22 de abr de 2015

Globo 50 anos: 10 razões para descomemorar


Era para ser uma festa de arromba, com eventos se sucedendo em todo o país. Grande parte do que a TV Globo preparou para comemorar seu cinquentenário, a ser completado no dia 26/04, está mantido, mas, sem dúvida, não terá o mesmo brilho de outras épocas. Depois dos problemas verificados durante a sessão solene da Câmara dos Deputados em homenagem à emissora, em que três militantes em prol da democratização da comunicação tiveram que ser retirados da sessão por seguranças, as festas em locais abertos ou de acesso público estão sendo repensadas. Os cuidados se justificam.

Nunca a audiência da TV Globo, centro do império da família Marinho, esteve tão baixa. O Jornal Nacional, seu principal informativo, que chegou a ter 85% de audiência, agora não passa dos 20%. Suas novelas do horário nobre estão perdendo público para similares da TV Record. No dia 1ª de abril aconteceram atos em prol da cassação da concessão da emissora em diversas cidades brasileiras. O realizado no Rio e Janeiro, em frente à sua sede, no Jardim Botânico, foi o mais expressivo e contou com 10 mil pessoas. Número infinitamente maior participou, no mesmo horário, do tuitaço e faceboquiaço “Foraglobogolpista”.

Artistas globais e a viúva de Roberto Marinho integram a relação de suspeitos de crimes de evasão fiscal e serão alvo de investigação pela CPI do Senado, criada para analisar a lista de mais de oito mil brasileiros que têm depósitos em contas secretas na filial do banco HSBC na Suíça. Este escândalo internacional envolve milhares de pessoas em diversos países. A diferença é que fora do Brasil o assunto tem tido destaque e é coberto diuturnamente, enquanto aqui, a mídia, Globo à frente, prefere ignorá-lo ou abordá-lo parcialmente.

Além disso, o conglomerado teria sonegado o Imposto de Renda ao usar um paraíso fiscal para comprar os direitos de transmissão da Copa do Mundo FIFA de 2002. Após o término das investigações, em outubro de 2006, a Receita Federal quis cobrar multa de R$ 615 milhões da emissora. No entanto, semanas depois o processo desapareceu da sede da Receita no Rio de Janeiro. Em janeiro de 2013, uma funcionária da Receita foi condenada pela Justiça a quatro anos de prisão como responsável pelo sumiço. No processo, ela afirmou ter agido por livre e espontânea vontade.

Nem mesmo a campanha filantrópica Criança Esperança promovida em parceira com a Unesco, se viu livre de críticas. Um documento datado de 15 de setembro de 2006, liberado pelo site WikiLeaks em 2013, cita que a Rede Globo repassou à Unesco apenas 10% do valor arrecadado desde 1986 com a campanha (à época R$ 94,8 milhões). A emissora garante "desconhecer" essa informação e afirma que "todo o dinheiro arrecadado pela campanha é depositado diretamente na conta da Unesco".

Como se tudo isso não bastasse, ao assumir a postura pró-tucanos durante a campanha eleitoral de 2014, a emissora perdeu parte da régia publicidade oficial com que sempre foi contemplada. O governo não anuncia mais na TV Globo e nem na revista Veja e, pelo menos até o momento, não há indícios de que o quadro esteja prestes a se alterar. Motivos que têm levado cada dia mais repórteres e equipes da emissora a serem alvo de protestos e recebidos aos gritos de “o povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo!”

Os protestos contra a Rede Globo, pelo visto, vão continuar e existem pelo menos 10 razões para que os setores comprometidos com a democratização da mídia no Brasil não tenham nada a comemorar neste cinquentenário.

1. O Canal 4 estava prometido à Rádio Nacional

Em meados de 1950, Roberto Marinho era apenas um entre os vários empresários da comunicação no país. O magnata da época atendia pelo nome de Assis Chateaubriand que possuía a maior cadeia de jornais, rádios e duas emissoras nascentes de televisão. A rádio líder absoluta de audiência e mais querida do Brasil era a Nacional, a PR-8 do Rio de Janeiro, de propriedade do governo federal. O sucesso da Nacional era tamanho que animou seus dirigentes a solicitar que o então presidente da República lhe concedesse um canal de TV. Constava do currículo da Rádio Nacional já ter feito experiências pioneiras na área, ao ocupar o canal 4 para televisionar (como se dizia na época) dois dos seus programas.

O presidente da República era Juscelino Kubitschek que considerou justa a reivindicação, uma decorrência natural da liderança da emissora. Na publicação de final de ano em 1956, a direção da Rádio Nacional anunciava para “breve” a entrada no ar da sua emissora, a TV Nacional, canal 4, conforme compromisso assumido por Juscelino. As concessões de canais de rádio e TV eram atribuições exclusivas do ocupante do Executivo Federal.

Os meses se passaram e Juscelino ”esqueceu-se” da promessa. No final de 1957, para surpresa da direção da Rádio Nacional, o canal 4 que lhes fora prometido, acabou concedido para a inexpressiva Rádio Globo, de Roberto Marinho. A decisão foi condicionada por pressões diretas de Chateaubriand, que aceitava qualquer coisa menos que a Rádio Nacional ingressasse no segmento televisivo, temendo as consequências disso para seus negócios. Neste contexto, o canal ir para Roberto Marinho era um mal menor.

O Brasil perdeu assim a chance histórica de ter, no nascedouro, duas modalidades de televisão, a comercial, representada pelas emissoras de Chateaubriand, e a estatal voltada para o interesse público como seria a da Rádio Nacional.

2. O acordo com a Time-Life feriu os interesses nacionais

Ao contrário da Rádio Nacional que dispunha de todas as condições para colocar no ar sua emissora de TV, a de Roberto Marinho precisou aguardar alguns anos. Para a implantação da TV Globo, a partir de 1961, foi decisivo o apoio do capital internacional, representado pelo gigante da mídia norte-americano Time-Life. A emissora começou a operar de forma discreta em 26 de abril de 1965 e seus primeiros meses foram um fracasso em termos de audiência.

Em junho de 1962, Marinho passou a ser apoiado com milhões de dólares, num episódio que a emissora ainda hoje sustenta que se tratou apenas de “um contrato de cooperação técnica”. A realidade, fartamente documentada por Daniel Herz, em sua obra já clássica “A história secreta da Rede Globo” (1995) prova o contrário. Roberto Marinho e o grupo Time-Life contraíram um vínculo institucional de tal monta que os tornou sócios, o que era vedado pela Constituição brasileira. Foi este vínculo que assegurou à Globo o impulso financeiro, técnico e administrativo para alcançar o poderio que veio a ter.

A importância da ligação com os norte-americanos, nos primórdios da emissora, pode ser avaliada pela declaração do engenheiro Herbert Fiúza, que integrou a sua primeira equipe técnica: “A Globo era inspirada numa estação de Indianápolis, a WFBM. E o engenheiro de lá foi quem montou tudo, porque a gente não sabia nada”.

Chateaubriand que antes havia ficado satisfeito em inviabilizar o canal de TV para a Rádio Nacional percebeu o risco que suas emissoras passavam a correr. Tanto que dedicou ao “Caso Globo/Time-Life” nada menos do que 50 artigos, todos atacando Roberto Marinho e acusando-o de receber, na época, U$S 5 milhões, repassados em três parcelas, o que representava “uma ofensiva externa contra os competidores internos” (Morais, 1994, p.667).

A repercussão destas denúncias foi tamanha que a CPI criada pelo Congresso Nacional para apurá-las acabou descobrindo que a TV Globo mantinha não um, mas dois contratos com o grupo Time-Life. Em um deles, os norte-americanos tinham participação de 49%. Em outras palavras, não se tratava de contrato, mas de sociedade. A CPI pôs fim à sociedade. Mas, ao invés de sair penalizada do episódio, a Globo foi duplamente beneficiada: Roberto Marinho ficou com o controle total da emissora e os militares, então no poder, não tomaram qualquer providência contra ela. A TV Globo poderia ter tido sua concessão cassada.

3. O apoio à ditadura militar (1964-1985)

Nos anos 1960, o Brasil era visto pelos Estados Unidos como sua área de influência direta. E a TV Globo foi fundamental para trazer para cá o way of life norte-americano juntamente com o seu modelo de televisão. A TV comercial, um dos tipos de emissora existentes no mundo, adquire aqui o status de única modalidade de TV. Não por acaso, Murilo Ramos (2000, p.126) caracteriza o surgimento da TV Globo como sendo “a primeira onda de globalização da televisão brasileira”, que, concentrada num único grupo local, monopolizou a audiência e teve forte impacto político e eleitoral ao longo das décadas seguintes.

Durante quase 20 anos, TV Globo e governos militares viveram uma espécie de simbiose. Os militares, satisfeitos por verem nas telas da Globo apenas imagens e textos elogiosos ao “país que vai para a frente” retribuíam com mais e mais benesses e privilégios para a emissora. A partir de 1968, com a edição do AI-5, o país mergulhou no “golpe dentro do golpe”, com prisão e perseguição a todos os considerados inimigos e adversários do regime e a adoção de censura prévia aos veículos de comunicação.

A TV Globo enfrentou alguns casos de censura oficial em suas telenovelas, mas o que prevaleceu na emissora foi o apoio incondicional de sua direção aos militares no poder e a autocensura por parte da maioria de seus funcionários.

Ainda hoje não falta quem se recorde de situações patéticas em que o então apresentador do Jornal Nacional, Cid Moreira, mostrava aos milhares de telespectadores brasileiros cenas de um país que se constituía “em verdadeira ilha de tranquilidade”, enquanto centenas de militantes de esquerda eram perseguidos, presos, torturados ou mortos nas prisões da ditadura. Some-se a isso que a TV Globo sempre se esmerou em criminalizar quaisquer movimentos populares.

4. O combate permanente às TVs Educativas

Desde 1950 que as elevadas taxas de analfabetismo vigentes no Brasil eram uma preocupação constante para setores nacionalistas e de esquerda. Uma vez no poder, algumas alas militares viram na radiodifusão um caminho para combater a subversão e, ao mesmo tempo, promover a integração nacional. O resultado disso foi que, em 1965, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) solicita ao Conselho Nacional de Telecomunicações a reserva de 48 canais de VHF e 50 de UHV especificamente para a televisão educativa.

O número era dos mais significativos e poderia ter representado o começo de canais voltados para os interesses da população, a exemplo do que já acontecia em outras partes do mundo. Pouco depois do decreto ser publicado, Roberto Marinho começa a agir para reduzir sua eficácia. E, na prática, conseguiu seu intento. O decreto-lei nº 236 de março de 1967 se, por um lado, formalizava a existência das emissoras educativas, por outro criava uma série de obstáculos para que funcionassem. O artigo 13, por exemplo, obrigava estas emissoras a transmitir apenas “aulas, conferências, palestras e debates”, ao mesmo tempo em que proibia qualquer tipo de propaganda ou patrocínio a seus programas. Traduzindo: as TVs Educativas estavam condenadas à programação monótona e à falta crônica de recursos.

Como se isso não bastasse, o artigo seguinte fechava o cerco a estas emissoras, determinando que somente pudessem executar o serviço de televisão educativa a União, os Estados, municípios e territórios, as universidades brasileiras e alguns tipos de fundações. Ficavam de foram, por exemplo, sindicatos e as mais diversas entidades da sociedade civil.

Dez anos após este decreto-lei, apenas seis emissoras educativas tinham sido criadas no país, número muito distante dos 98 canais disponíveis. As emissoras educativas não conseguiam avançar, esbarrando na legislação que lhes obrigava a viver exclusivamente do minguado orçamento oficial, ao passo que as televisões comerciais, em especial a Globo, experimentavam crescimento sem precedentes. Crescimento que contribuiu para cristalizar, em parcela da população brasileira, a convicção de que a emissora de Roberto Marinho é sinônimo de qualidade.

5. O programa global dos telecursos

Oficialmente, o projeto tinha o nome de Educação Continuada por Multimeios e envolvia um convênio entre a Secretaria de Cooperação Econômica e Técnica Internacional (Subin) da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, o BID, a Fundação Roberto Marinho e a Fundação Universidade de Brasília (FUB). Aparentemente, o seu objetivo era nobre: “o atendimento à educação de população de baixa renda do país, mediante a utilização e métodos não tradicionais de ensino”.

Na versão inicial, o convênio possuía 15 cláusulas, com a FRM assumindo a condição de entidade executora e a FUB a de sua coexecutora. Na prática, o convênio ficou conhecido como Programa Global de Telecursos e atendia exclusivamente aos interesses da FRM. Através dele, a FRM pretendia, sem qualquer custo, apoderar-se do milionário “negócio” da teleducação no Brasil. Para tanto, esperava contar com recursos nacionais e internacionais inicialmente da ordem de US$ 5 milhões embutidos em um pacote de U$S 20 milhões solicitados pela Subin ao BID no início de 1982.

A parceria com a FUB era importante por ela ser uma entidade voltada para o ensino público e estar isenta de impostos para a importação dos equipamentos necessários à montagem de um centro de produção televisiva a custo zero. Em outras palavras, a FRM pretendia tornar-se a administradora da verba (nacional e internacional) destinada às televisões educativas no Brasil, geridas pela Funtevê, entidade governamental. Imediatamente, a Funtevê deixou nítido que o convênio exorbitava as competências da FRM e da própria UnB. É importante assinalar que pela UnB um dos raros entusiastas deste convênio era o seu então reitor, capitão de Mar-e-Guerra, José Carlos Azevedo.

A discussão em torno deste convênio e da tentativa das Organizações Globo de apropriarem-se dos recursos destinados às TVs educativas brasileiras ganham a imprensa nacional no final de 1982 e início de 1983. Matéria publicada pelo jornal Folha de S. Paulo em 17/04/1983, sob o título de “Globo poderá monopolizar teleducação”, tratava o assunto em forma de denúncia. O “tiroteio” entre os jornais Globo e Folha de S. Paulo durou vários meses e o convênio, que acabou não sendo assinado, só foi sepultado três anos depois, com o fim do regime militar. Sem muita cerimônia, o então secretário-executivo da FRM, José Carlos Magaldi, chegou a admitir que: “é óbvio que não fazemos teleducação por patriotismo”.

Esta não foi a primeira e nem a última tentativa das Organizações Globo de se apoderarem da teleducação no Brasil. Aliás, a FRM tem, nos dias atuais, representado o Brasil em vários fóruns internacionais sobre educação e teleducação. O MEC sabe disso?

6. O caso Proconsult e o combate a Leonel Brizola

Antes dos petistas, Leonel Brizola foi um dos políticos brasileiros mais combatidos pela TV Globo e por seu fundador, Roberto Marinho. Marinho nunca o perdoou pelo fato de ter comandado a “rede da legalidade”, nome que receberam as emissoras de rádio que, quando da renúncia de Jânio Quadros à presidência da República, em 1961, passaram a defender a posse de seu vice, João Goulart. Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, era cunhado de Goulart.

Com a vitória do golpe civil-militar de 1964, Brizola foi para o exílio e só pode retornar ao Brasil com a anistia, em 1979. Político com fortes compromissos populares, em 1982 disputava o governo do Rio de Janeiro, pelo PDT, partido criado por ele.

O Caso Proconsult foi uma tentativa de fraude nas eleições de 1982 para impossibilitar a vitória de Brizola. Consistia em um sistema informatizado de apuração dos votos, feito pela empresa Proconsult, associada a antigos colaboradores do regime militar. A mecânica da fraude consistia em transferir votos nulos ou em branco para que fossem contabilizados para o candidato apoiado pelas forças situacionistas, Moreira Franco, do PDS.

As regras da eleição de 1982 impunham que todos os votos (de vereador a presidente da República) fossem em um mesmo partido. Portanto, estimava-se um alto índice de votos nulos. Os indícios de que os resultados seriam fraudados surgiram da apuração paralela contratada pelo PDT à empresa Sysin Sistemas e Serviços de Informática que divergiam completamente do resultado oficial. Outra fonte que obtinha resultados diferentes dos oficiais foi a Rádio Jornal do Brasil. Roberto Marinho foi acusado de participar no caso.

A fraude foi extensamente denunciada pelo Jornal do Brasil, na época o principal concorrente de O Globo no Rio e relatada posteriormente pelos jornalistas Paulo Henrique Amorim, Maria Helena Passos e Eliakim Araújo no livro “Plim Plim, a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral” (Conrad editores, 2005). Devido à participação de Marinho no caso, a tentativa de fraude é analisada no documentário britânico Beyond Citizen Kane, de 1993. A TV Globo, por sua vez, defendeu-se argumentando que não havia contratado a Proconsult e que baseava a totalização do votos daquela eleição na totalização própria que O Globo estava fazendo.

Em 1994, Brizola venceu novamente Roberto Marinho e a TV Globo ao obter, na Justiça, direito de resposta na emissora. Em 15 de março, um constrangido Cid Moreira (que por 27 anos esteve à frente da bancada do jornal Nacional) leu texto de 440 palavras que a Justiça obrigou a TV Globo a divulgar em seu telejornal mais nobre.



Foram cerca de três minutos nos quais Cid Moreira, a cara do JN, incorporou Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, no mais célebre e então inédito direito de resposta, que abriu caminho para que outros cidadãos buscassem amparo legal contra barbaridades cometidas pela mídia brasileira.

7. Ignorou as Diretas-Já

O PMDB lançou, em dezembro de 1983, uma campanha nacional em apoio à emenda do seu deputado Dante de Oliveira (MT) que restabelecia as eleições diretas no país com o slogan “Diretas-Já”. O primeiro grande comício aconteceu em São Paulo, em 25 de março do ano seguinte, e coincidiu com o 430º aniversário da cidade. A TV Globo ignorou o comício que reuniu mais de um milhão de pessoas na Praça da Sé. Reportagem do Fantástico sobre o assunto falava apenas em comemorações do aniversário de São Paulo. Omissões semelhantes aconteceram em relação a outros comícios pelas Diretas-Já em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.

De acordo com o ex-vice-presidente das Organizações Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em entrevista ao jornalista Roberto Dávila, na TV Cultura, em dezembro de 2005, foi o próprio Roberto Marinho, quem determinou a censura ao primeiro grande comício da campanha pelas Diretas-Já.

Segundo Boni, àquela altura "o doutor Roberto não queria que se falasse em Diretas-Já" e decidiu que o evento da Praça da Sé fosse transmitido "sem nenhuma participação de nenhum dos discursantes”. Para Boni, aliás, no caso das Diretas-Já houve uma censura dupla na Globo: “primeiro, uma censura da censura; depois, uma censura do doutor Roberto”.

A versão de Boni é diferente da que aparece no livro "Jornal Nacional - A Notícia Faz História", publicado pela Jorge Zahar em 2004, e que representa a versão da própria Globo para a história de seu jornalismo. O texto não faz nenhuma referência a uma intervenção direta de censura por parte de Roberto Marinho.

Aliás, a Globo vem tentando reescrever a sua história e, ao mesmo tempo, reescrever a própria história brasileira. Isto fica nítido, por exemplo, quando se compara a história brasileira com a versão que é publicada pela Globo através dos verbetes do Memória Globo. Pelo visto, a emissora aposta na falta de memória e na pouca leitura da maioria dos brasileiros para emplacar a sua versão dos fatos. Foi a partir da campanha das Diretas-Já que teve início a utilização, pelos diversos movimentos populares, do bordão “o povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo”.

8. Manipulação do debate Collor X Lula

Na eleição de 1989, a primeira pelo voto direto para presidente da República desde 1964, a TV Globo manipulou o debate entre o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva e o do PRN, Fernando Collor. O debate era o último e decisivo antes da eleição. No telejornal da hora do almoço, a TV Globo fez uma edição equilibrada do debate. Para o Jornal Nacional, houve instruções para mudar tudo e detonar Lula. Foram escolhidos os piores momentos de Lula e os melhores de Collor. Ainda foram divulgadas pesquisas feitas por telefone segundo as quais Collor havia vencido. Além disso, o jornalista Alexandre Garcia leu um editorial nitidamente contra Lula e o PT.

Desde então, pesquisas e estudos sobre este “caso clássico de manipulação da mídia” têm sido feitas no Brasil, destacando-se as realizadas pelo sociólogo, jornalista e professor aposentado da UnB, Venício A. Lima.

Apesar dos esforços da TV Globo para manter a versão de que a edição deste debate foi equilibrada, novamente seu ex-diretor José Bonifácio Sobrinho contribuiu para derrubá-la. Depois de abordar o assunto em entrevistas à imprensa, por ocasião do lançamento de seu livro de memórias, o ex-dirigente global deu entrevista à própria GloboNews, canal pago da emissora, na qual admitiu, para o jornalista Geneton Moraes Neto que, durante os debates da campanha presidencial transmitidos pela Globo em 1989, tentou ajudar o candidato alagoano. Para muitos, Boni só fez esta “revelação bombástica” que quase todos já sabiam, para tentar promover seu livro.

9. Contra a democratização da mídia

Todos os países democráticos possuem regulação para rádio e televisão. Na Grã-Bretanha, por exemplo, a mídia e sua regulação caminharam juntas. O mesmo pode ser dito em relação aos Estados Unidos, França, Itália e Japão. Nestes países, tão admirados pelas elites brasileiras, nunca ninguém fez qualquer vínculo entre regulação e censura, simplesmente porque ele não existe. No Brasil, onde a mídia em geral e a audiovisual em particular vive numa espécie de paraíso desregulamentado, toda vez que um governo tenta implementar aqui o que existe no resto do mundo, é acusado de ditatorial e de querer implantar a censura.

Quando, em 2004, o governo do presidente Lula enviou ao Congresso Nacional projeto de lei criando o Conselho Nacional de Jornalismo, uma espécie de primeiro passo para esta regulação, foi duramente criticado pela mídia comercial, TV Globo à frente. Desde sempre, as Organizações Globo foram contrárias a qualquer legislação que restringisse o poder absoluto que desfruta a mídia no Brasil. Prova disso é que o Capítulo V da Constituição brasileira, que trata da Comunicação Social, continua até hoje sem sair do papel.

Entre outros aspectos, o Capítulo V proíbe monopólios e oligopólios por parte dos meios de comunicação, determina que a programação das emissoras de rádio e TV deva dar preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. O capítulo enfatiza, ainda, que as emissoras e rádio e TV devem promover a cultura nacional e regional, além de estimularem a produção independente. Todos estes aspectos mostram como a TV Globo está na contramão de tudo o que significa uma comunicação democrática e plural.

Aliás, os compromissos dos mais diversos movimentos sociais brasileiros com a regulação da mídia foram reafirmados durante o 2º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação, promovido pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, de 10 a 12 de abril em Belo Horizonte. O evento reuniu 682 participantes entre ativistas, estudantes, militantes, jornalistas, estudiosos, pesquisadores, representantes de entidades e coletivos de todo o Brasil. Presente ao encontro esteve também o canadense Toby Mendel, consultor da Unesco e diretor-executivo do Centro de Direitos e Democracia.

A Carta final do encontro, intitulada “Regula Já! Por mais democracia e mais direitos”, disponível na página da entidade (www.fndc.org.br) reafirma “a luta pela democratização da comunicação como pauta aglutinadora e transversal, além de conclamar as entidades e ativistas a unirem forças para pressionar o governo a abrir diálogo com a sociedade sobre a necessidade de regular democraticamente o setor de comunicação do país”.

10. Golpismo

Para vários pesquisadores e estudiosos sobre movimentos sociais no Brasil, a mídia, em especial a TV Globo, tem tido um papel protagonista nas manifestações contra a presidente Dilma Rousseff e o PT. Alguns chegam mesmo a afirmar que dificilmente estas manifestações teriam repercussão se não fosse a Rede Globo.

Em outras palavras, a Rede Globo, tão avessa à cobertura de qualquer movimento popular, entrou de cabeça na transmissão destas manifestações e, no domingo 15 de março, por exemplo, mobilizou, como há muito não se via, toda a sua estrutura com o objetivo de ampliar a dar visibilidade a estes atos. Quase 100% de seus jornalistas estiveram de plantão. Durante o programa Esporte Espetacular, exibido tradicionalmente nas manhãs de domingo, o esporte deu lugar para chamadas ao vivo sobre os protestos, que, em tom de convocação, passaram a ocupar a maior parte do tempo.

Nas entradas ao vivo em todas as cidades onde aconteciam mobilizações, os microfones da emissora captaram gritos de guerra contra o atual governo e xingamentos contra a presidente. Em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, foi possível ouvir inclusive palavrões. A título de comparação, as manifestações de 13 de março, que também aconteceram em todo o Brasil e defenderam a Reforma Política, não mereceram cobertura tão dedicada do maior conglomerado midiático da América Latina.

O diretor da Rede Globo, Erick Bretas, que há poucas semanas, defendeu abertamente o impeachment da presidente Dilma nas redes sociais, voltou a se pronunciar sobre os atos do dia 15, utilizando uma frase de Bob Marley para convocar, através de sua página no Facebook, o povo às ruas: “Get up, stand up”.

Não se sabe se Bob Marley apoiaria a postura de Bretas, mas, sem dúvida, é fato que entre os princípios editoriais da TV Globo não consta nem a “isenção” e muito menos o equilíbrio que tanto prega. Por isso, talvez o melhor resumo sobre a realidade destes protestos e a empolgação da transmissão feita pela TV Globo seja a do professor Gilberto Maringoni, ex-candidato do PSOL ao governo de São Paulo. Segundo Maringoni, “a manifestação principal não está nas ruas. Está na TV”.

Nas redes sociais, internautas repudiaram a cobertura feita pela TV Globo e alcançaram, durante 48 horas ininterruptas, para a hastag#Globogolpista, a primeira posição entre os assuntos mais comentados do Twitter. Novos protestos estão previstos para o dia 26/04. Razão pelo qual este promete ser o pior aniversário da TV Globo em toda a sua história.

Ângela Carrato
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Globo cresceu às custas da Embratel, financiada com dinheiro público


O jornalismo que ataca a democracia

No dia 26 de abril, a Rede Globo, maior conglomerado de comunicação do país, fará uma grande festa para comemorar seus 50 anos.

Os movimentos sociais que lutam pela democratização das comunicações brasileiras se organizam para, no dia 23, promoverem atos intitulados de “descomemoração”.

É a resposta da sociedade organizada a um grupo jornalístico que, nesse meio século de existência, tem prestado um enorme desserviço à verdade e à democracia.

Criada oficialmente em abril de 1965, a TV Globo nasceu sob as bênçãos da ditadura que, um ano antes, havia promovido o golpe militar contra o governo legitimamente eleito de João Goulart.

Em setembro daquele mesmo ano, o governo militar criaria a Embratel (Empresa Brasileira de Telecomunicações). A ideia era montar uma grande infraestrutura nacional que pudesse levar aos brasileiros de todas as regiões a visão única e reacionária dos militares.

A TV Globo forneceria o conteúdo e a Embratel, a rede de telecomunicações. Num processo de canibalização de diversas emissoras regionais, a Globo se transformou numa potência de comunicação. E jamais foi uma afilhada mal agradecida.

Durante todo o período militar a Rede Globo serviu com entusiasmo seus padrinhos. O símbolo maior dessa subserviência foi um programa lançado na TV Tupi, mas imediatamente contratado pela TV Globo — Amaral Netto, o Repórter.



Apresentado por um ex-deputado udenista que passou pelo MDB e, a partir de 1966, se filiou ao partido oficial da ditadura, a Arena, o programa era o porta-voz dos “grandes feitos” militares. Apresentado em horário nobre — primeiro aos domingos e, depois, aos sábados à noite (22h30) — durou de 7/12/1968 a 1983.

Em 1984, quando os brasileiros voltaram a ocupar as ruas em manifestações populares exigindo eleições diretas para a presidência da República, o governo do general João Figueiredo agiu com a truculência de sempre tentando impedir o avanço da campanha das Diretas Já.

Contou com o aliado de todas as horas, o Sistema Globo, que escondia as manifestações até ser atropelado pelas multidões que lotavam as avenidas do Rio e de São Paulo e, em seguida, de todas as capitais brasileiras. Apesar disso, a Emenda Dante de Oliveira foi rejeitada na Câmara dos Deputados.

Com a redemocratização, em 1985, e a inesperada posse de José Sarney na presidência, as Organizações Globo se mantiveram ao lado dos vitoriosos.

E conseguiram emplacar ninguém menos que um grande amigo da família, o político baiano Antônio Carlos Magalhães, como ministro das Comunicações. Conhecido como Toninho Malvadeza, o ministro fez justiça ao apelido, perseguindo políticos desafetos e trabalhadores.

Em 1987, Magalhães tentou beneficiar a Globo, passando por cima da lei, no chamado Caso Vicom. A Vicom era um consórcio formado pelas Organizações Globo, Bradesco e Victori Comunicações para explorar um serviço de comunicações de dados, prerrogativa exclusiva da Embratel, então estatal.

O contrato só não foi adiante porque os trabalhadores da Embratel, a partir do Rio de Janeiro, realizaram uma greve nacional.

No processo de elaboração da Constituição de 1988, a Globo liderou os setores que se opunham ao Capítulo da Comunicação Social. Por força dessa pressão, que permanece, até hoje os artigos 220 e 223 da Constituição não foram regulamentados.

Sempre na contramão dos interesses populares, na eleição de 1989, a primeira depois do fim da ditadura, a Globo editou o debate entre Collor e Lula, favorecendo Fernando Collor, o “Caçador de Marajás”, candidato dos meios de comunicação e das elites.

Collor foi afastado em 1992, depois de ter sofrido o impeachment, e a Globo desembarcou de mala e cuia na campanha de Fernando Henrique Cardoso.

Apoio que se estendeu pelos dois mandatos de FHC, o presidente que teve um destacado papel na destruição da indústria nacional, privatizando e desnacionalizando um setor chave, o das telecomunicações.

Em 31 de agosto de 2013, editorial do jornal O Globo intitulado “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”, fazia uma autocrítica às posturas adotadas pelo grupo jornalístico.

Em determinado trecho, o editorial afirma que “a lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História.

O Globo de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como o Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e o Correio da Manhã. Os fatos recentes demonstram que essa autocrítica foi mais uma jogada de marketing.

As Organizações Globo continuam na linha de frente do combate aos trabalhadores e à democratização do país. Apoia a lei nefasta da terceirização em massa, o PL 4330/04, e se coloca contra qualquer tentativa de regulação da mídia.

As manifestações programadas para o dia 23 pretendem demonstrar que a sociedade brasileira está cansada de manipulações.

Instituto Telecom
No Viomundo
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A verdade é dura...






Globo se apresenta como vítima da censura em especial sobre os 50 anos

Nas comemorações dos 50 anos da Globo, o “Jornal Nacional” está exibindo esta semana uma retrospectiva sobre o jornalismo da emissora. Apresentada por William Bonner e comentada, em uma mesa redonda, por 16 profissionais da casa, a série tratou na segunda-feira (20) do período 1965-1974 e no dia seguinte dos anos entre 1975 e 1984.

O primeiro episódio acima, com 20 minutos de duração, dedicou menos de 90 segundos à ditadura militar, iniciada um ano antes da inauguração da emissora. Rapidamente, Bonner observou que “é impossível tratar do nascimento do ‘JN’ (ocorrido em 1º de setembro de 1969) sem tratar desse tema” e alguns jornalistas lembraram que o noticiário estava submetido a censura prévia na época.

No segundo episódio abaixo, por outro lado, censura e ditadura foram os temas principais. Nos primeiros cinco minutos, de um total de 22, Bonner lembrou cinco situações dramáticas, realçando sempre um mesmo ponto: a dificuldade do jornalismo da emissora de retratar a realidade por culpa da censura.



“As mortes tanto de Juscelino quando de Jango (ambas ocorridas em 1976) foram censuradas. Não se podia dizer, por exemplo, que Jango tinha sido cassado na cobertura sobre a morte dele”, disse. Já o repórter Francisco José observou: “Quantas vezes eu não tentei chegar junto desse general (Ernesto Geisel, presidente entre 1974 e 79) nas visitas que ele fazia para aparecer na seca, mas ele não falava. Na hora em que eu tentava falar, eles afastavam. Isso aconteceu várias vezes, em todos os Estados do Nordeste.”

Bonner se vangloriou que, em 1979, promulgada a lei da anistia, o “JN” exibiu reportagens mostrando a volta de alguns exilados, como Betinho, Leonel Brizola e Fernando Gabeira. “Isso foi pro ar, foi ao ar na televisão”, festejou.

O repórter Ernesto Paglia lembrou a cobertura das greves no ABC paulista, ocorridas naquele período: “Nós ainda vivíamos sob alguma forma de censura… Pressões para que a Globo não noticiasse o movimento. Nós tínhamos 30 segundos para colocar aquilo no ar. Não era uma censura, tipo ‘não pode falar da greve’, mas é óbvio que em 30 segundos você é obrigado a resumir e o peso que aquilo tem na cobertura é muito menor.”

Por fim, Andre Luiz Azevedo comentou a cobertura do atentado ao Riocentro, em 1981: “Havia essa disputa entre abertura e o fechamento e a gente cobria esse fato dando a versão oficial; claro, a gente era obrigado a dar. Mas sempre demonstrando, como nesse caso do Riocentro, como essa era uma mentira deslavada, onde os fatos eram grosseiramente forjados.”

Não vi inverdades neste relato, mas é uma narrativa destinada a convencer o espectador de que a Globo foi vítima — e não aliada — do regime militar que dirigiu o país entre 1964 e 1985. O especial omite muitos fatos que poderiam deixar esta narrativa mais equilibrada. Cito um: o programa “Amaral Neto, o Repórter”, por exemplo, que por 15 anos (1968-1983) ocupou espaço na grade da emissora louvando os feitos do governo.



Nos últimos sete minutos do especial de terça-feira, Bonner tratou de um erro a respeito do qual figuras da emissora já fizeram “mea culpa” público há anos: a timidez e a omissão de fatos no início da cobertura da campanha pelas eleições diretas para presidente, a partir de 1983.

O fato-símbolo desta postura foi a apresentação de uma reportagem sobre um comício em São Paulo, em janeiro de 1984. “Um dia de festa em São Paulo”, disse o apresentador Marcos Hummel. Bonner explicou: “Isso aí foi visto durante muitos anos como uma tentativa da Globo de esconder as Diretas. E, obviamente, depois de muitos anos também, foi reconhecido como um erro.”




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´Globo 50 anos


Dia 29 de setembro de 2006 a Globo prestou um favorzinho especial para o candidato tucano à presidência Geraldo Alckmin. Três horas antes do Jornal Nacional entrar no ar, um jatinho Legacy que desviou-se da rota sobre a selva amazônica e, com o leme, rasgou a asa de um Boeing da Gol.

O jatão, que ia de Manaus para Brasília, entrou em parafuso e despencou, matando seus 154 passageiros e tripulantes. Um acidente e tanto, por suas características único na história da aviação. Mas a Globo queria eleger Alckmin presidente.

Então, o Jornal Nacional não dedicou sequer uma notinha ao vivo ao acidente da Gol, ao contrário de vários concorrentes. Era o atestado de falência do jornalismo da Globo, mas a glória da manipulação. Sonegaram a notícia mais importante do mundo naquele dia para não ofuscar o monte de dinheiro apreendido com os aloprados. Valia tudo para Alckmin ir ao segundo turno.

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O que é, para que serve e quem financia o site de difamação Folha Política?


O furo de reportagem do jornal Folha de S.Paulo, dos repórteres Ricardo Mendonça e Lucas Ferraz, mostrou como o advogado Fernando Gouveia fatura pelo menos 70 mil reais por mês do governo Geraldo Alckmin. Gouveia, que é conhecido pelo pseudônimo Gravataí Merengue, utilizou parte dos recursos para alimentar seu blog antipetista O Implicante.

A prática do advogado na rede, com passado vinculado a outros políticos, não é nova e é feita por inúmeros outros blogs. Muitos deles sem sequer um autor para assumir a responsabilidade pelos atos e pelos ataques promovidos.

Este é o caso da Folha Política. Criado em fevereiro de 2013, o site normalmente não tem autores e nem sequer um email de contato disponível, exceto a caixa de mensagens da fanpage no Facebook. Registrado em um domínio .org, se define como uma organização para debate político. Para quem?

As notícias da Folha Política são um cópia e cola de outros sites jornalísticos, especialmente Folha e Estadão. No entanto, diferente das boas práticas na internet, o site não identifica a origem das informações. Dois nomes aparecem como responsáveis: Luciana Camargo e Lígia Ferreira. Não há um expediente que explique quem é a editora da maioria dos artigos ou quem apura as informações. Não há uma descrição sobre o que é o site, exceto que sua cobertura é “isenta”.

Quando assinam artigos, as duas autoras agem de formas diferentes. Luciana veicula conteúdos dos colunistas e comentaristas da revista Veja, como Reinaldo Azevedo e Joyce Hasselmann. Lígia se descreve como analista de “sócio-mecanismos” e foi criticada no YouTube por um vlogueiro do setor automotivo chamado Alexandre “ADG High Torque”, de Belo Horizonte. O autor de vídeos contestou o caráter “isento” do Folha Política, o que resultou numa tréplica enorme.

Lígia Ferreira se vangloria de ter muitos seguidores e milhares de visualizações. Folha Política de fato tem mais de um milhão de likes no Facebook. Consegue isso, no entanto, apenas replicando, adulterando ou distorcendo notícias contra o governo petista.

Quanto aos números, o site tem entre 500 e mil curtidas em cada postagem. As revistas Época e IstoÉ, que tem informações chupinhadas da Folha Política, conseguem um número de likes dobrado ou triplicado quando trazem dados originais tendo a mesma quantidade de público. Provavelmente a página compra fãs do Facebook para conseguir visibilidade — o que é legal — ou se espalhando através de grupos privados antipetistas, como o Comando de Caça aos Corruptos, cujo nome é uma referência ao CCC, o Comando de Caça aos Comunistas.

É um serviço de difamação. A mesma coisa ocorre com o Implicante de Gravataí Merengue. Com o agravante do anonimato.

A construção dos textos da Folha Política é tão tosca que eles publicaram, em 22 de dezembro de 2013, um artigo afirmando que o diretor do Diário do Centro do Mundo, Paulo Nogueira, escreve na revista Carta Capital e elegeu a filha de José Genoino, Miruna, como a personalidade do ano.

A autora da Folha Política já deveria ter corrigido este equívoco, mas, se não tem cuidado com os fatos, ela vai ter cuidado com outros detalhes? Claro que não.

No DCM há transparência sobre cada um dos autores. Em nossos perfis, nós contamos quais foram os locais onde os jornalistas trabalharam e fazemos uma extensa pesquisa antes de publicar artigos.

Existe alguma ideia por trás da Folha Política? Se não sabemos nem ao certo quem escreve, o espaço é propício para se plantar textos tendenciosos com aparência de neutros. O anonimato é um direito na internet, mas dentro de uma publicação ele só contribui para obscurecer sua própria mensagem.

Quando é descoberto que estes veículos estão sendo financiados por um governo ou por um partido, eles devem ser expostos para a sociedade. Enquanto isso não acontece, a desinformação corre solta.

Esses conteúdos são divulgados maciçamente por redes sociais como o Facebook e o Twitter. Muita gente clica supondo que são verdadeiros. Se a mídia tradicional deve ser questionada, esses sites picaretas também.

Cabe a nós, jornalistas, desmascarar as fontes de financiamento e questionar as formas como os dados são mostrados ao público.

Pedro Zambarda de Araujo
No DCM
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O linchamento moral de Diógenes Oliveira

10/nov/2014

Após linchamento moral, Diógenes Oliveira lança livro contando sua longa e rica trajetória

Após uma longa trajetória de lutas — muitas delas travadas com armas na mão ou sob tortura —, Diógenes Oliveira ficou famoso no Rio Grande do Sul por uma verdadeira campanha de difamação, cujas acusações jamais foram comprovadas. A enxurrada de denúncias, que incluíam envolvimento com o crime organizado e financiamento de campanhas políticas através do jogo do bicho, vinham em manchetes de capa acompanhadas de fotos. Após mais de cinco anos respondendo a processos, Diógenes livrou-se de todos. Só que a sequência de absolvições eram veiculadas em pequenas notas nas páginas internas. As marcas deste linchamento moral persistem até hoje.

Nesta Feira do Livro (Porto Alegre, outubro de 2014), Diógenes Oliveira lança o livro biográfico Diógenes, o Guerrilheiro, que narra mais de meio século de sua vida. Combateu o Golpe de 64, foi preso e torturado. Fez treinamento militar em Cuba. Passou 20 anos no exílio. Morou em dez países diferentes: Uruguai, Cuba, México, Bélgica, Chile, Guiné Bissau, Coreia do Norte, Líbia e China Continental. Teve presença ativa em quatro golpes ou revoluções: no Brasil, Chile, Portugal e Guiné Bissau. Mas suas últimas lutas ocorreram longe das armas: foi como Secretário de Transportes do Prefeito Olívio Dutra, após a intervenção nas empresas de transporte coletivo em Porto Alegre e durante a CPI da Segurança Pública. Nesta entrevista, Diógenes faz um resumo de seus 72 anos de vida.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

“Eu tinha um certo pânico de aparecer na imprensa, porque antes era só paulada. Tudo isso era potencializado nas campanhas eleitorais”.


Sul21 — O sr. foi manchete por muito tempo.

Diógenes Oliveira É verdade. A RBS me colocou por semanas continuamente na capa de seus jornais, com fotos e grandes manchetes. Sofri um linchamento moral que deve ter sido inédito, porque eu não era político, nunca fui deputado, nunca foi vereador. Foi desproporcional. Por trás de tudo isso, eles queriam o impeachment do Olívio, isso era o que estava na pauta. Queriam nos acusar de ligações com o crime organizado, queriam tirar o governador algemado do Palácio, essa era a intenção dos caras. Meu livro está cheio de informações, mas, por conselhos de amigos, retirei algumas coisas. Se eu abro tudo, seria um Deus nos acuda.

— Comecemos então pelo motivo de publicar o livro neste momento.

Este livro está sendo escrito com dez anos de atraso. Se ele fosse publicado no auge da CPI, seria um best seller. Nos primeiros anos destes acontecimentos, fiquei ilhado por ações judiciais. Na porta da minha casa tinha uma fila de oficiais de justiça.

— Tinha inclusive a loira.

Ah, é! (risos) A oficial de justiça loira que me visitava! Os vizinhos brincavam que eu andava bancando o garanhão do bairro. Então, na época, não escrevi o livro porque estava muito enrolado judicialmente, levei vários anos para me desenrolar.

— Agora o senhor está totalmente livre das ações?

Sim, porque as acusações eram falsas e eu fui absolvido em todas as ações. Uma segunda razão para o atraso do livro é que eu tinha um certo pânico de aparecer na imprensa, porque antes era só paulada. Tudo isso era potencializado nas campanhas eleitorais. Eu não sabia bem o que fazer, se me escondia, se saía à luz do sol. Quando as coisas se acalmaram e meu nome começou a ficar mais, digamos assim, esmaecido, veio a questão da minha anistia. Eu tramitei um requerimento no Ministério da Justiça durante cinco anos e meio pedindo minha anistia, de acordo com a lei. Tarso Genro era ministro naquela época. Bom, quando veio, eu sofri um novo linchamento midiático por parte do Elio Gaspari.

— Em que ano foi isso?

Em 2008, 2007. A CPI foi em 2001, no fim do governo do Olívio. Os anos de 2001 a 2006, foram infernais: manchetes, campanhas eleitorais, novas desconfianças e processos judiciais, tudo em paralelo. Quando isso acalmou, veio a minha anistia em portaria publicada no Diário Oficial da União. Aí o Elio Gaspari desencadeou uma campanha midiática muito violenta contra mim. O Juremir Machado da Silva entrou na trilha do Elio Gaspari. A campanha que o Gaspari desenvolveu foi muito sórdida, porque ele tem uma coluna nacional, publica em duzentos jornais pelo país… Eu juntei toda uma papelada para processá-lo, eu já não aguentava mais. Foi minha ex-mulher que entrou na justiça contra ele, contratou o Fábio Konder Comparato e só não colocou o Elio na cadeira porque não quis. E aí ele parou. Hoje estou com 72 anos. Um filho se formou em jornalismo, outro em direito. Os amigos sempre me perguntavam pela biografia. Ano passado estive muito doente, estive mesmo nos umbrais da morte. Então pensei: é agora ou nunca. E aí resolvemos escrever. Antes era muito cedo e depois talvez fosse tarde demais.

“Tu pra padre já não deu, mas pra alienado eu acho que tu também não serve, tu é um guri esperto. Então eu acho que tu vai ser comunista”.


 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21— Então vamos voltar no tempo.

Minha família era proprietária de terras, médios proprietários de terra. Eu sou natural de Júlio de Castilhos, antiga Vila Rica, cidade que leva este nome por causa do pai do Antônio Chimango. Ele nasceu lá, o próprio Júlio de Castilhos nasceu lá. Era uma antiga redução jesuítica chamada Nossa Senhora da Natividade. Uma redução que os padres fizeram meio escondida para esconder o gado dos bandeirantes que, quando não conseguiam escravizar os índios, levavam as tropas. Eu não tinha condições de estudar em colégio nenhum, então meus pais resolveram me colocar num seminário, porque era de graça. Mas eu não tinha nenhuma vocação pra aquilo. Fiquei lá uns anos e vim pra Porto Alegre.

— A política já fazia parte da sua vida?

Eu tive a sorte de, na minha cidade, haver um único comunista, que era casado com uma prima-irmã do meu pai. O cara me chamou quando soube que eu queria vir para Porto Alegre e disse: “Tu pra padre já não deu, mas pra alienado eu acho que tu também não serve, tu é um guri esperto. Então eu acho que tu vai ser comunista”. E me deu um bilhetinho para que eu procurasse a professora e poetisa Lila Ripoll. Procurei e ela foi minha tutora. Fui pupilo da Lila até depois de entrar para a clandestinidade. Foi ela que me iniciou no marxismo, na bibliografia toda, ela reunia grupos de jovens em sua casa. A Lila era comunista de carteirinha, clássica.

— Isso foi o quê, nos anos 50?

Sim, sim. Anos 50. Eu sou de 1942. Tive o privilégio de ter uma boa formação teórica por causa da Lila. Ela era uma pessoa maravilhosa, muito querida pela intelectualidade rio-grandense. Essa foi a minha infância e nisso veio a Legalidade.

— O sr. já estava na universidade?

Não, eu era secundarista. Na Rua da Ladeira tinha um colégio, o Monteiro Lobato — não é o de hoje —, onde eu estava estudando. E veio a legalidade, ou seja, a renúncia do presidente Jânio Quadros, aquele tumulto e tal. O Brizola tentou trazer o Jânio pra cá, mas ele tinha outras coisas em vista. E montou-se aqui todo aquele mecanismo de resistência que eu procuro mais ou menos em meu livro. Formou-se um QG da Legalidade onde hoje é prédio do Tudo Fácil. Ali tinha um museu chamado Mata-Borrão. Ali é que se formou o QG da resistência. O movimento da Legalidade foi muito intenso e a participação popular foi muito massiva. Os nossos lideres foram o Pedro Alvarez, o Peri Cunha, que também era coronel, e o Álvaro Ayala. Eu era um pirralho. Tínhamos armas. O Brizola requisitou a produção da Taurus e da Rossi e pegou o que tinha nas casas de caça e pesca. Eu consegui uma pistola italiana para mim, mas a gente desejava mesmo eram os “três oitão” da Taurus. O movimento durou pouco tempo porque o Jango voltou logo. Ele não podia ficar muito tempo fora do país, senão os caras consolidavam outra situação. E ele chegou aqui, se enfurnou no Palácio, não saiu dali, não falou com ninguém, não deu discurso nem nada, fez o acordo do parlamentarismo e foi para Brasília. Depois, ele começou um governo bastante reformista. E nós com uma consciência clara de que haveria, em reação, um golpe militar. Eu tinha dupla militância, militava no Partido Comunista e junto com o pessoal do PTB, do antigo PTB. O PTB sabia que muitos de nós tínhamos essa duplicidade e apoiava. Não houve resistência ao golpe. Nós esperávamos uma ordem, mas o Brizola mandou dispersar todo mundo e entregar as armas. Não queria derramamento de sangue. Ele tinha uma fazenda no Uruguai que ficava na linha imaginária da fronteira. Então, sem sair da propriedade, ele emigrava. E foi o que fez. Emigrou. Nós iniciamos um período muito grave de tentativa de resistência armada ao golpe. Víamos o novo governo como resultado de uma quartelada. Foram inúmeras tentativas, todas elas foram abortadas pelo serviço de inteligência da ditadura e dos Estados Unidos. Não conseguimos nada. Não demos sequer um tiro. Eles abortavam tudo na antevéspera e sempre prendiam as lideranças. Lá por 1965, eu já era conhecido pela repressão e trabalhava na Companhia Estadual de Energia Elétrica.

“Em Montevidéu, concentrava-se a maioria de lideranças. Estavam lá para não serem presos. Dali eu fui para Cuba a fim de fazer treinamento militar”.


 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21— Que cargo o sr. ocupava na CEEE? (Companhia Estadual de Energia Elétrica)

Eu era escriturário concursado, mesmo sendo secundarista. Tanto que só consegui a anistia por ter sido funcionário da CEEE. Quem me deu a documentação necessária para embasar o pedido foi ninguém menos do que a Agência Brasileira de Inteligência. Eles tinham tudo a meu respeito.

— E aí em 1965, com 23 anos, o senhor foi para o Uruguai.

Havia milhares de brasileiros por lá, principalmente marinheiros e sargentos. Porque houve aquela tentativa de revolta dos sargentos em Brasília, depois aquela movimentação toda dos marinheiros no Rio de Janeiro e aquela famosa assembleia do sindicado dos metalúrgicos. Em Montevidéu, concentrava-se a maioria de lideranças. Estavam lá para não serem presos. Dali eu fui para Cuba a fim de fazer treinamento militar. Fiquei lá quase um ano e o meu destino seria uma coluna guerrilheira na Bolívia, bem no local onde Che Guevara veio a morrer. Só não fui porque, quando eu descia Sierra Maestra, surgiu a notícia de que o Che havia sido localizado. E, quando isso aconteceu, os americanos imediatamente fizeram o chamado cerco estratégico, em que não entrava nem saia ninguém da região. O cerco estratégico do Che na Bolívia durou meses. Eu e meu grupo retornamos para Montevidéu e procuramos o Brizola. Ele não queria saber da luta armada. Nós tínhamos muitas armas, armaram-nos muito bem. O Brizola queria que nós nos desarmássemos. Mas a gente saiu de Montevidéu com nossas armas. Viemos para Porto Alegre, mas o pessoal achava que eu era muito conhecido aqui, e me mandaram para São Paulo. Cheguei em São Paulo no ano de 67. Lá estava se reestruturando aquele pessoal todo do Uruguai, depois do recuo do Brizola. A grande maioria daqueles sargentos e marinheiros começou a se reorganizar em São Paulo e fundaram a VPR, Vanguarda Popular Revolucionária. Essa organização surgiu em São Paulo porque lá tinha um forte núcleo operário, oriundo do antigo partidão. Tínhamos a hegemonia absoluta do movimento operário de Osasco e de São Caetano, com bases operárias fortíssimas. E, devido a isso e à presença de sargentos das três armas e de marinheiros, é que se fundou a VPR. Então começamos os assaltos a bancos e aos quartéis.

— E em um deles o sr. acabou preso?

Eu fui preso na Praça da Árvore em São Paulo. Fui encontrar um companheiro e a polícia estava bem defronte, numa banca de revistas. Me atiraram na caçamba de uma daquelas caminhonetes Veraneio. Eu fiquei um ano preso, seis meses na solitária. Nem mosquito tinha. Seis meses na solitária.

— O sr. foi muito torturado?

Sim. Eu tenho um joelho de titânio, resultado do pau de arara. E o olho… Eu tinha uma prótese no olho. Eles tiraram a prótese para dar choque lá dentro. Fiquei com muitas sequelas, coisas que não vou falar. Estava no Carandiru em isolamento absoluto. Quem ia para lá eram os destinados ao corredor da morte.

“Mas aí não deu porque o Marighela nos avisou: ‘Se vocês continuarem enrolando, o passarinho vai voar’”.


 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21— Fale sobre a atuação da luta armada em São Paulo.

Em São Paulo, nossa atuação se caracterizou basicamente por duas coisas: pegar dinheiro dos bancos e armas dos quartéis. O primeiro quartel que nós pegamos foi a guarnição do Hospital Militar do Bairro do Cambuci. Conseguimos um arsenal razoável lá. E aí o comandante ficou uma arara com a gente. Ele disse que os terroristas eram uns covardes, que tinham assaltado um hospital, uma guarnição de recrutas, que “achavam que tinham almoçado o exército mas que o exército iria jantá-los em breve”. A luta armada em São Paulo teve o episódio da morte do capitão Chandler, um americano que era criminoso de guerra do Vietnã. O Chandler operou no Sul do Vietnã. A especialidade dele eram os interrogatórios rápidos. O método dele era o de botar o cara pelado, deitado numa mesa. Aí, encostava uma barra enferrujada no umbigo do cara. A barra tinha uma graduação em escalada métrica. Eles perguntavam: “Onde é que está o fulano?”. “Não sei”. Para cada “não sei” era um centímetro a mais na barriga. Era falar ou morrer, questão de minutos. Os americanos tiraram-no do Vietnã, condecoraram-no como herói da pátria e o mandaram pro Brasil a fim de ensinar essa técnica para a polícia brasileira. Mandaram o Chandler para São Paulo e o Mitrione para Montevidéu. O Mitrione era chamado de “O Professor de Tortura” e foi morto pelos Tupamaros. E nós pegamos o Chandler. Ele já tinha uma sentença de morte no Vietnã. Só não foi executado porque saiu de lá, fugiu. E nós queríamos pegar o cara vivo e para fazer um julgamento parecido com o que os judeus fizeram com Eichmann. Julgaríamos o cara, certamente o condenaríamos à morte e um dia ele apareceria enforcado na Praça da República. Mas aí não deu porque o Marighela nos avisou: “Se vocês continuarem enrolando, o passarinho vai voar”. Ele já estava com a passagem comprada para voltar aos Estados Unidos. E então foi executado.

— O sr. saiu da prisão trocado pelo Cônsul japonês, correto?

Isso, pelo Consul Japonês. Tinha um japonês da VPR que estava preso e estava apodrecendo sob tortura. Ele sabia onde é que o Lamarca estava e não falou. Então alguém teve a ideia de sequestrar o Cônsul do Japão pra trocar pelo preso japonês. Foi nessa lista que eu entrei.

— E foi para o México…

O exílio é muito longo, vou tentar ser cronológico. Eu fiquei pouco tempo no México, porque o Lamarca nos deu ordens pra ir imediatamente para Cuba. Então, em Cuba, eu recebi a missão de ir para a Coreia do Norte assistir ao Congresso Mundial da Juventude Coreana do Trabalho — não sei se aquilo terá um dia uma solução pacifica porque o ódio acumulado nos dois lados é muito grande. Da Coreia do Norte me mandaram para o Chile, em razão da vitória do presidente Allende. Militei no Partido Socialista chileno. Fiquei dois anos lá e saí depois do golpe. Fui para o México pela segunda vez e pensei que, bem, vou tentar parar um pouco, sossegar o “pito” por aqui. Fui trabalhar na cidade de Puebla, uma cidade colonial histórica muito linda. Eu trabalhava em um banco de fomento ao artesanato. Mas aí houve grandes calamidades naturais no México. A mulher do presidente, que era nossa benfeitora, nos chamou e avisou “olha, nós não vamos conseguir segurar mais vocês aqui. A oposição está muito violenta contra nós e temos muitos chilenos, não param de vir chilenos. Com dor no coração, eu preciso dizer aos companheiros que arrumem um lugar para ir”.

— Quanto tempo o sr. ficou no México?

Não chegou a um ano. Porque foram grandes inundações, muitos flagelados, o governo precisava de recursos. A oposição alegava que o governo estava gastando dinheiro com comunista, com terrorista. Os chilenos ficaram por lá, mas os outros não conseguiram. Aí fui morar na Bélgica. Escolhi o país por causa da comunidade diplomática do Benelux — Bélgica, Luxemburgo e Holanda — e em razão da universidade de Louvain, onde fui aluno do professor Ernest Mandel. Mas não terminei o curso porque estourou a Revolução dos Cravos em Portugal. De todas as da minha vida, foi a revolução mais linda que eu assisti. Fracassou porque Portugal entrou no jogo da Guerra Fria, das superpotências e foi trocado por trinta moedas em uma mesa de negociações. A União Soviética ficou com Angola, que tem alguns dos maiores poços de petróleo do mundo e é um território dos diamantes por excelência. E eu fui para Guiné, porque era muito amigo do Amílcar Cabral, tinha feito amizade com ele em Cuba.

“‘Quantas vezes tu já estiveste aqui?’ e eu respondi que tinha perdido a conta. ‘Então tu não volta mais, porque eu não vou mais te atender.'”


 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21— Guiné foi uma época feliz de sua vida, não? Lá o sr. sossegou o “pito”?

(risos) Sim, foram oito anos. Guiné era muito pobre, tinha pouquíssimas estradas e ruas asfaltadas, poucas riquezas naturais. Arrumei um emprego no Ministério do Planejamento. Eles tinham um Estado a ser organizado, uma população a ser alfabetizada. Havia alguns cubanos lá, o hospital central era gerido e assistido por médicos cubanos. Guiné só tinha um médico guineense formado. Minha vida era razoavelmente boa lá. Eu me informava das coisas do mundo pelo rádio, não me estressava com horários, a comida era muito boa. Mas fui derrotado pela malária. Fizemos um belo trabalho no governo. Mas, nos últimos tempos da minha presença em Guiné, eu tinha uma média de dois ataques de malária por mês. Eu ia a toda hora para o Instituto de Medicina Tropical de Lisboa a fim de fazer tratamento. Esse instituto tem fama mundial. Foram eles que conseguiram erradicar a doença do sono, a da mosca tsé-tsé. Mas para a malária não conseguiram fazer uma vacina. Então o diretor me chamou e perguntou “Quantas vezes tu já estiveste aqui?” e eu respondi que tinha perdido a conta. “Então tu não volta mais, porque eu não vou mais te atender. Tu não tens cura, tens é que sair da zona infestada”. Não tinha outra solução senão sair. E voltei para o Brasil.

— Em que ano voltou?

Muito depois da anistia. A anistia foi em 79, eu voltei para cá no Natal de 83.

“Os funcionários viviam em um regime de escambo, não ganhavam salário, ganhavam mercadoria”.


 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21— E entraste no PT.

Aqui em Porto Alegre, me contaram que tinha uma gente nova, de um bancário aí. O bancário era o Olívio e eu fui para o PT. Aí, o Olívio acabou eleito prefeito e eu fui por quatro anos Secretário de Transportes. Foi uma época muito agitada. Fizemos a intervenção no sistema de transportes. O sistema estava podre. Um toco de cigarro furava os pneus dos ônibus. Constatamos que aquelas empresas eram tudo, menos empresas de ônibus. Os ônibus eram um interesse periférico. Eu fui nomeado interventor da [empresa] Trevo. Os funcionários viviam em um regime de escambo, não ganhavam salário, ganhavam mercadoria. O sistema era de vales. O funcionário pegava um vale para comprar remédio, por exemplo. Eles davam o vale e cobravam juros de 30, 40% ao mês.

— O sindicato?

Patronal e pelego. Então o Olívio renovou o sistema. As maiores obras da administração do Olívio na prefeitura foram a renovação do sistema de transportes e o Orçamento Participativo. Ao final do governo Olívio, fui trabalhar na iniciativa privada, abri uma pequena agência de viagens. E veio aquela eleição do Olívio para governador. Quando ele foi fazer a campanha, me chamou pra ajudar a catar dinheiro. Não tínhamos um tostão. Ninguém faz ideia de quanto custa uma campanha política. Por isso, quando ouço falar dos caras que querem o financiamento público de campanha, não digo nada. Isso é pura balela.

— Tu foste visto como o grande financista da campanha do Olívio. A agência de viagens era grande? E o Clube de Seguros?

Não, eu apenas sobrevivia daquilo, era uma agência pequena. Hoje, turismo e seguro não são bons negócios. As pessoas fazem tudo no computador. O problema é que o governo do Olívio foi um governo de minoria, de conflito. O Clube de Seguros, ah, o Clube de Seguros! Um companheiro nosso, Daniel Gonçalves, que trabalhava com seguros, disse que “se a gente montar um clube, se fizermos estipulações de seguros, dá pra ganhar bem”. Queríamos fazer apólices em grande escala. Foi assim que o Caburé ficou biliardário. Se eu montar uma apólice de seguro de vida com 200 caras e levar para uma companhia, eles remuneram muito bem.

“Olívio resolveu distribuir essas verbas de forma mais equitativa, mandando-as para os pequenos jornais e rádios do interior do estado. Isso equivaleu a uma declaração de guerra”.


 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21— Como começou o rolo?

Tu sabes… As verbas de publicidade são disputadas a tapa pela mídia. Os barões das grandes cadeias acham que seus quinhões devem ser proporcionais aos índices de audiência que são, como sabemos, uma caixa preta. O governo Olívio resolveu distribuir essas verbas de forma mais equitativa, mandando-as para os pequenos jornais e rádios do interior do estado. Isso equivaleu a uma declaração de guerra. Eles queriam tirar o Olívio algemado do Palácio. E o bode expiatório de plantão era eu e o Clube. Nunca fui tesoureiro do partido e nem participei do Comitê Financeiro. Inventaram uma CPI da Segurança Pública. Forjaram uma fita onde havia uma imputação, feita pelo Jairo Carneiro, ex-tesoureiro do PT cooptado por eles, de que eu estava envolvido com o jogo do bicho e o crime organizado. Jairo era o inquirido na fita. Esta fita foi montada por três jornalistas da RBS, uns gurizinhos recém contratados. Um dia, eles resolveram que, para fechar a coisa, faltavam algumas informações. Então mandaram o Jairo Carneiro ao escritório do Daniel Gonçalves com o celular ligado para os caras da RBS ouvirem. O Jairo depois disse para a Justiça que, quando entrou no escritório do Daniel, sentiu-se pegajoso, sujo, nojento, fazendo um trabalho indecente. Afinal, o Daniel é um sujeito digno que sempre o tratara com decência. E ele desistiu. Chegou lá e desligou o celular. Depois mentiu pros caras que tinha acabado a bateria. Mas eles foram ao Ministério Público entregar a fita. E o pessoal do MP respondeu: “Olha, doutor Vieira da Cunha, nós queremos ajudar nessas investigações, são denúncias gravíssimas. Mas o senhor sabe que temos que reduzir a fita a um termo e assinar. O senhor é membro do Ministério Público e sabe que nós não podemos trabalhar só na oralidade. O dono da fita tem que degravar e assinar. Façam isso com urgência e “tragam ontem” para mim.

“O Jair perdeu a compostura e, aos berros, com o auditório da CPI lotado, pedia um ‘detector de mentiras'”.


 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21— E eles não entregaram nada…

Claro! E cometeram um grande erro. Em vez de levar a fita para a CPI, falaram com o Jair Krischke, que era o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos. Ele estava no esquema contra o Olívio. E ele se auto-convocou para uma entrevista com o jornalista Lasier Martins, e disse “Dr. Lasier, quero fazer um comunicado importante ao povo do Rio Grande, mas não vou levar a fita com a comprovação das denúncias”. “Mas como, Dr. Jair?” respondeu o Lasier, “O senhor divulga um caso desses e depois frauda a expectativa criada?”. E o Jair: “Não, vou fazer melhor, vou levar o autor da fita na CPI”. Que era o Jairo. E aí diz o Lasier, “Mas Dr. Jair, não será temerário?”. E ele respondeu “Não, está tudo sob controle”. Foi então que o Jairo chegou lá e desmentiu tudo, revelando a armação da RBS. Eles literalmente enlouqueceram. Ele desmentiu a fita em alto e bom som. O Jair perdeu a compostura e, aos berros, com o auditório da CPI lotado, pedia um “detector de mentiras”. Tudo está contado com detalhes documentais no livro, que termina depois com um capítulo só sobre poesia, para aliviar o leitor dessa sujeira.

— E como a Clube de Seguros da Cidadania tinha a sede do Comitê Eleitoral do Olívio?

A sede do Clube foi comprada por nós. O Clube se propunha a fazer estipulação de seguros, que é algo legítimo e legal. Com a receita, nós conseguimos comprar aquela casa na Farrapos e fizemos um comodato com o PT para colocar o comitê do Olívio em nossas salas. Comodato é um aluguel sem ônus: tu te comprometes a manter a casa e pagar os impostos, mas a casa é do outro. Como nós fizemos o comodato, bastava só declarar, porque não entra dinheiro. Eles ficaram malucos, achando que era impossível.

— Como se encaixam o jogo do bicho e o crime organizado? Que crime organizado era esse?

Olha, fomos acusados de tudo o que tu possas imaginar. Quando o Jairo Carneiro saiu do PT, antes simulou um assalto ao comitê de campanha. Roubaram só o disco rígido. Imaginem, não pegaram nada, nem a CPU ou monitor quiseram, só o disco rígido. Ali havia orçamentos. Um deles era o dos custos do programa eleitoral na TV, que fora feito junto à Casa de Cinema. Dava um valor redondo de 700 mil reais para o primeiro turno. Claro que nós não tínhamos o dinheiro e pedimos um parcelamento. E a planilha tinha diversas entradas com os nossos pagamentos. Eles mudaram o título da planilha para “Arrecadação do JB (jogo do bicho)”… Veja bem, a CPI tinha como título CPI da Segurança Pública, era pra investigar a situação da segurança pública no estado. E daí derivaram a investigação para cima do Clube, com todas as manchetes em jornais da RBS e a fita gravada. A “prova” era a fita do Jairo, uma montagem. Basicamente, a CPI foi isso.

— E hoje?

Hoje tudo passou. Ganhei todos os processos na Justiça e consegui escrever meu livro. Meu advogado me alertou que eles poderiam fazer um mandado de busca e apreensão na sessão de autógrafos em razão da Kalashnikov da capa. Poderiam alegar que é uma afronta ao Estatuto do Desarmamento e apologia à violência. Hoje, sou um velho militante da esquerda e da paz, mas meu livro narra um longo combate, não é um livro água com açúcar para as comadres lerem.




Milton Ribeiro
No Sul21
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#PrecarizaNao

Ativistas interagem por meio das redes sociais com o objetivo de pressionar os parlamentares pela rejeição do projeto de lei 4.330, que regulariza a terceirização da mão de obra no Brasil

Nesta quarta-feira (22), internautas, centrais sindicais e movimentos sociais organizam desde as 9h, um tuitaço contra a aprovação do PL 4.330, que será votado hoje na Câmara dos Deputados. O mote da ação é #PrecarizaNao.

O objetivo é pressionar parlamentares a rever os pontos críticos do PL, que pode trazer sérios riscos aos trabalhadores. Além do tuitaço, centrais sindicais e movimentos sociais estão organizando protestos por todo o país.

A previsão é de que hoje sejam votadas pelos parlamentares as emendas sobre os artigos de permissão para a terceirização na atividade-fim das empresas e a responsabilidade solidária. O primeiro abre brecha para que as empresas substituam contratados por terceirizados, enquanto o segundo determina que, em caso de não pagamento pelas empresas terceirizadas, a empresa tomadora de serviço só arcará com as dívidas trabalhistas se comprovada a ausência de fiscalização.

Guilherme Franco
No Fórum
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Alguém pode explicar por que a Folha não citou Serra no caso Cristina — Implicante?

Incompetente e desagregador
Numa certa época, a Folha citava o seu Manual, como se fosse um Corão, para justificar decisões editoriais mais polêmicas.

Pois eu gostaria de saber o que o Manual diz sobre duas coisas relativas ao caso Implicante.

A primeira é sobre reconhecer de onde veio um furo.

A Folha falou da ligação de Gravataí Merengue, o editor de um dos sites mais canalhas do Brasil, com o governo do estado de São Paulo.

Merengue recebe, ou recebia, 70 mil reais por mês para insultar, caluniar e mentir, sempre contra Dilma, Lula e o PT.

Logo depois, o DCM trouxe uma novidade que deu cores ainda mais sórdidas ao episódio.

Uma protegida de Serra quando governador de SP, Cristina Ikonomidis, se tornou sócia de Merengue na boca livre e suja do Implicante.

Cristina se manteve no Palácio dos Bandeirantes com a chegada de Alckmin.

O ponto: ao retornar ao escândalo, por causa do surgimento do nome de Cristina, a Folha simplesmente ignorou que a informação foi dada pelo DCM.

O Manual admite isso?

A isso se dá o nome de estelionato editorial.

Sei que a Folha não aprecia o DCM, e muito menos apreciamos a Folha. Mas daí a não citar por razões de simpatia o autor de um furo vai uma imensa distância.

Talvez a ombudsman pudesse tratar disso em sua próxima coluna, mas receio que isso não acontecerá.

Fica aqui, de toda forma, a sugestão para ela.

E uma coisa chama a outra.

Por que a Folha omitiu o nome de Serra na reportagem que publicou hoje?

Cristina é afilhada não de Alckmin, que simplesmente a herdou, mas de Serra.

Era ela que organizava, pessoalmente, as visitas que Serra fazia a escolas públicas para falar com os alunos.

Ela registrava tudo meticulosamente. Fotografava cada visita.

Como mostra um documento vazado pelo Wikileaks, Cristina mostrou as fotos a um representante do governo americano interessado em saber mais de Serra quando ele era um candidato forte à presidência.

Demos isso no DCM, e a Folha não.

Como os repórteres do jornal só chegaram a Cristina por causa do DCM, fica claro que sabiam da conexão de Serra com ela.

Mesmo assim, ele escapuliu.

Que dirá o Manual?

Um telefonema de Serra — estou especulando — vale tanto assim?

Não espero nada da Folha há muito tempo.

Mas neste episódio ela se superou.

Paulo Nogueira
No DCM
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Sobre o Fundo Partidário

O Fundo Partidário é absurdo? Absurdo é o horário eleitoral “gratuito”!


A hipocrisia da imprensa brasileira é uma piada.

Hoje, atira-se sobre a Presidente a “culpa” pela elevação do Fundo Partidário para R$ 868 milhões em 2015.

Elevação que foi aprovada unanimemente, por todos os partidos.

Se Dilma vetasse, teria de arbitrar — ela, pessoalmente — um valor, por medida provisória, nos termos da Lei Eleitoral.

Isso, é claro, se seu veto não fosse ser derrubado, o que seria de esperar frente ao fato de que o valor não teve uma oposição sequer no Parlamento.

O valor é absurdo?

Atrapalha o ajuste fiscal?

Pode-se resolver, com facilidade.

Basta revogar a mesma Lei, que estabelece que as emissoras de rádio e televisão têm o direito de ser pagas pela veiculação dos “horários gratuitos” de propaganda eleitoral.

É uma fortuna quase igual à do Fundo: R$ 839,5 milhões, só no ano passado.

É mais que os gastos — monstruosos, aliás — das campanhas de Dilma, Aécio e Marina, somados.

Desde 2000, nada menos que R$ 4,5 bilhões transferidos para as empresas de comunicação de mão-beijada, como renúncia fiscal.

E nem mesmo é possível saber quanto cada emissora recebeu, porque a Receita, a Controladoria Geral da União e o Ministério da Fazenda alegam que isto está protegido pelo “sigilo fiscal“.

Está aí uma boa maneira de praticar a austeridade.

Afinal, o horário eleitoral não custa nada às emissoras, que reprogramam todos os comerciais, sem perder um tostão.

Que tal a sugestão?

Afinal, é dinheiro do mesmo cofre, público.

Não sei o que pode haver de diferente em quantias idênticas, ambas vindas da “viúva”.

Está evidente que o Congresso “compensou” o que sabe ser inevitável: o fim do financiamento privado aos partidos e aos candidatos.

Nem Gilmar Mendes conseguirá evitar.

Fernando Brito
No Tijolaço



Maringoni: “Quem defende o financiamento público de campanha deve, por coerência, defender o aumento do fundo partidário”

Quem defende o financiamento público de campanha deve, por coerência, defender o aumento do fundo partidário, acompanhado da proibição do financiamento empresarial.

É correto e mais transparente.

Financiamento estatal pode ser fiscalizado de forma clara.

Financiamento privado, não. Veja-se os escândalos da Petrobrás, todo marcado por financiamento aos grandes partidos, PT, PSDB e PMDB.

O argumento de que o fundo possibilita a formação de oligarquias partidárias não procede. As oligarquias se formam especialmente com o financiamento privado.

Sua constituição é complexa e está ligada à formação de oligarquias na própria sociedade. Ou seja, com a estrutura de classes no Brasil.

Há argumentos colocando que não se deveria aumentar o fundo partidário em tempos de ajuste fiscal.

No fundo, trata-se de dizer que já que há ajuste fiscal, deveria haver corte de verbas para os partidos.

O que não deve haver é ajuste fiscal.

O PSOL erra ao votar contra o aumento.




Mídia familiar fecha pacto pela farra empresarial


Em uníssono, Globo, Folha e Estado de S. Paulo gritam contra a decisão do Congresso, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, de elevar os recursos do fundo partidário; Globo segue hoje a linha aberta pela Folha ontem e aponta expansão de 490% das verbas; Estado, em editorial, fala em "afronta aos brasileiros"; a questão, no entanto, é outra: no momento em que doações oficiais de empresas são criminalizadas pela Lava Jato e que, portanto, todas as companhias minimamente sérias se recusarão a realizar doações, quem irá financiar a política e a própria democracia?; a depender do que pregam os jornais, o dinheiro virá do caixa dois e do submundo do crime

As três famílias que respondem pelo jornalismo impresso no Brasil, os Frias, os Mesquita e os Marinho, selaram um pacto em favor da continuidade da farra empresarial na política, que é a raiz de todos os escândalos recentes de corrupção.

Exemplo disso é a gritaria em torno dos recursos para o fundo partidário, que foram aprovados pelo Congresso Nacional e sancionados pela presidente Dilma Rousseff, no Orçamento-Geral da União.

Neste ano, os recursos do fundo serão de R$ 867,5 milhões, que cresceram significativamente em relação aos R$ 308,2 milhões do ano passado.

A elevação tem uma explicação direta: Lava Jato. Como a operação conduzida pelo juiz Sergio Moro criminalizou as doações oficiais de campanha, colocando na cadeia alguns dos principais doadores do País e também o ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto, cujo crime foi receber doações legais, aprovadas pela Justiça Eleitoral, o sistema de financiamento privado à política brasileira foi implodido em Curitiba.

Algumas empresas atingidas pela Lava Jato estão à beira da falência e entraram com pedidos de recuperação judicial. As que sobreviveram estão colocando em seus estatutos proibições expressas a qualquer tipo de doação. E já fizeram chegar aos partidos a informação de que não doarão nenhum centavo nas próximas eleições.

Isso significa, na prática, que a maneira de financiar a política e, portanto, a própria democracia no Brasil será o fundo partidário. Não porque o Congresso tenha feito uma reforma política nessa direção. Mas porque qualquer empresa, minimamente prudente, ficará distante da política.

O financiamento público, no entanto, não agrada às famílias midiáticas. Em seu editorial, o Estado trata o aumento dos recursos como "aberração" e defende que os partidos vivam apenas das contribuições dos seus militantes. Globo e Folha também estão na mesma campanha que pode ter, como corolário, a produção de mais e mais escândalos de corrupção.

No 247



JB: aumento do fundo partidário é 'escárnio'


O ex-presidente do STF Joaquim Barbosa voltou a usar o Twitter para comentar o cenário político. Ele classificou o aumento do fundo partidário como “escárnio”; e questionou: “Para que doações de empresas privadas?”.

Na versão original do projeto orçamentário, o valor era de R$ 289,5 milhões e foi triplicada pelo relator da proposta, o senador Romero Jucá (PMDB-RR).

“R$ 900 milhões para partidos políticos: procure saber em detalhes como essa montanha de dinheiro é gerida pelos caciques partidários”, completou Barbosa.

A decisão da presidente Dilma Rousseff de manter o aumento levou em consideração os reflexos da Operação Lava Jato. Empreiteiras já informaram a dirigentes partidários que não devem doar recursos na eleição municipal do próximo ano.
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