11 de mar de 2015

O PSDB de Aécio nunca foi tão PSDB quanto no “apoio” aos protestos de 15 de março

Imagen exclusiva do senador mineiro no protesto do dia 15
O PSDB nunca foi tão PSDB quanto no apoio aos protestos contra Dilma marcados para o fim da semana.

A nota oficial é a seguinte: “O PSDB defende a livre manifestação de opinião e o direito à expressão dos cidadãos e, portanto, apoia os atos pacíficos e democráticos convocados para o próximo dia 15 de março em todo o país”.

Maravilha. Os manifestantes poderão contar com a presença ilustre de algum tucano de alto coturno, confere?

Também não é preciso forçar a amizade.

Uma coisa é fazer chantagem, gritar pela moral e os bons costumes na frente de um batalhão de repórteres e jogar gasolina na fogueira. Outra é ter a coragem de sair do muro, dar a cara para bater e se juntar ao que eles chamam de “povo”.

Melhor manter tudo na moita, na medida do impossível. O governador Beto Richa, do Paraná, com uma cara de pau do tamanho de seu mullet, debaixo de denúncias de desvio de verbas e o diabo, está defendendo a “admissibilidade do impeachment”.

Foi à Rede Massa, do apresentador Ratinho, canal de TV patrocinado pelo governo, e lamentou o estado de degradação de valores do país. Não por acaso, curitibanos estão recebendo volantes com os dizeres “Curitiba vai parar”. As moças que entregam o mimo contaram que estão ganhando 50 reais por meio período. Quem está pagando?

O presidente da Juventude de PSDB do Espírito Santo, Armando Fontoura, declara que o evento é “apartidário”. Serra, num dos momentos mais patéticos de uma carreira recheada deles, citou um post de um perfil fake de Eduardo Jorge. Depois que foi alertado por seus estafetas, saiu-se com uma possível piada. “Mesmo que Eduardo Jorge não tenha dito, repito: a presença de Dilma na TV funcionou como um chamado para as manifestações do próximo domingo”.

É o complexo da demi-vierge, como dizem os franceses (“semivirgem”). E se tudo for um mico? Mesmo na ânsia golpista, não é tão bom o pessoal ser visto com os desequilibrados dos Revoltados On Line ou as adolescentes perturbados do tal Movimento Brasil Livre.

O destaque da operação ficou, como sempre, com o senador Aécio Neves. Novamente com a impostura da indignação, Aécio se ressurgiu contra quem declara se “podemos ou não protestar”. “Não estamos proibindo nem proibidos de falar sobre impeachment, mas nesse momento isso não está na agenda”, afirma.

Mas se tema do ato é esse e é dado o apoio, como é que não está na agenda?

Agora: você precisa ser um lobão para acreditar que Aécio fosse comparecer. “Não devo ir para não dar força ao discurso do terceiro turno, pelo fato de ter disputado a eleição com a presidente Dilma. Quanto menos partidário, mais expressivo será o movimento”.

Os pessedebistas vão esperar o sucesso ou o fracasso de um ato que instigaram para sair da sombra ou voltar a ela. A única certeza é a de que, enquanto a turma estiver batendo panela, Aécio estará na praia porque não é bobo. É domingo, pô. Não enche o saco.

Kiko Nogueira
No DCM
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O “Braddock” do impeachment e o que a imprensa que não apura


Finalmente, apareceu um jornal espanhol para fazer (em parte) o que a imprensa brasileira não faz: um perfil do “Braddock” dos tais “Revoltados Online”, o cidadão Marcello Cristiano Reis.

Foi Afonso Benites, no El País.

Diz-lhe Marcelo que vive da venda de camisetas e, com elas, obteve os R$ 20 mil para alugar o trio elétrico de suas manifestações, além de, é claro se manter (mora no mesmo prédio em que o Ministro da Justiça tem apartamento, na Belavista paulistana) e suas viagens país afora.

precatorio2Infelizmente, o repórter do jornal espanhol não perguntou como é que ele e a sua organização atuavam no mercado de precatórios e da “compra de títulos do ICMS”, um negócio paralelo e sombrio, no qual acontecem coisas de arrepiar os cabelos.

Aliás, o Azenha e o Paulo Nogueira já haviam mencionado isso.

Mas agora estão as imagens, irrefutáveis.

Foi neste mercado de precatórios que ele diz que ganharam, espontaneamente, R$ 650 mil em precatórios (valor de 2010), de um misterioso “revoltado”.

Uma fortuna que, corrigida hoje pela Taxa Selic chega a R$ 1 milhão, doação digna daquelas “boas” de bancos e empreiteiras a candidatos presidenciais.

Haja camiseta!

A imagem e o link estão aqui, para o caso de algum jornalista se interessar em saber que destino teve esta suposta fortuna, uma vez que precatórios são títulos judiciais contra os Estados ou a União e sua transferência só se pode dar com registro em escritura pública.

Aí está um rascunho do personagem.

E aonde estão os jornalistas?

Abaixo, um trecho da matéria de Afonso Benites no El País, que pode ser lida na íntegra clicando no título.

O comércio do impeachment

Afonso Benites, no El País

Um empresário de São Paulo que se diz falido pelo Governo do PT. Uma publicitária que mora no Mato Grosso e vive “de renda”. Esses são alguns dos comerciantes que se aproveitam do movimento que pede o impeachment de Dilma Rousseff (PT) para ganhar dinheiro ou para financiar os protestos. Vendendo camisetas a 99 reais e adesivos a 3,50, Marcello Reis, de 40 anos, e Letícia Balaroti, de 28, estão na linha de frente dos produtos anti-Dilma.

Reis é um dos líderes do projeto Revoltados On Line, um grupo formado nas redes sociais que se manifesta contra a corrupção. Nos últimos anos, ganhou notoriedade (e seguidores no Facebook) ao pedir o impeachment da presidenta petista e ao se apresentar ao lado de figuras públicas como o músico Lobão, um feroz crítico do petismo que pediu votos para Aécio Neves (PSDB) no pleito passado.

Para garantir o pagamento da estrutura usada nos protestos promovidos por ele, como um trio elétrico de 20.000 reais, Reis vende camisetas, bonés e adesivos na internet. Um kit, com uma camiseta polo preta, um boné e cinco adesivos custa de 175 a 195 reais, de acordo com o tamanho. Se for levar só a camiseta com uma faixa presidencial pela metade e os dizeres “Deus, Família e Liberdade”, o cliente gastaria 99 reais. Isso sem contar o frete. “É um preço justo porque o material é importado. É de boa qualidade e não temos uma confecção própria”, explica Marcello Reis, que diz ter fechado uma empresa de segurança da informação porque não quis participar do “jogo sujo do serviço público”.

Descrevendo-se como apartidário, e demitido de uma agência de comunicação há dois meses, Reis agora se empenha exclusivamente no movimento que pede a saída de Rousseff do cargo. Ele alega que sua demissão do último emprego ocorrera porque o deputado petista Paulo Pimenta o acusou de fascista e de militante de extrema direita durante o protesto que motivou o fechamento do Congresso Nacional no ano passado. Desde então, Reis passa dia e noite vendendo os produtos anti-Dilma e coletando assinaturas na internet para ingressar com o pedido de impeachment.

“Ele (o deputado) me chamou de neonazista porque sou desprovido de cabelo. Mas estou longe de ser extremista, muito menos nazista. Sou só um cidadão politizado que é contra esta roubalheira toda”, justifica-se.

Outros empreendedores, à primeira vista menos militantes, também parecem ter farejado negócio na onda anti-PT. A camiseteria online NM vende uma camiseta com o mote do impeachment por 39,90 reais. Procurados, os representantes da loja não se manifestaram.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Chance perdida


Presença de Toffoli na turma que irá julgar Lava Jato diminui esperanças do PT e do governo para uma decisão mais equilibrada

Por esses estranhos caminhos que explicam a composição dos tribunais e ajudam a compreender sentenças de alto teor político, com a entrada de Antônio Dias Toffoli para integrar a Segunda Turma do STF a operação Lava Jato passou a ser vista pelo PT e pelo governo como uma ameaça mais grave e destrutiva do que a AP 470, que julgou o chamado mensalão. Avaliações que até agora anunciavam um julgamento mais equilibrado começaram a ser substituídas, depois de ontem, pela previsão de que o partido pode ser criminalizado por sentenças duras, implacáveis, numa situação na qual os réus podem encontrar grandes dificuldade para exercitar o pleno direito de defesa.

Embora tenha sido levado ao STF por indicação de Luiz Inácio Lula da Silva, o Toffoli que chega a Turma que irá decidir o destino de 21 políticos denunciados por Rodrio Janot é visto como um aliado seguro de Gilmar Mendes, hoje o mais destacado ministro da Segunda Turma — e um adversário assumido do Partido dos Trabalhadores. Toffoli assume as funções em continuidade com sua atuação na presidência do TSE, quando foi um parceiro seguro de Gilmar Mendes. Considerando que as decisões serão tomadas por um plenário com cinco ministros, bastarão 3 votos para uma condenação. Caso essa aliança venha a ser confirmada nos próximos meses, será preciso encontrar apenas mais um voto para Gilmar Mendes, com apoio de Toffoli, tornar-se o mais influente ministro do julgamento, posição que esteve longe de ocupar na AP 470.

Os outros votos possíveis na Segunda Turma não estimulam projeções otimistas do ponto de vista dos réus ligados ao PT. Isso porque não parece difícil encontra o terceiro voto que pode faltar. Ao contrário. O histórico dos demais integrantes do plenário apontam para a possibilidade de vantagens ainda maiores.

Um desses votos pertence a Celso de Mello, que tem-se mostrado garantista em questões de procedimento — deu o voto decisivo nos embargos infringentes para os réus da AP 470 — mas assume uma postura implacável no momento de julgar e condenar. Já Carmen Lucia votou contra os infringentes, direito que, no contexto do julgamento, representava uma chance única de uma nova oportunidade de defesa para acusados que não tiveram o direito a um segundo grau de jurisdição. Teori Zavaski votou a favor dos embargos, embora tenha apresentado uma argumentação ambígua, no plenário. Relator da Lava Jato, na qual empresários e executivos acusados de participar do esquema de corrupção na Petrobras foram mantidos — sem provas — em prolongados regimes de prisão preventiva, com a finalidade de forçar confissões e realizar delações premiadas, Teori aceitou o pedido de habeas corpus de um único acusado mas rejeitou os demais, embora seja possível avaliar que as circunstâncias, em quase todos os casos, fossem bastante semelhantes e até idênticas.

Olhando a composição da Segunda Turma com frieza, cabe observar que na prática seu perfil não se modificou tanto assim. Toffoli irá ocupar a vaga que ficou em aberto depois da renúncia de Joaquim Barbosa — e ninguém pode imaginar que o antecessor iria demonstrar uma postura mais equilibrada entre a necessidade de punir e, ao mesmo tempo, proteger os direitos dos acusados. A verdade é que a saída de Joaquim abriu uma chance para o governo fazer uma substituição indicando um magistrado de compromissos sólidos com os direitos humanos e as garantias de defesa que, conforme respeitadas vozes do mundo jurídico, muita falta fizeram na AP 470. Mas essa oportunidade foi perdida e a nomeação de Toffoli lembra que as vezes a Justiça pode seguir uma regra elementar das partidas de futebol: quem não faz leva.

Paulo Moreira Leite
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A ignorância histórica de Joaquim Barbosa

Sem noção
Deu a louca no mundo.

Ou, pelo menos, deu a louca em Joaquim Barbosa.

No Twitter, ele conseguiu comparar o atual momento brasileiro às vésperas de duas revoluções, a Francesa e a Russa.

Nesta visão turvada e obtusa, é como se na França de 1789 a insatisfação revolucionária houvesse partido da aristocracia. E na Rússia de 1917 da corte czarista.

Que JB era insuficiente em direito já sabíamos. Que era incapaz de articular frases que fizessem sentido, também.

Mas que era analfabeto em história é uma novidade.

O Brasil de 2015 se aproximaria da França de 1789 e da Rússia de 1917 se os privilegiados estivessem na iminência de ser varridos.

Mas não.

Os privilegiados brasileiros — cujo porta-voz é a mídia — se batem ferozmente para derrubar um governo popular.

Na verdade, o Brasil de 2015 lembra, sinistramente, o Brasil de 1954 e o Brasil de 1964. A plutocracia, mais uma vez, se insurge contra a democracia.

Repetem-se muitas coisas.

O demagógico e seletivo discurso anticorrupção, por exemplo. Aécio chegou a empregar uma expressão de Lacerda, o Corvo, contra Getúlio: mar de lama.

Não pude notar se ele não ficou vermelho ao falar em mal de lama. Mas deveria. Aécio construiu um aeroporto privado com dinheiro público. Colocou, pelas mãos da irmã, dinheiro público nas rádios da família quando governador de Minas. Viu ser exposta a monumental roubalheira de seus eminentes colegas de PSDB no metrô de São Paulo.

Agora mesmo, escapou por um triz de entrar na lista de Janot, da qual não escapou sua cria, Anastasia.

Mesmo assim, ele posa de Catão. Ou de Catão 2, dado que o Catão 1 é FHC, o homem que comprou a emenda de reeleição. Essa compra está toda documentada, nos detalhes mais patéticos, graças ao depoimento milimétrico de um comprado.

O repórter que tratou solitariamente do assunto na era FHC disse, recentemente, que seu trabalho recolheu não evidências — mas “provas”.

Alguns personagens de 54 e 64 estão presentes em 2015, uma demonstração de quão pouco as coisas mudam no Brasil.

A Globo, por exemplo. Sabotou Getúlio, sabotou Jango, sabotou Lula e agora sabota Dilma.

Neste longo percurso de sabotagem, os donos da Globo acumularam a maior fortuna do Brasil.

Se o Brasil vivesse uma situação parecida com a França e a Rússia pré-revolucionárias, como escreveu Barbosa, os Marinhos estariam de malas prontas para recomeçar a vida em outro país.

Eles e todo o grupo que tanto tem feito, ao longo da história, para dar ao Brasil as feições classicamente definidas por Rousseau como as perfeitas para uma insurreirão popular: aquelas marcadas pelos “extremos de opulência e de miséria”.

Com diferentes nomes, figuras como Joaquim Barbosa participaram das tramas de 1954 e de 1964.

Eram os mistificadores.

Eles fingiam defender os interesses da voz rouca das ruas, mas na verdade estavam do lado dos poderosos, dos exploradores, dos predadores sociais.

Em 1789, para voltar ao início, Barbosa não derrubaria a Bastilha.

Estaria do outro lado, como um fâmulo dos plutocratas.

Paulo Nogueira
No DCM
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Stedile, vivo ou morto!

Tem cheiro de cadáver tucano


Em tempo: veja o que disse Stedile em solenidade em um supermercado de Caracas, com o presidente Maduro



No CAf
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Pelo menos 10 investigados da Operação Lava Jato detêm emissoras de radiodifusão

De afiliadas da TV Globo a rádios locais, pelo menos 10 políticos que passaram a ser investigados na Operação Lava Jato controlam empresas de radiodifusão. Não é simples saber se um político é ou não proprietário de emissoras de rádio e televisão, pois no exercício do cargo de deputado e senador, pela Constituição, ele não pode controlar qualquer tipo de concessão pública. Por conta disso, muitos usam laranjas e familiares para driblar a legislação.

Ainda assim, há diversos levantamentos que apontam quais políticos do país controlam — ainda que não como proprietários formais — serviços de radiodifusão. Da lista de 47 que passaram a ser investigados pela Justiça, os políticos do PT e PSDB citados não constam como controladores diretos de veículos de comunicação de rádio e televisão. Mas Fernando Collor, do PTB, é proprietário do grupo Arnon de Mello, com emissoras de rádio na capital e cidades do interior do estado de Alagoas. A TV Gazeta, também de Collor, é uma das primeiras afiliadas da Globo no Nordeste.

Renan Calheiros e Eduardo Cunha, do PMDB, possuem concessões de rádio. A concessão do senador está em nome de seu filho, José Renan Calheiros Filho, a JR Rádio Difusora de Alagoas. Renan tem o sonho de montar um império de comunicação e já foi acusado de ter comprado outras emissoras no estado usando laranjas. Já o deputado federal e radialista Eduardo Cunha é um dos controladores da rádio Melodia, com atuação em pelo menos sete estados brasileiros.

PMDB, PP, PR...

O senador Romero Jucá, também do PMDB, é outro que tem rádio. Ela fica no interior de Pernambuco, na cidade de Bezerros. Aliados seus em Roraima, estado em que se elegeu senador, são proprietários da afiliada da Bandeirantes.

A família do senador Edison Lobão possui um sistema de rádio e televisão no Maranhão, seu estado natal. As emissoras se concentram nas duas principais cidades maranhenses. A rede de TV é afiliada do SBT. A família Sarney mantém um conglomerado de comunicação de emissoras de rádio e televisão que cobre quase 100% do estado do Maranhão. Roseana, ao lado do irmão e do pai, comanda a rede de televisão afiliada da Globo.

Dos deputados do PP, Dilceu Sperafico controla duas rádios na cidade de Marechal Cândido Rondon (PR). Já Aníbal Gomes é dono de rádio em Acaraú (CE). Sandes Junior é controlador de emissora de rádio em Goiânia (GO), e Roberto Britto, na sua cidade natal, Jequié (BA). Pedro Henry chegou a ter um canal de televisão (afiliada da Record) em Cáceres (MT), mas a concessão foi cassada há dois anos.

Alberto Dines
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Mídia faz propaganda do dia 15 e whats app entra em modo “terrorismo”



Impeachment é golpe. Estamos combinados? Golpe. Mensagem simples, direta, objetiva. Curiosamente, não foi assumida pelo governo Dilma. Ele prefere falar na linguagem diplomática do “terceiro turno”.

“São Paulo não é o Brasil”, é a frase que ouvimos agora de alguns petistas, para justificar o imobilismo. Talvez ele se justifique: Lula foi levando, empurrando com a barriga e o partido completará (?) 16 anos no Planalto. Uma enormidade.

Todas as previsões anteriores, de que o PT estava a caminho do fim — e houve muitas — naufragaram.

Mas, e sempre tem um porém, o Brasil pode ser São Paulo amanhã. Que o digam meus amigos de Itapajé, no Ceará, que ouvem no interior daquele estado ecos da mensagem que predomina em São Paulo. Os mais novos ouvem nas redes sociais, os mais velhos na Jovem Pan com Sheherazade, Marco Antonio Villa e Reinaldo Azevedo, via satélite — ou na Globo. Na periferia de São Paulo, como atesta o DJ Cortecertu, as ideias direitistas já avançaram enormemente. Ascensão social despolitizada dá nisso: como diria Paulo Henrique Amorim, a continuar assim teremos nosso próprio Berlusconi! Quem aposta no Joaquim Barbosa?

A direita dispõe hoje de um elenco de comentaristas e suas ideias simplórias, dos meios para disseminá-las e de uma multidão de militantes digitais que trabalham de graça para fazê-las chegar a todos os rincões do Brasil. Seria muito simples desmontar tais ideias simplórias se houvesse debate. Mas, não há. A esquerda não dispõe dos meios para travar o debate, além do grilo falante representado pela blogosfera. Nem o PT, nem o governo Dilma, demonstram disposição para travá-lo.

Mas, por que travá-lo agora? Se é preciso uma justificativa, porque a conjuntura mudou. No passado, a baba raivosa da direita caia em ouvidos moucos. A população confrontava o discurso majoritário nos meios de comunicação com sua própria realidade, de bem estar e ascensão social. A mensagem entrava por um lado e saia por outro.

Agora, não. É a combinação de petrolão + arrocho + aumento das passagens de ônibus com aquela mensagem — exagerada, por certo — de que o Brasil está se acabando. Isso sem considerar barbeiragens como a do Fies, que Eduardo Guimarães e Conceição Oliveira abordaram na blogosfera e nas redes sociais.

Talvez o governo Dilma e o PT descubram que a situação é emergencial a partir de segunda-feira, dia 16, se em São Paulo a direita reunir os 200 mil manifestantes que pretende reunir. Mídia para eles não falta. Pelo Facebook o leitor Horatio Nelson brinca com uma reportagem de Veja sobre as manifestações do dia 15:
Não esqueça seu abadá no dia 15 !!!
– Conforme a #veja patrocinador, quando chegar na Paulista, escolha um destes 4 blocos carnavalescos: Vem para a Rua, Movimento Brasil Livre, Revoltados Online e Intervencionistas Independentes;
– Não esqueça de levar energéticos, óculos de sol e protetor solar porque ninguém é de ferro;
– Ultimo aviso, estará lotado de blaquis-bloquis & nóias. Não dá para saber quem é quem… então cuidado com as carteiras, bolsas e celulares; eles não vão perder a oportunidade de um ganho “extra” com tanta gente “esclarecida” à disposição… Emoticon tongue;
– Se possível, leve o seu segurança…
Fato: a mídia é co-promotora do evento.

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Podem tem certeza: vocês não verão esse tipo de “serviço” da Veja quando se trata das manifestações previstas para o dia 13, patrocinadas pelas centrais sindicais, em defesa da democracia e da Petrobras. Estas vão “atrapalhar” o trânsito.

Além da mídia, o PSDB é co-patrocinador das manifestações, com o mão do gato.

Também através do Facebook, Marcelo Nelson nos envia a foto e o link do blog do Esmael que denuncia que um tucano teria dado 50 reais por cabeça para a distribuição de panfletos (abaixo) em Curitiba:

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Por outro lado, nosso amigo Corisco Vermelho, que atua no Whatsapp, informa:
Circulam áudios no Whatsapp com uma mulher do povo dizendo que o confisco da poupança acontece no dia 17 e outro, de um PM, dizendo que está aquartelado por causa de um golpe. Pedem para que as pessoas saquem dinheiro de suas contas e estoquem comida.
“Ucrânia e Venezuela foi assim”, acrescenta o Corisco.

Eu mesmo recebi, via Whatsapp, a mensagem de um certo ex-soldado Carvalhal, hoje sargento Ferreira, dizendo que é preciso estocar comida.

“Tá para estourar uma guerra no país. Vai ter intervenção federal. Tem paises que são de esquerda, a favor do comunismo que está sendo implantado aqui no país. Assim que tiver uma intervenção federal de direita vai ter uma intervenção federal de esquerda. Já tem informe de tropas inimigas dentro do território nosso, em algumas células e realmente vai ter um conflito aí, é inevitável”, diz trecho da mensagem.

Muitos de nós simplesmente rimos de uma mensagem esdrúxula como esta. Mas, e os analfabetos políticos?

Não por acaso, estas mensagens se espalham feito rastilho de pólvora.

É a boa e velha guerra psicológica. Atemorizar a população para que ela não reaja.

Se o governo Dilma ainda não aprendeu, deveria se lembrar de boatos anteriores, como aquele referente ao Bolsa Família e o mais recente, sobre o confisco da poupança.

Por outro lado, seria o máximo da ingenuidade política os dirigentes do PT e a própria Dilma acreditarem que o PSDB recuou da ideia do impeachment. Bobagem. Os tucanos sabem que sua participação oficial enfraqueceria o movimento “do povo”, como descreveu Álvaro Dias em recente entrevista ao Jornal Nacional.

Quando o Álvaro Dias é ouvido pelo JN é como nos tempos de Antonio Carlos Magalhães: dá o tom do que será a posição oficial da aliança Globo/PSDB.

As manifestações de domingo serão oficialmente descritas como “do povo”. As mensagens extremistas vão sumir da cobertura na Globo. Ninguém vai explicar o que querem os Revoltados Online. Os protestos serão devidamente enquadrados como manifestações populares pacíficas contra tudo o que está aí.

O PSDB, repito, pretende tirar a castanha com a mão do gato. Protestos de rua a gente sabe como começam, mas nunca como terminam. Fiquem tranquilos, que os tucanos e a Globo saberão conduzí-los em direção a uma crise institucional que resulte na renúncia ou no impeachment de Dilma.

Não é nossa previsão que isso vá acontecer agora, segunda-feira. Dia 15 é o pontapé inicial de um longo processo de sangramento.

O objeto do sangramento deveria, em tese, ficar esperto. Mas, “São Paulo não é o Brasil”, não é mesmo?

A inapetência para o debate político fica evidente na postura malemolente da assessoria de Dilma, inclusive nas redes sociais.

Vejam isso:

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Primeiro, uma mensagem de Dilma no Facebook, para mais de 3 milhões de seguidores.

Reproduz em linhas gerais o que a presidenta disse hoje em discurso, em São Paulo.

A assessoria de Dilma não aprendeu, ainda, que uma coisa é o discurso dela, macro, para a mídia corporativa.

Traduzí-lo para as redes sociais exige mudança de linguagem.

Aquele discurso ali em cima é muito vago. Quem são os “alguns” que dizem? Talvez o receptor da mensagem seja um deles. “Opa, mas eu acho que a crise é grave, essa Dilma vive no mundo da lua”, diria este internauta imaginário.

Muito mais eficaz seria oferecer o comentário com um número, uma comparação.

Por exemplo: taxa de desemprego de jovens na Espanha, %, link da fonte; no Brasil, %, link da fonte.

Parece simples, não?

Mais abaixo, uma tuitada do blog do Planalto. Um convite para que o internauta ouça a íntegra de um discurso de 33 minutos e 49 segundos!

Isso no dia em que os portais registravam vaias à presidenta em São Paulo logo na capa.

Será que alguém não poderia separar o trecho mais significativo do discurso e colocar ao mesmo tempo no twitter e no Facebook, com uma manchete chamativa, para tentar se contrapor aos portais que, repito, destacavam as vaias à presidenta?

Essa é apenas uma micro-demonstração do despreparo do PT em geral e do governo Dilma em particular para a batalha que se avizinha.

Segunda-feira, dia 16, eles acordam.

Abaixo, em foto de Fabio Rodrigues Pozzebom, da Agência Brasil, deputado tucano Bruno Araújo (PSDB-PE) bate panela no Congresso.

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Luís Carlos Azenha
No Viomundo
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'Crise é forjada, mentirosa e induzida pela mídia', diz Leonardo Boff

Teólogo afirma que veículos de comunicação são golpistas e contra o povo, mas com os movimentos sociais emergiu uma nova consciência política, e o outro lado ficou sem condições de dar o golpe

A crise econômica e política pela qual o país atravessa neste momento é "em grande parte forjada, mentirosa, induzida, ela não corresponde aos fatos", afirma o teólogo Leonardo Boff. Segundo ele, a crise é amplificada por uma dramatização da mídia. "Essa dramatização que se faz aqui é feita pela mídia conservadora, golpista, que nunca respeitou um governo popular. Devemos dizer os nomes: é o jornal O Globo, a TV Globo, a Folha de S. Paulo, o Estadão, a perversa e mentirosa revista Veja."

Em entrevista à Rádio Brasil Atual na segunda-feira (9), o teólogo disse que, no entanto, o atual nível de acirramento no cenário político não preocupa porque, para ele, comparado a outros contextos históricos, a "democracia amadureceu". Ele diz acreditar, ainda, na emergência de uma "nova consciência política".

Boff também considera que o cenário brasileiro é bastante diferente da Grécia, Espanha e Portugal, onde são registradas centenas de suicídios, por conta do fechamento de pequenas empresas e do desemprego, e até mesmo de países centrais, como os Estados Unidos, que veem a desigualdade social avançar.

"A situação não é igual a 64, nem igual a 54", compara. "Agora, nós temos uma rede imensa de movimentos sociais organizados. A democracia ainda não é totalmente plena porque há muita injustiça e falta de representatividade, mas o outro lado não tem condições de dar um golpe."

Para Boff, não interessa aos militares uma nova empreitada golpista. Restaria ao campo conservador a "judicialização da política": "Tem que passar pelo parlamento e os movimentos sociais, seguramente, vão encher as ruas e vão querer manter esse governo que foi legitimamente eleito. Eles têm força de dobrar o Parlamento, dissuadir os golpistas e botá-los para correr".

Sobre o 'panelaço' ocorrido no domingo (8), durante o discurso da presidenta Dilma Rousseff para o Dia Internacional da Mulher, Boff afirma que o protesto é "totalmente desmoralizado", pois "é feito por aqueles que têm as panelas cheias e são contra um governo que faz políticas para encher as panelas vazias do povo pobre".

O teólogo afirma que a manifestação expressa "indignação e ódio contra os pobres" e são símbolo da "falta de solidariedade": "O panelaço veio exatamente dos mais ricos, daqueles que são mais beneficiados pelo sistema e que não toleram que haja uma diminuição da desigualdade e que gostariam que o povo ficasse lá embaixo".

Sobre o ato programado pela CUT e movimentos sociais para sexta-feira (13), Leonardo Boff diz que a importância é reafirmar os valores democráticos e a defesa da soberania do país: "Aqueles que perderam, as minorias que foram vencidas, cujo projeto neoliberal foi rejeitado pelo povo, até hoje, não aceitam a derrota. Eles que tenham a elegância e o respeito de aceitar o jogo democrático".

O teólogo frisa, mais uma vez, não temer o golpe. "É o golpe virtual, que eles fazem pelas redes sociais e pela mídia, inventando e fantasiando, projetando cenários dramáticos, que são projeções daqueles que estão frustrados e não aceitam a derrota do projeto que era antipovo."

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A crise da sociedade civil

Qual o tamanho da crise política que atinge o Brasil? Essa questão não pode ser respondida pela imprensa, em seu núcleo duro, porque a mídia tradicional, como instituição corporativa, é protagonista central no desenvolvimento dos fatos que conduziram ao atual estado de conflagração que divide os brasileiros. Portanto, é parte interessada na elevação da temperatura e no processo de isolamento do governo.

O ponto de paroxismo a que foi levada a chamada sociedade civil nas últimas semanas é resultado da perigosa combinação de uma imprensa que atua politicamente como partido de oposição e de um governo que hesita em agir e não se comunica com eficiência. O resultado é a perda da conexão entre as instituições republicanas e a população, cujas reações passam a ser comandadas pelo discurso coeso, adjetivado e perturbador da mídia.

O poder central insiste em articular uma narrativa linear, racional, mas há cada vez menos ouvidos disponíveis para a racionalidade. A massa não reflete em torno de ponderações — ela apenas reage a gritos, palavras de ordem, estímulos emocionais. E a imprensa brasileira tem se especializado nesse tipo de linguagem, num esforço intenso e cotidiano para convencer o cidadão de que o país é hoje pior do que era há dez ou vinte anos.

Objetivamente, não há sintomas que comprovem essa crença — apesar dos indicadores que apontam a deterioração das contas públicas, a perda do real frente ao dólar e a oscilação de preços, as medidas anunciadas há um mês são consideradas adequadas pela maioria dos analistas e os fundamentos da economia não justificam a percepção geral de um desastre.

Os grandes bancos internacionais, ao situar o Brasil numa posição de alta vulnerabilidade entre os principais países emergentes, colocam entre as grandes causas de preocupação o aumento dos juros nos Estados Unidos, a retomada do crescimento na Europa e no Japão e a desaceleração da economia chinesa. Há, portanto, mais lógica nas explicações do governo do que no discurso predominante na mídia — e não são poucos os analistas, principalmente aqueles comprometidos com o setor produtivo, que estão preocupados com a contaminação da economia pela crise política.

A seara da irracionalidade

A crise política é, essencialmente, uma obra da mídia hegemônica, cujo objetivo de negócio é interromper a trajetória da aliança liderada pelo Partido dos Trabalhadores, que assumiu o poder central em 2002.

E por que fazer a distinção entre “sociedade civil” e “população”? Porque toda ação de comunicação, para ter eficiência, precisa definir um objeto, ou receptor, e não pode ser dirigida a um alvo difuso como a sociedade em geral ou a população como um todo.

O processo de influência por meio da comunicação de massa precisa ser dirigido a alvos específicos, que só podem ser identificados no campo a que se convencionou chamar “sociedade civil”. Foi assim, por exemplo, na Constituinte de 1988, desenhada para agradar ao que era, na época, a parte da população representada por sindicatos patronais e de empregados, conselhos profissionais e setores protegidos por lobistas. Naquele período, quase 50% da população vivia, como se diz, da mão para a boca, e não era parte da chamada “sociedade civil organizada”.

Essa é a origem dos vícios da política institucional na nossa democracia. E é esse o objeto da ação comunicacional da mídia, ao desenvolver uma campanha pelo aliciamento das classes de renda média, que naturalmente se sentem fragilizadas com o discurso apocalíptico martelado diariamente na imprensa escrita, nos telejornais e em programas de rádio.

O PT também é fruto da Constituição corporativista, e a principal causa de seus êxitos eleitorais é a inserção de grandes camadas de excluídos no campo chamado de sociedade civil. Para reverter o resultado das urnas, a imprensa partidarizada procura romper essa conexão.

As bases do PT, se não batem panelas, se manifestam pelo silêncio. O governo eleito por elas tenta agradar os setores conservadores da “sociedade civil” representados pela mídia tradicional, e pede compreensão e paciência aos que irão pagar a conta. Na massa, consolida-se a convicção de que até mesmo a falta de água ou a lotação dos ônibus depois de um jogo de futebol é culpa da presidente da República, como se ouviu de torcedores no domingo (8/3) em São Paulo.

O grande trunfo da mídia é a irresponsabilidade, a disposição de ir fundo no cultivo da irracionalidade.

Não há luz no fim desse túnel.

Luciano Martins Costa
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Acreditar que a mídia tradicional se abrirá para o contraditório é ilusão

Na primeira reunião ministerial do segundo mandato a presidenta Dilma Rousseff convocou seus auxiliares para a “batalha da comunicação”. Foi enfática: “Nós devemos enfrentar o desconhecimento, a desinformação sempre e permanentemente. Vou repetir: sempre e permanentemente”.

Nada mais justo. A desinformação contrária ao governo campeia pelo país, orquestrada pelos grandes meios de comunicação. A reação da presidenta é justificável. Resta saber quais são as armas que ela e seus ministros possuem para essa batalha. Se esperam contar com a benevolência dos meios tradicionais podem tirar o cavalo da chuva. A batalha estará perdida antes de ser travada.

Não passa de mera ilusão acreditar que a grande mídia oferecerá espaços para o contraditório nas mesmas proporções abertas aos temas de seu próprio interesse. Alguns veículos até publicam o que chamam de “outro lado”, mas sempre de forma discreta e submissa à pauta criada para fustigar o governo.

A desproporção entre o ataque da mídia e a possibilidade de resposta através dela mesma é brutal.

Constata-se uma grave falha da democracia ao exigir que governantes eleitos pelo voto popular sejam obrigados a se dirigir à sociedade através de meios privados, controlados por minorias que os querem ver apeados do poder.

Além disso a participação do governo na batalha da comunicação não pode ser apenas reativa aos ataques da oposição midiática. É preciso tomar a iniciativa e buscar canais despoluídos para que as mensagens cheguem ao público sem ruídos.

Para ampliar a liberdade de expressão uma lei de meios é fundamental, embora não seja o único caminho. Outro, de construção mais rápida, é o da comunicação pública, indispensável para o jogo democrático.

Dela já há o embrião constituído pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), com suas duas emissoras de televisão, oito de rádio, duas agências de notícias e um portal na internet. Resta tirá-la da irrelevância. Não para se tornar porta-voz do governo mas para fazer jornalismo de qualidade, livre de ingerências partidárias e comerciais.

A primeira medida é dar a esses veículos abrangência nacional, atendendo a um dos princípios básicos da comunicação pública que é o do acesso universal. Toda pessoa tem o direito, em qualquer parte do país, de receber os sinais desses meios de forma rápida e fácil.

A TV Brasil, por exemplo, deve ser sintonizada em qualquer lugar da mesma forma com que hoje sintonizamos a Globo ou a Record.

Com a digitalização e a consequente multiplicidade de canais, torna-se possível segmentá-los constituindo um conjunto formado pelo canal generalista já existente, ao lado do infantil e do noticioso. Seria o núcleo básico ao qual poderiam ser agregados canais de filmes, de música, de arte e esportes.

Quanto ao rádio, cabe lembrar que ele continua sendo a segunda fonte mais utilizada para a informação e o entretenimento no Brasil. Ao controlar um leque de emissoras que vai da histórica Rádio Nacional do Rio de Janeiro à estratégica Rádio Nacional do Alto Solimões, o serviço de rádio da EBC tem potencial para se tornar uma alternativa importante em relação ao que hoje é oferecido ao público.

Necessidade imediata nesse sentido é a constituição de emissora noticiosa 24 horas no ar, capaz de produzir uma narrativa distinta das produzidas pelas rádios comerciais que tornam homogênea a informação radiofônica em circulação pelo país.

No caso da internet, a Agência Brasil já exerce um papel importante voltado para o público leitor e para o municiamento informativo de um número expressivo de veículos em todo o território nacional. Cabe popularizar e ampliar esse serviço tendo como uma das janelas o portal da EBC, dando a ele formas de acessibilidade e fidelização semelhantes as obtidas pelos portais informativos vinculados à mídia comercial.

Com a existência de canais públicos fortes, abertos aos interesses mais gerais da sociedade, a batalha da comunicação seria travada em termos um pouco mais equilibrados, dando ao público o direito de uma escolha real.

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP.
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Centrais: Dilma precisa mudar política para ter e reconquistar apoios

Manifestação da próxima sexta-feira não é a favor nem contra o governo, mas por direitos e pela democracia, afirmam sindicalistas. Mas presidente da CUT diz não aceitar 'intolerância dos derrotados'

CUT e demais centrais se mobilizam para barrar medidas que contrariam interesses dos trabalhadores,
mas repudiam golpismo
São Paulo – As centrais sindicais têm diagnósticos distintos sobre o cenário político, inclusive a respeito das manifestações marcadas para esta sexta-feira (13) e para domingo (15), mas coincidem na avaliação de que o governo precisa redirecionar sua linha econômica e aumentar o diálogo para preservar e reconquistar apoios. Inclusive do ponto de vista da governabilidade. O ato de sexta, que tem apoio formal de cinco centrais, não é contra nem a favor do governo, diz o presidente da CUT, Vagner Freitas, embora a central não vá aceitar qualquer tipo de retrocesso do ponto de vista político. "Ao mesmo tempo em que defendemos a normalidade democrática, não aceitamos perda de direitos", afirma, criticando quem fala, por exemplo, em impeachment. "É a intolerância dos derrotados", reage Freitas.

O presidente da CTB, Adilson Araújo, vê um quadro "complicado e complexo", com a sensação de que a eleição de 2014 "ainda não acabou". Em um momento de estagnação econômica e perda de representação dos trabalhadores no Congresso, ele avalia que o momento exige inteligência. "Defender a governabilidade deve ter sintonia com salvaguardar aquilo que já conquistamos", diz o sindicalista que, ao lado de Freitas e dirigentes de três outras centrais, participou ontem (10) à noite, em São Paulo, de encontro promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e pela Agência Sindical.

"O grande desafio é retomar o crescimento", acrescenta Adilson, para quem a pauta empresarial foi mais "célere" do que a trabalhista. Ao mesmo tempo, ele identifica a reorganização de forças, derrotadas na eleição, defensoras da redução do Estado na economia e da diminuição de direitos sociais.

Onda conservadora

"Estamos passando por um momento difícil", afirma o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna. A central não assina o manifesto relativo ao ato de sexta-feira, mas o dirigente esclarece que a entidade tampouco apoiará o ato de domingo, declaradamente anti-Dilma. Da mesma forma que sindicalistas ligados à Força podem participar da manifestação de sexta, outros deverão ir ao de domingo, particularmente os filiados ao Solidariedade e ao PSDB.

Na eleição do ano passado, a central também se dividiu nos apoios às candidaturas. "Nossa central não participa do dia 13, o que não significa que somos contra. Também não participa do dia 15. Não participa, não organiza e não faz divulgação", afirma Juruna.

Apoiador da reeleição da presidenta Dilma Rousseff, o secretário-geral da Força diz que as medidas provisórias anunciadas no final do ano passado (MPs 664 e 665, que dificultam o acesso a benefícios trabalhistas e previdenciários) foram o verdadeiro início da onda conservadora. "Marcou uma mudança de estratégia do governo, que mostrou a sua face conservadora. Foi uma medida dura, neoliberal", critica. Para ele, "o governo só terá reação se tiver compromisso com os trabalhadores".

Agenda vitoriosa

A uma pergunta sobre qual seria o "limite" das centrais nessa discussão, o presidente da CUT responde que é "implementar a agenda que foi vitoriosa nas eleições", contemplando desenvolvimento e inclusão social. "Queremos discutir isso nas ruas. Esperamos que uma parte da coalizão (que compõe o governo) não venha impor sua agenda conservadora." Freitas também repudia aqueles que, "escondidos" em suposta defesa da Petrobras e contra a corrupção, propõem o "golpismo" via impeachment. "Então, vamos acabar com esse financiamento privado de campanhas", contrapõe, lembrando que o combate à corrupção sempre foi uma das bandeiras dos trabalhadores.

A Intersindical também não participará do ato de sexta-feira, previsto para várias cidades do país, mas seu secretário-geral, Edson Carneiro, o Índio, vê no evento que ocorrerá dois dias depois uma "manifestação golpista". Ao mesmo tempo, ele acredita que o governo Dilma precisa dialogar mais e dar sinais para os setores identificados com uma pauta não conservadora, em um momento de avanço do conservadorismo no Congresso e na própria sociedade. "Não tenho dúvida de que um governo do PSDB iria avançar ainda mais sobre os direitos dos trabalhadores. É preciso repudiar, os trabalhadores não podem cair nessa manipulação."

Para Índio, também faltou "politizar" mais os trabalhadores no período recente, em temas como nacionalização e mídia. Agora, o momento é mais delicado. "Não podemos errar. E não temos clareza ainda do que será esse dia 13. Mas nos colocamos frontalmente contra o golpe e contra a quebra da normalidade democrática que a direita que impor."

Democracia

As atividades de sexta-feira não são para defender o governo, acrescenta o presidente da Nova Central em São Paulo, Luiz Gonçalves, o Luizinho. "Vamos lá para defender a Petrobras, a democracia, o crescimento com emprego e renda", resume. Segundo ele, em um primeiro momento é preciso tentar derrubar ou alterar as MPs 664 e 665, para então avançar em uma agenda mais propositiva, além da "defesa intransigente do aprofundamento da democracia". Luizinho lembra que as centrais têm uma marcha por direitos marcada para 9 de abril.

Neste momento, o presidente da CTB acredita que a correlação de forças torna-se desfavorável aos trabalhadores, que correm o risco de perder todas as disputas no Congresso, casos da proposta de redução da jornada de trabalho e do Projeto de Lei 4.330, sobre terceirização. Mas é também momento de resistir, sob pena de voltar "ao passado desastroso", referência aos anos FHC. "Pagamos o preço de uma certa apatia. Poderíamos ter pressionado mais o governo. A medida possível é ir para a rua", afirma Adilson.

Outros itens da pauta trabalhista, apresentadas aos candidatos presidenciais em 2014, são o fim do fator previdenciário e a correção da tabela do Imposto de Renda. Este último, aparentemente, foi atendido pelo governo, que negociou ontem com o Congresso uma correção escalonada. As centrais também esperam por medidas que atinjam o "andar de cima", caso da taxação sobre grandes fortunas.

Para Freitas, é momento de o trabalhador "estar de olhos abertos" e observar as propostas em jogo. "Não estão nem um pouco preocupados com o desenvolvimento do país", diz, referindo-se à oposição. Ele pede que o governo "se posicione", porque terá apoio da classe trabalhadora sempre que suas políticas forem voltadas para ela. "Vai ter sustentação nas ruas. Não precisa ficar preocupado com as agências de classificação de risco. Se alie com o povo."

Vitor Nuzzi
No RBA
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Terrorismo, mentiras e pedofilia na pedagogia do Sistema Globo


Graças a Deus não temos terroristas no Brasil. Se tivéssemos, e se fossem do tipo dos que metralharam os cartunistas do Charlie Hebdo, em Paris, há semanas, algum jihadista revoltado com a charge do Caruso, no Globo, talvez resolvesse por em prática sua sugestão: cortar a cabeça, fisicamente, da Presidenta Dilma Roussef em nome de alguma guerra santa genérica, lembrança entre nós do lacerdismo em sua campanha contra a corrupção, mesmo depois de se tornar público que a Presidenta não foi sequer investigada na Lava Jato.

A liberdade “sem limites” do chargista brasileiro, que se denomina dois em um por causa do irmão gêmeo, é da mesma espécie da dos franceses. Não há nenhuma regra moral, nenhuma regra de conveniência, nenhuma regra de respeito à liberdade do outro que se contraponham ao sagrado direito de livre expressão. A cruzada, não só do Globo mas de toda a grande mídia escrita brasileira, assim como da maioria das televisões, é no sentido de enxovalhar a vida privada e pública dos cidadãos  em  nome da liberdade de imprensa.

Ah, dizem eles, as pessoas tem o direito de ir à Justiça para reclamar contra injúria, calúnia e difamação praticadas pela imprensa, como prevê o Código Civil! Mas como, se elas coincidem com a publicação da ofensa? O que sai publicado no Brasil vale como verdade, sobretudo quando o noticiário televiso cobre as infâmias do meio jornalístico. Na maioria dos casos, a Justiça se sente intimidada pelo poderio dos jornais, revistas e televisões, que, sobretudo quando oligopolizados, caso do sistema Globo, se protegem reciprocamente num conluio criminoso contra toda investigação de seus atos, que chegam à exaltação indireta do próprio terrorismo. Não seria o da imprensa, entre nós, e no Ocidente dito democrático, o verdadeiro terrorismo?

Tenho mais de 35 anos de jornalismo e jamais vi, exceto às bordas de 64, neste caso pela ação extremada de ação e reação do lacerdismo, uma situação política tão exacerbada.  A culpa é exclusivamente da imprensa. Depois dos anos de chumbo da ditadura — que durante muitos anos, por orientação de um livro de Fernando Henrique, chamei “carinhosamente” de autoritarismo —, a imprensa se posicionou crescentemente do lado oposto, num movimento dialético pendular da história, caracterizado por extremos dos dois lados.

Creio que chegamos ao momento da síntese que é o resultado de uma interação dinâmica entre opostos. Momentos como esse costumam ser caóticos. Na Teoria do Caos, ou pela Segunda Lei da Termodinâmica, a superação de situações caóticas como esta implica a completa degeneração do velho. Em outras palavras, é o momento da depuração do Executivo, do Legislativo e, por que não, do Judiciário. Os dois primeiros já estão sendo depurados; no caso do Judiciário, convém apoiar a iniciativa do Senador Renan para uma CPI do Ministério Público.

O jihadista que, pela mão de Chico Caruso, pretendeu degolar Dilma, não representa o povo brasileiro. Ela, como todo mundo, tem pontos fracos e fortes. No curto prazo, enquanto Presidenta eleita legitimamente, ela terá de se valer de todos os seus pontos fortes para inibir o golpe em andamento e para tirar o Brasil do caos. Acho que tem competência para isso. E é o que vamos demonstrar no Rio, no dia 13, na Av. Chile, estendendo-se até a Cinelândia, num comício em defesa da Petrobrás, da Engenharia Nacional e de uma política verdade de cunho social-desenvolvimentista.

A propósito, antes de terminar: onde estavam os irmãos Caruso quando Dilma era torturada de verdade nos porões da ditadura militar? Estavam aprendendo a desenhar? Ou estariam ensinando desenho  para quem fez a legenda da camiseta  de Luciano Huck, “vem nimim que tô facim”, exibida publicamente por uma menina de uns 12 anos no seu programa da Globo — num caso que, se não fosse de gente dela, a Globo descreveria como exaltação da pedofilia? Será que essa TV tem dono para responder por isso? Se tiver, vale a pena aplicar nele a jurisprudência nazista do “domínio do fato”, invocada por Joaquim Barbosa e tão exaltada pela  Globo  no caso do mensalão!

J. Carlos de Assis - Jornalista, economista, doutor em Engenharia da Produção pela Coppe/RJ, autor de mais de 20 livros sobre Economia Política, sendo o mais recente “A Razão de Deus”, pela Civilização Brasileira.
No GGN
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O deputado paneleiro também teve dinheiro da Odebrecht…


O líder do PSDB na Câmara, Deputado Bruno Cavalcanti Araújo ( não sei se ele corta o “Cavalcanti” por conta dos versos do tempo da Revolução Praieira, ainda hoje conhecidos: ”Quem viver em Pernambuco, há de estar desenganado; ou há de ser Cavalcanti, ou há de ser cavalgado“) prestou-se à ridícula cena de tornar-se, da tribuna, mais um paneleiro.

O deputado deve se cuidar: afinal de contas, apanhou R$ 130 mil em doações de campanha da Construtora Norberto Odebrecht, e é capaz de aparecer alguma língua ferina sugerindo que ela não se deveu apenas ao fervor moral do deputado, compartilhado por aquela empresa. E mais R$ 80 mil da Queiroz Galvão, como a Odebrecht metida no escãndalo da Lava Jato.

Ou para lembrar que ele era o “queridinho” de Sérgio Guerra, que com os R$ 10 milhões apanhados de Alberto Youssef para dar fim á CPI da Petrobras, em 2010, só não entrou na lista do Janot porque morreu.

Tudo em 2014, porque em 2010, a fontes do deputado eram as indústrias farmacêuticas, de quem Araújo foi acusado pela Istoé de ser lobista — quando elas defendiam a liberação de inibidores de apetite proibidos, como a sibutramina, a anfepramona, o femproporex e o mazindol — que financiaram sua eleição.

Aliás, com circunstâncias muito curiosas, que poderiam fazer alguém pensar em “formação de cartel” de doadores de campanha: além da associação desta indústria, que lhe deu R$ 50 mil, oficialmente, Araújo teve o apoio de cinco laboratórios (Aché, Biolab Sanus, Eurofarma, Libbs e Infan), num total de R$ 405 mil, cada uma delas doando, harmonicamente, três parcelas de R$ 27 mil.

Coincidência, apenas, não foi combinado, claro…

Mas é capaz de algum maledicente sugerir que isso era um “cartel de doadores”, deputado…

Fernando Brito
No Tijolaço
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Panelaço: Quando o ódio caminha lado a lado com o analfabetismo político


Como pessoas inteligentes e bem informadas podem se deixar cegar por sua própria inconsequência política? Como é possível contribuir com o impeachment de um presidente, sem sequer avaliar as consequências que tal passo terá amanhã?

Nunca a classe média militou tanto politicamente quanto em tempos recentes. Nas eleições de 2014, atuou diuturnamente nas redes sociais e, mesmo sem ser convocada, saiu voluntariamente por aí com reproduções da Veja para buscar votos.

Tudo isso deve ser saudado como um passo positivo. O processo de criação de novas lideranças é prolongado e atuar em defesa de seus interesses de classe é não só legítimo, como pode servir de escola.

Porém, as eleições acabaram. Não está previsto um terceiro turno. E a classe média, agora, quer ganhar no grito. Literalmente.

Ela confunde o desabafo apaixonado do torcedor que grita gol de seu clube na sacada com o “fazer política” através de panelas e buzinas. É o barulho que cala o adversário e impede o diálogo. “Vaca”, “vadia” e “filha da puta” fazem parte do repertório de quem, no grito, quer negar ao outro o direito de se expressar.

A classe média, neste sentido, consegue ser ainda pior que o Jornal Nacional, que também cerceia a liberdade de expressão alheia, enquanto privilegia os seus — mas pelo menos o faz de maneira politicamente correta.

Existe um cordão umbilical entre ambos. Há quase 50 anos o JN, com suas mentiras, distorções, omissões e meias verdades, é o principal instrumento para moldar o analfabetismo político no Brasil.

Os governos do PT, como sabemos, quase nada fizeram para mudar isso. José Dirceu, lembrem-se, foi aquele ministro que acreditou que a Globo “era nossa”.

A classe média não quer saber de criar sindicatos, partidos, associações de moradores e movimentos sociais, nos quais um integrante pode tudo, menos ganhar no grito.

Até mesmo na reunião de condomínio é preciso argumentar, perder uma, ganhar outra e seguir a vida, do jeitinho que é na Política com pê maiúsculo.

Porém, os analfabetos políticos não conseguem alcançar intelectualmente a ideia de que conviver com o diferente está no cerne de qualquer democracia. Perder faz parte do jogo.

O GAFE — Globo, Abril, Folha e Estadão — faz o trabalho inverso daquelas máquinas de diálise e cada vez mais envenena o sangue dos desvairados.

O veneno é potencializado pelo organismo do analfabeto político. Lembrem-se, ele é um ser a-histórico, alimentado por doses diárias de informação descontextualizada.

Justamente por isso, vicejam neste ambiente as teorias conspiratórias mais desconexas. A acreditar nelas, o filho do Lula é dono de uma fazenda cuja sede é a Escola de Agronomia Luís de Queiroz (ESALQ), de Piracicaba. Tropas estrangeiras, vindas da Venezuela, já teriam invadido o Brasil com o objetivo de apoiar um golpe de esquerda de um governo cujo ministro da Fazenda é Joaquim Levy. Os médicos cubanos, devidamente infiltrados, estariam apenas esperando um sinal de Dilma para espalhar o vírus vermelho da comunização.

Estes absurdos não parecem absurdos a uma parcela considerável dos analfabetos políticos. Eles acreditam em tudo o que de alguma forma se encaixa em seus preconceitos.

Nesta manhã um colega narrou a seguinte experiência. Ele estava em casa quando ouviu a gritaria e o panelaço vindos, especialmente, de um prédio luxuoso, cujo condomínio custa 5 mil reais mensais. Saiu de casa e manifestou sua opinião contrária. Recolheu-se e foi dormir. Ao acordar, os vidros da porta principal de seu prédio estavam quase todos destruídos.

Este é o nível ao qual chegou o ódio irracional, capaz de fazer muito mais danos à democracia quando se espalha feito fogo pelas redes sociais. Marx talvez nunca tenha imaginado que chegaríamos a tal ponto: a guerra de classes instantânea.

No twitter, chamou minha atenção a mensagem de um internauta dizendo que a classe média brasileira tem sorte de não morar na Venezuela, onde falar mal do governo leva à cadeia. Eu o corrigi. Não é verdade. Pelo menos não enquanto Nicolas Maduro conseguir contemporizar com os militares à esquerda, que podem dar, sim, um golpe preventivo, caso a decisão de Obama de considerar Caracas uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos resulte no isolamento da Venezuela.

Lá, o maior legado de Hugo Chávez foi ter politizado como nunca a população do país. Tendo vivido uma guerra cruenta de Independência, ao contrário de nosso arranjo à brasileira nas margens do Ipiranga, os venezuelanos tem uma relação com a História muito diferente da dos brasileiros. O problema, lá, é que a elite militar que sobreviveu à guerra de extermínio dos espanhóis estabeleceu uma tutela sobre o poder civil, que ainda se manifesta nos dias de hoje.

Nosso problema, pelo menos o mais evidente, é que a famosa “modernização conservadora” nos impõe um pacto muito parecido com o de Punto Fijo, através do qual as elites venezuelanas fizeram um arranjo pelo qual se sucederiam no poder. Tal pacto, lá como aqui, é incompatível com a democracia. Lá, foi detonado por Hugo Chávez. Aqui, persiste, agora em crise profunda.

Se o PT não mexeu nos fundamentos dele, por outro lado ameaça ganhar outra eleição em 2018, impondo aos tucanos uma secura de 20 anos!

Em junho de 2013, a explosão difusa nas ruas chegou a ameaçar o nosso pacto. O analfabetismo político ficou explícito na incapacidade dos atores daquele movimento de tirar um saldo das manifestações de rua. A reação conservadora não tardou, na forma da criminalização dos protestos. Avança, com um Congresso mais conservador que o anterior, liderado por gente como Renan Calheiros e Eduardo Cunha.

Mas, a tensão continua no ar. A verdadeira elite, não a dos batedores de caçarola, parece dividida: “Ruim com Dilma, pior sem Dilma?” ou “Podemos dispensar a Dilma, fatiar a Petrobras e viver de rendas”.

Hoje, duas conhecidas — uma votou na Dilma e a outra em Aécio — falavam sobre seu desconsolo com a situação do Brasil. Reclamaram do preço do dólar, do possível desemprego, do petrolão e da inflação. Concordei com tudo. Acrescentei minhas próprias críticas ao aparente isolamento de Dilma, à sua inépcia política, ao discurso distante no Dia Internacional das Mulheres, ao ministério medíocre, às medidas econômicas que primeiro punem os trabalhadores.

Não disse, mas deveria ter dito, que se o Brasil tivesse uma Constituição como a da Venezuela, que prevê o recall, Dilma poderia ser submetida a um referendo na metade do mandato, cumpridas as exigências de assinaturas etc. Chávez enfrentou um e venceu por 60% a 40%.

Ainda que tão desgostoso quanto elas com o quadro atual, propus um exercício.

“Ok, vamos derrubar a Dilma. Mas, o que virá em seguida? Temer? Cunha? Novas eleições? Intervenção militar? É possível consertar a economia com passes de mágica? Não seria melhor esperar por novas eleições, já que Dilma acaba de ser reeleita?”

Ambas me pareceram confusas depois de todas as minhas perguntas. É como se tivessem escolhido Dilma para desabafar, o que pode ser positivo do ponto-de-vista psicanalítico, mas não é recomendável quando estamos falando do futuro do Brasil.

Fiz as perguntas só para provocar. Fui embora intrigado: como pessoas inteligentes e bem informadas podem se deixar cegar por sua própria inconsequência política? Como é possível dar um passo de tal envergadura, como contribuir com o impeachment de um presidente, sem sequer avaliar as consequências que tal passo terá amanhã?

Tenho comigo que é o poder do ódio provocando uma epidemia de cegueira, equivalente àquela que o Saramago inventou.

Luíz Carlos Azenha
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Papa defende financiamento público de campanha

Ele
A revista La Cárcova News, de uma favela argentina, fez uma entrevista coletiva com o Papa Francisco. As perguntas foram preparadas pelos moradores da favela La Cárcova e encaminhadas, no dia 07 de fevereiro, ao Papa Francisco, por intermédio do Pe. José María Di Paola, mais conhecido como Pe. Pepe.

Você fala muito de periferia. É uma palavra que usa muitas vezes. No que pensa quando fala de periferia? Em nós, nos moradores da favela?

Quando falo de periferia falo de limites.

Normalmente, nós nos movemos em espaços que de alguma maneira controlamos. Esse é o centro. Mas, à medida que vamos saindo do centro, vamos descobrindo mais coisas. E quando olhamos o centro desde essas novas coisas que descobrimos, desde as novas posições, desde essa periferia, vemos que a realidade é diferente. Uma coisa é ver a realidade do centro e outra coisa é vê-la do último lugar aonde vocês chegaram. Um exemplo. A Europa, vista de Madri no século XVI, era uma coisa, mas quando Magalhães chega ao fim do continente americano e olha a Europa, a partir daí entende outra coisa. Vê-se a realidade melhor da periferia do que do centro.

Também a realidade de uma pessoa, das periferias existenciais e inclusive a realidade do pensamento. Pode-se ter um pensamento bem estruturado, mas quando se confronta com alguém que está fora desse pensamento de alguma maneira tem que buscar as razões do seu pensamento, começa a discutir, se enriquece a partir da periferia do pensamento do outro.

Você conhece os nossos problemas. A droga avança e não se detém, entra nas favelas e ataca os nossos jovens. Quem deve nos defender? E nós, como podemos nos defender?

É verdade, ela avança e não se detém. Há países que já são escravos da droga e isso é preocupante. O que mais me preocupa é o triunfalismo dos traficantes. Essa gente já canta vitória, venceram, triunfaram. E isso é uma realidade. Há países ou zonas onde tudo está sob o domínio da droga. Com relação à Argentina, posso dizer apenas o seguinte: há 25 anos era um lugar de passagem da droga, hoje é um lugar de consumo. E não tenho certeza, mas penso que também se fabrica droga na Argentina.

Qual é a coisa mais importante que devemos dar aos nossos filhos?

A pertença, a pertença a um lar. A pertença se dá com amor, com carinho, com tempo, tomando-os pela mão, ouvindo-os, brincando com eles, dando-lhes o que necessitam em cada momento para o seu crescimento. Sobretudo, dando-lhes lugar para que se expressem. Se vocês não brincarem com seus filhos, os estarão privando da dimensão da gratuidade. Se vocês não derem lugar para que eles digam o que sentem e para que possam inclusive discutir com vocês, porque se sentem livres, não os deixarão crescer.

Mas o mais importante é a fé. Fico muito mal quando encontro crianças que não sabem fazer o sinal da cruz. A essas crianças não chegou o mais importante que um pai e uma mãe podem dar: a fé.

Você acredita que sempre existe a possibilidade de uma mudança, tanto em situações difíceis de pessoas que foram muito provadas pela vida, como em situações sociais ou internacionais que são causa de grandes sofrimentos para a população. De onde tira esse otimismo, inclusive quando teria motivos para o desespero?

Qualquer pessoa pode mudar, inclusive as muito provadas. Eu conheço pessoas que não viam nenhum sentido em sua vida, e atualmente estão casadas, têm seu lar. Isto não é otimismo, isto é certeza em duas coisas. Primeiro, no homem, na pessoa. A pessoa é imagem de Deus, e Deus não despreza sua imagem, sempre a resgata de alguma maneira. E segundo, na força do próprio Espírito Santo, que vai mudando a consciência. Não é otimismo, é fé na pessoa, porque é filha de Deus. Deus não abandona os seus filhos. Gosto de repetir a frase que nós, os filhos de Deus, damos um fora a três por quatro, nos equivocamos, pecamos, mas quando pedimos perdão, Ele sempre nos perdoa. Não se cansa de perdoar. Somos nós que, quando achamos que somos importantes, nos cansamos de pedir perdão.

Sua vida foi intensa, rica. Nós também queremos viver uma vida plena, intensa. Como se faz para não viver inutilmente? E como alguém pode saber que não vive inutilmente?

Bom, eu vivi muito inutilmente, eh? Não foi tão intensa e tão rica. Eu sou um pecador como qualquer um. Acontece que, simplesmente, o Senhor me induz a fazer coisas que são vistas, mas quantas vezes há pessoas que não são vistas, e o bem que fazem! A intensidade não é diretamente proporcional ao que se vê. A intensidade se vive por dentro. E se vive alimentando a própria fé. Como? Fazendo obras de fecundidade, obras de amor para o bem das pessoas. Talvez o pior pecado contra o amor seja renegar uma pessoa. Há uma pessoa que o ama, e você renega essa pessoa agindo como se não a conhecesse. Ela o ama e você a renega. Quem mais nos ama é Deus. Renegar Deus é um dos piores pecados que há. São Pedro cometeu esse pecado, renegou Jesus Cristo… e, assim mesmo, o fizeram Papa! Então, o que me resta? Portanto, não… Em frente!

Você está cercado por pessoas que não concordam com você?

Sim, evidentemente.

Como se comporta com elas?

Eu nunca fiquei mal em ouvir as pessoas. Toda vez que as escuto, fico bem. As vezes que não as ouvi me senti mal. Porque, embora não esteja de acordo, sempre, sempre vão dar-lhe algo ou vão colocá-lo em uma situação em que você é convidado a repensar suas coisas. E isso é enriquecedor. É a maneira de se comportar com os que não estão de acordo. Agora, se eu não estou de acordo com alguém e deixo de saudá-lo, fecho-lhe a porta na cara ou não o deixo falar, não lhe pergunto nada, é evidente que anulo a mim mesmo. Esta é a riqueza do diálogo. Dialogando, escutando, se enriquece.

A moda de hoje impele os jovens às relações virtuais. Na favela isso também acontece. Como se pode fazer para que saiam de seu mundo de fantasia e ajudá-los a viver a realidade e as verdadeiras relações?

Eu faria uma distinção entre o mundo da fantasia e as relações virtuais. Às vezes, as relações virtuais não são de fantasia, são concretas, são de coisas reais e muito concretas. Mas, evidentemente, o desejável é a relação não virtual, ou seja, a relação física, afetiva, a relação no tempo e no contato com as pessoas. E creio que o perigo que nós corremos agora é o de ter uma capacidade de informação muito grande, de poder nos mover virtualmente dentro de uma série de coisas que pode nos levar a nos converter em jovens-museu. Um jovem-museu está muito bem informado, mas o que faz com tudo o que tem? A maneira de ser fecundo na vida não passa por acumular informação ou manter somente comunicações virtuais, mas por mudar o concreto da existência. Em última instância, quer dizer amar.

Você pode amar outra pessoa, mas se não lhe der a mão, se não lhe der um abraço, não é amor; se você ama alguém a ponto de se casar com essa pessoa, ou seja, com o desejo de se entregar completamente, e não a abraçar, não lhe der um beijo, não é verdadeiro amor. O amor virtual não existe. Existe a declaração de amor virtual, mas o verdadeiro amor prevê o contato físico, concreto. Vamos ao essencial da vida. E o essencial é isso. Então, não jovens-museu que somente estão informados sobre as coisas virtualmente, mas jovens que sintam e que com suas próprias mãos — aqui está o concreto — levem adiante a sua vida. Gosto de falar das três linguagens: a linguagem da cabeça, a linguagem do coração e a linguagem das mãos. Tem que haver harmonia entre as três. De tal maneira que vocês pensem o que sentem e fazem, sintam o que pensam e fazem, e façam o que sentem e pensam. Isso é o concreto. Ficar somente no plano do virtual é como viver em uma cabeça sem corpo.

Há algo que queira sugerir aos governantes argentinos em um ano eleitoral?

Primeiro, uma plataforma eleitoral clara. Que cada um diga: nós, se formos eleitos, vamos fazer “isto”. Bem concreto. A plataforma eleitoral é muito saudável, e ajuda as pessoas a ver o que cada candidato pensa. Conta-se uma história, acontecida em uma das eleições de muitos anos atrás, protagonizada por alguns jornalistas vivos. Mais ou menos na mesma hora encontraram-se com três candidatos. Não lembro se eram candidatos a deputado ou a prefeito. E perguntaram a cada um deles: o que você pensa sobre tal assunto? Cada qual deu sua própria resposta, e a um deles um jornalista disse: “mas o que você pensa não é a mesma coisa que o partido que você representa pensa. Veja a plataforma eleitoral do seu partido…”. Às vezes, os próprios candidatos não conhecem claramente o programa do partido, bem estudado, dizendo explicitamente: “Caso eu for eleito deputado, prefeito, governador, vou fazer ‘isto’, porque penso que ‘isto’ é o que deve ser feito”.

Segundo, honestidade na apresentação da própria postura. E terceiro — é uma das coisas que temos que conseguir, oxalá, possamos consegui-la —, uma campanha eleitoral de tipo gratuito, não financiada. Porque nos financiamentos das campanhas eleitorais entram muitos interesses que depois ‘cobram a fatura’. Então, deve-se ser independente de qualquer um que possa me financiar uma campanha eleitoral. É um ideal, evidentemente, porque sempre falta dinheiro para confeccionar material de campanha, para a televisão. Mas, em todo o caso, que o financiamento seja público. Deste modo, eu, cidadão, sei que financio este candidato com esta determinada quantia de dinheiro. Que seja tudo limpo e transparente.

Do Tierras de América
No DCM
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A cretinização em marcha

De como a casa-grande e os sábios do jornalismo nativo apontam as soluções erradas para sair da crise

O erro não está em Rodrigo Janot, e sim no dizer do cartaz
Movimento Limpa Brasil/AFP
De Rodrigo Janot cabe acentuar o correto desempenho, de sábia prudência, segundo Wálter Fanganiello Maierovitch. Na foto ao lado, o procurador-geral da República sorri com bonomia, como se dissesse “não exagerem”. Reparo merece o dizer do cartaz que Janot exibe para os fotógrafos. No caso, a esperança é malposta.

Se indiciar um mero grupo de cidadãos brasileiros acusados de corrupção, e até condená-los ao cabo do processo que se seguirá, resolvesse o problema central e imediato do Brasil, a esperança teria sentido. Não é assim, porém. A corrupção é mal antigo e crônico. O cartaz em questão resulta da maciça campanha midiática urdida para desestabilizar o governo, alimentada pelo ódio de classe antipetista e pela leviandade e má-fé dos sábios do jornalismo nativo.

Este lamentável e forçado equívoco tem raízes. Por trás está a parvoíce de um país que emburrece progressivamente. Não chamemos em causa o povo, primeira vítima da corrupção e da prepotência da casa-grande, e sim aqueles que encaram o mundo a partir do seu umbigo. E aqui CartaCapital não esmorece na denúncia das responsabilidades do PT, a se mostrar incapaz de agir com independência e criatividade em relação aos andamentos tradicionais.

Todos caem na armadilha que eles próprios montaram, encarada paradoxalmente como única forma de exercício do poder. E é nesta moldura que se agita a crença no impeachment como antídoto à crise, bem como na corrupção de alguns enfim punida, a confirmar a cretinização em marcha, sem intenção de metáfora. Ideia que ecoa o passado para propor o golpe em um país muito diferente daquele dos começos da década de 60 do século passado. Os marchadores do próximo dia 15 talvez apresentem algum parentesco com aqueles de 51 anos atrás, mas o cenário é outro.

Punir a corrupção seria justo e salutar, e emprego o condicional porque ainda aguardo o desfecho desse enredo. O qual está longe de abarcar a corrupção em peso, os humores malignos que percorrem o Brasil do Oiapoque ao Chuí, os maus hábitos mais ou menos generalizados, macunaímicos. De todo modo, o problema central e imediato é a recessão que nos aflige, em meio a uma situação mundial sombria ao extremo.

Há sinais de resistência à austeridade imposta pelos apóstolos do neoliberalismo, nada, porém, indica mudanças profundas a curto prazo, em um mundo que oferece acolhida bem menos generosa à soja e ao minério de ferro do Brasil, eterno exportador de commodities. Sobram uma indústria abandonada, o desemprego, a inflação, a penúria. O índice negativo do PIB.

Igual à comparação precipitada entre a Marcha da Família com Deus e pela Liberdade e a manifestação do próximo dia 15, outra, francamente inadequada, se dá entre a Operação Mãos Limpas, que mudou os rumos da política italiana, e a Lava Jato. A Itália de 1990 era a quinta economia do mundo, sua indústria gozava de boa saúde, a Justiça provava a sua eficácia e não havia um único, escasso comunista envolvido no episódio, bem ao contrário dos petistas, que, aliás, comunistas nunca foram.

Quando diz que a Mãos Limpas gerou Berlusconi, Lula não erra. Sempre que o campo da política é devastado, na terra arrasada costumam surgir os piores oportunistas. A Itália de então não precisava, porém, de um New Deal, como sustenta CartaCapital, para sair da crise que no Brasil obscurece irremediavelmente os efeitos positivos do governo Lula. E que se origina dos males de sempre, repetidos ad infinitum, em uma sequência tão dolorosa quanto avassaladora.

Mino Carta
No CartaCapital
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