21 de abr de 2015

O tornado em Xanxerê - SC


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Como o Uruguai impediu a redução da maioridade penal


Militante da comissão “No a La Baja”, Andrés Risso fala sobre as estratégias que impediram a tentativa de redução da maioridade penal no país, levada a cabo por meio de um plebiscito; “Se a população tem acesso à informação, muda de opinião, porque é uma proposta muito primitiva”, afirma

Em 26 de outubro de 2014, o Uruguai foi às urnas para decidir se reduziria ou não a maioridade penal de 18 para 16 anos. Em 2011, quando os setores mais conservadores levaram adiante a proposta do plebiscito, cerca de 70% da população apoiava a redução. Três anos depois, 53% dos uruguaios disseram “não” à medida e impediram o retrocesso. A grande virada se deu principalmente graças ao trabalho da comissão “No a La Baja”, que uniu diversos movimentos sociais em torno da causa.

No Brasil, a direita também quer reduzir a inimputabilidade penal. Aqui, no entanto, a tentativa se dá por meio da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93, que já passou pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados e agora é analisada em comissão especial.

Andrés Risso, do ProDerechos, um dos coletivos que encabeçaram a campanha contra a redução no Uruguai, conversou com à Fórum sobre as estratégias de resistência adotadas. Para ele, a união entre sociedade civil e classe política, além das constantes mobilizações nas ruas, foram fundamentais para a mudança da opinião pública. Confira:

Fórum – Como foi possível montar a rede de mobilização de vários movimentos para que a redução da maioridade penal não fosse aprovada?

Andrés Risso – Já no começo, a maioria dos movimentos sociais do país se posicionou contra a redução da maioridade penal e iniciou a construção de um debate com a opinião pública, já que no Uruguai se tentou reduzir a maioridade penal pelas urnas, por meio de um plebiscito. Nosso trabalho foi o de levar às pessoas argumentos e informações para que pudessem tomar a decisão. Sabíamos que a redução da maioridade penal não traria os resultados propostos, era ruim em termos de direitos e pior para a segurança pública. Historicamente, quando há problemas de segurança pública, o caminho escolhido é o da exclusão e repressão, o que não melhora os índices de criminalidade. Além disso, colocar o foco do problema nos adolescentes era errado, porque eles, no Uruguai, são responsáveis por uma porcentagem muito pequena dos delitos – 6%. Pensávamos que para acabar com a sensação de insegurança eram necessárias oportunidades, trabalho, educação, cultura, tentar outros caminhos. Também entendemos que, nessa etapa da vida, é importante que a pessoa não esteja presa, porque é o momento em que está aprendendo, formando sua identidade, sua personalidade. Colocar adolescentes na cadeia é muito contraproducente do ponto de vista da reinserção. Por isso, nessa etapa é muito importante que as experiências sejam positivas e alentadoras, e que se dê ferramentas para que a pessoa possa ter um futuro, levar uma vida normal.

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“O mais importante foi a articulação dos movimentos sociais e
a mobilização, sobretudo dos jovens, que constituíram o principal
motor da campanha”, afirma Risso
— No início do processo de discussão, cerca de 70% dos uruguaios eram favoráveis à redução. Qual foi a estratégia utilizada pelos movimentos sociais para inverter esse quadro?

Nossa estratégia foi ligada à comunicação, baseada em um triângulo: tratamos das razões pelas quais a proposta não servia, porque era ruim por si só e porque, na verdade, poderia piorar a situação. Como dizia antes, os argumentos favoráveis colocavam o cárcere como solução, não atendiam nem às vítimas. Era ruim de uma forma geral. A estratégia de comunicação, então, foi, por um lado, utilizar o fator racional, com os argumentos que já citei, e também o emocional, porque houve uma mobilização muito grande de jovens em todo o país [contra a redução], que saíam às ruas, organizavam apresentações musicais, debates etc, em defesa de seus pares. Foi fundamental a mobilização juvenil, que culminou em uma marcha de 50 mil pessoas — algo que no Uruguai é muito significativo. Foi muito importante também ter todas os movimentos sociais — os sindicatos, estudantes e também muitas das igrejas — do nosso lado. Nos ajudou muito com a opinião pública. Jovens de todos os partidos políticos se posicionaram em defesa de seus pares, da juventude.

— Vocês conseguiram fazer com que parlamentares importantes se manifestassem contrários à redução da maioridade penal?

Sim. Nos últimos meses de campanha, quem defendia a redução eram somente os impulsionadores da medida, que representavam um número mínimo — seu porta-voz era Pedro Bordaberry [filho do ditador uruguaio Juan María Bordaberry], integrante dos setores mais conservadores. No nível político, começaram a falar muitos deputados e legisladores, por exemplo, o então ex-presidente Tabaré Vazquez [reeleito para o cargo nas últimas eleições, em 2014] e José Mujica. Além dos dois presidentes nos últimos dez anos se posicionando conta a redução da inimputabilidade, tivemos também o arcebispo de Montevidéu, muitos ícones culturais e lideranças sociais. A Universidade da República e a Central Única dos Trabalhadores tiveram um papel importante no sentido de pensar propostas para os adolescentes que haviam cometido delitos e propostas de debates sobre segurança pública e adolescência.

— Considera que o apoio dessas pessoas com maior notoriedade foi importante para a virada da opinião pública?

Sem dúvidas. Isso, somado à mobilização juvenil ativas nas ruas, foi muito importante para a mudança da opinião pública. Mostrava que o Uruguai mobilizado e organizado não queria a redução. Era um retrocesso muito grande. Compreendemos que pode sim existir um problema de segurança pública — no Uruguai, 40% das pessoas pensam que esse é o principal problema do país —, mas, para além disso, sabia-se que essa proposta era muito primitiva e partia da mesma metodologia excludente, depressora e punitiva.

— Aqui no Brasil, a mídia tradicional contribui muito para a existência desse sentimento de insegurança que fortalece o apoio a medidas punitivas, como a redução da maioridade penal. Isso acontecia no Uruguai?

Sim, sobretudo no começo. Mais no final da campanha, a um mês do plebiscito, quando o contingente favorável à redução já era menor do que 50%, talvez a mídia tradicional e mais conservadora tenha parado de fazer tanta campanha. Mas, no início, quando a medida foi levada adiante por meio do recolhimento de assinaturas, a mídia duplicou ou triplicou o tempo dedicado aos crimes cometidos por adolescentes. Isso se deu de forma muito clara. Acho que isso acontece em todo o mundo, é sempre mais fácil atacar o setor mais vulnerável. Ao menos no Uruguai, faltam estímulos para que os jovens continuem estudando; dos 10% de pobres, até 20% são jovens; no trabalho, o mesmo: as maiores taxas de desemprego ocorrem na juventude. Esse é o setor mais debilitado e, no entanto, queremos castigá-lo pelos problemas que há no país. Expusemos essa contradição durante a campanha. O mais importante, na verdade, foi desvincular a sensação de insegurança da adolescência. E os meios de comunicação atuaram muito para conectar a insegurança aos adolescentes. A partir de um amplo processo de debate com a população, essa relação foi ficando cada vez mais debilitada.

— Em relação à estratégia de comunicação, que meios utilizavam mais?

Por um lado, investimos na via pública; por outro, produzimos spots radiofônicos — pois a população ouve muito rádio — e também na televisão, porém menos, porque o tempo de TV é muito caro. Foi fundamental sair por todos os bairros e cidades para levar informações às pessoas. Além disso, realizamos muitos eventos massivos e culturais.

— As redes foram importantes no processo?

Também. Tínhamos Facebook, Twitter e outras redes, e principalmente no fim da campanha as utilizamos muito para chegar em todos os lugares do país. Mas, em relação à estratégia de comunicação, talvez o mais importante tenha sido dialogar com as pessoas que não estavam convencidas — esse era o desafio maior. Para isso, realizamos grupos de discussões para os quais convidávamos quem não estava de acordo com a proposta. Pedíamos para que explicassem porque apoiavam a redução da inimputabilidade, e também apresentávamos nossos argumentos. Com essas informações nas mãos, consultamos publicitários altamente qualificados para saber quais seriam as mensagens mais potentes, conhecendo o perfil das pessoas favoráveis à redução. A partir disso, produzimos peças a nível nacional. Descobrimos que cerca de 50% dos indecisos eram sensíveis aos argumentos que utilizávamos, e que mais de 30% mudavam de posição depois de ouvir as peças, que duravam 15 minutos. Não achamos que podemos transferir nossa experiência a um país como o Brasil, que tem uma realidade tão diferente. Mas tivemos a possibilidade, durante três anos, de realizar uma campanha muito intensa, e há alguns dados que são importantes. Se a população tem acesso à informação, muda de opinião, porque [a redução] é uma proposta muito primitiva.

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“Esse [juventude] é o setor mais debilitado e, no entanto, queremos
castigá-lo pelos problemas que há no país. Expusemos essa contradição
durante a campanha”, conta o militante
— Em entrevista anterior à Fórum, você comentou que caso aprovada, a redução da maioridade penal poderia colocar em risco outras conquistas progressistas, como a legalização da maconha e do aborto. Poderia explicar isso melhor, por favor?

O que pensávamos, principalmente nós do ProDerechos, era que estávamos avançando muito em nossa democracia, principalmente em relação aos nossos direitos e à ampliação das liberdades das pessoas. Se a população decidisse por reduzir a maioridade penal, poderia ser o início de um retrocesso. Retrocesso esse levado adiante pela mão dos setores políticos conservadores, já que quem impulsionou a medida foram os setores mais fortes dos partidos tradicionais e conservadores. Na campanha, atuaram organizações de todos os tipos, e também estavam presentes aquelas responsáveis pelas outras conquistas [legalização da maconha e do aborto, por exemplo]. Participaram do princípio até o fim, porque sabiam que aquilo fazia parte da luta contra o Uruguai conservador.

— Levando em consideração todas as diferenças existentes entre Brasil e Uruguai, o que diria aos movimentos brasileiros que formam a frente de resistência contra a redução da maioridade penal?

Acredito que o mais importante foi a articulação dos movimentos sociais e a mobilização, sobretudo dos jovens, que constituíram o principal motor da campanha — a comissão “No a La Baja” no Uruguai é integrada quase todas por pessoas com menos de 30 anos. É uma boa causa para que os jovens comecem a militar, mas também fortaleçam a militância que já existe. Por outro lado, foi fundamental também a incidência sobre a opinião pública. Seria muito bom que o Brasil pudesse debater essa proposta em todos níveis, e que os movimentos possam fazer parte disso. Sinceramente, é um conselho de uma pessoa de fora, mas tomara que a sociedade brasileira se informe sobre esse assunto. Seguramente, pensará duas vezes se é isso que quer para resolver os problemas de segurança ou se é melhor tomar outro caminho. Rejeitar essa medida não quer dizer que não se pense em melhorar a segurança no país.

Fotos: Carlos Lebrato/Frente Ampla
Anna Beatriz Anjos
No Fórum
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Doutor Janot, veja como seus meninos abriram as portas do inferno


É curioso como, de alguma forma, vivemos a tal “ditadura” que a direita alucinadamente aponta existir no Brasil.

Está à solta na mídia o mais desavergonhado macartismo já visto desde os tempos do “dedodurismo” que marcou os primeiros anos da ditadura militar.

E, legitimado por ele, a criação da onipotência policial.

A Polícia Federal, elevada à condição de altar de santos pela mídia, força o Ministério Público e negocia com o Congresso — especialmente com os parlamentares citados na própria Lava-Jato, uma mudança na Constituição que a torne “independente” do poder legítimo, aquele que é eleito.

Os delegados chegam ao ponto de “peitar” publicamente o Procurador-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal, ao divulgarem nota em que “manifestam preocupação com os prejuízos à investigação criminal e o atraso de diligências em cerca de nove inquéritos da operação Lava Jato, que tramitam no STF, os quais estão muito aquém daqueles em andamento na Justiça Federal do Paraná”.

Delegado de polícia não manda em inquérito judicial, cumpre diligências que lhes são determinadas pelo Ministério Público ou pelo Ministro-relator.

Mas o presidente da Associação dos Delegados é ameaçadoramente explícito ao Estadão: “A Polícia Federal quer trabalhar. Se o Supremo entender que tem que ser exclusivamente do jeito que o procurador-geral quer, a PF não assume a responsabilidade nem os riscos dos resultados. Se a PF não tiver como contribuir na forma como entender mais adequada e se o procurador-geral quiser assumir integralmente a responsabilidade, paciência.”

Mais afrontoso, impossível.

O Ministério Público, a esta altura, deveria estar vendo o que gerou a sua tolerância com a formação de uma cumplicidade total com a formação de um núcleo promíscuo de delegados, procuradores e um juiz que se arroga jurisdição sobre todos os fatos que desejar, em qualquer ponto do país e que não pode ser contestado, sob pena de execrar-se perante a opinião pública qualquer um que o contrarie.

As tragédias da democracia ocorrem assim: em nome da moralidade e da ordem, a vida de uma nação começa a ser dominada pela histeria policialesca, que há quase 50 anos fez Stanislaw Ponte Preta começar assim o seu “Festival da Besteira que Assola o País”, o imortal Febeapá.

“É difícil ao historiador precisar o dia em que o Festival de Besteira começou a assolar o País. Pouco depois da “redentora”, cocorocas de diversas classes sociais e algumas autoridades que geralmente se dizem “otoridades”, sentindo a oportunidade de aparecer, já que a “redentora”, entre outras coisas, incentivou a prática do dedurismo (corruptela do dedodurismo, isto é, a arte de apontar com o dedo um colega, um vizinho, o próximo enfim, como corrupto ou subversivo — alguns apontavam dois dedos duros para ambas as coisas) , iniciaram essa feia prática, advindo daí cada besteira que eu vou te contar”

O Estado Policial não é uma ferramenta da polícia, é da política.

A descrição do macartismo que Philip Roth faz, em seu romance “Casei com um Comunista” (Cia das Letras), é o mais duro retrato disso.

“O negócio de McCarthy, na verdade, nunca foi a perseguição de comunistas; se ninguém sabia, disse, ele sabia. A virtude dos julgamentos-espetáculo da cruzada patriótica de McCarthy era simplesmente a forma teatralizada. Ter câmaras voltadas para aquilo apenas lhe conferia a falsa autenticidade da vida real. McCarthy compreendeu melhor do que qualquer político americano anterior a ele que as pessoas cujo trabalho era legislar podiam fazer muito mais em benefício de si mesmas se representassem um espetáculo; McCarthy compreendeu o valor de entretenimento da desgraça e aprendeu como alimentar as delícias da paranoia. Ele nos levou de volta a nossas origens, de volta ao século XVII e a nossos antepassados. Foi assim que o país começou: a desgraça moral como entretenimento público. McCarthy era um empresários dos espetáculos e, quanto mais desvairados os pontos de vista, tanto mais ofensivas as acusações, maior a desorientação e melhor a diversão para todo mundo.“

A propósito: de homem mais temido dos EUA, Joseph McCarty morreu desacreditado.

Fernando Brito
No Tijolaço
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O que levou a Folha a expor Alckmin no caso Implicante?

Política de cotas
O que levou a Folha a expor Alckmin no caso Implicante?

Esta pergunta ganhou a internet logo depois que se soube dos 70 mil mensais em dinheiro público — sempre ele, o dinheiro público — dados por Alckmin a um dos blogs mais canalhas que já foram vistos no Brasil.

Em seu otimismo inabalável, o blogueiro Eduardo Guimarães enxergou ali um sinal de que a Folha decidiu ser um “jornal imparcial”.

Segundo Guimarães, o mercado clama por um “jornal imparcial”.

Ri sozinho, confesso.

No mesmo momento em que Guimarães postava seu otimismo, a manchete do UOL falava em impeachment.

Nas últimas semanas, esta sem sido uma fixação da Folha: o impeachment.

O que as urnas não deram para o candidato da Folha, que uma canetada permita. É mais ou menos esta a lógica.

Quer dizer: existe algo próximo de zero em propósitos de jornalismo imparcial na mordida – branda, aliás – da Folha em Alckmin.

O que há, ali, é a política de “cota” da Folha.

Funciona assim. Você dá, uma vez ou outra, uma informação negativa para o PSDB para tentar do ridículo supremo o marketing do “rabo preso só com o leitor”.

A mesma política de cotas se observa nos colunistas. Para cada lote de Josias, Reinaldos Azevedos, Pondés, Magnolis etc, a Folha abre espaço para um articulista “progressista”, uma voz solitária para a manutenção das aparências e do cinismo editorial.

O leitor sabe disso.

A Folha, nos anos 1980 e 90, era lida por “progressistas” — acadêmicos, universitários, toda uma tribo que se orgulhava das posições do jornal.

Isso acabou a partir da eleição de Lula, em 2003.

A Folha abandonou o pluralismo na caça ao PT, e os antigos leitores em troca a foram abandonando também.

Tente encontrar um universitário — o sonho de toda publicação — com uma Folha nas mãos.

Não foi um movimento muito diferente do realizado pela Globo e pela Veja.

O que distingue a Folha é a fidelidade a seu marketing e, dentro disso, sua política de cotas.

Uma das características disso é não dar seguimento aos assuntos desagradáveis para os políticos amigos.

Por exemplo: a Folha nunca mais voltou ao aeroporto de Cláudio, como se o assunto tivesse se esgotado.

Também largou a cobertura do Implicante. O DCM deu que uma ex-secretária de Serra é sócia do site, e nem assim a Folha tirou a bunda do lugar para informar seus leitores.

Enquanto isso uma sucessão de notícias sobre impeachment se amontoam no jornal, impresso ou digital.

Eduardo Guimarães é um otimista.

Mas, neste caso, quem acredita numa vontade da Folha em ser “imparcial”, acredita em tudo.

Paulo Nogueira
No DCM
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Zelotes vai analisar 230 mil emails!


A mídia vai ter trabalho para esconder a Zelotes e mostrar somente o espetáculo da Lava Jato.

A “República do Paraná”, ou seja, o grupo de procuradores e policiais com base no Paraná que vem liderando as investigações da operação Lava Jato, vem usando toda a semiótica que aprenderam no julgamento do mensalão para se manterem sob os holofotes da grande mídia.

A divisão em etapas foi a principal jogada. Com isso, a Lava Jato pode continuar infinitamente. Ao invés de focarem numa coisa, vão pulando de um tema para outro, com vistas a prorrogarem indefinidamente a operação e produzirem condenações antes políticas e midiáticas do que propriamente jurídicas.

Por exemplo, as imagens do tesoureiro do PT, um senhorzinho inofensivo, algemado, ladeado por brutamontes segurando armas pesadas, entrou para a história mundial do ridículo.

Obviamente, aquilo visava a condenação midiática, que é a pior de todas, porque para ela não existe recurso ou defesa, sobretudo no Brasil, onde a mídia é controlada pela família Marinho, a família mais rica do país, cuja fortuna nasceu do suporte que deu à ditadura militar.

Mas vamos à Zelotes, uma operação que investiga desvios muito superiores à Lava Jato, e que não está sendo conduzida com vazamentos seletivos e truculência judicial.

Aliás, nosso Judiciário é bipolar: oito ou oitenta. Numa operação, extrapola todos os limites. Em outra, impõe limites excessivos.

Repare-se a diferença entre Lava Jato e Zelotes.

Segundo o próprio MPF, dos 205 pedidos de habeas corpus pedidos por réus da Lava Jato, apenas 2 foram concedidos (um deles posteriormente cassado, se não me engano).

O STJ está sendo cúmplice de Sergio Moro, em função desta aliança espúria entre grande mídia e judiciário que foi construída ao longo dos anos, com a criação do Instituto Innovare, da Globo.

É uma aliança espúria entre empresas sonegadoras e golpistas e um Judiciário patrimonalista, corporativista, reacionário.

Já na Zelotes, que não é midiática, apesar de envolver valores imensamente maiores, o Judiciário não acatou, até o momento, nenhum pedido de prisão preventiva do Ministério Público.

Nem por uma mísera prisãozinha por 24 horas, apenas para os policiais terem tempo de revistar a casa do sujeito. Nada!

Numa operação, prisões que de provisórias não tem nada, visto que já duram quase um ano. E sem habeas corpus para ninguém; na outra, zero!

E a mídia, caladinha!

Até o momento, ainda não vi a mídia dar nenhum destaque à sonegação de R$ 502 bilhões ocorrida em 2014, segundo estimativa da Sinprofaz. Cabe umas 200 Lava Jato nessa sonegação.

* * *

Saiu no Brasil Post.

Com rombo três vezes maior que o da Lava Jato, Operação Zelotes vai analisar 230 mil e-mails

A força-tarefa que atua na Operação Zelotes deverá analisar 230 mil e-mails e 2.300 horas de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça. O trabalho visa desvendar o suposto esquema de corrupção no Conselho de Recursos Administrativos Fiscais (Carf), órgão que funciona como uma espécie de “Tribunal da Receita”.

Os números foram mencionados pelo procurador da República que coordena as investigações, Frederico Paiva, ao Conselho Superior do Ministério Público Federal (MPF). Ao apresentar os dados, Paiva submeteu ao conselho um pedido de afastamento por 60 dias de um cargo que ocupa no 6.º Ofício de Combate à Corrupção, sob a justificativa do volume de trabalho acumulado com a operação.

A solicitação do procurador foi aprovada pelos membros do Conselho, presidido pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na manhã de segunda-feira (20). De acordo com Paiva, a análise do material é referente a 43 investigados.

No início do mês, o Conselho Superior do Ministério Público aprovou a criação de uma força-tarefa para cuidar exclusivamente da Operação Zelotes. Paiva é o coordenador do grupo, que conta com mais três procuradores da República. Além do coordenador, compõem a força-tarefa os procuradores José Alfredo de Paula Silva e Raquel Branquinho, os dois da Procuradoria Regional da República da 1.ª Região, e Rodrigo Leite Prado, da Procuradoria da República em Minas Gerais.

Investigações

A Operação Zelotes, deflagrada em 26 de março, investiga 74 processos que somariam R$ 19 bilhões em fraudes contra o fisco. Segundo a PF, foram constatados prejuízos de, pelo menos, R$ 6 bilhões aos cofres públicos — valor três vezes maior do que o desviado da Petrobras por meio do esquema de corrupção investigado pela Operação Lava Jato (R$ 2,1 bilhões). O Carf, órgão ligado ao Ministério da Fazenda, é responsável por julgar processos relacionados a autuações fiscais da Receita Federal.

As ações do Carf foram suspensas logo após a operação ter sido deflagrada pela PF e a previsão é de que atividades do Conselho sejam retomadas em breve. Para isso, o governo vai abrir consulta pública com propostas de mudanças na estrutura e no funcionamento do órgão, o que deve ter início na próxima quinta-feira (23), de acordo com o Ministério da Fazenda.

Figuram entre os investigados na Operação bancos, grandes empresas e montadoras. A suspeita é de que essas companhias se livraram do pagamento de dívidas com o Fisco mediante repasse de suborno a integrantes do Conselho.

Entre os investigados estão os bancos Bradesco, Santander, Safra, Pactual e Bank Boston, as montadoras Ford e Mitsubishi, além da gigante da alimentação BR Foods. Na relação das empresas listadas na Operação Zelotes também constam Petrobras, Camargo Corrêa, RBS (afiliada da Rede Globo) e a Light, distribuidora de energia do Rio.

Miguel do Rosário
No O Cafezinho
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A liberdade de um lado só


Ouça aqui



Na terça-feira (21/4), os diários de circulação nacional substituem o patrono do feriado da Inconfidência pelo ex-quase presidente Tancredo Neves, falecido há 30 anos. As reportagens colocam o político mineiro no centro do processo de redemocratização, onde, na verdade, só se posicionou depois de outros personagens da resistência.

O Globo é, de longe, o que mais capricha na louvação, e o contexto geral é o da defesa das liberdades civis. Liberdade — ou a falta dela — é também o tema de uma da fotografias que abrem o site da Associação Nacional de Jornais (ANJ), onde se vê o rosto de um homem maduro, com uma corrente dourada passando sobre sua boca e orelhas.

Numa interpretação rudimentar, trata-se apenas de uma foto dessas que se compra por dez dólares num banco de imagens. Com isso, a entidade que representa as empresas de comunicação no Brasil protesta contra uma suposta ou real ameaça à liberdade de expressão.

A ilustração se refere a texto que se pode ler, logo abaixo, relatando que a Sociedade Interamericana de Imprensa pediu, há dez dias, que os governantes reunidos na VII Cúpula das Américas reafirmassem “o compromisso com a liberdade de expressão e de imprensa e com o direito à informação”. Num exercício de hermenêutica mais apurado, porém, pode-se observar como a entidade — e, por extensão, a mídia tradicional — se apresenta como tutora de direitos que extrapolam em muito o ambiente que chamamos de imprensa.

É com base nesse mito que as corporações de mídia se posicionam acima do escrutínio da sociedade e constroem um poder que rivaliza e muitas vezes supera o poder das instituições republicanas. Misturar conceitos é um dos artifícios mais banais do abuso. Liberdade de expressão, liberdade de imprensa e direito à informação são aspectos do leque de direitos individuais, mas nenhum deles é absoluto e apenas a liberdade de imprensa se refere diretamente às empresas que compõem a ANJ.

O resto é apropriação indébita: tanto a liberdade de expressão como o direito à informação devem existir independentemente de haver ou não jornais circulando em determinada comunidade ou de essa comunidade ter ou não acesso a meios institucionais de comunicação.

E mesmo a liberdade de imprensa, por estabelecer níveis diferenciados de privilégios para quem produz o que chamamos de jornalismo, é um conceito relativo, porque ela só tem sentido se acompanhada da responsabilidade social de quem a pratica.

Ninguém sabe, ninguém viu

Como se sabe, as empresas brasileiras de comunicação consideram controle indevido qualquer escrutínio da sociedade sobre seus atos. Mesmo uma proposta de autorregulamentação foi rejeitada por elas e, em seu lugar, a ANJ propõe uma “cartilha de autorregulamentação” (ver aqui), que não passa de um manual indicativo para a criação de códigos de conduta para cada empresa.

O que respalda esses manuais é o “Código de Ética e Autorregulamentação da ANJ”, onde se lê, no artigo 5, que os jornais devem “assegurar o acesso de seus leitores às diferentes versões dos fatos e às diversas tendências de opinião da sociedade”. O último item desse rol de boas intenções, o de número 10, é o que manda “corrigir erros que tenham sido cometidos em suas edições”. Esta recomendação se destaca na “cartilha de autorregulamentação”, onde se convenciona que devem ser reconhecidos erros “que sejam apontados por leitores e equipes internas” e publicar correções.

É, certamente, a grande janela por onde se pode olhar para dentro das redações e entender por que os donos de jornais têm verdadeira ojeriza a qualquer coisa que cheire a controle social da mídia. Ora, o que se vê diariamente é o contrário: erros tão grosseiros que parecem propositais indicam que a norma na maioria das redações é a manipulação.

Quando a distorção é tão grande que coloca em risco o núcleo da notícia, de vez em quando é feita uma correção — sempre em lugar discreto e quase invisível. Se, por exemplo, o erro é publicado num blog, o texto original é reproduzido nas redes sociais, por iniciativa da redação, mas a correção, quando ocorre, é feita apenas na página do blogueiro.

Por exemplo, na sexta-feira (17/4), o repórter Fausto Macedo, do Estado de S.Paulo, publicou em seu blog que a mulher do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, Giselda de Lima, possui renda mensal de R$ 300 mil. Sua renda é de R$ 3 mil por mês.

Uma informação como essa é fundamental para formar a opinião dos leitores sobre a inocência ou culpabilidade da pessoa que é objeto da notícia. O texto errado (ver aqui reprodução da revista Forum) foi multiplicado nas redes sociais. A correção, só viu quem voltou ao blog para ler uma notinha de rodapé.

Luciano Martins Costa
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A verdade é mole. A Globo não apoiou a ditadura!

O Walter Clark e o Paiva Chivas montaram um sistema próprio de censura dentro da Globo.


O “projeto William Bonner” começou a ser exibido nessa segunda-feira, 20/04, no jornal nacional. (N. do E. Para os corajosos, assista abaixo).

Será uma série de “reportagens” sobre a gloriosa carreira do jornal nacional a favor da Democracia!

É um exercício em hipocrisia!

A partir dos 7′43” aparece um dos filhos do Roberto Marinho — eles não têm nome próprio — para descrever o indescritível sofrimento da Globo com a ditadura. (N. do E. Assista a seguir)



O jornal nacional vivia com a baioneta dos militares nas costas.

A censura, sufocante.

(O Conversa Afiada recomenda a leitura do clássico “Cães de Guarda – Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988”, de Beatriz Kushnir, para ver como a Globo adotou um esquema especial de auto-censura, sob a batuta do Walter Clark e do Coronel Paiva Chaves, conhecido como Paiva Chivas.)

Alguns repórteres chegaram a descrever o suplício de conviver com as botas dos militares sobre os pescoços.

Era proibido falar em “fome”!

Você chegava à redação e descobria que não podia tocar num assunto que você ignorava completamente!

Lágrimas copiosas.

(Um comentário à parte! O Bonner agora anda! Que naturalidade! Parece um coxo numa pista de gelo!)

A Fátima Bernardes suspendeu provisoriamente a tarefa de vender presunto para falar de “jornalismo”!

Ali estava o excelente repórter Ernesto Paglia, que não foi convidado a depor sobre o comício das Diretas que o Roberto Marinho mandou tratar como um convescote pelo aniversario da cidade de São Paulo.

O Caco Barcelos, outro craque, poderia depor sobre os cadáveres da ditadura nas covas rasas de São Paulo.

E que voz tinha o Heron Domingues, mestre dos mestres!

Tudo isso desaparece diante da desfaçatez de esconder a dura verdade: a Globo apoiou a ditadura.

E nela engordou!

Em tempo: lamentável que o “projeto Bonner” para os 50 anos jornal nacional tivesse omitido alguns dos responsáveis pela expansão e o sucesso — agora na casa dos 22 pontos de Globope… — do jornal criado e concebido pelo Armando Nogueira.

Armando foi tratado, assim, como se quase não tivesse existido — de favor.

E nenhuma menção à Alice Maria, pulmão direito e esquerdo do Armando.

O ansioso blogueiro, que por lá andou, faz questão de ressaltar, ainda o papel de Evandro Guimarães e Raul Bastos, responsáveis pela montagem preservação da rede nacional que o jn alcançou.

Sem os dois, o jn não saía do Jardim Botânico.

Mas, quem sabe, a série gloriosa se encerrará com a apologia do Gilberto Freire com “i”, o mais poderoso Diretor de Jornalismo (sic) da história da emissora.

(O ansioso blogueiro trabalhou com os três que o antecederam…)

O que explica muita coisa…

Paulo Henrique Amorim



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O mundo paralelo do judiciário brasileiro

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=7119

A justiça brasileira é mundo à parte.

Um planeta Marte habitado por homens de toga.

A lei da gravidade não tem o mesmo mesmo nesse universo com rotação singular.

Um universo paralelo com regras próprias. A regra mais impressionante é a falta de regras.

É verdade que isso não é exclusividade do judiciário. A presidência da República não tem prazo para indicar ministro do STF. Faz quando bem entende. Pode levar uma semana ou um ano. Um ministro do STF pode pedir vistas num processo ou julgamento e ficar sentado em cima para sempre. É o caso do ministro Gilmar Mendes. Ele colocou as suas nádegas togadas sobre a votação do financiamento empresarial de campanha e assim se mantém. Pouco lhe importa que seis colegas seus tenham votado antes pela proibição dessa prática de corrupção. Mendes não quer votar contra.

Decidiu sozinho que não tem mais votação.

Algo semelhante ocorre nas tais prescrições por idade. Os jornalistas da Folha de S. Paulo, Frederico Vasconcelos e Ricardo Mello, destacaram um caso singular: o deputado tucano paulista Barros Munhoz foi acusado de desvios de recursos públicos na condição de prefeito de Itapira. O desembargador Armando de Toledo acomodou-se confortavelmente em cima do processo por providenciais três anos. Prescreveu. O prazo da prescrição da chamada pretensão punitiva cai pela metade quando o réu completa 70 anos. Tudo contabilizado, o larápio está livre. Se é para baixar a idade penal, mandando adolescentes para presídios comuns, seria interessante também aumentar o teto da idade para qualquer vantagem penal, em tempos de aumento da expectativa média de vida, para, no mínimo, 80 anos. Ainda mais que, com a PEC da bengala, os ministros do STF poderão sentar em cima de processos até os 75 anos.

Se pode julgar, condenar e absolver depois dos 70 anos, por que não poderia ser punido, como qualquer um, sem qualquer benefício decorrente da idade?

A impunidade, concedida por certas vantagens da velhice, é mais grave que abaixo dos 18.

O judiciário não parece se incomodar com essas inconsistências que, no imaginário popular, indicam julgamentos conforme o cliente. Se for conveniente, acelera-se o passo. Se for interessante, esquece-se o assunto.

No caso dos tucanos, vide o caso do mensalão mineiro, a regra, na falta de regras, é deixar para lá. Mesmo o que acontece antes é julgado depois. Ou nem é julgado.

Não tem ninguém no STF para, no elevador mesmo, ao pé do ouvido, ou alto e bom e som dizer:

— Ministro Gilmar Mendes, dê o seu voto até tal dia.

Pedir vistas significa nunca mais ver o assunto em pauta. O pedido de vistas tapa os olhos de todo mundo. Gilmar Mendes até tem razão ao dizer que o assunto é do Congresso Nacional. Nesse caso, cabe-lhe votar contra ou abster-se. O seu objetivo, no entanto, é melar a votação. O judiciário adora jeitinhos. Prazos e regras engessam. Melhor deixar margens para manobras e interpretações. Abra os olhos, ministro Gilmar Mendes, o seu pedido de vistas está na mira de todos. Imagino o pensamento do homem acima dos mortais: “Ninguém pode me obrigar”. No mundo paralelo da falta de regras óbvias, acima do bem e do mal, pedido de vista é apenas um chicana jurídica.

No planeta dos homens togados a única lei universal é a particular.
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O presente de grego do GDF no aniversário de Brasília


Governador desconhece questões institucionais elementares sobre o Brasília e o DF

Pode parecer uma bobagem e é mesmo. O governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB), determinou a adoção de uma nova marca de governo: Governo de Brasília

O que salta aos olhos na nova marca e no discurso do governador é que ele não sabe a diferença entre Distrito Federal, Brasília e plano piloto. Ou, se sabe, não dá a isso a mínima importância.

Disse Rollemberg (em cerimônia no dia 17 deste mês):

“Ao adotar todo o Distrito Federal como Brasília e Brasília como todo o Distrito Federal, estamos resgatando um conceito original e dando um recado muito claro: que queremos, nos próximos anos, fazer com que a população de Ceilândia, de Planaltina, de Brazlândia, de Taguatinga, cada vez mais, tenha acesso às mesmas oportunidades e aos mesmos equipamentos públicos que têm no Plano Piloto”. (fonte: EBC).

Embora dita impessoal, a marca expressa uma ideia pessoal, um conceito do governador. Uma ideia do que "queremos, nos próximos anos, fazer". 

A pretensão logo contradiz o próprio discurso em que Rollemberg diz estar "resgatando um conceito original". Que conceito original? Ceilândia, Planaltina, Brazlândia, Taguatinga e tantas outras que o governador citou não estavam no plano original da Capital. 

Planaltina, que era próxima da localização inicialmente estabelecida (o 'Quadrilátero Cruls') pela primeira comissão de demarcação da futura capital, foi deliberadamente deixada bem distante da nova capital inaugurada em 1960. 

Alguma razão prática, lógica e de bom senso deve existir para o fato de que coisas diferentes sejam chamadas de Distrito Federal, Brasília e plano piloto. E há mesmo, não importa que até o governador do DF a desconheça ou desmereça.

O plano piloto era, segundo o próprio Lúcio Costa, uma ideia. Uma "simples ideia na minha cabeça" (dizia Lúcio Costa em 1974). O 'plano-piloto' (era assim mesmo, com minúsculas e hífen,  que Lúcio Costa escreveu, em 1957, porque plano piloto nunca foi topônimo, i.é., nome de lugar) era e ainda é o projeto de Lúcio Costa vencedor do concurso público aberto para escolher a melhor proposta urbanística para a Capital. Depois, o projeto foi executado e virou cidade e Capital: Brasília.

Um plano piloto é aquilo que hoje em dia normalmente se chama pelo apelido de 'plano diretor'. Quando alguém fala que 'mora no plano piloto', embora seja improvável alguém morar em um plano diretor, se entende que a pessoa na verdade abrevia a informação de que 'mora na região definida pelo Plano Piloto de Brasília, feito pelo arquiteto Lúcio Costa'. Entende-se e perdoa-se com justificada razão o dito popular.

Mas quando o governador diz que quer, nas demais cidades, o mesmo que há "no Plano Piloto", mais uma vez, mostra que não está resgatando uma ideia original. Seria melhor Rollemberg inventar outra história — ele que é formado em História pela mesma UnB que eu; fomos veterano e calouro, respectivamente.

Quem olha o croqui de Lúcio Costa, feito às pressas para o concurso de 1957, ou pelo menos a legenda (está logo abaixo), vai entender que o Plano Piloto é a região que vai da Asa Norte e cercanias ao Aeroporto; do Setor de Clubes e Eixo Monumental à Rodoferroviária, englobando também a área dos quartéis, portanto, o Cruzeiro e a área que passa pelo  Setor de Indústria e Abastecimento.

A legenda do projeto é elucidativa do que se pode chamar de 'região do plano piloto':


De forma mais expandida, o decreto do GDF (Decreto 10.829, de 1987) que regulamentou a proteção à área tombada, repete o que deveria ser, mas não é, o mantra do governador e seus secretários: o plano piloto é 'a concepção urbana da cidade, conforme definida na planta em escala 1/20.000 e no Memorial Descritivo e respectivas ilustrações que constituem o projeto de autoria do Arquiteto Lúcio Costa, escolhido como vencedor pelo júri internacional do concurso para a construção da nova Capital do Brasil.' (Art. 1°).

O espaço definido pelo plano piloto corresponde 'à área delimitada a Leste pela orla do Lago Paranoá, a Oeste pela Estrada Parque Industrial e Abastecimento - EPIA; ao Sul pelo Córrego Vicente Pires e ao Norte pelo Córrego Bananal, considerada entorno direito dos dois eixos que estruturam o Plano Piloto.' (Art. 1°, § 2°).  

Brasília, marca de fantasia

O que são Brasília e o Distrito Federal? Brasília é a capital da República. O Distrito Federal é o ente federativo autônomo que abriga a capital federal — que se chama Brasília, é bom enfatizar, tal o grau de confusão que o governador 'do Distrito Federal' resolveu fazer de agora em diante, assim que se autoproclamou 'governador de Brasília'.

Quem diz o que é Brasília e o que é o Distrito Federal? O governador do DF acha que é ele, mas eu ainda tenho a impressão de que é, em primeiro lugar, a Constituição da República. Em segundo lugar, é a Lei Orgânica do DF. Mas isso é para quem quer ser mesmo impessoal.

Rollemberg resolveu transformar Brasília em uma marca de fantasia. Daquela maneira como tem gente que diz, sem qualquer problema, 'vamos ali tomar um guaraná'. No fundo, a gente entende que a pessoa te chama para tomar um refrigerante. Brasília, para Rollemberg e sua equipe, é o 'vamos ali tomar um guaraná'. Virou uma marca de fantasia no meio da Babel.

Tanto faz como tanto fez?

A partir de agora, segundo o governador, tudo é Brasília. Que bacana! Voltamos ao ano de 1967, quando a Constituição da ditadura dizia que 'O Distrito Federal é a Capital da União' (art. 2º).

Rollemberg promete dotar todas as localidades do DF de 'acesso às mesmas oportunidades e aos mesmos equipamentos públicos que têm no Plano Piloto'. Desse jeito, Rollemberg vai superar JK fazendo 55 anos em 4. Se a promessa merece mesmo ser levada a sério, haja dinheiro para se gastar o que se gastou em Brasília durante 55 anos. 

O atual governo do DF e sua equipe talvez não saibam que as pessoas não têm vergonha de dizer que moram no Guará, em Samambaia, Águas Claras, Brazlândia, e que normalmente preferem dizer, de forma ainda mais específica, que moram no Vale do Amanhecer ou no Arapoanga (regiões de Planaltina), no Grande Colorado (em Sobradinho), no Setor O (Ceilândia), no Jardim Mangueiral (S. Sebastião).
   
Lembro-me de um de dois suíços que vieram em 2014 para a Copa do Mundo e se hospedaram em um hotel no Núcleo Bandeirante. Quando perguntaram por e-mail, lá da Suíça, antes de fazerem a reserva: 'aí é Brasília?' - a resposta foi 'sim, aqui é Brasília'. Depois, claro, ficaram muito irritados. Eles queriam ter ficado era em Brasília mesmo. 

Certo dia, uma repórter dizia, do alto de um helicóptero, passando informações sobre o trânsito, que estava indo "da Asa Norte em direção ao Plano Piloto". Aí já é demais. Onde vamos parar? No plano piloto é que não é, com certeza.

Se cada um resolver ter uma ideia própria do que é Brasília e o DF, a confusão tende a ser grande. Com a ajuda do governador, a quizumba tem tudo para ser um pouco maior.

Antonio Lassance
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Repórteres da Folha acusam Alckmin de falta de “transparência” no caso “Implicante”


Após dois dias da publicação de matéria dos jornalistas Ricardo Mendonça e Lucas Ferraz que deu conta de que o governo de São Paulo contratou pela bagatela de 70 mil reais por mês empresa que tem entre os sócios o autor do site “Implicante”, que produz conteúdo contra o Partido dos Trabalhadores e seus membros, a Folha de São Paulo publicou nesta segunda-feira, em sua seção de cartas de leitores, manifestação do governo paulista e da agência de publicidade que intermedeia sua relação com o site em questão.

As cartas são assinadas por um “assessor técnico de gabinete da Subsecretaria de Comunicação do Estado de São Paulo” e pelo vice-presidente da agência de publicidade que intermedeia o “negócio” milionário com a empresa do “Implicante”. Tanto a missiva do governo paulista quanto a da agência de publicidade usam o mesmo argumento que o autor do site “Implicante” usou para justificar os 21 pagamentos de 70 mil reais que, segundo a Folha, o site em questão recebeu entre junho de 2013 e março de 2015, totalizando  R$ 1,47 milhão: a empresa “Appendix” teria oferecido “o menor preço”.

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Em seu perfil no Facebook, “Gravatai Merengue” também apela ao suposto “menor preço” que teria lhe valido o contrato milionário com o governo paulista: “Essa contratação se deu porque a Appendix (APPX) ofereceu o MENOR PREÇO”.

Os repórteres da Folha, porém, em poucas linhas questionam o comportamento do “Executivo” paulista, ou seja, no fim das contas o comportamento do próprio governador Geraldo Alckmin, acusando-o de não ter fornecido detalhes da contratação da Appendix ao jornal após “reiterados pedidos”. E ao dizer que o “Executivo” paulista enviou 88 caixas cheias de “incontáveis papéis da publicidade oficial”, sugere uma estratégia do governo Alckmin para sonegar informações que são de domínio público.

Contratos de publicidade entre sites e órgãos de imprensa com o poder público são comuns e não se pode questioná-los simplesmente por aquele veículo de comunicação ter uma opinião política favorável a um grupo político ou desfavorável aos adversários desse grupo – fosse assim, o governo paulista não poderia colocar um anúncio na Veja, por exemplo, ou o governo federal não poderia ter um anúncio em um blog ou site que critica o PSDB. Porém, um contrato tão gordo e que, à diferença de um banner em uma publicação digital ou em papel, não é visível, merece explicações melhores que as dadas pelo governo Alckmin até aqui.

Por exemplo: a empresa do tal “Gravatai Merengue” foi fundada em janeiro de 2013 e cinco meses depois já estava embolsando o primeiro pagamento de setenta mil reais, o que sugere que foi criada já tendo em vista esse contrato, pois entre a efetivação da concorrência e o início dos pagamentos por serviços prestados passou-se muito pouco tempo.

Além disso, a julgar pelo que diz o próprio “Merengue” em seu perfil no Facebook, parece que a tal Appendix tem apenas três clientes: o governo do Estado de São Paulo, do PSDB, a empresa Copel, controlada pelo governo do Estado do Paraná, também do PSDB, e uma empresa chamada “Brasil Comunicação”, que nega ter negócios com a empresa do blogueiro antipetista apesar de este dizer que tem “contrato de prestação de serviços e uma nota fiscal” emitidos contra ela.

Diante da vultosa quantia paga pelo povo paulista à empresa tal “Merengue”, era de se esperar que tanto este quanto o governo tucano do Estado de São Paulo e, agora, também o governo tucano do Estado do Paraná apresentassem os documentos com os detalhes da negociação e até os detalhes das concorrências que a Appendix venceu em dois Estados governados pelo grupo político que tem interesse no que produz o site “Implicante”, já que o ajuda em sua guerra política com o PT.

A carta do tal “assessor técnico de gabinete da Subsecretaria de Comunicação do Estado de São Paulo”, secretaria que funciona sob responsabilidade do ex-jornalista da Veja Marcio Aith, é um deboche. E a resposta dos repórteres da Folha que apuraram esse negócio tão obscuro, é demolidora. Após “reiterados pedidos” o governo paulista envia à Folha quase nove dezenas de caixas cheias de documentos que não têm relação com o objeto da reportagem? Por que é tão difícil o governo Alckmin fornecer as informações solicitadas?

Além disso tudo, o que mais espanta é que, até aqui, não se tem notícia de uma única declaração da oposição ao governo Alckmin, na Assembleia Legislativa. Se esse caso envolvesse, por exemplo, o governo Haddad e um blogueiro que critica o PSDB, a oposição paulistana estaria cobrando CPI e dando declarações reiteradas à mídia, acusando o governo petista de estar financiando “blogs sujos”. Aí talvez esteja a explicação sobre por que o PT está perdendo tão feio o debate político.

Eduardo Guimarães
No Blog da Cidadania
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João Dória também recebe verba pública de Alckmin

Dória é o da extrema direita
Não é só o garoto do Implicante. Todos esses tucanos “civis”, que vivem de fazer campanha contra o PT, ganham verba pública.

Na verdade, o tucanato inventou um novo tipo de liberalismo.

O liberalismo com dinheiro público!

Sabe o João Dória Jr, que além de encontros de cachorros, também organiza o encontro de empresários de Comandatuba, onde lançou ofensas contra os petistas que não compareceram (a troco de que eles iriam)?

(Aliás, leia a matéria do El País sobre o evento, para você ver como é uma coisa ridícula — e hipócrita).

Nesse evento de Comandatuba, João Dória era o mais histérico em favor do impeachment.

No Roda Viva com Eduardo Cunha, João Dória era o entrevistador que mais insistia sobre impeachment.

Dória é um ultra-tucano. Até aí tudo bem.

Como todo tucano neoliberal, ele gosta de falar mal do governo  e do Estado.

Mas como todo tucano neoliberal, vive de verbas públicas.

Parafraseando Sartre, um tucano neoliberal poderia dizer: “O estado mínimo são os outros!”

O último relatório da Subsecretaria de Comunicação do governo de São Paulo mostra a empresa dele, Doria Editora, em quase todos os contratos.

O relatório é confuso, em alguns casos não discrimina o que cada um ganhou. A empresa Appendix, que edita o blog Implicante, também aparece várias vezes no documento.

Mas um contrato nos permite ter uma ideia de quanto João Dória ganha do governo de SP.

É um contrato válido para o período de março a setembro de 2014, e que lista como único recebedor a empresa de João Dória: R$ 595.175,00.

Com dinheiro público, é fácil ser liberal, né!

Enquanto isso, o professor paulista…

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No ano passado, o Claudio Humberto divulgou uma nota sobre uma maneira esperta que Aécio Neves encontrou de pagar seus marketeiros digitais: pagando shows, teatro e até ilusionismo.
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Miguel do Rosário
No O Cafezinho
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Você sabe pedir informações?


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A oposição e sua política de "caso especial"


A insistência da oposição e da imprensa de diariamente tentar, se elevando a um ilusório pedestal ético, assaltar o poder conferido pelo povo à Dilma Rousseff na forma da CF/88 é irritante. A moralidade da imprensa (que sonega impostos, faz propaganda de políticos mafiosos e remete dinheiro para a Suíça ilegalmente) é nenhuma, a da oposição um exercício cotidiano de hipocrisia (coisa de bandido perseguido pelo MPF que pretende forjar a própria impunidade). Tudo isto está me deixando com muita raiva. Por isto hoje fui ao sebo.

O primeiro livro que me chamou a atenção foi “Ideologia e Utopia”, de Karl Mannheim, Editora Globo, Rio de Janeiro, 1956. O segundo foi “Conferências Artigos e Crônicas”, de Monteiro Lobato, editora Brasiliense, São Paulo, 1964. Os dois volumes estavam em bom estado então resolvi adquirir ambos.

Folheando a obra de Monteiro Lobato me deparei com o texto “Como os países se suicidam”, em que o autor se refere às riquezas minerais do Brasil. Diz ele:

“Temos antes de mais nada que os considerar como um depósito confiado à nossa guarda. Não somos os donos. O dono é o país. Reserva única, insubstituível, irreproduzível, que o passado nos legou e de que o futuro nos pedirá contas, fôrça é ter a seu respeito a mais sábia das políticas.”

As palavras de Monteiro Lobato encontram eco nas sábias políticas adotadas por Lula e Dilma Rousseff em relação ao Pré-sal. Urge, portanto, conservar o que nos foi confiado. Aqueles que querem entregar o que é nosso à sanha exploratória dos norte-americanos agem como se fossem donos de algo que pertence ao Brasil, algo que não é propriedade do PSDB, deste ou daquele senador tucano. O livro de Karl Mannheim folhearei um outro dia.

Lobato se notabilizou pela sua literatura infantil. Dai me veio a lembrança três coisas: minha infância, um programa de TV e uma história infantil. Começarei pela última.

Pedro e o Lobo. História conhecida, que hoje pode ser contada mais ou menos assim. Era uma vez num país distante uma oposição que ficava gritando “Impedimento, Impedimento, Impedimento”, tentando fazer a população acreditar que o Presidente era um lobo. A população corria para verificar o que estava ocorrendo e percebia que a oposição estava enganada, que ela mesma é que deveria ser impedida de continuar a dar alarmes falsos ou falsear a realidade. Esta história ainda não chegou ao fim. Se continuar gritando “Impedimento, Impedimento, Impedimento” a oposição corre o risco de ficar mais fraca do que já é ou de transformar a população num lobo que vai devorar o regime constitucional para poder devorar a própria oposição.

Os lobos evocaram em mim a imagem do cordeiro. Então, das cavernas de minha memória infantil emergiu uma história parecida com a de Pedro e o Lobo. Mas nesta o personagem principal é ingenuo e inofensivo. Não lembro o nome do teledrama. Do enredo lembro vagamente e desde logo peço perdão em caso de engano.  O protagonista meio retardado, representado pelo então jovem Rolando Boldrin, gostava de filmes de faroeste. Ele era muito querido, mas havia alguém que o odiava. O vilão fez para ele um revólver de madeira identico a um verdadeiro. Vestido de cowboy, com o revolver no coldre, o herói vai passear todo feliz. Abordado pela polícia ele pensa que tudo aquilo não passa de uma brincadeira. Ele saca o brinquedo e é morto. A oposição saca o Impedimento como se o mesmo fosse um brinquedo. O perigo de morte numa guerra civil é sempre real.

O Brasil já teve um presidente que dizia que a questão social era caso de polícia. Os dois últimos presidentes tratam a questão social como ela deve ser tratada, com carinho. A oposição, contudo, segue acreditando que a repressão policial é a única solução para a questão social. Quer reduzir a maioridade penal, aprovar a pena de morte, rebaixar o MST e os outros movimentos sociais à condição de grupos terroristas para que tudo seja solucionado como no princípio do século XX. A oposição não tem política, pois a repressão organizada, a violência estatal e a guerra — seja ela externa ou interna — são a própria negação da política (como, aliás, notou com grande tirocínio Hannah Arendt).

A não política da oposição é a política do “caso especial”. A minoria que representa uma minoria está apontando uma arma de madeira para a população brasileira. Mesmo não sendo ingenua - Aécio Neves, FHC, Caiado, Bolsonaro e seus "canetas" na imprensa estão agindo como vilões que conduzem nosso país a uma guerra civil — a oposição pode acabar como aquele personagem representado por Rolando Boldrin. É fato: nem a imprensa nem os oposicionistas tem controle do Estado e da população. A oposição deve, portanto, se conformar com a derrota eleitoral e fazer política, caso contrário a situação pode ser empurrada pelo povo a encerrar o jogo de maneira autoritária.

Memória é esquecimento. Só consegui lembrar as coisas da minha infância quando esqueci da realidade à minha volta procurando tesouros num sebo. Ao fazer o caminho de volta, da memória para o presente, fui capaz de reelaborar ambas. A oposição esqueceu que é oposição. Insiste em lembrar os bons tempos em que podia mandar e forçar todos à sujeição. Vem daí a sua tragédia e, sobretudo, sua ineficácia política e eleitoral.

Fábio de Oliveira Ribeiro
No GGN
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Ser ou não ser: o que é mesmo ser de esquerda hoje?

Tarso Genro convidou o jornalista Flávio Tavares para um almoço em sua casa, em Porto Alegre.
O cardápio incluiu uma conversa de quase duas horas sobre a atual situação política do país, sobre os dilemas
da esquerda e do pensamento democrático no Brasil e no mundo.
Foto: Sandra Genro
Quando Tarso Genro terminou seu mandato no governo do Rio Grande do Sul, ele anunciou que, após um período de férias, pretendia se dedicar à defesa da Reforma Política e a promover um debate por todo o país sobre a necessidade de um programa mais ousado de mudanças para o país. Esse debate, assinalou, deveria ir necessariamente para além dos limites do seu próprio partido, o PT, buscando diálogos com representantes de outros setores da esquerda, progressistas e correntes de pensamento democráticas da sociedade. Com esse espírito, Tarso Genro convidou o jornalista Flávio Tavares para um almoço em sua casa, em Porto Alegre. Além do churrasco e da salada de batata, o cardápio incluiu uma conversa de quase duas horas sobre a atual situação política do país, sobre os dilemas da esquerda e do pensamento democrático no Brasil e no mundo.

No início da conversa, Flávio Tavares disse que, naquela conversa, só poderia contribuir com experiências envelhecidas. Jornalista que acompanhou alguns dos principais acontecimentos políticos no Brasil  e na América Latina, a partir da década de 60, Flávio Tavares também foi um protagonista de muitos deles. Participou da resistência à ditadura no Brasil. Preso e banido do país, exilou-se no México, Argentina e Portugal nos anos 1970. Logo que a conversa com Tarso Genro esquentou, essas “experiências envelhecidas” mostraram-se muito contemporâneas, estabelecendo pontes entre acontecimentos vividos no Brasil e na América Latina nas décadas de 60 e 70 e os dilemas do presente.

As quase duas horas de conversa acabaram se tornando uma reflexão à quente sobre temas que interrogam diretamente o pensamento de esquerda hoje. Uma reflexão com diferenças de pensamento e opinião, mas com um importante ponto de convergência: em uma sociedade dominada pelo capital e pelo consumismo, um tema adquire  uma importância fundamental nas lutas sociais: a defesa da vida, na acepção mais ampla do termo.

Tarso Genro: O Brasil orbita hoje entre duas questões muito importantes para a sua conformação como nação. A primeira é a questão democrática, ou seja, como se consolida no país um projeto democrático moderno que consiga incorporar milhões de pessoas que sempre viveram à margem da política e à margem de um mínimo de consumo digno. Essa questão começou a ser enfrentada a partir da Revolução de 30 no Brasil com todas as idas e vindas que ocorreram. A segunda questão é a desigualdade. As duas estão ligadas. As conquistas obtidas no combate à desigualdade em uma democracia se tornam duradouras; já aquelas enfrentadas por um regime autoritário geralmente se dissolvem, geram tensões e conflitos que permitem depois restaurações conservadoras. Essas duas questões me parecem fundamentais para a ideia de nação.

Tu, Flávio, percorreste grande parte desse processo, como jornalista e como um quadro da esquerda também. Tua vida é vinculada a essas grandes lutas, ora por meio do jornalismo, ora pela militância política. Gostaria de te ouvir um pouco sobre esses temas a partir da tua experiência em diferentes períodos, no pré-64, no pré-61. Como jornalista e militante, em vários desses momentos, você esteve muito próximo de conflitos envolvendo essas questões que mencionei.

Flavio Tavares: "A filosofia do consumo é hoje “a filosofia oficial do Estado”, por meio da qual ele resolve seus problemas econômicos. Quanto mais as pessoas consumirem, melhor." (Foto: Sandra Genro
Flavio Tavares: “A filosofia do consumo é hoje “a filosofia oficial do Estado”, por meio da qual ele resolve seus
problemas econômicos. Quanto mais as pessoas consumirem, melhor.”
Foto: Sandra Genro
Flávio Tavares: Posso relatar algumas coisas, mas acho que só posso relatar coisas envelhecidas. As experiências que tenho são experiências envelhecidas. Ao relatar as experiências que vivi no passado, tenho que voltar aos valores do passado, onde, falando muito sinceramente, nós da esquerda demos pouca importância à democracia. Eu era do Partido Socialista, que vinha da ala de esquerda da UDN, éramos a Esquerda Democrática, que vira PS. O principal intelectual do Partido Socialista era o Mário Pedrosa, um velho trotskista. Nós estávamos mais preocupados com a questão da igualdade do que com a democracia.

Acho que toda literatura marxista é válida até hoje. O Capital e o Manifesto Comunista estão atualizadíssimos, só que há um componente novo, que é o atual estágio da sociedade de consumo no século 21, que acabou com os valores humanistas. As pessoas estão interessadas hoje na democracia ou no consumo? A democracia passou hoje a ser fundamentalmente contar votos. Isso é a perversão da democracia. E a sociedade de consumo formou outra mentalidade, onde as pessoas não estão muito preocupadas com a democracia nem com a convivência. Se elas puderem consumir, entregam a sua liberdade de eleger. Então, penso que devemos incorporar neste debate essa avalanche que é hoje a sociedade de consumo. Para parafrasear o Lenin, o consumismo é a doença madura do capitalismo.

A minha geração, na política, não viveu o consumismo nessa etapa desenfreada. Nós éramos austeros. As pessoas não se exibiam, nem os ricos ostentavam seus bens. Hoje nós somos invadidos por essa doença sem nos darmos conta. A política não deu a devida atenção a esse fenômeno. É neste sentido que eu digo que a minha experiência é uma experiência envelhecida. Acho que uma das contribuições que a minha geração pode dar é a denúncia desse consumismo que dirige e digere a política hoje.

Tarso Genro: O que tu chama de experiência envelhecida é um elemento muito importante para que a gente possa compreender o que está ocorrendo hoje e quais são os desafios que temos. Mesmo nos padrões tradicionais do velho socialismo soviético, que passou a adotar métodos de organização e de produção semelhantes aos da sociedade capitalista, como o taylorismo e o fordismo, por exemplo. Em países dependentes como o nosso, a visão desenvolvimentista predominava em todos os setores da esquerda. Nós nos encontramos hoje em uma relação com a globalização que, num certo sentido, é a mesma relação que havia no período anterior, mas, em outro sentido, é diferente. É a mesma porque não há possibilidade de sair dela, assim como não havia possibilidade de sair da órbita do imperialismo, a não ser com uma revolução. E é diferente porque hoje a grande questão que se coloca não é romper com a globalização, mas sair de uma posição de submissão alienada para uma relação de cooperação interdependente. Por isso, o grande objetivo hoje de um projeto democrático que tenda para a igualdade, para a socialização da liberdade e do produto social é uma relação de cooperação interdependente.

Eu digo que a tua experiência não é envelhecida porque isso, por outros meios, foi tentado naquela época. A grande experiência que veio do governo João Goulart se propunha construir um país industrializado, forte e integrado na comunidade internacional. O Brasil nunca adotou uma posição como a que foi adotada na revolução argelina, na revolução cubana e muito menos a que foi adotada na Albânia ou nos países do leste europeu que estavam integrados na economia da União Soviética. Então, uma das grandes questões que se coloca para nós hoje: qual é a possibilidade real desse projeto de uma cooperação soberana com interdependência?

Há uma avalanche de consumismo e de educação consumista promovida pela publicidade e pelos governos, que dissolve a cidadania no consumo. O cidadão hoje se afirma não pelos laços de solidariedade comunitária que estabelece, onde aparece também uma preocupação com a sua própria vida e bem estar, evidentemente. Ele se afirma pela capacidade que tem de consumir. Isso está presente em todas as classes sociais e aparece também no processo de inclusão massiva que ocorreu no Brasil nos últimos dez anos. Eu sempre digo que o grande mérito do que ocorreu nos últimos anos no País foi criar novos sujeitos sociais com novas demandas, só que essas demandas estão sendo controladas e orientadas a partir de uma visão consumista, predatória e não comunitária. Isso é uma forma de dominação, de dissolução da cidadania ativa.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman destaca duas características brutais da sociedade atual. A primeira delas é que todas as relações são provisórias, líquidas, carecem de solidez, são mutantes e rapidamente instrumentalizadas. A segunda é o princípio da descartabilidade dos objetos e dos seres humanos. Se levarmos em conta a ideia originária de Marx e de toda uma tradição humanista que vem do iluminismo, a questão da igualdade está no centro deste projeto. Uma das questões que devemos responder é: quem são exatamente os sujeitos que querem essa mudança? Os sujeitos que tinham potencial para querer essa mudança estão subjugados pela ilusão predatória do consumo. Esse impasse, na minha opinião, é o principal impasse da esquerda contemporânea.

A grande questão que se colocava para o Brasil até bem pouco tempo era se o país tinha condições de incluir milhões de pessoas na sociedade formal e de consumo. Hoje, o desafio que se coloca para a esquerda é a questão da igualdade e não mais a da inclusão. Até aqui, a esquerda não teve capacidade de dar resposta a essa questão: o que devemos fazer para ter uma desigualdade mínima, combinada com a máxima igualdade possível?

"Eu sou um pessimista. Sempre fui meio pessimista na vida. Por isso me meti nas coisas em que me meti. Acho que estamos num beco sem saída". (Foto: Sandra Genro)
“Eu sou um pessimista. Sempre fui meio pessimista na vida.
Por isso me meti nas coisas em que me meti. Acho que estamos num
beco sem saída”.
Foto: Sandra Genro
Flávio Tavares: Aí há outro ponto que precisa ser abordado, na minha opinião. Será que não houve um erro (eu acho que houve) neste processo que priorizou a incorporação das pessoas ao consumo, que tirou imposto dos automóveis, mas não incorporou as camadas populares do ponto de vista do trabalho e da educação, educação aí tomada em termos muito amplos, não apenas educação formal?

A cultura cidadã não está presente hoje na sociedade. A grande escola hoje é, fundamentalmente, a televisão. Os ministros da Educação ocupam a pasta da área, mas quem forma mesmo é a Xuxa, o Ratinho, o Gugu, o Faustão, o Big Brother. A educação não está mais na escola formal, está na televisão e também na internet. Então, o que é crítico é terem incorporado as pessoas ao consumismo e não à educação. Foram formados consumidores, não cidadãos. Os elos de solidariedade, os laços comunitários se perderam, até a ânsia de aprender se perdeu. Há certos valores cristãos, do cristianismo primitivo, que nós precisamos recuperar.

Tarso Genro: Sobre isso, creio que devemos pensar o seguinte: a cidadania moderna, embora possa ser organizada com base nos laços familiares, nas relações comunitárias, sempre se reporta ao Estado moderno. Aí chegamos a mais um impasse. O Estado, enquanto projeto originário das Luzes, está capturado pelo capital financeiro através da dívida. Assim, qualquer pessoa que chegue ao governo, independentemente de sua visão programática e ideologia, não poderá ultrapassar determinados limites. A Grécia é um exemplo atual e dramático dessa situação. A sociedade grega está esgotada, a população empobrecida e o desemprego tem taxas exorbitantes. O país quer reestruturar sua dívida com a União Europeia. Se não fizer isso, o Estado deixa de funcionar. Em países como o Brasil e a Argentina, as margens para que os governos se comportem segundo uma visão de nação e de cidadania são muito pequenas. Se não mudar a ordem internacional e o Estado não conseguir dessa tutela do capital financeiro, não tem saída.

A saída é a barbárie. E a barbárie a gente sabe como se resolve, através da guerra. Hoje, na Europa, existe um pequeno respiradouro. Se a Grécia conseguir negociar em parte, estabelecendo uma cooperação soberana interdependente e conseguindo começar a tirar o país da estagnação, essa ordem mundial pode ir mudando gradativamente. Mas essa não é a maior possibilidade. Tomara que não seja assim, mas a maior possibilidade é que a Grécia seja rendida, porque depois dela vem a Espanha, e depois da Espanha vem Portugal, e depois a Itália e assim por diante. Então, uma estratégia de esquerda exclusivamente nacional que exija dos governos nacionais questões que eles não podem responder sozinhos, é uma visão fora da história, que se coloca na disputa política apenas com boas intenções.

Assim, penso que a grande questão que o Estado brasileiro tem que enfrentar é caminhar na direção de uma ordem mundial com cooperação e soberania interdependente. Eu concordo contigo que o governo Lula e o governo Dilma prestaram atenção predominantemente na questão da inclusão e não conseguiram desenvolver (e não sei se poderiam) uma estratégia para desenvolver uma nova relação da cidadania com o Estado. O controle público do Estado foi incentivado através das grandes conferências nacionais, mas ficou por aí. Consequentemente, o Estado brasileiro também continua refém do capital financeiro.

Tarso Genro: "Todas essas referências históricas, na minha opinião, apontam para um problema que segue atual e contemporâneo: como dar densidade a um projeto nacional no âmbito da globalização sob a tutela do capital financeiro?"
Tarso Genro: “Todas essas referências históricas, na minha opinião, apontam para um problema que
 segue atual e contemporâneo: como dar densidade a um projeto nacional no âmbito da globalização
sob a tutela do capital financeiro?”
Flávio Tavares: É só pegarmos o caso brasileiro e ver quem foi nomeado para o Ministério da Fazenda. E não é só o sistema financeiro. As multinacionais também dominam o Estado. Tu deves ter vivenciado isso em tua experiência de governo. As multinacionais decidem o estilo de vida, o que vou vestir, o que vou comer, o que vou pensar. Eu costumo dizer que os grandes filósofos do século 20, da segunda metade do século em diante pelo menos, são os publicitários, que nos dão diariamente a pauta de comportamento e a pauta de vida. Não temos hoje nenhum Schopenhauer, Espinosa ou Heidegger. O que temos são publicitários. Há importantes acadêmicos, é claro, mas os filósofos do dia-a-dia estão nas grandes agências de publicidade que alimentam simbolicamente esse modelo de capitalismo  consumista que é dominante hoje no mundo.

Eu sou um pessimista. Sempre fui meio pessimista na vida. Por isso me meti nas coisas em que me meti. Acho que estamos num beco sem saída. Estamos numa outra fase civilizatória, onde devemos tentar salvar aquilo que pode se salvar e é fundamental: a vida, o meio ambiente. O consumismo terminou com a visão de cidadania e com o grande traço humano que é a noção de solidariedade. Um cidadão não solidário é um cidadão quase desumano. Acho que devemos resgatar o humanismo, os valores humanistas. Lembro que, quando tu foste candidato a prefeito e Porto Alegre, te perguntaram num debate se eras socialista, comunista ou o quê, e a tua resposta, meio que desviando do assunto, foi: sou um humanista. Uma resposta inteligente.

Tarso Genro: Isso foi em 1992, no meu primeiro mandato. A pergunta foi se eu era religioso. E respondi que eu me pautava (como sigo me pautando) por uma visão humanista, ancorada em toda uma experiência democrática. Essas questões de natureza filosófica estão muito subsumidas hoje.

Eu compartilho a visão de um marxista húngaro discípulo de Lukács, István Mészáros, que sustenta que o grande problema das sociedades pós-capitalistas (ele se recusa de chamá-las de socialistas) é que elas não romperam com alguns elementos centrais do capitalismo. Em primeiro ligar, diz ele, não romperam com o sociometabolismo do capital, que é a forma de produzir e acumular. No caso da União Soviética, por exemplo, essa forma foi transferida dos sujeitos privados para o Estado, que adotou as mesmas formas de produção e de exploração que pretendia abolir, gerando uma relação que reproduziu hierarquia, valor, consumo e predação da natureza. Isso acabou gerando as condições para que o capital voltasse para mãos privadas, como ocorreu na hoje extinta União Soviética.

Em segundo lugar, não rompeu com as formas centralizadas e autoritárias de produção da política, acabando por extinguir a política que se dava fora do Estado e fora do partido, desconstituindo assim a sociedade civil. Isso tem a ver com o que estamos falando sobre o consumismo. A filosofia do consumo é hoje “a filosofia oficial do Estado”, por meio da qual ele resolve seus problemas econômicos. Quanto mais as pessoas consumirem, melhor. Um dos grandes problemas que enfrentamos aí é que, na verdade, esse incentivo ao consumo deveria existir para que as pessoas atendessem às suas necessidades básicas. Mas isso é impossível dentro da sociedade capitalista que estimula tanto a produção de automóveis de luxo, como a produção de arados, na mesma intensidade. Se você pensar em um modelo produtivo voltado a atender às necessidades mais básicas da sociedade, certamente vai se chocar com interesses poderosos dessa sociedade. Essa é a realidade que vivemos hoje.

Ainda neste tema da deterioração da experiência soviética, gostaria que você falasse um pouco de sua experiência no México, onde viveu durante muitos anos.

Flávio Tavares: Aprendi muito no México, mas, do ponto de vista político, aprendi fundamentalmente como é possível, com habilidade, dirigir um povo de cima para baixo e imprimir um regime monárquico travestido de republicano, como acabou fazendo o PRI (Partido Revolucionário Institucional). Aprendi como funciona o poder autoritário de uma burocracia, simulando o poder popular. No México ocorreu isso, uma simulação de poder popular por uma burocracia. Algo um pouco parecido com o que acontece aqui no Brasil, com diferenças, mas com algumas semelhanças. O PRI, logo no início da Revolução, copiou o modelo soviético, com os sindicatos e os movimentos populares  vinculados ao Estado.

Tarso Genro: Sim. O Partido Revolucionário Institucional constava na Constituição mexicana naquela época como o partido dirigente. Era produto de uma revolução que depois foi se degenerando e se burocratizando.

Flávio Tavares: As coisas não se repetem, mas depois vou encontrar outra situação na Argentina. Eu cheguei na Argentina logo depois da morte de Perón e presenciei aquele período de caos no peronismo, com a esquerda e a direita do partido se matando entre si. E a direita matava mais do que a esquerda. Ela matava dez, enquanto a esquerda matava um. Um clima de guerra civil, que explica o golpe, aliás. O golpe foi fruto da fratura interna do peronismo. Há um componente psicológico que também precisa ser levado em conta aí. Há um sentimento de ódio muito impregnado na política e na própria História argentina. Aqui no Brasil, está começando a surgir esse fenômeno também, embora o nosso ódio ainda seja tênue perto do argentino.

Tarso Genro: Todas essas referências históricas, na minha opinião, apontam para um problema que segue atual e contemporâneo: como dar densidade a um projeto nacional no âmbito da globalização sob a tutela do capital financeiro? O desafio para a esquerda segue o mesmo, mas com outra qualidade. Como construir uma ideia de nação que não parta de uma ruptura com a ordem mundial, mas ao mesmo tempo estabeleça uma relação de cooperação ativa e soberana com essa ordem? O grande bloqueio que existe é que a necessidade de acumulação de capital, particularmente, hoje, de capital financeiro, ela é infinita. Ou partimos para uma nova ordem mundial, uma demanda mais do que madura, ou essa alternativa não será possível.

Flávio Tavares: Perfeito. Concordo, mas aí nós caímos na questão anterior. Pergunto: uma nova ordem mundial é possível hoje com essa avalanche da sociedade de consumo? Tudo o que nós temos hoje, daqui a meia hora estará obsoleto. Essa dinâmica que a sociedade de consumo deu a si própria é infernal.

Flavio Tavares: “O stalinismo foi a morte do comunismo até em termos reais.
Como dizia o Werner Becker: ninguém matou mais comunistas do que o Stálin.”
Tarso Genro: Sobre isso, eu não sou menos pessimista do que tu. Eu me seguro na utopia, na esperança.

Flávio Tavares: Acho que nós, das esquerdas, precisamos reformular inclusive o nosso conceito sobre o que é ser de esquerda. Antes de 64, isso era muito fácil. Havia a União Soviética de um lado e os Estados Unidos de outro, embora nós que não éramos ligados organicamente ao Partido Comunista, sempre tínhamos que enfrentar o tema do cadáver insepulto que era a União Soviética. O stalinismo foi a morte do comunismo até em termos reais. Como dizia o Werner Becker: ninguém matou mais comunista que o Stálin. Mesmo assim, naquela época, as posições eram mais claras e estavam ali: tomar Coca-Cola ou não tomar Coca-Cola. Os politizados não tomavam Coca-Cola. O que é mesmo que nos define hoje no meio desse império de consumismo?

Tarso Genro: Esse império virou um exército de ocupação da subjetividade.

Flávio Tavares: Sim, perfeita síntese. Ele está dentro de nós.

Tarso Genro: Eu concordo que essa questão sobre o que é ser de esquerda não é a mesma que estava colocada, por exemplo, na década de 60. Lembro de um grande debate que houve, quando o falecido Leandro Konder voltou ao Brasil. Ele participou de um debate, se não me engano com o José Guilherme Merquior, um jovem e brilhante crítico literário de direita na época, que chegou a fazer os discursos do general Figueiredo num determinado período. Leandro Konder já estava naquela linha da defesa de uma reforma da ideologia clássica do Partidão, numa visão mais próxima do Berlinguer, do Lucio Magri e outros nomes do comunismo italiano. Neste debate apareceu essa questão da distinção entre esquerda e direita. Lá pelas tantas, o Merquior perguntou ao Leandro Konder: “Na tua opinião, o Brejnev é de esquerda?”. Konder parou um pouquinho, pensou, e replicou: “Em termos…” Neste momento ela reconhecia que os marcos desse debate tinham mudado de lugar.

Norberto Bobbio tem um pequeno livro maravilhoso sobre esse tema. Um amigo meu me define como um “marxista bobbiano”. Bobbio não é um marxista, mas é um grande teórico da democracia, da política e do Estado. Acho que o encontro de Marx com Bobbio pode resultar em algo de novo para a democracia. Bobbio defende algumas distinções básicas entre a esquerda e a direita. Por exemplo, a direita privilegia a hierarquia, enquanto a esquerda privilegia a igualdade entre as pessoas. A direita normalmente chega na política através de critérios quantitativos economicistas; a esquerda chega na política por meio de critérios humanistas e libertários, para depois chegar na economia…

Flávio Tavares: Essa era a esquerda de antes…

Tarso Genro: Sim, estou falando em termos gerais, por que até hoje existe esquerda e direita, inclusive dentro dos partidos de esquerda. Acho que houve uma mudança grande sim. Mudou o invólucro político do significado dessa distinção. Mas o núcleo racional do “ser de esquerda”, como uma ideia libertária, democrática e revolucionária, permanece.

Marco Weissheimer
No Sul21
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