrou o DARF. Quem falta mostrar?


Dia 13 de junho de 2015. Do início do ano até o momento, a sonegação no Brasil chegou a 232 bilhões de reais.

Ou seja, com o valor de 5 meses e meio de sonegação, daríamos para cruzar o país com trens de alta velocidade, e construir ou expandir os sistemas de metrô de todas as capitais brasileiras.

A mídia iniciou nova cruzada contra Lula, porque ele recebeu, limpamente, transparentemente, abertamente, pagamento para as palestras que proferiu no exterior, dentre outras atividades típicas de ex-presidentes e seus institutos.

Lula recebeu pagamentos ligados a algum helicóptero lotado de cocaína?

Não.

Lula recebeu dinheiro público, como recebeu o Instituto FHC — R$ 6 milhões de verba pública para fazer um “acervo”?

Não.

Lula fez aeroporto em terras de sua família, como fez um ex-candidato a presidente da república?

Não.

Lula nomeou sua irmã para gerir as verbas de publicidade de seu governo, como fez o mesmo candidato citado anteriormente?

Não.

Lula encheu seu governo de parentes, como fez o mesmo candidato?

Não.

Neste momento, existem várias operações de grande porte da Polícia Federal investigando gigantescos esquemas de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Algumas dessas operações investigam empresas de mídia, como é o caso da RBS, a Globo gaúcha.

Apenas uma dessas operações, a Zelotes, investiga desvios que podem chegar a R$ 20 bilhões.

Ontem mesmo foi deflagrada, em São Paulo, uma operação em conjunta dos fiscos federal e municipal, contra 50 escolas privadas da cidade, e algumas faculdades, que não pagavam devidamente seus tributos.

Há uma crise ética no país, sim, e que começa por nossa elite e sua mídia, que sempre fizeram campanha contra o pagamento de impostos, a única fonte de renda do Estado para investir em infra-estrutura, saúde e educação.

É preciso reduzir gastos de alguns setores de Estado. Por exemplo, a farra das ajudas de custo do Judiciário. Por que a mídia não a denuncia? Porque a mídia quer o Judiciário como aliado de classe para ferrar o povo.

A mídia manipula o Judiciário, através de propinas públicas, como é o caso do Prêmio Faz Diferença, ou ameaças veladas e ultra-agressivas, como já assistimos diversas vezes: juízes que não comem na mão da mídia são vítimas de verdadeiras campanhas de difamação.

A CPI da Petrobrás chamou Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula, para depor. Ele vai lá mostrar o que já mostrou faz tempo: o Darf de Lula.

Esperamos que os nobres congressistas, diante do exemplo de Lula, cobrem das grandes empresas a mesma transparência e a mesma probidade. Que sejam severos na cobrança dos impostos que pagam seus próprios salários, a verba de seus gabinetes e todos os serviços públicos que o Estado presta ou deveria prestar à população.

Tem uma emissora aí, por exemplo, flagrada roubando centenas de milhões do erário, através de uma “intrincada engenharia financeira” em paraísos fiscais, que até agora não mostrou o seu Darf.

O Brasil está precisando desse dinheiro para investir em sua infra-estrutura e em seus sistemas de saúde e educação.

Miguel do Rosário
No Cafezinho
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Tributo a Fernando Brant - (Clube da Esquina)

*09.10.1946 (Caldas-MG) +12.06.2015 (Belo Horizonte-MG)






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Dilma rechaça "golpismo" na Venezuela

Na quarta-feira (10), ainda em Bruxelas (Bélgica), a presidenta Dilma Rousseff deu uma declaração enfática que deve ter desagradado os falcões dos EUA, os abutres da Europa e os vira-latas nativos. Durante a cúpula da Celac com a União Europeia, ela afirmou: "Nós, países latino-americanos e caribenhos, não admitimos medidas unilaterais, golpistas e políticas de isolamento contra a Venezuela... Sabemos que tais medidas são contraproducentes, ineficazes e injustas. Por isso, rechaçamos a adoção de qualquer tipo de sanção contra a Venezuela".

A incisiva declaração ocorre num momento em que o cerco contra a nação vizinha se radicaliza. Nas últimas semanas, o imperialismo ianque recrudesceu na sua visão intervencionista contra a 'revolução bolivariana'. Já os governos direitistas da Europa pretendiam aprovar medidas de bloqueio econômico à Venezuela durante a cúpula conjunta com a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). A presidenta Dilma Rousseff, reafirmando a política externa ativa e altiva do Brasil que não se dobra às pressões das potências capitalistas, rejeitou a investida.

Na última quinta-feira (11), o presidente Nicolás Maduro voltou a alertar o povo venezuelano sobre a nova onda golpista no país. Eles criticou as desumanas sanções econômicas do governo dos EUA, a ação de sabotagem dos setores do empresariado e a postura golpista da mídia privada. Num evento com governadores e prefeitos no Palácio Miraflores, em Caracas, ele conclamou o povo a se unir "no espírito, na ideia e na luta, em face das dificuldades, diante da guerra econômica e das guerras de máfias criminosas... Esta é uma batalha entre o ser e o não ser, entre a pátria e a antipátria".

Nicolás Maduro também elogiou à resolução da 2ª Cúpula de Bruxelas, que aprovou "um parágrafo que de maneira oficial solicita ao presidente dos EUA, Barack Obama, algo que estou seguro de que vai ocorrer, que é a revogação do decreto que declara a Venezuela como uma ameaça". Ele ainda se referiu à recente viagem ao Brasil do presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Diosdado Cabello, afirmando que as relações diplomáticas e comerciais entre os dois países passa por um rico processo de fortalecimento. Ao final, ele criticou alguns mercenários — como o corrupto ex-premiê da Espanha, Felipe González — que visitam o país para apoiar notórios golpistas. Nicolás Maduro não citou o tucano Aécio Neves, que está com viagem marcada para Caracas. O cambaleante nem merece!

Altamiro Borges
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