25 de mai de 2015

A incrível capacidade do neojornalismo em reinterpretar fatos


O Ministro da Fazenda Joaquim Levy faltou ao anúncio do ajuste fiscal na sexta-feira passada. Avisou que estava gripado. O resultado foi um festival de interpretações sobre sua ausência, com muitos jornalistas jurando de pés juntos que ele estaria demissionário.

O Ministro desmentiu, informando que voltaria na segunda "novo". Em qualquer curso de interpretação de texto, em qualquer ambiente informal, "voltar novo" significaria voltar curado da gripe.


"Sua ausência evidenciou a insatisfação do ministro e alimentou rumores de uma eventual despedida. Tanto que, na sexta, ao deixar o ministério, fez questão de dar uma mensagem aos jornalistas: "volto novo na segunda". Foi um recado desenhado especialmente para desmobilizar insinuações de demissão" .

Ou seja, ao desmentir o boato o Ministro confirmou o boato, se é que me entendem. Vale para qualquer desmentido. Se desmentiu, é porque confirmou.

Pior foi outro jornal que disse que ele estava demissionário porque o ajuste fiscal mínimo aceito por ele era de R$ 70 bi e o pacote ficou em R$ 69.9.

Agora à tarde um Levy sorridente desmentiu todos os boatos de conflitos, de demissão, de desistência.

Se desmentiu, é porque confirmou. Não é assim que o neojornalismo nos ensina?

Luís Nassif
No GGN
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Huck, Angélica e a vida depois do SUS


Atendimento magnífico no Mato Grosso mostra importância da saúde pública. Os dois pacientes-celebridade estarão a altura de suas novas responsabilidades?

Vivemos num país onde não faltam pastores de boas almas. Você sabe quem são essas pessoas.

Adoram explicar que o brasileiro não gosta de colocar a mão no bolso para a filantropia. Reclamam da falta de solidariedade na vida cotidiana. Falam de egoísmo como uma doença incurável. Detestam o Bolsa Família porque preferem esmolas. Falam mal do Mais Médicos e adoram Médicos sem Fronteiras. Criticam universidades públicas porque são a favor de ensino superior privado — como nos Estados Unidos — reservando bolsas para apenas para alunos pobres que têm um desempenho próximo da genialidade.

Pois o acidente de Luciano Huck, Angélica, seus três filhos e duas babás criou uma oportunidade rara para se debater essa situação — e as responsabilidades de cada um na solução dos problemas que afligem a maioria dos brasileiros.

Há pelo menos 20 anos que a saúde pública é o principal problema do país, dizem os brasileiros nas pesquisas de opinião. Às vezes está em primeiro lugar. Outra, em segundo. Raramente, em terceiro.Quem já visitou um posto do SUS dificilmente irá discordar.

Mas Luciano Huck e Angélica não tem o que reclamar neste aspecto. Saíram do Hospital mantido pelo SUS no Mato Grosso distribuindo elogios rasgados ao atendimento. Mesmo brasileiros que reservam uma parcela importante do salário para pagar um plano de saúde privado não costumam ficar tão satisfeitos quando são atendidos.

Olha só: num país onde a TV só mostra reportagens com pacientes desmaiados no chão, crianças chorando e idosos em total abandono, duas estrelas da TV não tinham do que reclamar. Só falaram bem. E fizeram isso motivado pelo maior dos valores, a honestidade de quem fala por experiência própria.

Eu, você, os dois e os 200 milhões de brasileiros sabemos que esse atendimento não é para qualquer um. É triste mas é verdade. Vivemos numa sociedade de desiguais, onde o atendimento médico, mesmo num hospital público, varia conforme o prestígio e o poder de cada paciente. Não é preciso lembrar a lista de celebridades — dos negócios, da política, etc — que frequenta nossos grandes hospitais privados.

E se algum dia você viu um amigo, parente ou simples conhecido recebendo um bom atendimento na rede pública, terá o direito de se perguntar se ele teve ajuda de um bom pistolão para conseguir tal proeza.

Só podemos, portanto, ficar felizes que pelo menos uma família conseguiu um primeiro atendimento adequado — e nós sabemos como o primeiro atendimento costuma ser decisivo após uma tragédia. Em geral, define o que vem depois.

Mas nós sabemos, também, porque isso acontece. Fama, prestígio, receio de uma denúncia. Você sabe com quem está falando?, poderia perguntar o antropólogo Roberto da Matta.

Falta muita coisa na vida real de nossos hospitais: boa gestão, médicos cumpridores de seus plantões, instituições bem equipados. Mas falta, basicamente, dinheiro. Faça uma lista dos problemas e você logo verá que tudo começa e termina na falta de recursos.

Esse quadro se agravou a partir de 2007, quando a oposição derrubou a CPMF no Senado. Faltaram quatro votos. A vontade de retirar uma bolada estimada em R$ 30 bilhões anuais da saúde era tamanha que os presentes sequer atenderam a um apelo do veterano Pedro Simon, senador da oposição, para que a decisão fosse adiada, permitindo novos debates, mais reflexão. Em vão. Nem quiseram saber que a CPMF era um impsto progressivo, aquele que cobra mais de quem tem mais.

Oito anos depois, Angélica e Luciano Huck elogiam o SUS. Eles podem fazer isso. Muitos brasileiros jamais terão essa oportunidade. Para eles, o SUS sempre será o que sempre foi. Motivo de decepção, raiva e poucas surpresas agradáveis.

Não precisamos reformar as almas.

Mas podemos pensar em responsabilidades. Depois de receber um atendimento tão especial, nossos apresentadores poderiam fazer o possível para que mais brasileiros pudessem ser atendidos nas mesmas enfermarias, pelos mesmos profissionais, com a mesma atenção, que eles receberam no Mato Grosso.

Poderiam assumir uma campanha pelo retorno da CPMF, que está na base de tudo. Seria uma grande homenagem para a equipe médica, para os enfermeiros, para o pessoal da limpeza. Acima de tudo, seria um gesto de solidariedade para ajudar milhões de brasileiros a ter um atendimento digno. Não quero ser mal educado nem ressentido. Longe de mim fazer o papel de desmancha-prazeres tão bem apontado por Mário de Andrade. Mas acho Luciano e Angélica entendem de dinheiro. Sabem seu valor, sua importância, seu caráter decisivo.

Os brasileiros humildes também querem falar bem do SUS. Querem ter orgulho de sua saúde pública. Sabem que isso é parte da cidadania.

A opção é esperar que tudo volte a ser como antes daquele desastre do avião. Pode acontecer com qualquer um, inclusive com quem não é qualquer um.

Alguma dúvida?

Paulo Moreira Leite
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Por que estou com Nassif

Defender Nassif é defender a pluralidade
Estou com Nassif nas batalhas judiciais que ele trava com Ali Kamel, Eduardo Cunha e Gilmar Mendes.

Por três razões.

Primeiro, o mundo pelo qual se bate Nassif é muito melhor — mais justo, mais igualitário — do que o representado por Kamel, Cunha e Mendes.

Os três simbolizam o 1%, a plutocracia predadora.

Nassif claramente está com os 99%. Combate o bom combate.

A segunda razão é que jornalistas como Nassif enfrentam situações pedregosas na Justiça brasileira.

Todos sabemos quanto os juízes — a maior parte deles — são enviesados. O conservadorismo petrificado deles faz a diferença na hora de examinar causas.

Entre Nassif e Kamel, quem tende a receber um olhar mais generoso no tribunal? Para onde vai a simpatia de quem julga?

Em terceiro lugar, a jornada de Nassif é muito mais desafiadora do que a de quem está do outro lado.

A direita protege a direita. A plutocracia cuida dos seus defensores.

Nesta semana mesmo. A revista Época está veiculando um encarte de dez páginas publicitárias do governo de São Paulo.

Qual motivo para gastar um monte de dinheiro com uma revista em acentuado declínio de circulação?

Diga a última vez que você viu alguém lendo uma Época num restaurante, num bar, numa padaria?

E comprando um exemplar numa banca, há quanto tempo você não vê ninguém fazendo isso?

Só que a Época, recentemente, se tornou uma outra Veja, dedicada a ataques constantes, e quase sempre inconsistentes, a Lula e ao PT.

Então interessa ao governo Alckmin prestigiá-la. Assim como interessou financiar o site Implicante, uma fábrica de calúnias antipetistas.

A lógica é a mesma.

Chove dinheiro para você quando você está com o poder econômico.

Reinaldo Azevedo, antes de ir para a Veja, trabalhou numa revista, Primeiros Passos, que mesmo insignificante era alvo de publicidade constante do governo de São Paulo.

Hoje, Azevedo, sem nenhum embaraço, faz sermões sobre publicidade oficial.

É mais ou menos como Aécio na meritocracia. Quando ele nomeia amigos, parentes, amigos de amigos, é meritocracia.

Quando os outros fazem, é aparelhamento.

Nassif tem menos receita publicitária do que merecia ter. Seu site — sei porque acompanho a audiência em medidores como o InsideWeb — é um dos mais lidos e respeitados na internet progressista.

Seria uma tragédia para democracia brasileira se sites como o de Nassif se inviabilizassem.

Eles são a única fonte de pluralidade de informação, uma vez que o pensamento conservador, ou ultraconservador em casos como o da Veja, domina por completo o conteúdo das grandes corporações.

Defender Nassif é, portanto, também defender a pluralidade.

E finalmente é preciso dizer o seguinte. Ninguém, na mídia, objeta quando é noticiado que a Globo — com audiências despencando, e com um conteúdo sinistro para quem quer um país menos desigual — recebe meio bilhão de reais por ano em anúncios.

No entanto basta aparecer um anúncio de qualquer estatal no site de Nassif para que falsos moralistas cinicamente façam discursos histéricos e desonestos.

Como consequência disso, a Secom — o órgão do governo que centraliza a publicidade — se sente intimidada, e faz muito menos do que deveria para promover a pluralidade de opiniões. Quem perde é a sociedade.

Por tudo isso, estou com Nassif. Inteiramente.

Paulo Nogueira
No DCM
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Eduardo Cunha e os Danos Imorais


No início deste mês foi celebrado em todo o mundo o “Dia Mundial da Liberdade de Expressão”. Para a minha surpresa — e de centenas de jornalistas — presenciamos o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, fazendo apaixonados discursos em defesa da liberdade de imprensa. Bonito de se ver, triste de se entender. Não há no Brasil uma pessoa que mais processou jornalistas do que o Senhor Cunha.

Eu mesmo fui brindado com duas ações da larva do parlamentar. Tudo por que considerei controversas as razões pelas quais ele (na época deputado estadual) fez um voto em separado, na CPI da P-36 da Assembleia Legislativa do Rio. A P-36 era a maior plataforma de extração de petróleo do mundo que afundou, em março de 2001, na Bacia de Campos.

O voto de Cunha veio de encontro aos interesses de seguradoras norte-americanas que se recusavam indenizar a Petrobras pelo acidente. Uma confusão estimada em mais de 400 milhões de dólares.

Graças à competência dos advogados, vencemos Cunha nos tribunais. Naquela época, existiam 16 profissionais da imprensa carioca na alça de mira dele. Lembro-me dos nomes de Marcos Sá Correa, Ancelmo Gois, Marceu Vieira, Mônica Ramos e Paulo Branco. Já falecido, Branco tentou criar uma “Associação dos Processados de Eduardo Cunha”. Não conseguiu. Só que de lá para a cá, a relação de acionados engordou substancialmente. Mais recentemente, Jorge Bastos Moreno e Luiz Nassif juntaram-se a nós.

Eduardo Cunha, talvez, seja o grande exemplo de quem melhor explorou o instituto dos “Danos Morais” para intimidar jornalistas. Criado com a Constituição de 1988, ele pretende proteger os cidadãos dos abusos, especialmente, da imprensa. Só que acabou se transformando numa indústria.
Infelizmente, os “Danos Morais” viram um instrumento para constranger, amedrontar e intimidar tanto profissionais de comunicação como os veículos. É, sem dúvida, mais uma maneira de se fazer censura neste País. Da mesma forma que os assassinatos, ameaças de morte e prisões injustificadas de jornalistas.
O volume das ações é tamanho que alguns veículos são obrigados a fazer provisões em seus orçamentos anuais para poder cobrir as indenizações. Na época em que Cunha me processou, jornal O Dia, reservava em sua contabilidade R$ 1 milhão, por ano, para esses fins.

Nada contra o instituto dos “Danos Morais”. Ele teve — e tem — um papel importante nas redações deste País. Hoje em dia, pensa-se um pouco mais antes de mandar imprimir uma matéria ou de colocá-la no ar. O que se condena é o uso indiscriminado da lei.

Quanto às posições contraditórias do presidente da Câmara Federal nada a comentar. Vai que ele manda nos processar por conta deste amontado de palavras.

Arnaldo Cesar
No Marcelo Auler
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Às portas de Bagdá



Prometeram-lhes a Primavera. Mas nenhuma flor brotou de seus cadáveres, a não ser as formadas pelas algas e organismos marinhos que cobrem os seus corpos no fundo do Mediterrâneo.

Disseram-lhes que haveria paz, justiça, progresso, conforto e liberdade. E em troca lhes deram o caos de que procuram fugir a qualquer preço, a guerra, a injustiça, a destruição, o medo, a opressão e a miséria, e atacaram, com seus aviões e navios e as bombas e balas de seus mercenários, seus países, suas lojas, suas escolas, seus consultórios, seus poços e suas fontes, seus campos de trigo, seus bosques de oliveiras, matando seus cavalos, suas vacas, suas ovelhas, e explodindo suas pontes e seus templos.

Suas casas e ruas agora estão em ruínas. Seus móveis e os retratos de seus pais foram queimados para fazer fogo e assar o pão escasso enviado por outros povos, muitos de seus filhos e filhas morreram e os que sobraram não vão mais aos parques, nem ao zoológico, nem à escola, e caçam ratos entre os escombros em que se misturam os restos de mesquitas, igrejas e sinagogas.

Aqueles que prometeram a Primavera transformaram professores, agricultores, trabalhadores, médicos, engenheiros, comerciantes, em fantasmas que vagueiam agora aos milhares, enterrando seus velhos e seus recém-nascidos por trilhas, montanhas, mares e desertos hostis e inóspitos, sem poder prosseguir diante de fronteiras e portos que não permitem a sua entrada, obrigando-os a fazer dos restos de suas túnicas e bandeiras farrapos imundos que cobrem seus frágeis abrigos e tendas provisórias.

Aqueles que haviam lhes prometido a Primavera tinham dito que era preciso que seus ditadores caíssem, para que fossem felizes. E para derrubar os antigos líderes de seus países, dividiram seus povos e as armas que trouxeram de fora, equipando exércitos de assassinos, de sádicos, estupradores e mercenários, permitindo que seus bandidos fossem e matassem.

Foi assim que eles derrubaram, então, aqueles que governavam antes. Os enforcaram ou espancaram na rua, como cães, até a morte, destruíram as estradas, ferrovias, aeroportos, avenidas, represas, aquedutos, viadutos, hospitais, as estátuas e os palácios que Saddam, Kadafi, haviam construído, e mataram também seus filhos, para que não os vingassem, e aqueles que um dia os tinham apoiado, e espancaram e assassinaram também seus filhos pequenos e violentaram suas filhas e mulheres.

“Vão”, disseram os que haviam prometido que semeariam a Primavera. E seus assassinos foram. Os mesmos que agora voltaram-se contra eles, que degolam seus prisioneiros ajoelhados na areia, e se espalharam em bandos e seitas pelo Oriente Médio e o Norte da África.

Eles querem montar um Estado — Islâmico, eles o chamam — onde antes existiam, de fato, a Líbia, a Síria e o Iraque. Estão às portas de Bagdá. Tomaram Ramadi e Palmira. E cobiçam Trípoli e Damasco.
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Vídeo sobre Mantega: tucano faz o que FHC prega

A próxima fase é quebrar vidros e cristais!


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Quem usa, defende o SUS. Caso família Huck


Quem conhece, defende o SUS. Fiquei muito comovida com a notícia do acidente aéreo envolvendo os apresentadores de televisão, Angélica e Luciano Huck. Angélica e a família voltavam de gravações do Programa Estrelas no Pantanal de Mato Grosso do Sul, quando o avião teve de fazer um pouso forçado em uma fazenda a cerca de 30 km de Campo Grande. Notícias como essa são sempre trágicas, principalmente porque estavam a bordo os filhos do casal. O atendimento de todos foi feito, com êxito, pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Hoje, os apresentadores agradeceram, por meio de um comunicado enviado pela CGCOM (Central Globo de Comunicação) os serviços prestados pela Santa Casa de Campo Grande, unidade de referência no atendimento à politraumatizados no Estado.

Luciano Huck:

“É importante também agradecer todo pessoal da Santa Casa de Campo Grande, que foi de uma gentileza enorme”.

Angélica:

“Também quero agradecer todo mundo que ajudou lá na Santa Casa de Campo Grande”.

É sempre bom lembrar que o SUS tirou do “corredor da morte” várias pessoas com Aids. O sistema é referência mundial com relação à prevenção e ao tratamento do vírus HIV. Muitos idosos também não estão mais no “corredor da morte”, porque recebem vacina contra a gripe pelo sistema púbico de saúde, evitando problemas mais sérios como a pneumonia ou outras complicações respiratórias. Somos recordistas em transplantes de órgãos. Fomos o primeiro país a erradicar a poliomelite. Reduzimos com louvor a mortalidade infantil.

O SUS deve ser tratado como patrimônio nacional, uma construção coletiva de saúde pública. Somos um sistema universal, um dos poucos para países com mais de 100 milhões de pessoas. É um equívoco dizer que o SUS é para os anônimos. O SUS é de todos, porque de uma forma ou de outra os brasileiros usam o Sistema Único de Saúde, inclusive  celebridades, jornalistas, juízes, colunistas políticos, apocalípticos da mídia…

Adriana Santos
No Blog do Mário
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Golpista mirim é socorrido pelo Samu

Este mundo é cheio de ironias. Kim Kataguiri, o jovem líder do grupelho fascista Movimento Brasil Livre (MBL), que prega a derrubada de Dilma e a redução do papel do Estado — com o fim dos programas sociais, das cotas nas faculdades e até das blitz policiais contra os motoristas bêbados — foi vítima de um acidente de trânsito na noite deste sábado (23). Ele participava da patética marcha pelo impeachment, que saiu de São Paulo em abril e pretende chegar ao Palácio do Planalto em 27 de maio. No acostamento da estrada entre as cidades de Abadiânia e Alexânia, em Goiás, o pequeno cortejo foi atropelado por um motorista bêbado. Ironias das ironias, os dois feridos foram atendidos pelo Samu — uma criação estatista dos “petralhas”.

Segundo relato do jornal Estadão, que adotou os golpistas mirins desde a primeira marcha em 15 de março, os dois manifestantes não sofreram maiores traumas. “Kim Kataguiri, líder da marcha que defende o impeachment da presidente Dilma, ficou levemente ferido e não precisou ser hospitalizado. A outra vítima, identificada pela Polícia Rodoviária Federal apenas como Amanda, foi levada ao Hospital Huana, em Anápolis (GO). Segundo o hospital, ela sofreu um corte na cabeça e deve ter alta ainda neste domingo. Os dois foram atingidos após uma colisão envolvendo dois veículos. Um dos motoristas, que havia ingerido álcool, foi preso em flagrante”.

O maior trauma dos jovens direitistas parece ser o do isolamento do seu movimento golpista. Como registrou o Estadão, também frustrado, “na semana passada, o MBL criticou o PSDB após o partido ter desistido da tese do impeachment de Dilma. Nas redes sociais, o grupo chamou o senador Aécio Neves (MG) de ‘traidor’”. O melhor registro sobre o acidente, porém, foi feito pela blogueira Conceição Oliveira, do blog “Maria Frô”. Ela lembra que o MBL é uma organização de extrema direita, partidária das teses neoliberais de negação do Estado. “Se a sociedade fosse como pregam os liberais, nem eles estariam a salvo deles mesmos”, ironiza já no título da postagem.

O Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) foi criado no governo Lula e está vinculado ao Ministério da Saúde. Ele visa, segundo seu site, prestar “atendimento de urgência e emergência em qualquer lugar: residências, locais de trabalho e vias públicas. O socorro começa com a chamada gratuita feita para o telefone 192”. Na lógica do MBL, este órgão público “petralha” nem deveria existir. “Se não existisse o Samu, quem iria socorrer o Kim Kataguiri?”, ironiza Conceição Oliveira. A blogueira lembra ainda que o MBL segue os dogmas do Instituto Mises — uma organização internacional que difunde as ideias do pensador ucraniano Ludwig von Mises, um dos papas do genocídio neoliberal.

Este instituto, que recebe muita grana das multinacionais, prega vários absurdos. Um dos artigos publicados no site da entidade, intitulado “pelo direito de dirigir alcoolizado”, criticou até a adoção da Lei Seca no Brasil — que seria uma forma de intervenção autoritária do governo na vida dos indivíduos. “O Estado mostra mais uma vez que é incapaz de distinguir entre causa e efeito”, afirma a nota introdutória do texto bisonho.

Como ironiza Conceição Oliveira, ainda bem que as teses amalucadas do MBL não estão em vigor no Brasil. Até o “traidor” Aécio Neves já abandonou os golpistas mirins na estrada. Kim Kataguiri foi atropelado por um motorista embriagado e foi atendido pelo Samu. Só faltava ser socorrido por um médico cubano em Goiás. Ele nem pode reclamar do acidente e das piadinhas!

Altamiro Borges
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O contrabando na Câmara dos Deputados

Quem acompanhou o processo de votação da recém-apreciada medida provisória 664 na Câmara dos Deputados, norma que endureceu as regras de acesso à pensão, pode ter se surpreendido com o aparente enorme interesse dos parlamentares em contribuir com a redação da MP. Foram 517 emendas propostas para alterar o texto original.

O grande número de sugestões, porém, talvez fale mais sobre os vícios e os instintos de sobrevivência na Casa que sobre as afeições dos deputados ao tema em si.

Uma análise detida sobre o conteúdo das 517 sugestões mostra que o grosso do montante é resultado de lobby de entidades, dezenas de sugestões repetidas, manobras da oposição para retardar os trabalhos e até mesmo contrabandos, expressão usada para designar tentativas de emplacar regras que nada têm a ver com o tema inicial.

É comum que uma ideia defendida por uma entidade seja encampada por vários congressistas. No caso da MP 664, uma associação conseguiu a formulação de nove propostas para garantir pensão integral e vitalícia aos cônjuges de policiais federais.

"Se o deputado acha que o pedido é justo, apresenta", diz Jorge Oliveira, chefe de gabinete de Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), "autor" de uma dessas emendas, que acabaram rejeitadas. Para Oliveira, o prazo curto para fazer sugestões — seis dias após a publicação da medida no "Diário Oficial" — inviabiliza a elaboração de um projeto comum entre vários deputados.

As tentativas de contrabando foram variadas. Servidores federais conseguiram que deputados apresentassem 14 propostas para dar à categoria o direito a licença remunerada para exercer mandato sindical.

Já empresas de transporte tentaram aproveitar a MP das pensões para mudar a regra para contratação de deficientes. Alguém queria alterar a tabela do Imposto de Renda. E teve parlamentar que viu uma oportunidade para regular o mercado de órteses e próteses.

Caracterizados como contrabando, esses temas nem foram apreciados.

Mesmo sabendo da inviabilidade da aprovação, parlamentares costumam apresentar emendas que fogem do mérito do assunto principal para agradar a base eleitoral.

Obstrução

A oposição também costuma ser muito ativa na apresentação de sugestões. Mas com outra intenção: obstruir projetos do governo.

Autor de 14 emendas, o líder do DEMo, Mendonça Filho (PE), diz que seu objetivo era só alongar a discussão das propostas do Planalto.

"Dou o norte para os assessores pensarem no máximo de emendas para atrasar e até mesmo obstruir o trâmite da MP", admite. No final, ele retirou as propostas para evitar "uso político" e tentativas de negociação de governistas.

Para Paulinho da Força (SD-SP), que teve algumas emendas idênticas às de colegas, a intenção era impedir a mudança na lei. Porém, a aprovação de uma emenda defendida por Paulinho fez com que ele passasse a ser favorável à medida provisória.

Campeão de apresentação de emendas à MP, com 36 propostas, Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) foi o autor da única que realmente fez diferença: a da fórmula 85/95, aprovada contra a vontade do governo.

A emenda garante aposentadoria integral quando a soma da idade com o tempo de contribuição der 85 para a mulher e 95 para o homem.

O petebista afirma que não segue estratégia de apresentar muitas emendas só para fazer volume. Fez 36, diz, porque previdência é sua área de atuação.

* * *

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517 emendas foram apresentadas à medida provisória que alterou a regra da pensão

36 são de autoria do deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), que emplacou uma alternativa ao fator previdenciário

40% tentavam suprimir alguma parte da MP; outras seis emendas visa-vam revogar a medida por inteiro

14 visavam dar a servidores públicos federais o direito a licença remune-rada para exercer mandato sindical

30 foram barradas de uma só vez por fugirem do tema
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Por dentro do mercado eleitoral

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O fim de semana mostra uma imprensa com os sinais invertidos: os jornais chamados de genéricos politizam a economia, produzindo certa confusão em torno do ajuste em tramitação no Congresso, e o principal diário de economia e negócios apresenta a melhor análise do projeto de reforma política que causa grande desentendimento no Parlamento.

Mas esse não é um fato isolado: diante da perda de qualidade dos títulos genéricos, o Valor Econômico se consolida como uma alternativa para quem ainda busca na mídia tradicional os elementos para interpretar o cotidiano brasileiro.

Dada a crescente importância do noticiário econômico na vida das pessoas, pode-se afirmar que, ao completar quinze anos, o jornal que ocupou o lugar da extinta Gazeta Mercantil conquista uma posição confortável para tentar novos avanços. Seus concorrentes, além da versão digital da revista Exame, são o caderno de Economia do Estado de S.Paulo e os sites de publicações estrangeiras especializadas. Nesse mercado, é preciso combinar o público mais bem posicionado na hierarquia das empresas com os jovens executivos em ascensão na carreira.

O fato de o Estado, assim como os outros diários genéricos de circulação nacional, ter contaminado seu noticiário econômico com o viés partidário que condiciona suas escolhas editoriais abre uma perspectiva para o Valor se posicionar um pouco além de sua especialidade.

Com cerca de 60 mil assinantes, o diário nascido de uma parceria do Globo com a Folha de S.Paulo se beneficia do fato de ter menos flutuações em sua carteira de leitores fiéis e aprofunda seu relacionamento com protagonistas do mundo dos negócios por meio do serviço digital Valor PRO.

Apesar de um erro estratégico primário nos seus primeiros anos de vida, quando sucumbiu à onda dos brindes para conquistar assinantes, o projeto ganhou corpo à medida em que a Gazeta Mercantil agonizava. Quinze anos depois, seu núcleo de especialistas pode ampliar as incursões nos campos em que dominam a Folha, o Estado e o Globo. Portanto, não se deve estranhar se o Valor aumentar o destaque a temas da política, pois esse seria um caminho natural para captar leitores exigentes que estão frustrados com a queda de qualidade dos três diários de circulação nacional.

Aposta na inteligência

A edição do fim de semana, que circula a partir da sexta-feira, oferece uma espécie de revista na qual se pode encontrar uma coleção de bons textos sobre cultura e política, como a entrevista produzida pelo debate entre o presidente da Câmara dos Deputados e os cientistas políticos Jairo Nicolau e Fernando Limonji, publicada na sexta (22/5).

Enquanto os outros jornais se concentram nos detalhes da disputa política, o texto de Valor permite ao seu leitor penetrar profundamente nos bastidores do poder e entender aquilo que para o outro público não passa de picuinha.

O confronto de dois scholars com o presidente da Câmara revela como a política real foi se distanciando dos paradigmas que justificam, em tese, o esforço pela democracia. Pressionado por interlocutores qualificados, Eduardo Cunha se vê obrigado a apresentar respostas mais consistentes do que aquelas que distribui durante entrevistas coletivas, quase sempre com um sorriso zombeteiro a denunciar o desprezo que nutre pela imprensa.

O título do caderno é esclarecedor: “A reforma do mercado eleitoral”.

Mesmo que discorde de sua visão específica da atividade política e do sistema partidário que patrocina, o leitor se vê obrigado a refletir sobre as razões do presidente da Câmara, que personifica o triunfo do chamado baixo clero após décadas de uma guerra de extinção entre os grupos políticos mais ideologizados que dominaram a cena até aqui.

Pode-se entender, na conversa dura mantida pelos três debatedores, como o extrato da representação partidária mais pragmático e menos comprometido com princípios programáticos se articula para consolidar o poder adquirido nos últimos meses.

Pode-se imaginar que o esforço de Eduardo Cunha para se impor como líder de uma maioria suprapartidária no Congresso irá durar o tempo que a Justiça levar para envolvê-lo definitivamente na Operação Lava Jato. Mas, ainda assim, o debate publicado pelo Valor Econômico é uma grande contribuição para a formação de opiniões mais consistentes entre seus leitores: trata-se de uma aposta na inteligência do leitor.

Enquanto isso, os três diários genéricos de circulação nacional seguem investindo na escola de formação de midiotas conduzida por seus colunistas pitbulls.

Luciano Martins Costa
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Truvada: O Medicamento que Pode Revolucionar a História da AIDS e Está Causando Processos Contra o SUS


Você já deve ter ouvido falar que mulheres grávidas portadoras do HIV, ao fazerem o tratamento antirretroviral com o coquetel anti-HIV, não transmitem o vírus ao seu bebê. Isso acontece porque o tratamento, colocado em prática desde 1996, reduz a carga viral da mãe a um nível baixíssimo, evitando a contaminação conhecida como Transmissão Vertical, ou seja, a transmissão de gestante para o filho ainda dentro do útero.

Pessoas que sofrem violência sexual, profissionais da saúde que acidentalmente entram em contato com agulhas contaminadas ou até quem acaba transando sem camisinha (ou aconteça de ela estourar), também podem se submeter a um tratamento conhecido como PEP, Profilaxia Pós-Exposição ao vírus, ou seja, depois que o paciente já foi exposto ao risco do contato com o HIV em até 72 horas após o contágio. Estudos realizados pela Universidade de Washington e do Fred Hutchinson Cancer Research Center, em Seattle, mostraram que o risco de contaminação pelo vírus é reduzido em até 92%.

Para todos os casos acima, o governo brasileiro, via SUS (Sistema Único de Saúde), oferece um tratamento gratuito a toda a população brasileira; afinal, ele é obrigado a isso. A lei estabelece que "A saúde é direito de todos e é dever do Estado garantir acesso universal e igualitário às ações e serviços para a sua promoção, proteção e recuperação. (...) E o SUS, entre outras diretrizes, tem o dever de propiciar o atendimento integral, conforme prevê o artigo 198, inciso II da Constituição Federal".

Sabendo disso,vamos falar sobre o Truvada? Recentemente, esse medicamento vem chamando a atenção da medicina e da área científica. Ele é composto por duas drogas já usadas separadamente desde 2004 nos coquetéis anti-HIV, a Emtricitabina e a Tenofovir Disoproxi. Descobriu-se em 2012 que, juntas numa única dose de pílula azul, elas podem evitar o que antes era usado apenas para tratar/remediar. Um estudo publicado pela revista Science Translational Medicine, que pertence à maior sociedade científica do mundo, a Associação Americana para o Avanço da Ciência, revelou que o Truvada é eficaz tanto na Profilaxia Pré-Exposição quanto na Pós-Exposição. Se esse remédio fosse uma pessoa, poderia se apresentar da seguinte maneira para você: "Tô longe de ser a cura para a AIDS, mas posso evitar o contágio pelo HIV durante a transa, mesmo que o seu parceiro sexual seja portador do vírus. Aliás, se o soropositivo for você, o HIV provavelmente não será transmitido para o seu parceiro soronegativo?".

Ainda segundo o estudo, ingerir dois comprimidos de Truvada por semana reduz os riscos de transmissão e contaminação em 76%. Já quatro pílulas semanais garantem 96% de proteção, enquanto sete pílulas semanais, uma por dia, reduzem o risco em até 99%. Após essa conclusão, a agência sanitária norte-americana FDA (Food and Drug Administration) aprovou e liberou o seu uso como forma preventiva. Inclusive, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda efetivamente o uso do Truvada por pessoas que se enquadram em grupos de alto risco, como gays, dependentes químicos que usam drogas injetáveis, garotos(as) de programa ou quem tenha um relacionamento sorodiscordante, que é o caso de casais em que um é soropositivo e o outro, negativo.

Depois desses argumentos, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) registrou o medicamento no Brasil, mas ele ainda não é produzido ou comercializado aqui no país. O governo, via SUS, não oferece o Truvada gratuitamente à população. Ao acessar a página que fala sobre essa negativa em relação ao medicamento, você encontrará a resposta abaixo:

" (...)
8 - Já estão disponíveis no SUS medidas comprovadamente mais eficazes para o controle da epidemia, que incluem a promoção do uso consistente de preservativo e de antirretrovirais para as pessoas vivendo com HIV/aids, com eficácia acima de 98% e 96% respectivamente.

9 - Assim, a política de prevenção às DST, aids e hepatites virais adotada no Brasil prioriza o estímulo às práticas sexuais seguras, incluindo o uso consistente de preservativos, a Profilaxia Pós-Exposição sexual ao HIV (PEP sexual) em casos específicos e a disponibilização de terapia antirretroviral para PVHA (pessoas vivendo com Aids). Essa política tem como objetivos melhorar a qualidade de vida, evitar a progressão de doenças e reduzir o risco de transmissão do HIV por meio da supressão da replicação viral".

Quem quiser ter acesso ao Truvada, vai ter de desembolsar uma quantia média de R$ 2 mil por mês para importá-lo. Ou processar judicialmente o governo para obrigar o SUS a oferecer esse tratamento preventivo gratuitamente, já que a lei assegura esse direito a qualquer cidadão.

E, pesquisando, descobri que isso já está sendo colocado em prática. Esse é o caso de D, que mora em São Paulo e prefere manter o seu nome e do seu parceiro em sigilo.

"Eu me considero casado, pois moro junto com o meu companheiro há mais de seis anos; portanto, temos uma união estável. Ele é soropositivo e eu, negativo. Durante as nossas relações sexuais, sempre usávamos camisinha, mas o medo de ela estourar sempre nos deixava apreensivos. Foi aí que o meu médico me receitou o Truvada. Li muito a respeito e concluí que essa seria a melhor solução para a minha relação, conhecida como sorodiscordante. Mas, em vez de comprá-lo, sabendo dos meus direitos, resolvi processar o governo para adquiri-lo gratuitamente via SUS. Eu perdi a primeira instância do julgamento, pois o juiz alegou que eu poderia usar camisinha ou recorrer ao SUS para me tratar caso eu adquirisse o vírus. Mas o meu advogado entrou com uma jurisprudência contra essa decisão, e a desembargadora do caso me deu a vitória, alegando que '... a saúde do soropositivo precisa ser mantida, assim como a saúde do seu cônjuge. Não proteger a esse segundo seria tão omisso quanto não proteger o primeiro. Então, se o remédio pode proteger a saúde do segundo, que está em risco de forma inquestionável, o Estado tem de prover o remédio'. Após essa sentença tão precisa, o governo não quis recorrer ao Supremo Tribunal da Justiça e a minha causa foi ganha. Faz mais de 6 meses que recebo gratuitamente o Truvada via SUS. Agora, apesar de continuarmos usando a camisinha, vivemos muito mais tranquilos, pois me sinto intensamente mais protegido."

Segundo os médicos, quase todos os tratamentos antirretrovirais existentes no mercado podem causar nos pacientes enjoos, dor de cabeça, cansaço, diarréia, problemas gástricos, manchas na pele, insônia, má distribuição da gordura corporal (o rosto costuma ficar mais seco, enquanto acumula-se gordura na região abdominal) e aumento nas taxas de colesterol e triglicerídeos, o que pode levar ao risco de doenças no coração. Logo, engana-se quem achar que alguém em sã consciência possa deixar de usar camisinha durante o sexo, adquirir o vírus e começar a fazer algum tratamento antirretroviral de propósito.

Vale lembrar que os efeitos do uso contínuo do Truvada no organismo humano ainda são desconhecidos; por isso, os testes e as pesquisas ainda continuam em relação a isso. Aliás, se alguém é homossexual, travesti ou transexual, é possível participar de um estudo promovido pelo laboratório de pesquisa clínica em DST e HIV/AIDS da Fiocruz. Em breve, ele vai escolher 500 pessoas, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, que receberão uma pílula de Truvada por dia, além de acompanhamento médico e psicológico. No site PreP Brasil, você encontra as seguintes informações sobre o procedimento:

"O estudo PrEP Brasil vai avaliar a aceitação, a viabilidade e a melhor forma de oferecer a profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) à população brasileira como prevenção ao vírus. (...) Exames laboratoriais também serão realizados para detectar eventuais efeitos colaterais. Testes que detectam material genético do HIV serão utilizados para identificar precocemente a infecção pelo HIV. Preservativos e lubrificantes serão sempre fornecidos e o uso deles, fortemente incentivado".

Se o Truvada te deixou excitado ao ponto de gozar, lembre-se de que a camisinha ainda é a única forma de se prevenir o contágio de todas as doenças sexualmente transmissíveis; afinal, a Aids é apenas uma delas.

Felippe Canale
No Vice
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Registros minam versão de Cunha para requerimentos investigados na Lava Jato


Levantamento nos arquivos eletrônicos da Câmara dos Deputados coloca em xeque o argumento apresentado pelo presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para negar sua relação com dois requerimentos de informação que teriam sido usados para achacar empresas fornecedoras da Petrobras.

A ligação do deputado com esses papeis é um dos principais elementos apontados pela Procuradoria-Geral da República para incluir Cunha entre os políticos suspeitos de participação no esquema de corrupção descoberto pela Operação Lava Jato na estatal.

Os requerimentos foram apresentados na Câmara em 2011 pela então deputada Solange Almeida (PMDB-RJ), correligionária de Cunha. Eles pediam às autoridades informações sobre contratos da Petrobras com a Mitsui.

O doleiro Alberto Youssef, um dos principais delatores da Lava Jato, disse à Justiça que os requerimentos foram apresentados a mando de Cunha e teriam o objetivo de pressionar um representante da empresa a retomar pagamentos de propina ao PMDB.

Cunha disse num primeiro momento que não tinha nada a ver com os requerimentos. Em abril, a Folha revelou que o nome "dep. Eduardo Cunha" aparece como autor dos arquivos de computador em que eles foram redigidos.

A partir de então, o peemedebista passou a dizer que assessores seus podem ter sido usados para redigir os documentos, já que seu gabinete era frequentemente requisitado por deputados do PMDB do Rio, especialmente novatos, como Solange na época.

Na semana passada, a Folha analisou todos os 443 requerimentos apresentados pelos 13 deputados do PMDB do Rio que exerciam mandato em 2011. Com exceção dos que o próprio Cunha apresentou e dos dois de Solange, nenhum outro exibe o nome do deputado como seu autor.

Assessores

Na maioria dos casos, figura como autor do arquivos, normalmente produzidos no processador de textos Word, o ponto ou os nomes de assessores dos respectivos gabinetes. Em vários dos casos, o registro está em branco ou sem identificação individual, de acordo com o levantamento.

Cunha havia dito que uma assessora sua prestaria serviços nas comissões da Câmara para outros deputados do PMDB fluminense. Uma auxiliar de Cunha, Maria Claudia de Vasconcelos Batista Medeiros, aparece como autora de requerimentos de outros peemedebistas, mas sempre com o seu nome. Ou seja, usava o seu próprio ponto e senha para acessar o sistema.

A expressão "dep. Eduardo Cunha" só apareceria com o ingresso no sistema digital do ponto e da senha pessoal e intransferível de Cunha. O presidente da Câmara afirmou que passava sua senha para os assessores usarem.

Neste domingo (24), o jornal "O Globo" revelou que Cunha também aparece nos registros eletrônicos da Câmara como autor de um requerimento apresentado pelo deputado Áureo Ribeiro (SD-RJ) em 2011, um pedido de informações sobre uma licitação do Instituto Militar de Engenharia, ligado ao Exército.
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E o Cauby, hein? Que Surpresa!


Só me faltava isso: o Cauby Peixoto assumindo que é gay. Quem podia imaginar?

Eu podia imaginar qualquer pessoa do mundo, menos o Cauby.

Como anda o mundo, hein? Um rapaz cantante que acompanho há 50 anos, que jamais pensei que tivesse tendências irlandesas ... e de repente se declara, sai do armário. Grande Cauby. Muita coragem...aos oitenta anos!

Podia esperar de qualquer um: Malafaia, Aloysio Nunes, Roberto Freire... até mesmo do Ferreira Gullar, que são todas pessoas antenadas com a nossa época..., mas do Cauby? Não imaginaria nunca!!!

Estou boquiaberto. Aliás acho até melhor fechar a boca antes que algum mais assumidinho me tasque um beijo gay. Nada contra, mas se é pra ser assim, que eu possa ao menos escolher. (Risos).

Hummm... deixe ver... deixe-me pensar... Não esse não... talvez aquele outro, o dos cabelinhos de anjo... Também não, muito mocinha. Afinal se é pra eu beijar homem que seja um beijo forte, másculo, com pegada. É... concordo com minhas amigas: tá difícil! (Mais risos).

Bemvindo Sequeira
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Belo Monte — O progresso, Apesar de tudo


A vida cotidiana mostra que nem todos em Altamira foram preparados para mudanças que hidrelétrica traria a suas vidas mas moradores aplaudem mudança de palafitas para casas de concreto, conta segunda reportagem sobre Belo Monte

Como se pode imaginar pelos números de caminhonetes e lanchas voadeiras que chegam gratuitamente às aldeias — como se descreve na reportagem anterior desta série — os ganhos obtidos pelas populações indígenas irritam grande parte da população local. Determinados moradores de Altamira encaram esses benefícios de forma negativa, expressando um ressentimento que, conforme o sociológo norte-americano Richard Sennet, é assumido por pessoas que vêm as autoridades tomando providências para melhorar a sorte daqueles considerados mais fracos e desprotegidos, mas sentem que nada fazem para proteger pessoas comuns, como elas se classificam, que também têm suas necessidades.

Eduardo Barbosa da Silva, eletricista aposentado, pai de sete filhos, disse ao 247: “Eu acho que os índios estão extrapolando. Usam e abusam dos direitos. Ganham tantas coisas que pergunto do que irão viver quando a obra acabar.” Cinquentão, nascido e criado em Altamira, Eduardo passou a maior parte da existência nas palafitas, aquelas favelas de madeira, instáveis e inseguras, nas margens do Xingu. Há pouco tempo ele recebeu um benefício inegável. Trocou aquela espécie de barraco fluvial por uma residência de concreto no bairro de Jatobá, em Altamira — numa construção que garante que a temperatura interior sempre seja inferior à da área externa. Um de seus filhos, reside na casa vizinha — que também foi incluída no programa de benefícios compensatórios de Belo Monte, para os proprietários que optaram por abandonar as palafitas em troca de residências num dos vários conjuntos residenciais construídos na cidade.

A crítica aos benefícios da população indígena se alimenta de uma força cultural que nem sempre é fácil de compreender e aceitar. A população das aldeias e seus descendentes carregam uma herança cultural que outros brasileiros nunca possuíram ou já perderam. O apego ao trabalho alienado, que está na base das sociedades ocidentais e é típica do sistema capitalista, não faz parte da formação nem da vida cotidiana da maioria das sociedades indígenas, educadas para extrair a riqueza de fontes diretas na natureza, que sempre tiveram como sua.

Em Altamira, eles nem sempre acham que os benefícios recebidos compensam aquilo que perderam. Adeulan Assunção, bisneto da etnia Xipaya, que hoje reside numa casa construída pela Norte Energia em Altamira, disse ao 247 que “antigamente a vida era melhor. Eu acordava, pegava minha canoa e ia para o rio. Pescava e voltava para casa. Ninguém me incomodava. Agora, tenho trabalho, tenho horário, tenho patrão. Chego cansado no fim do dia. Eu não ficava cansado.”

Pai de quatro filhos, Adeulan costuma pagar as contas do fim do mês como pedreiro. Reclama da distância entre sua casa e os locais de trabalho, trajeto que precisa cumprir de ônibus, pagando R$ 3,50 a passagem, quantia que muitas vezes se torna alta demais para seus ganhos. A atividade, de qualquer maneira, lhe deu um orgulho. Ele participou da construção de um hospital na cidade e, como todos os operários, engenheiros e gerentes que participaram do empreendimento, teve direito a escrever seu nome numa das paredes do estabelecimento. “Quem for lá pode ler o meu nome.”

Ao lado de queixas legítimas, há sucessos indiscutíveis. “Abandonamos uma moradia insegura, por uma residência em terra firme, “com banheiro dentro de casa, o que é muito importante,” lembra a costureira Suely Moreira da Silva, 39 anos de idade, desde os 17 na região, que deu entrevista para o 247 na porta de sua casa no Jatobá. (Suely, o marido e os quatro filhos posaram para a foto que ilustra essa reportagem).

Temperamento de empreendedora, Suely decidiu levantar um clássico puxadinho no quintal, onde o marido pretende montar uma venda para comercializar alimentos e produtos de limpeza com os vizinhos. “Troquei um barraco por essa casa. Quem vai reclamar?”

Há quem reclame. A camareira Luiza Ernestina de Assunção, 58 anos, morava numa palafita habitada por 25 pessoas — entre filhos, netos e bisnetos. Ao negociar a mudança com a Norte Energia, levou quatro casas. Uma para si, e três para os filhos mais velhos, já casados, que viviam com ela. É possível assistir, na internet, a um vídeo em que Luiza Ernestina, em tom de celebração, se despedia da casa antiga antes de mudar-se para a nova. No vídeo, ela apontar um cômodo onde dez pessoas dormiam juntas.

Mas, no dia em que entrevistei a camareira em sua casa no Jatobá, ouvi um rosário de queixas. Embora a população da moradia anterior tenha se dividido por quatro casas no Jatobá, ela reclamava do tamanho dos quartos, “não há espaço para todo mundo dormir.” Reconhece um ponto a favor da usina de Belo Monte (“trouxe trabalho para a região, o que é bom”) mas reclama que “há 30 anos a vida era mais segura. Não tinha roubo.” Para além de dramas comuns na vida de milhões de brasileiros, contudo, Luiza Ernestina tem um motivo especial para o descontentamento. “Quero mais uma casa, para um de meus filhos.”

Se conseguir, terá trocado uma palafita por cinco residências de alvenaria, janela de alumínio e quintal. A reivindicação tem uma motivação peculiar. O rapaz residia com a mulher numa das casas recebidas da NorteEnergia mas separou-se e agora necessita de outro lugar para morar sem causar transtornos à residência da mãe.

“ÍNDIO GOSTA DE FALAR A VERDADE.”

Apesar de conflitos permanentes, os trabalhos da usina seguem com relativa regularidade. Prevê-se o funcionamento da primeira turbina do canteiro principal em agosto de 2016, conforme definido no cronograma orginal. As demais turbinas devem ser ligadas — tudo indica — até janeiro de 2019, quando Belo Monte deve estar funcionando a toda carga.

Há um atraso de meses na segunda casa de força. Deveria ter entrado em funcionamento em fevereiro, mas deve ser ligada em novembro. É simbólico mas não é grave: envolve 3% da energia total a ser produzida e o atraso pode ser explicado, basicamente, por razões políticas. Nos primeiros anos da obra, a área da usina costumava ser invadida por ativistas trazidos de partes do país, que ocupavam o lugar e impediam o trabalho de 25 000 operários, engenheiros e executivos. Mas a Justiça proibiu a importação de militantes-grevistas, o que transformou Pimental no endereço preferencial para os conflitos.

Localizada no sítio Pimental, a segunda casa de força tem uma logística favorável ao trabalho de agitação e propaganda. A posição geográfica permite o bloqueio do tráfico de ônibus, automóveis e caminhões e a consequente interrupção dos trabalhos. Também ajuda na chegada de jornalistas e cinegrafistas, com seus equipamentos cada vez mais pesados, e na retirada rápida em caso de necessidade. Em janeiro de 2015, aquele trecho de estrada do Pimental foi bloqueado por quatro dias. Em fevereiro, ocorreu um novo protesto, pelo mesmo espaço de tempo. Este bloqueio do Pimental foi feito a partir de um imenso conjunto de reivindicações mas, 48 horas depois do bloqueio, as partes se encontraram no auditório da Universidade Federal do Pará, em Altamira. Cinco dezenas de indígenas, portando lanças, arco-e-flecha e bordunas, estavam presentes para debater com advogados da Norte Energia, a coordenadora da Casa do Governo e representantes da FUNAI e do Ministério Público. Um dos caciques presentes compareceu em trajes à paisana, sem a indumentária de acordo para a ocasião. Minutos antes do encontro ter início, sua mulher apareceu na sala para lhe entregar o cocar de penas, logo colocado na cabeça.

Ao longo da reunião, acompanhada pelo 247, as partes debateram três pontos principais. O primeiro envolvia uma tentativa inaceitável de criminalizar lideranças indígenas. Num inquérito criminal, caciques de maior expressão foram acusadas — sem qualquer base factual — de participar de um quebra-quebra ocorrido em Altamira e, em função disso, corriam o risco de parar na cadeia, se fossem condenadas.

Sem camisa, com um chamativo cocar esverdeado, um dos denunciados, o cacique Leo Xipaya, levantou sua borduna enquanto caminhava em direção ao microfone. “Prefiro acabar minha borduna na cabeça de qualquer um aqui antes de ir preso,” disse. Apesar da linguagem violenta, o cacique tinha razão. Outro cacique, Rodrigo Valério, seguiu no mesmo tom: “vocês não vão me intimidar com um processo. Eu não tenho vergonha de ser preso.” O impasse durou pouco.

Profissional calejado pela luta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, onde atuou na década de 1980, em companhia de Luiz Gushiken e outras lideranças nascidas na contra contra a ditadura, o advogado Arlindo Miranda mudou-se para Altamira, onde é o Superintendente de Assuntos Fundiários da Eletronorte. Habituado a intervir em conflitos delicados, Arlindo encerrou as discussões ao constatar que as acusações contra as lideranças indígenas não tinham pé nem cabeça: até funcionários do governo federal que assistiram à confusão confirmavam isso. O advogado comprometeu-se, então, a notificar a polícia a esse respeito.

Numa dessas contradições irônicas, as mesmas lideranças indígenas que passaram vários anos questionando a construção de uma hidrelétrica na região aproveitaram aquele encontro no auditorio da UFPA para reivindicar a instalação de luz nas aldeias. O complicador é que se as localidades beneficiadas pelo programa Luz para Todos, lançado para atingir áreas remotas, podem ser conectadas sem problemas, havia a questão das aldeias mais distantes. Neste caso, para se obter energia é preciso usar geradores — mais precários, quebram com frequência, como recordou uma representante da FUNAI, fortalecendo o argumento das lideranças indígenas. Os caciques também cobraram pela instalação das Unidades Básicas de Saúde, argumentando que já deveriam estar prontas. Um diretor da Norte Energia assumiu o compromisso de resolver o caso em 120 dias — uma primeira parte em dois meses, a segunda parte nos 60 dias posteriores. “É bom constar em ata” disse Rodrigo Valério, expressando sua descrença enquanto encarava os interlocutores. “Se o prazo não for cumprido, vou dormir no escritório de vocês.”

A causa principal daquele encontro envolvia as casas indígenas. Ao longo da construção de Belo Monte, o tipo de moradia abriu um debate entre as aldeias, levando a Norte Energia (vitoriosa da licitação para a construção de Belo Monte) a adaptar-se ao gosto de cada uma. A maioria das etnias preferiu receber residências em madeira, de acordo com um modelo chancelado pela FUNAI e que parecem mais próximas das antigas casas indíenas. Apenas duas etnias deram sua preferência por casas de alvenaria. O problema é que, quando as casas de alvenaria ficaram prontas, muitas aldeias mudaram de ideia, pois era fácil perceber que eram mais seguras e confortáveis. Tentaram reabrir negociações para derrubar as residências de madeira, já prontas, para receber, em troca, os outros modelos. Embora tenha uma longa lista de concessões feitas às lideranças indígenas, neste caso a Norte Energia entrou no encontro com decisão fechada — cada um havia feito feito sua escolha na hora adequada e não havia motivo para voltar atrás. Embora desgostos, os indígenas concordaram.

“Índio gosta de falar a verdade e não gosta de jeitinho. Se você combinou uma coisa, tem de cumprir. Ele também cumpre sua parte.” Quem fala nesses termos é o empresário Fabiano Tontini, que mudou-se para Altamira com um diploma de engenheiro agrônomo na bagagem. Com o passar dos anos, embrenhou-se na floresta, fez contatos com as aldeias e tornou-se empreiteiro. Para construir 65 casas de alvenaria na aldeia dos jurunas, assinou um contrato com a Norte Energia. A convivência respeitosa com os caciques lhe deu uma autoridade que costuma ser de grande utilidade quando os canais de conversação ficam entupidos. Em fevereiro, quando o segundo bloqueio no Pimental ameaçava chegar a um impasse, Tontini envolveu-se nas negociações com os indígenas. Ele conta: “Eu disse: é melhor recuar. A Norte Energia não vai negociar aqui mas só em Altamira. Vocês estão pedindo dez e podem ganhar sete. É melhor do que não levar nada e ainda correr o risco de ir embora com a polícia no rabo.”

“SÓ QUEREM DAR UM POUQUINHO PARA VOCÊS”

Embora os 25 000 trabalhadores da usina tenham direito a alojamento e façam as refeições — gratuitas — no interior dos canteiros, um investimento de R$ 25 bilhões numa região pobre e esquecida atraiu milhares de imigrantes, criou oportunidades e enriqueceu muitas famílias. Em contrapartida, gerou novas despesas e criou dificuldades inesperadas. As residências de 63 m quadrados são confortáveis e infinitamente mais seguras mas não representam o paraíso na selva. Os moradores das palafitas padeciam nos dias de enchente e jamais puderam dispor de condições sanitárias adequadas. Difícil negar que a imensa maioria está feliz no novo endereço.

Mas antes todos faziam uso de eletricidade através de ligações clandestinas — agora é preciso pagar a conta de luz. Mesmo em valores subsidiados, é uma despesa a mais — mas o salário não subiu para acompanhar.

O gasto de quem morava de aluguel também disparou, levando cerca de 1 000 famílias a deixar suas casas para ilustrar a paisagem de pequenos municípios em torno de Altamira com um cenário semelhante ao que se vê na periferia de muitas cidades brasileiras, às voltas com nosso urbanismo desorganizado, as vezes selvagem, presente no país inteiro — acompamentos de sem-teto, à espera de um local para morar. Os mais pobres tem direito ao aluguel social — mas este tem prazo de validade, o que contribui para gerar novas incertezas.

Sobreviventes de uma época que se extingue em passos abruptos pelas ruas de Altamira, algumas atividades econômicas tradicionais parecem irremediavelmente condenadas e não se sabe o que fazer com elas. É o caso de uma centena e um pouco mais de carroceiros, simpáticos profissionais que cuidavam do transporte urbano em suas carroças puxadas à cavalo — mas agora perdem espaço e clientes com a oferta de veículos motorizados.

Outro caso, muito mais preocupante, envolve a pesca, uma das principais atividades econômicas de quem vive a beira de um rio imenso, seus afluentes e igarapés. A pesca tem um valor comercial reconhecido, tanto em se tratando de peixes para alimentação, como para os ornamentais. Ainda serve para a pura subsistência à beira d’água, permitindo uma vida autônoma, modestíssima, mas ” sem patrão para encher o saco ” parecem dizer muitos pescadores. Estudiosos da Universidade Federal do Pará atestam que as obras de Belo Monte não trouxeram maiores alterações aos peixes do lugar. É certo que o projeto da hidrelétrica incluiu várias medidas positivas, destinadas a proteger tanto a atividade dos pescadores, como a construção de um elevador capaz de transportar embarcações de porte razoável pelos desníveis criados pelas obras no Xingu, como túneis e escadas capazes de permitir o deslocamento dos peixes como se nada (ou quase nada) tivesse acontecido. Apesar disso, como o 247 pode comprovar, é difícil encontrar um pescador que não se queixe de que sua atividade foi prejudicada e que teve prejuízos imensos em sua atividade.

Os conflitos e disputas da levaram o Palácio do Planalto a criar uma representação local, a Casa de Governo, dedicada a debater litígios e buscar soluções na região. Para Cleide Antônia de Souza, uma funcionária graduada do INCRA que coordenou os trabalhos até uma semana atrás, “é possível extrair uma boa lição de Belo Monte: ninguém soube preparar a população de Altamira para as mudanças que uma obra desse porte iria provocar em suas vidas.”

Quando era secretário-geral da Presidência da República, o ministro Gilberto Carvalho, indicou o veterano Avelino Ganzer, um sindicalista tarimbado da região, para atuar como interlocutor do Planalto junto aos movimentos sociais. Nascido numa família de agricutores gaúchos que mudou-se para o Norte do país atraída pelas promessas da Transamazônica, nos tempos do governo do general Emílio Médici, Ganzer é uma liderança histórica da CUT e do Partido dos Trabalhadores, com uma atuação destacada entre trabalhadores rurais e agricultores. Conforme Avelino, “Belo Monte cumpriu o objetivo de construir uma usina que respeitasse a população do lugar. A Amazonia nunca teve uma usina construída com tanto respeito e diálogo.” Avelino acredita que, nos próximos anos — o prazo de conclusão é janeiro de 2019 — será preciso aproximar o governo federal e a Norteenergia num programa negociado para manter o projeto. Perguntado qual deveria ser a prioridade, respondeu ao 247: “Moradia.” Até a semana passada, 3000 moradores das palafitas tinham sido abrigados nos quatro bairros construídos pela Norte Energia. Mil e cem permanecem na fila e um novo bairro está em construção.

Boa parte dos conflitos que envolvem Belo Monte não são criados exclusivamente por lideranças indígenas nem pela população local. Têm participação ostensiva do Ministério Público do Pará, que desde o início engajou-se numa postura contrária a construção da hidrelét rica. Tentou caminhos que permitissem impedir a obra na Justiça e promove uma política permanente para judicializar um conflito que envolve uma decisão soberana de um governo eleito pela maioria dos brasileiros em outubro de 2010.

Em outubro de 2011, quando os trabalhos de construção estavam no início, a jornalista Rebecca Sommer gravou uma intervenção do procurador da República Filipe Pontes — autor de 13 ações questionam Belo Monte na Justiça do Pará — durante encontro de lideranças indígenas reunidas na Trincheira Bacajá, no Xingú, uma das mais afastadas da usina. No vídeo, Felipe Pontes diz que, se não fosse possível impedir a construção da barragem, seria recomendável lutar para trazer “muito mais dinheiro para cá” como compensação pelos danos que seriam causados às aldeias. O procurador diz ainda que os engenheiros de Belo Monte ”só querem dar um pouquinho para vocês e ficar com o resto para eles.” O vídeo chegou a ser exibido pelo Youtube durante quatro dias, até que foi retirado da internet após pedido do Ministério Público do Pará.

A procuradora Thaís Santi, que também atua no Pará, já comparou os efeitos da construção de Belo Monte ao regime nazista de Adolf Hitler. Numa entrevista à jornalista Eliane Brum, do jornal El País, a procuradora citou a filósofa Hanna Arendt, profunda conhecedora dos regimes totalitários do século XX. Taís disse que Arendt “lia o mundo do genocídio judeu. Eu acho que é possível ler Belo Monte da mesma maneira.” É uma visão possível, assegurada pelas garantias de liberdade de expressão que estão entre as cláusualas pétreas da Constituição — mas obviamente absurda.

Paulo Moreira Leite
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Por que as novelas fracassam

Crise na dramaturgia. É o tema de momento entre executivos preocupados com o Ibope cadente de novelas em cartaz. Com uma ou outra exceção — como as intermináveis repetições de enredos de outrora —, o fantasma ronda todas as emissoras.

Arrisco uma explicação, além daquelas que especialistas no assunto reverberam na mídia. A vida real tem sido muito mais impactante para quem procura o exótico, o inusitado, o imprevisível, o absurdo.

Que roteirista pensaria num enredo em que um cachorro vira celebridade e recebe medalha da mais importante Câmara Municipal do Brasil? Os animais têm seu valor, ninguém pode negar. Mas será que os distintos vereadores não têm algo mais importante a fazer quando milhares de humanos moram debaixo de sacos de lixo, outros tantos tentam se proteger do frio com caixas de papelão e imigrantes usam água de urinóis para tomar banho?

Têm sim. Discutir o futuro do foie gras. Uma das polêmicas do momento da maior cidade do país é saber se o prefeito de São Paulo vai ou não vetar a venda do produto. Afinal, precisamos salvar os patos de práticas imemoriais. Alguém é a favor de machucar bichinhos? Claro que não. Mas quando um assunto como este transforma-se em tema efervescente, entende-se por que macacos muitas vezes sentem vergonha alheia ao ver no que deu a evolução das espécies.

Justiça seja feita, não se trata de privilégio paulistano. Em Brasília o script é tanto ou mais criativo. Entre outras extravagâncias, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, insiste em gastar fortunas para construir um anexo estilo Dubai. A alegação: falta espaço. Há parlamentares demais e lugares de menos (não seria o contrário?...). Que tal um shopping center para completar o projeto? Parece mentira, mas é isso que ocupa parte importante do debate parlamentar. Passa ao largo dessa turma que o problema do Congresso Nacional não é de metragem de gabinetes, mas de disposição, coragem e preocupação social para enfrentar os problemas do eleitor que ele diz representar.

Atravessar a rua renova decepções. Somos informados, com direito à transmissão ao vivo, de que os gastos federais sofrerão um corte daqueles. Investimentos e despesas sociais, calculam os entendidos, serão os mais afetados. Orçamentos, todos sabem, são sempre peças de ficção. Mas vale o simbolismo. É como se o governo estivesse pedindo desculpas ao pessoal da banca por ter mantido a salvo programas que amenizaram os efeitos da ciranda financeira sobre os trabalhadores.

Ora, o imposto sobre o lucro dos bancos subiu. Sim, cresceu. Detalhe: comparado ao que esse pessoal fatura a cada escalada da taxa de juros — que o Banco Central promete continuar —, a elevação da CSLL nem cócegas faz. No máximo provoca uma troca da safra do vinho no jantar.

Já uma previsão de encolhimento de tudo o que o Brasil produz representa uma enorme diferença. O ministro do Planejamento anuncia o número como prova de "transparência". A maioria que não toma vinho esperava algum plano ousado para evitar o retrocesso. O Planalto, no entanto, já decidiu que o país vai andar para trás. Jogou a toalha antes de entrar em campo. Haja resfriado.

Ricardo Melo
No fAlha
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