9 de mar de 2015

Quem é o repórter que fez Veja assumir que mentiu sobre Lula

Uma figura, no mínimo, curiosa: conheça o repórter-DJ acusado de ameaça a fontes, invasão de domicílio e falsidade ideológica; matéria assinada por Campbell obrigou a revista Veja a pedir desculpas aos leitores e ao próprio ex-presidente Lula

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‘Nas Asas do Planalto’, da Veja, mistura política e coluna social
A coluna “Nas Asas do Planalto”, da revista Veja Brasília, por várias vezes se rendeu à fofoca política para tentar emplacar suas notas entre os leitores mais ácidos e curiosos. Nos textos assinados pelo jornalista Ullisses Campbell, é possível conferir um conhecido deputado da capital aproveitando o Carnaval carioca de máscara e peito desnudo, que, segundo o próprio repórter, teria “arrancado suspiros” por onde passava.

Em outra edição, é a vez do governador do Distrito Federal ser flagrado dançando com a rainha de bateria da escola de samba Aruc. A nota, intitulada “De olho na mulata”, fazia uma crítica à visita do político ao galpão da escola, já que havia cancelado os desfiles de Carnaval no DF por falta de verbas.

Passada a empolgação carnavalesca, mas ainda com boa dose de veneno, a coluna escolheu como alvo um desafeto já bastante comentado pela revista Veja: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dessa vez, Ullisses Campbell trouxe a notícia de uma megafesta que estaria sendo organizada para um sobrinho do petista, de três anos. Segundo a publicação, o evento teria custado o valor de R$ 220 mil, pago em dinheiro vivo, e presentearia os convidados com um Ipad para cada um.

As afirmações foram desmentidas pela própria Veja, logo depois, em nota. Não sem antes tornar-se protagonista, mais uma vez, de uma sucessão de técnicas bastante questionáveis do ponto de vista da ética jornalística. O repórter responsável pela “barrigada” — termo utilizado na imprensa quando há ampla divulgação de uma notícia errada — foi acusado pela família de Lula por invasão de domicílio, ameaças e tentativa de se passar por outras pessoas a fim de obter informações. Os parentes do ex-presidente, inclusive, registraram um boletim de ocorrência contra o funcionário da revista.

Mas, afinal, quem é Ullisses Campbell?

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Repórter paraense de 43 anos, Ullisses morou em São Paulo e hoje se encontra na capital federal. Antes da Veja, teve passagens por veículos como Folha de S. Paulo, Correio Braziliense e Marie Claire. Um experiente jornalista que trabalhou com ele em Brasília afirmou, em conversa com a Fórum, que a imagem de Campbell simboliza muito do que se tornou a mídia brasileira na atualidade: uma porta-voz do antipetismo.

Segundo a fonte, que preferiu não se identificar, o repórter é mais um dos que tentam espaço na Veja abrindo mão de princípios básicos da profissão. “Esse tipo de jornalista está em voga. Contra o PT, vale tudo. A mídia é um grande partido de oposição e os que ascendem são, preferencialmente, os que fazem o serviço sujo”, pontua.

A fonte afirma ainda que esses “profissionais” acabam contribuindo para a imagem negativa da categoria perante o público. “Eles não têm formação política, são iletrados, não têm senso crítico. Cumprem a pauta a qualquer preço e de qualquer forma, como uma maneira de agradar os patrões. São oportunistas que viram jornalistas”, declarou. “Isso é o que tenho a dizer sobre essa triste figura”, comentou a respeito de Campbell, que considera nunca ter sido um repórter “brilhante”.

Pesquisa sobre a biografia do agora célebre funcionário da Veja mostra que o forte dele, na verdade, não é o dia a dia das redações. Em 2003, para tentar fugir do estresse da profissão, segundo suas palavras, fez um curso de DJ e se lançou no mercado. Hoje, ele pode ser visto na noitada brasiliense tocando em festas da alta sociedade e locais como Gate’s Pub, Bocanegra e a boate Victoria Haus. Em São Paulo, marca presença na Loca, Vegas e no Sonique, onde também promove eventos.

É um dos organizadores da festa Bagaço, conhecida por misturar estilos que vão desde MPB a artistas como Xuxa, Rouge e Chitãozinho & Xororó. Em uma entrevista concedida em 2006 ao portal Parou Tudo, ligado à agenda cultural do cenário LGBT, Campbell se definiu como “muito baladeiro” e, questionado sobre a comparação entre jornalismo e a discotecagem, disse que se trata de “coisas totalmente diferentes”.

Segundo ele, à frente das pistas de dança, o mais importante é seguir a intuição. E no jornalismo? “No jornalismo, eu sigo um código de ética rigoroso”, concluiu o repórter-DJ denunciado por invasão e falsidade ideológica.

Maíra Streit
No Fórum
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Humberto Costa não deve, não teme e contra-ataca: "Devolve Gilmar!"


O senador Humberto Costa (PT-PE) reagiu de forma exemplar ao pedido de inquérito aberto contra si a pedido do Ministério Público.

Primeiro apontou fragilidade no pedido do Ministério Público, mostrando que houve até erros factuais, pois ao contrário da versão apresentada pelo MPF ele sequer tinha mandato de senador em 2010 e ainda era apenas candidato.

Depois disse que quer depor o quanto antes para encerrar logo esse assunto, e que abre seus sigilos bancário, fiscal, telefônico e o que for preciso para provar sua inocência.

Por fim, acertou na mosca ao pedir "Devolve, Gilmar!", ou seja, pediu que o ministro do STF Gilmar Mendes devolva o processo para proclamar o resultado do julgamento da Ação de Inconstitucionalidade que proíbe empresas de financiarem campanhas eleitorais, a principal raiz da corrupção.

O julgamento já tem o resultado matematicamente definido. Os votos que faltam não mudará o resultado, pois já há maioria dos votos pela proibição do financiamento empresarial, mas o pedido de vista de Gilmar Mendes impede de concluir o julgamento.

O PT todo deve fazer o mesmo, colocando na agenda política de todos os parlamentares, todo dia e toda hora, o "Devolve, Gilmar!" e adotando o apoio ostensivo à proposta de reforma política da "Coalizão pela Reforma Política Democrática e eleições limpas", projeto de iniciativa popular que atende às principais bandeiras históricas do partido para a reforma política, e que já conta com mais de 500 mil assinaturas e apoio de mais de 100 entidades representativas da sociedade civil e dos movimentos sociais, como a OAB, CNBB, CUT, UNE, UBES, MST, Conamp, etc.


No Amigos do Presidente Lula
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Collor sobre Janot: é um poço de virtudes éticas!​

Por que arquivar o Aécio e não o Collor se os delatores são os mesmos criminosos? – PHA


O Conversa Afiada reproduz discurso do Senador Fernando Collor no Senado, do mesmo púlpito em que discorreu sobre outro poço de virtudes, o Procurador Geral Roberto Gurgel.

(Não deixar de ler sobre a CPI do MP!).

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Juiz valente mija prá trás


O juiz federal Alexandre Ferreira Infante Vieira usou o Twitter para se desculpar pela “piada” na noite do pronunciamento de Dilma (“Dilma disse que vai sancionar amanhã lei do Feminicídio. Legislando em causa própria?”, escreveu.)

Ele se explicou depois numa série de tuítes:















No DCM
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O panelaço da barriga cheia e do ódio


Nós, brasileiros, somos capazes de sonegar meio trilhão de reais de Imposto de Renda só no ano passado.

Como somos capazes de vender e comprar DVDs piratas, cuspir no chão, desrespeitar o sinal vermelho, andar pelo acostamento e, ainda por cima, votar no Collor, no Maluf, no Newtão Cardoso, na Roseana, no Marconi Perillo ou no Palocci.

O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção.

Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade.

Elite branca que não se assume como tal, embora seja elite e branca.

Como eu sou.

Elite branca, termo criado pelo conservador Cláudio Lembo, que dela faz parte, não nega, mas enxerga.

Como Luís Carlos Bresser Pereira, fundador do PSDB e ex-ministro de FHC, que disse:

“Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres.

O pacto nacional popular articulado pelo PT desmoronou no governo Dilma e a burguesia voltou a se unificar.

Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente.

Não é preocupação ou medo. É ódio.

Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou.

Continuou defendendo os pobres contra os ricos.

O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres.

Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força.

Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita.

Quando os liberais e os ricos perderam a eleição não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho.

E de repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo.”

Nada diferente do que pensa o empresário também tucano Ricardo Semler, que ri quando lhe dizem que os escândalos do mensalão e da Petrobras demonstram que jamais se roubou tanto no país.

“Santa hipocrisia”, disse ele. “Já se roubou muito mais, apenas não era publicado, não ia parar nas redes sociais”.

Sejamos francos: tão legítimo como protestar contra o governo é a falta de senso do ridículo de quem bate panelas de barriga cheia, mesmo sob o risco de riscar as de teflon, como bem observou o jornalista Leonardo Sakamoto.

Ou a falta de educação, ao chamar uma mulher de “vaca” em quaisquer dias do ano ou no Dia Internacional da Mulher, repetindo a cafajestagem do jogo de abertura da Copa do Mundo.

Aliás, como bem lembrou o artista plástico Fábio Tremonte: “Nem todo mundo que mora em bairro rico participou do panelaço. Muitos não sabiam onde ficava a cozinha”.

Já na zona leste, em São Paulo, não houve panelaço, nem se ouviu o pronunciamento da presidenta, porque faltava luz na região, como tem faltado água, graças aos bom serviços da Eletropaulo e da Sabesp.

Dilma Rousseff, gostemos ou não, foi democraticamente eleita em outubro passado.

Que as vozes de Bresser Pereira e Semler prevaleçam sobre as dos Bolsonaros é o mínimo que se pode esperar de quem queira, verdadeiramente, um país mais justo e fraterno.

E sem corrupção, é claro!

http://blogdojuca.uol.com.br/2015/03/o-panelaco-da-barriga-cheia-e-do-odio/
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Dilma afirma que Brasil não aceitará ruptura democrática


Após sanção da Lei do Feminicídio, a presidenta Dilma Rousseff comentou, nesta segunda-feira (9), as manifestações ocorridas no domingo, reafirmando que elas atestam o valor da democracia.

E que, por isso mesmo, não se pode aceitar uma ruptura da ordem democrática no País. “Terceiro turno das eleições, para qualquer cidadão brasileiro, não pode ocorrer. A não ser que você queira uma ruptura democrática”, disse em entrevista a jornalistas.

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A imprensa bate panelas

Os jornais de segunda-feira (9/3) fornecem um material precioso para a análise do processo que vimos observando, cuja principal característica é uma ruptura entre o chamado ecossistema midiático e o mundo real. O noticiário e os penduricalhos de opiniões que tentam lhe dar sustentação têm como fato gerador o pronunciamento da presidente da República em rede nacional da TV, mas o que sai nos jornais com maior destaque é a reação de protesto que partiu das janelas de apartamentos nos bairros onde se encastelam as classes de renda média e alta das grandes cidades.

A presidente tenta seguir o protocolo que recomenda informar a população sobre as medidas econômicas que o governo está adotando — boa parte das quais foi insistentemente defendida pela imprensa antes de se tornar decisão de governo. No entanto, não há uma conexão entre o conteúdo do ato oficial e as manifestações de ódio e intolerância que se ouviram na noite de domingo (8). Mesmo que a presidente estivesse anunciando, por exemplo, que o custo das mensalidades nas escolas privadas poderia ser debitado integralmente do imposto de renda, ela seria vaiada e xingada com a mesma intensidade.

Há uma forte simbologia na imagem do cidadão que dá as costas para a tela da televisão, no momento em que a mensagem é endereçada, e põe a cabeça para fora da janela ou sai à sacada do apartamento para dizer que é contra. Contra o que? Contra as medidas anunciadas? Não se pode responder que sim, porque quem estava protestando não podia ouvir o que anunciava a presidente.

Essa simbologia mostra que nesses apartamentos, curiosamente, a realidade estava falando sozinha na tela da TV, enquanto a perturbação emocional, diligentemente cultivada pela mídia nos últimos meses, produzia um novo fato político. O fato é a radicalização das camadas da sociedade mais expostas ao discurso da mídia, com base num conteúdo jornalístico construído para produzir exatamente esse estado de espírito.

Não há como contar o número de pessoas que bateram panelas e gritaram palavrões, e os jornais são obrigados a admitir que não houve protestos nos bairros onde moram os menos afortunados.

A língua culta dos midiotas

Esse é um aspecto que não será lido na imprensa: o jornalismo brasileiro é feito para aqueles que nunca se conformaram com as políticas de redução das desigualdades sociais. Ainda que tais políticas tenham beneficiado também as classes de renda mais alta, não apenas pela oportunidade de multiplicação das fortunas criada pela nova escala de negócios, aquela fração da sociedade brasileira mimada pelas políticas segregacionistas resiste a admitir a companhia dos emergentes na fila do aeroporto, no navio de cruzeiro ou nos empórios dos melhores bairros.

O jornalismo brasileiro é uma máquina de fabricar midiotas. O Globo, por exemplo, afirma na primeira página que “enquanto a presidente pede paciência em pronunciamento, população reage”. Para o jornal carioca, a população brasileira se resume aos moradores de bairros como o Leblon e a Barra da Tijuca.

A Folha de S.Paulo compara a circunstância ao clima que antecedeu o impeachment de Fernando Collor de Mello, e um de seus diretores afirma que o Brasil vive uma “debacle econômica”.

O leitor que não reflete sobre aquilo que lê, compra pelo que lhe é oferecido tanto a ideia de que a “população brasileira” está contida nas regiões onde se concentra o bem-estar, quanto a tese de que a economia nacional foi para o abismo.

O ruído das panelas e os palavrões na boca dos privilegiados são a língua culta da ignorância, mas não se pode condenar liminarmente quem não teve a oportunidade de se educar para a cidadania. A midiotice é moléstia que afeta principalmente a consciência social do paciente. Mas a circunstância não facilita apreciações sobre essa questão, mesmo porque nossa produção intelectual em torno de política e sociologia empobreceu drasticamente desde que a universidade resolveu higienizar o marxismo dos fundamentos do conflito de classes.

Aqui tratamos das responsabilidades da imprensa, e o episódio serve bem para ilustrar o que tem sido objeto de nossas observações: a mídia tradicional tange seu gado — o rebanho dos midiotas — na direção da irracionalidade.

O ato de bater panelas vazias sempre foi uma expressão daqueles a quem faltava alimento. Os abastados abestados se apropriam desse símbolo sem mesmo saber o que significa. Em torno dos edifícios onde os direitos são medidos pelo valor do metro quadrado, a maioria silenciosa não bate panelas.

Luciano Martins Costa
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Panelaço e xingamentos: é esta gente sem educação que quer assumir o poder?

Não foi o ajuste fiscal e seus efeitos deletérios sobre a população mais pobre o que levou os bairros ricos de 12 capitais, Higienópolis e Leblon como símbolos, a uivar de suas varandas gourmet impropérios contra a presidente eleita do Brasil.

Também não foi a corrupção, ou teriam sido ouvidos apupos endereçados aos peemedebistas Renan Calheiros e Eduardo Cunha, respectivamente presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. Os dois apareceram na lista do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, como suspeitos de envolvimento no desvio de recursos da Petrobras.

(Ninguém lembrou deles.)

Era Dilma Rousseff o alvo do protesto ululante de desrespeito, má educação, machismo, covardia.

Em pleno Dia Internacional da Mulher, os ricos resolveram que tinham de desconstruir aos berros a imagem de Dilma, cobrindo-a com o mais abjeto rol de xingamentos a traduzir o preconceito de gênero.

“Vaca”

“Puta”

“Filha da puta”

“Vagabunda”

“Xuuuupa, Dilma!”

“Ei, Dilma! Vai tomar no cu.”

Isso não é “divergência política” — é boçalidade fascista achando que, assim, pavimenta o caminho para o impeachment a jato da presidente.

Não pavimenta.

O linchamento moral de Dilma Rousseff faz lembrar que quem arreganha os dentes contra ela é a mesma parcela da elite hidrófoba que atacou a ascensão social dos pobres; que se opôs à regulamentação da profissão de empregada doméstica; que “denunciou” os aeroportos apinhados de gente que antes nem podia sonhar com uma viagem de avião; que, tendo acesso aos consultórios mais caros do país, vociferou contra o “Mais Médicos”; que se opôs ao ingresso dos negros nas universidades — pela primeira vez em 500 anos.

E que não aceita o resultado das urnas por ódio de classe.

Sejamos francos: a Dilma do segundo mandato ainda tem de provar que fará um governo socialmente justo — até agora, todas as pancadas do ajuste fiscal foram dadas do lado mais fraco…

Mas eu estou entre aquelas pessoas que nunca acreditaram que se possa construir um país melhor apelando para o ultraje baixo e feroz contra uma mulher.

Por tudo isso — hoje — sou Dilma e não abro.

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Sobre popularidade

O tempo é aliado de Dilma Rousseff, caso ela não repita os muitos erros de FHC

Para a vasta maioria dos eleitores de Dilma Rousseff em outubro passado,
a ideia de continuidade com mudança foi decisiva
Roberto Stuckert Filho - PR
Analisar a evolução da popularidade de Fernando Henrique Cardoso ao longo de seu segundo mandato contribui para a discussão das perspectivas da relação entre Dilma Rousseff e a opinião pública até o fim de 2018. A razão é simples: apesar das grandes diferenças entre os presidentes e seus governos, há semelhanças entre eles.

O elemento comum fundamental, do ponto de vista da opinião pública, é que os dois iniciaram o segundo governo frustrando expectativas da sociedade. Cada um a seu modo, FHC e Dilma prometeram algo que não conseguiram entregar.

O compromisso do tucano em sua campanha estava expresso em aforismo enxuto: “O homem que derrotou a inflação vai derrotar o desemprego”. A frase era boa e soou verdadeira, pois os eleitores acreditavam que a inflação fora vencida com o Plano Real. Quando veio a crise cambial em janeiro de 1999 e a inflação foi multiplicada por dez, ficaram perplexos com o tamanho da mentira engolida. De quebra, perceberam que o compromisso com o fim próximo do desemprego era outra balela.

Para a vasta maioria dos eleitores de Dilma em outubro passado, a ideia de continuidade com mudança foi decisiva. A petista, acreditou a maioria do eleitorado, era a garantia de que não haveria retrocesso nos avanços sociais iniciados por Lula em 2003 e que o edifício de políticas públicas favoráveis aos mais pobres seria mantido. E aceitaram sua promessa de estar disposta a responder às novas demandas de participação e transparência.

Ninguém imagina que o discurso de um presidente em campanha seja de franqueza total, nem na identificação dos problemas do País nem na formulação de promessas factíveis. O cidadão comum nem sequer presta atenção nos números que embalam os diagnósticos ou no porte das obras prometidas. Mas há algumas (poucas) expectativas fundamentais cujo descumprimento é pecado grave.

Para a maioria que reelegeu FHC e Dilma (aliás, de tamanho quase idêntico, pois ele teve 53% dos votos e ela 52% e é irrelevante se no primeiro ou no segundo turno), a frustração terá sido grande. O efeito é o mesmo para quem não votou neles, mas saiu da eleição sem mágoas, como costumam sair os cidadãos comuns.

No gráfico abaixo podemos ver a oscilação da desaprovação a FHC até o fim de seu governo. Ela começa com dados de dezembro de 1998. A campanha havia sido benéfica para o tucano. Ela elevou sua avaliação positiva em quase 20 pontos porcentuais entre maio e novembro, índice semelhante ao obtido por Dilma depois do início da propaganda eleitoral no ano passado.

Ou seja: o governante vai para a televisão com amplo tempo de exposição, consegue lustrar sua imagem, convence o eleitorado e vence a eleição. Fica, no entanto, mais exposto à crítica caso surjam problemas no início do segundo mandato.

A avaliação negativa de FHC teve uma forte elevação durante 1999, ultrapassou 65% na soma de “ruim” e “péssimo” em setembro, mas arrefeceu em 2000. Em setembro daquele ano, no período da eleição municipal, retrocedeu a 39%, nível acima, mas não muito, do que havia sido típico do primeiro mandato, ainda sob influência do lançamento do real.

Em abril de 2001,  FHC parecia haver resolvido seus problemas de imagem. Com 28% de avaliação negativa (e 33% de positiva), não era impossível que viesse a terminar bem, depois dos tropeços do começo. Mas aí aconteceu o apagão elétrico, que funcionou como um atestado de radical incompetência para um governo cuja imagem ainda estava em recuperação. Com o racionamento, o tucano tornou-se o que é.

À medida que os eleitores se desinteressaram de FHC e o desejo de mudança aumentava, a eleição de 2002 ficou cada dia mais distante do PSDB.

Começar com problemas de popularidade é ruim, mas não fatal para Dilma e seu governo. O tempo é seu aliado, aceita a premissa de que ela não vai repetir os muitos erros que o tucano cometeu.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
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Angélica

Angélica a caminho do Projac
A mucama de Angélica

Uma assistente roubou a cena no episódio em que a apresentadora Angélica foi hostilizada na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Prestativa, a moça negra segura um guarda-sol enquanto Angélica sai das instalações da universidade. Não demorou para surgirem no Twitter comparações à relação sinhá-mucama do passado escravocrata do país.

Em um primeiro momento a analogia parece exagerada. Assistentes levando sombrinhas para artistas são parte da rotina da TV e do cinema, como lembrou a atriz Mika Lins.

“Não sou amiga da Angélica mas não posso ser hipócrita: quando gravamos externa na Globo sempre tem uma equipe da produção que nos protege do sol ou da chuva enquanto esperamos para gravar. Isso para não derreter o make ou molhar cara, cabelo e figurino. Já tive alguém segurando a sombrinha para mim, sem que essa pessoa estivesse em situação de humilhação e sem que eu a deixasse de tratar com respeito pelo (sic) sua função naquele momento. Segurando um guarda chuva, me trazendo uma cadeira ou servindo um copo d´agua”, escreveu em sua conta no Instagram.

Congelada e isolada do contexto, é uma cena qualquer de bastidor de produção televisiva. No máximo mostra como as celebridades são bajuladas. Não pode ser comparada, em relação ao significado, a um quadro de Debret, pintor francês que documentou cenas da sociedade brasileira do século XIX.

Lázaro Ramos, por exemplo, já foi flagrado em situação parecida durante a gravação de uma novela. Chamá-lo de capitão do mato por causa da foto seria imbecilidade das grandes.

Mas as circunstâncias do incidente na UniRio permitem sim associar a postura da assistente com o papel das mucamas — escravas que faziam trabalhos domésticos e serviam às senhoras durante os passeios.

Angélica, ali, não era apenas uma apresentadora loirinha e bonitinha gravando um programa de amenidades. Ao ser expulsa de uma universidade pública sob os gritos de “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, ela personificou uma empresa de comunicação alinhada com tudo o que significa de mais atrasado: apoio à ditadura militar, jornalismo tendencioso, manutenção de estereótipos raciais, teledramaturgia alienante e sonegação fiscal.

No campus da UniRio foi encenada uma peça onde os papéis estavam bem definidos. A Globo era a Casa Grande. Angélica era a sinhá contrariada e a assistente, com todo respeito, encenou muito bem o papel de mucama.



Marcos Sacramento
No DCM



A sombrinha da Angélica

A apresentadora Angélica não é exatamente um exemplo em quem nossas filhas devam se mirar. E seu marido ganha dinheiro explorando pessoas pobres. Mas não foram esses atributos que a fizeram ser constrangida a sair da UNI-Rio na quarta (4), como mostra vídeo que circula na internet.

"O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo", gritavam os manifestantes. O bordão está tão roto que enfraquece qualquer ato que se pretenda contundente. Mas a loira (ou loura, como falamos no Rio) pagou pelo seu bem remunerado emprego. Quem está sob o sol é para se queimar.

Ou não. O momento mais significativo do vídeo se dá quando uma jovem morena, provavelmente funcionária da Globo, corre na direção de Angélica, abre uma sombrinha e passa a caminhar ao lado da estrela alva protegendo-a dos raios ultravioleta.

A moça diligente não tem culpa de nada, cumpria o papel que lhe destinaram. Mas a cena é puro Debret.

O pintor francês Jean-Baptiste Debret chegou ao Rio em 1816. Veio a convite de d. João 6º fazer registros oficiais da vida na então capital do reino português. Fez mais: também desenhou o cotidiano dos escravos na cidade.

Documentou maus-tratos, humilhações, as conversões às liturgias cristãs e, como não esquece quem já viu, a caminhada dos escravos pelas ruas atrás de seus senhores carregando-lhes os apetrechos, inclusive o guarda-sol.

Passaram-se quase 200 anos e ainda há moças negras (ou morenas, para quem quiser dourar a pílula/pele) segurando sombrinhas para senhoras brancas de mãos desocupadas.

Na verdade, não chega a surpreender. No Brasil desembarcaram mais de 5 milhões de africanos escravizados, mas tratamos essa ferida com o mito da democracia racial. Olhe as feições de quem crê nessa balela. E olhe as da maioria dos presos e assassinados.

Luíz Fernando Vianna
No fAlha
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Jorge Paulo Lemann é quem financia o golpismo?


O executivo Rodrigo Telles, diretor da Fundação Estudar, que pertence ao trio de bilionários da Ambev liderado por Jorge Paulo Lemann, e mantém o registro do domínio vemprarua.org.br, acaba de entrar em contato com o 247. Ele esclarece que o executivo Fábio Tran, responsável pelo movimento 'vemprarua', que tenta promover o impeachment da presidente Dilma Rousseff, está se desligando da Fundação. "Esta é a sua última semana", diz ele.
 
Em tese, Tran poderia ter sido afastado três meses atrás, quando o caso veio a público e Jorge Paulo Lemann se disse indignado com o uso político de sua fundação (leia mais em "Ao 247, Lemann nega apoio ao impeachment"). O responsável pelo 'vemprarua' permaneceu na fundação mesmo depois da descoberta de que registrou por lá o domínio porque, segundo Telles, vinha fazendo um ótimo trabalho. "Ele cometeu um erro, mas não pode ser crucificado por esse erro", afirmou. Segundo Telles, Tran está se mudando para Londres.

Telles informa, ainda, que o domínio está sendo cancelado. "O trâmite é lento e está demorando porque houve uma mudança no estatuto da fundação", diz ele. Segundo o Registro.br, órgão responsável pelo registro de domínios no País, um domínio pode ser cancelado em dois dias úteis.

Lemann garante que jamais permitiria que sua fundação fosse contaminada por interesses políticos. Mas a demora em afastar Fábio Tran — que, aparentemente, decidiu se afastar voluntariamente — e a lentidão para cancelar o domínio causaram danos à sua imagem pública.

Leia, abaixo, reportagem anterior do 247, publicada, nesta segunda-feira, às 10h:

247 - Em dezembro do ano passado, pouco depois da derrota nas eleições presidenciais, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) convocou um protesto — ao qual não compareceu — contra o governo Dilma. Era um ato organizado pelo movimento 'vemprarua', liderado pelo executivo Fábio Tran, que espalha mensagens contra o PT e a presidente Dilma Rousseff produzidas até por personagens com a célebre Rachel Sheherazade (confira aqui a página do movimento no Facebook).

Ainda em dezembro, o site Vermelho, do PCdoB, realizou uma pesquisa e descobriu que o domínio vemprarua.org.br estava registrado em nome da Fundação Estudar, do bilionário Jorge Paulo Lemann, homem mais rico do País, com uma fortuna de US$ 29 bilhões, em parceria com seus sócios Marcel Telles e Beto Sicupira, além do BTG Pactual, de André Esteves.

Procurado por 247, Lemann reagiu prontamente. "Eu não me meto em politica e a Fundação Estudar também tem que ser totalmente apolitica", disse ele, prometendo apuração rigorosa sobre o caso (leia mais em "Ao 247, Lemann nega apoio ao impeachment").

Lemann, no entanto, admitiu que "o Fábio Tran realmente existe na Fundação". Embora tenha prometido providências, Lemann, aparentemente, nada fez. Em seu perfil na rede social Linkedin, Fábio Tran informa que sua ocupação atual continua sendo a Fundação Estudar (leia aqui). Além disso, uma simples pesquisa no Registro.br, responsável pelo registro de domínios no País, informa que o domínio vemprarua.org.br continua em poder da Fundação Estudar.

Foi este domínio, por sinal, que deu origem à página no Facebook do movimento. Uma página em que diversos posts de convocação aos protestos vêm sendo patrocinados — ou seja, pagos à rede social de Mark Zuckerberg para atingir o maior número possível de pessoas.

A única mudança realizada de dezembro até agora foi a criação do domínio vemprarua.net, no exterior, sem identificação de quem é o responsável. É ele, agora, que direciona para a página do movimento, enquanto o vemprarua.org.br, embora ainda ativo, e em nome da fundação de Lemann, foi colocado fora do ar.

O apoio ao locaute dos caminhoneiros

Além do registro do vemprarua.org em nome da fundação que lhe pertence, Lemann também vem sendo acusado, num texto que começa a viralizar na internet, de ter apoiado o recente locaute dos caminhoneiros, que provocou desabatecimento e alta de preços em diversas regiões do País. Trata-se do post "Quem financia campanha do Impeachment e protesto de Caminhoneiros?", escrito por Marcos Lemos (confira aqui).

Lemos lembra, em seu texto, que empresas controladas por Lemann, como Ambev, Lojas Americanas, ALL e B2W (antigo Submarino), possuem imenso poder sobre a logística nacional. Coincidência ou não, em diversos posts, o movimento vemprarua pediu solidariedade aos 'amigos caminhoneiros' (leia, aqui, o texto de José Augusto Valente, especialista em logística, sobre o movimento político nas estradas).

No texto de Marcos Lemos, ele também posta um vídeo dos Revoltados Online, em que eles acusam o 'vemprarua' de ser um 'movimento de empresários'.

Procurado por 247, desta vez, Lemann decidiu não se pronunciar.
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Janot transforma em crime o que Gilmar defende


Nas petições relacionadas à Operação Lava Jato que apresentou ao Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral Rodrigo Janot listou quatro formas de desvios de recursos:

a) A primeira forma — uma das mais comuns entre os políticos — consistia na entrega de valores em espécie, que era feita por meio de funcionários dos operadores, os quais faziam viagens em voos comerciais, com valores ocultos no corpo, ou em voos fretados.

b) A segunda forma era a realização de transferências eletrônicas para empresas ou pessoas indicadas pelos destinatários ou, ainda, o pagamento de bens ou contas em nome dos beneficiários.

c) A terceira forma ocorria por meio de transferências e depósitos em contas no exterior, em nome de empresas offshores de responsabilidade dos funcionários públicos ou de seus familiares.

d) A quarta forma, adotada sobretudo em épocas de campanhas eleitorais, era a realização de doações “oficiais”, devidamente declaradas, pelas construtoras ou empresas coligadas, diretamente para os políticos ou para o diretório nacional ou estadual do partido respectivo, as quais, em verdade, consistiam em propinas pagas e disfarçadas do seu real propósito.

No quarto ponto, portanto, ele criminalizou as doações legais de campanha. Assim, igualou personagens como o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que recebeu doações declaradas, com outros investigados, como os deputados do PP, acusados de receber pagamentos mensais do esquema comandado pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa, na Petrobras.

Ao criminalizar as doações declaradas de campanha, Janot fez uma aposta de risco. Terá que convencer os ministros do STF que o que é legal, a partir de agora, passa a ser ilegal.

Além disso, será preciso convencer também a sociedade de que apenas as doações ao PT e aliados são propina. As doações de empresas privadas, como fornecedores de Furnas, Cemig, Alstom e Siemens a candidatos do PSDB, por exemplo, apenas expressam a cidadania corporativa.

Será que cola? Pode até ser, diante da pressão que será exercida por meios de comunicação engajados na derrubada do chamado 'lulopetismo'.

No entanto, se as doações privadas de campanha são crime, será forçoso cobrar do ministro Gilmar Mendes, do STF, a devolução do processo, aprovado por maioria do colegiado há quase um ano, que veda o financiamento privado à política.

Gilmar, que defende as doações privadas, pediu vistas e, desde então, o caso não avança.

Para criminalizar as doações legais ao PT e aliados e, ao mesmo tempo, manter a porteira aberta para o financiamento privado a outros partidos, será preciso fazer um grande exercício retórico, vendendo a tese de que empreiteiras doam ao PT como propina e ao PSDB (são sempre os mesmos doadores) por amor à causa.

No 247
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Bemvindo: Fora Dilma! Os males da democracia


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As vaias golpistas. Acorda Dilma!

Durante o pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff em rede nacional de rádio e televisão, neste domingo (8), vaias e panelaços foram ouvidos em alguns bairros da capital paulista. Pelas internet foi possível notar que os protestos, aos berros de "Fora Dilma", "Fora PT" e de alguns adjetivos mais raivosos, partiram de regiões da chamada classe média paulistana. De qualquer forma, o barulho deve servir para acordar a presidenta recém-eleita pela maioria do povo brasileiro. Envenenada pela mídia tucana, a direita está excitada com a possibilidade de derrubar governo. Ou Dilma parte para a ofensiva política ou o seu mandato poderá ser encurtado pelas manobras golpistas.

A jornalista Barbara Gancia, que participa de um programa da GloboNews e não pode ser acusada de governista, ficou impressionada com a reação de alguns bairros "nobres" de São Paulo. Na sua conta no Twitter, ela registrou: "Barulho de bate panela e vaia ensurdecedores no Itaim Bibi. Discurso de Dilma estará sendo recebido com o mesmo 'entusiasmo' no Itaim Paulista [periferia]?". De imediato, vários de seus seguidores descreveram a situação dos seus locais de moradia, o que confirma que as vaias, panelaços e apitaços foram "classistas", da elite alienada e hidrófoba da capital paulista:

Marco Barretto postou: "Aqui nos Jardins foi o maior barulho!". Mari Andrade relatou: "Morumbi fez barulho". E Luciana Vozza acrescentou: "Acabei de ver um vídeo de Moema. Muitos gritos. Aqui em Pinheiros, divisa com Vila Madalena, começando barulhinhos". Já Marcos Alves, da região operária do ABC paulista, brincou: "Em Santo André só barulho da chuva, que delícia". Rovilson de Freitas também deu seu relato da periferia. "Pirituba, silêncio...". Ju Oliveira completou: "O bom de morar na perifa é isso. Não ouço nada". E outro internauta ainda deu uma alfinetada nos tucanos aloprados: "Aqui tá normal! Mas avisa o povo para não suar muito porque não tem água para tomar banho".

Apesar das diferenças geográficas e de classe, as vaias orquestradas neste domingo a partir das redes sociais indicam que a polarização social se aprofunda no país. O discurso do ódio está nas ruas e na internet. Em seu pronunciamento em rede nacional de rádio e tevê, Dilma Rousseff até reconheceu que a situação do país é delicada. Há uma crise mundial que afeta a economia brasileira e prevalece a desinformação que irrita a sociedade. Conforme enfatizou, "o Brasil passa por um momento diferente do que vivemos nos últimos anos, mas nem de longe está vivendo uma crise na dimensão que dizem alguns". Ela ainda alertou os telespectadores de que a situação "é muito diferente daquelas crises do passado que quebravam e paralisavam o país", relembrando o triste reinado tucano de FHC.

A presidenta ainda justificou as medidas de ajuste fiscal adotadas no início do seu segundo mandato, mas garantiu que elas não prejudicarão "as conquistas dos trabalhadores e da classe média" — o que é bem difícil de acreditar. Seu discurso foi sincero, mas insuficiente para conter o ódio dos golpistas e para animar os setores sociais que garantiram sua reeleição em outubro passado. Para derrotar a onda direitistas em curso — que terá um teste decisivo nas marchas golpistas marcadas para 15 de março —, Dilma Rousseff precisará de muito mais. 

De imediato, ela precisará deixar a 'bolha' do Palácio de Planalto e voltar às ruas, em especial nas regiões brasileiras que manifestaram maior esperança no seu segundo mandato; deverá apresentar uma agenda positiva, com propostas que correspondem ao clamor de mudanças expresso nas urnas; e precisará reforçar a "batalha de comunicação" que polemize com as elites golpistas. Sem uma agenda mais aguerrida e radical, Dilma Rousseff terá dificuldades para concluir o seu segundo governo ou será "sangrada" e emparedada durante todo o seu mandato. A conferir!

Altamiro Borges
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Youssef, o dono do mundo

No clima de todos contra todos criado pela lista Janot, um criminoso reincidente assume o protagonismo

"O frisson do momento é a delação premiada de Alberto Youssef. Mas quem é Youssef? [...] Foi um dos doleiros usados pelo então operador do caixa do PSDB, Ricardo Sérgio, para 'externalizar', num linguajar ao gosto da legenda, propinas da privatização selvagem dos anos 1990.

Youssef é velho de guerra tanto em delitos como em delação premiada. Já fez uma em 2004, na época da CPI do Banestado, quando se comprometeu a nunca mais sair da linha. O tamanho de sua confiabilidade aparece em sua situação atual. Está preso de novo. Quem diz é o Ministério Público: 'Mesmo tendo feito termo de colaboração com a Justiça [...], voltou a delinquir, indicando que transformou o crime em verdadeiro meio de vida.'"

Tais linhas foram publicadas em 29/9/2014, por este colunista, quando a oposição festejava as declarações vazadas por um bandido contumaz. Vale repetir o diagnóstico do Ministério Público sobre o rapaz: "Transformou o crime em verdadeiro meio de vida". Não há aí muita surpresa em se tratando da espécie humana. Fernandinho Beira-Mar, Marcola, Al Capone e outros tantos com nomes mais nobres também padecem do mesmo caráter. A novidade é que hoje o Brasil parece estar nas mãos de um sujeito deste tipo, autor das principais "denúncias" que sustentam o listão.

O maior serviço prestado pela lista de Janot não é o de mostrar a qualidade dos políticos envolvidos, tampouco a de seus partidos. Mentiras à parte, sobrou para todo mundo. Tem PT, PSDB, PP, PMDB, SD. Mortos como Eduardo Campos (PSB) e Sérgio Guerra (PSDB) foram poupados, como era de se esperar.

A utilidade do listão é trazer o debate para um outro patamar. Com exceções de praxe, percebe-se que o sistema sobre o qual está assentada a democracia brasileira é viciado, e não de agora. Os atores mudam, os partidos também. Alguns, como Youssef, servem a vários senhores. Mas como virou costume dizer, o defeito é "sistêmico".

Estamos apenas no começo. Meses, quando não anos, vão separar as denúncias de veredictos definitivos. Mesmo estes, vide o chamado mensalão, estarão sujeitos a diferentes interpretações. O peso das provas, a favor ou contra, dependerá do humor, inclinação e bengaladas do distinto Supremo Tapetão Federal.

Mas se a longo prazo todos nós estaremos mortos, como falava Keynes, a vida segue no dia a dia para quem respira. Horas e horas de turbulência e chantagem ocuparão o noticiário doravante. Já o impacto na vida do cidadão estará ligado a efeitos bem mais realistas que a troca de farpas e baixarias entre os políticos.

É para aí que qualquer governo deveria concentrar suas atenções. Nos próximos dias 13 e 15, haverá manifestações relacionadas ao momento atual. Até aí, nada demais. Trata-se do exercício da democracia. O que chama a atenção é um detalhe: as duas levantam bandeiras contra o Planalto, mesmo contando com atores e objetivos diferentes.

A primeira, promovida por centrais e movimentos populares, protesta contra impeachment, defende a Petrobras etc., mas coloca no centro a defesa de direitos sociais atacados pelo receituário do ministro Levy/Dilma. Dois dias depois, golpistas habituais pretendem reunir seguidores para tentar reverter na marra a derrota nas urnas. Faz parte.

Eis o verdadeiro nó que o governo deveria estar preocupado em desatar. A começar por escolher um lado, de preferência o socialmente certo.

Ricardo Melo
No fAlha
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Primeira avaliação da lista de Janot


Dilma ganhou, Eduardo Cunha tomou um golpe na testa mas investigação sobre Palocci pode ser tentativa para Lava Jato chegar a Lula

Quarenta e oito horas depois da divulgação da Lista de Janot, ainda é cedo para um balanço definitivo sobre seu impacto político.

Parece claro, porém, que ela trouxe mais benefícios do que prejuízos ao governo Dilma e ao PT. Apesar de toda campanha tendenciosa da imprensa conservadora ao longo de 2014, Dilma Rousseff sequer havia sido alvo de qualquer investigação — ao contrário do que ocorreu, por exemplo, com o Aécio Neves, seu adversário principal na campanha, o que apenas ajuda a confirmar o caráter sem-caráter da cobertura, não é mesmo? Nossa imprensa não só vazou informações e suspeitas que não existiam, mas escondeu informações relevantes sobre o candidato do PSDB e suas ligações com Alberto Yousseff.

O fato é que Dilma deixou de ser alvo para qualquer investigação, o que irá esvaziar o movimento golpista escondido por trás da palavra “impeachment.” A presença majoritária de políticos do Partido Popular nas revelações da delação premiada modifica a discussão sobre a Lava Jato. Trata-se, mais do que nunca, de uma denúncia contra aliados do governo, que deram continuidade ao esquema criado por José Janene em torno de Paulo Roberto Costa e Alberto Yousseff, rearticulado depois da morte do deputado-tesoureiro. A participação de petistas no esquema, se for demonstrada, envolve personagens secundários.

A principal novidade, porém, envolve Eduardo Cunha. O novo presidente da Câmara, adversário agressivo do Planalto, tomou um golpe da testa. Não há motivo para condenações apressadas. Mas a denuncia trazida pelo PGR irá exigir explicações detalhadas e complexas, como se pode compreender pela leitura do Globo de hoje, que descreve Eduardo Cunha envolvido numa clássica operação de criar dificuldades para receber facilidades, inclusive com ajuda de parlamentares próximos.

Ocupado em atacar o governo de qualquer maneira, inclusive quebrando rituais na definição de subrelatorias na CPI da Petrobrás, numa truculência acima de qualquer padrão de convivência democrática entre maioria e minoria, Cunha muda de posição no jogo. A partir de agora terá,prioritariamente, de cuidar da própria sobrevivência política.

Nem tudo está resolvido, porém. Ao aceitar uma acusação contra Antonio Palocci — desmentida pela testemunha mais importante —, Rodrigo Janot abriu uma porta que pode permitir a Sérgio Moro chegar a Lula. Sem direito a foro privilegiado, Palocci pode ser investigado em primeira instancia, em Curitiba. A pergunta é saber se terá seus direitos de defesa respeitados ou se será submetido ao regime de prisão preventiva e delação premiada, numa repetição do escandaloso exercício para arrancar confissões e acusações de qualquer maneira. Também é de se perguntar qual postura o ministro Teori Zavaski, que assume o caso definitivamente, terá diante disso.

Paulo Moreira Leite
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Rehab


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Sérgio Porto # 159


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Caruso conseguiu provocar repúdio até em seus fãs com a charge de Dilma

O espírito da Globo
Existe uma coisa chamada, em alemão, de Zeitgeist. Significa “o espírito do tempo”.

Grandes jornalistas — editores, colunistas, chargistas — têm isso. Eles conseguem captar os ventos que sopram no mundo, as ideias que mobilizam a sociedade, as discussões que agitam as comunidades.

Mas não é um atributo duradouro. Ou você renova a sua capacidade de enxergar as coisas ou perde o Zeitgeist.

É, então, a sua ruína. Você é uma caricatura de você mesmo. Você defende carros na era das bicicletas e coisas do gênero.

O cartunista Chico Caruso enquadra-se nesse caso. Nos anos 1980, e pelo menos em parte da década de 1990, ele foi o chargista brasileiro.

Era tão surpreendente e fino que a TV Globo o colocou para fazer charges eletrônicas, algo inédito no Brasil.

Mas Chico Caruso foi perdendo a mão, e a cabeça, e o que resta dele, hoje, são ruínas.

A charge de hoje em que Dilma aparece de joelhos, prestes a ser decapitada por um extremista do Estado Islâmico, é simplesmente repulsiva.

Mereceu, nas redes sociais, um amplo, generalizado, estridente repúdio — e não apenas de petistas. Várias pessoas que se disseram fãs de Chico Caruso manifestaram sua revolta com o que viram.

Qual era o ponto? Difícil dizer. Qual era a graça? Mais difícil ainda. Qual era a raiva contra Dilma? Aí sim era fácil identificar.

Caruso, como todo humor produzido na Globo, sofre de um mal insanável. Ele não pode fazer graça com nada que comprometa os humores de seus patrões.

Bobo ele não é. Você não verá nenhuma charge sua que faça referência ao caso HSBC, por exemplo, assim como não viu nenhuma que ironizasse o aeroporto de Aécio.

E então ele vira um autor de desenhos que vão agradar os Marinhos.

Hoje, na imprensa brasileira, bater em Dilma e no PT substituiu o talento para você fazer carreira e merecer luzes.

Nulidades como Villa, Constantino, Sardenberg e tantos outros vivem de seu antipetismo ululante.

Marta Suplicy começou a atacar o PT e Dilma e veja no que deu: já é colunista da Folha. Batata. Quanto vai demorar para que a Globo lhe dê alguma coisa? E para que ela figure nas páginas amarelas da Veja?

Caruso, voltando a ele, fez uma troca lastimável. Perdeu o espírito do tempo e se embrenhou do espírito da Globo.

Caruso representa, no universo das charges, o que a Globo é fora delas: um símbolo da iniquidade, do golpismo, dos privilégios de uma casta egoísta e desonesta.

Você tem uma ideia de quanto ele está ultrapassado quando passa os olhos pelo trabalho de Latuff. É a inovação versus o atraso.

Com tantas charges esdrúxulas nos últimos anos, Caruso hoje se superou. Ele conseguiu cortar a cabeça de Dilma no Dia da Mulher.

Ele provavelmente vai receber tapinhas nas costas de seus editores e talvez até de algum Marinho.

Mas como chargista sua carreira como alguém digno de algum respeito terminou hoje, ceifada pela faca que ele colocou nas mãos de um terrorista prestes a decapitar Dilma.

Paulo Nogueira
No DCM
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