13 de abr de 2015

A Petrobras e o Fator Político

http://www.maurosantayana.com/2015/04/a-petrobras-e-o-fator-politico.html


A questão da Petrobras mantém, neste momento, a situação do país em suspenso. Trata-se não apenas de um problema jurídico, mas do futuro da nossa maior empresa nacional e de dezenas de setores da economia brasileira, que vão da indústria naval à química, com implicações de toda ordem e a ameaça de eliminação de milhares de empresas e empregos.

Mas os problemas vão além dos casos de corrupção na empresa? Como poderia estar sua situação se não fosse isso?

Do nosso ponto de vista, a queda do petróleo não atrapalha a exploração do pré-sal para a Petrobras, porque o grande mercado da Petrobras é o brasileiro. O que baliza o preço que a Petrobras obtém pelo óleo extraído no pré-sal ou pelo óleo que ela troca pelo petróleo do pré-sal lá fora é o custo final do combustível no mercado nacional.

É a Petrobras que forma o preço do petróleo no mercado brasileiro, e essa condição de formação de preço só se veria ameaçada se houvesse importação de combustível em enorme escala por empresas concorrentes, para substituir a produção nacional da empresa.

Essa é uma possibilidade distante, que não poderia se dar sem um tremendo esforço logístico, que implicaria, por sua vez, no aumento do custo, diminuindo a margem de lucro de suas concorrentes, o que neste momento não interessaria a ninguém.

O grande problema é o câmbio, considerando-se que muitos dos insumos e serviços da Petrobras são importados. Mas ainda assim, a manutenção desse quadro, em que o grande foco é o mercado interno, com o aumento paulatino da produção nacional de petróleo e a de refi no, só tende a ajudar a Petrobras, com a recuperação de suas margens de lucro no futuro.

Com relação ao mercado internacional, em médio prazo, a recomposição do preço do petróleo tende a ocorrer por várias razões. Primeiro, a concorrência do petróleo saudita mais barato com o óleo e o gás de xisto dos EUA, que pode diminuir a oferta de produção local no maior mercado do mundo.

Em segundo lugar, pela pressão de outros membros da OPEP para que haja corte na produção. Em terceiro lugar, pela diminuição dos estoques norte-americanos e chineses, que deve ocorrer devido ao aquecimento da economia dos EUA e das exportações chinesas, como já se viu no início deste ano. Depois, vem a possibilidade de recuperação da economia europeia, caso seja bem sucedido o pacote de estímulo do BCE, e, por último, a de haver um aumento da tensão na Ucrânia, que pode vir a prejudicar o fornecimento russo de gás para a União Europeia. Em uma situação normal, em que fosse considerada apenas a lógica produtiva e de mercado, a Petrobras estaria vivendo um excelente momento.

A expectativa negativa criada em torno da empresa, no entanto, gerou uma posição institucional que não condiz com as perdas efetivamente detectadas até agora com os casos de corrupção descobertos — que têm sido várias vezes multiplicadas pela mídia e por todo o tipo de “fontes” e “analistas” — e que a está empurrando para a realização de desinvestimentos. Isso é muito mais grave do que as suas perspectivas reais de produção e de mercado, mesmo quando levada em consideração a situação vivida neste momento pela indústria de óleo e gás em todo o mundo.

Essa é uma situação que só poderia ser minorada, por exemplo, se a empresa tomasse uma decisão que revertesse as expectativas e contornasse os problemas que tem tido nas bolsas ocidentais e com a má vontade de agências de qualificação como a Moody´s.

Esse seria o caso, por exemplo, do estabelecimento de uma aliança que lhe garantisse a obtenção de recursos e de apoio alternativos — para a execução dos projetos que estão em andamento — com parceiros alternativos que fossem financeira e tecnicamente poderosos, como a China.

A Petrobras tem excelente tecnologia (acaba de ganhar, pela terceira vez, o maior prêmio do mundo, outorgado pela OTC, no Texas, nos EUA, nessa área), produção e gigantescas reservas de petróleo e gás, em ascensão neste momento, e uma situaçãopredominante em um dos maiores mercados do mundo.

A única coisa que pode atrapalhá-la é o fator político.
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Mulher de Eduardo Cunha foi terceirizada

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Um analfabeto político mirim chamado Kim Kataguiri

KK quer dar tiros na cabeça dos outros como em videogames
É simplesmente inacreditável a quantidade de pseudoluminares de direita que o Brasil vem produzindo nos últimos anos.

A qualidade é desprezível. Onde alguém como Nelson Rodrigues, ou Roberto Campos, ou Mario Henrique Simonsen?

Em nenhum lugar, lamentavelmente.

Em compensação, a tropa não para de ganhar novos soldados rasos. Rasos nos debates, rasos nas formulações, rasos nos textos. Rasos em tudo, em suma, verdadeiros recrutas zeros do reacionarismo.

O mais novo deles é Kim Kataguiri, de 19 anos, líder de um certo Brasil Livre. Em sua louca cavalgada para encontrar um herói do 1%, a imprensa tenta transformá-lo em algo além da definição precisa de Jean Wyllys, um analfabeto político. Eu acrescentaria apenas: mirim.

No final de semana, do alto do fracasso do protesto que ele supostamente organizou em São Paulo, KK pronunciou uma frase que simboliza a obtusidade agressiva da endoidecida direita brasileira. Para ele, o PT tem que levar um tiro na cabeça.

Num mundo menos imperfeito e menos selvagem, alguém como ele diria que o PT tem que ser batido nas urnas, democraticamente.

Mas não: KK carrega uma arma na mente tumultuada, e quer usá-la a todo custo.

A tragédia de KK começa na escolha errada do mentor. Oriental, ele tinha mestres formidáveis à mão.

Confúcio, por exemplo. Os Analetos de Confúcio são um livro curto e simples de ler, e dão a você elementos para tocar com sabedoria sua vida.

Mas a Confúcio KK preferiu a ignorância enciclopédica de Olavo de Carvalho. Se você examinar os pupilos de OC terá uma ideia do que acontece com quem leva a sério suas palavras.

Cito alguns ao acaso: Danilo Gentili, Lobão, Pastor Everaldo, Roger do Ultraje, Rodrigo Constantino e Rachel Sheherazade.

Todos eles somados, você chega a zero. Ou, se for menos condescendente, a menos um. Você espreme um por um, como laranjas, e tudo que obterá se resumirá em duas palavras: estado mínimo.

Não é à toa que a direita não ganha eleições no Brasil: seus propagandistas são terrivelmente ruins.

KK não leu nada, mas pontifica sobre tudo. Numa entrevista para a IstoÉ, admitiu jamais ter lido sequer Friedman, um dos maiores nomes do conservadorismo econômico.

Se não leu Friedman, sendo um “liberal”, é porque não leu coisa nenhuma.

Mesmo assim, carrega uma placa em que revoga Marx. Na mesma entrevista, ele disse ter lido de Marx O Capital.

Chamo meu querido Wellington mais uma vez: quem acredita naquilo acredita em tudo.

Marx não é para principiantes. Estudiosos do Capital sugerem até uma ordem de leitura de capítulos que não foi a adotada pelo próprio Marx.

Por ler Marx, e interpretá-lo à luz destes tempos, Piketty virou Piketty, com seu livro que explica a brutal desigualdade do mundo moderno e sugere maneiras de combatê-la.

Por ter lido as apostilas mastigadas de Olavo de Carvalho, KK virou KK um garoto de maus instintos e má índole que sonha dar tiros nos outros como se estivesse jogando videogame.

Só no Brasil ele viraria uma estrela da imprensa.

Mas todos os confetes que a mídia está lhe jogando não equivalem, juntos, ao curto diagnóstico de Jean Wyllys.

Eis um analfabeto político.

Mirim.

Paulo Nogueira
No DCM
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Tea Party à brasileira

Kataguiri, neobobo
Um debate com a nova direita

Da plateia, o rapaz corpulento, de camisa polo desbotada, jeans e boné, falou ao microfone. “Trabalho com tecnologia e nas horas vagas exorcizo esquerdistas. A gente vai estar enxugando gelo enquanto não fechar a fábrica de idiotas que é o sistema educacional brasileiro”, declarou, sob palmas e gritos de “É isso aí!”.

O mediador aproveitou para anunciar que na semana seguinte receberia Miguel Nagib, da ONG Escola sem Partido, “um herói brasileiro”.

Kim Kataguiri, um dos três convidados da noite, expressou seu “apoio completo” a Nagib. Renan Ferreira Santos, a seu lado no palco, arrematou: “Você sai do colégio sabendo o que é latifúndio, mas não quanto paga de imposto na sua lancheira.”

O debate acontecia no teatro do shopping Fashion Mall, em São Conrado, no Rio, oito dias depois do protesto de 15 de março, que levou milhares de pessoas às ruas contra o governo de Dilma Rousseff. Kataguiri, 19 anos, e Santos, 31, são fundadores do Movimento Brasil Livre, o MBL, que defende o impeachment de Dilma. Juntamente com o Vem pra Rua e o Revoltados Online, constitui a tríade que convocou a manifestação.

Estavam acompanhados de Alexandre Santos, 26 anos, irmão de Renan, produtor dos vídeos do MBL, nos quais Kataguiri encarna um samurai de desenho animado que combate a esquerda com tiradas como “justiça social é outro nome para caridade com dinheiro alheio, ou gozar com o pau dos outros”.

Desde 1º de novembro, quando organizou o primeiro protesto contra Dilma em São Paulo, o trio do MBL já aparecia na tevê e dava entrevistas a jornais e portais. Mas as cerca de oitenta pessoas que compareceram ao teatro não eram curiosos, tampouco o público do shopping, um dos mais luxuosos do Rio. Eram em sua maioria militantes já convertidos, a quem os líderes do MBL — vestidos como profissionais liberais, de camisa sem gravata — deram dicas de como fazer amigos e ganhar adeptos.

Além do exorcista de esquerdistas, na plateia havia gente como um médico revoltado com o Mais Médicos; um senhor que frequenta o Clube Militar; oito jovens de um grupo liberal de Niterói, além de uma pequena empresária do setor de óleo e gás, aplaudida quando anunciou que seus funcionários petistas seriam os primeiros a ser demitidos devido à perda de contratos provocada pelo escândalo da Petrobras.

Também estavam lá Felipe Moura Brasil, blogueiro da Veja, e Bernardo Santoro, diretor executivo do Instituto Liberal, o IL, que na campanha presidencial atuou como coach do pastor Everaldo, o candidato do Partido Social Cristão — no debate, o pastor foi elogiado por ter defendido a privatização da Petrobras no Jornal Nacional.

Kim Kataguiri e os irmãos Santos se definem como liberais quanto à economia, a favor do Estado mínimo. Direita para eles é elogio — até fizeram troça de um artigo na Folha de S.Paulo que os chamou de “centro-direita” (“Talvez porque a gente não defenda o golpe militar”).

Da imprensa, só pouparam a Veja. Ficaram especialmente irritados porque o Datafolha contou 210 mil pessoas na avenida Paulista em 15 de março — depois que a Polícia Militar anunciara que a multidão havia batido a marca de 1 milhão. Os argumentos do trio pelo impeachment, porém, foram tirados de um artigo e de uma entrevista dos advogados Ives Gandra Martins e Modesto Carvalhosa publicados no jornal paulista.

Renan Santos estudou direito na USP, onde, citando Michel Foucault, disse ter conhecido a “microfísica” do poder petista. Em 2014, atuou com o irmão na campanha de Paulo Batista, candidato a deputado estadual em São Paulo pelo Partido Republicano Progressista. O vídeo em que Batista atacava a USP com seu “raio privatizador” fez sucesso na internet, mas não na urna: com menos de 19 mil votos, ele não se elegeu.

Kim Kataguiri abandonou a faculdade de economia e criou no Facebook a página Liberalismo da Zoeira. Na eleição presidencial, participou com os irmãos Santos da elaboração do vídeo Jornal do Futuro — Danilo Gentili 2018, em que o comediante apresenta um telejornal da República Bolivariana do Brasil — a foice e o martelo aparecem no canto do vídeo, o governo importa policiais cubanos e “Chico Buarque está na França, mas mandou avisar que apoia essas medidas”.

No debate, os fundadores do MBL citaram seu livro-texto, As Seis Lições, de Ludwig von Mises, economista da escola liberal austríaca, antikeynesiano e contrário a qualquer política distributivista (Milton Friedman o considerava intolerante). O livro pode ser baixado no site do IL e do Instituto Ludwig von Mises, ambos parte de um conjunto de centro de estudos de direita que vem ganhando corpo no país. O IL lista como seus parceiros o Instituto Millenium, o Instituto Ordem Livre e o Instituto de Formação de Líderes, que organiza anualmente o Fórum Liberdade e Democracia.

Guardadas as proporções, há vários pontos em comum entre o proselitismo ultraconservador no Brasil e nos Estados Unidos — onde a partir dos anos 70, tempo de recessão e crise política que resultou na renúncia de Richard Nixon, uma série de think tanks passou a desafiar o consenso social da Era Roosevelt, iniciada com o New Deal.

Como também vem se esboçando no Brasil, a direita americana ocupa, grosso modo, duas vertentes que se entrecruzam: uma, ligada às igrejas neopentecostais, dá ênfase aos “valores morais”; outra, liberal, prega cortes nos impostos e na previdência social. Os libertários, uma subcorrente desta última, se distinguem por rejeitar qualquer ingerência na vida do indivíduo, defendendo por isso a legalização das drogas. Os propagandistas dessa direita ressurgente tacharam Barack Obama de socialista e muçulmano. Seu subproduto mais recente é o Tea Party, movimento que se tornou influente no Partido Republicano e acaba de lançar seu primeiro pré-candidato à Presidência, o senador pelo Texas Ted Cruz.

Em 2008, o articulista Olavo de Carvalho, guia espiritual da ultradireita, apoiou a tese marginal mas barulhenta dos denominados birthers — a de que Obama teria nascido no Quênia e apresentara uma certidão de nascimento falsa para concorrer à Presidência.

Carvalho, que já foi favorável à intervenção militar no Brasil contra uma suposta conspiração comunista, hoje é uma referência para os líderes do MBL. Kataguiri gravou conversas em vídeo com ele, disponíveis na internet. A sintonia entre os rapazes e o veterano se reflete, por exemplo, na posição de que falar de reforma política agora é diversionismo. Para não romper a unidade da direita nem tirar o foco do impeachment, o MBL não se pronuncia sobre temas como aborto, drogas, casamento gay e aquecimento global.

Tal qual a direita americana, a brasileira ataca a ampliação dos direitos sociais que aqui marcou a transição para a Nova República e a Constituição de 1988. Cultiva a aversão à elite acadêmica e vê as universidades como “antros de Marilenas Chauis” — segundo Renan Santos, uma “esquerda estética”, que anda de bicicleta e se entusiasma com as recentes vitórias eleitorais do Podemos, na Espanha, e do Syriza, na Grécia. “Eles estão se sentindo nos anos 60, é meio vintage, podem usar uma bolsa com franjinhas e uma boca de sino”, disse Santos.

Quando um rapaz do grupo de Niterói – vestindo uma camiseta com a inscrição “Menos Marx, mais Mises” — perguntou se valia a pena “tentar mudar o pessoal da Universidade Federal Fluminense”, Santos disse que achava perda de tempo. Mas ressaltou a importância de sair da internet e “tomar a rua”. Deu como exemplo a aula pública com banda de música que o MBL fez no vão do Museu de Arte de São Paulo, em janeiro, para mostrar que “é uma falácia” a reivindicação de passe livre no transporte público. “O pessoal ia lá pensando que era um show de rock e tomava liberalismo na cara”, disse Kataguiri.

Outra característica que a direita brasileira compartilha com a americana é a exploração do ressentimento de setores que se consideram prejudicados pela legislação trabalhista, a rede de proteção social para os pobres, as cotas para negros — também nos Estados Unidos, programas destinados a equalizar as oportunidades foram qualificados de “socialistas”. “O PT te culpa por ser homem, branco ou heterossexual”, disse Renan Santos. “Um empreendedor no Brasil enfrenta a Justiça trabalhista e fiscais da Receita estadual, até piores que os da Federal.”

Renan Santos e Kataguiri votaram em Aécio Neves nos dois turnos em 2014, mas demonstram fastio com o PSDB — que, a despeito de ter conclamado seus apoiadores a protestar no dia 15, ainda não aderiu à tese do impeachment. Como na simbiose que ocorreu entre setores republicanos e o Tea Party, o MBL “adoraria obrigar” o PSDB a incorporar suas ideias. “O liberalismo é totalmente minoritário no partido, fizeram privatizações a contragosto.”

Santos reconheceu que os protestos “são úteis até certo ponto” para os tucanos, que falaram em “sangrar” o governo, mas emendou: “Eles não querem que a gente traga o tema do impeachment. O ideal para o PSDB é a gente organizar manifestações todo mês até 2018, reivindicando qualquer outra coisa. Aí o Aécio ou outro candidato deles seria o favorito.”

Questionado se o MBL planejava formar um partido, Santos, ciente do sentimento antipolítica no ar, perguntou ao auditório: “Vocês veem algo de errado na gente lançar candidato?” A resposta foi não. Depois, elogiou o Partido Novo, fundado em 2011 e ainda pleiteando o registro, mas disse que não sabe como a agremiação poderá enfrentar a máquina tucana. Em sua página no Facebook, o Novo defende o fim das estatais, do voto obrigatório e do fundo partidário. Num post do dia 13 de março — quando a CUT e outros grupos fizeram um ato em defesa do governo —, considerou que a rua é para “pessoas livres”, e não para partidos e sindicatos, que devem utilizar “canais próprios de reivindicação”.

Para quem se queixa de que estão “sozinhos, sem ninguém ajudando”, os líderes do MBL demonstraram uma desconcertante autoconfiança. A plateia queria saber como pressionar Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, a pôr o impeachment na pauta. “Dois milhões de pessoas na rua é voto. O Cunha não tem opção”, afirmou Kataguiri. (Havia um novo protesto contra Dilma convocado para 12 de abril.)

O tema da corrupção, dominante nas ruas, surgiu nas perguntas do público. Os rapazes disseram que reduzir o Estado seria uma maneira de “não deixar o dinheiro na mão do bandido”, mas ressaltaram que no momento “o problema não é a corrupção em si”.

Alegaram que, enquanto peemedebistas e tucanos embolsariam o roubo, o PT o utilizaria para dominar o Legislativo. “Isso é golpe contra a República, ou Montesquieu estava louco”, disse Renan Santos.

O MBL não se furtou a alimentar a obsessão da plateia contra o Foro de São Paulo, que reúne organizações de esquerda latino-americanas. Mas atribuiu a teorias conspiratórias a especulação de que teria recebido dinheiro dos irmãos Koch, donos de um conglomerado industrial, fundadores do Instituto Cato e financiadores de causas ultraconservadoras nos Estados Unidos. O tema surgiu por causa da publicação de textos de integrantes do grupo Estudantes pela Liberdade, o EPL, no site do MBL. O EPL é a versão nacional do Students for Liberty, bancado pelo Cato.

“A elite branca está pouco se lixando para a gente”, disse Kataguiri. O trio diz que 70% de sua sobrevivência decorrem de microdoações pela internet. O resto vem de “um empresário ou outro”. O MBL não divulga nomes de doadores.

No Facebook, o Brasil Livre tem menos curtidas do que seus parceiros — e concorrentes — na convocação das manifestações. Enquanto o Vem pra Rua se diz acima das ideologias e o Revoltados Online é o mais ostensivamente raivoso, o MBL tem como alvo o público jovem — e os protestos do dia 15 tiveram uma presença forte de pessoas mais velhas e de famílias, mas menos jovens em grupos, como é comum nos atos da esquerda. “A gente criou uma linguagem que mescla diversão, provocação e um pouco de rock and roll, o que confunde o adversário”, disse Renan Santos. Depois dos atos, é preciso cuidar da narrativa. “Em tempos de pau de selfie, o importante não é tanto a história que você faz, mas a história que você conta.”

A estratégia comunicativa visa, segundo os rapazes, superar o estigma de que a direita é “coxa”, pesada e convencional. “Eu vou a festas boas, tenho amigos gays, negros, artistas. Dá para ser legal sem votar no PT ou no PSOL”, disse Alexandre Santos. No fim do debate, a plateia logo se dispersou. Não houve chope nem pizza coletivos. O trio do MBL foi jantar com um grupo restrito em um restaurante no próprio shopping.

Claudia Antunes, da Piauí
No Viomundo
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Carta de Belo Horizonte: "Regula Já!, nossa luta é por mais democracia e mais direitos!"


Com a participação ativa de 682 inscritos, o 2º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação (ENDC) aprovou, na tarde deste domingo (12/4), a Carta de Belo Horizonte. O documento reafirma a luta pela democratização da comunicação como pauta aglutinadora e transversal, além de conclamar as entidades e ativisitas a unirem forças para pressionar o governo a abrir diálogo com a sociecidade sobre a necessidade de regular democraticamente o setor de comunicação do país.

Rosane Bertotti, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), comemorou o resultado do evento, que reuniu ativistas, estudantes, militantes, jornalistas, estudiosos e pesquisadores da comunicação, representantes de entidades e coletivos e autônomos de todo o Brasil. "Nosso encontro mostrou que a luta por uma comunicação democrática, inclusiva, plural está mais ativa e é mais necessária do que nunca. E mais do que isso, que os movimentos estão dispostos a cobrar do governo que paute essa questão a coloque na agenda dos debates estratégicos para o país".

CARTA DE BELO HORIZONTE

REGULA JÁ! POR MAIS DEMOCRACIA E MAIS DIREITOS

Nós, ativistas pelo direito à comunicação, militantes das mais variadas organizações do movimento social brasileiro (sindical, juventude, cultural, estudantil, moradia, do campo e da cidade, mulheres, negros, LGBT, meio ambiente, academia, ativistas digitais, trabalhadores da comunicação etc.), presentes em Belo Horizonte no 2º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação, organizado pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, que reuniu quase 700 pessoas vindas das cinco regiões do país, demos mais uma demonstração de força e unidade do nosso movimento. Durante três dias debatemos propostas e projetos, trocamos experiências e construímos coletivamente uma estratégia comum de luta pela democratização da comunicação.

A defesa da democracia é uma das principais bandeiras de luta da sociedade brasileira. E a construção de uma sociedade efetivamente democrática só se realiza se houver liberdade de expressão para todos e todas, o que pressupõe a garantia do direito à comunicação. Reafirmamos, nesse sentido, que o Brasil precisa enfrentar o desafio de atualizar os instrumentos de regulação democrática dos meios de comunicação. Nos mantemos mobilizados, nas ruas e redes, para exigir que o governo cumpra o seu compromisso de abrir publicamente esse debate com a sociedade.

Em um momento em que o povo brasileiro e suas instituições democráticas enfrentam uma conjuntura política e econômica adversa, mais do que nunca, levantamos a bandeira: Regula Já! Por mais diversidade e pluralidade de vozes na mídia. 

A direita brasileira derrotada nas eleições presidenciais sai às ruas defendendo a quebra da legalidade democrática. Nesse cenário, a mídia privada manipula a informação, distorce os fatos, fabrica crises, invisibiliza temas e criminaliza movimentos e atores sociais progressistas. O principal porta-voz desse discurso – a Rede Globo de Televisão – completa 50 anos em abril dando provas da sua falta de compromisso com o interesse público e com a democracia.

O Congresso Nacional, o mais conservador desde a ditadura militar, tem mostrado que a agenda da direita (redução de direitos trabalhistas, sociais, ataque aos direitos humanos) dará a tônica da atividade legislativa. O próprio presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, afirmou que qualquer projeto de regulação dos meios de comunicação só será encaminhado para votação por cima do seu cadáver. Nesta mesma linha, o Poder Judiciário continua agindo de forma seletiva e parcial, refratário à agenda da democratização da comunicação, blindado pela caixa preta de sua estrutura institucional inquestionável.

A Presidenta Dilma Rousseff – que só foi eleita porque assumiu o compromisso de adotar políticas que aprofundassem direitos sociais e democráticos, com uma plataforma de reformas estruturais – dá sinais contraditórios de que essa agenda será aplicada.

Neste cenário, é preciso buscar uma ampla unidade dos movimentos sociais para barrar a direita e pressionar o governo, exigindo o cumprimento dos compromissos firmados. Lutas de cunho democrático, como a Reforma Política com o fim do financiamento empresarial das campanhas; a taxação de grandes fortunas; a defesa da Petrobras; o combate às terceirizações; contra a redução da maioridade penal; em defesa dos direitos dos indígenas; do meio ambiente; contra o extermínio da juventude negra; pela reforma agrária e urbana; pelos 10% do PIB para a educação e a defesa do SUS, precisam ser abraçadas pelo conjunto dos movimentos populares, entre eles o da comunicação. Nossa luta é por Mais Democracia e Mais Direitos!

No campo da comunicação, os desafios são ainda maiores, já que nos últimos 12 anos o governo não enfrentou essa pauta de forma estruturante. As importantes conquistas que foram a criação da EBC, a aprovação das leis de Acesso à Informação, regulação da TV por Assinatura (SeAc) e o Marco Civil da Internet, só foram possíveis em função da intensa mobilização social. No restante, o sistema permanece praticamente inalterado, caracterizado por uma forte concentração econômica e ausência de diversidade e pluralidade. O Capítulo V da Constituição Federal de 1988, da Comunicação Social, segue sem a regulamentação que garanta a sua aplicação. E a principal legislação da radiodifusão, o Código Brasileiro de Telecomunicações, já tem mais de 50 anos.

O novo ingrediente desse cenário é que a Presidenta Dilma Rousseff e o ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, têm dado declarações públicas de que a pauta da regulação dos meios de comunicação será tratada neste mandato. É imperativo cobrar que esse discurso seja transformado em prática. De outro lado, o setor empresarial segue na sua cruzada para impedir que esse debate aconteça. Continua usando a mesma e velha tática de distorcer essa discussão, tachando qualquer tipo de regulação como censura.

Por isso, é indispensável ampliar a mobilização e pressão da sociedade para destravar esta agenda. Desde a 1ª Conferência Nacional de Comunicação, temos ampliado a base social e consolidado propostas para um novo marco regulatório das comunicações. A principal delas é o Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Mídia Democrática, que em 33 artigos delineia um novo cenário para a comunicação no país. Inspirada nos tratados internacionais já ratificados pelo Brasil e em experiências regulatórias de países como França, Inglaterra, Estados Unidos, Portugal, Espanha e outros, a Lei da Mídia Democrática propõe mecanismos de implementação dos dispositivos constitucionais. Durante o 2º ENDC, reafirmamos essas propostas e a importância da estratégia de luta em torno da Lei da Mídia Democrática com a presença de convidados internacionais vindos do Canadá, Argentina e Uruguai.

O trabalho de coleta de assinaturas para a Lei da Mídia Democrática e a divulgação de seu conteúdo para setores mais amplos da sociedade devem ser intensificados. Mas, além disso, precisamos avançar também em outras frentes, como o fortalecimento do sistema público de comunicação; o fim da criminalização das rádios comunitárias e da mídia popular e alternativa (do campo e da cidade), com a criação de mecanismos para incentivar e fomentar a sua valorização; a universalização da Banda Larga; a garantia do respeito ao Marco Civil da Internet; a implantação dos Canais da Cidadania; a criação dos Conselhos de Comunicação nas três esferas da Federação; a defesa da Classificação Indicativa; o respeito aos direitos humanos nos meios de comunicação; a defesa do direito de resposta; o fim das concessões para os políticos; o combate ao arrendamento e transferência ilegal das outorgas; a democratização da distribuição das verbas publicitárias; mecanismos de incentivo à produção regional e independente (retomada da campanha Quero Me Ver na TV); o fortalecimento de políticas para a promoção da diversidade cultural e informativa (pontos de cultura e pontos de mídia livre) e de educação para a mídia; a defesa do software livre. Enfim, um conjunto de medidas urgentes que desde já podem ampliar o Direito à Comunicação e a verdadeira Liberdade de Expressão para todos e todas em nosso país. Todas as vozes, todas as cores, todas as ideias!

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e demais entidades que participaram do 2º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação convocam todos e todas comprometidos com essas bandeiras a se juntarem a nós nessa luta.

Não haverá uma verdadeira democracia em nosso país sem uma comunicação democrática.

Regula Já!

Belo Horizonte, 12 de abril de 2015
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Cidadão pede intervenção militar, para o carro de som num lugar proibido, a polícia avisa que vai guinchar e o amigo reclama: “falta de liberdade”


No DCM
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Presidenta lamenta morte do escritor uruguaio Eduardo Galeano

A presidenta Dilma Rousseff lamentou, nesta segunda-feira (13), a morte do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, considerado um dos maiores ícones da luta por justiça social na América Latina.

No sábado (11), em seu discurso na abertura da 7° Cúpula das Américas, no Panamá, Dilma citou as palavras de Galeano ao defender um continente americano mais justo e inclusivo.

Confira a íntegra da nota:

“Hoje é um dia triste para todos nós, latino-americanos. Morreu Eduardo Galeano, um dos mais importantes escritores do nosso continente. É uma grande perda para todos que lutamos por uma América Latina mais inclusiva, justa e solidária com os nossos povos. Aos uruguaios, aos amigos e à nossa imensa família latino-americana, quero prestar minhas homenagens e lembrar que continuamos caminhando com os olhos no horizonte, na nossa utopia”.

Dilma Rousseff
Presidenta da República
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#DevolveGilmar na Bahia — Gilmar escrachado - assista


A mais de um ano o ministro do STF Gilmar Mendes tem segurado a ADIn que considera inconstitucional o financiamento privado de campanha. Fizemos um ato pedindo ao ministro que devolva o processo.

Manifesto DEVOLVE, GILMAR!

Acontece​u​ hoje, 13 de abril, pela manhã, na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, uma ação de escracho contra o ministro do Superior Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, pedindo que o ministro “devolva” o processo de julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4650, apresentada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que proíbe o financiamento empresarial de campanhas eleitorais e partidos políticos. O ministro esteve na Faculdade de Direito para participar de uma banca de doutoramento.

Gilmar pediu vistas da (ADI) 4650 no dia 2 de abril de 2014, e passado 01 ano desde então, o processo ainda está travado em suas mãos. Na prática, a (ADI) contribui enormemente à democracia e ao combate à corrupção, pois proibindo que empresas financiem a política esta iniciativa retira o principal ponto de contato entre corruptos e corruptores. Além disso, retira a influência do poder econômico das eleições, favorecendo a igualdade de condições das candidaturas e evitando distorções de representatividade de segmentos sociais.

Existem hoje no Congresso diversas propostas de Reforma Política. O ponto que trata do financiamento privado de campanha eleitoral é um dos mais citados, já que é um dos principais mecanismos de controle econômico sobre o sistema político.

No STF, a ADI já havia obtido 06 (seis) votos favoráveis e apenas 01 (um) contrário quando Gilmar Mendes pediu vistas, na tentativa de engavetar a proposta. Trata-se de uma ação articulada com os setores conservadores do Congresso Nacional, liderados pelo deputado Eduardo Cunha. Impedem a votação da ADI até conseguirem aprovar o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) 352/13 e, assim, constitucionalizar o financiamento empresarial.

É certo que não se pode seguir avançando rumo às transformações sociais e às reformas de base sem modificar as regras do jogo. Essa é a composição mais conservadora do Congresso desde a ditadura militar. E temos visto, na prática, o quanto podemos não só deixar de avançar, mas retroceder com essa composição, e sabemos o peso que o poder econômico tem sobre as eleições e as decisões tomadas em nosso país.

Não há como avançar sem um sistema político livre da influência do poder econômico, dos corruptores e dos corruptos, devemos juntar esforços em torno das campanhas que estão sendo construídas, como a campanha da Coalizão por um projeto de lei de iniciativa popular e da Constituinte Exclusiva e Soberana do sistema político.

Por isso pedimos: Devolve, Gilmar!

ASSINAM ESTE MANIFESTO:

LEVANTE POPULAR DA JUVENTUDE
COMITÊ ESTADUAL DO PLEBISCITO CONSTITUINTE – BAHIA
UJS
COLETIVO PARATODOS
COLETIVO QUILOMBO
COLETIVO KIZOMBA
FORA DA ORDEM
O ESTOPIM
JUVENTUDE REVOLUÇÃO
MARCHA MUNDIAL DAS MULHERES
DCE UFBA
UNE
UEB
ABES
UBES
JPT

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O que os coxinhas de 12 de Abril acham sobre terceirização


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"Na proposta de regulação dos meios de comunicação não há censura"

Renata Mielli
Foto: Lidyane Ponciano
Moradia, educação, saúde são direitos humanos, todo mundo sabe. Mas a comunicação? Renata Mielli, que é jornalista e secretária geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), explica que é um direito fundamental, que passa pela possibilidade de produzir, transmitir e receber informação e cultura dos mais variados jeitos. Este é um dos temas do 2º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação, que acontece de 10 a 12 de abril, em Belo Horizonte. Nesta entrevista, Renata fala também do Projeto de Lei da mídia democrática e da diferença entre regulação e censura.

Vai acontecer o 2º Encontro pelo Direito à Comunicação em Belo Horizonte. Por que falar em 'direito à comunicação'? o que isso quer dizer?

Renata Mielli — Apesar de ser vista na sociedade como a prestação de um serviço de informação, entretenimento e lazer, na verdade a comunicação é um direito cada vez mais importante e fundamental. Em uma sociedade midiatizada, garantir a todos os grupos sociais a possibilidade de produzir, transmitir e receber informação e cultura nas mais variadas plataformas é condição essencial para a construção da própria democracia. Não há democracia possível sem liberdade de expressão. O direito à comunicação também é indispensável para a concretização de outros direitos. Através da informação que circula nos meios de comunicação é possível levar às pessoas conhecimento e noção de outros direitos como educação, saúde, moradia, etc. Ou seja, cada vez mais é preciso que as pessoas vejam a comunicação como um direito e se engajem na luta para que ele seja efetivado. Por isso, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e tantas outras entidades têm trabalhado a necessidade de se constituir uma agenda de luta ampla para que o Brasil avance nesta pauta.

Há um projeto de lei de iniciativa popular pela democratização da mídia. Em linhas gerais, o que pode mudar com a aprovação desse projeto?

O Projeto de Lei de Iniciativa Popular (PLIP) nasceu da necessidade de materializar em propostas concretas a bandeira de luta por um novo marco legal para a comunicação no país. Após a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) no final de 2009, o governo federal se comprometeu a apresentar à sociedade um debate público sobre o tema, seja a partir de uma consulta pública ou de um anteprojeto de lei. No final do governo Lula, tínhamos a notícia de que este trabalho tinha sido sistematizado e que caberia, então, ao governo Dilma encaminhar o debate. Ocorre que a discussão não veio e o movimento social então assumiu a tarefa de elaborar — a partir das resoluções da Confecom e, depois, da síntese que aglutinou as principais resoluções em torno dos 20 pontos para uma comunicação democrática — uma proposta no formato de projeto de lei. O PLIP tem como foco propostas para regulamentar os artigos da Constituição Federal que tratam da Comunicação Social Eletrônica, principalmente televisão e rádio, que são objeto de concessão pública. Ele propõe parâmetros mais transparentes e democráticos para a discussão das outorgas e renovação das outorgas de rádio e televisão, define regras para impedir a formação de monopólio na comunicação, proíbe a propriedade cruzada, define como deve ser a distribuição dos canais de rádio e televisão entre emissoras públicas, privadas e estatal, define regras para a veiculação da produção regional e independente... Enfim, são 33 artigos que dispõem sobre a garantia de diversidade e pluralidade, respeito aos direitos humanos e mecanismos para a sociedade pode participar da discussão e encaminhamento das políticas públicas de comunicação. Para que o PLIP seja encaminhado ao Congresso Nacional precisamos recolher 1,4 milhões de assinaturas. Não é uma tarefa fácil, quanto mais de forma descentralizada em todo o país. Não temos ainda uma estimativa de quantas assinaturas já foram recolhidas.

Sempre que se discute regulação dos meios de comunicação a mídia diz que isso é uma tentativa de censura. Mas qual a diferença entre as duas coisas?

Esse é um artifício que os grandes meios de comunicação utilizam para impedir que exista regulação da atividade de comunicação. Isso não é usado apenas aqui no Brasil, em outros países do mundo os conglomerados midiáticos também usam esse argumento. A ausência de regras é a principal fonte do poder político e econômico dos grandes impérios da mídia. É por não haver parâmetros que determinem os limites da atuação destas empresas que eles atuam sob o lema de que os fins justificam os meios. Ignoram princípios éticos e constitucionais. Incitam o ódio, manipulam a opinião pública, vocalizam valores conservadores e atuam politicamente em defesa dos interesses da elite econômica da qual fazem parte e são porta-vozes. Também é preciso deixar claro que o sujeito do direito à comunicação não é a empresa jornalística ou de comunicação, é o cidadão. Ao argumentarem que o estabelecimento de regras para o setor é censura estão, na verdade, tentando preservar o direito privado à censura que eles praticam cotidianamente ao manipular as notícias que publicam. A mídia torna invisível os agentes dinâmicos da sociedade, os movimentos sociais, os movimentos culturais que estão fora dos centros econômicos do país. Na proposta de regulação dos meios de comunicação não há, em nenhuma linha, qualquer item que possa ser apontado como censura.

Por que há tão poucas opções de informação além dos grandes instrumentos?

Porque a atividade de comunicação é cara e tem muitas barreiras de entrada para outros setores, inclusive econômicos, atuarem. No caso do rádio e da televisão há o problema da falta de transparência e critérios republicanos para o debate de que grupos devem ou não ocupar este espaço privilegiado de comunicação com a sociedade. Porque no Brasil a exploração comercial da comunicação impediu o surgimento de veículos públicos, na contramão do que ocorreu em países de tradição democrática mais consolidadas. O fator novo neste cenário foi o surgimento da internet e com ela a possibilidade de se constituir meios alternativos, sites de organizações do movimento social, blogs, sites de notícias independentes. A internet permitiu a proliferação de novas narrativas contra-hegemônicas, um campo fértil que abriu espaço para que as vozes que estavam caladas e invisibilizadas pela grande mídia tivessem um canal de expressão.

O que é a comunicação pública e como ela poderia ser fortalecida?

Penso que a comunicação pública é um instrumento indispensável para promover mais diversidade e pluralidade. Concebendo público como aquele que tem grande incidência e participação das organizações culturais, políticas e sociais, interagindo para construir uma comunicação que se paute por valores e parâmetros totalmente diferentes daqueles que orientam a comunicação comercial. A sociedade precisa estar empenhada para exigir que o Brasil tenha um campo público de comunicação que possa ser de fato uma alternativa para a comunicação comercial hoje hegemônica. São poucas e ainda recentes as experiências que temos neste sentido. Nacionalmente a EBC, que precisa passar por um processo profundo de debate sobre seu objetivo para cumprir efetivamente um papel ativo no sistema de comunicação. Acho que este é um caminho que precisa ser perseguido.

Joana Tavares
No Brasil de Fato
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Ia ser maior, mas não foi: uma visão filosófica sobre os movimentos anti-democráticos

será que todo mundo sabia o objetivo da marcha?
O “vai ser maior” fracassou. E isso só aconteceu por que não somos os mesmos de 1964.

* * *

Na era da comunicação de massa, com o apoio de alguns veículos de mídia, talvez fosse possível enganar uns bobos. Isso tanto em levar as pessoas para a rua quanto em depois manipular o resultado. Na era da internet, parece que não é mais tão fácil.

Eu fico imaginando quantas pessoas, em 1964, não foram na “marcha da família com deus pela liberdade” porque simplesmente achavam que era uma marcha religiosa.

Esse, aliás, o pulo do gato no nome da marcha: 1, não deixar claro o objetivo e 2, incluir religião de alguma maneira.

Então jornais que sabiam que se beneficiariam da subida dos militares poderiam publicar fotos de ângulos mais impressionantes que nada seria questionado. Se dissessem que havia 100 mil, havia 100 mil. Se dissessem que havia 1 milhão, havia 1 milhão.

Hoje, há uma capacidade de questionamento muito mais democrática, no sentido que não é apenas um pequeno grupo rico (porque fazer mídia era caro) que determina as verdades. Há mais verdades, e você pode escolher a sua.

* * *

A impressão que eu tenho é que entre as manifestações do mês passado e a de ontem, há uma diferença apenas: a do mês passado juntou enganadores com enganados; a de hoje, juntou apenas os enganadores.

É como se tivessem estado juntos ilusionistas e público numa grande festa, mas grande parte desse público descobriu o truque. Ficam ilusionistas fazendo suas mágicas para uns poucos que ainda caem. Mas são tão poucos que começou a parecer carnaval – tem mais artista que espectador.

Os enganados passam a notar algo de errado no papo. Notam a demagogia. Como pode alguém reclamar da corrupção e roubar a padaria na volta? É alguém verdadeiramente interessado na ética proposta ou é alguém se utilizando da ética como subterfúgio?

É claro que você pode sempre enganar outras pessoas. Pode enganar as mesmas de novo também. Mas me parece, apenas me parece, que as dificuldades vão aumentar para os ilusionistas. Mesmo assim, é sempre bom ficar atento a eles. Sempre pinta um novo truque.

* * *

Com todas as reservas que se pode ter com o MPL, eles têm uma agenda clara e honesta. Você pode discordar do ideal passe livre, por exemplo. Eu discordo, ao menos no momento. Não é hora, quando não se tem educação ou saúde universais, de cuidar de passe livre no transporte público. Mas eu sei que não são pessoas que tentam derrubar os empresários de ônibus só para poder pegar as rotas para si e ganhar uma grana.

Eles verdadeiramente acreditam no modelo e por isso, bem ou mal, não apenas são um sucesso, mas são muito importantes.

Não é o caso dos que pedem impeachment. Estes são os mimados que não suportam ouvir “não”.

Não há interesse em derrubar o rei para tentar um novo regime. O que eles querem é colocar um novo rei. Um que seja amigo. Um que vá deixa-los brincar com seus ouros.

Emir Ruivo
No DCM
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Os pais e os filhos

http://www.maurosantayana.com/2015/04/os-pais-e-os-filhos_12.html


Para um pai, não existe momento mais importante, mágico e profundo, que o nascimento de um filho, e é natural que assim seja, já que o filho é, para o pai, a única forma de permanência no mundo, e a esperança tênue de que a memória de sua existência seja transportada, por seus filhos e os descendentes deles, para o futuro.

É, assim, compreensível, que choque à maioria das pessoas, e pareça uma brutal agressão à ordem natural das coisas, que filhos morram antes de seus pais, principalmente quando essa morte ocorre de forma abrupta e inesperada, em um átimo de segundo.

Na semana passada, dois meninos — para seus pais eles serão sempre meninos — morreram no Brasil, entre muitos outros.

Um chamava-se Thomaz, era piloto de helicóptero e filho do Governador de São Paulo, e tinha 31 anos. O outro, Eduardo de Jesus, sonhava em ser bombeiro e tinha dez anos. Era filho de um casal de migrantes nordestinos que viviam no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro.

Thomaz caiu quando acompanhava um vôo de teste de manutenção, com mais quatro pessoas. Eduardo morreu com um tiro, em frente de sua casa, em uma suposta situação de confronto — desmentida pelas testemunhas presentes — entre policiais e traficantes.

A dor do Governador de São Paulo e de José Maria de Souza Ferreira, o pai do menino Eduardo, e de suas esposas, é incomensurável. E a súbita igualdade de seu sofrimento deveria servir de reflexão para aqueles que acham que só eles trabalham e pagam imposto, que desqualificam os nordestinos, e acreditam que nas comunidades da periferia só moram marginais, que toda criança que leva uma bala “perdida” ou com “endereço certo”, é “menor do tráfico” ou que quem reside em favela está arriscado a morrer, de uma hora para outra, porque “tolera a presença da marginalidade”, ou não se “esforçou” o suficiente para morar em outro lugar.

Piloto de helicóptero, Thomaz Alckmin sabia que trabalhava em uma profissão perigosa, e infelizmente, houve problemas com a máquina em que estava, mesmo depois do trabalho de manutenção executado pelos mecânicos e peloo piloto que estavam no vôo, que com certeza também eram pais como ele, e filhos de outros pais que também estão sofrendo agora.

Eduardo de Jesus Ferreira teve a má sorte de nascer em um país no qual tabaco e álcool podem ser consumidos à vontade, e se continua acreditando que a proibição e a repressão vão impedir alguém de se drogar ou de comercializar outras substâncias tóxicas consideradas “ilícitas”.

Um país no qual o número de prisões e de mortes como a sua continua aumentando, junto com o consumo de crack, maconha, cocaína e anfetamina, enquanto a ONU contesta esse tipo de combate.

No dia em que Eduardo morreu, faleceram mais pessoas assassinadas no Brasil, quarto maior país do mundo em número relativos e primeiro em absolutos, do que em todo o ano de 2014 no Uruguai, nação em que o governo assumiu a produção e a comercialização da maconha.

Aqui, são 65.000 mortes por ano, quase 35 por 100.000 habitantes, por lá, foram menos de 300 pessoas no ano passado, cerca de 7 por 100.000 uruguaios.
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Para entender os protestos de domingo


Domingo, 12/4, muitos brasileiros foram às ruas protestar, isso é muito bom! A minha geração lutou para que tivéssemos esse direito. A presidente Dilma foi uma das mulheres que lutaram contra a ditadura, foi presa e torturada para que tivéssemos de volta essa liberdade. O direito de protestar! A mídia diz que o protesto é contra o governo Dilma. No último protesto, pesquisa entre os manifestantes apurou que a maioria protestava contra a corrupção.

A mesma mídia, principalmente a Globo, que hoje transmite ao vivo as manifestações, faz-se importante lembrar que, na época em que era crime protestar, se aliou aos que proibiam as manifestações, e, pior, cresceu à sombra deles. A ditadura militar, que a Globo apoiou, proibia reunião de mais de quatro brasileiros em qualquer esquina, diziam que eram subversivos.

Tem que ser dito que muitos militares foram contra ditadura e, como os civis, foram perseguidos, presos, torturados e mortos. Os números atestam que as maiores vítimas da ditadura militar foram os próprios militares.

Também temos que entender que a corrupção nunca foi investigada em nosso país. Os militares barravam qualquer tentativa com a máxima: “ Sabe com quem está falando?”

E entre os governos eleitos diretamente, anteriores aos do PT, Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, que hoje chama o povo para protestar contra o governo Dilma e a corrupção, sucateou o Ministério Público e a Polícia federal não fazendo concurso público para renovar os quadros. E, segundo a imprensa, no governo de FHC até os telefones e os carros da Policia Federal ficavam parados por falta de repasse de dinheiro do governo federal.

Não podemos afirmar que o governo de FHC era mais ou menos corrupto, o que afirmamos é que nada era investigado, inclusive o PGR na época era conhecido como “Engavetador Geral da República”.

A mídia, que agora de forma inédita transmite ao vivo os protestos ignoram a dos professores de São Paulo em greve há mês de um mês, ou o protesto em memória do menino de 10 anos, morto no Complexo do Alemão pela polícia, mas isso não interessa à mídia!

Toda essa cobertura midiática é uma tentativa de barrar a regulamentação do setor e também esconder da sociedade que a Globo, Band, Folha de São Paulo e a editora Abril, esta responsável pela revista Veja, são sonegadores, já que abriram conta no banco HSBC na Suíça para burlar a Receita Federal brasileira, como fazem os narcotraficantes e os maiores bandidos do mundo.

A Globo não quer o fim da corrupção, ela quer a saída do governo Dilma para continuar sem regulação e sonegando. E sonegação é crime!

Diante de uma mídia sonegadora, de um Congresso reacionário, dirigido por Eduardo Cunha e Renan Calheiros, que representam a vanguarda do atraso, e de uma Justiça, cujos juízes se consideram deuses, só nos resta o povo na rua.

Vem para a rua, vem!

Rio de Janeiro, 12 de abril de 2015

OBS.: Artigo enviado para possível publicação para o Globo, JB, o Dia, Folha, Estadão, Veja, Época, entre outros órgãos de comunicação.

Emanuel Cancella é coordenador do Sindicato dos Petroleiros do Estado do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ) e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP).
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Mídia, manifestações e números

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=7089

 

Em 15 de março, o DataFolha contou 210 mil pessoas na Avenida Paulista. Os manifestantes e a Polícia Militar acharam um milhão. Um pequeno desvio padrão certamente devido à metodologia (tucana) empregada pelos interessados.

No país, a conta de 15 de março ficou, para os otimistas, em dois milhões de manifestantes.

Ontem, comparando os protestos, a Rede Globo subiu os números de 15 de março para três milhões.

Assim. De repente.

A guerra dos números continuou. O DataFolha estimou em 100 os manifestantes na Paulista neste 12 de abril. Os manifestantes novamente tiveram um olhar inflacionado: viram 800 mil.

Por que o DataFolha mentiria?

A Folha de S. Paulo promoveu o evento com uma pesquisa de capa expressa para o dia das manifestações sobre o número de brasileiros a favor do impeachment da presidente Dilma. Uma manchete de encomenda.

Os jornais garantem que as manifestações foram contra a corrupção.

Cartazes, faixas e palavras de ordem mostraram que as manifestações foram ideológicas.

Contra o PT, o comunismo, o esquerdismo e a venezuelização do país.

Pediu-se abertamente a volta do regime militar. Não foram poucos.

Pediu-se até o fim do sufrágio universal.

A democracia é  bela por isso. Pode-se até pedir a sua extinção.
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Globo derrete: Domingo Espetacular bate Fantástico

Programação paneleira afunda audiência da Globo no domingo: Record e SBT ultrapassam.


Bem feito!

Quem mandou fazer engajamento político na programação da TV Globo na marcha pró-ditadura dos paneleiros, no domingo.

A audiência da emissora afundou, caindo para segundo lugar em alguns programas e em vários horários. E isso medido pelo Ibope.

Não adiantou nada deixar de transmitir o futebol para São Paulo no horário do protesto, achando que iria bombar, porque as passeatas também foram um fracasso de público em todas as cidades, esvaziadas em relação à anterior do último dia 15.

O programa "Esquenta" da TV Globo perdeu para a Record e ainda ficou brigando com o SBT para não cair para o terceiro lugar.

Aliás mudar o horário do futebol foi outro fracasso. O "Esporte Espetacular" da Globo amargou segundo lugar, perdendo para o SBT.

O programa "Domingo Legal" do SBT empatou com a Globo.

Faustão também passou um sufoco. Não chegou a perder a liderança, mas tanto a Record como o SBT ficaram bem próximo.

No fim da noite de domingo nova derrota da Globo. O Domingo Espetacular ultrapassou o Fantástico às 22h17, depois de manter disputa acirrada o tempo todo com a audiência colada na Globo.

O golpismo sofreu uma dupla derrota. Nas ruas, murchou. No sofá também, murchando a audiência da Globo.

Zé Augusto
No Amigos do Presidente Lula
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Eduardo Galeano — 1940 - 2015

                                                                                                                                                           

* 3 de setembro de 1940, Montevidéu  + 13 de abril de 2015, Montevidéu







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Lições de domingo


Lembrando que ninguém convoca um segundo protesto imaginando que ele será menor do que o primeiro, é difícil negar que as manifestações de ontem foram um fracasso

Em comparação com os protestos de 15 de março, as manifestações de ontem foram menores pelo volume e pela geografia. Em várias cidades, os protestos foram cancelados ou nem foram convocados. Em São Paulo, o mesmo DataFolha que apontou 200 000 pessoas nas ruas, há um mês, calcula que ontem o protesto envolveu 100 000. Em outras cidades, onde cálculos mais precisos foram substituídas por estimativas e puros chutes, as reduções também foram notáveis.

O mesmo ocorreu nas redes sociais, informa a consultoria Bites. Se as manifestações geraram 1,3 milhão de mensagens há um mês, esse número ficou em 259 000, ontem — uma redução de 81%. O uso da palavra impeachment nas mensagens caiu 86% e a palavra corrupção, 85%.

Uma queda dessa dimensão no prazo de apenas um mês, quando nenhum milagre visível se materializou na conjuntura, possui vários significados.

O primeiro é ensinar que a oposição não foi capaz de transformar o impeachment numa causa realmente popular. Se a massa que foi a rua em março expressava o descontentamento dos adversários do governo, as mesmas pessoas foram a rua em abril — mas a metade nem saiu de casa. Se março deu a muitos analistas a impressão até de que a sobrevivência governo poderia ser colocada em questão, o 12 de abril retratou um protesto outra natureza, ainda que isso não deva inspirar festejos exagerados por parte deste governo.

Afinal, só em São Paulo foram 100 000 pessoas na rua. Mesmo que se possa duvidar da estimativa de que 25 000 pessoas foram à Esplanada, em Brasília, e também em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, seria bobagem negar que em diversos lugares ocorreram manifestações significativas.

Mas a verdade é que ninguém convoca um segundo protesto imaginando que ele será menor do que o primeiro — e isso permite dizer que o 12 de abril foi um fracasso.

Essa queda na participação aconteceu apesar do engajamento dos grandes meios de comunicação. Mais uma vez, eles tentaram dar às manifestações um caráter dramático e decisivo, um evento ao qual o cidadão comum deveria comparecer por razões cívicas — e não políticas. O apelo a presença de crianças se explica por isso — mas nem de longe surtiu o efeito esperado. Não custa lembrar que nas semanas anteriores os meios de comunicação fizeram várias reportagens em estilo glamouroso com os organizadores dos protestos. Omitindo cuidadosamente o caráter anti-democrático e fascista de boa parte de seus movimentos, eles eram tratados como jovens celebridades de um novo tempo. No próprio domingo, a cobertura mostrava cenas de cada cidade, logo cedo, num esforço de cobertura típico de eleição presidencial, Copa do Mundo e eventos desse tipo. Era para deixar o cidadão sentindo-se culpado se decidisse não comparecer. O resultado ficou a vista de todos.

Isso aconteceu, em minha opinião, porque o ocorreu uma mudança no debate político das últimas semanas.

Para começar, foi possível sustentar, a partir das redes sociais, o caráter golpista de boa parte das manifestações contra o governo. Isso provocou uma justa retração por parte do eleitorado de espírito democrático, que não apoia Dilma por nenhum motivo — mas não aceita mudar o governo fora das regras estabelecidas pela Constituição. O receio de serem abandonados por esses eleitores levou lideranças que antes disputavam o primeiro lugar dos protestos a tomar distância — algumas nem apareceram nas manifestações de ontem.

Há um desgaste de outra natureza, também. A presença de estrelas do PSDB na lista de investigados da Lava Jato, mesmo divulgada de forma seletiva e parcimoniosa, teve seus efeitos junto a seu eleitorado.

Tratado como uma espécie de herói anti-petista pela conquista da presidência da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha passou as últimas semanas pagando a conta eleitoral da agenda conservadora que impôs ao Congresso. A redução da maioridade penal é rejeitada por grandes parcelas da população, em particular aqueles que podem transformar-se em suas vítimas preferenciais — jovens pobres e negros. Eduardo Cunha, o PMDB e o PSDB fizeram questão de voltar, 72 horas antes do dia do protesto, o projeto de lei 4330, que revoga a CLT, principal conquista histórica dos trabalhadores brasileiros.

Se havia interesse em engrossar as manifestações para encurralar o governo, não poderia haver uma ideia pior, vamos combinar.

Outro aspecto envolve a economia. O ajuste continua sendo motivo de descontentamento do eleitorado que arregaçou as mangas para garantir a vitória de Dilma no segundo turno. Mas as medidas de Joaquim Levy começam a obter a aprovação real de uma parte dos adversários do governo, o que talvez não transforme os inimigos em aliados, mas contribui para diminuir o ambiente de histeria.

Paulo Moreira Leite
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Cadeia da ilegalidade

Adoro rádio. No meu apartamento, alugado, tenho cinco aparelhos ou mais. Sempre ligados em notícias, alternados por momentos musicais. Mídia impressa, televisão, internet ""presto atenção a tudo, mas nunca deixo de apreciar a rapidez com que o rádio nos informa.

Neste domingo levei um susto, ou um choque de realidade. Uma das emissoras que eu sempre sintonizo dedicou sua programação inteira à cobertura de atos contra o governo. Nem o futebol transmitiram.

Lembrei do poder do rádio com a Cadeia da Legalidade. Em 1961, quando os militares ensaiavam um golpe contra o vice João Goulart diante da renúncia de Jânio Quadros, o governador gaúcho Leonel Brizola foi à luta. Assumiu os transmissores da rádio Guaíba e passou a disparar apelos pelo respeito à regra do jogo. Ou seja, que Jango assumisse conforme mandava a Constituição da época. Uma bandeira justa do ponto de vista da democracia. Foi bem sucedido, por três anos. Até 1964.

Agora vemos o inverso. A mídia mainstream aderiu com tudo às passeatas que pedem impeachment da presidente, fim da corrupção, afastamento do ministro Toffoli (!!!) e, por que não, intervenção militar. Faltou protestar contra a epidemia de dengue, racionamento, escalada da violência, falta de material escolar... vai ver que não cabia nas faixas.

Não interessa se neste 12 de abril houve mais ou menos pessoas do que em manifestações anteriores. Quem teve a chance de conhecer países em que a democracia existe há tempos sabe que atos como estes são corriqueiros. Você chega a Paris e é surpreendido por uma greve de metrô ou protestos contra o desemprego. Em Barcelona, manifestações quase diárias pedem a independência do povo basco. Nos Estados Unidos, atos contra ou a favor de alguma causa acontecem diariamente. Nada disso impressiona. O que impressiona é a cobertura digna de Copa do Mundo destinada a tais manifestações ocorridas no Brasil. Jornalistas de verdade gostam de notícias. Mas o que poderia ser mais tedioso e revelador do que ouvir o dia inteiro a mesma narrativa (palavra da moda) sobre atos esvaziados ou inflados artificialmente?

O Brasil já viveu campanhas épicas. Entre outras, a mobilização pela Anistia, o movimento pelas Diretas, o impeachment de Collor, as manifestações de 2013. Todas tinham um objetivo definido, a partir de fatos comprovados. E agora? Querem o impeachment? Então assumam. Faz parte. Só não esqueçam de providenciar os motivos e de que os responsáveis maiores por este tipo de decisão na Câmara e Senado encabeçam a lista de acusados na Lava Jato.

Frases que ficam

"Você não pode olhar do ponto de vista moral. Os grupos econômicos se articulam. [...] Você não perguntou, mas posso dizer aqui para a mídia: cartel virou sinônimo de delito, mas não é nada mais, nada menos que monopólio. São empresas que combinam preço, não que tomam preço. Esse é um fenômeno super comum no mundo inteiro. [...] Quando jornais do interior combinam de aumentar e diminuir preço do jornal, há cartel aí [...] Isso não significa que cartel é delito. De repente, em estação de Metrô, em obra pública, diz que se formou cartel e parece que é 'opa, tem cartel aí', mas é o mesmo que se dizer que se formou um monopólio, oligopólio."

(José Serra, PSDB, em 25.ago.2014, quando candidato ao Senado, durante evento para empresários do setor de comunicações. À disposição na internet.)

Ricardo Melo
No fAlha
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Sérgio Porto # 194


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