2 de jun de 2015

Escândalos na FIFA e na CBF: Agora falta explicar por que quem pagou menos transmitiu de forma exclusiva o futebol

Há mais em comum entre o ex-presidente do Clube dos 13 e o golfista Arnold Palmer do que você supõe, 
caro amigo navegante…
Joseph Blatter caiu. Não foi para preservar a FIFA ou o futebol, obviamente. Foi porque o braço direito dele, Jérôme Valcke — aquele que pretendia dar um pontapé no traseiro dos brasileiros — se viu enredado na investigação do FBI, como suposto remetente de uma propina de U$ 10 milhões disfarçada de projeto benemerente.

Blatter e o brasileiro João Havelange, flagrado no propinoduto da ISL para garantir à empresa exclusividade nos direitos de transmissão e marketing da Copa, são farinha do mesmo saco.

Ambos foram “depositados” na FIFA pelo dono da Adidas, Horst Dassler, que inventou a ISL e praticamente o marketing esportivo ao perceber que poderia promover eventos para grandes audiências na televisão ao mesmo tempo bombando sua marca.

Quando Havelange presidia a FIFA, Blatter era o secretário-geral. Embora recentemente, provavelmente orientado por alguma assessoria de imagem, tenha se dedicado à “transparência”, Blatter atuou eficazmente nestes anos todos para encobrir os malfeitos da cartolagem, como descrevemos minuciosamente em O Lado Sujo do Futebol.

Exemplo? Quando o promotor suiço Thomas Hildbrand pegou Havelange e seu ex-genro Ricardo Teixeira com a boca na botija, a FIFA fez tudo o que estava ao seu alcance institucional para livrar os cartolas brasileiros, chegando ao cúmulo de dizer que as propinas na verdade eram comissões perfeitamente legais. Tentou bloquear na Justiça a divulgação do devastador relatório do promotor que trouxe as propinas à luz, na casa dos milhões e milhões de dólares.

Hildbrand, a certa altura de seu relatório, diz que o papel de Teixeira era preservar o status quo no que se refere aos contratos. Como sabemos, no Brasil FIFA e CBF (Havelange e Teixeira) ajudavam a ISL, que vendia os direitos de transmissão à Globo, que nunca foi incomodada pela concorrência.

Como descrevemos na página 273 de nosso livro, na disputa pelas Copas de 2002 e 2006 a ISL enfrentou pela primeira vez a competição da empresa norte-americana IMG, do lendário golfista Arnold Palmer. Ele fez uma oferta muito maior e prometeu aumentar o valor — de U$ 1 bilhão — caso houvesse leilão. As duas propostas foram a votação no Comitê Executivo da FIFA: a ISL teve 9 votos a 6, com três abstenções e duas ausências.

Isso foi antes de se descobrir o imenso propinoduto da ISL, que irrigou inclusive as empresas de fachada de Ricardo Teixeira e João Havelange, Sanud e Renford.

E o que Palmer, afinal, tem a ver com Fábio Koff, o ex-presidente do Clube dos 13? Muito.

Koff, à frente da entidade, tentou promover no Brasil uma concorrência pública para vender os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.

Em 2011, a RedeTV! venceu a concorrência com uma proposta de R$ 1.548.000,00 por três temporadas. Uma proposta que seria bem superior ao que a Globo vinha pagando. Como narramos detalhadamente em nosso livro, por conta disso Ricardo Teixeira se mexeu nos bastidores para destruir o Clube dos 13, o que efetivamente conseguiu. Em consequência, a Globo passou a negociar diretamente com os clubes. Teve de pagar mais do que pagava anteriormente, mas não correu o risco de perder os direitos.

Para quem despreza a RedeTV!, um lembrete: nos Estados Unidos, a Fox de Rupert Murdoch estabeleceu-se como rede nacional de TV, competindo com ABC, CBS e NBC, ao comprar por uma quantia estratosférica os direitos de transmissão do futebol americano.

Meu ponto: o esporte em geral — no Brasil, o futebol em particular — garante um retorno econômico extraordinário a qualquer emissora.

Porém, aqui praticamos o capitalismo à brasileira: a Globo, campeã do discurso sobre o livre mercado, sufoca a competição nos bastidores.

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Na Argentina, o réu confesso J. Háwilla (de jaleco branco), o diretor da TV Globo Marcelo Campos Pinto e o indiciado Ricardo Teixeira: bons tempos


A pergunta que está na boca dos internautas: foi de graça?

Um deles, cujo nome decidimos manter no anonimato, nos escreveu:
Na Estrada do Mata Porcos, bairro de Correas, em Petrópolis, a família Marinho, mantém um sítio desde a década de 1950. O local foi transformado em um condomínio de luxo que só é possível acessar depois de se identificar na portaria. Um lugar idílico de poucas e refinadas Mansões.

Entre os vizinhos há nomes como Ricardo Teixeira, Kleber Leite e empreiteiros investigados pela Operação Lava-Jato que construíram estádios de futebol para a Copa do Mundo. Há também barões da Stock Car, sendo que um deles a filha é atriz global e namora um famoso jogador de futebol.

O mais interessante é que a família Marinho comprou algumas casas no local e as mantêm vazias, pois não gostam de vizinhos por perto. Será por medo dos vizinhos ou será por causa das testemunhas?

Aguinaldo Silva fez questão de fazer o homem de preto mergulhar em uma piscina de euros na novela Império tendo como cenário a cidade de Petrópolis. Será que não foi uma forma velada de falar de uma empresa lá nas Ilhas Virgens Britânicas?

Nada como uma passada pelo registro de imóveis para mostrar porque uma empresa que paga menos tem o direito de transmitir partidas de futebol, ao invés de quem paga mais. Afinal, por que brigar com os vizinhos por tão pouca coisa?
Notem que o internauta quer saber porque uma empresa que paga menos tem o direito de transmitir partidas de futebol, ao invés de quem paga mais. No caso da ISL, que atropelou Palmer, já sabemos.

Mas, e aqui? Que milagre brasileiro é este?

Não seria o caso do senador Romário convocar o ex-presidente do Clube dos 13 para depor na CPI da CBF?

PS do Viomundo: Dois dos autores do livro O Lado Sujo do Futebol, Leandro Cipoloni e Tony Chastinet, decidiram preparar um dossiê de documentos para encaminhar ao FBI. Vai que eles se interessam em traduzir a papelada do português!

Luís Carlos Azenha
No Viomundo
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Quando o repórter mostra que o rei está nu

Esforços de reportagem são cada vez mais raros nesses tempos em que o jornalismo se submete a uma rotina
que se rende aos releases das assessorias de imprensa e à palavra das autoridades.
A versão oficial sobre o atentado no Riocentro, em 1981, foi desmascarada imediatamente por um esforço de reportagem. A equipe do Jornal do Brasil que cobria o caso reconstituiu a cena e demonstrou que não havia a menor possibilidade de existir uma bomba na parte interna da porta do Puma em que estavam o sargento e o capitão atingidos pela explosão: naquele tipo de carro não havia espaço entre a porta e o banco, onde, de fato, o sargento armava uma bomba, que acidentalmente explodiu no seu colo. Ele morreu, o capitão ficou gravemente ferido mas sobreviveu, teve as promoções de praxe e está vivo até hoje.

Estávamos ainda sob ditadura, sofrendo as ações de grupos que o general Ernesto Geisel classificou como “bolsões sinceros, mas radicais”, os militares da linha dura que confrontavam a política da abertura “lenta, gradual e segura” e que continuaram a atuar durante o governo João Figueiredo. A investida no Riocentro, no show do 1º de Maio, seria a mais ousada até então e, se bem sucedida, teria provocado uma tragédia.

A versão oficial perdurou durante muito tempo, mas jamais convenceu ninguém, e o JB, que pela reportagem ganhou o Prêmio Esso principal daquele ano, contribuiu decisivamente para mostrar que o rei estava nu.

Esforços de reportagem assim são cada vez mais raros nesses tempos em que o jornalismo se submete a uma rotina que se rende aos releases das assessorias de imprensa e à palavra das autoridades. Mas existem, e o exemplo mais recente foi dado por Aydano André Motta, na coluna “Panorama Carioca”, do Globo de sábado (30/5, ver aqui). Duvidando da versão oficial sobre o assassinato do médico Jaime Gold — morto a facadas em 20/5, quando pedalava, no início da noite, pela Lagoa Rodrigo de Freitas —, em que o delegado responsável dava o caso como encerrado e citava o depoimento de uma testemunha que teria reconhecido o autor do crime, o jornalista tomou uma providência elementar: mais ou menos no mesmo horário, foi até o local em que a testemunha trabalha — um posto de gasolina, que, como ressaltou, “não fica em frente ao local exato do crime, mas numa diagonal” — e de lá, com seu celular, fotografou a partir do ângulo de visão do frentista.

Foto: Aydano André Motta
Foto: Aydano André Motta
A distância de quatro pistas de trânsito, mais o canteiro central, e a precária iluminação demonstram a absoluta impossibilidade de alguém reconhecer quem quer que seja naquela situação. Mais ainda se o médico estivesse pedalando na direção do Túnel Rebouças, como é o mais provável: nesse caso, quem o atacou estaria de costas para a testemunha que o teria identificado.

Repórteres “obedientes”

Reportagens são feitas de dúvidas que geram perguntas, frequentemente incômodas: além de esclarecer o trajeto que o médico fazia, seria preciso indagar — como faz Aydano em seu artigo — como é possível que o suposto assassino tenha pedalado da Lagoa até a favela do Jacarezinho, na Zona Norte, passando por bairros da Zona Sul como Humaitá, Botafogo, Flamengo e pelo Centro: como é possível que não tenham identificado até agora qualquer imagem “de um jovem numa bicicleta caríssima, nas centenas de câmeras em operação pelo longo caminho”.

O artigo põe a dúvida que deveria ter orientado o trabalho de reportagem desde o início. Por que não foi assim? Em parte, certamente, pela orientação editorial do jornal, que destacou a morte do médico no alto da primeira página e lhe dedicou nada menos do que cinco páginas internas, além de aproveitar para reiterar, em editorial, a defesa da redução da maioridade penal. Se houvesse interesse em investigar, provavelmente uma das primeiras providências teria sido esta que o colunista tomou.

Mas a esse motivo ideológico se associa outro, que diz respeito às rotinas profissionais adotadas nas empresas jornalísticas de modo geral. Como tantos jornalistas experientes, Aydano diz que os repórteres, em todas elas, vêm se tornando “obedientes”: não ousam mais, contestam pouco. “Lembro que o [José Mariano] Beltrame [secretário de Segurança] não divulgou o nome do soldado que matou aquele garoto no Alemão [o menino Eduardo de Jesus Ferreira, em abril deste ano]. E até hoje ninguém sabe o nome dele”, afirma. Mas reconhece que isso ocorre também por causa das condições de trabalho no jornalismo atual: se um repórter tem três, quatro pautas para cumprir por dia, é muito difícil fugir a essa regra.

Por ter trabalhado na reportagem de cidade durante praticamente toda a carreira, Aydano também cobriu alguns casos de polícia e diz que uma frase do ex-delegado Hélio Luz, chefe da Polícia Civil entre 1995 e 1997, o assombra até hoje: “Foi quando ele me disse que a gente tem a polícia que quer ter”. Por isso é tão fácil pegar o primeiro jovem negro para culpá-lo do crime, ainda mais se esse jovem tem tantas passagens pelo “sistema”.

Sobre a situação específica da Lagoa, diz que o local, embora turístico, tem segurança precária por causa de sua configuração específica: “É uma região que passa por três batalhões [da Polícia Militar] diferentes, então não é de batalhão nenhum: um empurra para o outro a responsabilidade”. Diante de um crime de grande repercussão como este, reforça-se o policiamento, que tende a afrouxar conforme o tempo passa, até que outra tragédia aconteça.

O sistema que sustentamos

O artigo circulou amplamente pela internet e recebeu muitos comentários elogiosos, que também criticavam a precipitação da polícia. Um deles condenava a pressa “da polícia e de parte considerável e marrom da imprensa, que por sua vez alimenta uma pressa de suposta origem na sociedade”, pela qual “ficamos sem justiça”, pois “um assassino pode continuar solto, desde que achemos que está preso; um inocente (em relação ao crime específico pelo qual é condenado) pode ser e continuar preso, desde que ‘se pareça com um bandido’. É esse o sistema que queremos? Se não for, por que o sustentamos?”.

Entre profissionais do direito, houve quem apontasse na declaração do secretário Beltrame, logo após a notícia do assassinato — “É inadmissível um crime como esse na Lagoa” — a origem da urgência na tentativa de dar o caso como encerrado, pegando o primeiro suspeito verossímil. Outra crítica é ao reconhecimento através de fotografia. “Existem regras para o reconhecimento pessoal no Código de Processo Penal”, comentou a desembargadora Simone Schreiber. “O sistema é aquele que vemos em filmes americanos: enfileirar pessoas com o mesmo biótipo atrás de um vidro espelhado. Antes a vítima ou testemunha tem que descrever o suspeito. Mas como as polícias não investem em salas de reconhecimento, simplesmente se flexibiliza a lei.”

O coelho e a tartaruga

No texto em que demonstra a nudez do rei, Aydano diz que a investigação sobre o assassinato do médico “patina numa sucessão inacreditável de trapalhadas, que conjuga imperícia, açodamento e vaidade”. Uma das contradições é que a testemunha teria dito que um dos assaltantes era branco, enquanto os dois suspeitos presos são negros. Outra se revela nos comentários, depois apagados, que a delegada da 14ª DP, responsável pela região onde ocorreu o crime, fez numa rede social, questionando a condução das investigações:

“‘(A testemunha) disse que não tinha condições de reconhecer (os responsáveis). No dia seguinte, já em outra DP [a Delegacia de Homicídios] (…) reconheceu (um dos jovens) em fotos. Pois é, ele (adolescente reconhecido pela testemunha) não foi pego na noite (do crime). A tal testemunha foi ouvida (por policiais da 14ª DP na noite do assassinato) e não tinha condições de reconhecer ninguém. Enfim… Segue o baile…’”.

Na abertura do artigo, o jornalista lembra de uma famosa piada sobre a eficiência dos investigadores do FBI e da Scotland Yard em comparação aos métodos dos policiais brasileiros. Trata-se de uma disputa sobre quem encontraria mais rápido um coelho num bosque. O policial brasileiro consegue a façanha, mas apresenta uma tartaruga, cheia de escoriações, que não pára de berrar: “Eu sou um coelho! Eu sou um coelho!”.

Aydano retoma a imagem da piada na conclusão:

“Pelo bem do Rio de Janeiro, crimes famosos e anônimos, contra ricos, pobres e remediados precisam ser esclarecidos, para que a Justiça possa prevalecer. O que jamais acontece com tartarugas no lugar de coelhos”.

Acrescentaria depois: pelo bem do jornalismo, inclusive.

Ironicamente, a coluna que desmonta a versão oficial sobre o crime foi editada ao lado de um enorme release da Prefeitura disfarçado de reportagem, com o selo “Rio 2016”, sobre as providências do programa “asfalto olímpico”, de recuperação das esburacadas ruas da cidade.

Coisas do Globo.

Sylvia Debossan Moretzsohn
No OI
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O perigo do bolivarianismo

Venezuela emprega 62% de suas renceitas em investimento social



O Governo da Venezuela expôs junto à Organização das Nações Unidas as conquistas da Revolução Bolivariana produto de investimento social.

O Vice-Presidente de Planejamento da Venezuela, Ricardo Menendez, disse nesta segunda-feira que, entre 1999 e 2014, sua nação alocou 62 por cento da renda nacional para investimento social.

Ante o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da Organização das Nações Unidas (ONU) em Genebra, na Suíça, o vice-presidente descreveu as conquistas do país durante a Revolução Bolivariana.

Menendez enfatizou que a percentagem do rendimento nacional deve ser contextualizada, "naquela época (antes de 1999) eram investidos 80 bilhões de dólares, e agora são investidos 732 bilhões de dólares."

De acordo com o vice-presidente, isso não só lhes permitiu multiplicar nos direitos sociais, mas têm também conseguiu democratizar o acesso a bens e serviços.

Menendez observou que o consumo das famílias dobrou nos últimos 16 anos. No consumo interno de petróleo foi 458 para 703 milhões de barris por dia. Também destacou o aumento no uso da telefonia fixa, Internet e energia em residências.

O Vice-Presidente destacou que seu país cumpre o Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, destacou ainda a implementação das disposições da Parte II do Pacto em que fala sobre a obrigação de medidas de não discriminação.


"Fizemos um profundo exercício de respeito, promulgamos uma legislação que permite que, entre outras realizações, tem garantidos os plenos direitos dos trabalhadores, o acesso à terra, o aumento da oferta de títulos, a pesca, proteção aos idosos, as crianças ", disse Menendez.

Outros avanços que destacou são os alcançados em proteger as mulheres, para as quais foram criadas procuradorias, tribunais e leis especializadas.

Ao mesmo tempo, ele destacou a criação de novas formas de governança como a constituição dos Conselhos Presidenciais de governos, que consistem na participação de todos os setores, em conjunto com o Governo, para a concepção e implementação de políticas.

Menendez enfatizou que a Venezuela tem um governo que está comprometido com a defesa do povo, onde a Constituição é de um respeito
total aos Direitos Humanos.

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Vídeo com Azenha: como o FBI chega à Globo


Como é possível a Globo oferecer menos e ter a exclusividade dos eventos?

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E se Ricardo Teixeira falar numa delação premiada?

Um homem com muitas histórias
Sem Blatter, que enfim se rendeu à realidade e renunciou, a Fifa pode enfim passar por um processo de desintoxicação.

E a CBF?

O equivalente a Blatter, no futebol brasileiro, é a Globo.

Enquanto a Globo estiver metida no futebol brasileiro, nada vai acontecer.

O espírito da Globo é o que todos conhecemos: predador. Na relação entre a Globo e o futebol brasileiro, a Globo ganhou extraordinariamente e o futebol brasileiro se reduziu à miséria.

Alguma coisa, obviamente, não funcionou na sociedade. Quer dizer, funcionou apenas para a Globo.

A Globo tem que sair do futebol brasileiro, como Blatter saiu da Fifa.

Mas vai sair?

É difícil, dado o poder na Globo. Mas também era difícil imaginar Blatter fora da Fifa, mesmo depois da eclosão do escândalo.

Há um caminho que pode levar a uma faxina real na CBF, e ele passa por Ricardo Teixeira.

Se a PF e a justiça realmente apertarem Teixeira, os desdobramentos podem ser interessantes.

Imagine que seja oferecida a ele a delação premiada.

Que histórias ele não tem a contar dos anos, muitos anos, de parceria entre a CBF, a Globo — e a Fifa.

A Globo, nos anos de influência de Teixeira (e do antigo sogro Havelange) na Fifa, sistematicamente ganhou os direitos de transmitir a Copa para o Brasil.

Bizarrices ocorreram.

A Globo levou as Copas de 2010 e 2014 por 220 milhões de dólares, pagos à Fifa, 100 milhões pela primeira e 120 pela segunda. A Record foi preterida com uma oferta de 360 milhões de dólares.

Para a Copa de 2014, a Globo colocou no mercado oito cotas de patrocínio, cada uma delas por 180 milhões de reais.

Como o dólar estava em dois reais, isso significava 90 milhões de dólares por cota.

Isso dá um total de 720 milhões de dólares. A Globo não é de dar descontos, e então o faturamento deve ter sido aquele mesmo.

Qual o gasto para cobrir? O maior mesmo é a compra dos direitos. Sequer imagens a Globo teve que gerar, pelo contrato.

Suponhamos, com boa vontade, que a Globo tenha gastado 50 milhões de dólares para armar a cobertura da Copa.

Você gasta 120 mais 50. O total é 170. E fatura 720.

Existe negócio melhor?

É assim que os Marinhos se tornaram a família mais rica do Brasil.

Ricardo Teixeira e João Havelange tinham força, no passado, para influenciar nas decisões da Fifa.

O que a Globo não teria feito para manter a Copa em casa?

Fora o dinheiro, há um ganho imenso de audiência e de prestígio na transmissão de uma Copa, coisas que se transformam em mais negócios lucrativos.

O difícil, no Brasil como conhecemos, é acreditar que Ricardo Teixeira vai ser cobrado pela polícia e pela justiça como Marin será nos Estados Unidos.

Mas se for, e se ele falar numa delação premiada, a CBF vai ser desinfetada, como a Fifa pós-Blatter.

Paulo Nogueira
No DCM
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O ‘clamor’ alimentado pela imprensa

Ouça aqui



Muito frequentemente, leitores de jornais questionam este observador sobre as razões pelas quais a mídia tradicional do Brasil perdeu diversidade e adotou nos últimos anos um viés tão radicalmente conservador e tão homogêneo que chega a se caracterizar como um verdadeiro partido político. A resposta nunca é simples, mas a própria imprensa oferece exemplos que ajudam a entender como se deu esse processo de perda de qualidade e degeneração da atividade jornalística.

Por exemplo, sabe-se que a imprensa, como sistema, tem um alinhamento automático com o campo ideológico que se denomina “liberal”, no que se refere às questões da economia, o que corresponde a escolhas que devem ser qualificadas como reacionárias no campo social. Reacionárias porque reagem vigorosamente a qualquer intervenção direta do Estado no sentido de corrigir as perversidades do sistema capitalista para produzir um mínimo de equanimidade nas oportunidades de promoção social dos indivíduos.

Assim, esse conjunto de empresas que catalisa pensadores e ativistas como instrumentos de influência e poder vive essa contradição que, de certa forma, reproduz as discrepâncias do próprio sistema capitalista. Por exemplo, a imprensa precisa se apresentar como uma espécie de farol da modernidade, porque isso justifica sua existência, mas se comporta mais frequentemente como uma lanterna na popa, mais apta a iluminar o passado, reescrevendo a História, do que ajudando a entender o que vem pela frente.

Numa sociedade complexa como a brasileira, onde a dinâmica das relações sociais e de negócios não encontra no campo político uma representação correlata, as escolhas da imprensa acabam por distorcer o equilíbrio entre as opções ideológicas, dando maior peso às alternativas conservadoras.

Isso fica muito claro quando notamos que a mídia tradicional despreza certos protagonistas da cena política, por considerá-los menos qualificados, mas se vale deles como a “mão do gato” para alcançar determinados propósitos.

Na terça-feira (2/6), por exemplo, registre-se como, novamente, os jornais dão grande destaque, sem o devido senso crítico, a iniciativas dos líderes do Congresso Nacional, que estão empenhados em fazer aprovar uma série de propostas que produzem retrocessos em conquistas sociais importantes da democracia brasileira.

Negação do contraditório

Estimulados pela constante exibição nas primeiras páginas dos jornais e pelo tempo que lhes é destinado nos noticiários do rádio e da televisão, o senador Renan Calheiros e o deputado Eduardo Cunha mantêm um aceso conflito com o poder Executivo, dando curso a mudanças em questões há muito acomodadas no quadro legal.

A proposta da redução da maioridade penal entra em pauta nesse contexto de confrontação, e em seguida é colocado na agenda um projeto que altera o equilíbrio dos poderes, transferindo para o Parlamento funções de gestão das empresas estatais.

Nessa linha de iniciativas, aguarda na fila um projeto de lei que pretende transformar em letra morta o sistema de controle da circulação de armas de fogo, restrição que é apontada por especialistas como uma das principais causas da redução de mortes violentas no país nas duas últimas décadas.

Propostas como essas avançam e conquistam a opinião de cidadãos pouco educados politicamente, justamente porque a imprensa não faz o trabalho de elucidar problemas complexos que preocupam a sociedade.

A desinformação, produzida pela prática das aleivosias e da meia-verdade na rotina da mídia, resulta em opiniões radicais sobre questões sociais, como a defesa do encarceramento de adolescentes e o apoio crescente à pena de morte. Por trás de tudo, como justificativa para esses retrocessos, acena-se com o que se denomina de “clamor popular”.

O tal “clamor” nasce quase sempre do mau jornalismo, como no caso de um jovem acusado do assassinato do médico Jaime Gold, no Rio de Janeiro, e que se demonstrou ser inocente.

Em editorial no qual apoia veladamente a proposta de mudança na regra da maioridade penal, o Globo se refere a uma suposta “rigidez paternalista” do Estatuto da Criança e do Adolescente e afirma que há “um compreensível clamor por mudanças, ideologias à parte”. Com esses argumentos, defende a consulta popular porque o assunto seria “de fácil compreensão geral”.

Primeiro, a expressão “ideologias à parte” é uma negação do contraditório, fundamento da sociedade moderna. Segundo, o que o jornal qualifica de “clamor por mudanças” é apenas o resultado da ação cotidiana da própria imprensa em sua pregação reacionária. Terceiro, a “fácil compreensão” é o efeito do noticiário que criminaliza crianças e adolescentes negros e pardos, aos quais é negada qualquer oportunidade de inclusão social.

Luciano Martins Costa
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Nunca se apurou tanto




PF combate desvios no fornecimento de próteses cardíacas em Minas Gerais

A Polícia Federal, com o apoio do Ministério Público Federal, deflagrou, na madrugada desta terça-feira (02), a Operação Desiderato* com o objetivo de combater e desarticular organização criminosa composta por médicos, profissionais da saúde e representantes da indústria farmacêutica de próteses cardíacas, que viabilizavam procedimentos cardiológicos sem a real necessidade, simulando procedimentos, com o objetivo de desviar verbas do Sistema Único de Saúde, em Minas Gerais.

Policiais federais deram cumprimento a 72 medias judiciais, sendo 8 de prisão temporária, 7 de conduções coercitivas, 21 de busca e apreensão e 36 de sequestro de bens, nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina

A organização criminosa agia falsificando documentos para a realização de procedimentos cardiológicos sem nenhuma necessidade dos pacientes. As próteses não utilizadas nos procedimentos simulados eram desviadas e usadas em cirurgias efetuadas nas clínicas de propriedade dos membros do grupo.

A empresa produtora da prótese pagava ao grupo grandes somas pela compra do equipamento, que, na maioria das vezes, não era utilizado pelos pacientes. Os médicos recebiam das empresas propinas que variavam de R$ 500 a R$ 1.000 por prótese. O grupo chegava a receber R$ 110.000 por mês e os valores pagos, somente por uma das empresas investigadas, chegou a aproximadamente R$ 1, 5 milhão em menos de 03 anos. O grupo criminoso utilizava-se de uma empresa de fachada para lavar o dinheiro proveniente das atividades ilícitas.

Os médicos, além de receber dinheiro do SUS, também costumavam cobrar pelos procedimentos executados e pagos pelo Sistema Único de Saúde. Sabe-se que, pelo menos um paciente, que veio a falecer, teria pagado uma quantia de R$ 40.000 para ser atendido pelos médicos integrantes da organização criminosa.

A polícia investiga os óbitos que ocorreram em virtude de procedimentos similares para saber se os pacientes mortos também teriam sido vítimas da organização criminosa.

Os investigados foram indiciados pelos crimes de estelionato contra entidade pública, associação criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso, corrupção passiva, corrupção ativa e organização criminosa.

* O termo Desiderato é referência àquilo que é objeto de desejo ou aspiração.



PF combate fraudes contra o Fisco em Maceió

A Polícia Federal deflagrou na manhã de hoje (02) a Operação Iscariotes, com o objetivo combater suposto esquema de fraude contra a Receita Federal do Brasil, cometido por empresas que deixavam de recolher os impostos devidos, mediante a apresentação de títulos públicos sem valor algum, causando prejuízo milionário aos cofres públicos.

Foram cumpridos 08 mandados de busca e apreensão em Maceió.

O inquérito teve início com a delação premiada apresentada por um dos participantes do esquema à Polícia Federal. Segundo o delator, um conhecido advogado oferecia títulos públicos a grandes empresas devedoras do Fisco, como forma de quitação do débito. Ocorre que aqueles títulos não possuíam liquidez alguma e não podem ser utilizados para saldar dívidas, mas os empresários eram seduzidos pelo baixo valor oferecido pelos títulos, considerando o tamanho das dívidas com a Receita Federal.

A Santa Casa de Misericórdia de Maceió seria apenas uma de várias empresas em Alagoas que deixou de repassar os valores retidos no contracheque de seus empregados, pagando a contribuição previdenciária devida com os “títulos podres” oferecidos pelo advogado. Ainda segundo o delator, a Santa Casa de Misericórdia teria assumido papel preponderante na fraude ao emprestar seu bom nome ao advogado que, a pretexto de ludibriar outros empresários interessados nos baixos valores pagos pelos títulos, a apresentava como um de seus clientes, induzindo os interessados a acreditar na seriedade do negócio.

Os títulos eram negociados por 55% do valor da dívida da empresa com o Fisco. De acordo com o delator, o restante dos valores eram rateados entre os participantes. Somente em relação à Santa casa de Misericórdia, os valores envolvidos superam os R$ 20 milhões.

A Polícia Federal visa encontrar provas da fraude nas empresas e nas residências dos investigados, cujo esquema, caso confirmado, poderá sujeitar seus participantes a penas de reclusão, além da perda dos bens adquiridos em razão dos crimes supostamente cometidos.




Nota Conjunta de esclarecimentos sobre a operação Zelotes

Sobre a matéria “Marcopolo pode ter pago R$ 1 milhão em propina, diz PF", publicada hoje no jornal “O Estado de S. Paulo”, a Receita Federal do Brasil – RFB informa que, por meio de sua Coordenação-Geral de Pesquisa e Investigação – Copei, desde o final de 2013 conduz investigação própria sobre os fatos que resultaram na operação Zelotes.

Ao tomar conhecimento de que o Departamento de Polícia Federal - DPF também conduzia investigação sobre o mesmo tema, a RFB passou a atuar de forma conjunta, em regime de força-tarefa, com participação também da Corregedoria do Ministério da Fazenda e do Ministério Público Federal, para apuração dos fatos.

Destaca-se que a participação da Receita Federal, da Corregedoria do MF e do Departamento de Polícia Federal foram decisivas para o sucesso da investigação, considerando-se a complexidade e a especificidade do tema, produzindo diversas informações e documentos que foram integrados ao correspondente procedimento criminal, que tramita em segredo de justiça.

A Receita Federal e a Polícia Federal esclarecem que não há qualquer indício nos autos que apontem o envolvimento de servidores responsáveis pela investigação nas irregularidades apuradas pela Operação Zelotes.

No PF
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Blatter renuncia. Casa da Globo caiu

Por que a Globo paga menos e fica com os direitos?




Quatro dias após ser reeleito para um quinto mandato como presidente da Fifa, Joseph Blatter renunciou ao cargo, nesta terça-feira. Ele convocou o Comitê Executivo de forma extraordinária para escolher um novo mandatário.

"Vou continuar a exercer minha função como presidente até um novo ser escolhido. O próximo congresso demoraria muito. Esse procedimento será de acordo com os estatutos", afirmou o dirigente suíço, desde 1998 à frente da Fifa.

Blatter disse que não estava com o apoio necessário para seguir como presidente do órgão mais importante do futebol mundial. Assim, o comitê executivo extraordinário será convocado entre dezembro deste ano e março do próximo para a escolha do novo mandatário.

A entidade caiu em descrédito na última quarta-feira, dois dias antes da eleição presidencial, quando sete membros do comitê executivo foram presos acusados de corrupção. Muitas federações pediram o adiamento do pleito, o que não aconteceu.

Blatter acabou vencendo o único candidato de oposição, o príncipe da Jordânia Ali bin Al-Hussein, depois de a eleição não ter acabado no primeiro turno e o adversário ter desistido de uma nova rodada de votação.

O suíço afirmou que as prisões ajudavam a limpar a Fifa, mas na última segunda-feira seu principal braço-direito, Jerome Valcke, foi acusado de ter dado autorização para que 10 milhões de dólares de um fundo da Associação de Futebol da África do Sul (Safa) fossem para o vice-presidente da Concacaf, Jack Warner, um dos detidos pelo caso de corrupção revelado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Curiosidade: após conquistar seu quinto mandato para a presidência da Fifa, Joseph Blatter foi questionado se pensou em renunciar ao cargo. A resposta: "Por que deveria renunciar? Isso seria como reconhecer que fiz algo ruim".

Leia abaixo a íntegra do discurso de renúncia de Joseph Blatter

Eu tenho refletido profundamente sobre minha presidência e sobre os 40 anos nos quais minha vida tem estado inseparavelmente ligada à Fifa e ao grande esporte do futebol. Eu cuido da Fifa mais do que qualquer coisa e quero fazer apenas o que for melhor para a Fifa e para o futebol. Eu me senti compelido a me candidatar à reeleição, pois eu acredito que essa era a melhor coisa para a organização. Essas eleições acabaram, mas os desafios da Fifa, não. A Fifa precisa de uma inspeção profunda. Apesar de eu ter um mandato dos filiados da Fifa, eu não sinto que tenha um mandato para o mundo inteiro do futebol — os torcedores, os jogadores, os clubes, as pessoas que vivem, respiram e amam futebol tanto quanto nós todos na Fifa. Por isso, eu decidi entregar meu mandato para o congresso de eleição extraordinário. Eu continuarei a exercer minhas funções como presidente da Fifa antes dessa eleição.

O próximo Congresso acontecerá em 13 de maio de 2016 na Cidade do México. Isso poderia criar um atraso desnecessário, e eu acelerarei o Comitê Executivo para organizar um Congresso Extraordinário para a eleição de meu sucessor na oportunidade mais breve. Isso precisará ser feito de acordo com os estatutos da Fifa, e nós devemos permitir o tempo suficiente aos melhores candidatos para se apresentarem e fazerem campanha. Como eu não serei um candidato — e estou, portanto, agora livre das restrições que as eleições inevitavelmente impõem —, serei capaz de me concentrar na condução de longo alcance, reformas fundamentais que transcendem os nossos esforços anteriores.

Por anos, nós trabalhamos duro para colocar em prática reformas administrativas, mas está claro para mim que enquanto isso deve continuar, eles não são o bastante. O Comitê Executivo inclui representantes de confederações nas quais nós não temos controle, mas para essas ações a Fifa é responsável. Nós precisamos de mudança estrutural nas raízes mais profundas. O tamanho do Comitê Executivo deve ser reduzido, e seus membros devem ser eleitos através do Congresso da Fifa. As verificações de integridade para todos os membros do Comitê Executivo devem ser organizadas centralmente através da Fifa e não através das confederações. Nós precisamos limitar reeleições não apenas para o presidente, mas para todos os membros do Comitê Executivo. Eu lutei por essas mudanças antes e, como todos sabem, meus esforços foram bloqueados. Desta vez, eu vou conseguir. Eu não posso fazer isso sozinho.

Eu pedi a Domenico Scala para dirigir a introdução e a implementação de essas e outras medidas. Sr. Scala é o presidente independente de nosso Comitê de Auditoria eleito pelo Congresso da Fifa. Ele é também o presidente do comitê eleitoral e, assim, ele organizará a eleição do meu sucessor. Sr. Scala goza da confiança de uma grande quantidade de constituintes dentro e fora da Fifa e tem todo o conhecimento e experiência necessários para ajudar a fazer essas reformas maiores. É meu profundo carinho pela FIFA e pelos seus interesses, o que eu apoio candidamente, que me levou a tomar esta decisão. Eu gostaria de agradecer àqueles que sempre me apoiaram de uma maneira construtiva e leal como presidente da Fifa e que fizeram muito pelo jogo que nós todos amamos. O que importa para mim mais do que qualquer coisa é que quando tudo isso acabar, o futebol é o vencedor.

No CAf | Espn
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Um caso exemplar


Investigação que levou a operação de busca e apreensão na residência da mulher do governador Fernando Pimental é uma história clássica de interferências externas, inclusive da mídia, sobre trabalho policial

A investigação da Polícia Federal que levou a uma operação de busca e apreensão na residência de Carolina Oliveira, mulher do governador Fernando Pimentel, de Minas Gerais, é uma história exemplar de interferências externas, de caráter político, sobre o trabalho policial.

Em 7 de outubro de 2014, logo após a vitória espetacular de Fernando Pimentel — em primeiro turno — na disputa pelo governo de Minas Gerais, quando derrotou o longo reinado do PSDB de Aécio Neves, duas denúncias anônimas chegaram à Polícia Federal em Brasília. Uma através do Ministério Público. A outra, através da própria polícia.

As duas traziam a mesma informação. Falavam sobre a chegada de um avião turbo-hélice — identificado apenas pelo prefixo — com pouso previsto para o fim da tarde no Aeroporto JK, em Brasília.

Denúncias dessa natureza são comuns e o anonimato é um recurso típico de quem deseja passar uma informação importante mas não quer ser identificado. O fato incomum é que a mesma informação fora transmitida ao MP e à PF, ao mesmo tempo. Esse cuidado extremo indicava que não se tratava de uma ação banal.

Não era mesmo. Como o país inteiro ficaria sabendo naquela mesma noite, havia uma câmara da TV Globo no aeroporto, pronta para gravar uma cena que seria exibida em sequência dramática nos telejornais, um pouco mais tarde. Foi possível mostrar a chegada de uma perua negra com letras douradas da Polícia Federal ao hangar indicado. Também foi possível mostrar a hora que seu ocupante, o empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, e outros dois acompanhantes saíam do avião. Todos foram revistados pela polícia, que encontrou R$ 116 000,00 em seus bolsos.

Não foi só. A Folha de S. Paulo também exibiu uma fotografia tirada em Belo Horizonte, no momento em que o próprio Benedito sobe a escada antes da decolagem. “Foto obtida pela Folha”, diz a legenda, para sublinhar que era material de terceiros. (Esta é a imagem que ilustra esta nota).

“Só não dá para imaginar que fosse da própria PF”, disse um policial ao 247, antes de ironizar: “nossos fotógrafos não são capazes de fazer imagens tão boas.”

Toda complicação do caso reside aí — a influência de terceiros muito especiais. Sem esse fator, dificilmente teria ocorrido uma operação de busca e apreensão na casa de Carolina, sexta-feira passada, imóvel residencial, que hoje é ocupado por sua mãe.

Conforme a polícia, o nome de Carolina Oliveira, mulher de Pimentel apareceu por acaso. Dias depois da operação no aeroporto, os policiais foram atrás dos endereços do empresário apreendido com R$ 116 000,00 e receberam, na portaria do edifício de um deles, uma informação errada. A de que o local indicado não era usado por Benedito, mas pela empresa Oli, pessoa jurídica até então desconhecida.

Na verdade, a Oli deixara o lugar meses antes, o que seria comprovado pelos registros de cartório. Mesmo assim, os policiais foram atrás dos dados da empresa, descobrindo que pertencia a Carolina.

Pelos registros do celular de Benedito — apreendido no aeroporto — foi possível saber que os dois mantinham conversas com frequência. Ambos frequentaram o mesmo círculo de amizade. Carolina é amiga da namorada do empresário e os dois casais chegaram a fazer viagens juntos. Além disso, Benedito tem uma gráfica que prestou serviços ao PT na campanha de Minas Gerais — ainda que nenhum trabalho possa ser vinculado diretamente à campanha de Pimentel.

“A operação de busca e apreensão foi um erro, pois não tinha base nenhuma,” afirma o advogado Pier Paolo Bottini, que representa Carolina. “Exigimos que o material seja devolvido.”

Você não precisa acreditar na inocência nem na culpa de ninguém neste caso, ainda que o bom Direito ensine que toda pessoa é inocente até demonstração em contrário.

Mas é bom prestar atenção nos fatos extracurriculares deste roteiro, que criam uma pressão política sobre o trabalho da polícia. Já vimos este filme várias vezes.

O roteiro mostra como a interferência externa faz o show continuar, ainda que o espetáculo seja de má qualidade.

Paulo Moreira Leite
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Abril anuncia desmonte e alarma sindicato em SP


Nesta terça-feira (2/6), a Editora Abril iniciou um novo processo de reestruturação da empresa. Entre as mudanças estão a venda das revistas Placar, Contigo e Arquitetura e Construção para a Editora Caras, que no ano passado já tinha absorvido outros dez títulos — Aventuras na História, Bons Fluidos, Manequim, Máxima, Minha Casa, Minha Novela, Recreio, Sou+Eu, Vida Simples e Viva Mais.

Imprensa apurou que a Contigo terá apenas a versão digital, deixando de circular no impresso. Haverá também uma reorganização das redações. De acordo com o site Máquina do esporte, a nova editora também ficará com todo o acervo fotográfico e de textos da Placar.

A Editora Abril focará em quatro áreas diferentes: Veja, Exame, revistas femininas e Llfestyle. Sendo assim, todas as redações serão reunidas por núcleos de atuação em andares diferentes. Com a mudança todas as edições de Veja ficarão no mesmo andar; Exame e Exame.com juntas em outro; o núcleo de femininas em outro espaço e as lifestyle num quarto local.

A possibilidade de demissões não está descartada. O número de funcionários afastados ainda não foi confirmada. Procurada, a assessoria de imprensa da Abril ainda não ratificou as informações.

Nota do 247: O sindicato dos jornalistas de São Paulo convocou uma reunião de emergência para tentar frear o processo de demissões em massa na empresa dos Civita. Leia abaixo a nota divulgada pela entidade:

Assembleia de emergência hoje no Sindicato

Jornalista da editora Abril: venha hoje à assembleia de emergência, às 18h30, na sede do Sindicato, para debatermos como enfrentar a situação.

Apenas três semanas depois de demitir cerca de 30 jornalistas da redação da Veja em São Paulo (e mais 20 em Belo Horizonte e Brasília), a editora Abril anuncia nesta terça-feira, 2 de junho, a demissão de mais três dezenas de jornalistas, e o fechamento da redação do Guia 4 Rodas e da revista Exame PME.

A empresa divulgou também a venda para a editora Caras de sete títulos: Ana Maria, Tititi, Arquitetura e Construção, Contigo, Placar, Você S.A e Você R.H., com a transferência de cerca de outros 60 jornalistas da Abril para a editora Caras.

Os jornalistas não podem assitir passivamente a essa situação. Já vivemos uma realidade de enxugamento das redações, aumento da pressão cotidiana e dificuldades crescentes para realizar um bom trabalho jornalístico na Abril.

Nessa maré terrível, o Sindicato dos Jornalistas tem se pautado pela defesa do emprego, dos direitos trabalhistas e do próprio jornalismo, atividade essencial na sociedade contemporânea.

Chamamos os jornalistas da Abril para virem ao Sindicato nesta noite, às 18h30, para debatermos juntos quais ações podemos tomar frente às medidas anunciadas hoje, e também sobre como agir diante dos preocupantes rumos da empresa.

Venha defender os seus direitos e as suas condições de trabalho!

ASSEMBLEIA NESTA TERÇA-FEIRA – 18H30 – SEDE DO SINDICATO

Rua Rego Freitas, 530, sobreloja – metrô República
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Biólogo britânico acidentado em SP elogia atendimento do SUS

Dawkins sofreu um pequeno acidente no aeroporto de Guarulhos e ficou impressionado com o atendimento
médico recebido
O biólogo britânico Richard Dawkins, em recente em visita ao Brasil, caiu no caminho para o avião que o levaria de São Paulo para Los Angeles na noite da última quinta-feira (28) e feriu o rosto.

Dawkins contou que, após cair e bater a cabeça no chão, um médico que também estava embarcando disse que ele precisava levar pontos. Por isso, a tripulação decidiu que ele não poderia seguir viagem e ele foi levado a um hospital, onde recebeu cinco pontos.

O detalhe: ele estava sozinho e deixando o país, ninguém sabia exatamente quem ele era e por isso destaca que o atendimento que recebeu foi o que seria fornecido a qualquer anônimo numa situação semelhante.

O texto dele está em inglês, mas segue um pequeno resumo:
Diz ele que, ao se dirigir para o embarque, tropeçou e bateu a cabeça, abrindo um corte sobre o olho, por onde vertia sangue.Ele tentou embarcar mesmo assim, pois tinha um compromisso nos EUA (que depois ele descobriu que foi desmarcado).


Mas a tripulação do avião e o pessoal de terra não o deixaram embarcar naquela situação e ele desesperou-se por perder o voo e por imaginar que iria esperar longas horas para ser atendido (sua experiência nos EUA é que não há serviço médico público e na Inglaterra o serviço é muito demorado).


Também pensou que iria perder sua bagagem, que já estava a bordo e ficou desesperado por estar sozinho e não falar uma palavra em português (seus acompanhantes no país já haviam despedido-se e ido embora, após ele acessar a área de embarque).


Mas surpreendeu-se, primeiramente, com a rapidez com que uma ambulância apareceu para levá-lo a um hospital (atendimento via SUS), pelo fato de que sua bagagem apareceu e pela gentileza e modo carinhoso com que os paramédicos o trataram assim que chegaram ao aeroporto.


Depois surpreendeu-se novamente pelo cuidado em ser conduzido em uma cadeira de rodas ao dirigir-se e ao chegar ao hospital (o que ele estranhou num primeiro momento), pelo atendimento que recebeu no hospital, pela quantidade de exames que realizaram antes de liberá-lo e por não estar sofrendo nenhuma dor no dia seguinte.


E usou sua página na internet para desculpar-se, publicamente, por ter imaginado que seria mal atendido e sentir-se inseguro!


Desculpou-se apenas por ter IMAGINADO que iria passar por um longo e interminável martírio, tanto com o pessoal do aeroporto, como com o pessoal da ambulância, com o pessoal do hospital, com os médicos que lhe atenderam e com o serviço que recebeu no Brasil!É… temos nossos problemas, mas o inferno não é tão feio quanto a mídia e os midiotas o pintam!

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Zero Hora, vamos falar de racismo?

Comentário publicado no 'Zero Hora', veículo do Rio Grande do Sul
O que leva um veículo de imprensa a divulgar a opinião preconceituosa e ofensiva de um de seus leitores? Seria liberdade de expressão ou discurso de ódio?
Fiquei extremamente chocada com um comentário publicado na edição deste domingo 31 de maio do jornal Zero Hora, veículo do Rio Grande do Sul. Nele, o leitor é claramente racista e desinformado.

O comentário em si não me choca, como mulher negra já ouvi e li muitas coisas horríveis; o que me choca é o fato de o jornal ter publicado algo explicitamente racista. Até que ponto o jornal vai se esconder sob o argumento da liberdade de expressão? É sabido que racismo é crime, certo? Logo, publicar algo racista é igualmente crime, ou não? O comentário em questão foi publicado na versão impressa, logo foi lido antes e selecionado, diferentemente de quando se é num portal de internet, o que torna o fato ainda mais grave.

No comentário, um senhor diz que é sabido que pessoas negras têm propensão natural ao crime e são menos qualificadas e é justamente por isso que lotam os presídios no Brasil. Essa inferioridade natural atribuída à população negra foi utilizada na história como forma de opressão.

Os estudos de evolução biológica do século XIX que aplicaram o conceito de racismo biológico marcando a relação de superioridade e inferioridade entre colonizadores e conquistados, mais precisamente na América, legitimaram as relações de dominação européia, ao atribuir aos negros uma “inferioridade natural” devido à cor e tamanho do cérebro. Autores como James Watson, Nina Rodrigues se utilizaram desse racismo biológico em suas pesquisas, e hoje ele é considerado algo totalmente deslegitimado e arcaico.

O comentário desse senhor mostra que ele ignora as construções do racismo em nossa sociedade. Foram 354 anos de escravidão e, depois, no pós abolição, não se criaram mecanismos de inclusão para a população negra, como foram criados para os imigrantes que vieram para cá no processo de industrialização. Esses também vieram, como diz o senhor, “sem nenhuma formação”, mas receberam oportunidades de trabalho, terras para iniciarem suas vidas por aqui.

Se hoje usufruem de uma realidade diferente da dos negros foi porque receberam auxílios deste País para isso, o que não ocorreu com a população negra, que veio para cá como escrava e em condição muito mais desumana, portanto. O poder sempre se esforçou para esconder a origem social das desigualdades, como se as disparidades fossem naturais, meritocráticas ou providencialmente fixadas. O que faz, por exemplo, que esse senhor não perceba ou não queira perceber que os direitos negados e a situação de pobreza da maioria da população negra são decorrência de uma estrutura social herdeira do escravismo.

Porém, o mais chocante aqui é um veículo de imprensa divulgar essa opinião racista, e, por conseguinte, ofensiva. Qual o limite da liberdade de expressão ou seria isso discurso de ódio? Como diz a filósofa estadunidense Judith Butler, em Excitable Speech: “A linguagem opressora do discurso de ódio não é mera representação de uma ideia odiosa; Ela é em si mesma uma conduta violenta, que visa submeter o outro, desconstruindo sua própria condição de sujeito, arrancando-o do seu contexto e colocando-o em outro onde paira a ameaça de uma violência real a ser cometida - uma verdadeira ameaça, por certo”.

Djamila Ribeiro
No CartaCapital
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Fusão PTB-DEM melou no oportunismo

O site de fofocas da revista "Época" postou na semana passada que a união entre o matreiro PTB e o falido DEM pode melar. Segundo o colunista Leonel Rocha, cinco pontos dificultam a tal fusão — na verdade, a morte não declarada dos demos. "A negociação entre o Partido Trabalhista Brasileiro e o Democratas emperrou por causa de cinco divergências entre deputados, senadores e dirigentes dos dois partidos. A cada encontro entre os representantes das duas siglas as diferenças se acentuam".

Segundo a sua listagem, "o DEM quer que as decisões da executiva do futuro partido sejam tomadas por pelo menos três quintos dos seus membros e o fim do voto de minerva do presidente... A segunda divergência é sobre o número da legenda que sairá da união. Os petebistas querem manter o número 14 e o DEM insiste em continuar com o 25. Os trabalhistas são contra a flexibilização da legislação trabalhista, defendido pelo DEM, que é contra a taxação das grandes fortunas, como quer o PTB. A quinta divergência é sobre quem vai dirigir a futura sigla nos estados e nacionalmente. Uma nova rodada de negociação vai ser aberta, mas a fusão está cada vez mais distante".

No mesmo rumo, a Folha revelou na sexta-feira (29) que "os dirigentes do PTB e do DEM decidiram suspender as negociações para uma fusão das siglas" e acrescentou um sexto ponto de divergência: "a divisão do dinheiro do fundo partidário". Segundo relato de Bernardo Mello Franco, "o divórcio entre os partidos foi discutido no casamento do ex-deputado Roberto Jefferson, que continua a ser a voz mais forte no PTB. O secretário-geral da sigla, Campos Machado, atacou a cúpula do DEM e disse que a tentativa de fusão já pode ser vista como 'página virada'. 'Isso deixou de ser fusão e passou para o Código Penal. Virou estelionato, tentativa de apropriação indébita. A culpa é dos fenícios, que inventaram a moeda', ironizou, referindo-se à disputa pelo fundo partidário".

Diante do frustrante resultado da negociação, os demos correm o sério risco de desaparecer do mapa político sem o recurso da fusão. Principalmente após o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovar que os cargos majoritários não pertencem aos partidos, cresceram os boatos de que o senador Ronaldo Caiado, de Goiás, e o prefeito ACM Neto, de Salvador, podem deixar o DEM. Com isto, a legenda, que já sofreu um duro retrocesso nas eleições de outubro passado — não elegeu nenhum governador e teve sua bancada federal drasticamente reduzida — ficará totalmente inviável. O diabo que se prepare — com todos os cuidados necessários — para receber os demos no inferno!

Altamiro Borges
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Em causa própria

Tudo depende ainda do que os quase silenciosos senadores venham a dizer, quando lhes chegar a hora de definir-se sobre as aprovações chamadas na Câmara de reforma política. Todo otimismo a respeito será imprudente. Mas não é o caso de desprezar um ou outro indício de melhor dose de responsabilidade e civismo no Senado do que o demonstrado na Câmara.

Até agora, tivemos os deputados aprovando o que lhes convém, sem que apareça qualquer outra consideração nos acertos e, depois, nas votações. Os deputados fazem reforma em causa própria. Se faltassem outras demonstrações dessa sujeição do institucional ao pessoal, para torná-la incontestável bastaria citar a inversão, em menos de 24 horas, da recusa em aprovação do dinheiro de empresas para as campanhas eleitorais. A doação só por pessoas, que proporcionaria menos apropriação de doações por candidatos e menos oportunidades de corrupção, não resistiu ao interesse pessoal.

É claro que as coincidências de interesses, entre os senadores e os deputados, serão prioritárias nas votações do Senado. Mas há temas importantes para os senadores, sem que o sejam tanto para os deputados. Além do tempo de mandato dos senadores, ainda por ser definido na Câmara, a duração dos mandatos de governadores, por exemplo, suscita muito mais interesses no Senado do que na Câmara: os senadores, em geral, têm mais condições políticas de candidatar-se aos governos estaduais.

Assim há vários temas com aparência secundária e, no entanto, com significação capaz de revelar repentina influência no rumo das votações. Mas outro fator de influência, mais político, merece atenção para seus desdobramentos e possíveis resultados.

O PTB e o DEM desistiram da fusão. Dificuldades regionais de conciliação contribuíram para o desenlace na hora do enlace. Mais ainda, porém, pesou a divergência em relação ao governo, sendo o DEM oposicionista a reboque do PSDB e estando o PTB apegado aos oportunismos, ora oposicionista, ora governista. A desistência de fusão deverá modificar as votações do casório, se efetivado, na reforma política. O mesmo, por sinal, no mal denominado ajuste e demais projetos do governo.

No Congresso, maio traiu mesmo a sua legenda de mês dos casamentos. Também PPS e PSB desistiram da fusão. O PPS continuará alinhado ao PSDB. O PSB, que não aceitava bem esse alinhamento como premissa, volta a estar dividido quanto ao governo e quanto a vários quesitos da reforma. Ao cair a possibilidade de seu alinhamento ao PSDB, cai também, por consequência, a adesão a Eduardo Cunha.

Adesão que, agora em referência ao PSDB, leva a mútuo desagrado as bancadas do partido na Câmara e no Senado. Os peessedebistas do Senado não se deixaram seduzir tanto por Eduardo Cunha quanto os seus colegas deputados.

As definições dos senadores, no exame das aprovações dos deputados, não fazem o destino definitivo dos projetos votados, que voltarão à Câmara. Mas eventuais divergências e reações do Senado têm, como é usual, repercussão maior nos meios de comunicação e na opinião pública. Logo, também em bancadas partidárias na Câmara, quando da segunda votação das propostas. Otimismo injustificável não é, portanto, negação antecipada de alguma melhoria do produzido pelo predomínio do interesse pessoal na Câmara.

Janio de Freitas
No fAlha
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Como a Folha, por medo da Globo, perdeu a chance de investigar a corrupção no futebol

Teixeira agia movido a propinas
A Folha é engraçada.

Diz, acusatória, que a PF abriu 13 inquéritos contra a CBF em 15 anos, e nenhum deles deu em nada.

Vaias para a PF, portanto.

Mas e a Folha, um jornal a serviço do Brasil? O que ela fez? Promoveu uma única investigação sobre a CBF?

E chances não faltaram. Faltou coragem de mexer num universo, o da CBF, em que um dos protagonistas é a Globo.

Todo mundo no Brasil morre de medo da Globo, do governo às demais empresas de mídia.

É a razão pela qual a Globo faz o que quer, e escapa mesmo de sonegações fartamente documentadas.

Chances para a Folha não faltaram.

Os arquivos provam. Uma notícia da Folha de dezembro de 2006 — resgatada e posta para circular nos últimos dias, depois do escândalo da Fifa — tinha o seguinte título: “Globo paga menos e leva dois Mundiais.”

O texto dava as cifras. A Globo pagou 100 milhões de dólares pela Copa de 2010 e 120 milhões pela de 2014.

O extraordinário, aí, é que a Record foi preterida com uma oferta de 180 milhões de dólares por Copa. Isso daria, portanto, 360 milhões de dólares, contra os 220 milhões da Globo.

Vistas as coisas hoje, é fácil entender o milagre. Na época da decisão, e da matéria da Folha, Ricardo Teixeira e João Havelange dominavam a CBF e eram influentes na Fifa.

Uma hipótese benevolente é acreditar que a Globo levou todas pela voz de Galvão, ou coisa parecida.

Mas, como disse Wellington, quem acredita nisso acredita em tudo.

Habitualmente tão desconfiada quando se trata do PT, a Folha publicou o seguinte.

“A Folha apurou que a Fifa levou em consideração não apenas as propostas financeiras.”

É aí que entra a voz de Galvão, ou coisa do gênero. Ou propinas.

Mesmo um admirador fervoroso da Folha há de convir que foi miserável a apuração do jornal do estranho caso da concorrência vencida pela pior proposta.

O jornal deveria pedir desculpas a seus leitores, mas não.

Em sua coluna de ontem, a ombudsman tocou no escândalo da Fifa, em outro contexto, naturalmente.

Ela criticava uma manchete sobre o episódio porque tomara o lugar da derrota do Distritão.

O secretário de redação, Sérgio Dávila, não se rendeu.

Disse que a escolha pela Fifa se devia à tradição da Folha de cobertura “crítica” do mundo do futebol, “inigualável” no Brasil.

De novo: a Folha aponta para a PF, no fracasso em investigar a corrupção na CBF, quando deveria olhar para o próprio espelho.

Em seu marketing, o jornal apregoa não ter o rabo preso com ninguém. Poderia acrescentar: exceto com a Globo.

Paulo Nogueira
No DCM
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