7 de jun de 2015

FHC ou Carlos Sampaio, o PSDB não mais será o que já foi


O Estadão fez um bom trabalho hoje, na tentativa de resgatar o PSDB programático que se perdeu nas fímbrias do neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso.
 
A reportagem tem objetivo de fortalecer José Serra na próxima convenção do partido.
 
Fica claro nas manifestações pelo retorno aos valores do partido, do serrista Alberto Goldmann e do ex-covista Arnaldo Madeira — que aderiu às pretensões de Andrea Matarazzo de futuro candidato a prefeito de São Paulo e está envolvido até o pescoço na Operação Castelo de Areia. Logo eles.
 
Batem também com a estratégia recente de Serra, de afastar-se das manifestações radicais e tentar recuperar a imagem de formulador que teve muitas décadas atrás.
 
O objetivo dessas propostas é do mesmo nível da fase evangélica de Serra, da fase dos dossiês que nunca abandonou,  da fase carbonária de FHC. Não é reconstruir o partido mas apenas conquistar espaço político interno, aliando-se a quem estiver disponível com a proposta que estiver à mão, mesmo que oriunda das profundezas da intolerância.
 
O distanciamento histórico e a memória
 
FHC tem sido beneficiado pelo chamado distanciamento histórico, mas no sentido do esquecimento das oportunidades que jogou fora.
 
É o direito ao esquecimento que permite ao Estadão atribuir a ele as formulações originais do PSDB.
 
Até ser indicado Ministro da Fazenda de Itamar, FHC nunca passou de um troféu acadêmico que o partido exibia para consumo externo.
 
O PSDB original foi filho da Constituinte, através de suas duas maiores lideranças, Mário Covas e Franco Montoro.
 
Foi composto pela chamada ala autêntica do PMDB, como maneira de se distanciar da maioria fisiológica que, desde então, assumiu o partido.
 
Na economia, diferenciava-se do estatismo e da síndrome dos campeões nacionais da Unicamp e do financismo da PUC-Rio, propondo um desenvolvimentismo em parceria com o mercado, especialmente através das formulações de Luiz Carlos Bresser-Pereira, Yoshiaki Nakano e Luiz Carlos Mendonça de Barros.
 
Defendia, também, o aprimoramento da gestão pública. Seu maior feito foi a modernização da gestão financeira de São Paulo, através do trabalho de Nakano na Secretaria da Fazenda.
 
Sem ser um intelectual, Covas — e, antes dele, Montoro — deu a faceta política do partido: visão socialdemocrata, preocupação com a responsabilidade fiscal, com a chamada voz das ruas, com a descentralização, compromissos com a coerência, que o levaram, inclusive, a apoiar o PT contra Paulo Maluf.
 
Eleito presidente, FHC manteve um discurso para cada ocasião. Embarcou de cabeça no financismo dos economistas da PUC-Rio, terceirizando para eles a gestão do país, deixando de lado qualquer preocupação social ou fiscal.
 
A ideia — aventada nas entrevistas do Estadão — de que o PSDB de FHC foi responsável pela seriedade fiscal é risível. Como falar em responsabilidade fiscal de um governo que recebeu de Collor uma relação dívida/PIB na faixa dos 20% e a entregou na faixa dos 60%, mesmo com a troca de moedas da economia? E todo esse aumento não se traduziu em gastos sociais, investimentos públicos, mas em transferência direta para o setor financeiro, através das mais exorbitantes taxas de juros da história.
 
A Lei de Responsabilidade Fiscal foi uma imposição do FMI, depois que FHC quebrou o país e foi obrigado a apelar ao fundo.
 
No meu livro “Os Cabeças de Planilha”, o último capítulo é uma longa entrevista com FHC. Nela, o ex-presidente revela um desconhecimento absurdo dos principais fatores portadores de futuro. Nenhum domínio sobre políticas sociais, sobre o papel das políticas industriais, sobre a dinâmica da regionalização ou do fortalecimento de cadeias produtivas. Ignorância total sobre políticas científico-tecnológicas ou programas de gestão.
 
O grupo que acompanhou FHC, com a notável exceção de Sérgio Motta, em parte de dona Ruth, não tinha a menor vontade de mudar nada, mas apenas de aproveitar da melhor forma possível a passagem pelo poder para melhor se colocar na volta à vida civil.
 
Capacidade de formular programas
 
O que define um bom ou mau governo é a capacidade de identificar as melhores propostas e formular programas consistentes. Daí a malícia de alguns economistas neoliberais de atribuir a crise atual ao que denominam de “nova matriz econômica”, devolvendo na mesma moeda que tenta atribuir todos os erros de FHC ao neoliberalismo.
 
Os erros de FHC estavam na incapacidade de impedir o assalto financeiro à dívida pública, ou de uma combinação juros-câmbio que destruiu a economia em um momento de profundas alterações na economia mundial ou do desprezo absoluto a qualquer forma de pró-atividade em favor do aprimoramento da gestão pública. Nada tinham a ver com sua visão de mundo.
 
Os erros de Dilma estão na má implementação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na incompatibilidade entre as atribuições conferidas à Petrobras e o congelamento de tarifas de combustível, na distribuição de subsídios fiscais ignorando os alertas dos técnicos do Tesouro, na falta de indicadores de acompanhamento do Fies e da Pronatec. Ou seja, erros claros de gestão, que nada tem a ver com uma suposta nova matriz econômica.
 
Assim como as fraquezas de José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, na incapacidade de definir uma meta modernizante sequer e implementá-la de forma eficaz — com exceção das tentativas iniciais do “choque de gestão” de Minas.
 
Hoje em dia há uma infinidade de boas ideias e bons projetos gravitando em torno de temas educacionais, regionais, mobilidade urbana, educação, políticas industriais, movimentos de inovação, formas de aprofundamento da democracia participativa.
 
O que o PT tem a oferecer? As ideias do Instituto Perseu Abramo que não são nem aproveitadas nem assimiladas pela direção.
 
O que o PSDB tem a oferecer? Sequer ideias, porque o Instituto Teotônio Vilella virou objeto de barganha. Ou seja, o partido que pretende investir contra o aparelhamento do PT aparelha até aquele que deveria ser o centro do seu novo pensamento.
 
O álibi de FHC, de que o PSDB não tem um programa rígido por não ser um partido de caciques, é piada. Não tem um programa rígido, hoje em dia sequer valores, por ser um partido de caciques incapazes de uma visão consistente de país.
 
Certa vez, FHC definiu-se a ele, Serra e Aécio como os “malacas”. O termo se aplica a um estilo de político voltado especificamente para cavalgar as ondas de fumaça da mídia. FHC, o iluminista, não se pejou de incentivar Rebeldes Online e companhia quando viu alguma vantagem nisso. E teve reação débil e dúbia quando as bestas saíram das profundezas para investir na intolerância e nas políticas regressivas em relação aos avanços sociais e morais.
 
Aliás, teve papel direto na promoção do discurso de intolerância que, saindo da mídia, inoculou irreversivelmente o partido de Mário Covas.
 
Por tudo isso, a cara do partido continuará  inevitavelmente Carlos Sampaio, Aloyzio Nunes, Serra. Com FHC a única diferença será a firula acadêmica de, de vez em quando, rechear com algumas citações de terceiros.
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Mídia ignora operação da PF que prendeu 'doutores' ladrões do SUS

Apesar de emblemática, nova investida da PF contra desvios de recursos públicos por médicos e empresários entrou na categoria das operações "invisíveis" ao noticiário nacional, merecendo pouca atenção

A Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público Federal realizou na semana passada(mais precisamente no dia 2, terça-feira) a operação Desiderato contra fraudes praticadas por médicos e empresários no SUS (Sistema Único de Saúde) em quatro estados: Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

O centro da operação foi na cidade de Montes Claros (MG), onde três médicos cardiologistas foram presos por evidência de três tipos de crimes: receber propinas sobre equipamentos médicos comprados com verbas do SUS, desvio destes equipamentos do patrimônio público para uso em clínicas particulares, e cobrar "por fora" de pacientes atendidos pelo SUS.

Empresários e suas empresas que teriam corrompidos os médicos também foram alvos da operação. A Polícia Federal, como é de praxe no período de investigações, manteve os nomes em sigilo.

Apesar de emblemática e de servir de referência para reprimir estes crimes em unidades de saúde de todo o Brasil, esta operação da Polícia Federal entrou na categoria das operações "invisíveis" ao noticiário nacional, merecendo pouca atenção. O fato de os médicos presos terem se limitado à cidade de Montes Claros não torna a notícia regional, pois o delegado da PF Marcelo Freitas, que conduziu as investigações, afirma: "Acreditamos que o mesmo tipo de fraude se estenda por todo o território nacional, o que precisa ser investigado".

A importância nacional foi reforçada pelo delegado ao dizer que atualmente os desvios são facilitados pela falta de controle sobre as próteses. A notas fiscais de venda investigadas informam apenas quantidade e número do lote, mas omitem os números de série. O Ministério Público encaminhará à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) recomendação para tornar obrigatória a discriminação deste verificador.

O delegado informou que o mesmo crime será investigado em outras especialidades, como próteses de ortopedia, de otorrinolaringologia e oncologia. As diligências feitas na sede das empresas fornecedoras que corrompiam médicos deixa claro que a investigação busca pegar delitos semelhantes em outras cidades do Brasil.

As investigações iniciadas em julho de 2014. Segundo os investigadores, stents (dispositivo para desobstruir artérias do coração) eram comprados para pacientes que não precisavam. Os maus médicos faziam um laudo realista para o paciente, sem referência ao stent. Faziam outro laudo — fraudulento — com a indicação de uso do aparelho para a coordenação do Sistema Único de Saúde. Assim, criavam um estoque paralelo dos dispositivos. Tudo pago com recursos do SUS, mas que eram desviados para uso em pacientes particulares e que pagava diretamente aos médicos pelo uso de itens comprados com dinheiro público.

Além dos desvios, os médicos recebiam propinas dos fornecedores. Os aparelhos custam aos cofres públicos entre R$ 2 mil e R$ 11 mil, conforme o modelo, e os médicos ganhavam propinas de R$ 500  a R$ 1.000 por unidade que pediam. Não precisa nem desenhar que, se não houvessem as propinas, o preço cobrado ao SUS poderia ser menor.

O grupo de médicos envolvidos chegou a receber R$ 110 mil por mês e criaram até uma empresa de fachada para receber a propina das distribuidoras simulando "prestação de serviços" para lavar o dinheiro sujo, segundo a PF.

Outra prática criminosa destes médicos foi, além de receber pelo procedimento através do SUS, cobrar "por fora" de pacientes. A Santa Casa de Montes Claros suspendeu um dos médicos da equipe de hemodinâmica, depois de saber que cobrou R$ 40 mil para um tratamento pelo SUS do paciente Vladiolano Moreira. Depois de receber a denúncia, abriu sindicância e constatou que o médico já tinha recebido R$ 20 mil. Com as investigações, a família recebeu o dinheiro de volta. Não foi o único caso constatado. Outra paciente, Maria Ferreira teve de pagar R$ 3 mil. Nilza Fagundes Silva pagou R$ 10 mil.

Os investigados foram indiciados pelos crimes de estelionato contra entidade pública, associação criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso, corrupção passiva, corrupção ativa e organização criminosa. A Santa Casa e o Hospital Dilson Godinho, onde a quadrilha atuou, não participaram dos delitos e colaboraram com as investigações, de acordo com a PF.

A operação mobilizou 200 policiais federais para cumprir 8 mandados de prisão temporária, 7 conduções coercitivas, 21 mandados de busca e apreensão e 36 mandados de sequestro de bens. O diretor Daniel Eugênio dos Santos da empresa Biotronic, residente em São Paulo, escapuliu de ser preso porque está em viagem de férias com a família nos Estados Unidos.

Daniel dos Santos tem um antecedente semelhante. O Ministério Público Federal já o denunciou junto com outros seis empresários e os médicos Elias Ésber Kanaan e Petrônio Rangel Salvador Júnior do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), por propinas para cirurgias de implantes de marcapassos e desfibriladores, entre o período de 2003 e 2008. Chamou atenção o número completamente desproporcional ao do restante do país e a denúncia afirma que haviam casos desnecessários. Apurou-se também a compra aparelhos em número maior do que o efetivamente implantado, com efetivo prejuízo aos cofres públicos.

Este antecedente comprova que as investigações sobre estes crimes precisam ir muito além de Montes Claros.

Não é só a imprensa oligopólica quem dá pouca visibilidade a estes delitos. O senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), por exemplo, que é médico (ortopedista) e empresário do setor, em vez de dedicar-se a perseguir médicos cubanos com proselitismo arcaico do tempo da guerra fria, deveria se dedicar a legislar e fiscalizar, nas comissões do Senado, estes malfeitos de sua classe profissional que tanto mal faz ao povo brasileiro.

Helena Sthephanowitz
No RBA
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Denunciado por Yousseff, Aécio quer saber quem mandou roubar


Aécio Neves nunca primou pelo conhecimento. Sempre foi superficial como a manchete de jornal — que, aliás, sempre serviu de guia para ele. Mas, ao menos, tinha a imagem de político esperto, conciliador, justamente o perfil que o jogo político atual exige para conter a extrema radicalização do momento.

Até FHC e José Serra se deram conta disso.

Não Aécio, que se meteu na armadilha de vestir o uniforme de Catão.

É uma rota sem futuro porque dilui completamente a imagem de conciliador que acumulou nos tempos de governo de MInas. Ao mesmo tempo, o expõe nas muitas suspeitas que pesam sobre ele.

Seu conterrâneo Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, livrou-o de duas suspeitas pesadas. A primeira, as denúncias detalhadas de Alberto Yousseff sobre os esquemas de caixinha em Furnas, beneficiando Aécio, muito mais detalhes do que na maioria das ações encaminhadas por Janot contra outros parlamentares.

A segunda, uma denúncia de conta no paraíso fiscal de Linchestein, que desde 2010 repousa na gaveta do PGR.

Alguém precisa alertá-lo que, até por esperteza, deveria abdicar desse papel ridículo de paladino da moralidade.


Luís Nassif
No GGN
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O movimento micou

Ações de março vieram com o selo “movimento espontâneo”, apesar da eficiência política e da mistureba ideológica questionáveis. Levaram crise e indagações ao Poder. Repensou-se o País e a inoperante democracia representativa sob regras de um sistema partidário falido, que não é teimosamente reformado.

Nas varandas, a bateção de lata em cada aparição ou menção da cúpula petista, a indignação pela monstruosidade da corrupção e fraudes contábeis, provava que, coxinha ou empada, bairro nobre ou plebeu, havia (há) insatisfação de um grupo social significativo com voz. A lista de paternidade se acotovelou na vitrine do berçário.

“Fora Dilma!” levou um milhão à Paulista (segundo contagem discutível da PM, “a polícia do Alckmin”) ou 210 mil (segundo o Datafolha). Cobriu a avenida de verde e amarelo e obrigou analistas a voltarem aos manuais de ciência política, para confirmar a maturação de uma nova direita.

Grupelhos e siglas até então desconhecidas, mais o desagrado generalizado com a crise econômica que saía do coma forçado, depois da retirada do soro de uma política populista de subsídio a eletrodomésticos, carros, luz e combustível, levaram microfones, celebridades e carros de som ao maior ato político desde as Diretas-Já.

Prometeram uma megamanifestação todos os meses. A de 12 de abril foi menor. A PM, depois de criticada por superestimar a anterior, calculou em 275 mil participantes. O Datafolha continuou apostando nos mesmos 210 mil. A de 17 de maio, micou. O cantor Lobão discursou no vão-livre do Masp para apenas 40 pessoas (segundo a PM), 50 (Datafolha). Dez dias antes, reclamara para Emanuel Bonfim, da Rádio Estadão, que 80% dos seus shows foram cancelados em retaliação à sua nova posição política.

O movimento com intrusos rachou. Corpos estranhos o esvaziaram. Parte do maior beneficiário, o PSDB, retirou o apoio. Seu porta-voz inconteste, o ex-presidente Fernando Henrique, se colocou contrário ao impeachment. Foi chamado de traidor.

As mesmas redes sociais que alavancaram o movimento e serviram de púlpito a um debate burro, polarizado e cheio de ódio, difundiram suas contradições. Um dos líderes do Vem Pra Rua, que defende o fim da corrupção, foi pego num vídeo fraudando o ponto e demitido. Outro manifestante, que foi à avenida em março vestido de amarelo, protestou contra a corrupção e postou “a sociedade não aguenta mais tanta mentira, corrupção, sacanagem, falta de respeito ao povo”, pediu ajuda a amigos 50 dias depois, para retirar da sua carteira infrações de trânsito (oito pontos por desobedecer ao rodízio, dez por estacionar em local proibido e sete por desrespeitar limites de velocidade). Dizia: “Pago bem. Contatos inbox urgente! Rsrsrs”.

Em abril, descobriu-se que Gravataí Merengue, do site Implicante, que publica e compartilha notícias, artigos e vídeos contra o PT, pseudônimo de um blogueiro ativista antipetista, ganhava R$ 70 mil por mês do governo Alckmin.

O “soldado Carvalhal” espalhou em áudio que uma tal inteligência das Forças Armadas recomendava o estoque de mantimentos para a luta que rolaria entre as forças da direita e esquerda na eminente intervenção militar. O Centro de Comunicação Social do Exército teve que vir a público informar que “os áudios veiculados nas mídias sociais não têm origem no Exército Brasileiro”.

Defensores da volta do regime militar podem ser enquadrados no artigo 23 da Lei de Segurança Nacional, ironicamente o suporte ideológico da ditadura militar, em que a própria Dilma foi enquadrada ao ser presa em São Paulo, em 1970. O artigo prevê pena de um a quatro anos de detenção a quem incitar “subversão da ordem política ou social” ou “animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições civis”.

Um dos líderes dos que pedem intervenção militar, capitão da reserva da Marinha, Sérgio Luiz Zorowich, foi intimado a depor em inquérito da Polícia Federal. Revelou-se que Zorowich, que vinculava a presidente Dilma ao Estado Islâmico e PCC, para quem o impeachment é pouco, era dono de empresas que prestavam serviços à Petrobrás e faliram.

No dia 27 de maio, uns 300 manifestantes concentrados em frente ao Congresso pediam o impeachment. Esperavam 30 mil. Numa faixa se lia “Anistia Nunca Mais!”, “Tortura na Hora Certa”. Recuperou-se um lema da ditadura: “Brasil Ame-o ou Deixe-o!”. Foi o dia em que chegou a Brasília a marcha organizada pelo Movimento Brasil Livre, que caminhou desde São Paulo até a Capital Federal. Tinha mais policiais do que manifestantes.

Seus líderes protocolaram o pedido de impeachment e posaram para uma foto com o presidente do Congresso, Eduardo Cunha, citado na Lava Jato, e Jair Bolsonaro, condenado pela 6.ª Vara Cível do Fórum de Madureira a indenizar em R$ 150 mil por danos morais o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, por causa de declarações contra homossexuais.

Aécio Neves não apareceu para saudar o movimento. Foi chamado de traidor.

Por fim, no dia seguinte, 28 de maio, foi a vez da Aliança Nacional dos Movimentos Democráticos se reunir com políticos da oposição para pedir a rejeição à taxação de grandes fortunas e impostos sobre heranças. A pauta nunca entrou nas reivindicações dos grupos que foram às ruas. Dois outros grupos, Acorda Brasil e Quero Me Defender, não confirmaram o apoio à não-taxação. O principal grupo da Aliança é o Vem Pra Rua, de empresários e executivos do mercado financeiro.

Uma classe social perdeu privilégios. O que se viu foi um desejo de voltar ao passado, com lemas e temores engavetados na Guerra Fria, como o esquecido “Vai pra Cuba!”, e uma política de concentração de rendas. Mas grande parte sabe que a democracia não tem volta.

O movimento micou. Parte da culpa é dos intrusos. Outra parte percebeu que, na verdade, a direita e seus aliados estão espalhados pelo Poder. Nunca saíram dele. Não faria sentido tirar os empregadores dele, impeachar a patroa.

Marcelo Rubens Paiva

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Hawilla e Boni: negócios entre amigos

Em sua coluna na Folha deste sábado (6), a jornalista Mônica Bergamo faz uma curiosa revelação: “O mercado já considera que J. Hawilla terá que se desfazer de boa parte de seus negócios depois das operações que o obrigam a pagar multas milionárias à Justiça dos EUA, de US$ 151 milhões. Boni, ex-diretor-geral da TV Globo, é apontado como candidato natural a adquirir ao menos parte do império do empresário — a TV TEM, (Traffic Entertainment and Marketing), que é afiliada da TV Globo e abrange 318 municípios do rico interior paulista. Boni, que é dono da TV Vanguarda, afiliada da Globo em São José dos Campos, já teria revelado a interlocutores a disposição de examinar o negócio”.

Caso a transação se confirme será um típico negócio entre amigos — algo comum entre as famiglias mafiosas. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, é um dos principais responsáveis pela construção do império global. Até hoje mantém forte influência na Rede Globo, conhecendo todas as suas sujeiras — inclusive no bilionário ramo do futebol. Já o empresário-picareta J. Hawilla é uma criatura sevada pela corporação. Ele construiu a sua fortuna em negociatas nada transparentes com a emissora e tornou-se um dos “afiliados” da Rede Globo. Com a descoberta do esquema de corrupção na Fifa, ele decidiu fazer um acordo de “delação premiada” e perderá parte dos seus negócios... que poderão ir para o seu amigo Boni!

Reportagem do Estadão desta sexta-feira (5), assinada por Cláudia Trevisan, revela que J. Hawilla, antes de ser descoberto na sujeira, pretendia “conquistar a América”. O filhote da Rede Globo investiu US$ 4,5 milhões para garantir os direitos de marketing e comercialização dos jogos nos EUA. “Até ser preso, na semana passada, ele acumulava os cargos de presidente da Traffic USA e de chairman do Conselho de Governadores da North American Soccer League (NASL), a liga criada em 2009 pelo brasileiro, equivalente à segunda divisão nos EUA”. Através da NASL, Hawilla firmou contratos de marketing e de “transmissão televisiva” — o mesmo esquema “profissional” montado com a Rede Globo no Brasil.

“A NASL foi fundada em 2009 e começou a atuar em 2011. Segundo documentos obtidos pelo jornalista Brian Quarstad, especialista em futebol, Hawilla recuperou os US$ 4,5 milhões que investiu com a cobrança de US$ 450 mil de cada um dos dez times que aderiram à liga. ‘A Traffic é muito agressiva e é o principal braço do Brasil no futebol dos EUA’, disse ao Estado o brasileiro Roberto Linck, jogador e um dos donos do Miame Dade FC”. Agora se sabe, de fato, como o empresário construiu seu império no ramo futebolístico. Não teve nada de política “muito agressiva”, mas sim muita corrupção e picaretagem. Um parte dos seus negócios, porém, poderá agora ficar nas mãos do seu amigo da Rede Globo, o Boni!

Altamiro Borges
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O desespero impotente da ombudsman da Folha

Desnorteada
A coluna deste domingo da ombudsman Vera Guimarães antecipa, involuntariamente, a morte da Folha.

Fico imaginando Vera tomando um Frontal para escrevê-la.

Vera, de certa forma, é a própria Folha, em sua dificuldade imensa de aceitar que a Era Digital matou o papel.

É um lamúrio, um grito de impotência e desespero, o texto de Vera.

Ela se queixa de uma nova redução do número de páginas da Folha.

E reproduz a ira de leitores. “Vejo a FSP em estado terminal, fininha e definhando a cada dia”, disse um deles. “É de dar pena e sinto-me lesado.”

Outro notou que em pouco tempo o site do jornal será mais importante que a edição impressa. “É isso que o jornal quer?”

É aí que Vera mostra sua dificuldade em enxergar o mundo que a cerca.

Ela responde: “Certamente não. (…) O impresso ainda é a joia da coroa em faturamento e prestígio, e isso é lembrado com frequência à Redação.”

A resposta de Vera sugere que a Folha tem condições de escolher o que quer.

Não tem.

O futuro da Folha ou está na internet ou não está em nada. O papel, para todos os efeitos, está tecnicamente morto.

Quem lê jornal e revista hoje é um público velho. Não há renovação. Jovens simplesmente ignoram coisas impressas.

Os próprios leitores citados por Vera são veteranos que fizeram sua assinatura há 25, 30 anos.

Do ponto de vista publicitário, é exatamente aquilo que os anunciantes não querem. São pessoas que deixaram para trás o impulso consumista típico dos jovens.

Vera em busca de argumentos para sua tese sem sentido tenta tudo. Diz que esse público veterano quer “um conteúdo selecionado, com menos assuntos, mas maior profundidade, consistência noticiosa e muita análise”.

Francamente.

Por que os editores do site da Folha não fazem exatamente o que sugere Vera? O que os obriga a querer cobrir todos os assuntos e encher o site de coisas que ninguém vai ler?

A Folha impressa pode seguir exatamente a receita da ombudsman. Não vai adiantar. Os leitores se informarão pela internet, assim como num certo momento as pessoas deixaram de se locomover em carruagens e passaram a usar carros.

O caminho para o fim é exatamente este que a Folha vem trilhando.

Menos leitores, menos anunciantes, menos páginas, menos jornalistas — e então, ao cabo de uma agonia insanável, o adeus.

Para complicar as coisas para a empresa, as marcas tradicionais não têm nenhuma vantagem competitiva na Era Digital.

Ao contrário: são carruagens. Repare. Nenhum grande fabricante ficou para contar a história depois que surgiram os automóveis.

Vera, pessoalmente, tem sorte.

Como ombudsman, ela tem emprego garantido por algum tempo e, depois de terminado seu mandato, imunidade por mais um ano.

Mas se ela quiser ter futuro no jornalismo vai ter que fazer a transição digital que ela diz não ser vital para seu jornal.

Paulo Nogueira
No DCM
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Ofensas

Muitos parisienses ficaram chocados com a solução encontrada pelo americano de origem chinesa Ieoh Ming Pei para uma nova entrada principal do Museu do Louvre. Uma pirâmide de ferro e vidro bem no meio da Cour Napoleon, em contraste com as fachadas ornamentadas do velho museu, parecia uma blasfêmia arquitetônica, uma agressão do moderno ao tradicional. Hoje pouca gente pensa assim. O contraste dramático do novo com o velho era a razão de ser da obra de Pei. E, ao mesmo tempo, o que poderia ser mais velho do que uma pirâmide, a primeira audácia arquitetônica da História, obra de algum Pei do Antigo Egito? E a pirâmide de ferro e vidro completava a grande perspectiva que começa no Louvre e leva ao Arco do Triunfo, passando pelo longo Jardim das Tulherias e por arcos perfeitamente alinhados, num grande banquete para os olhos, como alguém já disse sobre a Patricia Pillar.

Mas agora construíram, a poucos metros da pirâmide, um imenso pavilhão, este sim uma agressão aos olhos e ao bom senso. Boa parte do subterrâneo do museu, ao qual se tem acesso pela pirâmide, é tomada por lojas de objetos de arte e souvenires, e imagino que tenham recorrido ao pavilhão horroroso — que ainda por cima é pintado de vermelho! — porque faltou espaço para mais lojas no subterrâneo. No caso, a perspectiva de aumentar os lucros foi mais forte do que o respeito à perspectiva da paisagem e as razões do comércio derrotaram qualquer consideração estética. A esperança é que o pavilhão seja provisório. Mas a ganância nunca é provisória.

O amor, e não o comércio, é responsável por outra ofensa à paisagem parisiense. Não sei como começou, mas já é uma praga: namorados e casados prendem cadeados nas cercas de ferro das pontes e jogam as chaves no Rio Sena, para simbolizar sua união indissolúvel e eterna. Pontes com várias camadas de cadeados engatados levam a gente a desconfiar da quantidade de casais fiéis e felizes, moradores da cidade ou em trânsito. Claro que deve haver cadeados repetidos, de amores eternos desfeitos e substituídos, mas o fato é que uma das pontes carregadas de cadeados já é um perigo para passantes e para sua própria estrutura, e o que era um hábito romântico perdeu a graça e transformou-se numa ameaça pública, contra a qual a prefeitura pouco pode fazer. A não ser prender os amantes e multá-los, ou mandá-los catar as chaves dos seus cadeados no fundo do rio.

E ouvi que o hábito dos cadeados fechados se alastra. Uma contribuição francesa absolutamente dispensável à cultura do mundo.

Luís Fernando Veríssimo
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Ombudsman: “a Folha corre o risco de ficar cada vez mais dispensável”


A jornalista Vera Guimarães Martins, ombudsman da Folha de S. Paulo, usa sua coluna deste domingo 7 para tratar da reformulação do jornal impresso, que perdeu cadernos e ficou mais fino. Ela destaca "raiva, desencanto e perplexidade" de dezenas de leitores e avalia que "não será fácil conciliar consistência informativa e analítica num espaço cada vez mais reduzido". Leia alguns trechos:

Há muita especulação sobre o fim do jornal impresso, e a migração para o digital é um dos cenários à frente — mas não consta que seja para tão já. Nem é certo que ela venha a coroar a morte do impresso. É mais provável que ele continue vivo, servindo a um leitorado menor, que quer ir além da balbúrdia da internet e busca um conteúdo selecionado, com menos assuntos, mas maior profundidade, consistência noticiosa e muita análise.

Esse redesenho até agora não deu as caras. Da lista de intenções traçadas acima, só a redução de conteúdo está em vigor, reclamam com razão os leitores. Os textos estão cada vez mais curtos, e as reportagens se resumem ao arroz-com-feijão disponível na rede. As análises, antes obrigatórias nos temas mais importantes, praticamente sumiram após alguns poucos anos de experimentação.

De acordo com Vera, "o desafio agora é repensar o impresso à luz dessa lógica e com clareza coletiva de propósitos". A jornalista prevê que, "se continuar como está ou não for eficiente na transição da cobertura, a Folha será enxuta, mas corre o risco de ficar cada vez mais dispensável".

No 247
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Júlio Turra, da CUT Nacional, 'solta o verbo'!


No vídeo abaixo, assista na íntegra o forte pronunciamento do companheiro Júlio Turra, membro da direção Nacional da CUT, em Brasília (no 13º CECUT), dia 28/05.


No Júlio Garcia
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Novo comando da EBC

Mario Maurici de Lima Moraes

Não será surpresa para este blog se jornalista e administrador de empresa, Mario Maurici de Lima Moraes vir a assumir a presidência da Empresa Brasil de Comunicação – EBC/TV Brasil. A mudança do comando da estatal de comunicação pública acontecerá, em agosto, quando vence o mandato da atual diretoria.

Maurici é o “sonho de consumo” do ministro da SECOM, Edinho Silva, para pilotar a problemática estatal dedicada à comunicação pública. Os dois são amigos de longa data. Sem contar o fato que Maurici é um dos quadros históricos do PT paulista. Ele e o pai já foram prefeitos de Franco da Rocha. Cidade da região metropolitana de São Paulo, que, por sinal, hoje, é governada por Kiko (Francisco Daniel) de Morais, filho de Maurici.

Há quatro anos,Maurici preside a não menos gigantesca e complicada CEAGESP, o terceiro maior entreposto de perecíveis do mundo. Localizada na Vila Leopoldina, uma região valorizadíssima de São Paulo,a central de abastecimento será transferida para uma área, nas cercanias do Rodoanael. Neste exato momento, é Maurici quem comanda esse processo de mudança. Uma iniciativa que vai durar, pelo menos,  cinco anos.

Ele já trabalhou na TV Brasil, no período de sua implantação. Conhece bem o tamanho da encrenca que irá enfrentar. Por isso, tem sido reticente ao assédio do amigo ministro. Mas, no Planalto o nome dele é dado como pule de 10.
Maurici virá com o desafio de tirar a emissora pública da letargia em que se meteu nos últimos quatro anos. Com audiências sempre próximas do zero e gastos anuais na casa dos R$ 600 milhões, o conglomerado de televisão, rádio e agência de notícias existe única e tão somente para manter a folha de pagamento de seus 2.600 funcionários. Virou uma daquelas muitas empresas públicas existentes no País que vivem exclusivamente para dar comer á sua corporação.

Marcelo Auler
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Corrupção é coisa de país do Terceiro Mundo! Será mesmo?…

Casos Fifa e HSBC são só os mais recentes escândalos financeiros envolvendo empresas e países europeus

Joseph Blatter, suíço e presidente da Fifa: escândalos fora do 'eixo'
Caribe-Áfica-América Latina
O caso da Fifa virou uma bomba de fragmentação. Até a quinta-feira desta semana (4), o grosso dos denunciados no escândalo da Fifa envolvia sobretudo gente do terceiro mundo. Aqui na Europa havia um certo cheiro de queimado, mais ou menos, "quem mandou Blatter se envolver com esta súcia de caribenhos, africanos etc."

Mas agora a água do esgoto chegou aos joelhos — para não mencionar outras partes corpóreas — do ínclito Velho Continente. Além de outras plagas.

Primeiro foi a denúncia de que também a indicação da França, para a Copa de 1998, teria sido fraudulenta. As autoridades alemãs, em Berlim, se apressaram a dizer que a de Berlim, para 2006, não o fora. Porem jornalistas alemães, especializados em Futebol e corrupção, denunciaram no rádio na capital alemã que não só haveria indícios, senão provas, de que sim, houve fraude.

A pior denuncia veio sobre a Austrália, que teria pago propinas, mas não levou a Copa de 2002 ou alguma outra.

Enquanto isto, Jack Warner, de Trinidad Tobago, caçado pela Interpol, pediu garantias de vida e diz que vai contar tudo sobre Blatter e muito mais. Enfim, a ver.

Mas o melhor do dia estava para vir.

E veio.

A promotoria suíça concordou em suspender investigação sobre as contas fraudulentas do HSBC mediante a concordância do banco em pagar 40 milhões de francos do pais em multa, sem, no entanto, reconhecimento de culpa. São meros R$ 134,5 milhões, num universo que se diz ser de mais de 100 bilhões, e do mundo inteiro, envolvendo evasão fiscal (mais de 6 mil correntistas brasileiros, inclusive da mídia velha e moralista, com jornalista se negando a entregar a lista à CPI e ficando por isto mesmo), trafico de armas, drogas e pedras preciosas da África.

Todo mundo sabe que as lavanderias de dinheiro não são só caribenhas, mas também europeias, na Suíça, Luxemburgo, Mônaco etc.

Recentemente participei de um debate no Fórum Latino-americano de Berlim sobre se a corrupção era um risco para a democracia. Defendi a tese de que em si, não, havendo mais uma convivência hostil entre as democracias reais que conhecemos e a corrupção que mal conhecemos. E disse, antecipando o que esta acontecendo com a FIFA e o HSBC, que, se houvesse uma incompatibilidade entre corrupção e democracia, há muito a Suíça seria uma ditadura.

E é. Do Capital, é claro, porque nem só com fardas se faz uma. Lembrei de uma letra do imortal Pete Seeger:

As through this world I roamed / I’ve met lots of funny men / Some rob you with a six gun / Others with a fountain pen.*

Bem, hoje seria necessário substituir a caneta-tinteiro pelo teclado do computador, com prejuízo da rima.

Sem mexer no sistema financeiro internacional, aumentando o controle sobre ele, nada vai mudar, nem na Fifa, nem em Caixa-Prego. Nem na Suíça.

* Enquanto eu vagava por este mundo / Encontrei vários homens estranhos/Alguns te roubam com uma arma / outros com uma caneta-tinteiro (tradução livre)

Flávio Aguiar
No RBA
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Cultura x História

A ocupação da cidade síria de Palmyra por militantes do Estado Islâmico trouxe o medo de que os invasores, como já fizeram em outros lugares, destruam monumentos e obras de arte de civilizações antigas. O que no caso de Palmyra, patrimônio cultural da humanidade, seria um crime especialmente doloroso. Os soldados islâmicos teriam se comprometido a não tocar em uma pedra tombada pela Unesco, mas a ameaça permanece.

Nada a ver, mas me lembrei de ter lido que na revolta popular de 1830 contra o reinado de Charles X, na França, intelectuais e artistas ocuparam o museu do Louvre para proteger seus tesouros do povo revoltado. Enquanto nas ruas de Paris a massa sublevada conseguia, em três dias de agitação, derrubar o rei Charles X e acabar com a restauração dos Bourbons — e, como efeito colateral, inaugurar uma monarquia constitucional com a ascensão de Louis-Philippe d’Orléans — os artistas montavam guarda dentro do museu, para manter a Cultura a salvo da História, que acontecia lá fora.

Mas contam que — intelectuais e artistas sendo como são — não demorou para que surgissem brigas entre os ocupantes do Louvre, não por questões políticas, mas por diferenças estéticas e estilísticas. As brigas chegavam à troca de socos, de sorte que os tesouros do Louvre estavam mais ameaçados pela violência dos seus protetores do que pela violência das ruas. 

O pintor Delacroix foi um dos entusiastas do levante de 1830 que, entre as barricadas e o Louvre, preferiu a guarda do museu. Mas é dele a grande obra inspirada pelo evento, a pintura A Liberdade Guiando o Povo, com a figura de Marianne, símbolo da Revolução Francesa, com os seios nus, à frente dos revoltosos. Ao contrário do que se pensa, a participação popular na revolta de 1830 foi maior do que em 1789, data oficial da Revolução, e Delacroix deixa isso claro com o destaque que dá a figuras do proletariado no seu quadro. Em que não se vê nenhum burguês seguindo Marianne.

Além das outras novidades da grande pintura alegórica de Delacroix que chocaram os críticos da época, como a caracterização realista de trabalhadores e a glorificação da revolta, há um detalhe anatômico importante: Marianne tem cabelo embaixo do braço erguido que segura a bandeira tricolor. O símbolo da Liberdade de Delacroix tem cabelo no sovaco. O que não deixa de também ser revolucionário.

Cultura é o que fica, nas pedras antigas de Palmyra ou na coleção de arte do Louvre. História é o que passa e avança, muitas vezes com violência. Cultura cria, História destrói, e não tem o menor interesse em arte. Elas podem se complementar, mas nunca será uma convivência tranquila.

Luís Fernando Veríssimo
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Os mistérios de Ronaldo, além da final com a França


Por conta de um comercial de cigarros, Gerson, o canhotinha de ouro, ganhou a fama de pretender levar vantagem em tudo. Sem nunca ter cometido a imprudência de revelar seu caráter em comerciais chulos, Ronaldo, o Fenômeno, tornou-se a expressão mais completa da esperteza futebolística.

Não se sabe até onde irão as investigações do FBI sobre a corrupção no futebol. Mas há grande probabilidade de que a longa mão da lei norte-americana o alcance.

* * *

Todas as investigações começaram em torno do acordo de delação firmado por J. Hawilla com a justiça norte-americana.

No período investigado, três empresas de marketing esportivo chamaram a atenção: a Traffic, de J. Hawilla, a Klefer Marketing Esportivo, de Kleber Leite, e a 9ine, de Ronaldo.

As três atuaram nos três principais mercados sob suspeita: o de comércio de jogadores, o da compra de transmissões esportivas e o do marketing esportivo.

* * *

Além disso, são antigas as ligações entre Ronaldo e Hawilla.

A parceria parece ter começado em 2002, quando Ronaldo montou uma sociedade completa da sua empresa, a Gortin, com a Traffic. O acordo permitiu não apenas a compra dos direitos de transmissão do Campeonato Espanhol para a TV Bandeirantes, como transferiu para a Traffic o trabalho de marketing de mais de cem jogadores atendidos pela Gortin.

Mais tarde, houve conflito entre a Traffic e a nova empresa de Ronaldo, a 9ine, em torno do patrocínio do Flamengo. Mas em fins de 2011 foi celebrada a paz e ambas as empresas passaram a planejar ações conjuntas.

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Na Copa do Mundo do Brasil, Ronaldo tornou-se o braço mais ostensivo de influência da FIFA.

Foi indicado por Ricardo Teixeira, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), para compor o COL (Comitê Organizador Local) da Copa do Mundo. E a indicação veio acompanhada de declarações eloquentes: “Esse Ronaldo que o povo brasileiro idolatra é a voz perfeita para o momento de conciliação em torno da Copa de 2014”.

Desde o início, revelou-se o lobista mais eficiente da FIFA.

Suas primeiras intervenções foram para reduzir as críticas contra as obras da Copa, sustentando que o país era suficientemente rico para garantir as obras e os gastos em educação e saúde.

* * *

Nos auges da disputa entre o governo brasileiro e a FIFA, mesmo sendo membro do COL e acompanhando as obras, sabendo que seriam entregues dentro do prazo combinado, valeu-se da atoarda dos jornais para pressionar. "A Copa do Mundo (...) poderia ter sido perfeito, se fizessem tudo o que prometeram, mas isso não tem a ver com Copa do Mundo, tem a ver com os governos que prometeram e não cumpriram".

* * *

Quando os abusos e os enormes lucros da FIFA começaram a ser comentados, foi o primeiro a defender a entidade. “Falam que a Fifa está tendo lucro, mas qual é a empresa que não quer ter lucro? Todo mundo quer ganhar dinheiro”.

* * *

Implodido o esquema FIFA, saiu a campo condenando seus antigos aliados e pedindo renovação. Sua pressa em se descolar da quadrilha é sugestiva.

É possível que, ao final das investigações, se tenha mais luz sobre o mistério Ronaldo do que aquelas que não iluminaram o fatídico jogo contra a França, no qual o Brasil perdeu a Copa.

Luís Nassif
No GGN
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Enganações

Esqueceram ou ignoravam. A solução aprovada na Câmara para reverter a proibição, decidida na véspera, do financiamento eleitoral por empresas, não proporciona, como desejado pela maioria dos deputados, que as doações continuem e nem seja mais verificável a ligação entre o doador e o candidato. Para isso, faltou no texto aprovado um pormenor indispensável.

Vista por muitos como golpe baixo, o que levou vários deputados à decisão de recorrer à Justiça, a manobra criada por Eduardo Cunha libera as doações desde que feitas aos partidos, que as repassam aos seus candidatos. O doador a ser informado na prestação de contas do candidato à Justiça Eleitoral? O partido.

Mas o Tribunal Superior Eleitoral, ao perceber que alguns candidatos e empresas vinham usando o partido como recebedor/repassador, encobrindo o beneficiado, aprovou no ano passado um ato simples e eficaz. Uma resolução passou a exigir a identificação do doador inicial na prestação de contas.

A emenda à Constituição agora aprovada pela Câmara manteve o dinheiro de empresas para os candidatos, mas a ninguém ocorreu incluir uma frase para neutralizar a resolução moralizadora. E, como é esperada retração de doadores identificados, a omissão arruína grande parte do ganho obtido pelos defensores do dinheiro empresarial.

A falha no texto aprovado pela Câmara leva o problema para o Senado, que ainda vai se definir sobre o tema. E, dentro do problema geral, um outro, do PSDB. A reviravolta dos deputados peessedebistas, que em menos de um dia votaram o fim das doações empresariais e a sua continuidade, foi criticada por peessedebistas do Senado.

Não só pelo fisiologismo dos seus companheiros na Câmara, como por haver, entre os senadores peessedebistas, defensores das doações por pessoas e identificadas na origem e no destinatário.

Na segunda-feira, Eduardo Cunha e Renan Calheiros apresentaram o anteprojeto de ambos para retirar da Presidência da República a escolha dos dirigentes de estatais. Em vez de decidir quem são, a Presidência passaria a indicá-los ao Congresso, que os sabatinaria e aprovaria ou não. É claro que o anteprojeto nascia do desejo de rejeições: o desejo de aprovações não faria pensar em sabatinas e julgamentos, a norma atual o satisfaz.

Na quarta, Renan Calheiros recuou. Dispensava indicação ao Congresso, sabatina e avaliação. Na quinta, lá do Oriente Médio onde dá uma folga à política brasileira, Cunha comunica igual recuo.

Ambos, e para isso existem as comunicações internacionais, alegaram que "a sabatina é um detalhe", o que pretendem "é a transparência das contas das estatais". Mas não disseram a verdade. Quiseram ferir o Executivo, e é fácil constatá-lo. A evidência está na Constituição, no Orçamento e na vida institucional ativa: o Tribunal de Contas da União existe como "auxiliar do Congresso para a fiscalização" do que envolva bens e recursos públicos.

O único sentido possível do anteprojeto de Cunha e Calheiros seriam as sabatinas e as rejeições. No entanto inconstitucionais, porque usurpadores de atribuição do Executivo. Daí o recuo rápido e forçado.

Na segunda, Joaquim Levy disse, em seminário do FMI, que o Brasil viverá em 2015 sua "mais grave recessão" nas últimas duas décadas e a "recuperação será lenta", porque "a nossa [lá deles, neoliberais] estratégia é para o longo prazo".

Saído dali, Levy disse aos jornais e TV brasileiros que "temos bastante chance de ver uma segunda metade do ano favorável". Se alguém falar em facilidade de mentir, em cinismo e em desrespeito à população, será tido como grosseiro. A mentira, o cinismo e o desrespeito, não.

Na quinta, Gilmar Mendes respondeu a Mario Sergio Conti que paralisou o julgamento do STF, quando já encaminhada a decisão contra doações eleitorais de empresas, porque havia indício da intenção de aplicá-la nas eleições de 2014.

Gilmar Mendes pediu vista do processo e o engavetou em abril de 2014. As eleições foram em outubro. E Gilmar Mendes continua retendo o processo e impedindo a conclusão do julgamento por mais sete meses e meio. Por causa das eleições passadas? Sua violência judicial, evidente abuso de poder, coincide com as manobras da Câmara para manter o dinheiro de empreiteiras, bancos e outras grandes empresas na condução das eleições.

Janio de Freitas
No fAlha
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O dia em que o jn se despediu do parceiro Ricardo Teixeira, o homem da propina de R$ 73.266.606,00


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No dia 11 de maio de 2010 o promotor do cantão de Zug, na Suiça, Thomas Hildbrand, anunciou o acordo pelo qual arquivava ação criminal contra João Havelange e Ricardo Teixeira.

No documento incluiu a tabela ao lado. É a lista das propinas identificadas pagas pela International Sports Marketing, ISL, a Havelange e Teixeira. Um total de 21.904.630 francos suiços entre 1992 e 2000, ou R$ 73.266.606,00 no câmbio de hoje, sem considerar a inflação.

Institution 2 é a empresa Sanud. Quando depôs a uma CPI do Congresso brasileiro, Teixeira disse que a Sanud era “apenas” sócia-investidora dele. O promotor provou que o cartola mentiu. A Sanud era o propinoduto de Teixeira, baseado em Liechtenstein.

Há um pagamento de 1,5 milhão de francos suiços nominal a João Havelange no dia 03 de março de 1997. Foi produto de um erro incrível. Foi um depósito que a ISL fez diretamente na conta da FIFA! A entidade fez o estorno da quantia e deu ao cartola o valor, mas não conseguiu apagar os registros da contabilidade do banco.

A informação vazou para o jornalista Andrew Jennings, que tascou num tabloide britânico sem identificar nominalmente Havelange.

A empresa identificada como E4, da qual eram beneficiários Havelange e Teixeira, é a Renford.

O dinheiro foi pago pela ISL para garantir exclusividade nos direitos de transmissão e marketing da Copa do Mundo, num período em que Havelange presidia a FIFA e seu ex-genro Teixeira a CBF.

Em todo este período a Globo teve exclusividade no Brasil, através de contratos fechados com a ISL.

Embora a FIFA tenha terntado impedir a divulgação das descobertas de Hildbrand, perdeu na Justiça.

No Brasil, o Jornal da Record foi o primeiro a mostrar a relação de pagamentos feitos a Teixeira, ainda em 2011, antes mesmo da divulgação oficial.

Teixeira se afastou da CBF no dia 12 de março de 2012.

Agora vejam o texto que o Jornal Nacional, da TV Globo, dedicou a seu parceiro na despedida.

O ápice da desonestidade jornalística é a frase que destacamos em negrito:



Número 70 da Rua da Alfandega, centro do Rio. Vinte e três anos atrás, Ricardo Teixeira entrava neste prédio para ser empossado como Presidente da CBF.

Há nove anos o prédio deixou de ser a sede da Confederação… há algumas horas Teixeira deixou de ser o Presidente da CBF.

Ricardo Teixeira assumiu a presidência da CBF em 1989, seguindo os passos do sogro, o então presidente da FIFA, João Havelange.

Sob o comando de Teixeira, o Brasil conquistou 112 títulos em várias categorias do futebol: o último deles, em agosto do ano passado, quando a Seleção Sub-20 foi penta-campeã mundial.

A primeira conquista veio logo no início de sua administração, o título da Copa América, pela Seleção principal, deu fim a um jejum que já durava quatro décadas. Aquela taça foi a primeira de uma série de cinco Copas Américas na gestão dele.

Ricardo Teixeira esteve a frente da CBF em seis Copas do Mundo, de 90 na Itália até 2010 na África do Sul, foram três finais consecutivas.

Em 94, com Carlos Alberto Parreira no comando, o Brasil voltou a vencer depois de 24 anos sem um título.

Quatro anos depois, em 98, na França, outra final: derrota para os franceses por três a zero.

Em 2002, a geração talentosa de Ronaldo e Rivaldo reconquistou a hegemonia mundial com o penta-campeonato no Japão.

Nas últimas duas Copas ele presenciou as derrotas, na Alemanha e na África do Sul, apesar de a Seleção ter conquistado a Copa das Confederações nos anos anteriores aos dois mundiais.

No comando da CBF, Ricardo Teixeira organizou o calendário do futebol nacional e instituiu a formula dos pontos corridos para o Campeonato Brasileiro. Foram medidas benéficas para a economia dos clubes, que passaram a ter atividades o ano inteiro.

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Os amigos de Teixeira, segundo a Globo (entre Marin e Del Nero).
Com uma gestão longa, Ricardo Teixeira colecionou amigos e adversários. Seu jeito centralizador gerou desafetos, de Romário a Pelé, passando por dirigentes esportivos.

O mais recente: o atual presidente da FIFA, Joseph Blatter.

Da lista, houve muitos com quem selou a paz, como Ronaldo “fenômeno”, que, este ano, depois de restabelecidas as relações, foi nomeado pelo próprio Ricardo Teixeira para integrar o Comitê da Copa de 14.

Ao longo da carreira, Ricardo Teixeira foi alvo de denúncias.

Diante de todas elas, Teixeira sempre disse que as acusações eram falsas e tinham caráter político.

A denúncia mais contundente foi a de que ele, e um grupo ligado a FIFA, teriam recebido dinheiro de forma irregular nas negociações de uma empresa de marketing esportivo, em 1999. Viu os processos serem arquivados pela Justiça.

Teixeira assumiu a Confederação Brasileira quando a Seleção tinha apenas dois patrocinadores. Deixa a Seleção com dez patrocinadores e a CBF com um faturamento anual de R$ 271 milhões (números de 2010).

Sua última realização a frente do futebol brasileiro não foi alcançada no gramado.

Em 2007, Ricardo Teixeira comandou a campanha vitoriosa que fez a FIFA conceder ao Brasil o direito de organizar a Copa do Mundo de 14.

Nos últimos cinco anos foi o Presidente do Comitê Organizador Local. Hoje, sai de cena, há dois anos do Mundial.
Luís Carlos Azenha
No Viomundo
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Revista cita escândalo das Copas de 2002 e 2006 para explicar relação entre Globo e Fifa

"Não causaria surpresa se o FBI batesse na porta 
dos irmãos Marinho", diz revista
Carta Capital utilizou documentos para apontar associação entre emissora e entidade

A Carta Capital que chegou às bancas na última sexta-feira (5) apontou novos atores para o maior escândalo de corrupção da história do futebol. A revista utilizou documentos reproduzidos no livro O Lado Sujo do Futebol, dos jornalistas Luiz Carlos Azenha, Leandro Cipoloni, Amaury Ribeiro Jr. e Tony Chastinet, para incluir a Rede Globo na investigação que culminou na prisão de sete dirigentes do alto escalão da Fifa. A publicação diz que a relação da emissora com os principais envolvidos vem de longa data, como no milionário esquema abastecido pela extinta ISL. A empresa intermediava a negociação das cotas de tevê para as Copas do Mundo de 2002 e 2006.

Como lembra a revista, nesse esquema deflagrado pela promotoria suíça, o ex-presidente da Fifa João Havelange e o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira receberam propinas equivalentes a R$ 45 milhões. O processo foi desencadeado pela própria Fifa, que cobrou da massa falida da ISL sua parcela da quantia paga pela Globo. A emissora havia dissolvido uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas para pagar o pacote da Fifa sobre os direitos do Mundial de 2002. A Receita Federal identificou irregularidades na operação e a Globo, que na época contestou a sonegação, foi condenada a pagar R$ 615 milhões.

A capa da revista monta um álbum de figurinhas estilizado com a manchete "Album Incompleto". Lá estão Ricardo Teixeira (indiciado pela Polícia Federal), Joseph Blatter (presidente renunciado da Fifa), Jérôme Valcke (investigado pela Justiça dos Estados Unidos), José Hawilla (réu confesso) e José Maria Marin (preso na Suíça). A sexta imagem apresenta o símbolo da Rede Globo e um ponto de interrogação, questionando quais outras figurinhas carimbadas ainda serão queimadas.

De acordo com a publicação não seria surpresa "se os investigadores do FBI decidissem bater na porta da emissora dos irmãos Marinho".

A investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos resultou na prisão de sete cartolas, enquanto esses se preparavam para o congresso anual da entidade, no luxuoso Baur Au Lac, em Zurique, na Suíça. Entre os presos, está José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol.


No R7
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