8 de jun de 2015

Onde estão os protestos anti corrupção de João Doria e Walter Feldman na CBF?

Feldman e Doria
O presidente-até-o-momento da CBF, Marco Polo Del Nero, se afundou mais um pouco em seu pântano com uma nova história segundo a qual seria o “homem forte” das negociações da entidade desde a época de vice de Marin.

De acordo com o Estadão, ele recebeu empresários para tratar de contratos com um executivo que está sendo interrogado na Suíça pelo Ministério Público.

Para os puxa sacos e desavisados de sempre, a gestão Del Nero era vendida como “renovação”. Duas contratações viraram símbolo disso. Walter Feldman, secretário-geral, veio com o mesmo papo magro que usou na campanha de Marina Silva, em que trabalhou como coordenador. Era preciso esquecer o passado, daqui pra frente tudo vai ser diferente etc.

Feldman teve um trajetória triste no PSDB antes de desembarcar na Rede. A ambição nunca se igualou à capacidade de ganhar votos. Foi serrista quando isso existia, saiu do partido atirando em Alckmin, voltou para a medicina — agradecendo a mamãe, naturalmente — e encontrou abrigo com Marina, tornando-se especialista automático em “sustentabilidade”.

Apanhado no tiroteio, pensou que retirar o nome de José Maria Marin da sede no Rio de Janeiro resolveria os problemas. Sua página no Facebook sumiu do ar na semana passada.

A situação de Feldman talvez só não seja tão complicada quanto a do chefe e a de outro personagem cuja nomeação causou surpresa até mesmo em Galvão Bueno: o lobista João Dória Jr..

Dória é velho amigo de Del Nero e uma indicação de Aécio Neves. Assumiu como chefe de delegação misteriosamente, sem qualquer tipo de serviço prestado ao futebol (como se se tratasse disso, na verdade).

Indagado sobre o cargo do chegança, Del Nero saiu-se com uma tirada em seu agora falecido estilo cesarista. “Não quero mais ouvir falar em caixa-preta, quero mostrar o que mais podemos fazer. Trouxemos um homem como o João Dória, que é jornalista e torce pelo Brasil.” Caixa preta?

Convenhamos que é um currículo pobre para a função, seja ela qual for. Dória é o autor, entre outras coisas, do inesquecível movimento Cansei, uma espécie de pré-MBL de bacanas entediados no governo Lula. Dória, na época um Kim Kataguiri de gumex e banho tomado, tentou provocar passeatas anticorrupção e acabou ridicularizado inclusive por Fernando Henrique Cardoso.

Nos últimos meses, em seu programa traço de tv ou em seus encontros com empresários em resorts, virou uma voz insistente pelo impeachment (sua obsessão pelo tema fez com que passasse vergonha num Roda Viva com Eduardo Cunha). “A corrupção, como metástase, propaga-se e a sociedade clama por uma cirurgia rápida. Antes que seja tarde”, escreveu na Folha de S.Paulo.

Esse tipo de indignação não inclui, obviamente, os amigos. A roubalheira na Fifa e na CBF foi escancarada e Dória nunca mais foi visto. “Destruir um patrimônio como o futebol não faz bem para o Brasil”, disse Feldman, queixando-se das críticas. Mostrar o caminho de casa a gente como esses três é uma maneira de proteger o esporte.

Kiko Nogueira
No DCM
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Mais um gênio da raça

CartaCapital não esmoreceu na exposição de uma situação que envergonha o mundo
Havelange poderia ser substituído por Totò Riina, mas o Brasil ficou quieto, salvo honrosas exceções

A Fifa é uma das várias máfias que infestam o mundo, desde 1974, quando João Havelange assumiu a presidência da entidade. Do conhecimento do próprio até nos domínios minerais. Já escrevi, sem receio de errar, que no comando da Fifa, em lugar de Havelange antes, de Blatter depois, poderiam ter chamado, em busca dos mesmos resultados, Totò Riina e Bernardo Provenzano.

Houve inúmeros jornalistas mundo afora para denunciar tramoias e roubos e federações de países de boas tradições futebolísticas que tentaram, por ocasião de eleições, colocar na presidência da Fifa alguém menos vocacionado para o papel de capo di tutti i capi. Não houve jeito, os chefões souberam como se garantir no poder de um sistema pretensamente democrático. A ONU reúne representantes de 193 países, a Fifa 209. A periferia também vota.

No Brasil, muito pouco se fez, pouco demais décadas a fio, para atingir os responsáveis pela degradação progressiva do esporte mais amado, contra a corrupção desbordante e acintosa. Na mídia, vozes isoladas, a começar por Juca Kfouri, em papel impresso, no rádio e na tevê. Alguns blogueiros, por exemplo, Luiz Carlos Azenha, autor, juntamente com três colegas, de um livro a respeito do assunto, O Lado Sujo do Futebol. Ou Paulo Henrique Amorim.

Como dizia Vittorio Gassman, modestamente também eu por onde passei. Desde seu tempo de semanal, CartaCapital não esmoreceu na exposição de uma situação que envergonha o mundo enquanto o Brasil silencia. Nem se fale do próprio Estado brasileiro, nas suas principais instâncias. Refiro-me aos poderes da República e aos instrumentos de que dispõem para agir. Nem se fale dos ministros do Esporte a se sucederem na demonstração da sua inércia, quando não da conivência. Além do mais, a Globo está envolvida no esquema, e a Globo, a gente sabe, recebe dos graúdos nativos genuflexões e curvaturas.

Move-se o FBI no combate à lavagem de dinheiro. Admitamos, porém, que Havelange soube apontar outros caminhos. Entre suas obras-primas, o acordo selado com o ditador argentino Videla para permitir a vitória dos nossos vizinhos no Mundial de 1978: recordam o 6 a 0 de Argentina vs. Peru? Ou, em contrapartida, a expulsão de Maradona em 1994 por manjadíssimo uso de cocaína quando os argentinos pintavam como campeões. Levar Blatter à presidência foi outro lance magistral daquele brasileiro decisivo, e Blatter logo provou seu talento ao comandar o roubo de 2002, que eliminou Itália, Espanha e Portugal para favorecer Japão e Coreia do Sul, votos certos a favor da bandalheira.

Mino Carta
No CartaCapital
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Aécio é prisioneiro da ultra-direita; PSDB é prisioneiro de Aécio. É esta a briga tucana.


Quem acompanhou a movimentação tucana nas últimas semanas viu, como se registrou aqui há mais de um mês, que os sinais da “guerra surda” do tucanato são cada vez mais audíveis.

A matéria da Folha, hoje, sobre a intenção do senador tucano de  lançar um “manifesto” é uma tentativa — mais uma — de equilibrar-se entre a extrema-direita que se aglutinou à sombra de sua candidatura e a “realpolitik” de um partido político real, com pretensões de poder, como é o PSDB.

Parte cada vez maior do PSDB percebe que a aventura “coxinha”, cada vez mais radicalizada e isolada, pode (e, provavelmente, vai) empolgar uma parcela do eleitorado, mas que se atirar de cabeça nela é suicídio.

Mais claro não poderia ser o artigo de Fernando Henrique Cardoso, ontem:

“A oposição de hoje será governo amanhã. Portanto, não deve escorregar para o populismo e, sim, apontar caminhos(…)”, disse ele, criticando a adesão tucana à pauta irresponsável que Eduardo Cunha e Renan Calheiros usam para enfraquecer Dilma.

Aécio diz que vai propor uma “carta de princípios”, mas sabe que que, na política, os fins é que costumam contar para a direita.

Precisa. apesar dos xingamentos que já recebe, manter-se como nome palatável para a ultra-direita.

Senão, apeado do governo de Minas e enfrentando Geraldo Alckmin e o poder de São Paulo, será um general sem tropas, abandonado até — como ameaça ser — pelo “marechal” — sem votos, mas com prestígio nos círculos tucanos — FHC.

Ao mesmo tempo, tem de lidar com uma bancada — parte tucana, parte DEM, parte em partidos pequenos — ávida pelos holofotes do “trabalhador” Eduardo Cunha, que parece se dedicar a procurar tudo que esteja em tramitação na Câmara e possa causar desgaste a Dilma para levar imediatamente a voto.

Mas Aécio, de outro lado, também detém um poder imenso sobre o partido, porque acabou por se tornar o mais identificado líder do tucanato e conta com a força inercial do processo eleitoral de 2014.

Alckmin, Serra terão, como na frase célebre, de engoli-lo na presidência do partido e na liderança formal dos tucanos.

Fazer diferente seria um sinal inaceitável para um segmento de oposição que criaram, fundado num ódio irracional a qualquer coisa que não apenas se aproxime do Governo ou do PT mas com espasmos de brutalidade, autoritarismo e elitismo inacreditáveis.

É bom lembrar o que se pergunta em Lucas, 6,39:

“Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois no buraco?”

Advertência válida para os que, do outro lado, não compreendem o que está em jogo e acham que política se faz meramente com vontades.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Duas chacinas em São Paulo – a mesma polícia, o mesmo governo

Psicanalista Maria Rita Kehl analisa casos simbólicos da violência policial em novo livro da Boitempo Editorial; leia capítulo na íntegra

Após a onda de assassinatos de jovens em maio de 2006, nasceu
o grupo "Mães de Maio"
1. A matança dos suspeitos – maio de 2006 

Vamos falar sério: alguém acredita que a rebelião do PCC (Primeiro Comando da Capital) foi controlada pela polícia de São Paulo? As autoridades apresentaram aos cidadãos evidências de que pelo menos parte da poderosa quadrilha do crime organizado foi desbaratada? O sigilo dos celulares que organizaram, de dentro das prisões, a onda de atos terroristas nos estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso etc. foi quebrado para revelar os nomes de quem trabalhou para Marcos Camacho, o Marcola, fora da cadeia? Qual foi o plano de inteligência posto em ação para debelar a investida do terror iniciada no final de semana?

Alguém acredita que “voltamos à normalidade”? Ou, se voltamos — pois a vida está mais ou menos com a mesma cara de antes, só um pouco mais envergonhada —, de que normalidade se trata?

Uma normalidade vexada. Uma vez constatada a rapidez com que os capitalistas selvagens do tráfico de drogas desestabilizaram o cotidiano do estado mais rico do Brasil, não dá para esconder o fato de que nossa precária tranquilidade depende integralmente da tranquilidade deles. Se os defensores da lei e da ordem não mexerem com seus negócios, eles não mexem conosco.

Caso contrário, se seus interesses forem afetados, eles põem para funcionar imediatamente a rede de miseráveis a serviço do tráfico, conectada através de celulares autorizados pelo sistema carcerário (que outra explicação para a falta de bloqueadores e de detectores de metal nos presídios?) e tolerada pelo governador de plantão. No caso, o mesmo governador que, na hora do aperto, rejeitou trabalhar em colaboração com a Polícia Federal e, horas depois, negou ter feito acordos com os líderes do PCC. Na segunda-feira, nos telejornais, o governador Lembo nos fez recordar a retórica autoritária dos militares: “Nada a declarar”, além de “Tudo tranquilo, tudo sob controle”. E quanto aos 80 mortos (hoje são 115), governador? Ah, aquilo. Bem, aquilo foi um drama, é claro. Lamento muito. Mas pertence ao passado. Um passado que não para de incomodar: em 2014, o grupo das chamadas Mães de Maio, que até hoje lutam para enterrar seus filhos assassinados pela polícia de São Paulo, revelou que pelo menos 493 jovens foram executados nos dias consecutivos aos ataques do PCC.

A falta de transparência na conduta das autoridades e a desinformação proposital, que ajuda a semear o pânico na população, fazem parte das táticas autoritárias do atual governo de São Paulo. Quanto menos a sociedade souber a respeito da crise que nos afeta diretamente, melhor. Melhor para quem? Na noite de segunda-feira, quando os paulistanos em pânico tentavam voltar mais cedo para casa, vi-me parada, em um dos muitos congestionamentos que bloquearam a cidade, ao lado de uma viatura policial; olhei o homem à minha esquerda e, pela primeira vez na vida, solidarizei-me com um policial. Vi um servidor público humilde, desprotegido, assustado. Cumprimentou-me com um aceno conformado, como quem diz “fazer o que, não é?”. Pensei: ele sabe que está participando de uma farsa. Uma farsa que pode lhe custar a vida.

De repente, entendi uma parte, pelo menos uma parte, da já habitual truculência da polícia brasileira: eles sabem que arriscam a vida em uma farsa. Não me refiro aos salários de fome que facilitam a corrupção entre bandidos e policiais militares. Refiro-me ao combate ao crime e à proteção da população, que são a própria razão de ser do trabalho dos policiais. Se até eu, que sou boba, percebi a farsa montada para que a polícia fingisse controlar o terror que se espalhava pela cidade enquanto as autoridades negociavam respeitosamente com Marcolas e Macarrões, imagino a situação de meu companheiro de engarrafamento. Imagino a falta total de sentido do exercício arriscado de sua profissão. Imagino o sentimento de falta de dignidade desses que têm licença para matar os pobres, mas sabem que não podem mexer com os interesses dos ricos, nem mesmo dos que estão trancados em presídios de segurança máxima e restrições mínimas.

Mas é preciso trabalhar, tocar a vida, exercer o trabalho sujo no qual não botam fé nenhuma. É preciso encontrar suspeitos, enfrentá-los a tiros, mostrar alguns cadáveres à sociedade. Satisfazer nossa necessidade de justiça com um teatro de vingança. A esquizofrenia da condição dos policiais militares foi revelada por algumas notícias de jornal: encapuzados como bandidos, executam inocentes sem razão alguma para, a seguir, exibindo a farda, fingirem ter chegado a tempo de levar a vítima para o hospital.

Isso é o que alguns policiais militares (por que militares? Até quando vamos conviver com essa herança da ditadura?) fazem na periferia, nos bairros pobres onde também eles moram, onde o desamparo em relação à lei é mais antigo e mais radical do que nas regiões centrais da cidade. Nas ruas escuras das periferias, os policiais cumprem seu dever de vingança e atiram no entregador de pizza. Atiram no menino que esperava a noiva no ponto de ônibus ou nos anônimos que conversam desprevenidos numa esquina qualquer. No motoboy que fugiu assustado – Quem mandou fugir? Alguma ele fez... Não percebem — ou percebem? — que o arbítrio e a truculência com que tratam a população pobre contribui para o prestígio dos chefes do crime, que às vezes se oferecem às comunidades como única alternativa de proteção.

Assim a polícia vem “tranquilizando” a cidade ao apresentar um número de cadáveres “suspeitos” superior ao número de seus companheiros mortos pelo terrorismo do tráfico. Suspeitos que não terão nem ao menos a sorte do brasileiro Jean Charles, cuja morte será cobrada da polícia inglesa porque dela se espera que não execute sumariamente os cidadãos que aborda, por mais suspeitos que possam parecer. Não é o caso dos meninos daqui; no Brasil, ninguém, a não ser os familiares das vítimas, reprova a polícia pelas execuções sumárias de centenas de “suspeitos”. Mas até mesmo os familiares têm medo de denunciar o arbítrio e sofrer retaliações.

Aqui, achamos melhor fingir que os suspeitos eram perigosos e que o assassinato deles é condição para nossa segurança. Deixemos Marcola em paz, pois ele só cuida de seus negócios. Negócios que, se legalizados, deixariam o campo de forças muito mais claro e menos violento (morre muito mais gente inocente na guerra do tráfico do que morreriam de overdose, se as drogas fossem liberadas — disso estou certa). Mas são negócios cujos lucros astronômicos dependem da ilegalidade. O crime é que compensa.

Então ficamos assim: o Estado negocia seus interesses com os de Marcola, um homem poderoso, fino, que lê Dante Alighieri e tem muito dinheiro. Deixa em paz os superiores de Marcola, que vivem soltos por aí, no Congresso, talvez, ou abrigados em algumas secretarias de governo. Deles, pelo menos, a população sabe o que pode e o que não pode esperar. E já que é preciso dar alguma satisfação à sociedade assustada, deixemos a polícia à vontade para matar suspeitos na calada da noite. Os policiais se arriscam tanto, coitados. Ganham tão pouco para servir à sociedade e podem tão pouco contra os criminosos de verdade. Eles precisam acreditar em alguma coisa, precisam de alguma compensação. Já que não temos justiça, por que não nos contentarmos com a vingança? Os meninos pardos e pobres da periferia estão aí pra isso mesmo. Para morrerem na lista dos suspeitos anônimos. Para serem executados pela polícia ou pelos traficantes. Para se viciarem em crack e se alistarem nas fileiras dos soldadinhos do tráfico. Para sustentar nossa ilusão de que os bandidos estão nas favelas e de que, do lado de cá, tudo está sob controle.

2. Resistência seguida de morte

Seis anos depois da matança indiscriminada de 2006, os jornais noticiaram mais uma chacina qualificada pelo comando da PM como “resistência seguida de morte”.

“Quem não reagiu está vivo”, disse o governador de São Paulo ao defender a ação da Rota na chacina que matou nove supostos bandidos numa chácara em Várzea Paulista, no dia 12 de setembro de 2012. A seguir, tentando aparentar firmeza de estadista, garantiu que a ocorrência seria rigorosamente apurada. Eu me pergunto se é possível confiar na lisura do inquérito, quando o próprio governador já se apressou em legitimar o morticínio praticado pela PM que responde ao comando dele.

“Resistência seguida de morte”, assim agentes das polícias militares, integrantes do Exército brasileiro e diversos matadores freelance justificavam as execuções de supostos inimigos públicos que militavam pela volta da democracia durante a ditadura civil militar, a qual oprimiu a sociedade e tornou o país mais violento, menos civilizado e muito mais injusto entre 1964 e 1985.

Suprimida a liberdade de imprensa, criminalizadas quaisquer manifestações públicas de protesto, o Estado militarizado teve carta branca para prender sem justificativa, torturar e matar cerca de 400 estudantes, trabalhadores e militantes políticos (dentre os quais, 141 permanecem desaparecidos e outros 44 nunca tiveram o corpo devolvido às famílias — tema atual de investigação pela Comissão Nacional da Verdade). Esse número, por si só alarmante, não inclui os massacres de milhares de camponeses e índios em regiões isoladas e cuja conta ainda não conseguimos fechar. Mais cínicas do que as cenas armadas para aparentar trocas de tiros entre policiais e militantes cujo corpo era entregue totalmente desfigurado às famílias, foram os laudos que atestavam os inúmeros falsos “suicídios”. A impunidade dos matadores estava tão garantida que não se preocupavam em justificar as marcas de tiros pelas costas, as pancadas na cabeça e os hematomas em várias partes do corpo de prisioneiros “suicidados” sob sua guarda.

Quando o Estado, que deveria proteger a sociedade a partir de suas atribuições constitucionais, investe-se do direito de mentir para encobrir seus próprios crimes, ninguém mais está seguro. Engana-se a parcela das pessoas de bem que imagina que a suposta “mão de ferro” do governador de São Paulo seja o melhor recurso para proteger a população trabalhadora. Quando o Estado mente, a população já não sabe mais a quem recorrer. A falta de transparência das instituições democráticas — qualificação que deveria valer para todas as polícias, mesmo que no Brasil ainda permaneçam como militares — compromete a segurança de todos os cidadãos.

Vejamos o caso da última chacina cometida pela PM paulista, cujos responsáveis o governador de São Paulo se apressou em defender. Não é preciso comentar a bestialidade da prática, já corriqueira no Brasil, de invariavelmente só atirar para matar — frequentemente, com mais de um tiro. Além disso, a justificativa apresentada pelo governador tem pelo menos uma óbvia exceção. Um dos mortos foi o suposto estuprador de uma menor de idade, que acabava de ser julgado pelo “tribunal do crime” do PCC na chácara de Várzea Paulista; não faz sentido imaginar que os bandidos tivessem se esquecido de desarmar o réu Maciel Santana da Silva, que foi assassinado junto com os outros supostos resistentes. Aliás, o “tribunal do crime” acabara de inocentar acusado: o  senso de justiça da bandidagem nesse caso está acima do da PM e do próprio governo do Estado. Maciel Santana morreu desarmado. E, apesar da ausência total de marcas de tiros nos carros da PM, assim como de mortos e feridos do outro lado, o governador não se vexa em utilizar a mesma retórica covarde dos matadores da ditadura — “resistência seguida de morte” em versão atualizada é “quem não reagiu está vivo”.

Ora, do ponto de vista do cidadão desprotegido, qual é a diferença entre a lógica do tráfico, do PCC e da política de Segurança Pública do governo do Estado de São Paulo? Sabemos que, depois da onda de assassinatos de policiais a mando do PCC, em maio de 2006, 168 jovens foram executados na rua pela polícia, entre chacinas não justificadas e casos de “resistência seguida de morte”, numa ação de vendetta que não faria vergonha à Camorra. Muitos corpos não foram até hoje entregues às famílias e jazem insepultos por aí, tal como aconteceu com jovens militantes de direitos humanos assassinados e desaparecidos no período militar. Resistência seguida de morte, não: tortura seguida de ocultação do cadáver.

Desde janeiro de 2012, escreveu Rogério Gentile, a PM da capital matou 170 pessoas, um número 33% maior do que os assassinatos da mesma ordem em 2011. O crime organizado, por sua vez, executou 68 policiais. Quem está seguro nessa guerra em que as duas partes agem fora da lei? As pesquisadoras norte-americanas Kathryn Sikkink e Carrie Booth Walling revelaram que o Brasil foi o único país da América Latina em que o número de assassinatos cometidos pelas polícias militares aumentou, em vez de diminuir, depois do fim da ditadura civil militar. Mudou o perfil socioeconômico dos mortos, torturados e desaparecidos, diminuiu o poder das famílias em mobilizar autoridades para conseguir justiça, mas a mortandade continua, e a sociedade brasileira descrê da democracia.

Hoje os supostos maus policiais talvez sejam minoria, e não seria difícil apurar suas responsabilidades se houvesse vontade política do governo. No caso do terrorismo de Estado praticado no período investigado pela CNV, mais importante do que revelar os já conhecidos nomes de agentes policiais que se entregaram à barbárie de torturar e assassinar prisioneiros indefesos é nomear toda a cadeia de mando acima deles. Se a tortura aos oponentes da ditadura foi acobertada, quando não consentida ou ordenada por autoridades do governo, o que pensar das chacinas cometidas em plena democracia, quando governadores empenham sua autoridade para justificar assassinatos cometidos pela polícia sob seu comando? Como confiar na seriedade da atual investigação conduzida depois do veredicto do governador Alckmin, desde logo favorável à ação da polícia?

Qual lisura se pode esperar das investigações de graves violações de direitos humanos cometidas hoje por agentes do Estado, quando a eliminação sumária de supostos criminosos pelas PMs segue os mesmos procedimentos e goza da mesma impunidade das chacinas cometidas por quadrilhas de traficantes? O inquietante paralelismo entre as ações da polícia e dos bandidos põe a nu o desamparo de toda a população civil diante da violência, que tanto pode vir dos bandidos quanto da polícia. “Chame o ladrão”, cantava o samba que Chico Buarque compôs sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Hoje “os homens” não invadem mais as casas de cantores, professores e advogados, mas continuam a arrastar moradores “suspeitos” das favelas e das periferias para fora dos barracos, ou a executar garotos reunidos para fumar um baseado nas esquinas das periferias das grandes cidades. Do ponto de vista da segurança pública, esse tiro sai pela culatra. “Combater a violência com mais violência é como tentar emagrecer comendo açúcar”, teria dito o grande psicanalista Hélio Pellegrino, morto em 1987.

E o que é mais grave: hoje, como antes, o Estado deixa de apurar tais crimes e, para evitar aborrecimentos, mente para a população. O que parece ser decidido em nome da segurança de todos produz o efeito contrário. O Estado, ao mentir, coloca-se acima do direito republicano à informação — portanto, contra os interesses da sociedade que pretende governar. O Estado, ao mentir, perde legitimidade — quem acredita nas “rigorosas apurações” do governador de São Paulo? Quem já viu algum resultado confiável de uma delas? Pensem no abuso da violência policial durante a ação de despejo dos moradores do Pinheirinho... O Estado mente e desampara os cidadãos, tornando a vida social mais insegura ao desmoralizar a lei. A quem recorrer, então?

A lei é simbólica e deve valer para todos, mas o papel das autoridades deveria ser o de sustentar, com transparência, a validade dela. O Estado que pratica vendetta como uma organização criminosa destrói as condições de sua própria autoridade, que, em consequência disso, passará a depender de mais e mais violência para se sustentar.

*Trecho do livro "Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação", quarto volume da coleção Tinta Vermelha, que será lançado no Seminário Internacional Cidades Rebeldes

Ficha técnica
Título: Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação
Autor: Vários autores
Prólogo e quarta capa: Marcelo Freixo
Apresentação: Guaracy Mingardi
Ilustrações: Rafa Campos
Ensaio fotográfico: Luiz Baltar
Páginas: 128
ISBN: 978-85-7559-441-4
Preço: R$ 10,00 impresso | R$ 5,00 e-book
Coleção: Tinta Vermelha
Ano: 2015
Editora: Boitempo

No CartaCapital
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O negócio milionário da homofobia


Quando gente como Silas Malafaia ou Marco Feliciano abre a boca para vomitar ódio contra homossexuais, deve-se pensar cada vez menos em religião e mais em dinheiro.

Siga o dinheiro, sempre ele.

O que faz o sucesso de um pastor? Um rebanho grande, uma multidão disposta a tudo para expulsar de suas vidas o que identificam como o demônio, o diabo, o tranca-rua, o coisa-ruim, aquele que atrasa as coisas; o “inimigo”, enfim.

O inimigo tem as faces de sempre: as drogas e o álcool, o adultério, o vício no jogo, o fracasso financeiro, etc etc.

O rebanho paga bem, muito bem, para se ver livre do demônio. Milhões e milhões de reais livres de impostos.

E o “demônio” que mais assusta o Brasil conservador, você imagina qual é: é um diabo que faz você ouvir Madonna e bebericar cosmopolitans. Em pesquisa do Ibope feita há três anos, 24% dos brasileiros disseram que se afastariam de um colega de trabalho caso descobrissem que ele é gay. No mesmo estudo, 55% se colocaram contra a união de pessoas do mesmo sexo. Entre as pessoas de mais de 50 anos, o número subia para 73%.

Toda vez, portanto, que Malafaia aparece dizendo que está “aqui pra dizer que a família é milenar, homem, mulher e sua prole”, ele está ouvindo o dinheiro tilintar na caixa registradora. Quando ganha fachada ao pedir o boicote a uma novela ou um comercial de perfume que ousem retratar a realidade, ele ouve o farfalhar das notas.

Toda vez que Marco Feliciano escreve (sic) no Twitter que “A podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam ao ódio, ao crime, à rejeição”, ele liga para o salão de beleza e encomenda o alisamento capilar mais caro que o dinheiro pode comprar.

Até quando vira notícia porque seu site é invadido por hackers que pintaram a página inicial com as cores do arco-íris, Feliciano vai sorrindo a caminho do banco.

Você não precisa acreditar em mim. Acredite (se conseguir) em Malafaia. Veja um tweet dele:


São homens que vivem do medo, que vivem de incitar o preconceito e o ódio para vender a solução em seus templos. São homens ricos que ficarão mais ricos em meio a cada polêmica.

Porque simplesmente não há punição contra seus crimes de ódio contra cidadãos brasileiros que nada de errado fizeram.

Instilando o desespero na mente das pessoas, associando os gays à decadência moral, a doenças e comportamento criminoso, eles conseguem, lá na frente, cacife político para colocar um Eduardo Cunha na presidência da Câmara. O mesmo abominável que trava toda a agenda de inclusão GLBT e que, em silêncio, aprovou na semana passada mais isenção tributária a igrejas.

(Cunha, aliás, é dono de uma mega rádio gospel, onde se criou como força política. Seu apetite para ganhar dinheiro em nome do Senhor é tão grande que o rapaz se adonou de 154 domínios de internet com a palavra “Jesus”.)

Ter preconceito contra homossexuais, portanto, é um bom negócio. Quem sabe não se arranja até espaço para promover a “cura gay”, como quis Feliciano enquanto presidia a Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Imagine quanto se cobra a uma faxineira para “endireitar” o filho boiola por aí.

Uma das raízes da palavra homofobia é, não à tôa, “medo”; na socidade ocidental, há séculos o homossexualismo é alvo do que pode se classificar de medo irracional.

Algumas linhas da psicologia afirmam que a homofobia não passa da projeção de um medo interior de sentir atração por alguém do mesmo sexo. Proibindo que a homossexualidade aconteça fora dele, o indivíduo acredita estar em segurança com seus impulsos indesejáveis. É um mecanismo rudimentar de autopreservação do aparelho psicológico.

É comum achar que sim, mas não acho que nossos pastores sejam gays enrustidos. Duvido até que sejam, realmente, homofóbicos.

São capitalistas declarados, isso sim. Gênios da publicidade gratuita, manipulam o medo dos pobres e segregam quem nada tem a ver com seu sonho de poder.

Marcelo Zorzanelli
No DCM
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Elogio de revista estrangeira ao SUS causa mimimi de médicos brasileiros

Agente de saúde da família em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. 
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Uma das mais antigas e prestigiadas publicações sobre Medicina do mundo, o norte-americano The New England Journal of Medicine, publicou esta semana um artigo onde avalia de forma muito positiva nosso SUS (Sistema Único de Saúde). Cobre de elogios o programa de saúde da família (Estratégia de Saúde da Família), com os agentes vivendo próximos aos pacientes e sobretudo a total gratuidade do SUS — as pessoas provavelmente não se dão conta quão raro é encontrar em outros países um sistema em que não é preciso pagar para ser atendido por um médico.

Entre as falhas do sistema, o fato de o governo destinar ainda pouco dinheiro do orçamento à saúde em relação a outros países desenvolvidos e não ter conseguido estender a rede também à classe média, que tanto o critica mas não o procura, a não ser em caso de desastre. E o pior: a tecnologia atrasadíssima, segundo os pesquisadores. “Ainda assim, o mundo pode aprender algumas lições da experiência brasileira”, conclui o texto.

Mas foi só o artigo aparecer nas redes sociais para que alguns médicos brasileiros reagissem furiosamente ao post do NEJM no Facebook. “Este artigo é uma mentira”, bradou um. “Quanto o governo brasileiro pagou por este artigo?”, vociferou outro. “Os autores nunca estiveram no Brasil”, “é uma piada”, “provavelmente foi pago por interessados no escândalo da Petrobras”. Confira aqui.

facemédicos

Será que estamos sendo injustos com o SUS? Sem dúvida o texto nos transmite uma visão no mínimo mais esperançosa sobre o sistema de saúde brasileiro do que a nossa mídia faz todos os dias. Um leitor traduziu e enviou para mim. Leia, vale muito a pena.

* * *

A Estratégia de Saúde da Família brasileira — Prestando Cuidados Primários à Comunidade em um Sistema Universal de Saúde

Por James Macinko, Ph.D., e Matthew J. Harris, M.B., B.S., D.Phil.
No The New England Journal of Medicine
Tradução: Gustavo Ferreira Correia

O Brasil tem feito rápidos progressos rumo à cobertura universal da população através de seu sistema nacional de saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS). Desde o fim da ditadura em 1985, o Brasil, quinta maior população e sétima maior economia do mundo, tem investido substancialmente na expansão do acesso aos cuidados de saúde para todos os cidadãos, uma meta presente na Constituição brasileira e nos princípios orientadores do sistema nacional de saúde. O SUS compreende instituições e prestadores de cuidados de saúde públicos e privados, financiados principalmente através de impostos com contribuições dos governos federal, estaduais e orçamentos municipais. A gestão de cuidados de saúde é descentralizada, e os municípios são responsáveis pela maioria dos serviços de cuidados primários, bem como alguns hospitais e outras instalações.

Todos os serviços de saúde são financiados com recursos públicos e os medicamentos mais comuns são universalmente acessíveis e gratuitos nos locais de atendimento para todos os cidadãos, mesmo os 26% da população inscritos em planos de saúde privados. Uma inovação importante no sistema tem sido o desenvolvimento, adaptação e rápida intensificação de uma abordagem baseada na comunidade para prestação de cuidados de saúde primários. Depois de se originar no estado nordestino do Ceará na década de 1990 como um programa de saúde materno-infantil contando com agentes comunitários de saúde (pessoas leigas, membros da comunidade que são contratadas como membros da equipe de cuidados de saúde), o Programa de Saúde da Família (agora chamado de Estratégia de Saúde da Família ou ESF) evoluiu para uma abordagem sólida de prestação de cuidados primários para populações definidas selecionadas pelas equipes interdisciplinares de saúde.

O núcleo de cada equipe de saúde da família inclui um médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e 4-6 agentes comunitários de saúde em tempo integral. Equipes de saúde da família são organizadas geograficamente, abrangendo populações de até 1.000 famílias cada, sem sobreposição ou lacuna entre bacias hidrográficas. Cada membro da equipe de saúde da família tem papéis e responsabilidades definidas e manuais nacionais ajudam a estruturar as respostas do sistema de saúde da família para a maioria dos problemas de saúde. O ritmo de crescimento do sistema de Saúde da Família tem sido notável: a partir de cerca de 2000 equipes, incluindo agentes de saúde de 60 mil comunidades que prestam serviços a 7 milhões de pessoas (4% da população brasileira), em 1998, para 39 mil equipes que incorporam mais de 265 mil agentes comunitários de saúde, além de 30.000 equipes de saúde bucal, juntas servindo 120 milhões de pessoas (62% da população) em 2014.

Talvez o componente do sistema de saúde da família mais importante seja o uso extensivo e eficaz dos agentes comunitários de saúde. A cada agente é atribuído cerca de 150 famílias em uma micro-área geograficamente delineada na sua área de influência geralmente a mesmo micro-área onde o agente vive. Os agentes visitam cada casa dentro de sua micro-área, pelo menos, uma vez por mês, independentemente da necessidade ou demanda, para coletar dados individuais e ao nível familiar. Durante cada visita, eles desempenham, conforme a necessidade, um conjunto de atividades de promoção da saúde e cuidados clínicos básicos que abrangem todo o curso da vida. Eles podem perguntar aos membros da família porque eles perderam uma consulta (e ajudar a programar uma nova), verificar se as prescrições foram preenchidas e se os pacientes têm tomado os seus medicamentos regularmente, perguntam sobre as alterações à composição dos membros da família, e identificam sinais de alerta potencial no que diz respeito a violência, negligência, evasão escolar, ou uso de drogas, entre outros problemas. Eles também procuram ativamente fatores de risco como tabagismo e sintomas da doença crônica comum, como hipertensão e diabetes. Os agentes comunitários de saúde ajudam, assim, a transpor o fosso entre os cuidados primários e os esforços de saúde pública.

Projetado para executar várias funções importantes de cuidados primários, o sistema de saúde da família possui muitas das melhores práticas. O acesso e o primeiro contato de cuidados são facilitadas pela localização de equipes de saúde perto das casas das pessoas. As listas de todos os residentes em cada área geográfica permitem ofertar cuidados longitudinais, e cada equipe é responsável por todos em sua área de influência. Atendimento integral é fornecido por equipes interdisciplinares cujo âmbito de prática tem aumentado gradualmente. Tal cuidado é pró-ativo, uma vez que os agentes comunitários de saúde procuram problemas antes que os pacientes cheguem ao posto de saúde. As equipes também oferecem intervenções de saúde pública, como a busca por focos de doenças transmissíveis e campanhas de imunização. Equipes de saúde têm se expandido ao longo do tempo e cada vez mais incluem profissionais como dentistas e técnicos de prótese dentária. Apoio adicional foi prestado através do desenvolvimento de equipes multidisciplinares de cuidados primários, conhecidos como Núcleos de Apoio à Saúde da Família, que podem incluir nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, psiquiatras, farmacêuticos comunitários, especialistas em educação física, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, ginecologista-obstetra, geriatras, clínicos gerais, especialistas em saúde pública, entre outros.

Orientações comunitárias e familiares são alcançados através de visitas domiciliares dos agentes comunitários de saúde e através do trabalho com as escolas e organizações comunitárias. As equipes de saúde da família ligam os usuários de cuidados de saúde com os programas sociais, tais como os programas de transferência condicional de renda (em que as pessoas recebem pagamentos da Previdência Social se mantiverem seus filhos na escola e em dia com as imunizações). As equipes também podem estabelecer ligações com os serviços de água e saneamento,a Justiça e com as escolas. A orientação do tratamento recebida em outros lugares é idealmente realizada pela equipe de saúde da família, embora esta meta seja talvez a mais difícil de alcançar, dada a limitada disponibilidade de especialistas no sistema nacional de saúde e de serviços de diagnóstico e desigual infra-estrutura de tecnologia da informação.

A evidência sugere que as equipes de saúde da família/Estratégia de Saúde da Família proporcionam um melhor acesso e qualidade e resultam em maior satisfação do usuário do que os postos e centros de saúde tradicionais ou até mesmo algumas unidades de cuidado de saúde do setor privado. Numerosos estudos mostraram que a expansão das equipes de saúde de família tem resultado em melhorias na saúde infantil, incluindo reduções grandes e sustentáveis na mortalidade infantil, e, em particular, a mortalidade pós-neonatal por diarréia e infecções respiratórias. Entre os adultos, a expansão das equipes de saúde da família tem sido associadas à redução da mortalidade por causas cardiovasculares e cerebrovasculares, grandes reduções nas taxas de internação por condições sensíveis ao cuidado ambulatorial, e as taxas reduzidas de complicações de algumas doenças crônicas, como diabetes.

Durante a última década, a expansão do programa de saúde da família de seu foco inicial em municípios e regiões mais pobres do que a média tem desempenhado um papel importante na redução das desigualdades no acesso e utilização dos serviços de saúde. Há também evidências de que a Estratégia de Saúde da Família tem melhorado a detecção de casos de doenças tropicais negligenciadas, reduzido as disparidades na saúde oral, e mesmo aumentado o relato de estatísticas vitais. Apesar das suas muitas realizações, o sistema de saúde brasileiro enfrenta sérios desafios financeiros e organizacionais. Embora a despesa total em saúde no Brasil seja semelhante à média de cerca de 9% do produto interno bruto (PIB) encontrada entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), menos de metade deste montante provém de fontes públicas uma proporção que coloca o Brasil muito abaixo da média da OCDE na participação do governo dos gastos com saúde.

Na frente de recursos humanos, a rápida expansão da Estratégia de Saúde da Família levou a uma escassez de médicos e o Brasil respondeu a esta necessidade com o controverso programa Mais Médicos, importando cerca de 15 mil médicos de Cuba e de outros países. Desde que a responsabilidade pela gestão das equipes de Saúde de Família encontra-se com os municípios, também existem grandes variações na capacidade e qualidade das equipes de saúde da família, incluindo a disponibilidade variada de equipamentos básicos, padrões variados de pessoal e disponibilidade de diferentes tipos de profissionais de saúde, e gestão variada e outros apoios institucionais para as equipes. Como muitos sistemas de saúde, o SUS se esforça para atender às novas necessidades de uma população que envelhece rapidamente e para cumprir o seu mandato constitucional de alcançar o acesso equitativo aos serviços para todos os cidadãos.

Até agora, o programa de Saúde da Família tem se concentrado nos segmentos mais pobres de muitos municípios e, embora essa abordagem tenha melhorado a equidade na saúde, é um desafio chegar aos brasileiros de classe média, que podem preferi-lo em vez de procurar os serviços no setor privado. Pelo menos parcialmente, em resposta aos protestos públicos sobre a necessidade de maior investimento público na área da saúde, o governo brasileiro lançou um dos maiores programas do mundo de pagamento por desempenho dentro do programa de Saúde da Família para acelerar os investimento no sistema público. Estes novos recursos são vinculados a melhorias medidas na gestão dos serviços de saúde, na qualidade técnica do atendimento e na satisfação do usuário.

Finalmente, o uso da tecnologia está severamente atrasado no SUS. Novas propostas incluem o desenvolvimento de registros nacionais de saúde eletrônicos e maior acesso a ferramentas de diagnóstico na atenção primária.

Ainda assim, o mundo pode aprender algumas lições da experiência brasileira. Em primeiro lugar, os cuidados primários com base na comunidade podem funcionar se feitos corretamente. Exige um plano sólido, geração de evidências e projetos-piloto, uma visão de longo prazo, e o compromisso de manutenção financeira e política. O Sistema de Saúde da Família tem uma ótima relação de custo-benefício: o Brasil gasta hoje cerca de 50 dólares por pessoa anualmente no programa. Mas a ampliação de tal empreendimento exigiu adaptação e investimento contínuo, especialmente à luz das diferenças geográficas e das necessidades de saúde da população, diferentes capacidades municipais e recursos de saúde, e evolução da prática médica – um desafio que pode ser aplicado em outros países também. Por fim, a construção de um sistema de cuidados de saúde primários robusto é mais do que um exercício burocrático; no Brasil, tem requerido movimentos sociais e compromisso profissional de longo prazo.

O futuro da estratégia de saúde da família do Brasil, sua expansão sustentada para os demais centros urbanos e para o acesso da classe média, e sua integração efetiva na atenção secundária e terciária exigirá engajamento dos prestadores de cuidados de saúde e continuidade dos investimentos públicos financeiros, técnicos e intelectuais – todos os quais, em última instância, dependem de apoio político.

GRAVIDEZ E PARTO

Uma mulher de 23 anos de idade, saudável, está grávida pela primeira vez.

Quando a sra. Silva suspeita que está grávida, ela diz a seu primeiro agente comunitário de saúde confiável e vizinho, a sra. Oliveira. A sra. Oliveira marca uma consulta para a sra. Silva no posto de saúde da Estratégia de Saúde da Família (ESF), onde o assistente da enfermeira verifica a pressão arterial e peso. A sra. Silva, em seguida, assiste a uma sessão de pequenos grupos sobre a gravidez, parto e amamentação em que os participantes que já tiveram filhos também vão partilhar as suas experiências. Ela também pode participar de uma aula de meditação para mulheres grávidas ou participar de outros programas disponíveis em alguns postos de saúde.

Como a gravidez da sra. Silva é normal (saudável), ela recebe o pré-natal da enfermeira, mas se surgirem complicações, ela vai ser encaminhada para o médico da equipe de saúde da família. Ela recebe um cartão com seu registro do paciente e a enfermeira preenche uma cópia para os registros da equipe de saúde. A enfermeira oferece à sra. Silva informação sobre a gravidez, sífilis e HIV, e fornece cuidados preventivos de saúde padrão que ela precise, tais como imunizações. Como seu posto de saúde tem um dentista, a sra. Silva aproveita a oportunidade para ter seus dentes avaliados. Ela, em seguida, será enviada para o centro de saúde municipal para fazer exames de sangue e urina. Se a sra. Silva perde uma consulta de cuidados pré-natal, a sra. Oliveira verifica e ajuda a reprogramar sua visita.

Quaisquer medicamentos que ela requeira estão disponíveis gratuitamente no posto de saúde, uma vez que a sra. Silva está registrada no serviço de Saúde da Família. Ela deve pagar apenas para se deslocar para o centro de saúde municipal para os exames e para a maternidade local, quando entrar em trabalho de parto. Provavelmente vai ter um parto normal, embora as cesarianas sejam comuns (mais de 50%) entre as mulheres de classe média com planos de saúde privados.

Após o parto, os cuidados pós-natais, incluindo controles pediátricos rápidos, serão na maternidade, mas a sra. Silva receberá uma visita em casa da sra. Oliveira e a enfermeira da equipe de saúde da família no dia em que ela retornar para casa. Visitas domiciliares subseqüentes serão agendadas dependendo da necessidade. A senhora Oliveira e a enfermeira vão acompanhar o crescimento e desenvolvimento do bebê quinzenalmente no início e, em seguida, mensalmente durante os primeiros dois anos.

INFARTO DO MIOCÁRDIO

Um homem de 55 anos de idade, sem condições graves de saúde, tem um infarto do miocárdio moderadamente grave.

Quando o sr. Santos sente a dor no peito vai direto ao posto de saúde local da Estratégia de Saúde da Família (ESF) e é imediatamente atendido por um médico. É colocado na sala de observação, onde recebe oxigênio e um analgésico. O posto de saúde carece de eletrocardiograma (ECG) e de equipamentos, de modo que o médico chama uma ambulância, que, como o posto de saúde está a 5 quilômetros da cidade, leva 20 minutos para chegar.

No hospital, o sr. Santos é levado primeiro para a clínica de atenção secundária, onde seu infarto do miocárdio é confirmado no ECG. Se for o caso, ele receberá trombolíticos. No entanto, devido à gravidade do infarto, é transferido para a UTI do hospital universitário para ser submetido a uma angioplastia. Ele permanece no hospital durante seis dias. O dia em que volta para casa, o sr. Santos é visitado por seu agente comunitário de saúde, que vive nas proximidades e que o ajuda a entender os propósitos de seus novos medicamentos e a elaborar um cronograma de administração.

Ela também fala com ele sobre as mudanças dietéticas recomendadas e oferece conselhos de estilo de vida sobre temas como interrupção do tabagismo, perda de peso e atividade física. Em seguida, ela agenda para o médico que primeiro viu o sr. Santos no posto da ESF para visitá-lo em casa. Infelizmente, o paciente não recebeu um sumário de alta, de modo que o médico não tem nenhuma maneira de saber qual o tratamento que recebeu no hospital, exceto os aspectos que o sr. Santos foi informado e compreendeu.

A implementação de tecnologia planejada deverá permitir a transferência de informações do hospital para os postos de saúde. O médico providencia para que o sr. Santos receba visitas domiciliares de um Núcleo de Apoio à Saúde da Família, uma equipe que inclui um fisioterapeuta e um psicólogo, entre outros. Todos estes serviços são pagos pelo município do sr. Santos e pelo governo brasileiro.

(Original em inglês aqui)

No Socialista Morena
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Mais um case para as faculdades de comunicação


Aproveito que as faculdades de comunicação tem convidado o Cafezinho para dar palestras e lhes ofereço, gratuitamente, outro “case” clássico de manipulação da notícia.

O título da matéria é tão ridículo que não preciso nem analisar longamente.

“Deputado petista contratou filho de empresário ligado a Pimentel”…

É piada pronta.

Esse “ligado”, então, é uma obra-prima!

O que mais vem por aí?

“Deputado petista contrata filho de advogado, que é ligado a empresário vizinho de um arquiteto ligado ao primo de terceiro grau de uma ex-faxineira da Dilma”?

Aécio Neves, ex-governador de Minas, encheu os conselhos de estatais de parentes seus, incluindo seu pai, ex-deputado da ditadura; sua irmã controlava as verbas de publicidade do governo; construiu aeroporto em terras de família; nomeou juiz que soltava traficante; e a Folha agora quer pegar o Pimentel com essa palhaçada de “deputado petista contratou filho de empresário ligado a…”?

Pelo amor de Deus, o golpismo da Folha já foi mais sofisticado!

Senhora Ombudsman, que vergonha!

Ah, o anúncio eterno pró-impeachment continua firme e forte na capa do caderno de política, da Folha.

Repare que a ilustração deixa bem claro: é o impeachment da Dilma, não de Beto Richa, não de Alckmin.

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Miguelo do Rosário
No Cafezinho
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Dilma diz ser 'impossível' ligação entre ela e corrupção na Petrobras


Em entrevista a canal francês, presidente foi questionada sobre o caso.
Dilma disse que nunca teve acusação contra ela por qualquer malfeito.

A presidente Dilma Rousseff afirmou em entrevista ao canal francês TV France 24 que é “impossível” que se aponte ligação entre ela e o escândalo de corrupção que atuava na Petrobras, revelado pela Operação Lava Jato. A entrevista ocorreu na última sexta (5) e foi ao ar nesta segunda (8).

A Lava Jato investiga suspeitas de pagamento de propina a funcionários da estatal, políticos e partidos em troca de contratos com a petroleira. Delatores revelaram à Justiça Federal do Paraná que um grupo de construtoras montou um cartel para superfaturar obras da Petrobras. A operação policial culminou na prisão de executivos da estatal e de grandes empreiteiras do país.

Dilma deu a declaração após o jornalista francês que a entrevistava questionar se a petista estaria apta a assumir as consequências, caso as investigações apontem que ela sabia do esquema na estatal. Em resposta, a presidente afirmou que “lutará até o fim” para mostrar que não fez parte dos crimes cometidos na petroleira.

“Eu não estou ligada [ao escândalo]. Eu não respondo a esta questão porque eu não estou ligada. Eu sei que não estou nisso. É impossível. Eu lutarei até o fim para demonstrar que eu não estou ligada. Eu sei o que eu faço. E eu tenho uma história por trás de mim. Neste sentido, eu nunca tive uma única acusação contra mim por qualquer malfeito. Então, não é uma questão de ‘se’. Eu não estou ligada”, disse a presidente.

A declaração de Dilma ao canal francês faz parte de uma série de entrevistas que ela concedeu na semana passada a veículos de imprensa europeus. Nesta terça (9), a petista embarcará para Bruxelas (Bélgica), onde participará nos dias 10 e 11 da Cúpula União Europeia – Celac, que reunirá líderes de países europeus e do continente americano. A presidente também falou à TV Deutsch Welle (Alemanha) e Le Soir Belgique (Bélgica).

Na entrevista à TV France 24, Dilma afirmou também que, na sua opinião, o esquema de corrupção que agia na estatal do petróleo não pode ser chamado de “escândalo da Petrobras” porque “cinco funcionários” se envolveram nas irregularidades. A presidente disse também que o escândalo diz respeito a funcionários que se articularam com algumas diretorias e com alguns partidos para “obter benefícios”.

Desde o início do ano, Dilma tem saído em defesa da Petrobras em eventos públicos. Ela, por exemplo, afirmou que a companhia “merece” o fim da corrupção. Na posse do ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, a presidente da República também comentou o assunto e ressaltou que a “luta” para recuperar a estatal é dela e do atual governo.

“E é muito importante entender que a Petrobras tem mais de 30 mil empregados e tem cinco envolvidos. O escândalo da Petrobras não é escândalo da Petrobras, é escândalo de um determinado funcionário que era diretor na Petrobras”, disse a presidente na entrevista à emissora de televisão francesa.

Ajuste fiscal

Em meio à entrevista à TV France 24, Dilma defendeu ainda as medidas de ajuste fiscal que o governo propôs para reduzir gastos e reequilibrar as contas da União. Segundo a presidente, o ajuste “não paralisa” o governo nem impede investimentos federais na área de infraestrutura.

O Executivo federal anunciará nesta terça (9) o novo pacote de concessões em áreas como portos, aeroportos e rodovias.

"Quando mudanças são necessárias, temos que ter coragem de fazê-las. É o que estamos fazendo. Estamos fazendo ajustes para voltar a crescer rápido", destacou a presidente da República à TV francesa.

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Polícia 'desfila' em carro aberto com suspeitos de matar PM na Paraíba


Suspeitos foram detidos e expostos nas ruas.

Policial foi morto durante assalto a posto de combustível no Sertão.

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Mensalão: livro desconstrói encenação do Gilmar!


“O alegado crime de desvio de R$ 73.851.356,8 não existiu. O dinheiro não saiu dos cofres do Banco do Brasil, não foi público, não foi desviado; tendo sido utilizado em sua totalidade em pagamentos a promoções previstas na ampla regulamentação do FIV (Fundo de Investimento Visanet)”.

É o que conclui o advogado João Francisco Haas em seu livro “O Verdadeiro Processo do Mensalão”, lançado pela editora Verbena, que, segundo o autor, tem como um dos objetivos colaborar com o Poder Judiciário, em especial o Supremo Tribunal Federal (STF), ao esclarecer que “provas não foram devidamente consideradas no julgamento”.

O julgamento mencionado é o da Ação Penal 470, que teve inicio em agosto de 2012, com transmissões ao vivo pela TV Justiça e GloboNews. Dos 37 réus e sete tipo de acusações, 24 pessoas foram condenadas, entre elas o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, o ex-presidente do PT, José Genoino, e o ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares. Foi, ao seu fim, considerado o maior julgamento da história do STF.

A tese do desvio que criou a Ação Penal surgiu na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Correios já no início das investigações, em meados de 2005, quando se descobriu que o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato estava envolvido no esquema do que ficou conhecido como “valerioduto”. E ganhou forma acabada no relatório final desta comissão, entregue à Procuradoria da República em 2006.

O então procurador-geral Antônio Fernando de Souza, menos de uma semana depois, encaminhou a denúncia ao STF.

No livro, são 209 páginas em que Haas, sogro de Pizzolato, também condenado por participação do chamado mensalão, demonstra o equivoco das condenações ao desmistificar o pilar central da acusação do ex-ministro do STF e relator do processo, Joaquim Barbosa, de que foram desviados recursos da instituição financeira para uma agência de publicidade DNA, de Marcos Valério, com a intenção de financiar o pagamento de mesadas mensais a deputados para que eles votassem, no Congresso Nacional, matérias que interessavam ao governo.

“Além de apontar provas que inocentam os réus, foram examinados cada um dos fatos. Chama à atenção que as provas absolutórias, ao longo do julgamento, em sua grande maioria, não foram relatadas, analisadas e consideradas. Por outro lado, condenaram-se os réus por meras suposições, sem provas dos delitos, em muitos casos”, escreve Haas nas primeiras páginas.

Ao longo dos 25 capítulos, o advogado mostra, por exemplo, que seria inviável, nos 18 meses de julgamento, a analise de aproximadamente 250 mil documentos.

“O STF ignorou quatro documentos fundamentais e que, se devidamente relatados, analisados e considerados, mudariam todo o julgamento do mensalão: são quatro Propostas (JOBs) expedidas pelo Banco do Brasil para a Visanet, solicitando o seguinte:

‘Forma de pagamento: Nota fiscal emitida por fornecedor diretamente contra a VisaNet (contra apresentação)’”, relata.

“Os quatros valores acima somam R$ 73.851.356,18 e desmentem a denúncia de desvio”

De acordo com a obra, estas “quatro Notas Técnicas foram consideradas como ‘Antecipações’, ‘Antecipações Fraudulentas’, ‘Valor Desviado’, ‘Antecipação de Pagamento Ilicito’. Enquanto isso, os quatro documentos reais, encaminhados pelo Banco para a Visanet, não foram considerados no julgamento, pois, se devidamente considerados, isto desmontaria a falsa história montada para incriminar e condenar os réus do mensalão”.

Há, ainda, menção a descumprimento do STF de decreto que assegurava o duplo grau de jurisdição.

“Registre-se que somente seis réus poderiam ser julgados pelo STF, em primeira e única instância. Os demais 34 denunciados não estão sujeitos ao chamado ‘Foro Privilegiado’. Foram denunciados como integrantes de uma suposta quadrilha que, no julgamento dos embargos, o próprio STF reconheceu não existir”.

Quanto aos empréstimos tomados pelo PT junto ao Banco Rural e BMG, Haas comprova que existiram. Para os magistrados, os repasses eram uma simulação para ocultar a origem dos recursos. “Esta tese [dos magistrados] não se sustenta”, enfatiza no capítulo 19 ao publicar documentos.

“(…) a confrontação das datas desmentem a versão de tomada de empréstimos fraudulentos ou dissimuladores.”

O que fizeram com o Ban-co-do-Bra-sil?

Foi no dia 29 de agosto de 2012, que, em uma das sessões, o ministro do STF, Gilmar Mendes, fez a pergunta com peculiar pausa.

O ministro trataria de uma suposta transferência de recursos públicos por meio da Companhia Brasileira de Meios de Pagamento (CBMP).

“Quando nós vemos que, em curtíssimas operações, em operações singelas, se tiram desta instituição R$ 73 milhões, sabendo que não era para fazer serviço algum…”, diz Gilmar na sessão que era transmitida ao vivo.

No livro, Haas parece ter a resposta para o magistrado, ao publicar um inquérito administrativo da instituição.

“Mediante auditoria interna, foi demonstrado o uso em pagamento de promoções dos cartões VISA. (…) Nenhuma irregularidade ou responsabilidade funcional foi apurada. (…) Ficou mais uma vez provado, que todo o valor de R$ 73.851.356,18 do FIV foi usado em pagamento dos cartões da bandeira VISA, o que afasta a denúncia e condenação, por alegado desvio e apropriação indevida deste valor”.

Bônus de Volume

Para Haas, durante o julgamento, houve um equívoco ao considerar que Bônus de Volume (BV) e Bonficação se tratavam do mesmo item.

Na Ação Penal 470, os ministros entenderam que os recursos do BV foram apropriados ilegalmente pelas agências de Marcos Valério.

“As Bonificações, portanto, pertencem ao anunciante (Banco do Brasil); enquanto os Bvs pertencem às agências de publicidade. O entendimento de que o repasse de Bonificações, previsto em contrato, se constitua na obrigação de repassar os Bônus de Volume, foi determinante para a condenação dos réus, por um crime que não existiu”, opina o advogado.

A Rede Globo

No capítulo 21, intitulado “Interpelação ou notificação judicial”, Haas descreve como a Rede Globo de Televisão, que teria “recebido dinheiro desviado”, poderia ser interpelada judicialmente após analise de um laudo do Instituto Nacional de Criminalística (INC).

“Segundo Laudo, dos valores disponibilizados pela Visanet, de R$ 23.300.000,00 e R$ 6.454.331,43, no ano de 2003, tidos como desviados, gratuitamente, sem efetivação de qualquer prestação de serviço, segundo Acórdão do STF transitado em julgado, a TV Globo teria recebido R$v 3.390.000,00. Ainda, segundo este mesmo Laudo do INC, dos valores de R$ 35.000.000,00 e R$ 9.097.024,75, do Fundo de Incentivo Visanet (FIV), também tudo como desviado pelo STF, a TV Globo teria recebido R$ 1.250.396,21, no ano de 2014. Parece que caberia uma interpelação judicial (…)”.

Mais adiante, segue Haas: “Assim, não apenas a TV Globo, como todos os identificados pelos peritos do INC deveriam ser Interpelados ou Notificados, para que provem o devido uso dos valores que receberam e tido como desviados”.

Domínio do Fato

Motivo de críticas por juristas que analisaram o julgamento do mensalão e desmontada pelo então revisor do processo, ministro Ricardo Lewandowski, a Teoria do Domínio do Fato “foi a origem da cadeia de responsabilização pelos alegados crimes do mensalão”, nas palavras de Haas.

Para o autor, houve um grave desvio processual. A polêmica se dava, à época, da necessidade ou não do acompanhamento de provas.

“Muito provavelmente, os réus envolvidos no mensalão foram punidos por ocuparem posições na cadeia de decisões. (…) A teoria assumida pela nossa Corte Suprema foi a mesma que orientou o julgamento da Junta Militar da Argentina, o processo que condenou Alberto Fugimori no Peru por crimes de sequestros e homicídios, bem como os crimes ocorridos na Alemanha Nazista e na Alemanha Oriental. Todavia, nestes casos, houve farta comprovação de crimes em cadeia, com indícios efetivos de ações criminais. Não foi o caso do mensalão no Brasil, onde aos réus não foi permitido o direito de defesa correto e com apresentação de provas presumidas. Em nosso caso, o procedimento foi dedutivo, partindo-se da teoria em busca dos fatos delituosos que a comprovariam”.

10 anos depois…

Completada uma década da denuncia do mensalão, feita pelo ex-deputado Roberto Jefferson, condenado a 7 anos e 14 dias de prisão, à Folha de S. Paulo, o livro de Haas chega às livrarias para expor que a Ação Penal 470 foi “um julgamento jurídico-midiático. Menos para informar ao público e muito mais para formar uma opinião generalizada de que não apenas trata de uma ação penal onde réus estavam sendo julgados, mas para julgar e condenar um partido político”, assina Maria Luiza Quaresma Tonelli, que prefaciou a obra.

“O julgamento da AP 470, ou ‘mensalão’, foi objeto de uma disputa política, um julgamento que em muitos momentos pode ser considerado de exceção”, continuou.

Para ela, o julgamento foi um exemplo de “manipulação da mídia que representa a oposição e de um judiciário que cedeu à pressão e força condenando pessoas injustamente”, sentencia Tonelli.

Alisson Matos
No Conversa Afiada
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TV Vermelho responde ao pessimismo e tese golpista


Com bom humor, TV Vermelho responde ao pessimismo e tese golpista da mídia e como a onda de desinformação compromete o debate e o avanço da democracia.

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A estranha história por trás do livro de uma vítima de Roger Abdelmassih

Vana Lopes com Moro e a mulher Rosângela no lançamento
Em setembro de 2014, o DCM fez uma entrevista com Vanuzia “Vana” Leite Lopes, uma das vítimas do ex-especialista em reprodução humana Roger Abdelmassih, condenado a 278 anos de prisão.

Vana lançou no mês passado “Bem-vindo ao Inferno”, com ajuda do biógrafo de Lobão e Romeu Tuma Jr., Claudio Tognolli.

O projeto, no entanto, era para ser um texto de autoria de outras mulheres estupradas por Abdelmassih, incluindo Helena Leardini (45) Teresa Cordiolli (64), Ivani Serebrenic (47) e Nelma Luz (50). Todas elas faziam parte de uma página no Facebook chamada “Vítimas Unidas”, que busca reunir pessoas que foram abusadas sexualmente pelo ex-médico.

Juntamente com as mulheres, o repórter da TV Record Leandro Ruiz Sant’Ana estava acompanhando de perto o caso, sob orientação do editor Anael de Souza do programa Domingo Espetacular. Leandro está atualmente redigindo seu livro sobre o caso.

De acordo com as antigas companheiras, Vana decidiu agir sozinha. Leandro entrou em contato com Vana Lopes no dia da prisão de Abdelmassih, mas sem dizer onde ele estava. Pediu para que a vítima manter a informação sigilosa para que ele não perdesse seu furo de reportagem. Vana vazou sozinha a informação para a revista Veja. Mesmo assim, as imagens sobre a prisão de Abdelmassih foram divulgadas em primeiro lugar pela Record.

Vana rompeu amizade com as demais e decidiu que o livro que originalmente foi pensado por Teresa Cordiolli seria dela. Ganhou também um prefácio do juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, e de sua mulher.

A dona de casa Helena Leardini falou com o DCM sobre as imprecisões de “Bem-Vindo ao Inferno” e de como uma obra em conjunto virou outra coisa.

Por que, na sua opinião, Vana preferiu lançar o livro sozinha?

Eu era muito próxima da Vana. Dava caronas para ela e sabia dos problemas pessoais dela, incluindo síndrome do pânico. Ela diz que é a vítima que mais sofreu com o Roger, mas isso não é verdade. Há casos de pessoas que chegaram a ficar em coma depois de sofrer o estupro e tiveram que receber até comida na boca. E a pessoa não quer contar o caso em público. A Vana não é assim.

Ela só foi ouvida em setembro de 2009, quando foi ao programa da Ana Maria Braga. Desde então, eu acho que ela entrou em uma obsessão pelo caso. Tenho a impressão de que a Vana acorda e dorme pensando no Roger Abdelmassih. Mesmo eu sendo dona de casa, eu não tenho tempo para permanecer o tempo inteiro no Facebook. Ela assumiu a maioria das postagens do grupo que reunia as vítimas e ficava sempre concentrada nisso, pedindo para as pessoas fazerem as coisas, sempre ligando pelo celular.

Tenho impressão de que a Vana Lopes tem orgulho de ser vítima do Roger. As pessoas que foram abusadas não tem o mesmo comportamento, na minha opinião. Há processos que o Roger ainda não respondeu na justiça, porque algumas vítimas ainda não se manifestaram.

O livro da Vana Lopes era ideia de outra pessoa?

Sim. A ideia foi da Teresa Cordioli, uma vítima que foi abusada pelo Roger Abdelmassih nos anos 70. Eu a acompanhei quando foi ouvida, a gente se emocionou e ficou muito amiga. Fui passar férias em Santa Catarina e lá ela falou do livro pra mim, em fevereiro de 2011. Já escrevia poesia e eu perguntei se ela queria mesmo escrever sobre isso. Ela estava travada no texto e eu a ajudei a ter calma, oferecendo ajuda. Achei legal a ideia e chamamos mais vítimas para montar todo o livro.

Para ser sincera, eu não tenho tempo pra cuidar dessa campanha contra o Roger de internet. A Tereza também não faz tanto isso. A Vana fica o tempo todo na internet e cobrando as pessoas por telefone. Eu sei disso porque era muito próxima dela e dava caronas de carro. A Vana Lopes pegou o papel de pessoa para contar a verdade diante do público.

Quer um exemplo? A gente estava criando a associação das vítimas. Ela disse que seria a líder e eu disse que não podia ser assim. Seria então mais justo uma votação. Acabei votando na Teresa, a vítima mais antiga. Eu fiquei como vice.

Mesmo não sendo líder, quando a revista Veja soltou um texto que nos expunha, a Vana Lopes decidiu agir. Enquanto a Teresa ficou com medo de ser perseguida, a Vana entrou em contato com a Veja para colocar que ela era a responsável pelos documentos que expunham a Teresa.

Ela sempre pedia várias coisas, inclusive para ajudar com a comunidade das vítimas. A Vana ligava pedindo para escanear documentos. Antes de assumir o livro, já tinha um jeito todo jogado que tentava conseguir sempre o que ela queria.

Como ela tomou conta da narrativa? 

Ela nos mandou o contrato do livro em setembro do ano passado. A filha da Teresa Cordiolli, a Rafaela, que é advogada, viu no papel que os direitos autorais seriam todos dela. Achei que algo estava errado. Antes disso, a Vana disse que tudo seria dividido entre as vítimas. A própria Teresa cobrou que o livro saísse no nome de todas nós.

A conversa que confirmou minhas suspeitas aconteceu dentro do meu carro. Numa carona, a Vana disse abertamente que o livro seria sua aposentadoria. Falei pra ela cair na real. Eu disse: “Você acha que vai ficar rica, mas isso não vai vender nada. O povo não lê nem gibi”.

A verdade é que ela queria ser a querida da mídia. Ali caiu a ficha para ela. Achou que devia fazer o livro sozinha. Como eu era a mais próxima dela, passei a ver as máscaras caindo. Ela ligava pro portal G1, prometendo uma reportagem exclusiva. E ligava em seguida pra Veja, prometendo a mesma coisa. Puxei a orelha dela, porque a Vana falava e ainda se expressa em nome de todas as vítimas.

Como entrou o Claudio Tognolli, biógrafo do Lobão, na história? E como ela conseguiu o prefácio do juiz Sérgio Moro da Operação Lava Jato?

A Vana Lopes sempre teve um contato com a editora Matrix, que acabou lançando o livro. Mas era outro cara que ia escrever o livro. No entanto, ela tinha o contato do Romeu Tuma Jr. [que lançou “Assassinato de Reputações” com Tognolli]. Acredito que ele tenha facilitado a entrada do Tognolli.

Quanto ao Moro, a Vana o conheceu quando foi indicada a página Vítimas Unidas para concorrer ao prêmio do jornal O Globo, o “Faz Diferença”. Ela concorria à mesma categoria do Sérgio Moro, mas ele acabou como “personalidade do ano”. Acredito que ela tenha conseguido o prefácio do livro ali.

Todo esse envolvimento da Vana Lopes com a mídia afetou as investigações do Roger Abdelmassih?

Sim. Acho melhor eu te explicar como foi a história da captura dele no Paraguai, em agosto de 2014.

O grande responsável pela captura do Roger foi o repórter Leandro Sant’Ana, da Record. O Leandro entrou nessa depois de uma reportagem da revista Poder, da Joyce Pascowitch. O jornalista mandou email para a Vana e para outras vítimas. A resposta veio imediatamente. Era um cara de TV e ela viu uma oportunidade para se expor ali.

A Vana Lopes falava direto com a imprensa e isso irritou o Leandro Sant’Ana. Ele então tentou pregar uma peça nela. Divulgou que estava em outra cidade, fora do Paraguai, e não deu mais informações. Quando Leandro conseguiu denunciar o Roger para a Polícia Federal, ele avisou a TV Record.

E então ligou para a Vana e pediu para ela não conversar com ninguém além das vítimas porque ele daria a notícia. O furo era dele.

A Vana ligou, novamente, prometendo uma exclusiva para a Veja, conversando com a jornalista Bela Megale. E ainda deu a informação errada de que o Roger Abdelmassih tinha sido preso no Brasil. A prisão ocorreu no Paraguai e o Leandro omitiu isso de propósito. A reportagem da Record então foi ao ar com os dados corretos.

A Vana Lopes sacaneou as vítimas e o repórter que mais bem acompanhava o caso e que efetivamente nos ajudou a encontrar aquele monstro.

Quanto ela e Tognolli distorceram a história no livro?

Eu não li o livro inteiro ainda. O Leandro está preparando o dele e aponta diversos erros e fatos fictícios. Nós estamos ajudando.

As pessoas vêem o lançamento do livro dela com o Sergio Moro e dão credibilidade pois não conhecem os fatos. Essa história não é só a da Vana.

Pedro Zambarda de Araujo
No DCM
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Corrupção nas Assembleias Legislativas

Reportagem da Rede Globo esquece de dizer que padre que é funcionário fantasma há mais de 20 anos com salário de R$ 11 mil, é do PSDB


Conhecido por levar milhares de fiéis as suas celebrações, o padre Luiz Augusto Ferreira, responsável pela Igreja Santa Teresinha do Menino Jesus, em Aparecida de Goiânia, está no quadro de servidores ativos da Assembleia Legislativa.

Ele recebe pelo cargo de analista legislativo R$ 11,8 mil de salário bruto. De acordo com servidores da Assembleia, padre Luiz Augusto não cumpre expediente na Casa há pelo menos 20 anos.

A Diretoria-Geral (DG) informou que Luiz Augusto está lotado na Diretoria Parlamentar e que usufrui de licença-prêmio até 4 de maio. Não há informações sobre o histórico do servidor, segundo a DG. O presidente da Assembleia, Hélio de Sousa (DEM), através de sua assessoria, informou que a sua gestão não vai responder pela administração anterior.

Padre Luiz Augusto não esconde sua situação de funcionário público que não cumpre expediente, como seus colegas. Ele argumenta que está de licença desde 1995, quando foi ordenado padre. “A exceção foi 2012, ano em que trabalhei no gabinete do ex-presidente Jardel Sebba (PSDB)”. Jardel, por sua vez, não soube dizer quanto tempo Luiz Augusto ficou à disposição da presidência, nem a função que exerceu no período. “Lembro que ele se apresentou e eu deleguei uma missão. Mas você há de convir que faz muito tempo”, esquivou-se.

O regimento interno não permite que um servidor fique 20 anos licenciado. A legislação da Casa prevê, no máximo, quatro anos de licença, prorrogáveis por mais quatro anos.

Luiz Augusto garante que manteve o vínculo com o Legislativo apenas para que ele e seus cinco dependentes usufruam do Ipasgo (plano de saúde estadual). Segundo ele, o valor da remuneração está integral em uma conta bancária e seu plano é utilizá-lo para a construção de uma chácara para dependentes químicos. Constrangido, o padre assegura ter tentado pelo menos oito vezes pedir demissão, mas que em nenhuma delas foi atendido. “Conversei com pessoas responsáveis pela direção da Casa”, revela, sem citar nomes, “e todos disseram que meu trabalho é especial e que diz respeito ao próprio Estado”.

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Paródia de propaganda vira trunfo de funcionários contra a gigante JBS

A gigante JBS, a maior processadora de carnes do mundo, provou do seu próprio veneno. Dona da premiada estratégia de marketing que usou milhões e celebridades para se firmar como marca e aumentar preços, a empresa, responsável pela Friboi e Seara, se viu acuada por uma campanha virtual criada por seus funcionários para pressionar por benefícios e teve de ceder.

No melhor estilo Davi contra Golias, os líderes sindicais usaram o mote do comercial “Carne tem nome – Friboi”, estrelado ator Tony Ramos e reconhecido com os prêmios Marketing Best e Top of Minds, para criar o vídeo Exploração de trabalhador tem nome. O objetivo: provocar. Nele, o açougueiro tenta convencer uma cliente a não comprar a carne do “famoso ator”. “Gastamos menos de 20.000 reais com o vídeo. Não tínhamos armas para combater esse gigante. Só podíamos chamar sua atenção”, explicou o presidente da Confederação dos Trabalhadores na Indústria da Alimentação (Contac), Siderlei da Silva de Oliveira.

A estratégia dos sindicalistas foi postar o vídeo no YouTube e difundi-lo por meio do aplicativo de mensagens para celular Whatsapp. Viralizou. “Eu mandei o vídeo para um grupo de 20 amigos. Em um mês recebi o mesmo vídeo dezoito vezes de pessoas que não eram desse grupo”, diz João Carlos Batista, um dos sindicalistas da indústria de alimentação no Paraná. Na Internet, foram poucas visualizações, cerca de 1.300, mas no aplicativo essa mensuração não é possível fazer.

De todo modo, a JBS reagiu. Três meses depois de a esquete ser divulgada nas redes sociais, a gigante se reuniu com entidades que representam trabalhadores e decidiu atender uma de suas principais reivindicações, a de reduzir o valor do plano de saúde de 111 reais para 45 reais ao mês. Na ponta do lápis, o custo para a empresa cresceu cerca de 3,6 milhões de reais mensais, ou 43,5 milhões ao ano. É menos do que a empresa doou nas eleições do ano passado.

Segundo registros do Tribunal Superior Eleitoral, a JBS despejou 366,8 milhões de reais em campanhas políticas de dezenas de candidatos – entre os beneficiados estão a presidenta Dilma Rousseff (PT), o senador oposicionista Antonio Anastasia (PSDB de Minas Gerais) e os governadores José Ivo Sartori (PMDB do Rio Grande do Sul), Beto Richa (PSDB do Paraná) e Camilo Santana (PT do Ceará).

Para Siderlei de Oliveira, a vitória no quesito plano de saúde foi apenas o primeiro passo. “Antes do vídeo ir para o ar, nunca tínhamos sido recebidos pela chefia nacionalmente. Agora, queremos mais. Só temos de descobrir como sensibilizá-los”, diz o ambicioso sindicalista, que vai pedir um piso salarial nacional para a JBS.

Um revés: sem piso nacional

Em nota, a JBS, responsável pela marca Friboi, informou que mantém uma agenda de reuniões com os sindicatos dos municípios onde atua e que a negociação com a CONTAC e com outras federações foi um passo seguintes às conversas com a base dos trabalhadores. A empresa afirmou que não houve uma formalização de um acordo nacional, mas um ajuste de consenso entre todas as partes.

Sobre o pleito de um piso salarial nacional, a JBS já jogou uma ducha de água fria nas pretensões de seus funcionários. Diz o texto enviado à reportagem. “A JBS está em linha com os mercados que atua lembrando que, no sistema brasileiro já há um piso nacional estabelecido pelo Governo Federal (salário mínimo), sendo assim, pelas negociações com as respectivas categorias são entabulados pisos salariais dentro da área de atuação do sindicato.”


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