30 de abr de 2015

Ministros de FHC, Lula e Dilma se unem contra a redução da maioridade penal


Em evento realizado hoje (30) pelo Núcleo de Estudos de Violência da USP, grandes nomes se uniram contra a PEC 171/93, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Entre eles, os ex-ministros dos governos FHC, Lula e Dilma e o atual ministro de Direitos Humanos, Pepe Vargas.

Foi a primeira vez que ministros de direitos humanos das três gestões se reuniram para juntos defenderem o mesmo ideal. “O momento aqui é simbólico. É um movimento suprapartidário afirmando a universalidade dos direitos”, disse o atual ministro de DH.

Na ocasião, foi lançada uma carta de repúdio à proposta, assinada por Paulo Sergio Pinheiro e Gilberto Saboia, ambos da gestão FHC; Mário Mamede, Paulo Vannuchi e Nilmário Miranda, da gestão Lula; Ideli Salvatti e Maria do Rosário, da gestão Dilma, além de Pepe Vargas. A carta deve agora ser enviada ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Ministros contra a PEC 171/93

Paulo Vannuchi, ex-ministro na gestão Lula, iniciou a coletiva explicitando a seletividade da mídia quanto ao conteúdo divulgado. Nesse momento, onde PECs e PLs que violam os direitos humanos têm sido votados, “5 mil pessoas estão inscritas no Congresso de Direitos Humanos da OAB e ninguém falou sobre isso até agora”, disse.

Falou também sobre a pauta do evento, a PEC 171/93. “Ela não só fere convenções internacionais, mas também a Constituição”, posição seguida por José Gregório, ex-ministro da Justiça no governo FHC. Gregório enxerga como um regime que “não é regenerador, mas intensificador da violência”. Horas antes, o senador Miguel Del Roio já antecipava os argumentos dos ministros. “O Estatuto da Criança e do Adolescente é um dos orgulhos brasileiros”, disse.

Para Maria do Rosário, ex-ministra de direitos humanos na primeira gestão Dilma, reduzir a violência é proibir a aprovação da PEC 171. “Nós que estamos lutando contra a redução da maioridade penal estamos lutando contra a violência, pois sabemos que criança na cadeia só vai aumentar os índices”, finalizou.

Participaram também do evento Angélica Goulart, presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) e a estudiosa Nancy Cardia, do Núcleo de Estudos de Violência. A primeira falou que os jovens “não podem ser vitimados pela impunidade e pela violência que existe em nosso país”, enquanto a última ressaltou que precisamos investigar e aprender com os mitos que envolvem o tema.

A bandeira está na mão dos defensores de Direitos Humanos

Para que a redução da maioridade penal não se torne uma realidade, é preciso que mídia, Justiça e sociedade civil se unam. Muitos meios “satanizam o adolescente infrator sem apresentarem dados”, quando. na verdade, “a mídia tem um papel fundamental na convocação da defesa dos jovens”, declara José Gregório.

Maria do Rosário finalizou: “A bandeira contra a violência aos jovens está na mão dos defensores de direitos humanos”, uma vez que “estes que defendem a redução da maioridade não defendem a redução da violência”.


Natalie Garcia e Alexandre Putti
No Justificando
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Dilma deu uma bofetada na Rede Globo ao rejeitar a tevê no Dia do Trabalho

TV já era
Existem problemas reais, e existem falsos problemas.

Falso problema é, por exemplo, Dilma falar ou não por rede de tevê no Dia do Trabalho.

Em plena Era Digital, exigir que Dilma apareça na televisão é uma questão de obsolescência mental.

Vi, sem surpresa, a oposição tentando tirar bovinamente proveito da decisão presidencial de limar a tevê. Aécio pontificou.

Aécio não perde a oportunidade de falar quando poderia ficar quieto. (E, como no caso dos professores do Paraná, de silenciar quando deveria falar.)

Mas, com alguma surpresa, vi gente de esquerda também indignada com Dilma.

Aí não faz, simplesmente, nexo.

Tudo que Dilma possa fazer para dessacralizar a televisão entre os brasileiros é bem-vindo, dado o mal que Globo e demais emissoras representam para a sociedade;

Repito: tudo.

Há uma tradição inercial pró-televisão, e particularmente pró-Globo, que deve ser rompida.

Por que, por exemplo, o último debate para presidente é ainda na Globo?

Os opositores dizem que por trás da decisão de Dilma está um alegado receio de um panelaço.

Ainda que seja esta a motivação: evitar as panelas dos analfabetos políticos. Mesmo assim, o fato, em si, é positivo.

Estamos na Era Digital: é um recado inteligente, mesmo para os paneleiros que se movem sob a manipulação da imprensa e da própria ignorância.

De resto, importante, mesmo, é o conteúdo da fala.

Há vários assuntos importantes para os trabalhadores, como a terceirização.

O pronunciamento de Dilma, seja em que plataforma for, é uma chance para ela deixar claro que é contra — visceralmente contra — a terceirização das atividades fim, como querem Eduardo Cunha e seguidores.

Num plano mais sonhador, me ocorre que Dilma poderia também endereçar sua solidariedade, ainda que atrasada, aos professores do Paraná, tratados selvagemente pelo governador Beto Richa.

Veremos o que Dilma dirá.

De toda forma, rejeitar a televisão foi um gesto histórico — um reconhecimento de que são outros os tempos, e uma bofetada bem dada na Rede Globo.

Paulo Nogueira
No DCM
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A medalha da Inconfidência e a insatisfação da elite mineira


Após o governador Fernando Pimentel ter entregue a medalha da Inconfidência, ao líder do MST, João Pedro Stédile, uma série de ataques iniciou-se contra o fato.

O Deputado Rogério Correia mais uma vez sai em defesa de um dos mais importantes líderes da luta pela Reforma Agrária, garantida pela Constituição de 1988.

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MP determina investigação sobre massacre no Paraná


Entidade colhe depoimentos, laudos e imagens para investigar excesso na repressão policial à manifestação dos professores

O procurador-geral de Justiça do Estado do Paraná, Gilberto Giacoia, determinou, nesta quinta-feira (30), a instauração de procedimento para apurar responsabilidades por eventual excesso na repressão às manifestações de quarta-feira, em Curitiba.

Segundo a decisão do Ministério Público do Paraná (MP-PR), já havia recomendação ao governo do Estado, à Secretaria de Segurança Pública e ao Comando-Geral da Polícia Militar, no sentido de que a intervenção se limitasse a garantir segurança aos manifestantes, excetuada a contenção de eventuais infrações penais.

Giacoia designou procuradores para colher informações, depoimentos, laudos e documentos, bem como registros de imagens, como vídeos e fotos sobre o ocorrido no Centro Cívico de Curitiba.

Massacre

Os resultados da ação da PM durante a repressão aos professores e a outros servidores públicos que manifestavam contra o Projeto de Lei 252/15, do governador Beto Richa (PSDB), foram mais de 200 pessoas feridas e a prisão de 17 policiais militares que se recusaram a participar da violência contra servidores públicos.

O MP poderia investigar também este vídeo:

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O início do Massacre do Centro Cívico


Vídeo com o início do Massacre do Centro Cívico promovido pelo governador Beto Richa. Mostra o exato momento em que fui atingido por estilhaço de uma bomba.



Tarso Cabral Violin
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Beto Hitler e os protestos dos professores



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Governador tucano, Beto Richa, não quer PMs com estudo porque eles “se insubordinariam”

Professores e professoras são atacados por policiais, que segundo Richa, devem ter pouco estudo para cumprirem bem as ordens
A matéria é da Gazeta do Povo e foi publicada em 2012 mas explica muita coisa.


O governador Beto Richa (PSDB) disse em entrevista à rádio CBN, nesta quinta-feira, que acha positivo que os policiais militares do estado não tenham diploma de curso superior.

A polêmica entre o governo e as associações que representam os policiais militares, que queriam que o governo passasse a exigir diploma dos que entram na corporação.

Segundo Richa, é bom que os policiais não tenham diploma, porque gente formada normalmente é muito insubordinada.

“Outra questão é de insubordinação também, uma pessoa com curso superior muitas vezes não aceita cumprir ordens de um oficial ou um superior, uma patente maior”, afirmou o governador.

A declaração do governador é um desestímulo à educação e à cultura dentro da corporação. Nitidamente, o que Richa defende, em sua declaração, é que a PM dê preferência a pessoas que não estudem.

Além de tudo, mostra uma miopia em relação à realidade do mundo. Como se pessoas sem estudo superior não pudessem ser contestadoras ou insubordinadas (pela versão de Richa, as greves comandadas por Lula no ABC nunca existiram).

A função do Estado é estimular o estudo, e não o contrário. Mais do que isso: o governador não deveria desejar uma corporação de gente que simplesmente atende ordens cegamente, como ele parece querer. E, sim, fomentar um ambiente em que as pessoas sejam capazes de autonomia.

Richa poderia, sem nenhum problema, defender que não é preciso diploma para ser policial. Mas com outros argumentos.

No Luiz Müller Blog
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O “confronto” de Curitiba

Choque contra os professores.
Foto: Daniel Castellano – Paraná Online

Ouça aqui



A imprensa brasileira descobriu, da pior maneira possível, que existe um estado de tensão entre o governo do Paraná e os servidores públicos do Estado, e que o principal foco dessa situação é o descontentamento dos professores da rede oficial de ensino. A pior maneira de a mídia se relacionar com um fato que tenta inutilmente esconder acontece quando a realidade se manifesta de forma tão intensa que não pode mais ser mantida fora do noticiário.

O evento que obrigou a mídia tradicional a expor aquilo que as redes sociais já vinham denunciando há muito tempo foi a extrema violência com que a polícia paranaense dispersou uma manifestação liderada por professores, contra a proposta de mudança no sistema de financiamento da previdência dos servidores públicos do Estado. Até mesmo o contido apresentador do Jornal Nacional, o telejornal de maior audiência do País, ainda ensaiando o novo estilo coloquial do programa, teve que se render à evidência das imagens.

Ainda assim, os jornais de circulação nacional parecem ter combinado suas manchetes e amanhecem nesta quinta-feira (30/4) falando em “confronto”. Não, senhores editores. Não houve “confronto” entre manifestantes e policiais em Curitiba. O que houve foi uma carga militar, planejada pelo comando da PM, com autorização do governador, contra professores e outros funcionários públicos, transeuntes, curiosos e até contra pais e mães que haviam sido chamados a recolher seus filhos numa escola infantil.

O número de feridos passa das duas centenas, e o total apresentado pelos jornais é subestimado, pelo simples fato de que muitos dos atingidos por balas de borracha, golpes de cassetete e fragmentos de bombas de efeito moral preferiram ir para suas casas ou se reunir na sede de entidades sindicais após o ataque. Apesar da evidente tentativa de relativizar a violência policial nos títulos e destaques das reportagens, as narrativas dos jornais não podem esconder que a responsabilidade pela ação violenta é do governador, e as últimas notícias dão conta de que o risco político de uma desaprovação geral pode causar a demissão do secretário da Segurança Pública ou do comandante da Polícia Militar.

O “curitibaço” e a Cracolândia

Também houve um distúrbio em São Paulo na mesma data, durante ação de cadastramento de usuários de drogas que se reúnem no local conhecido como Cracolândia.

Os dois principais jornais paulistas destacam os dois eventos na primeira página, sendo que a Folha de S. Paulo usa imagens de Curitiba e de São Paulo para ilustrar sua fachada. No entanto, são dois contextos absolutamente distintos, e a única ligação entre eles — uma operação policial — nem de longe pode ser considerada como uma circunstância comum.

Em São Paulo, uma atividade corriqueira que tenta resgatar viciados das ruas oferecendo-lhes treinamento e trabalhos remunerados de zeladoria, descambou para o descontrole quando, durante uma ação para retirar barracas e limpar as calçadas, um estrondo de origem não identificada provocou uma correria. Policiais que patrulham a região foram atacados por um grupo de drogados e um deles disparou para o chão. Fragmentos do projétil feriram dois moradores de rua. A tropa de choque foi chamada a intervir para conter o tumulto que se seguiu.

A operação “De Braços Abertos”, realizada pela prefeitura de São Paulo com apoio da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana, enfrenta a resistência de traficantes, que ameaçam os servidores públicos, e, eventualmente, sofre a oposição de autoridades policiais que não acreditam na eficiência do programa. O estado de tensão na região é permanente, como foi relatado por este observador no dia 30 de março (ver aqui), após uma visita à Cracolândia e  conversas com funcionários que atuam na área de saúde pública.

Os incidentes de Curitiba são de outra natureza, e refletem a incapacidade do governo do Paraná de lidar com o direito dos professores e outros servidores públicos de levar às ruas seu descontentamento com o salário e outras questões de seu contrato com o Estado. Por trás desse desentendimento ruge o radicalismo político insuflado pela mídia diariamente.

Também os professores da rede estadual de ensino de São Paulo realizam uma greve parcial há 45 dias. No caso paulista, a versão oficial, que desconhece o movimento (ver aqui), é desmentida por uma sucessão de atos públicos na região metropolitana da capital e em cidades do interior. O leitor de jornais só conhece essa versão oficial.

Até que haja um… “confronto”.

Luciano Martins Costa
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Truculento, Richa recebe repúdio geral da sociedade



Parlamentares de diferentes partidos, como o senador Roberto Requião (PMDB) e os deputados Jean Wyllys (PSOL) e Jandira Feghali (PCdoB), além do ex-presidente Lula, assim como colunistas de diferentes perfis, como Ricardo Noblat e Juca Kfouri, foram unânimes em detonar o governador do Paraná pela agressão da PM contra professores; Requião defendeu, em entrevista ao 247, que o tucano não tem mais condições de governar; Jean Wyllys pediu "basta"; Noblat o chamou de "líder estúpido"; Jandira observa que seu governo "caminha para um estado autoritário"; o repúdio à agressão que deixou mais de 200 servidores feridos ontem no centro de Curitiba é geral e o Paraná ganha a solidariedade de todo o Brasil



A violência da Polícia Militar do governo do Paraná contra professores e servidores estaduais provocou um repúdio geral de políticos de diferentes partidos e colunistas de diferentes perfis, além de revolta da população de vários estados brasileiros. O ex-presidente Lula divulgou uma nota ontem se solidarizando com os profissionais e classificando como "inadmissível" a violência da PM no estado.

"Solidarizo-me com os professores do Paraná, que foram agredidos de forma violenta pela Polícia Militar do estado. Temos visto a atuação da polícia na garantia da segurança de manifestações que têm acontecido no país, mas esse direito deve ser garantido a todos. É inadmissível que o direito de manifestação seja restringido a qualquer pessoa, principalmente àqueles que trabalham pela educação de nossos jovens e o futuro do país", escreveu Lula em sua página no Facebook.

Vários parlamentares atacaram a atitude do governador do PSDB. O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) pediu "um basta de Beto Richa". "O que está acontecendo no Paraná é estarrecedor", escreveu ele em artigo, criticando ainda a cobertura da imprensa tradicional sobre o episódio. "Parte da grande mídia, como sempre, fala em 'confronto entre professores e policiais', o que resulta em ridículo: é como falar em confronto entre o peito e a bala, entre as costas e a paulada".

Jandira Feghali, líder do PCdoB na Câmara, intitulou o episódio de "guerra contra o trabalhador" e "terror em praça pública". "Creches e idosos atingidos por gás lacrimogêneo, uma multidão de professores feridos (mais de 150), mulheres, homens e jovens humilhados pela polícia militarizada do governador tucano Beto Richa. O que se viu no Paraná chocou todo o país, revelando a face mais perversa de sua gestão: a incapacidade de ausculta dos movimentos sociais e sindicatos", disse.

Em entrevista ao 247, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) disse ontem que Richa "não tem mais condições de governar". "O clima é de indignação absoluta e de revolta no Paraná", descreveu. O deputado federal João Arruda (PMDB-PR) divulgou um vídeo na internet que mostra integrantes da equipe de governo comemorando os ataques da PM. "Absurdo", protestou. "Depois do massacre, o Beto Richa não tem mais condição de governar! Ou ele renúncia ou o povo tira ele de lá", escreveu o parlamentar no Twitter.

O colunista do Globo Ricardo Noblat chamou o tucano de "líder estúpido", por ter saído em defesa dos policiais. "Ao manifestar sua solidariedade aos policiais autores de violência tão estúpida, Richa se revelou um líder político, no mínimo, estúpido", escreveu. "Richa falou da ação de black blocs. Culpou-os pela violência que atingiu, pelo menos, 213 pessoas, segundo a prefeitura de Curitiba. Mas na hora do vamos ver, comentou que a polícia prendeu sete black blocs", disse ainda o jornalista. Juca Kfouri disse que o pai do governador, José Richa deveria estar se "revirando no túmulo" com a violência no Paraná.

Confira abaixo alguns posts, unânimes contra Richa:










Colunista do Globo vê 'silêncio ensurdecedor' de Aécio no caso Richa

Fotos Públicas / George Gianni:

Jorge Bastos Moreno cobra "tucanato" sobre "truculência" do governador do Paraná; "O silêncio do tucanato diante da truculência é ensurdecedor. Aécio busca responsabilidade da Dilma para tentar emplacar impeachment. Não teria o mesmo trabalho se investigasse responsabilidade no PR", escreve o jornalista no Twitter



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Policial posta foto com sangue falso e é ridicularizado na internet

Tentando se passar por vítima dos professores que participaram de manifestações no Paraná, PM publicou uma foto em que aparentava estar ferido, mas a farsa não durou muito tempo e ele apagou a imagem. “Sangrou groselha”, “Quero a marca desse batom”, “Derrubou ki-suco de morango”, ironizaram os internautas

O policial militar Umberto Scandelari publicou ontem (29), em seu perfil no Facebook, uma foto em que aparece com ferimentos nos braços e no rosto. Na legenda, ele escreveu: “Professor, conta outra…”, em referência aos protestos realizados por professores do estado contra um projeto de lei que altera a previdência dos funcionários públicos. A ação truculenta da PM ao ato terminou em mais de cem feridos, alguns deles em estado grave.

Ao ser perguntado por um colega se estava bem, Scandelari tentou se passar por vítima dos manifestantes. “Sim, td bem, mas se os caras não invadissem nada disso teria acontecido”, respondeu. No entanto, a farsa não durou muito tempo. A imagem [ao lado, clique para ampliar] foi denunciada pela página “Isso é culpa do PT” e logo o policial virou motivo de piada entre os internautas.

“Nenhum maquiador mais preparado para dar um toque mais realista a essa tinta rosa barata?”, questionou o autor da página. “Engraçado, a farda está intacta”, alertou uma usuária. “Sangrou groselha”, ironizou outro. Os comentários não pararam por aí: “Quero a marca desse batom”, “Derrubou ki-suco de morango”, “Estourou a caneta de correção dos profs nele”. Após ser descoberto, o PM deletou a foto da rede social.

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Após primeira derrota na Justiça, aliados de Moro tentam o marketing


Num movimento autoritário, quem fala em "sensação de impunidade" depois da decisão do STF está querendo abandonar o debate racional para manipular o debate sobre a Lava Jato

Após a vitória democrática no STF, quando nove empresários e executivos deixaram a cadeia onde permaneciam sem culpa formada há cinco meses e meio, os aliados do juiz Sergio Moro reaparecem com a conversa sobre a “sensação de impunidade” que essa medida pode causar.

Estamos falando de sensação, ou seja “impressão captada pelos órgãos dos sentidos visual, olfativo, gustativo,” nas palavras do Houaiss. Não estamos falando dos fatos. Nem de uma discussão racional sobre a decisão de Teori Zavaski, que na minha opinião se baseou numa visão puramente técnica das leis em vigor no país — e até poderia ter sido tomada há mais tempo. O argumento procura fugir do debate que importa. Fala de “sensações” que podem ser produzidas, construídas, manipuladas, e dificilmente serão contestadas. Alguma coisa mais próxima da música, do cheiro, do paladar.

As sensações são uma grande arma da política, sabemos todos, e garantem honorários milionários a marqueteiros e seus ajudantes.

Na década de 1980, o governador Franco Montoro, então no MDB, implantou uma política de direitos humanos em São Paulo. O objetivo, digno de todo apoio, era impedir a violência policial, que prendia, torturava e executava suspeitos apanhados pela polícia. Verificou-se, então, uma situação curiosa. Os herdeiros da ditadura militar eram partidários até da tortura como método de investigação mas ficavam constrangidos de assumir essa visão em público. Não pegava bem. Eles preferiam esconder-se atrás da “sensação” de que que os criminosos podiam agir impunemente, que a polícia estava de mãos amarradas pelos “direitos dos bandidos” e assim por diante. Não era preciso debater a importância de um país respeitar os direitos de pobres e ricos, brancos e negros, homens e mulheres. Nem debater possíveis erros, desvios, imperfeições. Aliás, nem era preciso falar a favor — ou contra — a volta da tortura. Bastava colocar-se numa fingida posição de observador, sem partido, sem ponto de vista.

Foi assim, através de um condomínio de delegados, ex-policiais e jornalistas articulados para combater uma proposta política determinada se construiu uma “sensação” em São Paulo. Com o passar dos anos, essa visão ganhou corpo e expressão, servindo de bases para ataques ao governo e a uma nova direita civil, captada pelo antropólogo Antonio Flavio Pierucci num trabalho de pesquisa junto a eleitores nos bairros de classe média da cidade. Num depoimentos captados por Pierucci a sensação gerava seu efeito máximo, que é transformar-se em fantasia: uma cidadã de classe média jurava que os direitos humanos haviam gerado tanta mordomia aos criminosos que eles até tomavam champagne na prisão.

Num país onde a criminalização da atividade política recomenda que a justiça se faça com penas duras, julgamentos espetaculosos e um desprezo assumido pela presunção da inocência, toda vez que uma porta de cadeia se abre muita gente é levada a imaginar que se encontra em situação de risco. A questão não é julgar — é punir, de qualquer maneira.

Isso é ainda mais verdade na república de Sérgio Moro, adepta, nas palavras do ministro Marco Aurélio Mello, da prática de “prender para depois apurar.” Mas não é de surpreendente num universo cultural e político que se move por olfato, audição, paladar. Este mundo dispensa todo esforço para examinar os fatos em sua complexidade. Considera perda de tempo conhecer os argumentos de todas as partes e faz o possível para calar as vozes discordantes, insuportáveis. A política de “sensação” estimula movimentos autoritários, que sempre dão a “sensação” de que alguma coisa está sendo feita.

Mas é hora de denunciar golpes tão baixos e mostrar seu caráter ridículo. Falar em “sensação de impunidade” num país onde as as operações policiais se multiplicaram por mais de 100 vezes é um bom argumento para quem quer fingir-se de louco.

Tenho certeza de que, com a chegada dos tempos modernos, quando as fogueiras da Inquisição foram apagadas, eliminando a prática de tortura e a morte de hereges, muitos fiéis foram levados a cultivar a “sensação” de que as forças das Treva ganhavam terreno, o fim dos tempos se aproximava e assim por diante. Engano. Era só a humanidade que havia conseguido avançar um pouquinho.

Foi isso o que ocorreu no STF.

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O infame Beto Richa, governador do Paraná


O governador Beto Richa (PSDB), do Paraná, é o retrato doloroso do que se transformou o principal partido de oposição no país.

O partido fundado por Franco Montoro, Mário Covas, que abrigou a generosidade de Sérgio Motta, a sensibilidade social de Bresser-Pereira, e até a temperança de um José Richa, a esperança de uma socialdemocracia moderna, tornou-se um valhacouto do que pior e mais rancoroso a política brasileira exibiu nos últimos anos.

A usina de ideias e propostas que parecia brotar do partido no inicio dos anos 90 foi substituída por uma cloaca interminável, um lacerdismo sem talento, um samba de uma nota só desafinado.

* * *

Derrotado em Minas Gerais, restaram ao partido dois estados para mostrar, até 2018, um mínimo de políticas inovadoras: São Paulo e Paraná.

De São Paulo não se espere nenhuma pró-atividade. Por aqui, definham institutos de pesquisa, aparelho cultural, universidades e, especialmente, as ideias.

Hoje haverá audiência pública para a extinção da Fundap (Fundação de Desenvolvimento Administrativo) e da Cepam (Centro de Estudos e Pesquisas da Administração Municipal).

Hoje em dia, há uma disputa ferrenha para definir o governo mais inerte: se o de Dilma ou de Alckmin.

* * *

Mas nada se equipara ao desastre completo que se observa no Paraná.

O massacre que a Polícia Militar impôs, ontem, aos professores que manifestavam contra o governo entrará para a história política contemporânea como o dia da infâmia.

200 pessoas feridas, 15 em estado grave, uma covardia sem fim, cujo único gesto nobre foi o de 17 policiais que se recusaram a atacar os manifestantes — e foram punidos por isso.

* * *

É apenas o desfecho de uma gestão desastrosa, que quebrou o estado. Mas reflete um estado de espírito que se apossou do partido, quando substituiu os intelectuais por pitbulls de baixíssimo nível.

* * *

Nos últimos anos, a reboque da mídia, a única bandeira que o partido cultivou foi o antipetismo — como se fosse possível se tornar alternativa de poder sendo apenas anti.

Hoje em dia definha o PT e definha o governo Dilma, o país está rachado ao meio, há um ódio permanente no ar. A política econômica procede a aumentos sucessivos da taxa Selic, com a atividade econômica agonizante. E o governo patina sem um projeto de país para oferecer.

Seria o momento de se apresentarem os mediadores, os que conseguissem ser a síntese das políticas sociais do PT com a visão de mercado do velho PSDB desenvolvimentista.

* * *

Mas a miopia reiterada dos seus gurus, a falta de visão estratégica, o personalismo absurdo de uma geração geriátrica que se aboletou no poder, impediu a renovação do PSDB e permitiu que o infame Beto Richa se tornasse a cara do partido.

* * *

O que Richa fez foi apenas externar, com atos, a virulência desmedida da cara do partido, os Aloysios Nunes, Aécios Neves, Carlos Sampaios, Josés Serras.

Não foi à toa que, nas últimas eleições, a parcela mais moderna do empresariado paulista saltou fora do bonde do PSDB e tentou fazer alçar voo a candidatura de Marina Silva.

O espaço político está vago para aventureiros políticos, porque a geração das diretas acabou.

Luís Nassif
No GGN
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Parabéns, professores do Paraná, vocês tiraram o bicho da toca

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2015/04/30/parabens-professores-parana-voces-tiraram-o-bicho-da-toca/


Ontem o Brasil viveu um dos episódios mais chocantes da história da luta dos professores em defesa da educação e dos seus direitos. A bárbarie perpetrada em Curitiba pelo governador Beto Richa e o seu secretário de Segurança Pública, Fernando Francischini, com centenas de educadores feridos, demonstra o quão violento é o braço político-judicial que se arma a partir do Paraná com o objetivo de endireitar o país.

Francischini é o símbolo mais caricato dessa troika. Ela se tornou secretário de Segurança do Paraná depois de ter virado símbolo nacional de uma guerra ao PT e aos direitos humanos na internet. Com uma ação muito bem coordenada na rede, esse inexpressivo delegado foi se tornando ícone daquela gente que desfilou no dia 15 de março fazendo selfies com a PM e portando faixas de intervenção militar.

A estratégia deu certo e lhe rendeu 160 mil votos, praticamente 3% do total do estado, o que é bastante para um candidato a cargo proporcional. E já em dezembro de 2014 Beto Richa nomeou-o secretário de Segurança Pública.

Até aquele momento o governador do Paraná era o bom moço que tinha sido reeleito no primeiro turno e que se vendia ao Brasil como eficiente administrador público. Já havia quem o recomendasse como uma opção tucana, inclusive, para disputar a presidência da República.

Do mesmo Paraná, o juiz Sérgio Moro foi se consolidando no final do ano passado como o algoz da corrupção. Impôs um estado policial no país a partir de sua jurisdição e se tornou o nosso Eliot Ness tupiniquim.

O 15 de março foi em boa medida construído a partir do que essa República do Paraná oferecia ao Brasil: combate à corrupção, guerra ao PT e aos direitos humanos. Inclusive a guerra suja na internet tem sido fortemente operada a partir do DDD 41, por gente que trabalha em gabinetes de parlamentares e em governos.

Ontem essa República do Paraná, porém, testou um dos limites mais caros à democracia. Ela não se importou em colocar suas tropas para massacrar professores.

Ao mesmo tempo, também ontem se descobriu que o delator do senador Anastasia, o policial federal conhecido por Careca e que foi libertado por Sérgio Moro, está foragido. Ou seja, o inquérito contra o parlamentar fica interrompido enquanto isso.

O jogo começa a ficar mais claro. A Operação Paraná mostra sua verdadeira face. E se por um lado isso deixa a disputa mais transparente, por outro é preciso saber como jogar esse novo jogo com uma nova direita violenta e golpista que se mostra articulada em várias esferas.

Os professores que ontem foram massacrados podem ser a chave para enfrentar esse processo. O Brasil tem uma dívida histórica com esse segmento e não há nada melhor do que investir em educação para se derrotar a estupidez e a barbárie. Parabéns, professores do Paraná, vocês tiraram o bicho da toca.

Foto: Orlando Kissner/ Fotos Públicas
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Etimológicas

“Corrupção” vem do latim rumpere, ou romper, quebrar. Corrumpere quer dizer quebrar completamente, inclusive moralmente, o que significa que quem foi corrompido não tem conserto. O mais inquietante é que da mesma origem latina vem a palavra “rota”, através de “ruptura”, que virou rupta no latim vulgar, um caminho aberto ou batido, e que está na origem do francês route, de “rota” e de “rotina”. Quer dizer, há poucas esperanças de a corrupção deixar de ser uma rotina no Brasil. Até a etimologia está contra nós.

“Escândalo” está indiretamente ligado aos pés. Sua raiz indo-europeia é skand, pular ou subir, de onde também vem escalada. Quem pula ou sobe precisa cuidar onde põe os pés e o grego skandalon significa um obstáculo ou uma armadilha. Scandalum em latim tanto pode significar tentação como armadilha. No francês antigo, scandal era um comportamento antirreligioso, que agredia a Igreja toda-poderosa e, da mesma origem, existia a palavra sclaudre, de onde vem o inglês slander, ou difamação. Portanto, antes de acusar, pense bem onde vai botar os pés.

Alguns escândalos, de tão não investigados, acabam virando anedotas. “Anedota” vem, através do francês anecdote, do grego anekdotos, história não publicada, presumivelmente tanto no sentido de inédita quanto no sentido de versão não oficial, secreta, clandestina. Enfim, história do tipo que em Brasília todo mundo sabe mas a gente não fica sabendo. Em francês queria dizer pequeno relato ilustrativo à margem de um relato maior. No seu sentido brasileiro, continua sendo uma história marginal, só que engraçada, ou se esforçando para ser. Sobrevive, na anedota, a tradição homérica da literatura oral, passada de geração a geração sem necessidade de escrita. Se for escrita, deixa de ser anedota.

Muitos contadores anotam o fim da anedota para não esquecê-la, mas se sentiriam heréticos se a escrevessem toda, apesar do risco que correm de esquecerem o resto e ficarem com uma coleção de últimas frases sem sentido. Tipo:

“E aí o marido vingativo gritou para a mulher dentro da jaula do gorila: ‘Diz para ele que você está com dor de cabeça, diz!’”

“E aí o cara só de cuecas no meio de um bolo de gente disse ‘E eu, que só vim entregar uma pizza?’”

Luís Fernando Veríssimo
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Mãe do tucano Richa mantém pensões ao não formalizar união com companheiro

Arlete Vilela Richa, mãe do governador Beto Richa, que recebe mais de R$ 37 mil de pensão sem nunca ter
sido senadora ou governadora e seu "esposo", o médico aposentado Farid Sabbag

A mãe do governador tucano Beto Richa recebe duas pensões pagas com dinheiro público na condição de viúva do ex-governador e senador José Richa, um dos fundadores do PSDB e pai do atual governador do Estado.

Arlete Vilela Richa, 74, porém, mantém uma união estável, não formalizada, há pelo menos quatro anos e perderia o direito a essas duas pensões se casasse. José Richa morreu em 2003.

Hoje, ela mora com o médico Farid Sabbag, tratado publicamente como seu marido — mas sem se casar no papel. As pensões, pagas pelo governo do Paraná e pelo Senado, somam R$ 37 mil por mês, ou R$ 29 mil líquidos, descontados o Imposto de Renda e outras deduções.

Ela recebe os valores desde a morte de seu marido, que foi governador do Paraná (1983-1986) e senador por três mandatos (entre 1979 e 1995).


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Paraná em chamas

O massacre a que Curitiba assistiu no 29 de abril

A série de explosões começou a ser ouvida pouco antes das três da tarde. Quem estava a distâncias que chegavam a seis quilômetros, por exemplo, conseguia ter uma ideia clara de que as coisas no Centro Cívico, a praça dos três poderes do Paraná (mais a Prefeitura de Curitiba), não estavam para brincadeira. Os estrondos eram resultado da ação violenta de policiais militares contra servidores públicos, a maioria professores da rede estadual.

Há dois dias, eles protestavam contra uma série de medidas de arrocho que a Assembleia Legislativa começava a colocar em segunda e última votação naquele momento. No final da tarde, sabia-se que houve pelo menos 107 feridos  —  dois policiais e 105 servidores. O placar medonho retrata um verdadeiro massacre.


Já à noite, sabia-se que os feridos, aumentaram para 150, segundo informações oficiais do SAMU. Oito deles seguiam em estado grave por causa de mordidas de cães policiais e tiros com balas de borracha.

Na segunda-feira, com o registro de escaramuças entre PMs e servidores, mas em escala menor do que a de hoje, o fatídico e já histórico 29 de abril, os deputados já haviam aprovado em primeira votação, por 31 votos favoráveis contra 21 o tal pacotaço, encaminhado pelo governador Beto Richa (PSDB) para melhorar as finanças do Estado, cujos balanços festejados por ele mesmo durante sua campanha à reeleição, no ano passado, apontavam para uma contabilidade em céu de brigadeiro.


Por mais de uma hora e meia, as bombas de gás e de efeito moral mostraram do lado de fora do parlamento estadual que eram a verdadeira garantia para a votação definitiva de hoje no interior do prédio, fazendo valer a vontade de Richa e de sua equipe de governo, comandada pelo baiano Mauro Ricardo Costa, importado pelo tucano para seu segundo mandato e já conhecido pelos serviços prestados na área fazendária da Prefeitura de de Salvador (BA), gestão de ACM Neto (DEM), e no governo de São Paulo, na gestão de José Serra (PSDB). A sessão prosseguia, sem final previsto, até a conclusão desta reportagem.

No entanto, à medida em que as bombas, os cães, as balas de borracha e os cassetetes caíam sobre os manifestantes armados apenas com gritos e palavras de ordem, deputados preocupados com a onda de violência que se desenrolava na praça principal, em frente a Assembleia, batizada de Nossa Senhora da Salete (trágica ironia), chegaram a sair do prédio para pedir calma aos policiais. A exemplo de servidores públicos feridos, com quem ficou lado a lado durante a confusão e barbárie generalizada na praça, o deputado Rasca Rodrigues, do PV, saiu no prejuízo e foi mordido por um dos cães da tropa de choque da PM, além de ter aspirado gás de pimenta e lacrimogênio. Voltou ao prédio com sangue escorrendo pelo braço.


Proibidos de se aproximar da Assembleia Legislativa por grades e um cordão humano de 1.500 policiais, a maioria deslocados de batalhões do interior e sem garantia de pagamento de suas diárias, restou aos manifestantes fazer o caminho de volta, diante da intensa repressão policial que se iniciou. Eles voltavam correndo em direção à avenida Cândido de Abreu, a principal via de ligação com o Centro Cívico. Não estavam sozinhos.

Muitos vinham carregando, como feridos da guerra campal, pelos braços e pernas, manifestantes desacordados e feridos.

O prédio mais próximo em que eles poderiam ficar à espera de socorro, foi a Prefeitura, comandada atualmente por Gustavo Fruet (PDT), atual desafeto de Richa, que lhe negou candidatura a prefeito, em 2012 pelo PSDB, vindo a se candidatar e ganhar o poder da capital, como azarão.

O hall de entrada e salas próximas, onde o IPTU e tributos municipais são cobrados, foram transformados em hospital de campanha. Vídeos de smartphones com os feridos deitados, sangrando e sem camisa passaram a ser veiculados na internet. Mesas de trabalho viraram maca, e as poucas que chegavam, apareciam por meio das escassas equipes do SAMU, que estavam em dificuldades para se aproximar do Centro Cívico, por conta do bloqueio policial de ruas próximas, e à multidão em fuga por calçadas e a avenida principal.


O expediente em toda a Prefeitura foi interrompido para que se desse cabo do atendimento aos feridos. Só ali foram acolhidos 35, muitos deles machucados no corpo, da cabeça aos pés, pelas balas de borracha das carabinas da tropa de choque e outros com dificuldade de respiração por inalação dos gases de dispersão, além dos atingidos de praxe pela força dos cassetetes. Testemunhas entre os manifestantes relataram ter visto um helicóptero com policiais atirando bombas em voos rasantes, no que seria o primeiro ataque aéreo feito contra seus próprios civis em território nacional.

Uma creche municipal que fica no Centro Cívico, a poucas quadras da praça onde a guerra prosseguia, testemunhou de dentro de suas paredes todo o terror protagonizado pelos policiais. Se a seis quilômetros, o barulho das bombas se fazia surpreender, como exposto no início deste relato, pode-se ter uma ideia da intensidade dos estrondos e do eco provocado dentro da creche infantil, exposta ao barulho das explosões e dos gritos dos manifestantes, apoiados por potentes carros de som, além do incômodo nauseante da fumaça dos gases de dispersão. O choro tomou conta das crianças, funcionários e professores, que não tinham a quem recorrer, restando torcer para que tudo terminasse o mais breve possível, o que não aconteceu.

Do ponto de vista militar, a polícia cumpriu, mesmo com o uso de força excessiva, a missão de deixar afastados da Assembleia os manifestantes, o que não havia conseguido em fevereiro, quando Richa tentou colocar o pacotaço em votação pela primeira vez, ocasião em que foi rechaçado pela presença de 20 mil manifestantes e um mês de greve dos professores, a maior categoria de servidores do Estado, com 50 mil profissionais. Naquela ocasião, os deputados da bancada governista tiveram que entrar na Assembleia dentro de um vetusto e gigante camburão policial de cor preta. Tentaram encaminhar a votação do restaurante da assembleia, pois o plenário havia sido ocupado, mas tiveram medo da reação dos manifestantes e adiaram o intento.


Como se percebe, era questão de tempo para Richa assimilar o recuo, reorganizar a tropa, tanto a da fiel Assembleia, como a das balas, bombas e porretes, para fazer valer seu projeto que tira vários direitos do funcionalismo, como o corte de licenças de parte dos professores, o livre uso de recursos dos fundos estaduais, inclusive o do poder Judiciário, aumento da alíquota do ICMS de mais de 90 mil produtos, e mudanças no setor de previdência dos servidores, que os obrigarão a pagar um índice extra caso queiram manter seus salários integrais acima de R$ 4,6 mil.

O preço político a ser pago para os principais atores do episódio, como Richa e seus colaboradores no governo e na Assembleia, ainda é tão nebuloso e maleável quanto a fumaça de cor branca das bombas que tomou conta do Centro Cívico e fartamente captada pelos celulares dos prédios próximos.

Antes que o leitor estranhe esse direcionamento nessa parte do texto, um pouco de história recente da política local. Em 30 de agosto de 1988, a PM reprimiu no mesmo Centro Cívico, um protesto de professores da rede estadual, no então governo de Álvaro Dias, na época no PMDB, e hoje senador filiado ao PSDB. Muitos decretaram o fim de sua carreira política, marcado pelo pisoteio da cavalaria em professores desarmados, mas Álvaro segue firme na lida. Tirando duas derrotas circunstanciais ao governo paranaense, contra Jaime Lerner, em 1994, a novidade política daquele ano, e Roberto Requião, em 2002, apoiado por nada menos do que o presidente Lula, o bamba da vez, Dias é o senador com mais mandatos eleitos. Ganhou, por exemplo, com ampla folga mais oito anos em 2014. Já havia sido eleito em 2006 e em 1998, portanto, depois da pancadaria de 88.


Richa tem um destino mais incerto, mas nem por isso menos favorável. Richa encarna o antiesquerdismo visceral de boa parte do eleitorado paranaense atual. Com o tempo, como todo político, pode ser beneficiado pela diluição natural do episódio dantesco, assim como aconteceu com Álvaro Dias. A diferença é que, pelo tamanho do massacre e sua presença constante na internet (ferramente inexistente na época de Álvaro), Richa poderá passar o que resta do seu segundo mandato tentando explicar os “comos” e “por ques” de tanta violência contra profissionais da Educação. E mais: boa parte da população paranaense, assim como a brasileira, ainda marca sua rotina diária em frente à televisão pelo noticiário das emissoras de sinal aberto. Nesta noite, Richa pode ser beneficiado ou não pelos filtros editoriais e critérios supostamente jornalísticos (“não abusar das imagens, tem muita criança assistindo neste momento”, pode ser um deles, sim) lançados à mão por editores e cúpulas das emissoras.

A administração de Richa enfrenta também profunda investigação sobre supostos pagamentos de propina a servidores da Receita Estadual de Londrina, no Norte do Paraná, sua cidade natal, por empresas pressionadas a se verem livres de qualquer fiscalização e cobrança dos agentes do fisco. Um dos jornalistas mais premiados do Brasil, ao investigar o caso, teve que sair da cidade, pois recebeu a informação que seria morto em falso assalto a uma churrascaria que frequentava. O primo de Richa, Luiz Abi, é suspeito de estar por trás de fraudes de licitação para consertos de carros do governo, assunto que o jornalista ameaçado, James Alberti, da afiliada da Globo, no Paraná, também investigava em Londrina. Abi foi preso, a pedido do Ministério Público, mas atualmente responde ao processo de suspeita de corrupção em liberdade.

Beto Richa é filho de José Richa (morto em 2003). Richa pai teve papel de destaque na época da redemocratização, quando Tancredo Neves foi eleito presidente da República, no colégio eleitoral de janeiro de 1985. Se os militares da linha dura decidissem impedir a posse ou não reconhecessem o resultado da eleição indireta feita no Congresso Nacional, Richa pai havia se comprometido a participar de um plano para abrigar Tancredo no Paraná e resistir contra uma eventual tentativa de golpe, colocando a sua Polícia Militar, para proteger o novo presidente civil. Hoje, trinta anos depois, a mesma corporação, sob o desígnio de outro Richa, faz o caminho inverso, o da violência desenfreada, sem qualquer ligação com as garantias democráticas tão defendidas pelo próprio pai, como ficou explícito na tarde desse 29 de abril, marcada pelo frio e garoa que caiu no centro do poder da Capital do Paraná.


fotos de Leandro Taques
Dimitri do Valle
No #JornalistasLivres
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Cercados e coagidos

O reconhecimento, por condutores da Lava Jato, de que a meia libertação de nove dos seus presos vai dificultar novas adesões à delação premiada não precisava de detalhamento para revelar a sua índole. Ainda assim, ao menos um dos condutores quis frisar que, até a decisão do Supremo, "a liberdade era um trunfo que a gente tinha para convencê-los a falar mais. Agora, teremos que repensar".

Toda coerção é violência. Por isso coagir não é um recurso legítimo. Seja de obter informações, ou do que mais for.

Toda coerção provém da visão deformada que o autor tem do seu poder, exacerbando-o. Ocorra isso por circunstâncias em que o coagido não tem condições de reagir à altura, ou como manifestação de uma personalidade patológica. Neste ou naquele caso, a posição enfraquecida de um e a posição privilegiada de outro compõem sempre uma situação de covardia, além de física, moral.

O essencial em tal questão foi levantado, com o percurso próprio e melhor estilo, pelo ministro Teori Zavascki como relator do habeas corpus que levou à meia liberdade dos nove. Ao reconhecer que o juiz Sergio Moro não apresentara evidências de risco de fuga ou perturbação de investigações por parte dos presos, além da extensa prisão preventiva de quase meio ano, assim o ministro sintetiza a proposta de volta ao rigor legal:

"A credibilidade das instituições somente se fortalecerá na medida em que forem capazes de manter o regime de estrito cumprimento da lei".

Aí está um aprendizado que os brasileiros precisam fazer. Caso haja real desejo de chegar a um regime de fato democrático. Estamos cercados de coerções e outros autoritarismos e prepotências por todos os lados. Mas, se não forem fatos gritantes como a arbitrariedade policial ou o juiz que prende quem deve multá-lo, ou nem se percebe a predominância do autoritarismo, ou é aceito como natural.

Do próprio Congresso vem mais uma demonstração nesse sentido. Surgidos dois documentos feitos em computador do seu gabinete, suspeitos de conterem coerção para reativar subornos de duas empresas, a providência imediata de Eduardo Cunha é valer-se da presidência para a demissão sumária do diretor de informática da Câmara. Como complemento, diz que os documentos configuram uma conspiração em represália à disciplina que, dias antes, teria imposto à seção de informática.

Nas várias suspeitas que o atingem há muitos anos, é inegável que Eduardo Cunha tem sempre uma resposta pronta e articulada. O problema é que, de tão prontas e articuladas para transferir a suspeita, as explicações se tornam elas mesmas suspeitas de álibi construído.

À reprise foi agora acrescentada a prepotência. Nas circunstâncias e por ser sumária, a demissão do funcionário implica acusação grave. Sem a devida apuração, necessária também por lei. Mas, apesar de sua motivação e desregramento, sem reação do conjunto de deputados e do corpo de funcionários. Embora até as suspeitas suscitadas pelos documentos e por sua origem persistissem vivas.

A Lava Jato "tem que repensar". Pode ser um bom começo. Prender criminosos precisa ser um ato só da legalidade e da democracia.

Janio de Freitas
No fAlha
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Lembranças dos professores do Paraná a quem tira selfies com PMs

Uma boa frase está repercutindo no Twitter: “Em protesto pela intervenção militar você é tratado com educação. Em protesto pela educação você é tratado com intervenção militar.

Os manés que tiram selfies com PMs em manifestações anti Dilma deveriam, daqui por diante, guardar na mente a selvageria com que foram tratados os professores grevistas no Paraná.

Para cada clique sorridente com um soldado da tropa de choque, que venha uma imagem como esta:


Ou como esta:


Ou ainda esta:

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Fala-se em 140 manifestantes feridos por golpes de cassetetes, balas de borracha e mordidas de cachorros. De acordo com a prefeitura, 35 pessoas foram encaminhadas a hospitais. Sete foram presas.

Beto Richa, numa nota cínica, atribuiu a culpa da pancadaria aos “black blocs”, essa entidade responsável pelas enchentes, pela dengue, pela calvície e pelo terremoto no Nepal. Richa ainda declarou que há vídeos mostrando “mochilas contendo pedras e também imagens de coquetel molotov”.

O secretário de segurança pública, o deputado Fernando Francischini, do Solidariedade, ex-delegado da PF, é um sujeito que apareceu num programa de TV com um revólver na cintura, superando o padrão Bolsonaro. Você precisa ser muito ingênuo para achar que não havia uma orientação superior para a PM reagir como reagiu.

Um cinegrafista da Band filmou o ataque de um pitbull a ele mesmo. O bicho só largou sua coxa quando o policial puxou a coleira. Ele foi atendido no local por outros jornalistas.

Essa é a corporação que posa para fotografias com incautos que pedem o fim da ditadura bolivariana.



Kiko Nogueira
No DCM
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