2 de abr de 2015

“O dedo tucano é visível na TV Cultura”: o ex-ombudsman da emissora fala ao DCM

Ernesto Rodrigues
O jornalista Ernesto Rodrigues foi chamado à TV Cultura em 2008 para exercer uma função inédita na televisão brasileira: a de ombudsman. Era pago para assistir à programação e usar seu melhor julgamento para criticar o que via.

Mineiro, Rodrigues foi editor do Jornal Nacional e do Jornal da Globo, diretor de programas do Globo Repórter, chefe do escritório da TV Globo em Londres e chefe de redação da Globo em São Paulo.

Nos dois anos em que escreveu sua coluna, Rodrigues considera que seus textos, cuja função era contribuir para um debate que melhorasse a programação, foram condenados a uma “virtual clandestinidade”.

Para o autor, a desatenção ao seu trabalho foi a extensão de uma mistura de “soberba elitista com burocracia em boa parte dos funcionários, cuja maioria não tomava conhecimento da existência do ombudsman e nem se achava no dever de responder às críticas e análises do ombudsman sobre os programas que fazia.”

Em 2010, fim de seu mandato, Rodrigues recusou o convite de João Sayad, então presidente da fundação Padre Anchieta, a continuar no cargo.

Chegamos a 2015, ano em Rodrigues publica um livro cujo teor provocativo começa no título: “O Traço da Cultura – O Desafio de ser Ombudsman da TV Cultura, a emissora mais festejada e menos assistida do Brasil” (Editora Reflexão, 336 pág.).

“Traço” se refere a programas de TV que não registram mais que meio ponto de audiência no Ibope. Como sabemos, um ponto equivale a 65 mil domicílios em São Paulo. Em suas palavras, “audiência” é um palavrão dentro dos muros da Cultura.  O livro de Rodrigues, um recorte no passado recente da emissora de TV bancada pelos contribuintes do estado de São Paulo, é uma análise explosiva da caixa-preta de um avião que nunca levanta voo mas que, ainda assim, consegue produzir uma tragédia a cada vez que decide o que vai ser exibido.

Não há dentro ou fora da TV Cultura alguém que queira se dar ao trabalho de assistir ou julgar a qualidade do que vai ao ar? 

No período em que fui ombudsman, aconteciam episódios escandalosos de desleixo com o que ia ao ar. A política de chamadas, algo absolutamente vital em televisão, era sofrível. A grade era montada de uma forma burocrática e totalmente insensível aos dias, públicos e horários potencialmente mais interessantes. E essa situação tinha um subproduto perverso que é o seguinte: se você não assiste, você não se irrita com a chatice.

E aí fica fácil elogiar e defender uma programação cheia de boas intenções, em termos culturais e educativos, mas quase impossível de se assistir. E aí vem outro subproduto igualmente perverso: ao elogiar, sem assistir, programas culturais chatos, mal-editados, pouco atraentes e conceituados de forma elitista e com baixa audiência, você só dificulta a existência e a busca de uma programação que seja ao mesmo tempo de qualidade e competitiva. Fica o binômio mortal da baixaria versus a chatice. E todo mundo sai perdendo.

Existe um acordo de mediocridade na TV Cultura?

Conheci e troquei emails com pessoas muito sérias, dedicadas e bem-intencionadas. O problema era a estrutura burocratizada, a inexistência de cobrança de resultados de audiência, um biombo em forma de palavrão para muita gente na emissora, a programação que emanava das capitanias hereditárias alojadas no conselho da FPA e as patotas que se dedicavam a fazer programas sem se preocupar com a relevância ou com a vocação televisiva dos conteúdos. Todo mundo, claro, cheio de boas intenções e se apresentando como alternativa à baixaria das tvs comerciais.

Muito se acusa a TV Cultura de ser um “ninho de tucanos” em São Paulo. Natural, uma vez que o partido está no poder há tanto tempo. Você teve a impressão de trabalhar num lugar com inclinações políticas claras?

Percebi alguns poucos momentos em que o dedo do então governador José Serra surgiu na programação. Um deles foi uma fala dele de quase 3 minutos sobre a greve dos policiais civis, num dia em que a própria greve mereceu uma reportagem bem menor. Mas não caracterizaria aquele período como um ambiente editorialmente totalmente subordinado ao tucanato. O dedo tucano é bem mais visível no pouco que eu assisto na TV Cultura atual. A começar pelos convidados do Roda Viva.

Você cunhou, no livro, a expressão “parque de diversões da elite” para se referir à dinâmica de produção e exibição de conteúdo na TV Cultura.

Quando eu usei o termo “parque de diversões da elite”, eu me referi à TV cultura como um brinquedo subsidiado pelo estado no qual a classe artística e cultural de São Paulo, quase toda ela pertencente à elite da cidade, cheia de boas intenções, muito paternalismo e um imenso preconceito contra a própria televisão, faz todo tipo de experimentação, sem a menor preocupação com o fato de que a emissora, por ser pública, deve, por estatuto, servir e conquistar o público que a sustenta, ajudando-o a exercer a cidadania.  E não deixar esse público engordar ainda mais a receita das TVs comerciais, aprofundando ainda mais o fosso entre quem faz e quem deveria assistir os programas da TV Cultura.

O que tem a dizer sobre o Roda Viva exibido atualmente?

O Roda Viva de hoje tem um viés político e editorial muito influenciado pelo clima de guerra política e social no qual a mídia brasileira em geral se deixou envolver de forma na minha opinião equivocada, pobre, imediatista e perigosa. Mas o programa é maior e mais importante do que este momento que a mídia está atravessando. O Roda Viva tem o que pode existir de mais precioso em televisão: vocação, identidade, história e público cativo.

Apenas preocupar-se com a audiência poderia trazer mais qualidade à programação da Cultura? Ou o buraco é mais embaixo?

Recusar a busca de audiência em nome de um intangível e misterioso valor cultural, muitas vezes, é disfarce para a incompetência ou para a preguiça de fazer televisão de qualidade, que dá muito, muito trabalho. E televisão é um veículo  que não existe para pequenos grupos. Ela só faz sentido, econômico, inclusive, para multidões.

As grandes multidões da TV aberta e as pequenas multidões da TV por assinatura. Mas sempre multidões. Televisão pública sem audiência é inutilidade e desperdício para o estado. Primeiro, o cidadão. Depois o artista. Na TV Cultura, no meu mandato de ombudsman, era o contrário.

Marcelo Zorzanelli
No DCM
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RBS muda versão e ‘terceiriza’ responsabilidade por fraude fiscal


Duda: “Por favor, acreditem: eu não sabia de nada”
A RBS, afiliada da Globo nos estados do RS e SC, é a primeira das 12 grandes empresas flagradas pela Polícia Federal subornando conselheiros da Receita a mudar o discurso e dar explicações sobre seu envolvimento na mega fraude fiscal descoberta esta semana – ela devia 672 milhões ao Leão.

Quando estourou a operação Zelotes a empresa publicou em seu site: “A RBS desconhece a investigação e nega qualquer irregularidade em suas relações com a Receita Federal”.

Isto foi dia 28 de março.

Apenas quatro dias depois, na noite de 1º de abril, Duda Sirotsky, neto do fundador e presidente do grupo, deu um upgrade na versão: já não nega a irregularidade, mas joga a responsa para terceiros.

Para conter os danos à imagem do grupo, Duda iniciou um giro de emergência entre as filiais da empresa nos dois estados, dando conferências para os empregados com a nova posição oficial.

Para a turma de Florianópolis, Duda explicou que “a Receita Federal deve estar falando de uma operação que fizemos com a Telefonica”, supostamente em 2011 (como se sabe, a RBS e a empresa de telefonia espanhola foram associadas).

Duda disse aos empregados que o grupo não agiu por mal: “Nós apenas contratamos, inadvertidamente, um dos escritórios de advocacia hoje identificado como sendo de lobistas que subornavam conselheiros do CARF”, o que teria dado margem às acusações contra a RBS.

Os empregados ouviram Duda sem questioná-lo.

Tudo explicado, ele uniu as duas mãos e implorou: “Por favor, acreditem: eu não sabia de nada”.

Do jornalista Renan Antunes de Oliveira, de Santa Catarina
No DCM

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Um macaco teria erguido um império nas condições dadas a Roberto Marinho pela ditadura em troca de apoio político

O Brasil era um oásis no JN na era dos militares
De tanto tratar os brasileiros como idiotas, a Globo parece que passou realmente a acreditar que somos todos imbecis.

É o que sugere um editorial a propósito da liberdade de expressão.

Nele, os Marinhos atacam, furiosamente, a regulação da mídia. E se colocam na posição de campeões do “jornalismo independente, que não vive de verbas oficiais”.

Pausa para gargalhar, e um segundo a mais para lembrar Wellington: quem acredita naquilo acredita em tudo.

Cada tijolo da Globo é, de alguma forma, produto de verbas oficiais — e mais incontáveis mamatas e privilégios que a empresa ganhou na ditadura militar e preservou intactos, numa aberração, nestes anos todos de democracia restabelecida.

Um macaco teria erguido um império nas condições dadas a Roberto Marinho pela ditadura em troca de apoio político.

Financiamentos diversos, publicidade copiosa dia após dia, complacência na cobrança de impostos — em suma, foi um empreendimento que é o oposto do que prega o capitalismo real. Não havia risco. Estava tudo garantido.

Roberto Marinho recebeu muito da ditadura e deu muito a ela. É expressivo o depoimento do general presidente Médici, em 1972: “Sinto-me feliz todas as noites quando assisto TV porque no noticiário da Globo o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz… É como tomar um calmante após um dia de trabalho…” (Este Brasil paradisíaco subitamente renasceria, agora, caso Aécio tivesse vencido.)

As facilidades acabariam vindo de todos os lados.

No Conversa Afiada, Paulo Henrique Amorim lembra, hoje, como foi construído o Projac, o monumental estúdio da Globo.

Como em tudo, dinheiro público — e não as reservas formidáveis da família Marinho.

Num perfil sobre Roberto Marinho, o acadêmico Gabriel Collares Barbosa, da UFRJ, fala com minúcias do Projac.

“Outro fato que merece registro se refere a construção do Projac. Com 1.300.00 m², o Projac, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, é o maior centro de produção da América Latina e foi projetado para abrigar superestúdios, módulos de produção e galpões de acervo.

Ao todo são quatro estúdios, de 1000m² cada, fábrica de cenários, figurinos, cidades cenográficas, centro de pós-produção e administração.

O que não é dito à população é que o Projac foi construído em uma área reservada pelo governo do Rio de Janeiro para a construção de casas populares.

Roberto Marinho humildemente solicitou à prefeitura uma autorização para construir sua “casinha” popular. Com a autorização em mãos, Roberto Marinho indevidamente começou a construção do Projac utilizando recursos levantados em empréstimos com a Caixa Econômica Federal para pagamento em dez anos.

Podemos especular que a quitação do débito foi pago com propaganda da CEF na Rede Globo.”

Uma ação popular exigindo a devolução desse dinheiro foi impetrada na justiça pois a Caixa Econômica é acusada de ter feito uma operação fora da rotina, com juros abaixo do mercado. O valor desse empréstimo atualizado com juros e correção monetária chega hoje a 37 milhões de dólares.”

A maneira como a Globo se serviu de bancos públicos foi imortalizada, em 1983, pelo Pasquim.

O Pasquim noticiou dois empréstimos a juros maternos que a Globo conseguiu com o Banerj, o Banco do Estado do Rio.

O Pasquim mostrou que a Globo ganharia um dinheiro considerável caso simplesmente pegasse o dinheiro dos empréstimos e o aplicasse no próprio Banerj.

Roberto Marinho foi chamado, pelo Pasquim, de “o maior assaltante de bancos do Brasil”.

“Nenhuma outra quadrilha, inclusive movimentos terroristas, lucrou tanto no negócio de assaltos a bancos como a quadrilha da Rede Globo”, escreveu o Pasquim.

O diretor superintendente do Banerj, Miguel Pires Gonçalves, acabaria depois virando superintendente da Globo. (Filho de um general da ditadura, Gonçalves acabaria por ser peça chave na manipulação do debate entre Collor e Lula na Globo, em 1989.)

Pois é esta Globo que, num editorial, desce à infâmia e se proclama símbolo do “jornalismo sem verbas oficiais”.

Talvez a Globo considere que os 500 milhões de reais anuais que vem recebendo há tempos das estatais federais — mesmo com uma brutal queda da audiência — sejam pouca coisa.

Ou, então, o que é mais provável, ache que somos todos estúpidos para cair na lorota cínica de que é uma empresa que ficaria de pé sem as mil-e-uma incursões ao dinheiro público.

Paulo Nogueira
No DCM
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Os novos ídolos da imprensa

Uma das tarefas mais difíceis da observação da imprensa é interpretar a narrativa subjacente ao conjunto de textos e sua organização nas páginas dos jornais. Como os diários procuram abranger o máximo de temas que seus editores consideram importantes para compor a agenda pública, supõe-se que basta entender o contexto de cada caderno especializado para montar o quebra-cabeças proposto a cada dia.

Nesse modelo clássico de observação, bastaria analisar os editoriais para identificar a opinião de cada veículo e ler os artigos para circunscrever a amplitude de interpretações que a imprensa tolera em suas páginas. O resto estaria explícito ou implícito na hierarquia que vai das manchetes até as notas curtas, ou até mesmo nos temas que foram deixados de fora.

O mesmo processo serviria para observar o noticiário da televisão, pois os dois meios se complementam e os principais diários costumam esperar o fim do Jornal Nacional, da TV Globo, para concluir suas edições. No entanto, a homogeneização da mídia tradicional exige que o observador leia todos os jornais de circulação nacional e acompanhe o noticiário de maior audiência para entender a lógica do jornalismo praticado no Brasil.

As grandes empresas de comunicação estabeleceram, nos últimos anos, uma relação de parcerias que eliminou a concorrência entre elas, enquanto o propósito político comum unificou os discursos e as narrativas, fazendo com que os jornais ficassem muito parecidos entre si.

Se já não havia uma diversidade aceitável em cada um deles, agora fica ainda mais patente que os principais meios de comunicação do país atuam como uma só redação, um só corpo editorial orientado por uma visão de mundo dominante e conservadora. Essa característica fica escancarada na forma como os conteúdos de um jornal são complementados e referendados pelos demais, em sequências nas quais uma declaração, um boato ou uma anedota percorre todo o campo midiático, acabando por se afirmar como verdade incontestável.

Seguindo esse roteiro, é possível identificar claramente na narrativa comum e mutuamente referente dos três diários de circulação nacional uma agenda política que tem como eixo central a manutenção de um quadro de crise em torno da presidente Dilma Rousseff, ao mesmo tempo em que se procura minar a reputação do ex-presidente Lula da Silva.

Abominações políticas

Faz sentido: não é conveniente dar guarida aos manifestantes que pedem o impeachment da atual presidente, se Lula continuar com chances de voltar ao Planalto em 2018. Por isso, a imprensa busca dar consistência ao discurso desses atores recentemente inseridos na cena pública após os protestos do dia 15 de março passado. Repórteres, editores e âncoras de programas de entrevistas procuram tornar compreensíveis e palatáveis as ideias politicamente toscas expressas por tais protagonistas, apresentando-os como exemplos da razão nacional.

Essa ação tem sido mais intensa na Folha de S.Paulo e na TV Cultura de São Paulo — e, por extensão desta, na revista Veja —, mas se repete em entrevistas e artigos nos outros jornais, nos quais se procura apresentar um engenheiro, um adolescente de traços orientais e um jovem negro como representantes da “voz das ruas”.

Lidos no original, os discursos dos personagens que a imprensa selecionou para representar esse movimento exemplificam com clareza o que a filósofa Marilena Chauí chamou, há três anos, de “abominações”.



É difícil analisar diretamente as visões de mundo expressadas por esses novos ídolos da mídia, porque, como verdadeiras aberrações do pensamento político, escapam aos paradigmas clássicos. Mas pode-se ler a versão revista e palatável de suas ideias, que a imprensa procura apresentar ao público.

Na edição de quinta-feira (2/4), o Estado de S.Paulo assume, em editorial, a crença de tais personagens, de que há uma orientação “bolivariana” no poder Executivo — o que soa quase como achincalhe à inteligência do leitor mais exigente. Na Folha de S.Paulo, um articulista recomenda que os movimentos que organizam os protestos simplifiquem e unifiquem suas bandeiras, e afirma que eles representam “o que a rua quer”.

Esses personagens não representam as ruas. São a expressão da pobreza intelectual que caracteriza a lumpenburguesia, essa extração das classes médias urbanas composta pelos abastados abestados, analfabetos políticos que desprezam a democracia e repudiam a mobilidade social, da qual são beneficiários.

É com essas excrescências que a imprensa produz diariamente seus quitutes.

Luciano Martins Costa
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Presidenta Dilma anuncia indicação de desembargador para STJ




A presidenta Dilma Rousseff anunciou, nesta quinta-feira (2), a indicação do desembargador Reynaldo Soares da Fonseca, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, para o Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Natural de São Luís do Maranhão, Fonseca é formado em Direito pela Universidade Federal do Maranhão, com pós-graduação em Direito Constitucional e em Direito Penal e Processual Penal. Além disso, é mestre em Direito Público pela PUC-SP.
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O governo respira; quer renascer?

Politizar as escolhas do desenvolvimento significa estender à sociedade a tarefa de ir além do voto, para se engajar na construção do destino votado nas urnas.

A sensação de que o governo Dilma respira sem arfar, pela primeira vez desde a posse, não é miragem, mas tampouco pode ser creditada à percepção de um ambiente econômico mais favorável.

Perto de completar cem dias do novo mandato, o país arde nessa frente em labaredas de incerteza e regressão.

A estagnação do PIB em 2014 nem é o pior sintoma, a se considerar o panorama mundial anêmico e volátil.

O mais grave é a precificação de um plano inclinado diuturnamente anunciado como inevitável e doloroso.

Em jogral uníssono, a emissão conservadora  tange o gado para o matadouro e assegura: não há nada melhor a fazer para salvar a vida do que a eutanásia.

O ministro da economia é uma das vozes mais entusiasmadas do coral das carpideiras.

‘Quanto mais rápido, melhor’, garante à fila hesitante.

Empresas, famílias e investidores se conformam assim à fatalidade materializando o diabo a convite do enxofre.

O salve-se quem puder é um aviso geral do patrocinador, mas contempla interesses específicos.

O ajuste intempestivo das tarifas públicas, por exemplo, joga a inflação para 8% ao ano: legitima a demanda rentista por uma ração adicional dos juros.

O desemprego — a ameaça dele em marcha — acua a reivindicação por aumento real de salário.

A desvalorização cambial em si é positiva para a manufatura, mas associada a um ambiente de retração do investimento privado e público — para o qual é decisiva paralisia criada pela Lava Jato — atrai o capital estrangeiro que não adiciona capacidade produtiva ao país. Apenas vem sugar direitos de remessa sobre o parque já existente.

Tudo isso já está acontecendo.

Sem que a maioria das medidas cogitadas pelo centurião Joaquim Levy tenham entrado em operação.

É assim que o mercado opera uma nação quando falta o contraponto do Estado.

Joaquim Levy monopoliza a voz de um governo que assiste calado ao seu desmonte; a mão pesada dos juros estreita qualquer horizonte de futuro; martelete midiático repica que o pior está por vir.

A força material das expectativas faz o resto.

Quem vai investir um tijolo no Brasil nesse momento?

É essa lógica que inocula o sentimento de desamparo na vida de uma nação.

Daí o aparente paradoxo de um governo que, pela primeira vez desde a posse, respira sem arfar.

Na verdade, não há contradição.

O que há, de fato, é a evidência pedagógica de que o monólogo conservador — na política, como na economia — passou a fazer água mesmo sem que o governo se esforce para isso.

Sob a névoa espessa e deliberada da mídia é preciso um trabalho de costura e pinça, mas os sinais se avolumam.

Depoimentos dos dois principais delatores da Lava Jato — Alberto Yousseff e Paulo Roberto Costa — comprovam que o buraco da corrupção é mais amplo do que sugere o foco da conveniência conservadora.

Gravações só agora liberadas incriminam enfaticamente Aécio Neves e família em comissionamentos mensais de US$ 100 mil em Furnas, de 1997 a 2001; mas também o presidente do PSDB, falecido senador Sergio Guerra, na drenagem de R$ 10 milhões da Petrobrás para abortar a CPI que investigaria a estatal, já em 2009.

Não só.

Nas contas generosas do HSBC da Suíça, o vice-presidente do PSDB, Márcio Fortes, ex-caixa de campanha de Serra e FHC, notificado pela emissão de notas frias nessa função, abriga a bagatela de US$2,4 milhões não declarados à Receita.

Não, não é um ponto fora da curva, como agrada a FHC dizer sobre as maracutaias de Pedro Barusco e do ‘clube dos nove’, na Petrobras, desde 1997.

É maior que isso. É a rotina da supremacia do mercado sobre as instituições e a democracia.

As maiores casas bancárias do país — Safra, Bradesco etc. — ao lado de algumas das mais prestigiadas empresas, como a Gerdau, ícones da eficiência privada, foram flagradas em uma nova operação da PF, a Zelotes.

Estima-se que entre acertos e falcatruas tenham sangrado tributos da ordem de R$ 19 bilhões ao fisco.

O valor equivale a 1/3 do arrocho fiscal em marcha; supera em R$ 1 bilhão a fatia diretamente predestinada aos ombros dos trabalhadores.

Não é pouco.

E o muito não se refere apenas ao numerário subtraído às políticas públicas.

Estamos falando de disputa pela hegemonia política na transição de ciclo de desenvolvimento vivida pelo país — um  ingrediente que o governo Dilma esqueceu em alguma pasta na campanha de outubro de 2014.

O escândalo da Zelotes oferece-lhe a chance de resgatar a iniciativa nessa frente assumindo a bandeira da taxação adequada às grandes fortunas e ao capital financeiro.

Ou seja, contrapondo-se em vez de se render, a esses que fuzilam o déficit público, exigem cortes da ‘gastança social’, demonizam o ‘custo Brasil’, ao mesmo tempo em que sangram a receita em golpes cinematográficos.

O salvacionismo conservador — aquele que vai redimir todos os males do Brasil destruindo o PT, o salário mínimo e a Petrobras — enfrenta assim a sua hora do espelho.

A oportunidade de sacudir o jogo político está dada.

Mas para isso o governo precisa sair da catatonia e redescobrir a política e o seu interlocutor disposto a ouvi-lo: os movimentos sociais, as famílias assalariadas e não apenas os mercados.

O que falta para ir além do monólogo levyano com as tesourarias?

Falta recuperar o elo perdido entre a aguerrida vitória em 26 de outubro em clima de virada progressista, e o anúncio oficial do ministro da Fazenda, um mês depois, em 27 de novembro.

O que aconteceu nesse buraco negro da transição ainda é um mistério, mas o fato é que engessou o governo e condenou a sua base à prostração.

Pior que isso: disseminou a percepção letal em política de que para as prioridades do novo mandato petista o apoio ou não dos movimentos sociais é irrelevante.

Uma liderança política que inspira tal percepção em seu alicerce histórico coloca a sua sobrevivência nas mãos da indulgência adversária.

Não haverá indulgência, como já deu para perceber.

Delineiam-se, assim, dois caminhos na travessia para um novo ciclo de desenvolvimento.

Um, implica a repactuação ampla das linhas de passagem para uma nova matriz de crescimento ordenada pela justiça social.

Não é isenta de algum sacrifício planejado e negociado, alerte-se.

A outra, simplifica a tarefa, terceirizando-a à ‘racionalidade’ dos livres mercados. Como vem sendo feito em uma Europa em carne viva, há seis anos submetida à lixadeira neoliberal.

Com o resultados sabidos.

A escolha conservadora dispensa o penoso trabalho de coordenação política da economia, associado à mediação dos conflitos inerentes às escolhas do desenvolvimento.

No fundo, torna ornamental a bandeira da reforma política na medida em que prescinde da maior participação social. Por razões análogas protela por irrelevante a regulação do sistema de comunicação que deveria ser mais poroso à expressão dos diferentes interesses sociais.

Por algum motivo, no intervalo entre a vitória na urna e a formação do ministério, a Presidenta Dilma e as lideranças do PT optaram por trocar tudo isso a favor da terceirização da travessia a um centurião dos mercados.

O alívio desfrutado nesse momento decorre não dos acertos propiciados por essa escolha, mas dos reveses políticos enfrentados pelos interesses que dela se beneficiam diretamente.

De uma forma ou de outra o Brasil vai passar pelas dores do parto intrínsecas à reordenação do seu desenvolvimento.

É uma repactuação incontornável no horizonte da nação.

A escolha do método condiciona a meta.

A disjuntiva é reordenar a economia em negociação permanente com os grandes contingentes populares que ingressaram no mercado e na cidadania nos últimos doze anos.

Ou contra eles.

Não há terceira escolha.

A depender do método abraçado, conquistas e riquezas promissoras podem florescer ou regredir; tornarem-se um bem socialmente compartilhado, ou o combustível da fogueira da desigualdade e da exclusão.

Não é retórica.

A politização das escolhas do desenvolvimento significa estender à sociedade de fato, a tarefa de ir além do voto, para se engajar na construção efetiva do destino sufragado nas urnas. Ou este não se consumará.

Foi esse princípio que se perdeu nos 30 dias entre a vitória em 26 de outubro e a escolha do método associado a Joaquim Levy em 27 de novembro.

Passados três meses, o governo respira sem arfar. Tem a chance de reavaliar, não a necessidade dos ajustes, ou de parte deles, mas o método. E a coerência com os fins para os quais foi mandatado nas urnas.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Qual o maior escândalo? A indústria da sonegação

http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2015/04/02/qual-e-o-maior-escandalo-a-industria-da-sonegacao/

"Vou lhe contar um pequeno segredo: aqui no Brasil empresas não gostam muito de pagar impostos".

Segredo para quem, cara pálida? O autor desta frase é exatamente quem deveria cuidar para que todos paguem seus impostos, o ministro da Fazenda Joaquim Levy. Em palestra que fez na semana passada, em São Paulo, a ex-alunos da Universidade de Chicago, onde também estudou, ele falou de passagem numa antiga prática, a sonegação fiscal, exercida desde sempre por amplos setores do alto empresariado nacional. Preferem pagar bons advogados e lobistas para pagar menos ou não pagar nada do que devem à Receita Federal.

Como de hábito, Levy depois tentou consertar o que disse, substituindo na transcrição oficial do inglês para o português a palavra "empresas" por "pessoas". Claro que ninguém gosta de pagar impostos, nem aqui, nem em Chicago, nem na China, mas o ministro deu azar de tocar neste assunto proibido justamente no momento em que a Polícia Federal deflagrava a Operação Zelotes, que está investigando 74 empresas suspeitas de causar um rombo de até R$ 19 bilhões aos já combalidos cofres públicos que Levy tenta salvar com seu ajuste fiscal.

Este é, de longe, o maior escândalo de corrupção da nossa história, quiçá do mundo, muito maior do que todos os mensalões e petrolões juntos, que há anos fazem a alegria da mídia udenista nativa, como mostram os números, que agora não tem mais jeito de esconder das manchetes e das capas de revista:

* Até o momento, do total do montante investigado, a Polícia Federal já identificou e comprovou prejuízos ao erário de R$ 6 bilhões causados pelo esquema, que envolve grandes grupos econômicos do porte dos bancos Bradesco, Santander, Boston Negócios, Safra e UBS Pactual, e empresas como Ford, Gerdau, RBS, TIM, BRF, Petrobras, Light, Mitsubishi, Brascan e Marcopolo. Não tem cachorro pequeno nesta história e, até agora, não apareceram nomes de políticos (apenas uma sigla, a do PP, sempre ele, está na lista dos sonegadores investigados).

* Só este valor já corresponde a três vezes mais do que o total desviado no esquema de corrupção na Petrobras descoberto pela Operação Lava Jato e divulgado pelo Ministério Público Federal em janeiro: R$ 2,1 bilhões.

Para se ter uma ideia do que representa esta verdadeira indústria da sonegação, os R$ 19 bilhões e 77 milhões que deixaram de ser recolhidos à Receita Federal, só nos processos investigados até agora, estão próximos dos R$ 18 bilhões que o ministro Joaquim Levy pretende cortar este ano em benefícios trabalhistas e previdenciários, as principais metas do pacote fiscal que está paralisando o país. Ou seja, se o Ministério da Fazenda e a Receita Federal cobrassem dos grandes sonegadores o que devem, o governo nem precisaria fazer ajuste nenhum.

Só agora, com a Operação Zelotes, nós, simples contribuintes, ficamos sabendo da existência de um tal de CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), a sigla que esconde o grande ninho da corrupção numa bilionária parceria público-privada, espécie de segunda instância a que as empresas podem recorrer quando se sentem "prejudicadas" pela fiscalização.

A curiosidade deste tribunal tributário especial é que ele é constituído de forma paritária por servidores do Ministério da Fazenda e representantes das confederações e sindicatos patronais, ou seja, das pessoas jurídicas autuadas pelo Fisco.

A cada dia, aos poucos, novos escândalos vão aparecendo e mostrando como o CARF se tornou um ótimo negócio para as empresas devedoras da Receita Federal. Vamos só pegar alguns exemplos:

* Para não pagar uma dívida relativa a suposta sonegação de impostos da ordem de R$ 793 milhões, o Banco Safra está sendo investigado pelo pagamento de uma propina de R$ 28 milhões negociada com conselheiros do CARF, entre eles um procurador da Fazenda Nacional, Jorge Victor Rodrigues, segundo denúncia do jornal O Globo, com base em gravações de conversas interceptadas pela Polícia Federal, com autorização judicial.

* As investigações da PF no processo da montadora Ford levaram a um ex-presidente do CARF, Edison Pereira Rodrigues, que oferece seus "serviços" em troca de módicos 2% a 3% do valor devido, com garantia de "95% de chances" de reduzir ou anular as multas da Receita Federal. "Caso contrário, perderão com certeza. A bola está com vocês", escreveu Rodrigues em e-mail encaminhado à empresa e apreendido pelos agentes federais, no qual informa já ter trabalhado também para a Mitsubishi, "com sucesso", segundo reportagem da Folha desta quinta-feira.

* A Marcopolo, fabricante de carrocerias de ônibus, é suspeita de pagar R$ 1 milhão de propina para não pagar multa no valor de R$ 200 milhões, segundo denúncia do Estadão, o primeiro jornal a levantar o assunto, que já relacionou vários outros gigantes citados nas investigações (ver acima), como bancos, montadoras, empresas do setor alimentício, de construção e de telecomunicações. Parece que quase nenhum setor escapa. Todas as empresas, é claro, negam irregularidades e garantem só atuar dentro da lei. Segundo o jornal, dez conselheiros e ex-conselheiros do CARF estão sendo investigados por envolvimento no esquema.

É muito bom que os três principais jornalões brasileiros agora disputem esta gincana para jogar mais luz no escândalo das propinas da sonegação, abrindo ao caso o mesmo espaço e dando-lhe o mesmo tratamento concedido aos casos anteriores que abalaram o país. Antes tarde do que nunca. E o governo o que faz? A julgar pelas declarações de Levy e do secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, parece que ainda não está muito preocupado com isso.

Levy: "Não é uma coisa que se deva fazer com espalhafato, mas todas as ações serão e estão sendo tomadas". Quais? "O fortalecimento do Carf é um dos temas que elegi para a minha administração. É muito importante porque diminui a necessidade de se aumentar impostos". Fortalecimento? Como assim? Não seria melhor fechar de uma vez esta arapuca que só tem servido para sangrar os cofres públicos e encaminhar os reclamantes à Justiça comum, como qualquer um de nós?

Rachid: "Há 74 processos administrativos que estão sob suspeita pelas informações de que nós já dispomos (...) Mas não necessariamente os R$ 19 bilhões serão revertidos a favor da Fazenda Nacional". Por que não? O governo não está desesperadamente precisando de dinheiro para acertar as contas públicas? Não é justo aumentar a arrecadação, cobrando de quem pode e deve mais, em vez de cortar benefícios sociais de quem pode menos?

A crise não é só econômica, meus amigos. É política. O governo Dilma-2 precisa decidir de que lado fica.

E vamos que vamos.
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O pensamento coxinha


O orgulho coxinha entrou na moda. Muitos andam por aí, nas ruas e nas redes, autoproclamando-se "coxinhas" sem nenhum pudor. Virou identidade positiva. O coxinha se considera trabalhador, estudioso, um cidadão de bem que cumpre seus deveres. É contra a corrupção e privilégios que firam a meritocracia. 

Mas, já nos ensinou Freud, sempre é bom desconfiar do juízo que as pessoas fazem sobre si próprias. Os coxinhas que têm infestado o debate político atual não são exatamente modelos de retidão e coerência. 

São adeptos do "dois pesos, duas medidas". Sua visão tacanha do mundo, que dificilmente resiste à crítica, com frequência descamba para o ódio e a intolerância. Substituem os argumentos por xingamentos. 

O coxinha se indigna com os R$ 25 bilhões que o Estado paga anualmente ao Bolsa Família, mas acha normal os R$ 978 bilhões pagos por este mesmo Estado ao bolsa banqueiro. 

Ele sai às ruas de branco pedindo redução da maioridade penal quando um cidadão de classe média é assassinado, mas mantém seu silêncio sorridente ao saber que, a cada dia, dois jovens pobres são mortos pela polícia de São Paulo. 

Acha que a corrupção no Brasil começou com o PT e faz vistas grossas ao trensalão, ao escândalo do HSBC ou ao aeroporto do titio. 

O coxinha, ao saber que as riquezas do 1% mais ricos ultrapassarão a dos 99% restantes no mundo em 2016, atribui isso ao trabalho e esforço desse 1%, mesmo estando sem dúvida alguma entre os 99%. 

É contra privilégios desde que não sejam os dele. Queixa-se de que o aeroporto virou rodoviária e de que a classe média já não pode ter empregada doméstica. 

O coxinha se mobiliza contra a corrupção, mas não lhe passa pela cabeça defender o fim do financiamento privado das campanhas eleitorais, fundamento de 11 entre 10 escândalos de corrupção no Brasil. 

Para ele, o mundo se divide entre esforçados e vagabundos. Por isso é contra as cotas e programas sociais. Se os negros ganham 42% em média a menos que os brancos, deve ser porque trabalham menos. Se ainda há pobres é porque se escoram no Bolsa Família e não querem aprender a pescar. 

O pensamento coxinha é primário. Não passa por elaboração crítica e não resiste a cinco minutos de questionamento. Numa típica formação reativa, transforma a insuficiência em insulto. Mostra que entre a inconsistência e a agressão há apenas um passo. 

Alguns dizem que a onda coxinha revela o nascimento de uma nova direita no Brasil. Direita sim, nova nem tanto. São apenas os velhos ranços, preconceitos e indignações seletivas da porção mais conservadora da classe média que encontraram ocasião para sair de algum canto do armário. 

Recomenda-se que guarde os fascismos para si. Quando se é racista, misógino e antipopular abertamente, tendo ainda auditórios para aplaudir, é mau sinal. O orgulho coxinha simboliza o emburrecimento do debate público no Brasil.

Guilherme Boulos
No Esquerda Caviar
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As voltas que o mundo dá

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A imprensa e a democracia: A saga da grande mídia, seus negócios e sua partidarização

Em seu blog, o jornalista Lúcio Flávio Pinto analisa a cobertura feita pelos dois jornais paraenses, na recente visita da presidenta Dilma ao Pará.

Sem imprensa livre a democracia não prospera. A liberdade de que deve gozar a imprensa, como esteio do regime democrático, precisa ser usada para bem informar os cidadãos. Um velho brocardo continua inteiramente válido: a imprensa não pode atropelar os fatos. Os principais, os decisivos, os que são realizados cotidianamente pelas pessoas têm que aparecer na imprensa.

A internet, ao invés de ser o demiurgo, é, na verdade, o arauto de uma nova era para a imprensa. Conectados à rede mundial de computadores, os cidadãos pressionam para que sejam registrados os fatos que veem ou dos quais são participantes. Mas nem sempre (ou raramente) aquele que vê sabe o que viu: desconhece seu significado, seus antecedentes e seus desdobramentos. Nem sabe como aquele fato irá afetar a sua vida.

Essa é a principal missão da imprensa nos nossos dias: contextualizar os acontecimentos. A internet atomiza, dispersa, banaliza. A imprensa emoldura essa algaravia bilionária de informações de todos os dias com os elementos da elucidação, com a iluminação compreensiva. Mas só desempenhará esse papel se estiver preparada para isso.

Se seus jornalistas forem qualificados para entender e fazer entender a cornucópia de acontecimentos diários que circulam quase instantaneamente pelo mundo. É preciso saber ver e ter disposição ou coragem de publicar. Sem o que a credibilidade, se conquistada, acabará por ser desperdiçada.

O processo de descrédito costuma ser lento, sem deixar de ser fatal. A crise de confiança do público pode ser revertida antes de ultrapassar o limite da coisa irreversível. Mas é preciso oferecer elementos para a esperança.

A imprensa do Pará está se empenhando em ultrapassar essa faixa de periculosidade: esconde os fatos, manipula as informações, colide com os acontecimentos, não tem escrúpulo na mentira. Acredita que uma boa aparência ou uma retórica bem posta sejam capazes de ludibriar a atenção e a boa fé das pessoas, atando-as ao seu redor, tornando-as cúmplices de sua tendenciosidade.

A brutal queda na qualidade dos veículos paraenses de comunicação está associada ao paroxismo dos dois principais grupos. Eles não se limitam à concorrência comercial e à disputa editorial: agem como partidos políticos. Em sua inimizade visceral, acham que vale tudo, até o rompimento dos mais comezinhos princípios técnicos do jornalismo ou da ética em geral.

Hoje, por exemplo, na abertura do Repórter 70, que é a sua principal coluna, O Liberal diz ao seu leitor:

“A julgar pelo mirrado noticiário do ‘diário de mentiras’, a visita da presidente Dilma ao Pará não foi, digamos, das melhores. O jornaleco deu ampla divulgação antes, mas depois da visita, quase nada. Nas redes sociais, os assessores do ministro ‘filho de peixe’ não publicaram nem registro, no momento em que crescem em Brasília os rumores sobre corte de ministérios, entre eles o da Pesca. Terá sido mera coincidência?”.

A informação não é exatamente verdadeira. O Diário do Pará deu chamada e foto na primeira página para a visita da presidente a Capanema para a inauguração de casas do programa Minha Casa, Minha Vida. A foto só saiu menor do que a da premiação feita pelo jornal aos vencedores de um concurso sobre o prazer em trabalhar, o que é até compreensível.

A manchete da capa foi sobre o início da greve na Universidade do Estado, marcado para segunda-feira, pelo motivo óbvio de causar desgaste ao governador Simão Jatene, inimigo da “casa” e do PMDB. Internamente o jornal deu três quartos de página para o noticiário sobre Dilma Rousseff.

A foto da presidente na primeira página de O Liberal teve destaque bem maior, mas porque ela aparece ao lado de Jatene, aliado dos Maioranas (que não saiu no Diário, assim como o ministro Helder Barbalho, integrante da comitiva presidencial, foi ignorado por O Liberal). Mas o título da matéria é bem menor. Na página interna a cobertura do jornal dos Maioranas superou a do rival: ocupou todo o espaço.

Não porque agora a presidente tenha entrado nas graças do grupo. É porque os Maioranas estão em campanha para tirar o inimigo do ministério, ecoando as pressões para a redução do tamanho do governo e plantando notícias sobre a inclusão do ministério da pesca nessa lista de marcados para morrer. Sem esse cargo, o filho de Jader Barbalho estará exposto ao sol e à chuva, se enfraquecendo para a próxima eleição.

Ao fim e ao cabo, como gostava de dizer um cronista esportivo, o objetivo dos dois jornais não é o de bem informar e sim de tirar proveito particular da informação que filtram. O leitor que trate de aprender uma arte muito cultivada na época da ditadura, quando a censura era oficial e explícita, e que precisa subsistir em plena democracia, mas de autocensura e censura mais sutil: a leitura nas entrelinhas – para descobrir o que não foi dito e a razão do que foi dito.

Com uma imprensa assim, a democracia continua a ser a planta tenra e frágil de que falava João Mangabeira. Por isso mesmo a necessitar de tratos e cuidados.

No As Falas da Pólis
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Filho de Cristina Kirchner vai processar a revista Veja

O filho da presidente argentina, Máximo Kirchner, afirmou hoje que vai processar a Revista Veja por uma matéria reproduzida em seu site que o acusa de possuir contas no exterior. A denúncia de Veja foi repercutida na manchete da 1ª página do jornal Clarín, na sua edição de terça-feira, o que levou Máximo — líder do movimento jovem La Cámpora, e herdeiro do legado político de Nestor Kirchner — a conceder uma entrevista em uma rádio local.

Máximo nunca havia dado uma entrevista para a grande mídia argentina e sua aparição foi tão inesperada e surpreendente que a entrevista imediatamente começou a ser transmitida simultaneamente em diversos canais de TV e emissoras de rádios do país. Na conversa de mais de 30 minutos com o jornalista Victor Hugo Morales, além de negar a existência de contas no exterior em seu nome, Máximo afirmou que vai processar a revista Veja por calúnia e difamaçao. Segundo Máximo, ele não viaja ao exterior desde 2002.

Assim como a versão de sua fonte (a revista Veja), a matéria do jornal Clarín não apresenta nenhuma prova concreta da existência de contas de Máximo no exterior e a todo momento cita fontes não identificadas. Surpreendente também é a quantidade de verbos no condicional, 13 no total, além da própria manchete.

Até mesmo importantes jornalistas de meios de comunicação considerados opositores ao governo Kirchner, como o La Nación, saíram a criticar a matéria do Clarín. Hugo Alconada Mon, pró-secretário de redação do La Nación e ferrenho crítico da administração kirchnerista, publicou em sua conta de Twitter: “Supostas contas secretas de Máximo Kirchner e Nilda Garré (Ministra da Defesa): manejar com cautela; inconsistências nos documentos bancários que circulam“.



Daniel Oiticica
No Blue Bus
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Abismos

Ninguém está livre de tentações absurdas. De, subitamente, surpreender a si mesmo com um ato inexplicável ou ceder à sedução do abismo. Uma pessoa “normal”, seja isto o que for, resiste às tentações. O ato doido imaginado nunca passa disso, imaginação. Ou então, seu mergulho no abismo é um gesto solitário, sem efeitos colaterais. O moço que jogou aquele avião contra uma montanha na França (até o momento em que escrevo não apareceu nenhuma outra explicação para a tragédia) levou 150 pessoas com ele para seu abismo particular. Ele teria problemas psicológicos, mas nada que o impedisse de comandar um avião, segundo a Lufthansa. Pelo menos para a Lufthansa, ele era uma pessoa “normal”.

Só se pode especular sobre a sua ação. Como não tinha como prever a saída do piloto do seu lugar, ele provavelmente não havia planejado fazer o que fez. De repente, se viu sozinho na cabine de comando, com o avião nas suas mãos. Talvez tenha se autoinebriado com a enormidade do que poderia realizar. Cento e cinquenta pessoas, 150 destinos — nas suas mãos. Não seria uma simples autodestruição, mas um suicídio compartilhado, uma obliteração em massa. Nos poucos minutos que durou a queda induzida do avião, ele deve ter se sentido como um deus, todo-poderoso e sem remorso. Mas sabe-se que sua respiração não se alterou durante a queda. Ele foi “normal” até o fim.

Estamos todos nas mãos de pessoas “normais”, das quais nunca se espera que nos carreguem junto para seus abismos. Pode ser um piloto suicida, ou alguém que, de uma hora para outra, aparece armado e já chega atirando, e depois todos comentam como ele parecia ser um cidadão pacato. Ou pode-se imaginar loucuras mais altas. O presidente dos Estados Unidos, numa crise de depressão, e o seu equivalente na Rússia, depois de esvaziar uma garrafa de vodca, olham o botão vermelho sobre as suas mesas — com o qual podem lançar um ataque nuclear que o outro responderá com a mesma potencia, para destruir o mundo também em poucos minutos — e se perguntam: “Por que não?” E apertam o botão, depois de trancarem a porta para ninguém entrar. Por que não?

Li que concluíram que a ação do copiloto não foi um ato terrorista. Errado. O moço podia não ser um terrorista, mas foi o terror que derrubou o avião. O terror de que qualquer um é capaz, à beira do seu abismo. Mesmo pessoas normais, com ou sem aspas.

Luís Fernando Veríssimo
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Notícia boa para Petrobras tem 36seg no jn


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#OcupaRedeGlobo — O rei está nu, e o sindicalismo morto?

Manifestantes pedem o fim da Rede Globo




O rei está nu, e o sindicalismo morto?


Eis que, de repente, por conta da ação da Polícia Federal, a empresa mais criticada do estado de Santa Catarina, a RBS, está nua diante dos olhos da sociedade, pega num musculoso esquema de corrupção. Como é um meio de comunicação de caráter oligopólico, a RBS tem dominado durante décadas tudo aquilo que o catarinense vê, lê e escuta. E, justamente por esse domínio dos meios, acaba sendo a empresa que define o salário e as condições de trabalho dos jornalistas. Sempre foi leonina, arrochando e superexplorando, demitindo os trabalhadores mais velhos sem dó nem piedade. Por conta disso, ao longo dos anos tem sofrido sistematicamente a crítica dos sindicatos, movimentos populares e políticos, que fazem discursos explosivos sobre o quanto essa empresa esconde e manipula a informação, bem como explora os trabalhadores.

A batalha contra a RBS sempre foi difícil. Afinal, sem uma unidade real no campo popular e sindical fica ainda mais difícil combater uma empresa que se apossou de todos os meios de comunicação mais fortes do Estado, comprando jornais regionais e reduzindo-os a locais. Ainda assim, aqui e ali, sistematicamente pipocaram críticas ao monopólio da informação e a forma como a empresa direciona o tratamento dos trabalhadores no mercado de trabalho. Ela dá a linha, define, impõe.

Pois agora a RBS está desnuda, pega com a boca na botija, praticando o crime da corrupção, coisa que seus porta-vozes condenam com veemência em todas as suas mídias. E, diante dessa nudez, o que fazem os sindicatos, os movimentos populares, os políticos de esquerda? Até agora, concretamente, nada.

Outro dia um colega jornalista divulgou em algumas listas que eu fico por aqui, confortavelmente sentada atrás do computador, fazendo críticas aos sindicatos, mas que não tenho atuação sindical. Tudo o que fiz foi sorrir. Posso estar sentada atrás da máquina (o que é uma meia verdade) mas, pelo menos, uso dessa minha singela aptidão, que é escrever, para denunciar o que penso ser importante para a opinião pública. Afinal, como dizia Orwell, nada pode ser mais poderoso que uma opinião pública bem formada.

Escrevo, essa é a minha contribuição. Penso, analiso e escrevo. Penso que cada setor da sociedade deve cumprir seu destino. Os sindicatos precisam fazer a luta para melhorar a vida dos trabalhadores, os movimentos sociais para melhorar a vida na cidade e assim por diante. Cada um fazendo um pouco, na união, constroem o edifício da mudança. E, nesse processo, a crítica à mídia tem um papel fundamental. Desvelar as entranhas do processo de invenção das notícias, mostrar porquê os trabalhadores aparecem nos jornais como os “baderneiros”, enquanto os empresários que roubam a cidade são saudados como “grandes homens”, essa é a tarefa.

Ontem, no Rio de Janeiro e em São Paulo, movimentos sociais se reuniram em frente a Rede Globo. Muita gente. Protestaram contra o domínio do pensamento único — da classe dominante — que é o pão comido da emissora. Saíram de suas casas e foram gritar em frente ao prédio da platinada. Pode parecer pueril, mas não é. É ação legítima de uma gente que já abriu os olhos e é capaz de sair de sua zona de conforto para derrubar o ídolo de pés de barro. Tanto bate que um dia cai.

No caso de Santa Catarina, a filial da Globo foi pega nas malhas da corrupção, dando calote em dívidas e surrupiando o Estado. Mas, enquanto isso fervilha nas redes sociais, na vida real o lago está parado. Nem os sindicatos, nem os movimentos, nem os políticos, nem mesmo os jornalistas arriscam ações. Uma nota aqui e ali, coisa tímida. O rei está nu e não há nenhum garotinho a gritar. O silêncio e a inação significam o quê? É diante dessa inércia que me ponho a pensar.

De certa forma, tudo isso denota uma verdade inconveniente: o sindicalismo, domesticado pelos anos de aproximação com o poder governamental, perdeu a mão. Parece não saber como atuar diante da vida real que se expressa — hoje com muito mais virulência — nas famigeradas redes sociais. Há um mundo novo se configurando, e há os que insistem entoar a canção da luta com velhas liras. Como bem diz o companheiro Danilo Carneiro, do Tortura Nunca Mais, é preciso estudar. Compreender melhor esse mundo imagético, cibernético, feicibuquiano, e, a partir daí inventar novas canções em novas liras. Inventar, inventar, inventar, diria Simón Rodríguez, gritando para um mundo deserto de imaginação.

Parece que assim estamos. Depois de tanta lamúria contra a dominação midiática da RBS a temos fragilizada e nua sob nossos pés. E o que fazemos? Nada! Não espero notas comportadas divulgadas nos sítios e redes sociais. Espero ação. E, do meu jeito, já estou agindo… Preciso de parceiros!

A comunicação é um campo estratégico na vida política. Quem a domina está em vantagem. Hoje, em Santa Catarina, enquanto os sofridos professores vivem mais uma greve, o oligopólio segue firme inventando verdades, mentindo, escondendo. A classe dominante tem seu Sancho Pança, aparentemente invencível. Mas, como aconteceu com Al Capone, que foi pego por uma coisa à toa, eis que o império comunicacional — Globo e RBS — está sob investigação, com claras evidências de culpa. O rei está nu. Vamos gritar. Jornalistas, sindicalistas, militantes sociais… Já não é mais hora de chorar. É tempo de avançar no rumo da soberania comunicacional. Uma comunicação do povo, para o povo, com o povo.

Ah, essas utopias!… E a louca esperança de que os políticos, o sindicalismo e os movimentos sociais encontrem o caminho da luta renhida. P´alante, dia Chávez, P´alante!!!

Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes
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Outro helicóptero apreendido, de prefeito tucano chegado a Aécio


Nos 92 municípios do Rio de Janeiro, o PSDB só elegeu 2 prefeitos em 2012. Um em Trajano de Morais (11 mil habitantes) e outro em Itaguaí (111 mil hab.). Um deles foi afastado e indiciado por associação criminosa, lavagem de dinheiro e fraude em licitações.

É o ex-prefeito de Itaguaí, Luciano Mota (PSDB), eleito com apoio direto de Aécio Neves.

Foi afastado do cargo ontem (31) por decisão do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, por causa da Operação Gafanhotos da Polícia Federal, que investiga desvios na prefeitura de R$ 30 milhões por mês no SUS e dos royalties do petróleo.

O dinheiro da prefeitura para saúde saída dos cofres públicos mas não chegava no atendimento ao público. Enquanto isso, coincidentemente, o prefeito aecista passou a andar de Ferrari, Land Rover e comprou um helicóptero, causando desconfiança e revolta na população.

A Polícia Federal (PF) apreendeu hoje (1º) os bens do ex-prefeito, incluindo o helicóptero e três carros de luxo.


Baladas

Assim como Aécio, Mota tem fama de baladeiro.


A parte mais extravagante foi 3 garrafas de champanhe Don Pérignon, uma das mais caras do mundo. Cada garrafa custou R$ 2 mil no Miroir Club, na Lagoa, área nobre da noite carioca.

O ex-segurança de Mota, Alexandre Marques da Silva, 47 anos, deu visibilidade aos bastidores do poder itaguaiense com vídeos que gravou graças ao fato de poder testemunhar, de modo privilegiado, fatos e conversas sigilosas.

O escândalo foi imediato. Por meio do material coletado pelo segurança — que foi policial militar em Itaguaí por mais de 10 anos — a Polícia Federal pôde reconstituir com mais facilidade o esquema montado para subtrair milhões dos cofres públicos municipais.

Em entrevista ao Jornal Atual, Alexandre falou da ostentação com dinheiro público, de propinas de empresários em estacionamentos de shoppings e descreve como o dinheiro circulava em porta-malas de veículos, como viajou de helicóptero para São Paulo a fim de comprar um Range Rover de R$ 580 mil e a rotina de festas, baladas e contas em boate que chegavam aos R$ 20 mil.

No Amigos do Presidente Lula
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O poder concentrado

As leis não gozam de prestígio entre nós, mas há sempre discussão sobre a reforma ou criação de várias delas, como se daí viesse a solução de um grave problema por uma lei a ser de fato respeitada. Já pelo nível muito baixo da discussão, mas também pelo atropelo das propostas que se jogam umas sobre as outras, tudo escorrega para o esquecimento ou, se posto em lei, para a inutilidade. Às vezes, porém, certas circunstâncias fazem soar alarmes, no entanto pouco ouvidos. Entramos em um desses momentos de exacerbação perigosa.

Entre o sumiço do governo e "ajustes" que não ajustam, Eduardo Cunha e Renan Calheiros praticam as presidências da Câmara e do Senado tomando em suas mãos poderes que não lhes pertencem. Cunha anuncia decisões da Câmara com uma antecipação que tanto expressa a subalternidade imposta a um número decisivo de deputados, como representa a individualização do poder que a democracia exige ser colegiado. "Em maio vamos fazer a reforma política", "o novo prédio da Câmara terá (...), está lançado o edital", coisas assim disfarçam-se com alegadas aprovações pela Mesa da Câmara e pela reunião dos líderes, sem que isso seja mais do que um truque tardio.

Para burlar a lei que extingue a extorsão sofrida por estados e municípios devedores do governo federal, Joaquim Levy foi a Renan Calheiros. Foi "pedir que não ponha em votação" a nova cobrança da dívida. O ministro da Fazenda não procurou senadores para que, no colégio de líderes, deixassem fora da pauta a nova cobrança, criada por Dilma menos de um semestre antes de esquecê-la em fevereiro. Levy foi endossar, como se verdadeiro e legítimo, o poder que Calheiros então exerceu mesmo. Mais uma vez com justificada majestade.

E o Rio havia ganho na Justiça, com adesão pública de São Paulo-capital, o direito de avaliação correta da dívida e de não pagar correção mais juros que vão a 9%. O BNDES aumentou agora os juros de seus empréstimos de 5,5% para 6% ao ano: as populações das cidades merecem tratamento pior do governo federal do que empresários financiados?

Eduardo Cunha instaurou e Renan Calheiros adotou o personalismo autoritário. E é como se isso nada significasse e nada prenunciasse. Para o PSDB, o PPS e outras fajutas oposições, desde que deprecie Dilma e o PT, não importa o que ocorra com a democracia, o regime, a Constituição, o país — está tudo ótimo. Os outros, uns olham para os próprios pés, os demais contam seus novos cifrões.

Os cofres

O ex-senador Demóstenes Torres foi o único a pagar no caso em torno de Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira. Falou agora pela primeira vez, sobre vínculos político-financeiros entre Carlinhos e o senador Ronaldo Caiado. Mas poucos talvez saibam como Demóstenes sobre os porões éticos de Brasília. Com muitas provas, porque seu amigo Carlinhos não é amador, como ficou provado desde o "caso Waldomiro" e, depois, com as gravações "não identificadas" na Praça dos Três Poderes.

Se os dois abrirem mais a memória, a Lava Jato ficará reduzida a literatura infantil.

Leia livro

Desde a primeira metade do século 19, a imprensa é parte inseparável da política brasileira, ora em atividades equivalentes às de poderosos partidos, ora com ares autênticos ou não de voz da sociedade, por fim mesclando suas características originais com o jornalismo. Apesar desse desempenho histórico, a imprensa mereceu muito pouco, quase nada, da historiografia e da sociologia brasileiras.

Um jornalista espanhol residente no Brasil há quase 60 anos oferece, com a Companhia das Letras, o primeiro volume de três previstos para uma resgatadora "História dos Jornais no Brasil". Antes de pesquisador minucioso e escritor admirável, Matias Molina credenciou-se com importante função na imprensa brasileira: a grande fase da "Gazeta Mercantil" de nossa época chegou a tanto por sua direção, a partir da qual também formou muitos dos melhores jornalistas brasileiros atuais.

O primeiro volume, que cobre o Brasil de 1500 a 1840 sem que faltem referências contemporâneas, já é um grande livro. E promete o mesmo nos dois próximos.

Janio de Freitas
No fAlha
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Sérgio Porto # 183


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Seminário discute os 50 anos de poder e hegemonia da Rede Globo


No mês em que a Rede Globo completa meio século de vida, o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé promove, em São Paulo, um seminário dedicado a discutir os 50 anos de poder e hegemonia da empresa. A atividade ocorre no dia 27, das 9h às 18h, na sede da entidade*. Para inscrever-se, basta preencher o formulário nessa da página.

Impulsionada pelo projeto militar, a Globo tornou-se um verdadeiro império midiático, concentrando o setor das comunicações e agindo no sentido de uniformizar os corações e mentes dos cidadãos brasileiros em benefício de seus interesses políticos e econômicos. Sua ligação com a ditadura militar e seu papel na formação da opinião pública somados aos escândalos de sonegação fiscal bilionária e outros episódios de corrupção — gente ligada à familia Marinho figura na recente 'lista negra' do HSBC, por exemplo — são elementos que tornam ainda mais importante a discussão sobre a liberdade e o poder sem limites da Rede Globo.

Confira a programação completa e garanta a sua participação:

9h - A CONSTRUÇÃO DO IMPÉRIO GLOBAL

César Bolaño - Professor da Universidade Federal de Sergipe

Marcos Dantas - Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Susy Santos - Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

14h - TELEJORNAIS: INFORMAÇÃO E MANIPULAÇÃO

Rodrigo Vianna - Editor do blog "Escrevinhador"

Luciano Martins Costa - Editor do Observatório de Imprensa

Laura Capriglione - Movimento "Jornalistas Livres" e site A Ponte

Mais informações: contato@baraodeitarare.org.br
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Pedir intervenção militar é crime — o problema é que ninguém aplica a lei


Um deputado federal do PCdoB de Minas Gerais quer criminalizar quem peça a volta da ditadura. Desde 2013, pelo menos, aumentou o número de mentecaptos com essa bandeira. No dia 15 de março, eles invadiram as ruas, eventualmente com cartazes em inglês.

O projeto de Wadson Ribeiro prevê detenção de três a seis meses, mais multa. “Não se pode fazer apologia ao nazismo, à volta da escravidão e nem à volta do golpe militar, prisões e torturas”, diz ele. “Pedem terrorismo de Estado, pedem assassinato de opositores, pedem a censura à imprensa e à produção cultural, pedem sindicatos e partidos políticos proscritos”.

Carros de som clamando pela intervenção militar viraram comuns na paisagem dos protestos. Na Paulista, um deles levava um convidado especial, o ex-delegado do Dops Carlos Alberto Augusto, cuja alcunha na equipe de Sérgio Paranhos Fleury era “Carteira Preta”.

Tratado como heroi, o velhote, que se veste estranhamente de smoking, lamentou, a certa altura, não ter metralhado os subversivos quando pôde.

No dia 12 de abril, esse pessoal estará de volta pelas avenidas. Organizadores das micaretas reaças afirmam que não têm nada com isso, que não comungam da mesma ideia etc. Rogério Chequer, do Vem Pra Rua (chamado de “Chequer Sem Fundo” por seu guru Olavo de Carvalho), declara que o grupo é contra “qualquer tipo de intervenção militar, golpismo ou separatismo”.

Ora, então por que marchar ao lado desses pilantras? Não há desculpa. Por que eles não se separam? Na passeata em homenagem ao Charlie Hebdo, em Paris, por exemplo, a ultradireitista Frente Nacional foi proibida de participar.

O apelo às Forças Armadas está absolutamente banalizado na internet. Wadson Ribeiro não conseguirá aprovar sua proposta, ainda mais com esse congresso.

Agora, o problema não é esse. Como em muitas áreas, a questão não é inventar uma lei — é aplicar a existente.

O artigo 22 da Lei de Segurança Nacional reza o seguinte:
Fazer, em público, propaganda: I – de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social; II – de discriminação racial, de luta pela violência entre as classes sociais, de perseguição religiosa; III – de guerra; IV – de qualquer dos crimes previstos nesta Lei. Pena: detenção, de 1 a 4 anos.
O parágrafo primeiro acrescenta que “a pena é aumentada de um terço quando a propaganda for feita em local de trabalho ou por meio de rádio ou televisão” (em 1983 a internet era um brilho nos olhos de Roberto Carlos).

O artigo 23:
Incitar: I – à subversão da ordem política ou social; II – à animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições civis; III – à luta com violência entre as classes sociais; IV – à prática de qualquer dos crimes previstos nesta Lei. Pena: reclusão, de 1 a 4 anos.
É irônico pensar que a LSN foi promulgada no governo João Figueiredo. Imagine a surpresa dos fascistas saudosistas ao irem em cana por causa de um instrumento criado por um dos generais com quem sonham.

Na vida real, porém, os criminosos continuarão livres — não por causa da democracia, mas da inação.

Kiko Nogueira
No DCM
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