10 de mai de 2015

Celso Antônio Bandeira de Mello em Curitiba — imperdível


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Quanto vale o BNDES


Nos últimos quatro meses, as ações da Petrobras já subiram mais de 50%. Em abril, foi finalmente apresentado, com elastiquíssimas provisões para corrupção, o seu balanço. Prisões, em regime fechado, de executivos de algumas das maiores empresas de infraestrutura e engenharia do país, responsáveis por milhares de empregos, bilhões de reais em projetos, e com endereço fixo e vida definida, foram sensatamente revogadas pela justiça. As dezenas, quase uma centena, de bilhões de reais em roubo cansina e maciçamente anunciadas, aos quatro ventos, se transformaram em centenas de milhões de reais de dinheiro efetivamente pago e devidamente localizado, em um valor total que, até agora, é de mais ou menos o valor dos recursos envolvidos no pseudo “cartel” do Trensalãode São Paulo, e um pequeno percentual dos escândalos do CARF, do HSBC, e, principalmente, do Banestado, em que pela segunda vez se cruzaram os destinos do doleiro Alberto Youssef e do Juiz Sérgio Moro.

Desinflando-se, paulatinamente, o balão da Petrobrás, os adversários do governo partem para nova e desesperada expedição de busca de pelo em cabeça de ovo e de chifre em cabeça de cavalo, apontando suas armas para outro símbolo emblemático do nacionalismo brasileiro, de extrema importância para o desenvolvimento nacional.

Depois de abortada a aprovação de uma primeira CPI sobre o BNDES no Senado, está em curso nova tentativa de se investigar a instituição. Pede-se que o Tribunal de Contas da União passe a pente fino o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, como se fiscalizá-lo já não fizesse parte das suas atribuições regulares; pretende-se mudar a lei para que empréstimos do BNDES em operações internacionais, tenham que ser aprovados previamente pelo Senado Federal, quando esse tipo de exigência ocorre em pouquíssimas nações do mundo, não apenas em razão da burocracia, mas também por questões estratégicas e de sigilo bancário e empresarial, já que equivale a tornar públicas negociações entre o Brasil e países clientes, desnudando-as aos olhos de nações concorrentes — e em certos sentidos, até mesmo adversárias — que jamais aceitariam se comportar, nesse aspecto, da mesma forma; chama-se a todo momento, o Presidente do BNDES ao Congresso, para dar sempre as mesmas explicações; procura-se criminalizar o papel do Banco no fortalecimento de empresas de capital nacional no exterior, e no apoio à exportação de produtos e serviços pelo Brasil, quando isso é rotineira, ostensiva, e costumeiramente feito por instituições semelhantes de outras nações, o que trará como única consequência o enfraquecimento e a sabotagem da nossa capacidade de concorrência no mercado internacional.

Mais que “sangrar” o governo, parece que se quer atingir o Estado, os instrumentos estratégicos necessários à implementação de um projeto nacional, e já se fala em estender a devassa à Eletrobrás, aos fundos de pensão, a outros bancos públicos, em uma campanha coordenada e ampla, que não poderia ser melhor, ou pior, executada, para o futuro do pais, se estivesse sendo comandada a partir de alguma nação estrangeira.

Não parece existir outro objetivo, do que o de arrebentar com o Brasil, e com todo um conjunto de empreendimentos e obras de infraestrutura que, com seus eventuais problemas, levou 40 anos para começar a ser executado, depois de longos anos de imobilismo e estagnação.

Pretende-se ampliar para o BNDES o cerco já realizado contra a Petrobras e seus negócios, com um furor macarthista, persecutório e inquisitorial que teria dado melhores resultados para a nação, caso tivesse sido aplicado, pelos mesmos agentes, na investigação dos negócios feitos com dinheiro do mesmo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, não para ajudar a expansão de empresas brasileiras no exterior, gerando divisas e empregos para o Brasil, mas para financiar e promover a criminosa entrega de empresas nacionais estatais e da iniciativa privada a estrangeiros, durante a tragédia da “privataria” e da desnacionalização compulsória da economia brasileira, nos anos 1990.

Sempre pusilânime e escorregadio nas suas relações com setores anacrônicos e conservadores da sociedade brasileira, com os quais optou por conviver, a trancos e barrancos, depois que chegou ao poder, e totalmente incompetente do ponto de vista estratégico e de comunicação, o PT não está colhendo mais do que plantou.

Poderia ter liquidado a fatura do país com esse passado quando o governo Lula tinha altíssimos índices de aprovação e o Brasil crescia 7,5% ao ano. Acusado de ter “aparelhado” o Estado, não soube, como fizeram com naturalidade as forças conservadoras, ocupar espaço, pelo próprio mérito de seus simpatizantes, via concurso público, em áreas estratégicas da administração dos Três Poderes e do próprio MP. Não criou meios de comunicação alternativos para chegar à população. Continuou alimentando, financeira, institucionalmente, e aos nacos, com o seu próprio sangue e carne, as feras que o atacam hidrofóbicamente, nos espaços mais tradicionais, e, quando novos canais surgiram, com a rápida expansão da internet relacionada à ascensão de uma nova classe média, fruto da multiplicação do PIB, dos salários e da renda per capita, entregou esse novo público, e a própria internet como espaço de atuação, à direita mais radical e exacerbada, recusando-se a responder a ataques crescentes em ódio e quantidade, até que eles atingissem o paroxismo a que chegaram agora, ignorando, e dando, olimpicamente, o ar de sua escandalosa, gritante, ausência, na área de comentários dos maiores portais - justamente os mais conservadores - desse meio de comunicação.

Quanto vale o BNDES?

Para a Nação — assim como é o caso da Petrobrás — seu valor é incalculável, estratégico, insubstituível.

Criado em 1952, pelo governo do Presidente Getúlio Vargas, e ampliado durante os governos militares, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social é um dos pilares da nação. Ele apoia a cultura, a produção, a geração de tecnologia, a inovação, os grandes e os pequenos negócios que constituem a espinha dorsal da economia brasileira, da construção de hidrelétricas, tanques, refinarias de petróleo, armas, navios, aviões, pontes, viadutos, a milhares de empreendedores, que, em igual número de micro e pequenas empresas, podem ter acesso a seus recursos a juros mais baixos, por meio de instrumentos amplamente disseminados e acessíveis, como o Cartão BNDES.

Não fosse o BNDES e os outros bancos públicos, como a Caixa Econômica Federal, e o Banco do Brasil, e o país teria ficado inerme, imobilizado, no contexto do financiamento a grandes projetos e ao consumo, nas diferentes crises criadas pela incompetência, imprevisibilidade e leniência dos governos, do FMI, do Banco Mundial e das “agências” de classificação - que hoje insistem em nos ditar regras - que quase levaram o mundo, por mais de uma vez, à bancarrota, desde o início deste novo século.

Só nos quatro primeiros meses deste ano, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social liberou um financiamento de dois bilhões e trezentos milhões de dólares para a construção de uma nova companhia siderúrgica, na Zona de Processamento de Exportação do Complexo Industrial e Portuário de Pecém, na cidade de São Gonçalo do Amarante, no Ceará, obra que gerará 17 mil empregos e produzirá 3 milhões de toneladas de aço por ano, para exportação, e participou da criação de um novo polo de produção de medicamentos no mesmo estado.

Viu ser inaugurado o novo pólo automotivo do Nordeste, com a entrada em funcionamento da fábrica da Jeep no Brasil, para a qual aportou 3.3 bilhões de reais, e garantiu mais 650 milhões de reais em investimento para a expansão da Fiat em Minas Gerais. Liberou mais de 400 milhões de reais para novas obras na subida da serra, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Participou da constituição de uma nova empresa de logística portuária, criou um fundo de investimento em debêntures de infraestrutura, e novas opções para financiamento de bens de capital. Ainda em abril, lançou um novo produto, o BNDES Soluções Tecnológicas, para estimular a inovação na indústria brasileira, e aumentou a garantia para a obtenção de empréstimos por micro e pequenas empresas, de financiamento junto a outras instituições financeiras de sua escolha, e criou outra linha destinada à recuperação ecológica de vegetação nativa. Financiou a construção de 10 novos parques eólicos no Nordeste, gerando, com apenas dois, um no Piauí, e outro na Bahia, no valor de 1.2 bilhão de reais, quase quatro mil novos empregos — depois de ter investido nessa área 6.6 bilhões de reais em 2014. E liberou mais centenas de milhões de reais em financiamento para a modernização de gestão de vários municípios, em microcrédito para pequenos empreendedores e investimentos para indústrias das áreas têxtil, calçadista, de caminhões e alimentícia.

Estamos vivendo uma situação absurda, kafkiana, na qual se punem e atacam empresas que, no exterior, sempre mostraram que o Brasil pode concorrer à altura com outros países na execução de grandes e complexos projetos de engenharia, como a Mendes Júnior, a Andrade Gutierrez e a própria Odebrecht. Companhias que, historicamente, levaram o nome do Brasil e a capacidade de realização da gente brasileira das montanhas dos Andes aos desertos africanos, em países latino-americanos e em lugares como o Iraque e a Mauritânia, ainda nos anos 1970, empregando milhares de compatriotas, exportando produtos e serviços e trazendo para o país bilhões de dólares em divisas, permitindo, ainda na época dos governos militares, que o Brasil recebesse combustível em pagamento dessas obras, enfrentando, com sucesso, a crise do petróleo.

Pretende-se investigar o financiamento pelo BNDES, um dos maiores bancos de fomento do mundo, fundamental para a exportação de serviços pelo Brasil, para países como Cuba e Angola, quando o principal cliente desse tipo de financiamento do banco, não são nações “comunistas” ou “bolivarianas”, mas os sacrossantos Estados Unidos da América do Norte, e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social não faz mais do que fazem instituições financeiras estatais concorrentes de países desenvolvidos — como os Eximbanks dos EUA e da Coreia do Sul, os JapanExport Bank e Japan Bank For InternationalCooperation, do Japão; os KFW e Deutsche Bank da Alemanha, o Export-Import Bank da China — e possui baixíssima inadimplência em suas operações internacionais, como afirmaram o próprio BNDES e a Odebrecht, por meio de documentos e declarações públicas, na última semana.

O Brasil transformou o BNDES, nos últimos anos, em um dos maiores bancos de fomento do mundo, multiplicando seus desembolsos — que vão também para milhares de micro e pequenas empresas e empreendedores via Cartão BNDES — de 37 bilhões de reais em 2002, para 187 bilhões de reais em 2014, com um lucro de quase 9 bilhões de reais no ano passado, e essa conquista está sendo tratada como se fosse um crime de lesa-pátria.

É preciso lembrar que a exportação de serviços e produtos com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para países desenvolvidos e em desenvolvimento não é invenção do PT. Ela foi, sempre, um dos pilares da política externa brasileira e era costumeira no regime militar. Foi praticada — haja cinismo — no Governo Fernando Henrique Cardoso, que financiou com dinheiro desse banco, Cuba e o Governo de Hugo Chávez, na construção de parte do metrô da capital venezuelana. Há, do então Presidente da República, dessa época, famosa foto com Chaves e Fidel Castro — líderes que hoje tucanos procuram execrar de olho no eleitorado fascista — de mãos unidas, umas sobre as outras.

O que deveria estar sendo investigado e punido, não é a exportação de serviços ou a compra de empresas estrangeiras no exterior com financiamento do grande banco brasileiro, em operações em que a inadimplência está próxima de zero, mas, sim, o uso de capital do banco para financiar a entrega de empresas brasileiras do setor de energia e telecomunicações, não para empresários brasileiros da iniciativa privada, mas a juros subsidiados e a perder de vista, para empresas estrangeiras — incluídas algumas de capital estatal ou controle estratégico governamental de outros países — em “negócios” nos quais “consultores”, “assessores” e lobistas de variada estirpe e camaleônico caráter fizeram fortunas, da noite para o dia, com tráfico de influência, nos anos 1990.

Há quem tenha participado da organização do processo de privatização da Telebrás, e depois chegado a altos cargos na ANATEL — que como as outras agências reguladoras, não passa de uma excrescência inventada no governo FHC que quase sempre só beneficia as empresas e nunca os consumidores — comandando a fiscalização de empresas telefônicas, para depois ocupar, já, há anos, o cargo de presidente de um dos maiores grupos estrangeiros de telefonia e telecomunicações em atividade no Brasil.

Usar o BNDES para defender o país, o seu fortalecimento, e o de suas empresas, no exterior, como se orgulham de fazer outros países, e suas lideranças e ex-presidentes, não se pode. Fazer o mesmo para promover a entrega do Brasil para empresas de países altamente “desenvolvidos”, como Espanha e Portugal, como ocorria antes, não só se pode, como é altamente gratificante, tanto do ponto de vista econômico como do “moral”, como se pode ver pela “intocabilidade” de seus autores, relegados, com suas fortunas, a confortável e nababesco — e espera-se que não definitivo, para a história, ao menos — anonimato. Mesmo que essas empresas estrangeiras sequer paguem os financiamentos recebidos, a juros subsidiados, como foi o caso, por anos, da AES - America Energy Southern, na compra da Eletropaulo, a ponto de ter sido processada pelo governo Lula, para que o BNDES retomasse ao menos parte do negócio.

Não podemos ser um país poderoso, independente e forte — objetivo que nunca poderá ser atingido sem o decisivo, patriótico, trabalho do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e de seus funcionários. O que se quer é que sejamos uma província patética e subalterna, sem BNDES, sem Petrobras, sem Eletrobrás, como já ficamos sem a Telebrás, sem bancos essenciais para o desenvolvimento regional, como o Banespa, e outras importantes empresas e instituições, estratégicas para o desenvolvimento brasileiro.

Querem que voltemos, rapidamente, em pleno século XXI, com o quinto território e população e a sétima economia do mundo, a uma posição de colônia, submetida ao interesse estrangeiro, com a total privatização da Petrobras, a entrega do pré-sal, o desmonte do BNDES, de instituições como a Amazônia Azul e de outras empresas de defesa que dele dependem direta e indiretamente, a destruição programada da indústria naval, da indústria bélica, de centenas de milhares de empregos, de bilhões em projetos já iniciados e das maiores empresas de engenharia do Brasil, para que não reste pedra sobre pedra.

O bom-senso, a informação, a visão histórica e estratégica, um mínimo de projeto de Nação, que se danem.

O que importa não é o Brasil. É a política de “terra arrasada”, para que depois se possa colocar a culpar em quem se está atacando agora.
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Meritocracia e a neodireita


A "meritocracia" é uma autoilusão de grandeza para quem acha que atingiu um patamar invejável. E é uma autoilusão de futuro possível para quem ainda o almeja.

A neodireita adora berrar que a "meritocracia" é o "sistema" ideal — e é fácil compreender por que fazem isso: é uma maneira de ao mesmo tempo justificar os privilégios de quem já tem muito (como pagar menos impostos de quem tem pouco) e de garantir que os que têm pouco não se revoltem. "Trabalhe e conseguirá o que conseguir", vendem numa estratégia publicitária. "O Estado não deve ajudar quem precisa; é melhor ensinar a pescar", repetem sempre, deixando de dizer a parte fundamental que se segue: "A não ser claro, que quem 'precisa' for eu através de créditos de financiamento reduzido do BNDES, de 'bailouts' caso minha corporação quebre, de liberdade para comprar mandatos parlamentares e (de novo) de impostos reduzidos".

É inacreditável perceber como o candidato desta neo-direita pode repetir o mantra da "meritocracia" ao mesmo tempo em que toda a sua carreira se deve não aos seus esforços, mas aos de seus antepassados, que abriram seu caminho na vida pública através de cargos comissionados já na juventude, de fortunas que asfaltaram este caminho e de contatos poderosos que garantiram que a estrada estivesse sempre aberta e sem fiscalização.

O conceito de "meritocracia" é um cuspe perverso na cara de 95% da população — e o mais chocante é perceber como parte destes 90% acaba absorvendo a retórica dos 5% e defendendo-a sem perceber que está agindo contra seus próprios interesses.

O grande truque do Diabo é fazer você defender os interesses dele acreditando que são os seus. E a mídia é o braço direito do Diabo, seu chefe de relações públicas, seu agente, seu porta-voz.

Outro dia, um leitor me perguntou como eu podia ser contra a "meritocracia" se certamente havia atingido um bom status na minha profissão graças aos meus próprios esforços.

De fato, sou um privilegiado por viver da escrita e do Cinema - algo difícil em qualquer país e ainda mais complicado no Brasil, onde a cultura é sempre a primeira a ser considerada dispensável. E também me considero feliz por ter um número considerável de leitores e até mesmo de pessoas que se identificam como minhas "fãs" (embora eu sinta um estranhamento ao ouvir este termo, já que não me vejo na posição de ter "fãs").

E, sim, trabalhei e estudei muito e longamente para chegar aqui. E não pude contar com ninguém para abrir o caminho, pois não tenho parente algum que tenha trabalhado na área para facilitar a jornada.

Assim sendo, posso dizer que foram apenas meus méritos que me trouxeram até aqui e que sou um exemplo perfeito do sucesso do sistema "meritocrata"?

Até poderia — caso eu fosse extremamente hipócrita.

Pois a verdade é que tive ajuda — e muita — para chegar até aqui.

Pude estudar em escolas particulares. Pude comprar os livros que precisava. Pude alugar filmes e mais filmes e tive tempo de assisti-los. Tinha meu próprio quarto e, por não ter que dividi-lo com ninguém, podia me concentrar nos estudos e em outras tarefas (e, na adolescência, também a outras "tarefas"). Não tive que trabalhar para ajudar na renda familiar. Não tive que cuidar de meus irmãos mais novos enquanto minha mãe (viúva aos 27 anos) trabalhava fora, pois tínhamos assistente doméstica (ou, como se dizia naquela época, "empregada").

Pude fazer excursões. Pude sair com os amigos. Ir ao cinema, ao teatro. Viajar durante as férias e, assim, recarregar as baterias. Tive computador no quarto. Nunca passei fome. Pude fazer cursinho para me preparar para o vestibular.

Ao decidir largar a faculdade de Medicina (na UFMG, para a qual passei graças à possibilidade de poder me dedicar aos estudos), não hesitei em abandonar uma profissão estabelecida por outro de futuro incerto, já que, por nunca ter tido que lutar por meu sustento e por não ter uma família que dependia de mim, podia me dar ao luxo de me arriscar a tentar viver de minha profissão dos sonhos. E, durante os primeiros anos, quando não ganhava um centavo com meus escritos, pude depender do apoio financeiro de minha família.

Sim, trabalhei muito. Insisti. Perseverei.

Mas na corrida rumo ao sucesso profissional em minha área, saí MUITO na frente de pessoas que não tiveram a mesma oportunidade que eu. E que, portanto, jamais puderam competir em pé de igualdade comigo. Dizer que "venci" por ser melhor do que elas seria uma imensa estupidez. Seria crueldade. E seria mentira.

Pois o fato é que vivemos numa sociedade — e a "meritocracia" tenta ignorar isso. Tenta afirmar que TODOS têm a oportunidade de "vencer", o que é uma inverdade colossal. Mas é uma inverdade conveniente aos que já detêm o poder, pois amansa os que não detêm poder algum, mas que acabam acreditando que, sozinhos, poderão alcançá-lo.

Não posso comprar esta mentira apenas porque seria reconfortante pensar que foi apenas minha competência que me trouxe até aqui. Pois minha competência, sozinha, acabaria sendo sufocada por um contexto mais hostil.

Como disse o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, "Eu sou eu e minhas circunstâncias; se não salvo a elas, não salvo a mim".

E não reconhecer as minhas circunstâncias seria não só uma imensa arrogância, mas uma profunda ingratidão.

Pablo Villaça
No Esquerda Caviar
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O casamento do Dr Kalil é um retrato perfeito do Brasil

Noivos e padrinhos
Será que Lula e Dilma têm noção do desgaste de imagem que é comparecer a um casamento com tamanha ostentação como foi o do cardiologista Roberto Kalil Filho?

Presumo que sim.

E acho também que eles não faziam ideia de que o casamento atrairia tanta atenção. Era para ter uma cobertura limitada à Caras, não fosse um grupo de paneleiros que irrompeu, para alegria da imprensa.

O noivo é evidentemente alguém apaixonado pelo poder. Em seu primeiro casamento, nos anos 1980, os padrinhos foram o general Figueiredo, o último da ditadura, e Maluf, em quem se via então um bom potencial para chegar ao Planalto.

Agora, os padrinhos foram Lula, Dilma e Serra.

Caso haja um terceiro casamento, bastará ver quem estará na presidência.

Minha reflexão número 1, ao ver este tipo de coisa, é: que falta faz um Mujica no Brasil.

Simplicidade, simplicidade e ainda simplicidade. O exato oposto do que se viu ontem no casamento.

E hipocrisia em doses colossais.

O jornalista Ricardo Noblat, presente, postou uma foto em que sua mulher sorri, triunfalmente, ao lado de Dilma, as duas em cintilantes vestidos de noite.

Como tantos articulistas da Globo, Noblat vive de bater em Dilma e em Lula. Foi ele que, pouco tempo atrás, escreveu que Dilma tinha tido uma guerra de cabides com uma empregada.

Noblat escreveu na ocasião: “Uma pessoa que não ama seus semelhantes, ou que não sabe expressar seu amor por eles, não pode ser amada.”

Mas, pelo visto, pode ser bajulada, ou se deixar bajular.

Dilma com Rebeca Noblat
Dilma com Rebeca Noblat
Dilma não teria como fugir de uma foto tão repulsiva pelo cinismo sorridente? Existe, é claro, a possibilidade de que ela não soubesse de quem se tratava.

Fora disso, é incompreensível e, para mim, inaceitável.

Na noitada paulistana, genuínos mesmo em sua estupidez e ignorância desumanas, apenas os paneleiros que foram gritar as bobagens de sempre que lêem na mídia que os imbeciliza e os manipula.

O casamento de Kalil é um retrato da promiscuidade política que tanto atrapalha o avanço social do Brasil.

É muita confraternização e pouco atrito. E sem atrito, sem confronto, você não remove privilégios e mamatas que fizeram do Brasil uma das eternas capitais mundiais da desigualdade.

Jamais entendi o seguinte.

Roberto Marinho foi um dos patronos do golpe, e um dos responsáveis pelos mais de vinte anos de duração de uma ditadura cheia de mortes, torturas e perseguições.

Depois, manipulou um debate que custou a Lula uma eleição.

E o mesmo Lula, ao chegar enfim ao poder, não apenas comparece ao enterro de Marinho e faz um elogio fúnebre inteiramente dissociado da realidade como decreta luto oficial de três dias.

Enquanto isso, no mundo das coisas concretas, o governo do PT continuou, ano após ano, a colocar meio bilhão de reais em publicidade na Globo — um dinheiro que financiaria o exército de Mervais, Jabores, Kamels, Wacks et caterva.

Você entende?

Eu não.

Ah, sim. Faltaram os irmãos Marinhos no casamento de Kalil.

Mas eles estavam representados por Noblat e sua mulher, aquela da foto festiva com Dilma.

Paulo Nogueira
No DCM
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Presidenta Dilma lamenta morte do senador Luiz Henrique

A presidenta Dilma Rousseff lamentou a morte do senador Luiz Henrique (PMDB/SC), ocorrida neste domingo. Em nota, a presidenta afirmou que “o Brasil e Santa Catarina perdem um dos seus grandes filhos”, um homem que tinha princípios democráticos e um imenso amor pelo seu povo e sua terra.

Veja, a seguir, a íntegra da nota:

“O Brasil e Santa Catarina perdem um dos seus grandes filhos: o senador Luiz Henrique. Ex-governador, ex-prefeito, um dos fundadores do PMDB, o senador Luiz Henrique foi um homem de princípios democráticos, disposição para o diálogo e imenso amor pelo seu povo e sua terra. Deixo meus votos de pesar à família e aos amigos”.

Dilma Rousseff
Presidenta da República




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Egito aprova homenagem a FHC

Egito aprova reconstrução do Farol de Alexandria


O monumento é considerado uma das sete maravilhas da antiguidade e será restaurado perto de seu local original.

O governo egípcio aprovou a reconstrução do Farol de Alexandria, após o projeto de restauração ser apresentado pela prefeitura da cidade de Alexandria.

Considerada uma das sete maravilhas da antiguidade, este monumento foi destruído por causa de três terremotos no início do século XIV, de modo que o Comitê Permanente de Antiguidades do Egito deu luz verde à iniciativa.

É importante saber

O Farol de Alexandria foi construído entre os anos 285 e 247 aC na ilha de Faro, em Alexandria.

Possuía um altura estimada de 134 metros e foi considerado durante séculos como uma das estruturas mais altas.

Ele foi reconhecido como uma das Sete Maravilhas do Mundo pelo poeta grego Antípatro de Sídon.

Esteva intacto por um milênio.

Soube-se que em 1480, o sultão Qaitbey, do Egito, usou os blocos de pedra das ruínas para construir um forte. Com a reconstrução espera-se atrair milhares de turistas de todo o mundo, já que é um símbolo da herança egípcia.

História

O farol original foi construído pelo arquiteto Sóstrato de Cnidos, sob as ordens de Ptolomeu I, que executou o trabalho na ilha de Faro (Pharos), contra Alexandria.

Indicava a posição da cidade aos navegantes, uma vez que a costa na parte do delta do Nilo, é muito plana, e não havia nenhuma referência para a navegação marítima.

Detalhes da construção

Serão utilizados blocos de vidro na fundação, para evitar a erosão e aumentar a resistência contra a força do mar. A estrutura do farol foi feita em uma plataforma de base quadrada e blocos de mármore octagonal montados com chumbo derretido.

No topo, um espelho metálico refletia a luz solar durante o dia e, à noite, o brilho de um grande fogo era projetado a uma distância de até 50 km.

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Jornal Nacional atua como assessor de imprensa de Eduardo Cunha

Presidente da Câmara é acusado de arquitetar requerimentos de informações sobre empresa contratada pela Petrobras que teriam sido feitos como forma forçar pagamento de propinas; jornal 'esconde' a notícia

Apresentador William Bonner leu a notícia sem a ênfase tradicional
dada às notícias que envolvem o PT
Um dos fatos jornalísticos importantes na quarta-feira (6) foi o cumprimento de um mandado de busca e apreensão no gabinete do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A diligência foi pedida pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e autorizada pelo ministro do STF Teori Zavascki, dentro do inquérito que investiga o suposto envolvimento de Cunha na Operação Lava Jato.

Cunha esta sendo acusado de ter arquitetado a elaboração de dois requerimentos de informações sobre uma empresa contratada pela Petrobras que, segundo delação do doleiro Alberto Youssef, teriam sido feitos como forma de pressão para o pagamento de propinas. Os pedidos foram apresentados na Câmara em 2011 pela hoje prefeita de Rio Bonito (RJ), Solange Pereira de Almeida, na época suplente de deputado. Mas registros eletrônicos mostram Cunha como autor desses requerimentos.

Durante delação premiada, o doleiro Alberto Youssef afirmou que Cunha receberia propinas sobre um contrato de aluguel de navio-plataforma das empresas Samsung e Mitsui com a Petrobras. Disse que quem intermediaria o pagamento ao PMDB seria Júlio Camargo, representante das empresas. E que as empresas suspenderam o pagamento da comissão a Camargo, o que interrompeu os pagamentos ao PMDB. Youssef disse que Eduardo Cunha pediu “a uma comissão do Congresso para questionar tudo sobre a empresa Toyo, Mitsui e sobre Camargo, Samsung e suas relações com a Petrobras, cobrando contratos e outras questões (...) este pedido à Petrobras foi feito por intermédio de dois deputados do PMDB”. Segundo o doleiro, seria para fazer pressão sobre as empresas para retomar os pagamentos.

O que reforçou as suspeitas do Ministério Público Federal foi o fato de que os requerimentos mencionados por Youssef de fato foram apresentados na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara por Solange Almeida. Ela assumiu ser a autora do requerimento, mas demonstrou não dominar o assunto, parecendo não ser ela a mentora do requerimento. Tanto Solange como Cunha admitiram que assessores do atual presidente da Câmara ajudaram a elaborar e redigir o documento.

As propriedades digitais do arquivo com o texto do requerimento que estava no site da Câmara, onde aparecia o nome do autor do documento: Eduardo Cunha. Esta notícia levou Cunha a demitir o diretor do Centro de Informática da Casa, Luiz Antonio Souza da Eira. Já ex-diretor, Eira prestou depoimento ao Ministério Público, que teria sido a gota d'água para pedir o mandato de busca e apreensão.



Essa é a notícia, e seria salutar que o Jornal Nacional, depois de narrar os fatos, objetivamente ouvisse a versão de Cunha. Mas o jornal inverteu as bolas. Colocou como protagonista da notícia não o fato, mas a defesa de Cunha, a começar pelo título "Presidente da Câmara classifica busca de documentos desnecessária". O texto sucinto, bastante ameno, foi apenas lido batido pelo apresentador William Bonner, sem infográficos explicativos que contextualizem os fatos, sem imagens da operação de busca, sem declarações de viva voz de Cunha, nem de nenhum membro do Ministério Público. Completamente diferente de como são noticiadas outras ações da Operação Lava Jato quando os alvos foram pessoas ligadas ao PT.

Na prática, o jornal minimizou a notícia e praticamente fez o texto que a assessoria de imprensa do deputado faria. Um vexame jornalístico.

A diferença de tratamento no noticiário para fatos idênticos — e que teriam maior dimensão pelo cargo que Cunha ocupa —, conforme o alinhamento político com os interesses da emissora, demonstra a clara parcialidade do jornalismo. Persegue os "desafetos" que pensam e agem diferente dos interesses da emissora, enquanto protege os "amigos", alinhados com os interesses empresariais, econômicos e de poder.

Cunha tornou-se "amigo" da mídia oligárquica ao declarar-se contrário a qualquer marco regulatório para democratizar as comunicações. Tem colocado em votação a pauta conservadora e reacionária pedida em editoriais do jornal O Globo, como o Projeto de Lei 4.330, da terceirização ilimitada, que precariza os direitos do trabalhador. E promoveu uma sessão solene na Câmara para bajular os 50 anos de fundação da TV Globo, apesar de a emissora ter apoiado a ditadura, que chegou a fechar o Congresso por mais de uma vez. Além disso, volta e meia, tem espezinhado o governo Dilma com uma pauta oposicionista bem ao agrado do jornalismo que a Globo vem praticando.

Não é a primeira vez que o JN protege Cunha de desgastes políticos, minimizando uma notícia desfavorável a ponto de praticamente retratá-lo como vítima acima de qualquer suspeita. Na noite do último dia 28, quando a Folha de S.Paulo publicou o documento citado acima, o telejornal deu vexame semelhante em uma matéria com o título "Cunha nega autoria de requerimento sob suspeita na Operação Lava Jato".

Em entrevista ao programa Fantástico no ano de 2011, a então entrevistadora Patrícia Poeta perguntou à presidenta Dilma Rousseff sobre "toma-lá-dá-cá" nas relações com parlamentares. Talvez encontrasse respostas nas atuais relações fraternas de Eduardo Cunha com a emissora em que trabalhou.

Helena Sthephanowitz
No RBA
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Projeto que acaba com Estatuto do Desarmamento se baseia em erros

Texto do projeto de lei afirma que crimes cresceram após a posse de armas ser restrita Estudos mostram que homicídios cresciam 8% antes do estatuto, contra 1% atual

Estatuto do Desarmamento está nas mãos de seus maiores inimigos

O autor do projeto, deputado Peninha (PMDB-SC)
O projeto de lei 3722/2012, que acaba com o Estatuto do Desarmamento, se baseia em ao menos duas informações incorretas. De autoria do deputado federal Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC), o projeto libera o porte de armas para pessoas com mais de 21 anos que não tenham antecedentes criminais nem estejam sendo investigadas por crime doloso. No texto do projeto de lei, o deputado afirma que “em todo o ano de 2004 e nos dez meses de 2005 [com o Estatuto do Desarmamento já em vigência] os índices de homicídio não sofreram redução”. O parlamentar cita como fonte o Mapa da Violência 2011, estudo coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz e considerado referência no assunto.

No entanto, o relatório citado desmente o deputado: no período em questão, houve redução de 796 homicídios, de 48.374 em 2004 para 47.578 no ano seguinte. Questionado sobre a disparidade na informação, Peninha afirmou que precisa “ver esses números aí”. Uma versão mais atualizada do Mapa, lançada em 2013, também vai contra os dados apresentados pelo deputado, e Jacobo já veio a público criticando o uso errôneo feito pelo parlamentar de seu estudo.

Mais à frente no projeto de lei, ainda citando o Mapa da Violência, o parlamentar diz que “em 2003 (...) ocorreram no Brasil mais de 50.000 homicídios, número semelhante ao verificado em 2004 e não divergente dos registrados nos anos seguintes”. Na realidade, o relatório citado aponta queda dos homicídios por dois anos consecutivos, em 2004 e 2005, a primeira redução no número de mortes desde 1996. Por email, Peninha afirmou que "as reduções apontadas no Mapa da Violência são pontuais, puxadas essencialmente pela Região Sudeste, mais especificamente São Paulo e Rio de Janeiro". O parlamentar diz ainda que os dados usados contradizem os dados do Ministério da Saúde. Na realidade, o estudo é feito com base nos dados da pasta, citado no pé da tabela como MS.

Gráfico do Mapa da Violência desmente Peninha:
houve redução dos homicídios de 2003 a 2005.
O deputado também cita em seu projeto um estudo da ONU, o Global Study on Homicide, para afirmar que a entidade “pela primeira vez na história reconheceu que não se pode estabelecer relação direta entre o acesso legal da população às armas de fogo e os índices de homicídio”. Na realidade, o documento afirma o contrário do alegado por Peninha: "o grande número de homicídios nas Américas mostra que, dependendo do contexto, o acesso facilitado às armas pode ter um efeito significativo no número de mortes". Mais à frente, o relatório da ONU insiste na tese de que quanto mais armas, mais mortes. Indagado sobre a nova incongruência entre os dados da justificativa do projeto de Lei, o deputado afirmou que “não existe isso". Posteriormente, ele enviou por email um longo trecho do documento da ONU, contendo uma frase que contradiz sua justificativa: "a relação entre o número de armas de fogo e o de crimes, incluindo os homicídios, parece ser um tipo de ciclo vicioso”.

Peninha afirmou também que "ninguém espera que a ONU, idealizadora da tese do desarmamento civil, vá abandonar de vez seu apego desarmamentista". Na opinião do deputado, "o trecho destacado [pelo repórter] não traz a distinção entre armas legais e ilegais, o que é absolutamente essencial para se compreender o tema".

Ainda no projeto da lei que acaba com o Estatuto do Desarmamento, Peninha diz que “não é a arma legalizada a que comete crimes, mas a dos bandidos, para os quais a lei de nada importa”. A CPI do Tráfico de Armas da Câmara, de 2006, chegou a uma conclusão diversa. O relatório final da comissão diz que “55% das armas [encontradas com criminosos] rastreadas (…) foram legalmente vendidas, antes de caírem na ilegalidade. Destrói-se o mito de que as armas vendidas a cidadãos de bem nada têm a ver com as armas dos criminosos”. Peninha disse não conhecer o texto do relatório. Posteriormente, por email, ele desqualificou as conclusões da comissão, e afirmou que como não rastreou armas com numeração raspada, os resultados não podem ser confiáveis.

“Eu tenho dados. A partir do Estatuto do Desarmamento até hoje, houve aumento da criminalidade. A cada 100.000 pessoas hoje, houve um aumento de homicídios de 1,34%”, afirmou por telefone o deputado ao EL PAÍS. Ele não soube citar a fonte deste dado.

Os números sobre os homicídios no Brasil em comparação ao projeto de Desarmamento são polêmicos, até porque a redução do número de mortes não depende só da posse de arma, segundo especialistas. Mas, o papel do Estatuto foi decisivo para atenuar a violência. De 1980 a 2003 o número de homicídios por arma de fogo no país crescia a uma taxa média de 8% ao ano. Quase uma década depois da aprovação do Estatuto, esta taxa caiu para menos de 1% ao ano. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que isso salvou 120.000 vidas. Ou seja, se em números absolutos tivemos em 2012 cerca de 56.000 mortes — mais do que as 51.000 registradas em 2003 —, é matematicamente comprovado que o cenário seria pior sem as medidas do Estatuto. Peninha classifica o levantamento do Instituto como sendo "absolutamente fantasioso, desprovido de qualquer critério técnico".

O deputado afirmou que estudos da universidade de Harvard comprovam que não há relação entre a proibição do porte de armas e o índice de homicídios. O relatório em questão, Would Banning Firearms Reduce Murder and Suicide? (Banir armas de fogo reduz homicídios e suicídios, em tradução livre) , dos professores Don B. Kates e Gary Mauser foi parcialmente financiado pela National Rifle Association, a maior entidade ligada aos fabricantes de armas do mundo.

O fato do projeto de Peninha ser baseado em informações incorretas, no entanto, não o invalida, já que se trata de um processo político, e não jurídico, dizem especialistas. O projeto será analisado por uma comissão especial da Câmara, cujo presidente e o relator, Marcos Montes (PSD-MG) e Laudívio Carvalho (PMDB-MG), respectivamente, são membros declarados da 'bancada da bala', que defende abertamente o fim do Estatuto e a redução da maioridade penal. Montes, inclusive, teve a campanha financiada pela Forjas Taurus, uma das maiores empresas do ramo de armamentos do país, e pela Companhia Brasileira de Cartuchos, fabricante de munições.

Gil Alessi
No El País
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Vinho

Os consumidores de vinho se dividem em dois tipos. Os que sabem o que estão bebendo e os que não sabem, mas gostam assim mesmo. Estes também se dividem em dois tipos, os que gostam sinceramente, embora não o aproveitem tão completamente quanto os entendidos, e os que se obrigam a gostar por ostentação. Desses se diz que não bebem o vinho, bebem o rótulo. Eu pertenço à divisão 1 da categoria B, a dos que apreciam sem entender. Invejo quem fala com autoridade dos taninos e do retrogosto de um vinho, mas confesso que jamais identifiquei os sabores sutis — “notas” de frutas vermelhas, de tabaco e disto e daquilo — de que falam os de paladar apurado, para nos humilhar. Mas quase tanto quanto bebê-lo, gosto de ler histórias sobre o vinho e seus adeptos, genuínos ou fingidos.

Um “New York Times” recente trazia o necrológio de um comerciante e autor de livros sobre vinhos chamado William Sokolin. Numa noite de abril de 1989, Sokolin levou uma garrafa de um vinho raríssimo a um jantar com outros comerciantes e enófilos no restaurante Four Seasons, em Nova York. O vinho era um Château Margaux 1787, encontrado numa cave parisiense, e que teria pertencido a Thomas Jefferson, um dos fundadores da República americana e um conhecido amante das amenidades da vida, como boa comida, boa bebida e a companhia de escravas na sua cama senhorial. O rótulo do vinho tinha inscrito “Th.J”. Sokolin, que o comprara por 212 mil dólares, pretendia vendê-lo por mais de 500 mil.

Quando ia exibi-la, bateu com a garrafa num quina de mesa, furando-a. O vinho jorrou pelo buraco como sangue de uma carótida. “Cometi um assassinato”, diria Sokolin, depois. Ele ainda tentou vender a garrafa furada num leilão, propondo um lance inicial de 30 mil dólares, que ninguém fez. Lances de dez mil e de cinco mil também foram pedidos e não feitos. Finalmente alguém ergueu a mão e ofereceu: “100 dolares!”. Sokolin preferiu doar a garrafa a uma instituição de caridade.

O que ele só ficou sabendo mais tarde, e diz tudo o que se precisa saber sobre verdadeiros amantes de vinho, é que, depois da sua saída do Four Seasons, desolado com o desastre ocorrido, muitos dos presentes atiraram-se ao chão para provar o líquido derramado do tapete. O veredito foi de que o vinho do Thomas Jefferson tinha se deteriorado.

Luís Fernando Veríssimo
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Carta aberta a Mujica: ‘Perdão pela mídia canalha brasileira, Dom Pepe’


Mujica, perdoe nossa velha mídia que já não sabe o que fazer.

O senhor deve ter acompanhado com mais que justificada indignação o que o esgoto do jornalismo brasileiro tentou tramar contra a esquerda sul-americana essa semana, numa escala também continental de estupidez e cinismo.

Talvez sejam até mais estúpidos do que canalhas, por ainda não terem se dado conta de que já não controlam a informação como controlavam.

Se há poucos anos, o ritual tribal da nossa mídia era uma revista jogar uma acusação ao vento, o Jornal Nacional bater os seus tambores e a opinião pública estar formada, hoje quase em tempo real são desmascarados.

Fossem outros tempos, a “confissão” atribuída a Lula, com base no que afirmavam que o senhor teria dito e não disse, seria suficiente para que vencessem uma eleição.

Mas veja que já tentaram isso justamente nessas eleições e perderam.

“Eles sabiam de tudo” foi a manchete de uma lamentável revista brasileira dois dias antes do segundo turno que elegeu a presidente Dilma.

É verdade que foi por pouco, e é justamente isso que os leva às raias da loucura.

Não aguentam mais perder ou imaginar perder outra vez em 2018. Mas há doze anos essa mídia não elege o presidente da sua preferência, e só agora o governo parece disposto a enfrentá-la.

Regulamentação e democratização da mídia é o maior pesadelo das famílias que hoje ainda acreditam controlá-la e se veem acuadas como nunca.

Como um gambá assustado, antes de serem devoradas pela internet, soltam então um odor terrível, que atingiu até o senhor no Uruguai, mas que logo se dissipará no ar de um mundo novo. Em parte, já foram devoradas, e agora apenas apodrecem para servir de adubo.

Leonardo Mendes
No DCM
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Por que Veja e Merval têm tanto medo de Fachin?


Indicado pela presidente Dilma Rousseff para o Supremo Tribunal Federal, o professor Luiz Fachin ganhou o apoio de juristas de todo o País, de reitores das universidades federais, da Ordem dos Advogados do Brasil, de ex-ministros da Justiça de vários governos (incluindo FHC) e de colegas da corte, mas sofre uma inédita campanha negativa liderada por Veja e pelo jornal O Globo, do colunista Merval Pereira; as críticas beiram o ridículo, com alegações como de que ele defenderia a bigamia e o fim da propriedade privada; neste sábado, um novo parecer do Senado garantiu a legalidade de sua atividade de advogado, enquanto era procurador-geral; Fachin deveria ser aprovado sem sobressaltos, mas dois grupos de mídia tentam emparedar o Senado antes da sua sabatina

No mundo jurídico, não há quem não apoie o professor Luiz Fachin, indicado pela presidente Dilma Rousseff para ocupar a vaga aberta por Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal. Fachin já recebeu declarações de apoio da OAB (leia aqui), de juristas (leia aqui) e de vários ex-ministros da Justiça, incluindo Miguel Reale Júnior, ligado ao PSDB (confira aqui).

No entanto, Fachin tem sido alvo de uma inédita e insidiosa campanha negativa, promovida por dois grupos de comunicação: Veja e Globo. Os argumentos beiram o ridículo. Alega-se que o professor Fachin, aprovado por toda a comunidade jurídica, seria um defensor da bigamia e do fim da propriedade privada.

Neste fim de semana, às vésperas da sua sabatina no Senado, marcada para o dia 12, ele foi 'presenteado' com uma capa de Veja que, na prática, tenta emparedar os senadores. O editorial de Eurípedes Alcântara, diretor de redação da revista, não poderia ser mais pretensioso. "Como sabatinar Fachin", é o título. Internamente, a reportagem não se ancora em nenhum fato, mas apenas nas opiniões do colunista neocon Reinaldo Azevedo, que, recentemente, foi desmascarado pelo autor de um livro que ele próprio citava para argumentar contra Fachin.

No Globo, quem se prontificou para atacar Fachin foi Merval Pereira, na coluna "O lado errado" (leia aqui). "Mesmo sem ser filiado ao partido, Luis Edson Fachin tem uma atuação política muito próxima de uma ala radical do petismo que está sendo contestada cada vez com mais intensidade pela sociedade brasileira, e que já não tem o apoio da maioria do Congresso", diz Merval. O fato de ele ter apoio do senador Alvaro Dias (PSDB-PR), segundo o colunista, é irrelevante. "O apoio do tucano Álvaro Dias à sua indicação é uma dessas atitudes provincianas que não deveriam ser levadas em conta".

Bom, mas como justificar, então, o apoio de Miguel Reale Júnior, que não vem da "província" do Paraná?

Fachin enfrenta um cerco inédito, mas deve ser aprovado. O fato do dia foi um novo parecer do Senado, que lhe é favorável (leia aqui).

Afora isso, o ponto é o seguinte: se Veja, Globo, Reinaldo e Merval são contra, tudo indica que sua confirmação será benéfica para o Supremo Tribunal Federal e para o País.

No 247
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Papa disse que não julga gay, mas recusa francês como embaixador

Papa tem feito papel de bonzinho porque diz
uma coisa e faz outra
Em julho de 2013, no começo de seu pontificado, em um avião durante uma viagem em que retornava do Brasil, o papa Francisco (foto), ao responder se havia no Vaticano um “lobby gay”, ele assim respondeu: "Se uma pessoa é gay e busque a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?"

A afirmação teve ampla divulgação porque seria a confirmação de que a Igreja Católica passou a ter, afinal, um papa menos conservador do que Bento 16 em relação aos homossexuais.

Mas agora o que se verifica é que talvez a maior diferença entre Bento 16 e Francisco é que este é um bom marqueteiro, está construindo a imagem de bonzinho, de tolerante, mas na essência é tão conservador quanto o seu antecessor, pelo menos em relação aos homossexuais.

O papa que há dois anos humildemente deixou entendido que não faria julgamento de uma pessoa gay está agora recusou Laurent Stefanini (na foto abaixo), 55, como embaixador da França no Vaticano por ser gay.

Francisco está fazendo o mesmo que Bento 16, que em 2008 teria recusado um homossexual (que adotou o sobrenome do companheiro) para a embaixada da França no Vaticano.

Na época, Bento 16 teria reprovado uma segunda indicação francesa por se tratar de um homem divorciado que tinha se casado de novo.

Em favor da honestidade intelectual de Bento 16, pode-se dizer que ele nunca sugeriu que não julgaria uma pessoa por ser gay.

O papa alemão nunca foi tão popular como é hoje Francisco, mas sempre se sabia que estava falando. Bento 16 não fazia marketing, não posava de bonzinho.


Stefanini tem qualificação 
para cargo, mas é gay
O presidente François Holland está disposto a manter a indicação de Stefanini, reafirmando a laicidade do regime democrático francês.

O ministério das Relações Exteriores afirmou que não se manifesta sobre a vida particular de seus funcionários.

Católico fervoroso, Stefanini tem experiência para ser o embaixador da França no Vaticano. Ele trabalhou na embaixada francesa da Santa Fé entre 2001 e 2005. Depois, foi conselheiro para assuntos religiosos do Ministério das Relações Exteriores.

Ele tem experiência de sobra para ocupar o cargo de embaixador no Vaticano. Mas, ao que parece, para o papa marqueteiro Stefanini não é homem o suficiente, como se na hierarquia da própria Igreja Católica não existissem homossexuais.

No Paulopes
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Lésbicas registram a chegada do seu 2º filho e inspiram outros casais

Lésbicas registram gravidez e dia a dia da família em fotos e fazem sucesso na internet. Após nascimento do segundo filho, Melanie Roy e Vanessa Iris Roy querem inspirar outras mulheres a serem mães

Casal tem dois filhos. Vanessa Iris engravidou primeiro; Melanie engravidou depois
Há dois meses um casal da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, divulgou fotos de um ensaio da segunda gravidez no Instagram. O que as mamães Melanie Roy e Vanessa Iris Roy não imaginavam é que uma montagem com uma foto lado a lado das duas gestações fosse fazer sucesso na internet e viraria inspiração para outros casais

A primeira foto foi tirada em janeiro de 2012, quando Vanessa Iris estava grávida do filho Jax. E em janeiro deste ano a fotografia mostra Melanie com esperando a pequena Ero. Hoje, o casal publica várias fotos de seus filhos na rede social e diz que está surpreso com a fama na internet. “É uma loucura ver que as pessoas estavam se referindo à minha família como uma inspiração. Nós ainda estamos em choque”, disse Melanie Roy ao jornal “The Huffington Post”

De acordo com reportagem publicada pelo Huffington Post, elas esperavam que as fotos servissem de estímulo para outros casais gays. “Vanessa e eu sempre dissemos que nós duas gostaríamos de engravidar. O corpo da mulher é incrível. A maneira como ele cria e faz crescer outro ser humano é impressionante. Esperamos que a nossa imagem seja o sinal do qual algumas mulheres precisam para incentivá-las a engravidar”, disse. Melanie, que continua compartilhando fotos da família em seu Instagram, onde mostra o dia a dia das duas mães com os filhos.

Veja mais fotos da família:

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No Pragmatismo Político
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O teste

Homem e mulher na cama. Domingo de manhã. Homem acorda primeiro. Vê mulher ao seu lado e dá um grito de susto. Mulher acorda.

— Que foi?!

— Quem é você?

— Enlouqueceu, Carlos Alberto? Sou eu. Combinamos passar um fim de semana juntos. Como um teste, antes do casamento. Lembra?

— Desculpe. É que não reconheci você. Você tem sempre essa cara, de manhã?

— Que cara?

— Cara de quem acabou de acordar.

— Tenho, né, Carlos Alberto? Aliás, todo mundo acorda com cara de quem acabou de acordar. Você também.

— Eu?! Ei, onde você vai?

— Vou ao banheiro fazer o que eu faço todas as manhãs. Xixi, dentes, banho. Minhas ablações...

— Não, não, não. Eu primeiro. A) porque eu preciso fazer xixi logo depois de levantar, senão descontrola todo o meu dia, e b) não é “ablação”, é “ablução”.

— “Ablução”?! E “ablação” o que é?

— É “falação” em espanhol.

— E se a gente tomasse banho juntos?

— Romantismo a esta hora, não.

— Pelo menos pra poupar água.

— Não. 


Mais tarde. Os dois atirados no sofá da sala, cada um para um lado. Ela tem o controle da televisão na mão.

— Você vai ficar trocando de canal desse jeito?

— Arrã.

— Eu posso ficar com o controle um pouco?

— Ahn-ahn.

— “Ahn-ahn” é sim ou não?

— “Ahn-ahn” é não. Sim é “arrã”.

— Você não para de trocar de canal. Deixa o controle comigo um pouco. Pra ver se estão passando o futebol. 

— Ahn-ahn.

— Acho que essas coisas a gente deveria combinar agora. Quem vai no banheiro primeiro, quem controla a televisão, o que fazer o dia inteiro, nos domingos... 

— Mmm.

— “Mmm” o que é?

— “Mmm” não é nada. “Mmm” é mmm. Um som neutro. Significando que eu estou aqui e estou ouvindo você.

— Em língua de casado?

— Arrã.

Luís Fernando Veríssimo
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Em nota de pesar, Dilma lamenta a morte do ex-ministro Mendes Ribeiro

A presidenta Dilma Rousseff lamentou, neste domingo (10), a morte do ex-ministro gaúcho Mendes Ribeiro. Em nota divulgada pela Secretaria de Imprensa da Presidência da República, Dilma enalteceu a luta de Ribeiro pela democracia e por um país mais justo e menos desigual.

Confira a nota na integra:

“É com imensa tristeza que recebi a notícia da morte do meu amigo, ex-ministro Mendes Ribeiro. Hoje é um dia triste  para todos nós que lutamos, como Mendes Ribeiro, pela democracia e por um país mais justo e menos desigual. É com dor que sinto sua partida. Meus sentimentos à dona Fernanda, aos filhos e amigos. Mendes era um amigo leal e um político sempre pronto para o diálogo e a tolerância”.

Dilma Rousseff
Presidenta da República
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História de crimes e mentiras

Estes dias de maio, há 70 anos, celebravam o fim da Segunda Guerra Mundial com uma euforia a que não faltava indisfarçável sentimento de vingança rancorosa contra a Alemanha e seu povo. Ao passar das semanas e meses, as expressões da alegria se esgotaram e cresceu a ira contra os alemães, com as sucessivas revelações das desumanidades nazistas. Abriam-se para o mundo capítulos terríveis da história dos vencidos, mas se vedavam outros na história dos vencedores, para que permanecessem ignorados pelo mundo.

Não muito depois daqueles dias, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill diria, em discussões sobre um tribunal para os crimes dos chefes nazistas, uma frase franca: "Passamos pelo risco de lá estarmos nós". Churchill escreveu muito sobre a Segunda Guerra, e, com diferentes formas, exprimiu muitas vezes aquela percepção. Foi um dos pontos em que não precisou mentir, como a sucessão dos anos e das revelações mostraria contra muitos outros trechos.

Americanos e britânicos cometeram muitos crimes de guerra, que a historiografia descreve mas não qualifica. Cidades alemãs arrasadas e populações trucidadas por bombardeios aéreos quase sem intervalo, divididos entre a aviação americana durante o dia e os britânicos à noite. O próprio Churchill é duríssimo ao citar a destruição de Dresden e Colônia em sua longa "História da Segunda Guerra Mundial" (oito volumes na edição inicial).

Como responsável pela avaliação, na Alemanha vencida, dos reais efeitos da tática de bombardeios maciços, John Kenneth Galbraith conta em suas memórias as decepcionantes conclusões da investigação. A população civil, e não a indústria, foi a mais arruinada pelos bombardeios. Destes Churchill pôde falar, mas não de um outro.

A cidade inglesa de Coventry foi destruída por gigantesco bombardeio alemão. O primeiro-ministro Churchill estava informado de que haveria o ataque. Não mandou evacuar a cidade, nem outra medida para proteger a população, convencido de que fazê-lo indicaria aos alemães a decifração do seu código. A decisão quase inacreditável só veio a ser conhecida 36 anos depois. Graças a um livro de apenas 200 páginas, mas tão perturbador, da história contada da Segunda Guerra e de muitos dos seus chefes, que um acordo tácito o encobriu tanto quanto possível.

Menino ao tempo da guerra, e desde então apegado ao tema, nos anos 70 e por desfastio passei os olhos em um exemplar — na seção de livros, claros — da oficialesca "Time". Era a de 9.12.74. E me surpreendi com a resenha de um certo "The Ultra Secret": o inglês F.W.Winterbotham, ex-piloto e depois integrado ao "serviço de inteligência" da força aérea, aos 76 anos vê-se como último a saber toda a história de um lado secreto da guerra. Decide contá-lo, por instância familiar, para que não se perca. Importar livro com aquele título, na ditadura, daria em aborrecimento. O sociólogo Luciano Martins o trouxe.

Depois de tanta leitura sobre a guerra, tudo iria recomeçar: Winterbotham conta como foi quebrado o código secreto do comando alemão, inclusive o de Hitler, e como uma equipe de cientistas e técnicos, por ele gerenciada nos arredores de Londres, conduziu a finais favoráveis tantos momentos decisivos da guerra. Há pouco, o autor central da quebra do código, Alan Turing, tornou-se assunto frequente na imprensa por ter um arremedo da sua vida contado em filme, mais por sua oprimida homossexualidade que por ser um dos inventores fundamentais do computador.

Todos os grandes êxitos contra os alemães partiram da decifração das ordens, localizações e planos trocados entre os comandos e as forças nazistas. Até a invasão da Normandia foi salva pelo conhecimento prévio das ações inimigas. Mas, nunca perdoados pelos americanos, os ingleses lhes deram as informações sem jamais lhes passarem o sistema de decifração, certos de que fariam alguma asneira. Ainda assim, fizeram: informados, abateram o avião que levava o almirante Yamamoto. Não só sinalizaram a decifração do código, como mataram o principal favorável japonês a um acordo para acabar a guerra.

Os 70 anos da vitória dos Aliados na Segunda Guerra coincidem com os 40 anos da derrota dos Estados Unidos no Vietnã. Esta guerra ainda não tem o seu Winterbotham. Mas desde o primeiro momento tem história tão mentirosa quanto a Segunda Guerra Mundial. E com muito mais crimes de guerra que não tiveram o seu Tribunal de Nuremberg.

Mal começavam as hostilidades, depois ficou provado, aviões dos Estados Unidos despejaram produtos tóxicos que mataram 76 pessoas. O "agente laranja", desfolhante venenoso lançado nas florestas e plantações, ainda faz vítimas. A principal arma de bombardeio foi o napalm, bomba cuja explosão libera uma gelatina em chamas que gruda no corpo e nos objetos. A guerra química é a mais forte proibição da Convenção de Genebra. Os norte-americanos a praticaram em larga escala durante 11 anos.

Foram bonitas as celebrações da vitória feita por mentiras de competência militar. Não se tem notícia das celebrações da vitória vietnamita sobre as mentiras derrotadas.

Janio de Freitas
No fAlha
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