17 de mai de 2015

jn consegue errar o nome e as datas de nascimento e morte do ator Elias Gleizer


O Jornal Nacional cometeu uma gafe ao noticiar a morte de Elias Gleizer na edição de sábado (16). No final da matéria, o sobrenome do ator apareceu grafado da forma incorreta, com “s” em vez de “z”. Também trocaram a data de nascimento pela de morte na arte junto à foto. O ator morreu aos 81 anos vítima de falência circulatória devido a uma broncopneumonia, no hospital Copa Dor, na zona sul do Rio de Janeiro, onde estava internado desde o último dia 06, depois de sofrer uma queda e fraturar as costelas.



Julia Baptista
No Diversão
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Pelo direito de perturbar figuras públicas em restaurantes


Recebi pelo grupo de WhatsApp da minha família o vídeo do rapaz que fez um discurso para o ex-ministro Padilha em um restaurante fino de São Paulo. O grupo de WhatsApp da minha família é dessas coisas que quando fala de política tem a capacidade de me fazer hiperventilar, e me dá ganas de arrancar fios de cabelo da cabeça, então, sem querer estragar minha sexta-feira, demorei para clicar no vídeo; e, de fato, depois de clicar e assistir a performance não consegui pensar em mais nada.

Horas mais tarde, já na cama e tentando pegar no sono, continuei a pensar no episódio e, em delírio, me dediquei a imaginar mil respostas para o homem que, copo de prosseco na mão, bateu nele com um talher para anunciar o começo de um discurso – como fazem os gringos, esses tão idealizados por pessoas como o rapaz performático, nos filmes de Hollywood.

Que funcionários públicos como o ex-ministro Padilha sejam abordados pelo público para o qual trabalham não me incomoda nem um tico. Funcionários públicos estão a serviço da população e, assim, sujeitos a críticas públicas.

E há de fato milhares de ações do governo que podem e devem ser criticadas, mas uma análise do que aconteceu no restaurante Varanda entre o cidadão e o ex-ministro revela aspectos mais sombrios do momento pelo qual estamos passando. Por isso achei que era uma boa ocasião para ir buscar mais informações e compartilhá-las.

“Medicina é um dos métodos mais tradicionais de impor o socialismo de estado em uma população”, é o mantra do neo-liberal evocado pelo heroi da turma, Ronald Reagan.

E por mais incrível que pareça muita gente pensa como o rapaz que saiu dando estalinhos na taça de prosseco para anunciar seu corajoso discurso (porque, verdade seja dita, é preciso uma boa dose de ousadia para fazer esse tipo de exibição pública), e acredita que acesso à saúde é um privilégio e não uma obrigação do estado. Se você trabalhar duro e honestamente conquistará esse enorme privilégio e poderá pagar por ele; se não trabalhar…

O fascismo está no ar.

Recentemente um médico americano disse que o Obamacare, apelido do programa federal idealizado por Obama para atender americanos de baixa renda que não têm plano de saúde, é a pior coisa desde a escravidão. A pior coisa desde a escravidão, disse o homem em rede nacional de TV.

Segundo a constituição brasileira de 1988, o direito à saúde pertence a todos os cidadãos, e fica realmente difícil buscar razões para defender a ideia de que saúde não é bem público e direito de todos.

Nos últimos 14 anos, com o aprimoramento do SUS, o Sistema Único de Saúde, o país diminuiu a mortalidade infantil para 13 em mil nascimentos (era de 27 em cada mil nascimentos em 2000); mortalidade de mães durante o parto também baixou, assim como aumentou a expectativa de vida do brasileiro, que na década de 90 era de 66 anos e hoje é de 74.

O Bolsa Família ajuda fincanceiramente mães e filhos a fazerem check-ups regulares, e desde que José Serra, então ministro da saúde de Fernando Henrique, quebrou a patente de medicações para a AIDS o Brasil ganhou fama como uma nação que briga pelo direito de negociar patentes e tornar medicamentos baratos e disponíveis.

Mas nem tudo vai bem, muito pelo contrário, e o rapaz que decidiu levantar da mesa e se exibir para os amigos poderia, quem sabe, ter se valido de alguns dados realmente trágicos da saúde no Brasil.

Como o impressionante número de duas camas de hospital para cada mil brasileiros, e o fato de reservarmos menos de 10% do PIB para a saúde.

No Maranhão, a reduto dos Sarney, há 0,58 médicos para cada mil pessoas; no Rio esse número é maior, mas ainda assim baixo: 3,44 médicos para cada mil almas. Em 2012, entre 62 e 75% das pessoas que moram no sul do Brasil e precisaram de um transplante de rim receberam um enquanto menos de 27% conseguiram um rim no resto do país.

Só que existem dados relacionados à saúde capazes de me chocar ainda mais, e o performático cidadão paulistano poderia, quem sabe, ter se dirigido às demais pessoas do restaurante para esclarecer a eles o seguinte:

Embora a elite se enfureça com o “Mais Médicos”, os mesmos brasileiros quem podem pagar 60 reais por um pedaço de carne em churrascarias como o Varanda não pensam duas vezes antes de fazer uso do sistema público de saúde a fim de se beneficiar dos serviços e remédios mais caros, expurgando os menos privilegiados que não têm escolha a não ser a de usar o SUS.

Essa informação está em uma matéria da The Atlantic, da qual aliás tirei a maior parte dos dados desse texto, publicada em 2014 e assinada por Olga Khazan (trata-se de uma das mais renomadas revistas americanas, fundada em 1857, e o link para a íntegra da matéria está no final desse meu desabafo).

E segue o texto de Khazan: “Os brasileiros ricos levam muito a sério seu direito de saúde gratuita. Numa matéria de 2011, a Lancet descreve como os endinhieirados no Brasil costumam processar [o estado] pelo direito de usar as drogas experimentais e os procedimentos mais caros gratuitamente”.

Apenas um exemplo dado pela autora: Em 2008, o Rio Grande do Sul gastou 22% do orçamento de saúde para atender 19 mil liminares concedidas por juízes em benefício dos mais ricos.

Então, enquanto o “Mais Médicos” deixa a elite furibunda porque, afinal, o governo está fazendo uso do “meu imposto” para fornecer saúde, esse privilégio, aos miseráveis, a mesma elite enxerga como razoável fazer uso do serviço público em benefício próprio — ainda que possam pagar por ele (não por acaso esse é o mesmo cidadão que em casamentos nababescos sai com a bolsa lotada de bem-casados).

Num universo paralelo, os lixeiros do Recife recentemente imploraram pelo fornecimento de protetor solar gratuito pelo Estado, um direito meio básico na minha opinião, mas que muitos da elite devem achar que é privilégio e, assim, ser contra. Pode catar meu lixo, mas não me venha com essa frescura de protetor solar porque meu imposto não serve para essas bobagens.

Mas vamos ver que outras críticas a Marina Abramovic de calças e sem o talento da Marina Abramovic original poderia ter feito ao ter ímpetos de se levantar para perturbar o ex-ministro.

Ainda há quase 12 milhões de brasileiros morando em favelas, e saneamento básico não chega a todos, embora o crack chegue.

E se 40 milhões de pessoas ascenderam à classe média em anos recentes, um número impressionante e que deve ser comemorado, por outro lado problemas relacionados a isso não têm sido devidamente atendidos.

“Junk food é a primeira coisa que vem com o desenvolvimento economico”, disse à The Atlantic o médico Janos Gyuricza. Assim, existe hoje no Brasil uma epidemia de obesidade e diabete entre essa nova classe média que vive afogada em açúcar refinado.

O SUS alcança mais de 60% do território nacional, um número que é muito melhor do que já foi, mas que claramente está longe dos 100% prometido pela constituição, e o Brasil possui apenas 1,8 médicos por mil habitantes, índice é menor do que o de Argentina, Portugal e Espanha.

Pois é aí que entra o “Mais Médicos”, motivo da fúria do nosso amigo performático e tão vilanizado pela elite brasileira.

Segundo a revista The Economist, quando a administração federal lançou um programa para levar médicos aos lugares mais pobres do Brasil, apenas 938 brasileiros se inscreveram para preencher as 15.460 vagas. “A maioria dos 3.511 municípios que precisava de médicos ficou desapontada”, diz o texto.

Assim que o Ministério da Saúde abriu edital para adesão dos municípios ao Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), que paga R$ 8 mil para que médicos recém-formados trabalhem em Unidades Básicas de Saúde nas regiões mais carentes, foram solicitados 13 mil médicos para atuação em 2.868 municípios, e só que 55% dessas cidades não conseguiram um médico.

Não é preciso pesquisa ampla para que a gente entenda que, no Brasil, a profissão de médico é alcançada pelos mais ricos, que sonham em ganhar muito dinheiro e trabalhar no Einstein e no Copa D’Or, mas nunca em ir atender carentes em um vilarejo paupérrimo que nem cinema tem (e ainda que não exista nada de essencialmente errado com isso, é preciso que se encontre uma solução para atender os mais carentes).

Que esses vilarejos miseráveis ainda existam no Brasil deveria ser sempre motivo de lamento e revolta, claro, mas até aí querer que primeiro se civilize o vilarejo para que depois os “doutores” façam a gentileza de ir para lá é, para dizer o mínimo, desumano. Ou, como escreveu o poeta alemão Bertold Brecht, citado por meu amigo e ídolo, o jornalista Edson Rossi, primeiro vem o estômago, depois a moral.

Chegamos então nos médicos cubanos que não se importaram de ir trabalhar nos vilarejos (Cuba tem reputação mundial em relação ao seu sistema de saúde, mas é preciso que se quebre o preconceito para conseguir assimilar tudo o que a medicina cubana tem de revolucionário). Segundo informações divulgadas pelo jornal Valor Econômico, o “Mais Médicos” conta com 9490 profissionais em 3025 municípios e 31 distritos indígenas. São, de acordo com o Planalto, 33 milhões de beneficiados até aqui.

Mas é claro que o programa pode ser aperfeiçoado, claro que talvez tenha falhas e precise de ajustes. Ainda assim é preciso que se celebre o movimento de transformação que ele desencadeou: desde a chegada dos médicos cubanos, milhares de médicos brasileiros decidiram também fazer parte do programa (das 4139 novas vagas, 3752 foram preenchidas por brasileiros), e o Governo acha que, com essa nova força de trabalho, o “Mais Médicos” poderá beneficiar 70 milhões de pessoas e alcançar 80% do território até 2018.

É preciso uma boa dose de preconceito e desinformação para ser contra um programa cujo nome é “Mais Médicos”, é preciso uma boa dose de egoísmo para ser contra fornecer uma parcela de nossos impostos para financiar médicos e assistência a quem precisa, é preciso uma dose cavalar de ignorância para, dada a coragem ideal, levantar da mesa no meio de um restaurante lotado e escolher criticar justamente um programa de inclusão social — embora seja perfeitamente aceitável lutar para que qualquer programa social fique melhor e seja ainda mais abrangente.

Assim, em meus devaneios, nosso amigo atrevido e performático poderia ter aproveitado a coragem que o moveu a discursar em público para dizer por exemplo um troço assim:

“Sou um brasileiro insatisfeito com a situação atual e não aceito nem uma gota a menos do que todo e qualquer brasileiro com acesso à saúde gratuita e de qualidade, senhor ex-ministro da saúde”

Então, antes de sair compartilhando e aplaudindo performances como a desse rapaz na churrascaria Varanda seria bacana se a gente fosse atrás da informação. Porque do mesmo jeito que o rapaz tem todo o direito de se levantar e dividir com o resto do Brasil toda a sua insatisfação, nós temos o direito de vaiá-lo.

Texto da The Atlantic aqui

No Blog da Milly
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Globo fala em “erro” na matéria em que mentiu sobre o Ciência Sem Fronteiras — assista


Após falsear denúncia sobre o programa do governo federal, emissora pede desculpas e fala em "erro da reportagem" na mensagem dada pelo apresentador Chico Pinheiro, do Bom Dia Brasil; a estudante que reclamou no Facebook do viés da matéria, no entanto, disse que explicou "inúmeras vezes" à repórter que não voltou dos EUA pela insegurança causada por falta de dinheiro, "até porque essa foi a ÚNICA parcela da bolsa que não caiu durante todo o meu intercâmbio (...) Mas a Globo achou mais interessante omitir isso e inventar um motivo mais atraente"



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EUA dominam ranking dos maiores grupos de mídia do mundo

Pesquisa divulgada nesta semana pela consultoria ZenithOptimedia, ligada à multinacional francesa de publicidade Publicis, confirma a força do imperialismo estadunidense nos meios de comunicação. O estudo intitulado “Os 30 maiores donos de mídia em 2015″ revela que a maior parte das empresas deste setor estratégico está sediada nos EUA. O Google se mantém com folga na dianteira mundial e ainda ampliou a sua liderança. Agora ele tem uma receita de mídia 136% maior que a da Disney, que ocupa a segunda colocação no ranking. O Grupo Globo, da bilionária famiglia Marinho, aparece em 17º lugar no planeta.

Para elaborar o ranking, a ZenithOptimedia considera receita de mídia como “toda receita derivada de negócios que dão suporte para a publicidade”. O seu propósito com a lista é “determinar quais são as empresas mais importantes para o setor de marketing”. Depois do Google e Disney estão a Comcast, a 21st Century Fox e a CBS — as cinco primeiras do ranking são estadunidenses. A consultoria credita o vertiginoso crescimento do Google à força da internet e à maior penetração de aparelhos móveis no período, que abriu “novas oportunidades para atingir consumidores com anúncios, componente importante de seu negócio”.

Estes fatores também explicam o resultado do Facebook, o primeiro dos 30 grupos em aumento da receita de mídia — saltou 63% de um ano para outro. A rede social passou de 24ª para 10ª maior no mundo. Os dois grupos seguintes em aumento da receita de mídia foram o chinês Baidu (cresceu 43%, ao passar do 28º para o 14º lugar) e o brasileiro Grupo Globo (avançou 15%, do 20º para o 17º posto). No caso do Baidu, que deixou para trás seus concorrentes ianques Yahoo! (18º) e Microsoft (21º), pesaram o crescimento do mercado publicitário chinês e as “melhorias na tecnologia de busca”.

A lista das maiores empresas de mídia em 2015:

1 — Google

2 — Walt Disney Company

3 — Comcast

4 — 21st Century Fox

5 — CBS Corporation

6 — Bertelsmann

7 — Viacom

8 — Time Warner

9 — News Corp

10 — Facebook

17 — Grupo Globo

Altamiro Borges
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Depois de 20 anos, o trailer de Chatô



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Desculpe pelo transtorno

Thank you, Todd
Obrigada, Ivan
Comunidade não é só um lugar. É um sentido de pertencimento, um compromisso. Viver em comunidade é respirar o mesmo ar, sonhar os mesmos sonhos, travar as mesmas lutas. No Campeche, um pequeno bairro de Florianópolis, somos assim. Famílias/pessoas que se juntam na defesa do lugar, contra a especulação, contra a destruição e pela preservação da cultura.

No último sábado (16.05) essa comunidade se reuniu no salão da capela para ver um filme, feito por um "gringo" (nascido no Canadá), Todd Southgate, que, chegando ali, amou o lugar e dele fez seu lar. Documentarista de profissão, decidiu filmar o Bar do Chico, espaço de cultura e resistência que havia perto da praia, onde a comunidade se fazia feliz e em luta. Foi quando o bar acabou sendo pivô de uma grande batalha da comunidade contra o governo. Estava dado o argumento.

Como era no Bar do Chico que o povo se juntava, era ele o nascedouro das centenas de lutas travadas em defesa do bairro. Lutas por um Plano Diretor comunitário, que não esmoreceram, feitas anos e anos à fio. Por isso, a prefeitura quis derrubar o bar, atingindo de morte também o velho pescador — Seu Chico — que comandava o pequeno empreendimento. Defendido pela comunidade durante anos, o bar foi finalmente demolido numa madrugada chuvosa, de surpresa, para que não houvesse resistência.

Toda essa história o Todd conta no filme, que expressa, muito mais do que a dor da queda do bar e da morte do seu Chico, a fortaleza de uma comunidade. Na sala repleta — exibido apenas para a família de Chico e os envolvidos com a luta — o filme de Todd e de Ivan provocou comoção. O riso do seu Chico, a praia, as manifestações, a cena dramática do bar sendo destruído pelas máquinas. Tanta luta, tanta dor. E depois, as cenas dos edifícios que vão se erguendo na beira da praia, com suas passarelas até o mar. Só tristeza.

O filme "Desculpe pelo transtorno", de Todd Southgate , é o retrato em movimento da luta e da esperança de toda uma comunidade, que começou nos anos 80, com as reuniões pelo Plano Diretor. Depois, as batalhas com a prefeitura, a vingança do poder, a morte do seu Chico, a queda do bar. Na tela, os rostos dos velhos lutadores, ainda dando batalha. E os de uma juventude que chega e se faz comunidade também.

A noite de pré-estreia do "Desculpe pelo transtorno" nos fez chorar, a todos, mas, ao final, quando as luzes se acenderam e a gente pode se abraçar, percebemos que aquela era a nossa história, a digna história de uma comunidade que segue viva. Que sofre derrotas sim, mas não se apequena. Tanto que ali estávamos, todos, na mesma comunhão que nos une na hora do protesto, do enfrentamento com a polícia e com os homens do poder.

Por isso, em meio às lágrimas, começou o riso. Porque estamos juntos, porque somos comunidade, porque temos uma história, feita por nossas mãos. Porque temos a lembrança e a força. Esse povo do Campeche, essa gente que luta sempre vai seguir em frente, defendendo seu lugar dos vilões do amor. E ainda que venham as máquinas, que derrubem os prédios, que violentem a praia, nós estaremos braço no braço, mão na mão, porque fomos plasmados com os mesmos sonhos. Somos comunidade. Aconteça o que acontecer.

E quando saímos, alma lavada, na noite úmida, pudemos ouvir no marulho do mar, aquele que deu sentido ao filme, seu Chico, dizendo, baixinho: "aqui eu sou feliz". E bem ali, onde agora só tem areia, e um dia foi seu/nosso bar, perdura a sua energia e a de toda gente. Porque comunidade não é só um espaço geográfico. Ela é um lugar em nós. Viva o seu Chico, viva o Campeche e viva esse irmão do norte, Todd, que soube vestir a nossa história com tamanha ternura. Aqui seguiremos sendo felizes!

Vejam tudo sobre o filme no endereço: http://www.desculpepelotranstorno.com/index_port.html

O filme será lançado oficialmente no Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM), de 19 a 26 de junho. Até lá, só o aperitivo.



Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes
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A roda presa é o setor privado

Para a PhD Mariana Mazzucato, o Brasil tem que chamar o setor privado à frente. “As empresas brasileiras
fizeram pouquíssimos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Há muita inércia. Então, em vez de
ficarem focando nos problemas do setor público vocês deveriam provocar o setor privado”, defendeu a PhD.
Foto: Agência Brasil
A economista e PhD Mariana Mazzucato, professora de Economia da Inovação da Science Policy Research Unit (SPRU), da Universidade de Sussex, no Reino Unido, disse que o setor privado brasileiro precisa de mais pesquisa e desenvolvimento para ser mais competitivo. Para ela, o Brasil precisa chamar o setor privado à frente, para participar de fato do jogo econômico.

Mariana esteve na tarde desta sexta-feira (15) no Palácio do Planalto, onde conversou sobre como o País pode alcançar um crescimento sustentável, de longo prazo, e não apenas ter estratégias de curto prazo.

“Não se pode permitir que o setor privado determine as regras e fique apenas reclamando da burocracia, dos impostos. Você tem que chamar o setor privado à frente, para participar do jogo. As empresas brasileiras fizeram pouquíssimos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Há muita inércia. Então, em vez de ficarem sempre focando em todos os problemas do setor público, vocês deveriam provocar o setor privado e apenas assim será possível realizar parcerias público-privadas sérias”, afirmou, em entrevista após o encontro.

Mariana Mazzucato elogiou a presidenta Dilma Rousseff, afirmando que ela falou com inacreditável conhecimento sobre transição verde, energias renováveis e não-renováveis e os desafios desse setor, tanto em infraestrutura quanto, especialmente, em inovação. “Para ser honesta, nunca tive uma conversa tão esclarecedora sobre inovação nesse setor, em particular, em tão alto nível. Então, vocês têm sorte”.



Por outro lado, o País atravessa um período desafiador, em que existe muita propaganda colocando a culpa no setor público. E o investimento está seriamente recuando, alertou. “Isso, na verdade, requer uma presidenta confiante, que possa ter orgulho de seu legado, que admite os problemas, que reforme alguns órgãos públicos e a relação com o setor privado”, disse. “Mas a última coisa é recuar. Para o País ter um papel inteligente, inovação e crescimento, se você recuar, estará fora do cenário. Você não será competitivo em nenhum setor”.

A professora Mazzucato é reconhecida internacionalmente por sua obra “O Estado empreendedor – desmascarando o mito do setor público vs. setor privado”. O livro debate o papel do Estado e contesta a noção de um mercado autorregulador, teoria que, segundo ela, é desmentida pelos exemplos históricos da origem do mercado e de seu desempenho nos séculos passados.

A falsa questão Estado x mercado

Mariana Mazzucato aponta casos de produtos que impactaram o mercado, como o Iphone e o gás de xisto, que têm uma afinidade em comum: todos nasceram de financiamentos estatais ao longo de toda a cadeia produtiva.

Segundo ela, todos aprenderam muito com o que aconteceu no Vale do Silício, área de alto desenvolvimento tecnológico na Califórnia, que a mídia e a história apresenta como sendo tudo resultado apenas do trabalho de pessoas como Steve Jobs e Bill Gates. “Mas, nesta parte do mundo, houve um Estado muito estratégico, onde havia investimentos diretos, com uma visão global do que queriam fazer”, ressalvou ela.

Neste caso, destaca Mariana, o Estado tomou uma direção. “E hoje temos uma ideologia neoliberal, em que o Estado tem que só que facilitar, administrar, regular e depois, sair. Mas, se um País faz isso, não há inovação e não há crescimento de longo prazo”. Porque o Estado tem sempre criado o mercado”.
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A miopia da política econômica de prioridades conflitantes


A economia não comporta exageros. Não é uma máquina controlável a golpes de Selics.

É uma engrenagem complexa, composta por inúmeras cadeias produtivas interconectadas, por um conjunto de fatores interligados, como estoques, uso de capacidade instalada. A recuperação das expectativas depende fundamentalmente das perspectivas de crescimento da economia. Estabilidade fiscal, monetária, são instrumentos, mas o objetivo final é o crescimento.

Essa máquina sensível, complexa, interligada, não comporta medidas de choque, a não ser em situações extremas — como nos períodos superinflacionários. Choques ampliam desequilíbrios, atrapalham a visibilidade futura, pela dificuldade dos agentes econômicos entenderem a nova dinâmica da economia.

* * *

A melhora das expectativas e a volta do investimento/crescimento dependem da aposta na demanda futura. Consegue-se interromper a demanda apertando o botão dos juros e dos cortes fiscais. Não existe um botão do crescimento, em sentido contrário.

* * *

Houve exageros na dosagem dos incentivos fiscais da era Mantega. Agora corre-se o risco inverso, do excesso de dosagem na combinação política fiscal-monetária.

Não existe nada de mais falso do que a ideia de que o melhor ajuste fiscal é o mais rigoroso e a melhor política monetária é a mais radical.

* * *

Em outros tempos, que se pensava superados, empresas e governos agiam sob o domínio da prioridade única, da bala de prata que, resolvendo um problema único, resolvesse todos os problemas.

Esse modelo quebrou empresas e a economia, mas a política econômica recuou para o simplismo dos anos 80 e 90.

* * *

A demanda vai despencar, muito mais do que a presidente Dilma Rousseff imagina — três semanas atrás ela imaginava que o pior já tinha passado.

Despencando, o desemprego irá aumentar muito, especialmente se continuar sendo uma variável desconsiderada pelo BC — que aparentemente só sabe trabalhar com o binômio juros-inflação.

Com o aumento do desemprego e redução da demanda, o mercado de consumo cai e cria-se uma capacidade ociosa na indústria. Ao mesmo tempo a relação dívida/PIB explode por dois motivos: aumento da dívida, com os juros; redução do PIB com a recessão, exigindo metas mais drásticas ainda de superávit primário.

* * *

Fazenda e BC estão recorrendo à retórica do caos para aprovar as medidas, expediente que funcionava bem nos velhos tempos da hiperinflação. Tipo: se não derem o que peço, o Brasil acaba; se me derem, em breve o país será recompensado.

Vão receber o que querem e não vão entregar o que prometem. Caos ocorrerá se o desemprego explodir em um quadro politicamente instável como o atual.

Em um ponto qualquer do futuro, virão os investimentos, mas exclusivamente onde houver demanda: algumas concessões públicas, nas quais o preço será menor devido à redução das expectativas de negócio decorrentes da queda da atividade econômica.

É muito pouco para compensar o estrago que a recessão terá causado nos demais setores da economia.

* * *

Se nesse período todo o governo Dilma não conseguir desenhar o segundo tempo do jogo, criar um sonho que seja, um pote d’água lá na frente para compensar a travessia do deserto, nem a mediocridade ampla da oposição salvará seu governo.

Luís Nassif
No GGN
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Como a CBF “vendeu” a seleção brasileira


Contrato feito por Ricardo Teixeira favorece empresários


A seleção brasileira virou uma mina de ouro para empresários e CBF. Contratos secretos obtidos pelo Estado revelam, de forma inédita, como a entidade leiloou a seleção em troca de milhões de dólares em comissões a agentes, cartolas, testas de ferro e empresas em paraísos fiscais, longe do controle da Receita Federal brasileira.

Pelos acordos, a lista de jogadores convocados precisa atender a critérios estabelecidos pelos parceiros comerciais e qualquer substituição precisa ser realizada em "mútuo acordo" entre CBF e empresários. O contrato deixa claro: o jogador que substituir um "titular" precisa ter o mesmo "valor de marketing'' do substituído.

As condições fazem parte de minutas de contratos secretos obtidos pelo Estado e que revelam, de forma inédita, como a CBF leiloou a seleção brasileira, em troca de milhões de dólares em comissões a agentes, cartolas, testas de ferro e o envolvimento de empresas em paraísos fiscais, longe do controle da Receita Federal brasileira.


Desde 2006, a CBF mantém um contrato com a companhia ISE para a realização dos amistosos da seleção. O acordo foi mantido em total sigilo por quase dez anos. Documentos obtidos pelo Estado revelam agora que a ISE é uma empresa de fachada com sede nas Ilhas Cayman. Não tem escritório nem funcionários. É mera Caixa Postal, número 1111, na rua Harbour Drive, em Grand Cayman. A ISE é apenas uma subsidiária do grupo Dallah Al Baraka, um dos maiores conglomerados do Oriente Médio, com 38 mil funcionários pelo mundo.

Em 2011 esse contrato de 2006 foi renovado por dez anos pelo então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em um encontro em Doha, no dia 15 de novembro. Ele seria oficializado no dia 27 de dezembro daquele ano. Entre 2006 e 2012, a ISE sublicenciou a operação para a Kentaro, companhia que passou a implementar cada partida da seleção com base no acordo.

Em 2012, o contrato de operação passou para as mãos da Pitch International, depois de uma negociação com a ISE e a CBF que continua em vigência.

Nos primeiros acordos e emendas entre a CBF e a ISE, os termos não faziam qualquer menção às regras para a convocação de jogadores. Tudo mudaria em 2011. Os aspectos esportivos foram colocados em segundo plano. Trata-se, acima de tudo, de um esquema para explorar a marca da seleção em todos os seus limites, independentemente do resultado em campo ou do significado de uma partida para a preparação do time.

Convocados

Pelo acordo secreto, ficou estipulado que a seleção deveria entrar em campo sempre com seus principais jogadores, sem qualquer possibilidade de testar jovens promessas ou usar amistosos para preparar o grupo olímpico. "A CBF garantirá e assegurará que os jogadores do Time A que estão jogando nas competições oficiais participarão em qualquer e toda partida", diz o artigo 9.1.

Qualquer violação desse acordo significa pagamento menor de cota. "Se acaso os jogadores de qualquer partida não são os do Time A, a taxa de comparecimento prevista nesse acordo será reduzida em 50%", estipula o contrato. Por jogo, a CBF sai com US$ 1,05 milhão (R$ 3,14 milhões) se seguir o acordo.

Caso um jogador seja cortado por contusão, por exemplo, a CBF precisa provar com um certificado médico aos empresários da ISE que o atleta não tem condições de jogar. "Qualquer alteração à lista será comunicada por escrito à ISE e confirmada por mútuo acordo. Nesse caso, a CBF fará o possível para substituir com novos jogadores de nível similar, com relação a valor de marketing, habilidades técnicas, reputação.''

Para deixar claro o que significa "Time A", a ISE alerta que não aceitaria o que ocorreu em novembro de 2011 quando o Brasil foi ao Gabão e depois a Doha para enfrentar o Egito. Na época, o então treinador, Mano Menezes, não contou com Neymar, Ganso, Lucas, Marcelo, Kaká e Leandro Damião, nomes da lista original para os amistosos.

No novo contrato (o que passou a valer em dezembro daquele ano e vai até 2022) a empresa deixou claro que tal situação passaria a ser punida com uma redução em 50% do cachê pago.

Além disso, todos os direitos de transmissão, copyright ou qualquer outro aspecto ficam sob controle total da empresa de fachada registrada nas Ilhas Cayman. Num dos artigos do contrato, fica ainda estipulado que, mesmo que o acordo for suspenso, os direitos de copyright são mantidos sem data para acabar. Qualquer violação significa que a CBF teria de pagar uma multa de US$ 1 milhão.

O contrato ainda prevê que os períodos de preparação da seleção brasileiras para as Copas de 2018 e 2022 também serão de exploração exclusiva da ISE.

O acordo ainda termina com termo bem claro: confidencialidade. "Todos os termos e condições deste acordo serão tratados pelas partes como informações confidenciais e nenhuma das partes os divulgará".

Jamil Chade
No Estadão
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FHC no Guinness, o livro de recordes

Conheça algumas informações preliminares fundamentais para se entender o recorde que habilita FHC a integrar o Guinness.

O salário anual do presidente da república é R$ 401.700,00. E o salário anual de FHC como professor universitário é R$ 287.300,00.

Av Foch e mapa de Paris 
FHC é dono de um apartamento de 11 milhões de euros ou R$ 37.746.500,00 na Avenue Foch, em Paris!

Portanto, para pagar o suntuoso apartamento da Av Foch, um dos metros quadrados mais caros do mundo, FHC deveria superar os seguintes recordes:

1) teria que trabalhar 131 anos com o salário de professor universitário;
2) teria que trabalhar 93 anos com o salário de presidente da república;
3) teria que trabalhar 55 anos acumulando os dois salários.

E você internauta, concorda que FHC é digno de integrar o Guinness Book, o livro dos recordes?

Clique e confira as fontes deste post:


No Megacidadania
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A janela

Freud escreveu em algum lugar que não existe nada mais parecido com a paranoia do que a filosofia. Querendo dizer, acho eu, que a filosofia também vê uma trama por trás de tudo. Assim como todo complexo é o sintoma de uma disfunção a ser descoberta na análise, toda filosofia é uma tese conspiratória. Para a filosofia, tudo que existe é a ponta de um iceberg, exceto, talvez, a ponta de um iceberg, que deve ser outra coisa. Há uma lógica secreta na vida dos homens e das nações. O retorno do reprimido freudiano é o eterno retorno nietzschiano depois de uma análise.

Tirando um exemplo do chapéu: quando fizeram um plebiscito para decidir que nome deveria ter Leningrado, depois que Lenin caiu em desgraça, a maioria da população escolheu São Petersburgo. Não quis nem Petrogrado, nome dado em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, quando, presume-se, a antipatia com santos era grande. A população quis o santo e o “burgo” de volta à cidade que Pedro o Grande construiu sobre um pântano para ser uma janela através da qual a Europa veria como a Rússia se civilizava. O custo humano deste capricho foi terrível. Em The Russia House, John Le Carré escreveu que em nenhum outro lugar do mundo o barbarismo se fez um monumento tão bonito.

A sina da cidade é ser um símbolo. Era de São Petersburgo que os exilados da União Soviética falavam quando falavam das delícias da vida antes da revolução. Ela era a “capital da memória” de Nabokov, sua cidade natal, e pelo resto da sua vida ele misturou seus mármores e seus canais e os verões idílicos nos seus arredores com lembranças de infância, e com ressentimento. O retorno do reprimido, no caso, foi a tentativa de retomar o jardim dos prazeres do qual o tempo e a História expulsaram a criança. A lógica secreta do plebiscito foi a necessidade de anular o tempo e transformar Leningrado, de novo, num símbolo de ocidentalização.

O tempo fez outros símbolos do velho pântano. Lenin instalou seu quartel-general num ex-colégio de moças da aristocracia local, que só falava francês em casa e veraneava em Biarritz, antes de ser corrida para o exílio. A resistência da cidade ao cerco alemão por quase dois anos, na Segunda Guerra, empolgou o mundo. Mas nada valeu tanto, para os que votaram pela mudança do nome da cidade, do que a sua conotação de fracasso. O plebiscito serviu como um réquiem para a maior experiência de engenharia social já feita, e o tempo não foi suficiente para suprimir o reprimido: Lenin, o santo secular homenageado, não teve a força do outro santo. Se o que venceu foi a nostalgia imperial, outro capricho ou a liberdade, depende da sua filosofia, ou da sua paranoia. O fato é que pela cidade-janela se viu a outra grande convulsão na alma russa depois da revolução, que foi o fim do comunismo.

Luís Fernando Veríssimo
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Matando dragões


Ao ritmo em que cresce a intolerância de todo tipo em nossa sociedade, em fato recente, na Câmara dos Deputados, constatamos que, apesar de ruidosa e ofensiva, ela não é maior que a solidariedade.

À ofensa física que sofri se somou a verbal, com palavras que, apesar de a mim dirigidas, se transformaram em agressão a todas as mulheres que, fora e dentro do Congresso Nacional, matam vários dragões por dia para mostrar seu valor e disputar seu merecido lugar em suas casas, no trabalho, nos espaços de poder.

Desde então, tenho recebido de todos os cantos manifestações de apoio, palavras de afeto e de reconhecimento da minha luta. Uma luta que não é individual, não tem dono, mas destinatários.

Uma avalanche de revolta e indignação me envolveu. Mensagens de apoio, moções de repúdio, comentários nas redes sociais não paravam de chegar. Segundos de um episódio lamentável se converteram numa teia interminável e resistente pela qual sou imensamente grata.

Saímos todos fortalecidos e dispostos a matar quantos mais dragões se puserem no caminho da luta democrática. Eles todos têm nomes: preconceito, intolerância, machismo e fascismo. Se alimentam do sentimento de que os homens podem tudo, enquanto as mulheres devem se contentar com a submissão.

Soltam fogo pelas ventas quando imaginam uma sociedade igualitária, com espaço e oportunidades para todos. Não se conformam com nossa ousadia, com nossa perseverança e obstinação. Pois são essas nossas armas. As características que nos forjaram e nos permitem concretizar nossos sonhos e, dia a dia, abrir caminhos para que, enfim, nos libertemos das amarras que ainda nos são impostas pelo simples fato de sermos mulheres.

Jandira Feghali
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Como morrem os fascistas

http://www.maurosantayana.com/2015/05/como-morrem-os-fascistas.html


Um neonazista, veemente antissemita e anticomunista, vivendo em um país da Europa Oriental, vice-líder de uma organização de brutamontes que invadem, uniformizados, bairros de periferia, para desfilar e espancar velhos, crianças e mulheres ciganas — povo profundamente discriminado por essas bandas — descobre, repentinamente, que é judeu, e que sua avó foi prisioneira no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial, onde perdeu boa parte da família.

Ele deixa, então, sua velha vida, abandona aquele que era o seu partido e a sua antiga organização paramilitar, e passa a fazer palestras em escolas de segundo grau, alertando para os perigos da discriminação.

O que é isso? Um conto do escritor alemão Günter Grass, morto há poucas semanas? Um roteiro de Rainer Werner Fassbinder, o diretor de “Berlin, Alexanderplatz”?

Nada disso. Por incrível que pareça — até agora, pelo menos — trata-se de uma história real, a do político húngaro Csanad Szegedi.

Fundador da “Guarda Húngara”, inspirada nas milícias nazistas como as SA e as SS, e até pouco tempo atrás membro do partido de extrema-direita Jobbik, Szegedi foi eleito deputado para o Parlamento Europeu, pregando o ódio aos judeus e aos ciganos, que considerava, como muitos fascistas húngaros consideram, culpados pelos problemas do país.

Com apenas dez milhões de habitantes, a Hungria foi, a exemplo de outras nações que mais tarde pertenceriam à área de influência da URSS, um dos aliados que apoiaram Hitler em uma grande coalizão contra os russos, e enviou, junto com os alemães, um milhão de judeus e ciganos nascidos em seu território, para a morte nos campos de extermínio nazistas, nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial.

Szegedi, hoje, converteu-se ao judaísmo, vai à Sinagoga e estuda o Talmude, embora ainda não tenha — segundo o jornal israelense Haaretz — abandonado o hábito de comer salsicha e carne de porco, que adquiriu ao ser educado como evangélico por seus pais.

Não dá para saber, portanto, qual seria sua reação a propósito dos palestinos, como minoria no Oriente Médio, ou ao ter seu casaco puxado por um pequeno mendigo cigano nas ruas de Budapeste.

O importante, em sua história, é como o destino se encarrega, às vezes em irônica vingança, de combater o fascismo — mesmo quando ele reside, eventualmente, dentro de nós — dando ao indivíduo que o carrega um pouco de seu próprio veneno, fazendo com que sinta, em sua pele e carne, o que sentem as vítimas de seu ódio e violência, racismo, sadismo e discriminação.

Na impossibilidade de transformar todos os nazistas, os anticomunistas e os neofascistas, em recém autodescobertos “judeus novos” e netos de prisioneiros de campos de extermínio, o melhor remédio para matar um fascista, sem eliminar, necessariamente, a pessoa que ele habita, é ministrando-lhe a dose certa de dados e de informação.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, mesmo que a contrainformação promovida pelo fascismo midiático que têm tomado conta da maioria das redes de comunicação contemporâneas, nas mãos de bilionários como Murdoch, Berlusconi, e Ted Turner — como se pode ver pelo serviço em espanhol da CNN — esteja erguendo muros mais altos e aparentemente mais inexpugnáveis que os inacessíveis paredões de Olimpus Mons, que se erguem no planalto marciano de Tharsis, no maior vulcão extinto do Sistema Solar.

Mais pode a chuva, que cai, durante anos, gota a gota, do que os tsunamis conservadores que tudo arrasam, e, depois que passam, revelam aos povos porque os homens devem se afastar, horrorizados, do fascismo, quando ele aponta, como cabeça de serpente, nos meandros da história, mostrando a terrível essência e a verdadeira natureza do mal.
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Golpes à moda do século XXI

Estudo acadêmico de constitucionalista Pedro Serrano mostra as novas formas de conspirar contra a democracia em nossa época. Mesmo sem fazer nenhuma referência direta ao Brasil, é fácil entender do que ele está falando

O conceito de pessoa humana talvez tenha sido o mais revolucionário da história do homem na Terra, traduzindo-se como imensa contribuição da cristandade para nossa sociabilidade. Ao divorciar o homem de sua apropriação como coisa para tratá-lo como filho de Deus, membro de uma imensa família humana, aliou-se a noção de homem à de igualdade e justiça. Todos essencialmente iguais, porque nascidos do mesmo Pai.”

Encontrei as palavras acima no mais recente trabalho acadêmico do advogado Pedro Serrano. Professor de Direito Constitucional na PUC-SP, na semana passada Serrano foi a Portugal apresentar uma tese de pós-doutorado na Universidade de Lisboa. Num trabalho em profundidade sobre direitos e garantias individuais, Serrano debate a Idade Média, explica a queda do absolutismo e a revolução francesa para discutir noções sobre Estado de Direito, Estado Policial e Estado de Exceção. O texto debate os golpes de Estado recentes na América Latina, como a queda de Eduardo Lugo, no Paraguai, e a de Manoel Zelada, em Honduras.

Embora seja um crítico frequente de determinadas sentenças e decisões da Justiça, na AP 470 e também na Operação Lava Jato, em sua tese acadêmica o professor evita maiores considerações a respeito. Não faz referências explícitas a situação brasileira, ainda que o Brasil seja, obviamente, o sujeito mais ou menos oculto de seu trabalho.

Mais do que entrar num debate de assuntos da conjuntura imediata, Serrano procura fixar conceitos — o que também é uma forma de contribuir para a compreensão do momento que o país atravesssa, como você poderá comprovar nos parágrafos finais deste artigo.

Ao estabelecer a conexão entre os direitos individuais e os Estados Democráticos de Direito, Serrano constrói um método que mostra que os regimes de exceção começam a ser formados quando se constrói um inimigo interno, categoria social que define os cidadãos que não têm os mesmos direitos que os outros — e podem ser tratados por medidas de exceção. A construção do inimigo é essencial pois a partir dela é possível estabelecer diferenças “no interior da espécie humana. Onde há o inimigo, não há o ser humano, mas um ser desprovido da condição de humanidade,” explica, recordando o universo político em que se moveu o nazismo de Adolf Hitler, o fascismo de Benito Mussolini e também a ditadura militar que governou o Brasil por duas décadas. De uma forma ou outra , esclarece, eram regimes que possuiam cidadãos desprovidos dos mesmos direitos que os demais — como judeus, comunistas, estrangeiros — e a partir daí se construíu uma ordem que envolvia o conjunto da sociedade.

Explicando o nascimentoi das ditaduras, o professor lembra que “em geral a decisão jurisdicional de exceção não se declara como tal”. Pelo contrário, costuma justificar-se como um esforço para defender o próprio Estado democrático de Direito e é “envolvida em fundamentações e justificativas compatíveis com a ordem posta”. Foi assim que a suspensão de garantias democráticas sob o regime de Hitler foi apresentada como uma resposta ao incêndio do Reichstag, o Parlamento alemão, atribuído ao Partido Comunista. Da mesma forma, o fantasma do comunismo nos anos de Guerra-Fria serviu de suporte ideológico ao ciclo militar da América Latina, inclusive o Brasil.

Depois de analisar as ditaduras do século XX, onde havia um “Estado autoritário claro, um Estado de polícia inequívoco, um poder exercido de forma bruta,” Pedro Serrano entra no século XXI, o nosso período histórico.

A Nova Natureza do Estado de Exceção

De saída, o professor registra uma mudança clara e importante: “o Estado de exceção muda de natureza. Não há mais a interrupção do Estado democrático para a instauração de um Estado de exceção, mas os mecanismos do autoritarismo típico passam a existir e conviver dentro da rotina democrática.

Assim, naquele que costuma ser considerado o mais antigo Estado Democrático de Direito do planeta, os Estados Unidos, na primeira década do século XXI nasceu o Patriotic Act. No ambiente de grande emoção e pânico produzidos pelos ataques de 11 de setembro, um decreto assinado por George W Bush “autoriza a prática de atos de tortura como método de investigação (…) bem como o sequestro de qualquer ser humano suspeito de inimigo em qualquer lugar do planeta, sem qualquer respeito a soberania dos Estados do mundo”. Os mesmos métodos se espalham, em grau maior ou menor, pelos países europeus, “com cadastros esepciais de controle da intimidade, campos de confinamento, etc.”

Aquele conjunto de medidas que em outros momentos provocariam a indignação da consciência democrática , passam a ser vistas “como uma verdadeira técnica de governo.”

Assim — o exemplo aqui é meu — um jornalista como Julian Assange permanece há três anos como prisioneiro na embaixada do Equador em Londres. Isso porque divulgou segredos diplomáticos através do Wikileaks, num tratamento sem paralelo com o recebido por Daniel Ellsberg em 1971, na divulgação de documentos secretos e comprometedores do Pentágono sobre a guerra do Vietnã.

Serrano avalia que na América Latina, a era dos golpes militares e ditaduras de longa duração, com desfile de tanques pelas ruas e Congressos fechados será substituída por intervenções rápidas para garantir a derrubada de um governo considerado indesejável — ainda que “regime democráticos sejam inconstitucionalmente interrompidos, golpeando presidentes legitimamente eleitos”. Analisando os dois casos concretos deste período, a deposição de Fernando Lugo e o golpe contra Manoel Zelaya, Serrano sustenta que o Judiciário desempenha um papel essencial para a construção da nova ordem.

Em vez de assumir uma postura de resistência em nome da antiga ordem, postura que, no passado, levou até à cassação de magistrados comprometidos com os princípios democráticos, os tribunais superiores assumem outra função — dar legitimidade a medidas que atropelam a soberania popular. Escreve Serrano: “é a jurisdição funcionando como fonte de exceção e não do direito”.

Outra novidade no século XXI é o inimigo interno, indispensável para iniciativas anti-democráticas. Serrano aponta que, nos países desenvolvidos, esse lugar é ocupado pelo “inimigo muçulmano fundamentalista”.

Muitos analistas sustentam que essa situação é obra do 11 de setembro, o que seria uma forma de dizer que, na origem, o terrorismo de organizações árabes é responsável pela discriminação e violência que as potências do Ocidente reservam a seus povos.

Mantendo-se no terreno jurídico, Serrano não entra nesta discussão, o que dá a este humilde blogueiro o direito de apresentar um palpite.

Sem querer minimizar nem por um segundo o impacto terrível do ataque às torres gêmeas, acho possível defender outro argumento. Acredito que o 11 de setembro colocou em movimento forças que já se moviam na potência norte-americana e provocou reações de uma engrenagem que iria se mover de uma forma ou de outra, para defender os interesses maiores daquele país que se transformou na única potência militar do planeta após o colapso da antiga URSS.

Em 1993, oito anos antes dos ataques, um professor de Harvard, Samuel Huntington, influente nos meios políticos e diplomáticos dos EUA, publicou Choque de Civilizações, artigo que se tornaria uma espécie de programa de trabalho do Império norte-americano e seus aliados na nova ordem mundial. No texto Huntington formula uma visão da evolução humana para as décadas seguintes. Diz que dali para a frente “o eixo predominante da política mundial serão as relações entre o Ocidente e o Resto”. Num raciocínio voltado para a preservação da hegemonia e poderio, Huntington registra a emergência dos países que décadas depois seriam chamados de emergentes — e define estratégias para manter uma posição de força e domínio. Vale a pena ler: “os conflitos entre as civilizacões vão suplantar os conflitos de natureza ideológica e e outras como forma de global dominante; as relações internacionais, um jogo historicamente jogado dentro da civilização ocidental, se tornarão um jogo em que as civilizações não-ocidentais serão agentes e não simples objetos”. Na visão de Huntington, estamos falando de conflitos mais graves e intransponíveis do que a ideologia e a economia, porque sua base está na cultura, em valores inconciliáveis que opõem povos e nações através do planeta inteiro.

Transportada para o direito internacional — não custa lembrar que a ONU foi fundada por uma Carta de Direitos Humanos, frequentemente ignorada na vida real — essa política do inimigo chegará não só a guerras de grande porte, como a do Iraque. Também levou a formulação do chamado Eixo do Mal, que justificava a persistência do bloqueio a Cuba e o apoio a duas tentativas de golpe na Venezuela de Hugo Chávez, em 2002. Com a possibilidade da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial daquele ano, a diplomacia republicana chegou a cogitar a inclusão do Brasil no conjunto de inimigos a abater, mas essa política foi desmontada por uma ação múltipla, que incluiu o governo Fernando Henrique Cardoso, o próprio Lula e ainda uma viagem bem sucedida de José Dirceu para conversas em Washington e Nova York, meses antes da vitória.

Falando da América Latina e do Brasil, Serrano diagnostica uma situação de duplicidade. Explica que na região convivem um Estado de Democrático de Direito, acessível a população mais endinheirada dos grandes centros urbanos, com um Estado policial de exceção, “localizado nas periferias das grandes cidades, verdadeiros territórios ocupados, onde vive a maioria da população pobre”. Desse ponto de vista, explica, a exceção é a regra geral para a maioria das pessoas.

Referindo-se ao universo que deu origem ao golpe de 1964 no Brasil, o professor explica que, ”o inimigo a ser combatido e que ameaça a sociedade não se identifica mais do a figura do comunista das ditaduras militares, mas sim com a figura do bandido, impreterivelmente identificado com a condição social de pobreza”.

Impossível discordar.

Sofisma sociológico

Eu gostaria de acrescentar, por minha conta, observações sobre as ideias de Serrano e o Brasil de 2015.

Há uma novidade curiosa no comportamento do Judiciário na última década. Estamos falando de um período no qual, como demonstram estatísticas que ninguém discute, os mais pobres conseguiram melhorar — parcialmente, é verdade — sua posição na pirâmide social e ter acesso a um padrão de consumo e igualdade que nunca se viu na história. Estudam mais, alimentam-se melhor, tem oportunidades mais amplas.

Justamente os políticos e personalidades ligados ao Partido dos Trabalhadores e seus aliados, o mais identificado com esse processo, benéfico para o conjunto da sociedade brasileria, têm sido alvo de medidas — classifique como quiser, de exceção, perseguição, ou qualquer outro adjetivo — por parte do Judiciário. Acusados de corrupção em processos espetaculares, acompanhados com espírito de circo pelos grandes grupos de comunicação, passaram a ser discriminados em seus direitos e garantias.

Através da AP 470 e da Operação Lava Jato, são tratados como inimigos internos, habitantes daquilo que Serrano chama de “territórios ocupados da periferia” e não como cidadão que, em função de sua posição na pirâmide social, teriam acesso assegurado ao Estado Democrático de Direito.

Sempre que se debate — por exemplo — as prisões preventivas dos acusados da Lava Jato, em prazos extremamente longos, sem provas nem indícios consistentes de culpa, configurando um abuso destinado a forçar confissões e delações premiadas, os aliados do juiz Sérgio Moro e do Ministério Público pedem ajuda a um sofisma sociológico.

Alegam que um terço do meio milhão de condenados que habitam nosso sistema prisional, habitado em sua imensa maioria por cidadãos pobres, em maior parte pretos, incapazes de contar com bons advogados, também enfrentam a mesma situação, padecem das mesmas dificuldades, quem sabe até piores.

A sugestão de que uma coisa poderia justificar a outra não faz sentido, quando se recorda que o esforço civilizado consiste em estimular a ampliação do Direito, e não seu rebaixamento através de medidas de exceção, que apenas perpetuam um estado geral de coisas.

O que se procura, aqui, é construir um inimigo interno — personagem indispensável das medidas de exceção de que fala Pedro Serrano.

O que se vê é um tratamento discriminatório — com motivação política — tão brutal e dirigido que atravessa as distinções de classe social, sempre profundas e persistentes no Brasil. A grande lição dos julgamento da AP 470 e a Operação Lava Jato é mostrar que não basta ter dinheiro — quem sabe muito dinheiro — para pagar bons advogados e garantir um acesso ao Estado Democrático de Direito, aquele onde vigora o princípio segundo o qual todos são inocentes até que se prove o contrário. Talvez não baste ser filiado ao partido que há 12 anos ocupa a presidência da República, dispondo de privilégios e prerrogativas correspondentes.

É preciso estar do lado certo da disputa política.

Os mesmos executivos e empresários, acusados dos mesmos crimes definidos na AP 470 e também no mensalão PSDB-MG, foram julgados por tribunais diferentes, com direitos diferentes, obtendo penas diferentes. Basta recordar que os primeiros condenados da AP 470 começam a deixar a prisão, depois de cumprir penas definidas pela Justiça. Os outros sequer receberam uma condenação. Quando isso acontecer, aqueles que não tiveram a pena prescrita terão direito a um segundo julgamento, com outros juízes, outro tribunal.

Está demonstrado que os mesmos empresários que, conforme as investigação da Lava Jato, abasteceram os cofres do PT entregaram as mesmas quantias, no mesmo período, para tesoureiros do PSDB. Está provado, registrado na Justiça Eleitoral. O principal delator, aliás, entregou R$ 2 milhões a mais para a campanha de Aécio Neves. Nada disso foi suficiente para o lançamento de uma eventual fase zero da novela Lava Jato, agora mais plural, sem culpados nem inocentes previamente escolhidos, certo?

Alguém convive em paz com a noção de que o dinheiro que chega para os tucanos como “contribuição eleitoral” se transforma em “propina” quando se destina ao PT?

A leitura dos estudos de Hannah Arendt sobre o nascimento de regimes totalitários demonstra que um dos instrumentos básicos empregados na disputa entre parcelas da elite dirigente de determinada sociedade — um aspecto inevitável de toda luta política desde sempre — consistia em mobilizar e estimular preconceitos e ressentimentos da “ralé”. Como tantos observadores sociais de seu tempo, Arendt se referia nestes termos àquela parcela da população que se encontrava abaixo das classes sociais tradicionais, sem acesso a educação, ao bem-estar e que mal conseguia exercitar os próprios direitos políticos. Ela avaliava que a democracia se encontrava em perigo quando a elite assumia modos e comportamentos antidemocráticos e agia de turba, como manada, estimulando gestos violentos e atos de barbárie.

Não é difícil reconhecer movimentos dessa natureza no Brasil de hoje. Os brasileiros assistem isso quando Alexandre Padilha é impedido de jantar em paz com amigos num restaurante no Itaim Bibi — cena que repete um tratamento semelhante oferecido a Guido Mantega quando foi fazer uma visita a um paciente no hospital Albert Einstein. Em 2012, Ricardo Lewandovski, hoje presidente do STF, ouviu comentários ofensivos quando foi à zona eleitoral exercer o direito de voto. São atos que formam um conjunto, contestam a noção de que homens e mulheres pertencem a uma mesma família humana, com direitos a igualdade e a justiça, como diz Pedro Serrano.

É um comportamento lamentável e preocupante. Mas é difícil negar que o exemplo vem de cima, certo?

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Inveja

Quando eu era garoto, tinha times em todo o mundo. Algumas das minhas escolhas eram lógicas: eu só podia ser Colo-Colo no Chile porque não sabia o nome de nenhum outro clube chileno. Mas por que Tottenham Hotspurs em vez do mais conhecido Arsenal, na Inglaterra? E eu só tinha notícias dos meus times na escassa informação que saía nos jornais daqui sobre o futebol em outras terras. Eu nem sabia quais eram as cores do Tottenham Hotspurs, por exemplo. Eventuais fotografias do time não ajudavam: as fotos eram em preto e branco. Não importava. Era o meu time do coração, como o River Plate em Buenos Aires, o Dinamo em Kierv, o Racing — hoje Paris Saint Germain — na França, a Inter na Itália... Mesmo eu sabendo quase nada a seu respeito

Pensei nisso enquanto assistia ao Juventus x Real Madrid na TV. Um jogo que, antigamente, eu só veria na imaginação e cujo resultado só saberia dois ou três dias depois. Hoje temos acesso instantâneo e completo aos campeonatos europeus e às copas internacionais, sabemos tudo sobre jogadores e técnicos — e nos perguntamos (ou pelo menos eu me pergunto) se isso nos faz mal ou bem. Pois junto com o imenso prazer de ver futebol bem jogado vem a impressão de estarmos sendo corroídos pelo feio sentimento da inveja. Esqueça os grandes jogadores e as grandes jogadas — só a visão daqueles gramados já nos humilha e nos corrompe a alma. A inveja começa antes de começar o jogo.

Duas observações sobre Juventus x Real Madrid: o Pirlo está com a máscara trágica de um velho guerreiro que só continua em pé para inspirar suas tropas. E podem ficar com todos os outros jogadores cantados e laureados do Real Madrid, inclusive o Cristiano Ronaldo. Eu só quero o Toni Kroos e o Bale no meu time imaginário.

* * *

Uma modesta proposta para salvar o nosso futebol: por que não dar aos clubes a mesma isenção de impostos dada às igrejas? Futebol é uma religião no Brasil. Ele nos empolga ou nos consola e muitas vezes dá sentido às nossas vidas, como a religião. Qualquer igreja, mesmo as que exploram abertamente seus fiéis ou beiram o curandeirismo, tem isenção. Aliás, igrejas e partidos políticos, que recebem subvenções pelo simples fato de existirem, são dois dos melhores negócios no Brasil, hoje. Por que o futebol não pode ter os mesmos benefícios de igrejas e partidos políticos? Ajudaria a acabar com a inveja.

Luís Fernando Verissimo
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Prova da falta de prova

As entrevistas dos integrantes da força-tarefa da Lava Jato, para comunicar a denúncia formal contra quatro ex-deputados, confirmam a impressão de que as delações premiadas movimentam muitas acusações e suspeitas, mas não suprem a carência de investigações para produzir provas. E, sem provas, as delações agitam e impressionam, no entanto não superam a sua precariedade para enfrentar as exigências de um julgamento correto.

Não que as acusações aos quatro sejam infundadas. Podem ser em tudo verdadeiras. É mesmo o que sugerem os currículos de Pedro Corrêa e Luiz Argôlo, e ainda as afirmações recentes sobre o ex-petista André Vargas e Aline Corrêa, filha de Pedro. Chega a parecer que foram escolhidos, para inaugurar a galeria dos denunciados, por não provocarem questionamentos às acusações expostas.

O que não diminuiu os pedidos, dos repórteres aos entrevistados, de esclarecimentos e mais pormenores sobre pontos envolvendo as esperadas provas. As respostas não puderam sair da vaguidão. Os procuradores não tergiversavam, foram bastante fracos. Mas as respostas eram "isso [as provas] vai ser apurado durante a ação", "ainda não temos", "estamos buscando", coisas assim.

A pretendida indicação objetiva de prova foi mais insatisfatória. "Deu mais de mil telefonemas" para tal ou qual entidade pode ser um indício, mas, no caso, nada prova. Pior ainda: "Ele tinha entrada na Caixa". Ainda que somadas, constatações assim podem fazer convicção, mas é improvável que façam condenação.

Para uma operação que há um ano e dois meses já punha suspeitos na cadeia, o coletado contra os quatro denunciados e, ao que parece, dos mais fáceis acusáveis é, pelo que foi exposto, muito pouco. A impressão de disparidade entre as delações premiadas prioritárias e as investigações policiais necessárias permanece. Agora, ela sim, com prova.

Perdas e ganhos

Tanto o governo Dilma como os que voltam a discutir o "fator previdenciário" não levam em conta a essência desse mecanismo: a injustiça. Ele pune os obrigados a se tornarem trabalhadores mais cedo na vida: exige-lhes, para receber aposentadoria integral, mais anos de contribuição previdenciária do que aos iniciados mais tarde no trabalho. Muitos anos mais, sobretudo, do que o exigido aos que têm meios para estender os estudos em universidade, ou mais ainda.

São "benefícios" diferenciados para quem fez o mesmo para recebê-los. E como são os despossuídos a iniciarem mais cedo a vida de trabalho e contribuição previdenciária, a diferenciação de tratamento que os prejudica é uma discriminação social e econômica explícita.

Ficou provada a constância com que os aposentados ainda na meia idade, com aposentadoria integral de homens aos 35 anos de contribuição e as mulheres 30, continuavam trabalhando. E, a depender dos patrões, a contribuir para a Previdência por terem carteira assinada. Isso porque, além do mais, a aposentadoria de trabalhador pela CLT é uma indecente porcaria.

Era a justa aposentadoria proporcional e indiscriminatória, em conformidade com o tempo de contribuição. Fora desta regra, antes do "fator previdenciário" e também com ele, só os funcionários públicos. Os civis, com o privilégio da aposentadoria integral idêntica aos vencimentos. E a mamata das mamatas dada ao militar, de receber como aposentado o soldo próprio do posto superior àquele em que se aposentou.

Bem claro

Fernando Henrique em Nova York: "Esses malfeitos vêm de outro governo, isso deve ficar bem claro. Vêm do governo Lula. Começou aí".

Se é para "ficar bem claro", vêm de outro governo, sim. Como disse Pedro Barusco em sua delação premiada e na Câmara, "começou em 1997" na Petrobras do governo Fernando Henrique. Ou o que é dito em delação premiada vale só contra adversários de Fernando Henrique?

Janio de Freitas
No fAlha
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A Elite paranaense treme!


O auditor fiscal preso por corrupção e abuso sexual de meninas, Luiz Antonio de Souza, resolveu falar em delação premiada. E a coisa fede. Além de contar que parte da corrupção abasteceu o Caixa 2 de Richa na campanha da reeleição, envolveu um deputado federal e outro estadual no esquema. Quem são eles, saberemos logo mais.

Mas o mais estarrecedor: 32 nomes da elite paranaense, entre bem-nascidos e com sobrenome de grife e celebridades de mídia e média, foram entregues de bandeja. Todos eles, os 32 famosos, envolvidos no uso de meninas, adolescentes e moças para fins sexuais. Temos aí crimes que vão de estupro de vulnerável a aliciamento de adolescentes para a prostituição.

A lista ainda não saiu oficialmente, mas a elite paranaense está, desde já, a tremer. E tem alguns, mais afoitos, a procurar o aeroporto mais próximo.

José Maschio
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