3 de mai de 2015

Imperdível: O real encerramento do programa Painel de William Waack


Para você, quais são as imagens que marcaram esta semana?

Agora veja quais foram as imagens selecionadas por William Waack.



Mas, para que não pensem que Waack manipulou "as imagens que marcaram a semana", veja aqui o verdadeiro encerramento do programa Painel na Globo News, que lamentavelmente deixou de ir ao ar.


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Lado B

Todos nós temos outro por dentro. Todos temos um Lado B. Imagine você e o seu Outro sobre um palco.

VOCÊ — Branco

O OUTRO — Preto.

VOCÊ — Por que não cinza?

O OUTRO — Lá vem você com essa sua absurda mania de conciliação. Essa volúpia pelo entendimento. Essa tara pelo meio-termo!

VOCÊ — Se não fosse isso, nós não estaríamos aqui. Foi minha moderação que nos manteve vivos e longe de brigas. Foi minha ponderação que nos preservou. Se eu fosse atrás de você...

O OUTRO — Nós teríamos vivido de verdade! Pouco, mas com um brilho intenso.Teríamos dito tudo que nos viesse à cabeça. Distinguido o pão do queijo com audácia. Posto pingos destemidos em todos os "is". Dado nome e sobrenome a todos os bois!

VOCÊ — Em vez disso, fomos civilizados. Isto é, contidos e cordatos.

O OUTRO — E temos os tiques nervosos para provar.

VOCÊ — Você preferiria ter dito a piada que magoaria o amigo? A verdade que destruiria o amor? O insulto que nos levaria ao Pronto Socorro, setor de traumatismo?

O OUTRO — Preferiria. Para poder dizer que não me calei. Para poder dizer "Eu disse!"

VOCÊ — Ainda bem que não é você que manda em nós.

O OUTRO — Não, é você. Sempre fazemos o que você determina. Ou não fazemos. Não dizemos. Não vivemos! Estou dentro de você, fazendo, dizendo e vivendo só em pensamento. Se ao menos eu pudesse sair aos sábados...

VOCÊ — Para que, para nos matar? Pior, para nos envergonhar?

O OUTRO — Melhor se envergonhar pelo dito e o feito do que pelo não dito e o adiado. Você sabe que cada soco que um homem não dá encurta a sua vida em dezessete dias? E cada vez que um homem pensa em sair dançando um bolero sozinho e se controla, seu fígado diminui e sua próstata aumenta? E cada...

VOCÊ — Bobagem. Ainda bem que eu sou o verdadeiro nós.

O OUTRO — Não, eu sou o verdadeiro você.

VOCÊ — Você só é nós em pensamento. Você é a minha abstração.

O OUTRO — Sou tudo o que em nós é autêntico e não reprimido. Ou seja: você é a minha falsificação.

VOCÊ — Você não é uma pessoa, é uma impulsão.

O OUTRO — Você não é uma pessoa, é uma interrupção.

VOCÊ — Mas quem aparece sou eu.

O OUTRO — Então o que eu estou fazendo neste palco, e ainda por cima de malha justa?

VOCÊ — Você só está aqui como uma velha tradição teatral, o interlocutor. Um artifício cênico, para o Autor não falar sozinho.

O OUTRO — Quer dizer que eu só entrei em cena para dizer...

VOCÊ — Preto. E eu, branco.

O OUTRO — Por que?

VOCÊ — Para mostrar à plateia que todo homem é a soma, ou a mescla, das suas contradições. Que no fim o destino comum de todos, cremados ou não cremados, não é ser branco ou preto, é ser cinza.

O OUTRO — Mostrar a quem?

VOCÊ — À pla... Onde está a platéia?!

O OUTRO — Foram todos embora.

VOCÊ — Será porque não entenderam o diálogo?

O OUTRO — Acho que foi porque entenderam.

Luís Fernando Veríssimo
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A crise vai se agravar, mas a esquerda se uniu e Lula voltou

Nasceu a frente de esquerda ordenada na certeza de que o governo Dilma será aquilo que a rua conseguir que ele seja. E uma voz rouca avisou: 'Vou à luta'

Alguma coisa de muito importante aconteceu no histórico Vale do Anhangabaú, em São Paulo, nesta sexta-feira, 1º de Maio.

Quem se limitou ao informativo da emissão conservadora perdeu o bonde.

O tanquinho de areia do conservadorismo, sugestivamente deixou escapar o principal ingrediente desta sexta-feira, que pode alterar as peças do xadrez político brasileiro.

Preferiu o glorioso jornalismo cometer pequenas peraltices.

Tipo contrastar a imagem de Lula com um cartaz contra o arrocho de Levy, como fizeram os petizes da Folha.

Blindagens ideológicas e cognitivas ilustram um traço constitutivo daquilo que os willians — Bonner e Waack — denominam de ética da informação.

Trata-se de não informar, ou camuflar o principal em secundário. E vice versa.

Não houve sorteio de geladeira no 1º de Maio da esquerda brasileira. Mas os assalariados talvez tenham tirado ali a sorte grande — a mais valiosa de todos os últimos maios.

No gigantesco palco de mobilizações épicas, que reuniu um milhão de pessoas há 31 anos para lutar por eleições diretas, a história brasileira deu mais um passo que pode ser decisivo para impulsionar vários outros nos embates que virão.

Porque virão; com certeza virão.

Essa certeza permeava o Dia do Trabalhador na larga manhã da sexta-feira no Anhangabaú.

A engrenagem capitalista opera um conflito independente da vontade de seus protagonistas. A direção que ele toma, porém, reflete o discernimento histórico dos atores sociais de cada época.

A chance de que o embate resulte em uma sociedade melhor depende, portanto, de quem assumir o comando do processo.

As lideranças que estavam no Anhangabaú deram um passo unificado nessa direção.

Que esse movimento tenha escapado às manchetes faceiras ilustra a degeneração de um aparato informativo que já não consegue se proteger de suas próprias mentiras.

Os que enxergam no trabalho apenas um insumo dos mercados, um entre outros, nivelaram a importância do Anhangabaú ao que acontecia no palanque do Campo de Bagatelle quase à mesma hora.

Lá se espojavam aqueles que com a mesma sem cerimônia risonha operam a redução do custo da ‘matéria-prima humana’ no Congresso brasileiro.

Sorteios de carros e maximização da mais-valia compõem a sua visão de harmonia social, que remete ao descanso da chibata na casa grande em dia de matança de porco.

Vísceras, os intestinos, eram franqueados então com alguma generosidade nos campos de Bagatelle pioneiros, em que paulinhos ‘Boca’ vigiavam a fugaz confraternização da casa grande com a tigrada ignara sob sua guarda.

A mais grave omissão do ciclo de governos progressistas iniciado em 2003 foi não ter afrontado essa tradição de forma organizada, a ponto de hoje ser ameaçado por ela.

Porque muito se fez e não pouco se avançou em termos sociais e econômicos, mas esse flanco ficou em aberto.

O vazio era tão grande que se cultivou a ilusão de que avanços materiais seriam suficientes para impulsionar o resto por gravidade.

A primeira universidade brasileira, contou Lula no Anhangabaú, só foi construída em 1920.

Colombo descobriu a América em 1492.

Em 1507, 15 anos depois de chegar à República Dominicana, Santo Domingo já construía sua primeira universidade.

A elite brasileira demorou quatro séculos anos para fazer o mesmo, reverberou Lula.

Tome-se o ritmo de implantação do metrô em duas décadas de poder tucano em São Paulo.

Compare com a extensão em dobro da rede mexicana, ou a dianteira argentina, chilena etc.

O padrão não mudou.

O que Lula estava querendo dizer ao povo do Anhangabaú tinha muito a ver com isso: o desenvolvimento brasileiro não pode depender de uma elite que continua a dispensar ao povo os intestinos do porco.

O recado para quem não enxerga diferença entre um governo progressista e a eterna regressão conservadora protagonizada agora pelos sinhozinhos Cunha, Aécio, Beto Richa, Paulo Skaf... foi detalhado e repisado.

Foi um metalúrgico sem diploma, espicaçou aquele que ocupa a vaga de melhor presidente do Brasil na avaliação popular, quem promoveu a mais expressiva democratização da educação brasileira.

Nos governos do PSDB a tradição colonial se manteve.

O sociólogo poliglota não construiu nenhuma universidade em notável coerência com a obra que traz a sua assinatura como autor e protagonista: a teoria do desenvolvimento dependente.

Para que serve uma universidade se já não faz sentido ter projeto de nação?

Lula criou 18 universidades.

Reescreveu na prática a concepção de soberania no século XXI. Instalou-a na fronteira expandida entre a justiça social, a integração latino-americana e o fortalecimento dos BRICs.

A nostalgia colonial-dependente, ao contrário, orientou o ciclo da República de Higienópolis na frugal atenção dispensada à formação de quadros para o desenvolvimento.

FHC não assentou um único tijolo de escola técnica em oito anos em Brasília.

Para que escola técnica se a industrialização será aquela que o livre comércio da ALCA permitir?

Juntos, Lula e Dilma fizeram 636 até agora.

Com o Prouni, o número de jovens matriculados nas universidades brasileiras passou de 500 mil para mais de 1,4 milhão.

Em vez de herdar as vísceras da sociedade, tataranetos de escravos, índios e cafuzos, cujos pais muitas vezes sequer concluíram a alfabetização, começaram a ter acesso a uma vaga no ensino superior pelas mãos do metalúrgico e da guerrilheira mandona.

Sim, tudo isso é sabido. A ‘novidade’ agora é desfazer do sabido.

Mas Lula somou ao histórico a estocada que calou fundo no silêncio atento do Anhangabaú.

O retrospecto do ex-presidente cuja cabeça é solicitada a prêmio a empreiteiros com tornozeleira prisional, tinha por objetivo desnudar o escárnio embutido no projeto de redução da maioridade penal.

As elites agora, fuzilou um Lula mordido e determinado, querem se proteger do legado criminoso de cinco séculos, criminalizando a juventude pobre do país.

Passos significativos foram dados em seu governo para minar a senzala que ainda pulsa no metabolismo da sociedade brasileira.

Mas a voz rouca machucada atesta o golpe por haver se descuidado do embate que viria contra aqueles que mostravam os caninos como se fosse sorriso.

Agora se vê, eram maxilares de feras.

À primeira turbulência do voo incerto e instável da dinâmica capitalista o sorriso virou mordida de pitbull.

A pressão coercitiva mobiliza diferentes maxilares: o do juiz em relação aos suspeitos da Lava Jato que visa a jugular do PT e do pré-sal; o do ajuste recessivo que ameaça com o caos; o da terceirização que coage com o desemprego maciço; o da exigência branca à renúncia de Lula a 2018 — ou arcará com a suspeição perpétua que a lixeira da Abril e da Globo despeja semanalmente no aterro mental da classe média.

Coube ao presidente da CUT, Vagner Freitas, marcar a ruptura com a omissão histórica que abriu o flanco da história brasileira ao jogral espoliador da democracia e da sociedade.

Didático, habilidoso, o líder sindical chamou um a um os representantes das centrais, movimentos e partidos presentes no 1º de Maio do Anhangabaú.

Aos olhos de milhares de pessoas, gente do povo basicamente, uns que vieram porque são organizados — outros, porque pressentem que um perigo ronda o Brasil nesse momento, Vagner materializou o passo seguinte há muito esperado e cobrado por todos aqueles que sabem o motivo pelo qual o governo Dilma hoje engole os sapos que rejeitava ontem.

A avalanche intimidadora que em poucos meses virou de ponta cabeça o programa vitorioso em 26 de outubro não cessará, a menos que a detenha uma frente política de abrangência e contundência maior que a resistência dispersa das partes nos dias que correm.

Foi essa mutação que o vale do Anhangabaú assistiu nesse 1º de Maio.

O presidente da CUT chamou para a frente do palco os dirigentes da Intersindical e da CBT, chamou Gilmar, do MST, chamou Boulos, do MTST, e outros tantos; e através deles convocou quase duas dezenas de organizações presentes.

Vagner apresentou ao Anhangabaú a unidade da esquerda brasileira em torno de uma linha vermelha a ser defendida com unhas e dentes: a fronteira dos direitos, contra a direita.

Fez mais que retórica, porém.

Submeteu ao voto dos ocupantes da praça e do palco uma agenda de lutas.

Devolveu ao 1º de Maio a identidade de uma assembleia popular de quem vive do seu trabalho.

Braços erguidos, o Anhangabaú aprovou uma contraofensiva ao cerco conservador.

‘Anote’, disse Vagner ao final dos escrutínios: dia nacional de protesto em 29/05, para pressionar o Senado a rejeitar o PL 4330; uma greve geral, caso o Congresso aprove a medida; e uma marcha a Brasília para levar Dilma a rejeitar o projeto, caso passe no Senado.

Engana-se quem acredita que isso saiu de graça.

Vagner Freitas uniu as forças da esquerda porque a CUT, a partir de agora, comprometeu-se a lutar lado a lado, unida aos demais movimentos e organizações, contra projetos de lei que arrochem direitos e conquistas dos trabalhadores.

Foi um realinhamento do desassombro com a responsabilidade histórica da esquerda que fez desse Dia do Trabalhador uma singularidade capaz de produzir outras mais.

Em boa hora.

A crise econômica vai se agravar nos próximos meses; esse era o consenso subjacente à união selada no palanque.

O conservadorismo saltará novos degraus em direção ao golpe –seja na forma do impeachment ou na tentativa de proscrever o PT e com ele as chances eleitorais do campo progressista em 2018.

O êxito do ajuste recessivo do ministro Joaquim Levy depende do desajuste do emprego e da expropriação dos ganhos reais de salários acumulados nos últimos anos (de 70% no caso do salário mínimo)

Estamos na primeira volta do torniquete.

Mas a renda real do trabalhador já registrou uma perda da ordem de 4% em março, em relação a igual período de 2014.

A evolução do desemprego não é menos cortante.

Os dados reunidos em nota técnica da Fundação Perseu Abramo são claros: vive-se uma escalada.

A taxa desemprego medida pelo IBGE subiu forte nas grandes capitais em março: 6,2%.

Era de 5,9% em fevereiro; 5,3% em janeiro; 5% em março de 2014

Despejar a conta do ajuste nas costas do assalariado significa submeter o custo do trabalho à pressão de uma turquesa feita de desemprego e queda do poder de compra.

Espremidos, os assalariados serão convocados a apoiar falsas promessas de desregulação redentora de vagas, a exemplo do PL 4330.

Na semana passada o Banco Central elevou em mais meio ponto a taxa de juro, que já é a mais alta do planeta.

É a senha do choque.

Apenas essa pisada custará mais R$ 12 bilhões em 12 meses aos cofres públicos: juros adicionais sobre uma dívida pública de R$ 2,4 trilhões.

O impasse está contratado.

De um lado, a recessão derruba a receita e o emprego; de outro, o governo é intimado a carrear mais recursos escassos à ração gorda dos rentistas.

Menos receita com mais gastos.

Essa é a fórmula clássica para tanger um governo — qualquer governo que não disponha de uma hegemonia baseada em ampla organização popular — ao precipício das privatizações saneadoras e dos cortes de programas e investimentos devastadores.

Quem acha que a ganância será saciada com a terceirização deveria informar-se sobre as novidades no mundo do trabalho inglês.

Sob o comando de engomados filhotes de Tatcher a economia britânica experimenta um novo patamar de flexibilização do mercado de trabalho.

A modalidade just-in-time já caracteriza 2,5% da mão de obra empregada, informa o jornal El País, sendo o segmento que mais cresce na economia.

A pedra filosofal desse novo assalto à regulação trabalhista é o vínculo empregatício baseado em salário zero.

Em que consiste a coisa notável?

Consiste em estocar mão de obra às custas da própria mão de obra.

Quando necessário aciona-se o almoxarifado social pagando apenas as horas efetivamente usadas do ‘insumo’.

Marx, você não entendeu nada de baixar o custo de reprodução da mão de obra.

Em vez da CLT, um taxímetro.

No futuro a metáfora poderá assumir contornos reais mais sofisticados, como um chip subcutâneo que permita monitorar o empenho muscular para seleção dos mais aptos.

Esse, o admirável mundo novo descortinado do palanque do Campo de Bagatelle no 1º de Maio de 2005 pelos sorridentes perfis de Cunha, Aécio e Paulinho ‘Boca’, da Força.

Afrontar esse horizonte em marcha é o que ultimou a união da esquerda no extremo oposto da cidade no mesmo dia.

Tolice supor que centrais paralelas à CUT, como a Intersindical, ou o aguerrido Guilherme Boulos, prestar-se-iam a uma cenografia unionista alegórica no Dia do Trabalhador.

O que se assistiu no Anhangabaú foi o nascimento de um pacto.

Que tem agenda e eixo de luta ancorados no entendimento de que o governo Dilma será aquilo que a rua conseguir que ele seja.

Não desobriga a Presidenta de honrar compromissos de campanha, a começar pela rejeição ao vale tudo do PL 4330.

Mas divide o desafio da coerência.

Construi-la requer uma nova correlação de forças indissociável de uma frente ampla progressista.

Quem mesmo assim continua a duvidar da determinação pactuada no legendário Anhangabaú, deve assistir (abaixo) a íntegra do pronunciamento visceral do mais aplaudido orador do dia.

Lula fechou o ato com um aviso à direita buliçosa.

Essa que ao mesmo tempo o desdenha como líder morto, mas oferece a liberdade como recompensa ao pistoleiro capaz de alvejá-lo com uma denúncia mortal.

Qual?

Qualquer denúncia. Desde que impeça a assombração das elites de reaparecer como candidato em carne e osso em 2018.

No 1º de Maio de 2015, a voz do fantasma ecoou mais rouca e forte que nunca.

Para dizer ao conservadorismo golpista, antinacional e anti-trabalhador: o ectoplasma não vai esperar até 2018.

‘Vou correr o Brasil, vou me encontrar com trabalhadores, com jovens, operários, camponeses e empresários...’

‘Eu aceito o desafio’, disparou a voz rouca, ferida, ressentida, mas convencida de que ainda tem uma tarefa incontornável a cumprir no país: terminar o que começou, tarefa que o mercado sozinho jamais o fará.

Cunha, Aécio, Skaf não se iludam com o noticiário generoso dos petizes da Folha.

Algo mudou no Brasil neste 1º de Maio de 2015.

E não foi apenas o preço do aluguel do sindicalismo de Bagatelle.

Assistam a fala de Lula no Anhangabaú:



Saul Leblon
No Carta Maior
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Casal evangélico procura uma escrava entre 12 e 18 anos


No Estado campeão de trabalho escravo, a prática é antiga, porém ainda comum, mas praticada de forma velada em diversos lares paraenses, mas hoje ao ser novamente anunciada em um jornal de grande circulação e vendagem, causou furor nas redes sociais: O uso de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e econômica, recrutadas de famílias pobres bolsões de miséria, nos municípios do interior do Estado do Pará, para serem usados em trabalho análogo ao de escravo.

Segundo informações que circulam nas redes sociais, uma juíza paraense entrou em contato com a família e constatou a veracidade das informações do anúncio e indagou se a "adoção" poderia ser de uma pessoa com mais de 18 anos e foi informada que não.

Diante do caso, vários advogados e membros do Ministério Público, além de duas magistradas que coordenam a campanha estadual de erradicação do trabalho infantil do TRT8 e TST, já se prontificaram em cobrar explicações da direção do jornal e prometem a partir de amanhã instalar uma investigação sobre o caso e processar a família que anunciou a adoção ilegal.

O blog lembra como eram os anúncios do tempo em que a escravidão era uma das principais atividades econômicas deste país e que se mantém sob a disfarces de "adoção" e trabalho no campo e pergunta: Você não conhece ninguém que tenha uma "menina do interior" trabalhando como doméstica em alguma casa ou apartamento em Belém do Pará?


No As Falas da Pólis
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Uma radiografia da manipulação

Ouça aqui



Educadores que participaram, na terça-feira (29/4), do debate na sede da Ação Educativa, em São Paulo, questionam por que este observador considera que a mídia tradicional do Brasil apoia e potencializa a agenda conservadora que segue tramitando em velocidade anormal na Câmara dos Deputados (ver aqui).

De fato, não basta registrar que os parlamentares afinados com o ideário mais retrógrado na diversidade do Congresso aproveitam a crise política insuflada e sustentada pela imprensa para fazer o Brasil avançar rumo ao passado. É preciso mostrar como, na prática, a mídia faz esse trabalho sujo.

Nas edições de sexta-feira (1/5), os jornais destacam o fato de a presidente da República, que foi sitiada em Brasília desde sua eleição, em dezembro, ter optado por não se pronunciar na televisão por ocasião do Dia do Trabalho. A presidente se omite para evitar se expor a essa situação estimulada pela imprensa diariamente. No limite da governabilidade, a jovem democracia brasileira enfrenta seu maior desafio desde o fim da ditadura militar, e corre o risco de ver crescer uma onda de retrocesso institucional, à sombra desse protagonismo da mídia.

Há muitos aspectos a serem considerados nesta encruzilhada da vida nacional. Por exemplo, o fato de a aliança que governa o país contar entre seus aliados com a bancada do Partido Progressista, cujo nome é um acinte ao sentido real da sua representação política. No programa gratuito da sigla, quinta-feira (30/5) à noite, o que se ouviu sobre a proposta de redução da maioridade penal foi um despautério de bobagens, no estilo típico dos programas policialescos da televisão. O credo reacionário desses aliados do governo petista pode ser resumido na seguinte frase, dita em tal programa: “As leis garantem direitos demais”.

Com tais amigos, o governo federal realmente não precisa de oposição. Mas a situação é ainda pior na porção maior da base controlada pelo PMDB, que se dividiu em três facções, duas das quais, sob o comando do presidente do Senado, Renan Calheiros, e do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, desdenham da liderança do articulador político do governo, o vice-presidente Michel Temer.

Dano colateral

A imprensa explora esses desentendimentos, dando amplo destaque a qualquer coisa que digam Calheiros e Cunha, desde que represente algum desgaste do Executivo. O jornalismo declaratório é colocado a serviço desse processo que desgasta não apenas a imagem do Executivo, mas principalmente desacredita o Parlamento e a própria política. Esse cenário estimula as vozes do obscurantismo, que ainda pedem a volta da ditadura militar.

O eixo das manipulações vai de alto a baixo, em todas as instâncias onde esteja no poder o partido que lidera a aliança governamental em Brasília: na sexta-feira, por exemplo, a Folha de S. Paulo oferece como manchete uma bobagem retirada do noticiário sobre um dos corriqueiros conflitos na região da capital paulista conhecida como Cracolândia. O ataque da polícia do Paraná contra servidores públicos, que deixou mais de 200 feridos, sumiu da primeira página, substituído pelo seguinte título: “Gestão Haddad falou com tráfico antes de agir na cracolândia”.

Embora um editorial da Folha, com o título “Os excessos de Richa”, critique a violência policial no Paraná, o jornal paulista cria um factoide em cima da prática rotineira de funcionários da prefeitura de São Paulo ao negociar o ingresso em um ambiente de alto risco como é a Cracolândia.

Ora, este observador já havia publicado, em pelo menos duas ocasiões, que reina naquela região um pacto silencioso entre agentes públicos, voluntários e representantes do crime organizado para manter sob controle a venda de crack aos dependentes (ver aqui e aqui).

Observa-se que, toda vez que, em algum lugar do Brasil, um político da oposição apoiada pela imprensa se coloca em situação constrangedora, os jornais tratam de contrapor o fato a algum evento envolvendo políticos do Partido dos Trabalhadores ou seus aliados. Assim, o contexto negativo que envolve o governador tucano do Paraná é coberto por um factoide criado pela Folha para atingir o prefeito petista de São Paulo.

O que há por trás da manchete da Folha é o mesmo jogo pelo qual a mídia tradicional trata de demonizar um lado do espectro político, enquanto protege ou enaltece o outro lado. O fato de que essa manipulação estimula o avanço de projetos que podem jogar o Brasil de volta ao século 19 é considerado apenas um dano colateral nessa luta pelo poder.

Luciano Martins Costa
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Alckmin envia Tropa de Choque para fazer mestrado em Curitiba

"A educação começa em casa", ensina a polícia de Curitiba
CURITIBA - Admirado com a aula magna de cidadania ministrada pelo decano Beto Richa, o bacharel Geraldo Alckmin enviou a Tropa de Choque Paulista para um intercâmbio no Paraná. "Temos muito o que aprender com a polícia curitibana. Aqui em São Paulo sequer usamos pitbulls, por exemplo", explicou o governador paulista, com um ar desenxabido.

Catedráticos neoliberais elogiaram o modelo de repressão em tempo integral implementado por Beto Richa. “Era hora de dar um rumo de homem a essa cidade. Chega dessa viadagem de festival de teatro, Curitiba agora assume sua face de macho comedor”, filosofou Luiz Felipe Fondue, da província de São Paulo. Beto Richa reagiu com modéstia aos elogios: “É bom que os policiais não tenham diploma, porque gente formada normalmente é muito insubordinada", desconversou, segurando um porrete na mão.

A dupla de governadores estuda implementar um sistema de vigilância em todas as escolas estaduais para impedir que os professores disseminem a doutrina comunista. "Colocaremos sentinelas nas salas de aula. Toda vez que um professor de história citar Paulo Freire, Marx ou Eliane Brum, será castigado com palmatórias de efeito moral", explicou Richa, empunhando um taco de beisebol.

No The i-Piauí Herald



Professor de história leva alunos para protesto em aula prática sobre período da ditadura militar

O professor de história Aldemir Alves que a princípio faltaria um dia de trabalho em que daria uma aula sobre o período da ditadura militar para participar dos protestos no Paraná, resolveu unir as duas coisas e elaborou uma aula prática sobre o tema no próprio protesto.

O professor dava explicações da matéria aos alunos enquanto apanhava de policiais e inalava gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Segundo ele, essa seria uma forma de fixação do conteúdo pelos alunos, mais eficiente do que paródias de funk com letras adaptadas.

Um outro professor que foi ao protesto com objetivo de evitar qualquer tipo de confronto tentou ir vestido com uma camiseta da CBF para anular a agressividade da PM, mas infelizmente seu salário não deu para comprar a peça.

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Sadomasoquistas se fantasiam de professores só para apanhar no PR

Mais de 50 sadomasoquistas foram flagrados fantasiados de professores na manifestação no Paraná. Os intrusos foram descobertos pelos próprios professores, e afirmaram não ter qualquer interesse em sabotagem, mas apenas apanhar um pouco dos policiais. Segundo eles, o Brasil é um país livre e todos têm igual direito de apanhar.

Beto Richa, governador do PR, ordenou, no entanto, uma postura mais severa a todos os manifestantes; e os sadomasoquistas serão tratados implacavelmente com cassetetes infláveis de plástico, spray de mel sem álcool e balas de tutti frutti.

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Ministério do Trabalho inclui “Professor” como Atividade Perigosa na nova NR 16

Após os combates ocorridos essa semana no Paraná, deixando mais de 200 professores feridos, o Ministério do Trabalho e Emprego, órgão responsável pela criação e manutenção nas Normas Regulamentadoras (NR) incluiu a profissão de “Professor” na nova edição da NR 16 – Atividades e Operações Perigosas, lançada em comemoração ao dia 1 de Maio.

Os professores reconhecem a mudança como uma vitória para a classe, que já pode ser comparada com a fabricação de explosivos, atividades envolvendo produtos inflamáveis e substâncias radioativas. No entanto a mudança pode ser barrada no futuro, pois as atividades que constam na NR 16 recebem obrigatoriamente um aumento salarial de 30%, o que não ocorreu nenhuma vez na história recente dos professores, e que poderia acabar com as manifestações, deixandor a polícia militar sem ter com quem treinar defesa pessoal.

No Sensacionalista
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Você é contra ou a favor? Senado faz enquete sobre terceirização

Enquete pode diminuir o vazio de representatividade
O Senado abriu uma enquete para ouvir a sociedade sobre o PL 4330, aprovado pela Câmara dos Deputados, através do Portal e-Cidadania. Para quem nunca participou desse mecanismo de consulta, opinar sobre esta matéria é um motivo para investir alguns cliques e uns poucos minutos para fazer o cadastro e votar. Até o final da manhã de domingo, cerca de cinco mil pessoas se manifestaram, com ampla vantagem para a rejeição da proposta.

Considerado por nove entre dez sindicalistas — sempre haverá um pelego, como Paulinho da Força — a mais grave ameaça aos direitos já conquistados pela classe trabalhadora brasileira, o PL 4330 chega ao Senado rebatizado de PLC 30 (Projeto de Lei da Câmara). É a mesma treva resgatada do mofo das gavetas da Câmara dos Deputados, depois de longos anos de tramitação silenciosa e dois arquivamentos.

Em nosso sistema bi-cameral (Legislativo com duas casas, a Câmara e o Senado), depois aprovado pelos deputados, um projeto deve passar pelo crivo do Senado, que funciona como câmara revisora. Em tese, a chamada Câmara Alta, representaria o equilíbrio da Federação, onde todos os estados têm o mesmo peso (três senadores por unidade da Federação). É o tal "contra-peso" para evitar a prevalência dos interesses daqueles estados mais populosos e mais fortes, economicamente, como São Paulo.

O "X" da questão é o defeito de origem do sistema político-eleitoral brasileiro: a sub-representação. Nada menos que 70% dos parlamentares são grandes proprietários de terras e empresários, embora numericamente os donos do capital não cheguem a 1% da população. Apenas 9% das cadeiras são ocupadas por mulheres, embora elas somem mais da metade, assim como os 51% de auto-declarados negros só encontrem 8,5% dos parlamentares com a mesma identidade étnica.

Ainda mais aterradora, é a sub-representação da juventude, considerando a população com idade entre 16 e 35 anos. Essa parcela de cidadãos e cidadãs talvez seja a mais ameaçada pela terceirização, pelo que ela projeta para suas vidas, até uma cada vez menos provável aposentadoria. São apenas 3% os deputados com menos de 35 anos — idade mínima para alguém se candidatar ao Senado.

A Casa do Povo está mais para a Casa Grande, como prova o caso em questão. A enquete, portanto, é uma boa oportunidade de falar aos 81 senadores e senadoras. A pressão das ruas serviu para aplacar a fúria do fundamentalista Eduardo Cunha e baixar o quórum a favor da terceirização. A mesma receita vale para os senadores e senadoras, escolhidos em votação majoritária, como prefeitos, governadores e presidentes. Nada substitui as ruas, mas vale a pena antecipar aos excelentíssimos, o que pensa a maioria do povo brasileiro, votando aqui.

Ernesto Marques
No Trabalhador da Notícia

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O estupro permanente da notícia


Há dois tipos de leitores de jornais: os que querem se informar, e os que querem ler apenas aquilo que lhes agrada. Os primeiros, são leitores; os segundos, torcedores.

Nos últimos anos, os grandes grupos jornalísticos abriram mão dos leitores. A notícia tornou-se uma ferramenta de guerra, que, como em toda guerra, pode ser estuprada, manipulada, distorcida.

* * *

Há inúmeros temas relevantes para se criticar Dilma, Lula e o PT: os erros da política econômica, o envelhecimento das ideias, a falta de propostas novas, o aparelhamento de muitas áreas, os problemas enfrentados pela Petrobras.

Mas, aparentemente, entre Pulitzer e William Randolph Hearst — o pai do jornalismo marrom —, a grande imprensa brasileira escolheu o segundo.

* * *

O Estado de S. Paulo, o augusto Estadão, que historicamente se colocava como um baluarte conservador, mas respeitador dos fatos, divulgou em sua versão online a manchete de que a Petrobras destruira gravações de reuniões do Conselho de Administração para sumir com provas.

O repórter entregou uma matéria responsável. Consultou dois diretores que lhe asseguraram que não era hábito, mesmo, guardar gravações de reuniões de Conselho. Serviam apenas para instruir as atas. Depois das atas escritas, as gravações eram destruídas. Só depois que estourou a Lava Jato é que decidiu-se preservar as gravações, caso houvesse necessidade.

Ao longo do dia, a manchete foi desmentida por diversos veículos online. No dia seguinte, na edição impressa, manteve-se o enfoque errado.

Em outros tempos, poucos saberiam. Na era da Internet, o erro já tinha se espalhado. Ao insistir em mantê-lo os editores expuseram o jornal e sua história a milhares de leitores que já tinham conferido os desmentidos.

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O mesmo aconteceu com a revista Época, em conluio com procuradores da República do Distrito Federal.

Desde que saiu da presidência, Lula assumiu o compromisso público de aproximar-se da África e trabalhar negócios brasileiros por lá. Por seu lado, há décadas a Construtora Odebrecht investiu na área e em outros países emergentes. Hoje em dia, atua em 28 países construindo todo tipo de obra.

Finalmente, há décadas o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) dispõe de uma linha de financiamento às exportações de produtos e serviços, o Proex, da qual o maior cliente — por ser a empreiteira brasileira com mais obras no exterior — é a própria Odebrecht.

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No entanto, procuradores irresponsáveis foram investigar as obras da Odebrecht no exterior e montaram um inquérito com base nos seguintes fatos:

Lula visitou Gana e dois meses depois a Odebrecht conquistou um projeto por lá. Os procuradores tentaram criminalizar o que se tratava de uma estratégia bem sucedida. E ligaram a visita de Lula ao fato da Odebrecht ter conseguido um financiamento do BNDES — sendo que ela já tem 35 financiamentos, para suas obras internacionais.

Esse conluio mídia-procuradores teve repercussão em todos os jornais.

Os jornais atingiram seus objetivos políticos. Mas o jornalismo saiu mais uma vez sangrando do episódio. E mostrou que não há diferença mais entre blogs partidários e jornais.

Luís Nassif
No GGN
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Entrevista com Paulo Henrique Amorim


Entrevista coletiva com Paulo Henrique Amorim no Festival da Juventude em Vitória da Conquista, Bahia, Brasil.

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A grande repressão tucana


Além de combater a CLT, PSDB dá novo passo para se aproximar da Republica Velha, aquela que dizia que a questão social é caso de polícia

Trinta anos depois do fim da ditadura militar, chegou a hora dos brasileiros acertarem o relógio a respeito dos métodos de governo do PSDB e o tipo de futuro que planeja para o país. Embora seus fundadores tenham participado da luta pela democratização, os governadores do PSDB tem acumulados recordes macabros em confrontos com a população.

Com pit-pulls, helicópteros, balas de borracha e bombas de gás, a brutalidade da Polícia Militar do governador Beto Richa é uma vergonha que não será esquecida tão cedo. Mais de 200 pessoas foram atendidas nos hospitais da região, numa mobilização que procurava, essencialmente, impedir que a Assembléia Legislativa, controlada pelo governo, legalizasse uma apropriação inacreditável do ponto de vista social: colocar a mão no fundo de pensão da aposentadoria dos professores para cobrir um rombo nas contas do Tesouro estadual. Não estamos falando daquelas operações contábeis — chamadas pedaladas –, praticadas por todos os governos federais depois que o país adotou a Lei de Responsabilidade Fiscal. O caso, no Paraná, era tungada mesmo.

“O centro de Curitiba transformou numa praça de guerra,” afirma Carmen Helena Ferreira Foro, vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores, presente aos protestos — onde teve de ser medicada por causa de um ferimento no braço, produzido por uma bomba. “Foram duas horas de tiroteio, uma insanidade ” diz ela.

O que se passou no Paraná foi um episódio muito grave, que não deve ser visto com um caso isolado. Em São Paulo, principal laboratório político tucano do país, Geraldo Alckmin transformou a repressão policial em instrumento regular de intervenção política. Estudantes universitários que ousam cometer atos de protesto — e mesmo gestos mais insolentes, próprios de seus hormônios políticos — são reprimidos e perseguidos judicialmente, arriscando-se a cumprir longas suspensões que podem atrasar e até impedir a formatura, com prejuízo para os cidadãos que, dentro ou fora das universidades, pagam pelo ensino público através de impostos.

A repressão violenta dos protestos iniciais contra aumento na passagem de transporte púlbico de 2013 será inesquecível por ter provocado uma revolta nacional, mas não serviu de lição. Em janeiro, um novo protesto contra o aumento de passagens foi atacado de forma violenta pela PM, reação desproporcional diante de uma vidraça quebrada. Indo mais para trás. Alguém esqueceu Pinheirinho?

Essa opção repressiva não acontece por um “descuido”, “excesso” ou “erro.” É uma decorrência da conversão do PSDB à doutrina mais radical da economia de mercado. Este processo levou o partido a abandonar compromissos com a negociação de políticas de bem-estar social que marcaram seus anos iniciais, trocando o papel que Mário Covas exerceu na Constituinte, como guardião dos direitos sociais, pelo objetivo que Fernando Henrique se colocou na posse presidencial, em 1994, de encerrar a Era Vargas. Em seu governo, FHC inaugurou o novo período ao colocar tanques do Exército nas ruas para enfrentar um protesto de petroleiros que queriam impedir a privatização da Petrobras.

Na nova etapa ideológica, a negociação de conflitos e a barganha entre interesses sociais divergentes, típica das sociedades democráticas, tornou-se inconveniente e disfuncional. Por isso, faz-se o possível para evitar negociação e qualquer tipo de concessão que possa servir de estímulo a novas mobilizações. A ideia é mostrar que as decisões são tomadas de cima e não deve haver esperança de que possam vir a ser modificadas — o que explica a recusa do Palácio dos Bandeirantes em sequer marcar um audiência de professores as vésperas de completar dois meses em greve.

Ao contrário do discurso exportado pelos republicanos norte-americanos, apontando para elementos de caráter libertário na opção pelo mercado, a experiência prática demonstra que ela cobra um culto à ordem.

Procurando avaliar a teoria e a prática liberal na obra Décadas de Espanto e uma Apologia Democrática, publicada em 1998, no final do primeiro mandato de FHC, o professor Wanderley Guilherme dos Santos lembra que “depois de criado, o Estado liberal transforma-se no estado em que a hegemonia burguesa não é seriamente desafiada. Trata-se de um estado cuja intervenção em assuntos sociais e econômicos tem por fim garantir a operação do mercado como o mais importante mecanismo de extração e alocação de valores e bens.”

Neste esforço para separar a realidade liberal do discurso liberal, o professor esclarece: “Não é de modo algum um Estado não intervencionista. Muito pelo contrário, o Estado liberal está sempre intervindo, a fim de afastar qualquer obstáculo ao funcionamento ‘natural’ e ‘automático’ do mercado.”

Entre os principais obstáculos que atrapalham esse funcionamento ‘natural’ e ‘automático’ encontram-se a a política econômica e a política trabalhista, que devem ser “completamente revistas e modificadas.”

Não chega a espantar, assim, que o PSDB, num esforço para ajustar as leis sociais a nova ordem, tenha assegurado os votos que garantiram a aprovação, na segunda votação da Câmara, do PL 4330.

É coerente, vamos combinar. Para um partido que quer eliminar a CLT, nada mais apropriado do que assumir o lema da Republica Velha, onde a questão social era um caso de polícia.

Com alguma imaginação é possível entender como a peça da repressão se encaixa em outra parte do jogo, aquela que estimula a judicialização da atividade política, questionando a soberania popular em nome da palavra final da Justiça.

Não é difícil entender o que está acontecendo, certo?

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Modus Operandi tucano


Angeli
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Ainda sobre os 50 da Globo

E os 50 anos da Globo? Os 50 anos da Globo, os 150 da Ana Maria Braga, os 500 da Susana Vieira e os não revelados da Glória Maria!

E aquela retrospectiva do "Jornal Nacional" é o que se chama de RETROFICÇÃO!

Eles pensam que a gente é criança. Não lembra.

E a Xuxa comemorou os 50 anos da Globo indo pra Record! Rarará.

José Simão

Globo completa 50 anos com corpinho de 1964

Setores que ajudaram a construir a TV Globo foram homenageados no JN
PRAÇA DA SÉ - Em cerimônia narrada por Galvão Bueno e romantizada por Pedro Bial, a TV Globo reuniu centenas de profissionais para comemorar o aniversário de 50 anos da emissora. "A celebração começou pacífica, mas uma minoria de atores de Malhação incitou a baderna", noticiou William Bonner.

Ao longo da semana passada, no Jornal Nacional, a emissora elencou pequenos equívocos que cometeu ao noticiar eventos históricos brasileiros. Devido ao tempo exíguo da TV, alguns trechos ficaram de fora. O piauí Herald conseguiu acesso a três retratações completas.

Regime Militar

A TV Globo nasceu um ano após o golpe militar, mas os planos iniciais eram diferentes. A emissora deveria entrar no ar dia 1 de abril de 1964 ao som da famosa canção "Hoje, é um novo dia de um novo tempo que começou/ Todos nossos sonhos, serão verdade/ O futuro já começou". Em cena, bailarinas dançariam com roupas coloridas no Congresso Nacional. Mas Leonel Brizola conseguiu uma liminar com o então jurista Eurico Miranda postergando a inauguração.

Diretas Já

A TV Globo noticiou as passeatas pró-Diretas como se fossem micaretas porque viu uma profusão de camisas amarelas. "Eram os primeiros abadás", lembrou Ernesto Paglia. "Isso sem falar na penca de cantores que estavam no palco. Era fácil fazer confusão", completou Cesar Tralli.

Debate de 89

"Demos mais tempo para o Collor e selecionamos suas melhores falas porque já estava em vigor o Padrão Globo de Qualidade. A audiência queria ver gente bonita, atlética, sem língua presa, com cara de morador do Leblon", revelou Cid Moreira, que foi apresentador do Jornal Nacional antes de se tornar conhecido como locutor do Mr. M.

No The i-Piauí Herald
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Jornalistas do Paraná protestam contra violência de máfia tucana


Quem censura a imprensa no Brasil?

Quais os governos estaduais ameaçam o trabalho da imprensa?

Segundo jornalistas do Paraná, o perigo vem de bandidos ligados a esquemas inscrustados no governo do estado, presidido pelo tucano Beto Richa.

Não há denúncia na grande imprensa, apesar de profissionais da própria imprensa local, em subsidiárias de grandes grupos, estarem à frente de protestos.

No máximo, os protestos chegam ao site da CBN Paraná, mas não à CBN São Paulo ou do Rio de Janeiro.

A denúncia de que membros do governo Beto Richa, assim como fazia o governo de Minas, tem relação autoritária e truculenta com a imprensa, agredindo a parte mais fraca, o profissional de jornalismo, não sai na mídia corporativa.

Os políticos, quando não gostam de uma reportagem, não descontam nos barões de mídia. Eles atacam o trabalhador da imprensa, que a própria empresa de mídia sacrifica facilmente, se for necessário.

Destaco um trecho da notícia publicada há pouco na CBN/PR: “Depois da veiculação de reportagens sobre a rede de corrupção e pedofilia dentro da Receita Estadual do Paraná, um dos jornalistas da RPC TV foi ameaçado de morte, e precisou ser retirado do estado. O produtor James Alberti foi ameaçado por meio de um telefonema no dia 09 de abril. Ele estava em Londrina e recebeu a ligação em que se revelava um esquema para matá-lo por meio de um suposto assalto a uma churrascaria na cidade. Diante da ameaça, a empresa providenciou a retirada do jornalista da cidade onde realizava a investigação que envolve pessoas muito próximas ao governador Beto Richa, como seu parente, Luiz Abi Antoun, e o ex-inspetor geral de fiscalização da Receita Estadual, Marcio de Albuquerque Lima.”

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Jornalistas fazem protesto pela liberdade de imprensa no Paraná

Jornalistas do Paraná fazem neste domingo (03) um protesto contra os casos de intimidação e ameaça a profissionais do estado. A data foi escolhida porque marca a comemoração da Liberdade de Imprensa.

A manifestação foi convocada pelo Sindijor, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná. Uma campanha, com o tema “Basta de perseguição a jornalistas” vai ser lançada no ato, com o apoio do Sindicado dos Jornalistas do Norte do Paraná, Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Federación de Periodistas de América Latina y el Caribe (FEPALC) e a Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ).

Depois da veiculação de reportagens sobre a rede de corrupção e pedofilia dentro da Receita Estadual do Paraná, um dos jornalistas da RPC TV foi ameaçado de morte, e precisou ser retirado do estado. O produtor James Alberti foi ameaçado por meio de um telefonema no dia 09 de abril. Ele estava em Londrina e recebeu a ligação em que se revelava um esquema para matá-lo por meio de um suposto assalto a uma churrascaria na cidade. Diante da ameaça, a empresa providenciou a retirada do jornalista da cidade onde realizava a investigação que envolve pessoas muito próximas ao governador Beto Richa, como seu parente, Luiz Abi Antoun, e o ex-inspetor geral de fiscalização da Receita Estadual, Marcio de Albuquerque Lima.

Outro caso de intimidação de jornalistas do Paraná pela Polícia Civil também ganhou repercussão. Profissionais do jornal Gazeta do Povo e do Metro foram pressionados a revelar as fontes de uma reportagem que investigou irregularidades de policiais civis e militares.

O protesto acontece neste domingo (03), na Feira do Largo da Ordem. A concentração foi marcada para 10h, atrás das ruínas.

Miguel do Rosário
No Tijolaço
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Revoltados Online postam foto falsa para difamar professores do Paraná

Criminosos online

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A fixação aérea de Aécio

Aécio usou aeronaves de Minas após deixar governo do Estado

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) utilizou aeronaves do governo de Minas Gerais em pelo menos seis ocasiões após deixar o comando do Estado, em 2010.

Os voos, organizados exclusivamente para ele, foram realizados entre 2011 e 2012, quando o político já havia assumido o mandato de senador e feito seu sucessor no Executivo mineiro, Antonio Anastasia (PSDB), que também elegeu-se ao Senado por Minas, na eleição passada.

Relatórios do Gabinete Militar do Estado mostram que Aécio usou, sem a presença de autoridade estadual, helicópteros do Estado em cinco ocasiões para se deslocar em Belo Horizonte e um jato para ir a Brasília.

Um dos helicópteros utilizados por Aécio foi um modelo Dauphin N/3 prefixo PP-EPO. Seu uso foi regulamentado em decreto assinado pelo próprio político, em 2005, e é considerado de transporte especial. Ele "destina-se ao atendimento do governador do Estado, em deslocamento de qualquer natureza, por questões de segurança".

Os demais cinco voos realizados pelo senador mineiro foram em aeronaves cujos prefixos as enquadram na categoria de transporte geral, destinadas, segundo o mesmo decreto, a atender o vice-governador, secretários de governo e autoridades em "missão oficial".

Aécio Neves justificou o uso das aeronaves em três dos seis deslocamentos, afirmando estar exatamente em "missões oficiais" a pedido do então governador Anastasia.

Ele citou outras autoridades que voaram em helicópteros do Estado em missão oficial, como o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Luciano Coutinho, e o deputado federal Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Deslocamentos

Nos deslocamentos em Belo Horizonte, o senador Aécio Neves circulou entre o Palácio da Liberdade (antiga sede do governo), o Palácio Tiradentes (dentro da Cidade Administrativa, onde atualmente funciona a sede do governo) e o Palácio das Mangabeiras, residência oficial do governador.

Ele também utilizou os helicópteros para voar entre os aeroportos de Confins e Pampulha (próximo da área central da capital mineira).

Já o jato Learjet do governo foi usado exclusivamente por Aécio para viajar de Belo Horizonte para Brasília. Segundo sua assessoria, a viagem foi feita no avião do Estado porque, naquela data, foi votado no Senado a proposta que criou o Tribunal Regional Federal (TRF) da 6ª Região, com jurisdição em Minas Gerais.

Relatada pelo tucano, a medida não foi votada no dia 30 de outubro de 2012, mas em 7 de novembro, quando foi aprovada no Senado.

Como senador, Aécio Neves tem direito a utilizar a verba indenizatória (de R$ 15 mil mensais), além de uma cota correspondente a cinco passagens aéreas por mês, de ida e volta, da capital do Estado de origem a Brasília.

Na véspera da viagem a Brasília no jato do governo mineiro, Aécio foi do Rio para São Paulo, e, de lá, para BH. Os trajetos foram feitos em voos comerciais com valores ressarcidos pelo Senado.

Lucas Ferraz
No fAlha
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O ponto da ganância

Tudo pode ser reduzido a uma metáfora culinária. Comparamos mulheres com frutas e revoluções com omeletes e dizemos que as pessoas envelhecem como o vinho — ou ficam melhores ou azedam. E já ouvi dizerem de uma mulher que lembrava um vinho da Borgonha. Nada a ver com sabor ou personalidade, e sim com o formato da garrafa (pescoço longo e ancas largas).

O capitalismo triunfante também evoca uma questão de cozinha, a do ponto. Qual é o ponto em que a ganância humana deixa de ser um propulsor econômico e volta a ser pecado? Da Margaret Thatcher diziam que ela queria o impossível: devolver à Inglaterra os valores morais da Era Vitoriana ao mesmo tempo em que desencadeava a era do egoísmo sem remorso e declarava que sociedade não existia, só existia o indivíduo e suas fomes. Dilema antigo. Desde que o capitalismo e a moral burguesa nasceram, ao mesmo tempo, vivem brigando. Só conseguem viver juntos com a hipocrisia, que teve uma das suas apoteoses na era vitoriana invocada pela Sra. Thatcher.

No Brasil de tantos escândalos, cabe a pergunta: qual é o ponto da ganância? Quando é que a mistura desanda, o molho queima e o que era para ser um pudim vira uma vergonha? Há quem diga que o mercado sabe quando e como intervir para salvar a moral burguesa. Digo, o pudim. Claro que, para isso funcionar, é preciso confiar que todas as pessoas sejam, no fundo, social-democratas, ou capitalistas só até o ponto certo do cozimento. Ou acreditar que a ganância pode destruir a ideia de sociedade e ao mesmo tempo esperar que a ideia sobreviva nas pessoas, como uma espécie de nostálgica produção caseira.

O capital financeiro que hoje domina o mundo nasceu da usura, que era punida pela Igreja Medieval. A história da sua lenta transformação, de pecado em atividade respeitável, culminando com sua adoção pela própria Igreja, é a história da hipocrisia humana. A Inquisição mandava os usurários para a fogueira, onde... Mas é melhor parar com as metáforas culinárias, antes de começar a falar nos grelhados.

Luís Fernando Veríssimo
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Uma falta útil

Ainda distantes, as decisões do Supremo Tribunal Federal para os julgamentos de réus da Lava Jato, lá mesmo ou em outras instâncias, já acumulam um potencial de surpresas e polêmicas tão volumoso quanto interessante. Não só em contradições de depoentes e entre eles, em disparidades com o propalado, como os "R$ 10 bilhões recebidos" pelos quatro da Petrobras, e em possíveis revelações. Também procedimentos dos condutores da Lava Jato estão sujeitos a revisões, a exemplo da recente concessão, pelo Supremo, de habeas corpus a nove dos presos, por falta de base legal para sua extensa prisão preventiva.

Apesar de suplantada por outros destaques, gravíssima informação surge na entrevista da advogada Dora Cavalcanti a Mario Cesar Carvalho (Folha, 1º.mai) e junta-se a fatos em geral invalidáveis pela Justiça. Como foram a difusão, para atrair denunciantes, de constatações inverdadeiras, iludindo também os meios de comunicação, e como é o uso de coerção a delatores.

Aqui mesmo foi publicado, a propósito das delações premiadas que se iniciavam na Lava Jato, a falta de condições do doleiro Alberto Youssef para ser agraciado com esse direito de comprar liberdade. Youssef já o recebera em 2004 no caso Banestado, com o compromisso de não voltar ao crime. A respeito, diz Dora Cavalcanti:

"Ele quebrou a delação em 2006 e essa quebra da palavra não foi levada ao ministro Teori Zavascki na chancela da nova delação".

Não foi levada ao ministro-relator e ao Supremo no pedido de autorização para o acordo de delação premiada com Alberto Youssef, mas, se incluída como devia na petição, não seriam necessários mais motivos para recusa a novo acordo.

É a validade da delação premiada de Youssef que está sujeita até a invalidação, nos termos da limpidez legal já cobrada pelo ministro Zavascki nos habeas corpus dos nove presos. Os desdobramentos desta esperada polêmica são imprevisíveis.

Certo é que a omissão, seja qual for a interpretação a ela dada, desde logo propõe ao Supremo a confrontação mais minuciosa entre as denúncias formais a lhe serem apresentadas e os respectivos depoimentos e documentos em que devem fundar-se.

Negócios

Caso o prefeito Eduardo Paes não a suste, ocorrerá no Rio uma operação imobiliária original. A Câmara de Vereadores autorizou a venda de oito terrenos públicos, antes destinados a novas escolas e praças, para um necessário reforço do caixa municipal. Valor estimado da venda total: R$ 80 milhões. Condições de pagamento: propostos 48 meses, 36 meses por emenda. Eis, portanto, o grande reforço de caixa: R$ 1,6 milhão ou R$ 2,2 milhões por mês.

Em Maricá, município litorâneo vizinho do Rio, as obras para um grande condomínio deram com sítios arqueológicos. O Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, entregou à própria construtora Alphaville a responsabilidade de pesquisar e delimitar a área a ser reservada para preservação e estudo dos achados arqueológicos.

Indecência

Em proporção aos respectivos eleitorados, o tal estelionato eleitoral de Dilma não foi maior que o de Beto Richa em sua reeleição no Paraná. Se é por proximidade com corrupção, a de Dilma está em uma empresa, a Petrobras; a de Beto Richa, disse o noticiário que está em determinada parte de sua família.

Já seria o suficiente para Aécio Neves e seus deputados, por decência, pedirem o impeachment do seu companheiro de PSDB. Nenhum foi capaz de emitir sequer uma palavra sobre a ferocidade criminosa do governo paranaense contra os professores e outros servidores usurpados em direitos legítimos por Beto Richa.

Janio de Freitas
No fAlha
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Por que os grandes veículos de comunicação têm viés editorial de direita?


Donos de empresas de comunicação figuram nas listas de famílias mais ricas do Brasil e representam interesses de anunciantes. Isso explica posições editoriais como as em defesa do PL 4330, que abre caminho para redução de direitos trabalhistas

Conforme explorado neste mesmo espaço, as posições políticas de direita e de esquerda expressam valores, diagnósticos e prescrições distintas para os problemas da sociedade. De maneira genérica, as perspectivas da direita econômica entendem que o mercado é eficiente na produção de bens e na distribuição da renda. Ao contrário da esquerda econômica, que prescreve tanto regulação na produção, quanto políticas distributivas.

Esse último aspecto se justifica, sobretudo, pela compreensão de que o mercado funcionando livremente tende a concentrar riqueza. De um lado porque o capital influencia a remuneração e a condição do trabalho, e de outro, pelas distintas grandezas dos capitais, uns com mais escala do que outros, desencadeando em poder de mercado de grupos empresariais e capacidades competitivas assimétricas.

Nesse sentido, muitas das políticas apregoadas pelas forças de esquerda objetivam melhorar a repartição da renda e da riqueza. Elevação dos níveis salariais, estabelecimento de um salário mínimo, políticas de crédito para microempresas e tributação progressiva são pautas comuns a esse campo do pensamento.

Especificamente no caso do Brasil, a política tributária é regressiva e penaliza mais os pobres. Já as fatias mais ricas da população brasileira pagam menos impostos do que seus congêneres na maioria dos países. Para além desse ponto, a Operação Zelotes da Polícia Federal e o caso SwissLeaks indicam alguns caminhos utilizados pelos estratos com elevada renda para pagarem menos impostos.

A participação do salário, do lucro e a estruturação dos tributos são focos de divergências importantes entre a direita e a esquerda. Geralmente, aqueles que são mais ricos são contra a esquerda porque não querem contribuir mais com o bem-estar coletivo, por entenderem que sua renda/riqueza é fruto de seu esforço.

Já a esquerda, genericamente, compreende que as condições de colocação no mercado são desiguais, sobretudo porque os pontos de partida e as possibilidades de ascensão não são equânimes. Além disso, o histórico familiar e as heranças recebidas são determinantes na colocação social dos indivíduos. Nessa medida, a renda individual é um resultado social, haja vista que sua distribuição reflete a assimetria de oportunidades e a influência que alguns estratos com poder político e econômico têm sobre as regras de distribuição e a tributação.

Sob esse pano de fundo, é possível levantar elementos que ajudam a compreender por que boa parte dos grupos jornalísticos brasileiros têm uma linha editorial de direita. A despeito de existir uma vasta pluralidade nas concepções teóricas de economia e de sociologia, os comentaristas, repórteres e analistas que expõem suas posições nos meios de imprensa de referência são, majoritariamente, de direita. Dessa maneira, a perspectiva que chega ao grande público pelos principais veículos transpassa a ideia de que existe apenas uma visão de mundo.

A “mídia” não conforma um grupo monolítico, há veículos de esquerda, sobretudo nos meios eletrônicos. Entretanto, as posições e as interpretações da realidade mais expostas nos principais canais de comunicação apontam que as soluções para os problemas sociais passam pela redução do Estado, pela redução de impostos, pela menor oneração tributária sobre as empresas, entre outros.

Adicionalmente, não é infundado aventar que há uma constante tentativa de denegrir políticas e governos de esquerda. Embora o público mais qualificado enxergue esse viés, todos os cidadãos deveriam estar a par de que os periodistas não são neutros. São de direita, por exemplo, Arnaldo Jabor, Bóris Casoy, Carlos Sardenberg, Demétrio Magnoli, Diogo Mainardi, Eliane Cantanhêde, Ferreira Gullar, Luiz Felipe Pondé, Merval Pereira, Miriam Leitão, Olavo de Carvalho, Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo, Ricardo Amorim, Ricardo Noblat, Rodrigo Constantino, William Waack, entre outros tantos articulistas.

É preciso ter em mente que muitos donos das empresas de comunicação figuram entre as listas de famílias mais ricas do Brasil, encabeçada pela família Marinho. Isso ajuda a explicar as posições editoriais do Globo e da Folha de São Paulo a favor da PL 4330, abrindo caminho para a redução de direitos trabalhistas e dos salários. Em linha semelhante, o jornal O Estado de São Paulo se posiciona mais claramente como opositor aos governos de esquerda na América Latina.

A Editora Abril também reproduz a visão de mundo com base em interpretações de direita. O Instituto Millenium, que defende abertamente as posições de direita, tem entre seus patrocinadores grandes empresas de imprensa como Grupo RBS, Estadão e Abril.

A métrica das manchetes mostra de forma objetiva o viés existente. Para além do interesse desses grupos empresariais, é preciso observar que grande parte de seus anunciantes não deseja elevações salariais que comprometam seus lucros e tampouco avanços na justiça fiscal, pois eles seriam chamados a contribuir mais com o bem-estar coletivo. Além disso, no âmbito econômico, os entrevistados são representantes do meio empresarial, os quais, legitimamente, defendem seus interesses.

Pondera-se que o ethos jornalístico interfere na produção e no fluxo das informações. Normas profissionais também intermedeiam o processo de escolha das pautas. A toda sorte, as linhas editoriais estão mais translúcidas: há escassez de pluralidade na interpretação da sociedade exposta nos principais veículos do País.

O viés antiesquerdista atinge patamares elevados no momento atual. A constante perspectiva pessimista da realidade, o enfoque em problemas pontuais sem uma análise ampla das questões, a seletividade na ênfase de denúncias de corrupção, o diagnóstico de que o governo federal intervém demais e, no limite, a completa distorção dos dados estão explícitas.

É justificável a plena autonomia editorial dos meios impressos, já a radiodifusão é concessão pública e deveria ter um papel educativo e imparcial. Mesmo que se leve em conta que as suas crenças e seus os valores são do campo direitista, convém desnudar os interesses por trás dessa parcialidade. O que eles têm a ganhar com políticas econômicas e sociais de direita?

Róber Iturriet Avila
No Brasil Debate
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