6 de mar de 2015

Rogério Correia entregou para Janot as provas do envolvimento de Aécio no caixa 2 de Furnas

13 de fevereiro de 2014: Os deputados petistas Adelmo Leão, Padre João, Rogério Correia e Pompílio Canavez
pouco antes de entregar no gabinete do procurador Rodrigo Janot as provas do envolvimento de Aécio no
esquema de caixa 2 de Furnas
Nessa terça-feira 4, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, livrou Aécio Neves (MG) de inquérito na Lava Jato, apesar de o senador e presidente do PSDB ser citado na delação premiada do doleiro Alberto Youssef.

Janot contrariou os procuradores responsáveis pelo caso que teriam recomendado que se pedisse ao Supremo Tribunal Federal (STF) abertura de inquérito contra o tucano.


O jornal prossegue:

O doleiro disse que recolheu dinheiro de propina na empresa Bauruense cerca de dez vezes. Em uma delas, o repasse não foi feito integralmente e faltavam R$ 4 milhões. Youssef afirmou aos investigadores ter sido informado de que “alguém do PSDB” já havia coletado a quantia pendente.

Indagado pelos procuradores, Youssef declarou não ter conhecimento de qual parlamentar havia retirado a comissão, mas afirmou que o então deputado federal Aécio Neves teria influência sobre a diretoria de Furnas e que o mineiro estaria recebendo o recurso “através de sua irmã”, segundo o texto literal da delação, sem especificar a qual das duas irmãs do senador ele se referia. O delator disse ainda “não saber como teria sido implementado o ‘comissionamento’ de Aécio Neves”.

Na delação, o doleiro descreve que de 1994 a 2001 o PSDB era responsável pela diretoria de Furnas. Yousseff declarou que recebia o dinheiro de José Janene nas cidades paulistas de Bauru e de São Paulo e enviava o valor para Londrina ou Brasília.

Janot, segundo o Estadão, pediu ao STF o arquivamento das investigações por considerar insuficientes as informações fornecidas pelo doleiro.

“Se realmente o Janot mandou arquivar o caso por falta de provas sobre o envolvimento de Aécio no caixa 2 de Furnas, eu tenho provas suficientes”, afirma o deputado estadual Rogério Correia (PT-MG). “Em Minas, todo mundo sabe que Aécio fazia caixa 2 em Furnas.”

“Eu posso encaminhar tudo para o Janot assim como para o ministro Teori  Zavascki, que está cuidando da Lava Jato no STF,  para que o Aécio não saia impune mais uma vez”, observa.

“Aliás, o Janot não pode dizer que não tem elementos para abrir investigação contra Aécio”, atenta Correia. “Há elementos de sobra, inclusive os trabalhos feitos pela Polícia Federal e pela procuradora federal Andrea Bayão, que agora trabalha na Procuradoria-Geral da República (PGR), em Brasília. Nós fomos até lá e entregamos pessoalmente no gabinete do Janot as provas do envolvimento de Aécio no caixa 2 de Furnas.”

De fato, em  13 de fevereiro de 2014, os deputados estaduais Rogério Correia, Pompílio Canavez e Adelmo Leão e o deputado federal Padre João, todos do PT de Minas, entregaram no gabinete do procurador-geral o pedido para análise da Lista de Furnas, a partir da denúncia feita em janeiro de 2012 pela procuradora Andrea Bayão.

“Nós pedimos também que levassem para o Supremo a Lista de Furnas, pois ela possui o nome de 156 políticos”, frisa Correia. “Se examinar a Lista de Furnas (na íntegra, no final deste post), vai ver que eles operaram no Brasil inteiro, a partir de Minas. Operaram pro Serra, Alckmin, Aécio…;”.

“O  desvio de recursos públicos de Furnas foi para campanha tucana e aliados em todos os níveis: deputados, senadores e governador”, diz Rogério Correia. “O próprio Aécio recebeu  R$ 5,5 milhões, conforme consta da lista. É bom lembrar que, em 1998, ele já tinha recebido 110 mil de mensalão tucano de Marcos Valério, que hoje significariam em torno de R$ 400 mil.”


Carta a Janot assinada 1_Page_1 Carta a Janot assinada 1_Page_2

A Lista de Furnas é de 2002 e diz respeito à eleição de Aécio Neves. Esse caso de corrupção irrigou, através de processos licitatórios fraudulentos em Furnas e empresas que fizeram “caixinha”, a campanha tucana daquele ano não só em Minas, mas também em São Paulo, Bahia e outros estados.

A Lista de Furnas já teve sua veracidade comprovada pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal (na íntegra, abaixo). E posteriormente o caso de corrupção foi atestado pelo relatório de 2012 da doutora Andrea Bayão, na época procuradora do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (na íntegra, abaixo).

“É um absurdo o Janot, mesmo sabendo disso tudo, não ter aberto inquérito contra o Aécio”, condena Correia. ”É muita má vontade de investigar um tucano, de novo.”

A propósito. Em 2011, o tucanos em conluio com a revista Veja disseram que Rogério Correia tinha falsificado a Lista de Furnas. Tentaram inclusive cassar o seu mandato. O deputado petista foi absolvido pelo Ministério Publico Estadual de Minas Gerais que comprovou a veracidade da lista.

Também por denunciar Furnas e os tucanos o jornalista Marco Aurélio Carone e o controvertido lobista Nilton Monteiro amargaram cadeia.  O primeiro ficou preso quase dez meses e por pouco não morreu de ataque cardíaco. O segundo permaneceu dois anos em prisão preventiva sem nenhuma condenação.

Por tudo isso, sem rodeios, o deputado Rogério Correia põe o dedo na ferida: “Aécio continuará impune, Janot?”



No Viomundo
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Morreu o policial a quem a CIA encomendou a morte de Zé Dirceu


Aconteceu sem muito alarde, principalmente por parte da mídia golpista desse país a morte no dia 24 de fevereiro desse ano do investigador Herwin de Barros, conhecido na polícia de São Paulo como “Brucutu”. Ele está nessa foto com Zé Dirceu.


Hervin de Barros salvou a vida de Zé Dirceu num momento muito complicado da ditadura empresarial militar.


É interessante ver como a história de homens que fazem história se juntam e se interligam de tantas formas.


A história desse investigador tem muito das contradições que a vida impõe a tantos de nós.


Por outro lado, a história mostra o quanto Zé Dirceu foi perseguido, considerado perigoso e a o que os EUA são capazes de fazer para que seus interesses sejam seguidos. Alguma ligação de tudo isso com os nossos dias atuais? O que você acha?


Reproduzo aqui o texto que Claudio Tognolli escreveu na data da morte Hewin, contando sua história entrelaçada ao então líder estudantil Zé Dirceu e que nos mostra o quanto a história também pode nos ensinar sobre humanidade e respeito.


Vou repetir um post deste blog, de junho do ano passado, quando Herwin me entregou uma carta que fez a José Dirceu, a quem salvou a vida: e pagou caro por isso…

Confira:

Corria julho de 1998. O mais antigo amigo deste blogueiro, Marcelo Rubens Paiva, havia obtido documento inédito, com a brasilianista Martha Huggins. Atestava a participação dos serviços de inteligência dos EUA no movimento de 1964, ora cinquentão.

Mas, para a confecção da capa daquela caderno Mais, publicado a 23 de agosto de 1998, era necessário algo praticamente sobrenatural: encontrar no Brasil algum agente do que viria a ser a CIA, central de inteligência do Uncle Sam (e que falasse com o gravador ligado).

Precisávamos de alguém que tivesse ajudado a dar o chamado Golpe de 1964, e com a chancela lustrosa dos EUA na carteirinha. Parecia impossível.

Foi o finado advogado criminalista Cezar Rodrigues quem deu a dica: um dos tiras mais experientes da Polícia Civil de São Paulo, Herwin de Barros, havia sido contratado pela futura CIA para ajudar a dar o “golpe”.

O agente gringo e agenciador de Barros tinha um nome bem literário: Peter Costello. Logo depois de termos colocado Herwin de Barros na capa daquela reportagem longuíssima, intitulada “A Companhia Secreta”, Herwin virou capa da revista Isto É. Afinal, nos havia revelado que fora pautado para assassinar ninguém menos que José Dirceu, no congresso da UNE em Ibiúna, em 1968. “Eu tinha ordens emanadas da CIA, a central de inteligência dos EUA, para assassinar Zé Dirceu. Não cumpri isso. E fui execrado.

Em abril de 1984 mudaram até o regimento interno da polícia de São Paulo para que eu pudesse ser afastado. Tudo porque me neguei a assassinar friamente Zé Dirceu”.

Em vez de matar Dirceu, resolveu detê-lo usando apenas um ancinho enferrujado e um pedaço de pau de 70 centímetros.

Uma piada, uma boutade, que corre por aí, diz que Fernando Gabeira é o responsável pelo Mensalão: afinal foi Gabeira que determinou que, em 1969, José Dirceu seria um dos 15 presos políticos que foram retirados da cadeia e trocados pelo embaixador sequestrado americano Charles Burke Elbrick. Bem, a culpa não é de Gabeira: quem salvou Dirceu foi Herwin de Barros…

Herwin de Barros escreveu uma carta ao José Dirceu que ele salvou. Você verá ao final deste post. “Minha vida toda fui perseguido por agentes de segurança, que queriam saber de que lado eu afinal estava. Ninguém acreditava que eu não estava de lado nenhum.

Em 1975 o SNI plantou duas mulheres lindíssimas em cima de mim, uma negra e uma loira. Deram em cima de mim para simplesmente saber qual era a minha ligação com as esquerdas”, revela Erwin.

Ele lembra de algo que lhe custou caro. Corria o ano de 1985. Um vetusto e poderoso delegado de polícia civil de São Paulo impede a entrada do advogado de Herwin na sala, para defender seu cliente. O advogado retira-se e bate a porta. Lá dentro, o delegado dispara a Herwin, varado de ódio: “Agora você vai ver o que é bom, ninguém mandou ter ficado ao lado dos terroristas”.

“Paguei muito caro o preço por não ter torturado, espancado, ou levado armas automáticas para prender Zé Dirceu no Congresso da UNE de outubro de 1968”, diz o hoje advogado Herwin de Barros.

Consultor de estrelas

Herwin é hoje consultor de estrelas do direito paulista como Paulo Sérgio Leite Fernandes, Ivo Galli, Orlando Maluf Haddad e Otávio Augusto Rossi Vieira. Tem duas filhas devotadas ao marketing.

Herwin foi pai de santo por 30 anos. Agora é devoto da Igreja Renascer. Chamam-no, ainda, pelos nomes dos tempos jubilosos de 40 anos atrás, Brucutu ou Peito de Aço.

Seu pai, o pernambucano Eufrásio Barros de Oliveira, estrela da polícia paulista, mas que foi amigo do cangaceiro Lampião em pessoa, fez de Herwin um atleta. Nadava, boxeava, fazia halterofilismo, jogava volley profissionalmente.

Herwin de Barros tem a voz rouquenha, de trovão. Ama as vulgatas de psiquiatria. Já foi um apaixonado pelas armas brancas, facas, navalhas, adagas, paus. Gosta de indicar como imobilizava bandidos empregando apenas uma navalha. “Ela vai na sua jugular, não dá tempo de você reagir”, demonstra.

“Eu tinha ordens expressas de interrogar radicalmente, interrogar fisicamente, Zé Dirceu e os líderes do Congresso, o Ribas e o Travassos. Era uma ordem manifestamente ilegal: eu deveria cumpri-la para robustecer o flagrante, arrancar na porrada confissões do Zé Dirceu para poder enquadrar eles na Lei de Segurança Nacional. Mas não fiz isso. E por isso fui perseguido, muito, dentro da polícia. Se fizesse o que eles mandavam, as sequelas que deixaria neles não os fariam sobreviver por muito tempo”.

Herwin relata um diálogo que teve com Zé Dirceu já preso em Ibiúna. “Ele deu aquele riso que chamo de um meio esgar irônico. Ele me perguntou se, como condutor do flagrante, eu não iria usar arma contra eles. Eu disse que não. Ele me respondeu que não acreditava em mim. Então eu disse “Zé Dirceu, a primeira coisa que vem na certidão de uma pessoa é se é homem, não se é macho. Eu sou homem, e de palavra”.

Chegados em São Paulo, numa perua Willis, no Departamento de Ordem Política e Social, no largo General Osório, centro de São Paulo, Herwin de Barros entregou José Dirceu às autoridades. Manhosamente, inventou que ia se lavar da lama. Pulou a janela do Dops e foi para casa, fazendo atalho pela ferrovia. Só voltou ao trabalho três dias depois.

“Só eu sei como fui repreendido por ter sumido. Mas não tinha como usar armas contra estudantes. Eles não eram terroristas que assaltavam bancos. Eram baderneiros”, explica Herwin.

Diploma de Uncle Sam

Ele guarda daquela época um tributo impresso do qual se orgulha: o diploma de segurança de dignitários, assinado pelo general Adélio Barbosa de Lemos, então secretário da segurança pública de São Paulo. A data da chancela lustrosa do general é evocativa dos anos de chumbo. “Ele assinou o diploma em 14 de março de 1964, pouco antes da Revolução de 64, a qual já sabíamos que ia acontecer”.

Em verdade os vocábulos “segurança de dignitários” eram eufemismos: o diploma era a notificação notarial de que Herwin de Barros tinha feito, com 40 homens escolhidos a dedo, um curso ministrado em São Paulo pela CIA, a Central de Inteligência dos EUA.

“Quem deu o curso foi um septuagenário, de cabelos brancos, norte-americano, chamado Peter Costello. Era da CIA e formado na Escola das Américas”, explica.

“Eu havia prendido Zé Dirceu. Comecei a ser seguido. Um dia entro no meu carro e vejo um envelope branco no banco. Abro. E leio “se você estiver do nosso lado, queime este envelope agora. Se não, apenas o guarde e depois se livre dele”. Era sinal inequívoco que Herwin estava sendo observado. Mas por quem? Bandidos ou mocinhos de então? “Até hoje eu não sei”, gargalha Herwin de Barros.

Com toda essa vida incandescente, com tantos episódios abismais, Herwin confessa jamais ter temido a morte. “Quem não morre não vê Deus”.

A carta a José Dirceu

Herwin de Barros entregou a este blog, com exclusividade, uma carta que escreveu a José Dirceu.

Confira:

Caro José Dirceu:


Eu, refletindo nestes últimos anos, observo o nosso querido país viver entre intestinos ranços, uma das mais delicadas situações generalizadamente promovida por egos exacerbados emanados pelo poder aliado à grande cupidez.


É com pesar que vejo a olhos claros tais desmandos. Outrora eram mais sofisticados de difícil transparência, porém com o mesmo fim, aliás de uma forma ou outra é no mundo, isto porque: o amor ao dinheiro em primeiro plano é a raiz de todos os males.


Há minoria proba que não se vende, respeitam valores e princípios. Por falar em princípios, reporto-me a 1968 quando em Ibiúna foi desfeito o congresso nacional da UNE onde então te conheci, caro José Dirceu, você que foi um dos maiores lideres estudantis da história do Brasil.


Jovem procurado por articular grandes passeatas, comícios relâmpago, e ações outras não-radicais e sem armas, vocês se defrontavam em pelo com policiais, no mano a mano. Entre outros procurados, era você o grande líder.


Reiterando a profícua palavra “princípio”, quando de você me recordei, tinha eu ordens para radicalizar teu interrogatório no próprio local, longe dos demais, pois era área de quase mata, e se assim o fizesse para tirar-te informações preciosas, poderia você ter sofrido algum mal maior ou definitivo….


Não atendi a esta ordem manifestamente legal, porque não era você o roubador de banco, guerrilheiro urbano, terrorista com bombas e atentados, que feriram e mataram muitos inocentes além de membros da segurança interna — como foi o oficial da forca pública Alberto Mendes Junior, morto a pauladas, Mario Kozel Filho, a bomba, etc.


Se elencarmos a proporção, dos dois lados, eles quase se equivalem. Mas, a maioria incute aos menos avisados que existe um lado só, como se fosse possível guerra sem inimigos.


Se fosse você um destes, como eu te disse naqueles dias, você veria de verdade quem era eu, Brucutu, do saudoso Setor Contra Assaltos de Bancos, hoje Deic …uma época de confronto entre homens, cada um cumprindo o seu mister.


Após tão histórico fato, deparei-me com você no aeroporto de Congonhas, num corredor sombrio, só nos dois, por volta das 22h30, naquele longínquo 1998, quando você retornava de Brasília, 30 anos após. Você era deputado federal.


Nos dias de hoje, o que tenho a te dizer é que sempre há primeira vez em tudo, e por consequência todos têm o direito à segunda vez. Digo isto porque você é intrépido, astuto, inteligente e com perfil para ser um grande estadista.


Mas não sei por quais águas você andou e provavelmente pecou por erro de avaliação, ao confiar ao longo dos anos em pessoas que, vendo o seu potencial, provavelmente o envolveram, sabendo como fazê-lo até galgarem altos postos; e como dizia sir Winston Churchill, o maior estadista do mundo, “o poder é o maior afrodisíaco que existe”.


Quanto a Ação Penal 470, não conheço os autos: mas é obvio que como advogado respeito a decisão do STF. Mas, vi também muitos cerceamentos e diminuições de colegas, por parte de ministros que comportaram-se com o devido rigor, como o faria nosso grande mestre e decano Paulo Sergio Leite Fernandes.


Quanto ao teu trabalho fora da cadeia, este só é possível após dois quintos da pena, quando passarem para o regime aberto. O semi-aberto é cumprido em instituto penal agrícola ou industrial, retornando à tranca a noite.


Não haveria sentido na vida se todos que erros cometessem não pudessem purgar os mesmos e retomarem seus novos rumos, com nova vida a trilhar caminhos outros.


Quem não tem pecados que atire a primeira pedra. Ninguém e tão e inteligente quanto parece e ninguém é tão burro quanto parece; gosto muito de jargões, sejam eles os chulos, das calçadas, ou bíblicos.


Como diziam os grandes e românticos malandros de outrora, da velha Lapa do Rio de Janeiro, “macaco é 17 mas dá com 68”…


Infelizmente a hipocrisia reina nos dias de hoje de forma avassaladora, com os valores invertidos, desagregação da família natural, a sociedade decadente com a mídia televisiva a propagar tudo isso…


Não abro mãos dos meus princípios familiares. Em sua maioria, a mídia apresenta o que lhe convém, por motivos outros.


A meu ver, no mundo Sodoma, Gomorra e Torre de Babel já estão instaladas há muito.


Eu, como todo aquele que respeita a vida, fui execrado e até hoje o sou por não ter executado você, José Dirceu.


Quem tem poder de a vida e morte é Deus, e a ira cabe só ao Senhor.


Encerrando, te desejo sorte. E que deus o abençoe e que a glória da segunda casa seja maior do que a da primeira.


Em terreno árido só há água cavando: portanto seja como a corsa, caro José Dirceu.


Afetuosamente, de quem te salvou


Herwin de Barros.

No Ligia Deslandes
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A transformação de Marta Suplicy em Rachel Sheherazade

Ela
O ódio não é um bom conselheiro e Marta Suplicy é uma prova ululante disso.

Marta voltou a ser colunista da Folha e, a julgar pelo último artigo, tomou Rachel Sheherazade como modelo — com a diferença fundamental de que Sheherazade não era petista até ontem.

A neopitbull defende que a vaca foi para o brejo por duas razões: a “negação da realidade” e a “estratégia errada”.

“O começo foi bem antes da campanha eleitoral deslanchar. Percebiam-se os desacertos da política econômica. Lula bradava por correções. Do Palácio, ouvidos moucos”, diz. “Era visto como um movimento de fortalecimento para a candidatura do ex-presidente já em 2014. E Lula se afasta. Ou é afastado. A história um dia explicará as razões.”

O país afundou, a propaganda enganosa cobre uma realidade econômica tenebrosa, não há transparência, não há autocrítica etc. O caos, a desgraça, a tragédia, o apocalipse.

Finalmente: “Os brasileiros passam a ter conhecimento dos desmandos na condução da Petrobras. O noticiário televisivo é seguido pelo povo como uma novela, sem ser possível a digestão de tanta roubalheira. Sistêmica! Por anos.”

Espera um pouco.

O que Marta sabe que você não sabe sobre a “roubalheira sistêmica”? Ela entrou no partido em 1981, foi deputada, prefeita, ministra duas vezes. Não era uma estafeta. Saiu em dezembro, se antecipando à reforma ministerial, chutando o balde. Fez ilações sobre a gestão anterior, de Juca Ferreira.

Em 33 anos, não provocou a desejada “autocrítica”? Depreende-se, pelo texto, que Marta faria parte do tal “grupo lulista” que teria perdido a corrida na campanha eleitoral.

Se é o que ela sugere, como é que a “história um dia explicará as razões”?? Por que ela mesma não explica?

Porque, nessa cavalgada ressentida, Marta quer marcar seu ponto na oposição com vistas a disputar a prefeitura em 2016. Ou ela enganava no PT ou ela tenta enganar agora fora do PT — ou, o que é mais provável, ambas as alternativas.

Numa coisa a Sheherazade rediviva foi precisa, especialmente se fizesse referência a si mesma: “O povo, e aí refiro-me a todas as classes sociais, está ficando muito irritado com o desrespeito à sua inteligência”.

Ninguém terá o direito de se surpreender de vê-la brilhando na Jovem Pan em breve.

Kiko Nogueira
No DCM
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Pacto entre PT e PSDB seria o fim dos dois partidos


A crise política e econômica pode levar à breca os dois projetos políticos mais consistentes que a democracia brasileira gerou no pós-golpe e ditadura militar. PT e PSDB costumam ser acusados de serem duas faces da mesma moeda e de alguma forma são, mas menos por suas semelhanças e mais porque se tornaram o ponto de equilíbrio de uma sociedade extremamente complexa e que, desde a proclamação da República, sempre viveu na corda bamba entre curtos períodos democráticos e golpes.

O PT tem um pouco mais de história. Nasceu em 1980, antes ainda do país ter saído do período militar. E disputou já em 1982 sua primeira eleições. Em 1984, no dia 25 de janeiro, o partido já liderava um ato popular pedindo Diretas Já na Praça da Sé. Ato que a Rede Globo caracterizou como uma festa comemorativa do aniversário de São Paulo.

O PSDB nasceu como uma tentativa de ser o velho MDB da resistência, já que com a vitória de Orestes Quércia, em São Paulo; Newton Cardoso, em Minas, e de outros políticos mais conservadores, o PMDB teria se tornado um partido mais de centro-direita. O PSDB nasceu principalmente a partir do esforço de Mario Covas para ser de centro-esquerda.

Em 1988, o partido disputou sua primeira eleição, mas não obteve bons resultados. Incluindo em São Paulo, onde lançou a prefeito um deputado federal, José Serra, que teve aproximadamente 5% dos votos. O PT venceu aquele pleito com a paraibana Luiza Erundina.

O PT nasceu para ser de esquerda e o PSDB de centro-esquerda. O tempo tornou o PT um partido social democrata. E o PSDB um projeto liberal.

Ambos foram andando de lado e caminhando em direção ao pólo mais conservador. Mas mesmo assim tornaram (pasmem!) a política brasileira algo mais civilizado.

Nos últimos tempos, ambos os partidos se viram enredados pelo excesso de pragmatismo e foram sendo capturados por setores menos republicanos. Tanto no PT quanto no PSDB quem tem dado as cartas no dia-a-dia muitas vezes não são suas grandes lideranças. Mas operadores que foram conquistando espaços e criando feudos.

Ambos os partidos também por isso foram se descaracterizando e perdendo reputação na sociedade. O que é diferente de perder votos. Ambos ainda continuam grandes o suficiente para serem os principais atores políticos nas próximas disputas, a despeito do enorme desgaste que sofreram.

A questão é que pelo desgaste sofrido, se as ruas esquentarem tanto PSDB quanto PT sairão torrados ao fim do processo. Os dois partidos estarão inviabilizados para o dia seguinte e isso pode levar o país a dias bem piores. E não melhores, como alguns supõe.

Essa avaliação certamente já faz parte das contas que lideranças de ambas agremiações devem estar fazendo e por isso começam a pulular notas na imprensa dando conta de um provável pacto entre eles.

Essa é a pior saída para a crise.

PT e PSDB precisam colocar limites nas suas ações no que diz respeito a respeitar a democracia e tê-la como um valor fundamental das regras do jogo. Retomar esse limite é importante e levaria o PSDB, por exemplo, a desembarcar dessa tese estúpida do impeachment de Dilma.

Talvez fosse importante também que o PT e PSDB debatessem uma reforma política que tornasse a disputa política menos suscetível a processos de corrupção. E que parassem de ficar apenas fazendo a disputa eleitoral na base da acusação de quem é mais corrupto do que o outro.

Mas pensar em algo para além disso significaria deixar a sociedade brasileira ainda mais sem alternativas. Ao invés de querer achar pontos em comum nos debates sobre os rumos do país, ambos deveriam debater cada vez mais suas divergências.

A sociedade brasileira precisa de pontos de divergência mais objetivos para fazer opções mais claras. E não de pontos em comum para ficar achando que são todos iguais e que por isso nada vai mudar nunca.

O grande erro político do início do governo Dilma foi esse. A presidenta fez campanha dando seta à esquerda e assumiu fazendo uma manobra radical para a direita. Aqueles que votaram nela não estão entendendo nada. E os que não votaram continuam achando-a uma inepta para o cargo inclusive porque está fazendo boa parte daquilo que o candidato em que votaram dizia que iria fazer.

Hoje muitos eleitores de Dilma já acham que seria melhor que ela fosse derrotada por Aécio do que vê-la implementando a agenda do adversário.

Ou seja, a presidenta deveria urgentemente pensar em como sair dessa sinuca em que se meteu, porque corre o risco de acabar completamente isolada.

Mas em hipótese alguma deveria imaginar que um acordo com a oposição seria a solução. Ao contrário, isso levaria a um abraço de afogados.

A sinalização seria a pior possível, porque o que se espera dos partidos é que eles sejam coerentes com os seus programas. E dos governantes que eles cumpram os compromissos que assumiram e respeitem o eleitor que neles acreditou.

Simples assim.

O resto é desespero.
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STF divulga lista com 54 investigados da Lava Jato

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Teori Zavascki, relator dos processos relativos à Operação Lava Jato, autorizou nesta sexta-feira (6) a abertura de investigação contra políticos de cinco partidos: PP, PMDB, PSDB, PMDB, PP e PTB. O ministro tirou o sigilo dos 28 pedidos de abertura de inquérito contra deputados e senadores acusados de envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras.

Além dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), a lista traz outros 52 nomes.

Veja abaixo a lista dos que são ou serão alvo de inquérito:
 
  • Agnaldo Veloso Borges Ribeiro (PP-PB)
  • Aline Corrêa (PP-SP)
  • Aníbal Gomes (PMDB-CE)
  • Antonio Anastasia (PSDB-MG)
  • Arthur Lira (PP-AL)
  • Benedito de Lira (PP-AL)
  • Cândido Vacarezza
  • Carlos Magno Ramos
  • Ciro Nogueira
  • Dilceu Sperafico
  • Edison Lobão
  • Eduardo Cunha
  • Eduardo Henrique da Fonte
  • Fernando Collor de Mello
  • Gerônimo Pizzoloto
  • Gladson de Lima Cameli
  • Gleisi Hoffman
  • Humberto Costa
  • João Alberto Pizzolatti Jr.
  • João Felipe de Sousa Leão
  • João Luís Argôlo Filho
  • João Sandes Júnior
  • José Afonso Han
  • José Linhares da Ponte
  • José Mentor
  • José Olypio Silveira Moraes
  • José Otávio Germano
  • Lázaro Botelho Martins
  • Lindbergh Farias
  • Luis Fernando Ramos Faria
  • Mário Negromonte
  • Nelson Meurer
  • Pedro da Silva Corrêa
  • Pedro Henry
  • Renan Calheiros
  • Renato Mole
  • Roberto Ferreira de Brito
  • Roberto Sérgio Ribeiro Coutinho Teixeira (PP-PE)
  • Romero Jucá
  • Rosaena Sarney (PMDB-MA)
  • Simão Sessim
  • Valdir Raupp
  • Vander Loubet
  • Vilson Luis Covatti
  • Waldir Maranhão Cardoso
ARQUIVADOS
  • Aécio Neves (PSDB)
  • Alexandre José dos Santos (PMDB)
  • Ciro Nogueira (PP-PI)
  • Delcídio do Amaral Gomes
  • Henrique Eduardo Alves (PMDB)
  • Romero Jucá
REMESSA A OUTROS TRIBUNAIS
  • Antônio Palocci Filho
  • Cândido Vacarezza - remessa dos autos a origem
  • Pizzolati Jr.
  • Pedro Corrêa - remessa dos autos ao TRF -1
  • Ciro Nogueira Filho, Agnaldo Veloso Borges Ribeiro - arquivado e remessa de documentos ao STJ
  • Cândido Vacarezza - remessa dos autos a origem
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Dilma e a síndrome do pacto social


Desde a redemocratização, foram criados alguns mitos que sempre são levantados em momentos de crise, como panaceia para todos os males e nunca implementados por inexequíveis.

Um, o mito da constituinte exclusiva — bandeira que Dilma Rousseff levantou no auge das manifestações de junho de 2013, provavelmente inspirada em um articulista do Estadão, que era quase um setorista de constituinte exclusiva em momentos de crise.

O outro mito é o do pacto nacional, concertação ou seja lá o nome que se dê.

Aparentemente o tema foi levantado por algum gênio político do Palácio e vazou para os jornais. Não se tome como proposta acabada. Na balbúrdia política atual, o conselho político de Dilma assemelha-se à lenda dos sete cegos e do elefante — cada qual apresenta a parte (uma ideia só sua) como o todo.

Dia desses conversei longamente com um dos melhores quadros do PT, parlamentar preparado, com bom trânsito em todas as áreas. Ele me expôs de forma didática o que seria uma proposta de bom senso para ser apresentada inclusive à oposição.

Sua lógica é a de que a crise pegaria a todos, governo federal e governos estaduais, incluindo os do PSDB. Portanto haveria o interesse generalizado em um pacto que preservasse o país.

Havia total alienação dele — e provavelmente de quem pensou no pacto — em relação à guerra política atual. Se ainda não perceberam, trata-se de guerra de vida ou morte do segundo mandato. Alô, alô, Dilma, eles não querem comida: querem sua cadeira.

A Fernando Henrique, Serra, Aécio e seus vikings da terceira idade, interessa única e tão somente o impeachment de Dilma. E são eles que comandam o partido, não os governadores. Para eles, aliás, se a crise pegar Dilma e Alckmin, matará duas coelhos com uma só cajadada.

Além disso, contam com todo o exército da mídia para desviar o foco das responsabilidades. Outro dia mesmo o Estadão atribuiu ao prefeito de São Paulo Fernando Haddad a responsabilidade pela crise de água, pelo fato do prefeito ter levado alguns dias analisando o projeto que multa desperdício na cidade.

Quando o governo está por cima, a proposta de pacto é gesto de grandeza; quando por baixo, sinal de rendição.

Se houver a mínima possibilidade da ideia ser analisada pelo conselho político, seria a prova definitiva de que Dilma jogou a toalha. Melhor então que proponha de vez o parlamentarismo ou renuncie.

O que Dilma precisa, mais do que nunca, é começar a governar, organizar suas ações internas, levantar os programas de cada Ministério, criar uma agenda positiva e desfraldar a bandeira do otimismo. Muito mais simples e eficiente.

Luís Nassif
No GGN
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Fábio Barbosa deixa a Editora Abril

O grupo Abril anunciou nesta sexta-feira (6) o desligamento do presidente executivo Fábio Barbosa. Segundo o boletim executivo — o famoso bolex —, Barbosa terá uma “agenda mais livre”.

O comunicado na íntegra:

Giancarlo Civita, chairman da AbrilPar, anuncia hoje mudança de comando na Abril Mídia. A partir desta sexta-feira, 6/3, ele reassume a presidência executiva da empresa, tendo sob sua gestão toda a atual diretoria. A convite de Giancarlo e Victor Civita Neto, presidente do Conselho Editorial, Fábio Colletti Barbosa continuará participando das reuniões de pauta da revista Veja.

Fábio Barbosa pediu desligamento com o objetivo de ter uma agenda mais livre para projetos dos quais já faz parte e outros nos quais gostaria de se envolver. Juntamente com os acionistas, concluiu que havia chegado o momento de encerrar seu ciclo no comando da empresa, depois de uma grande reorganização na Abril Mídia. “Tenho a honra de, a convite de Roberto Civita, ter contribuído para a Editora Abril permanecer no seu relevante papel de defensora da liberdade de imprensa e de expressão, (sic) qualidades fundamentais para a construção de uma sociedade democrática”, diz Barbosa. “Deixo a gestão da Abril Mídia com a certeza de ter cumprido um importante ciclo e confiante de que a empresa está mais forte para enfrentar os desafios em um mercado que está passando por mudanças profundas em todo o mundo”.

A troca de comando na Abril Mídia vem após um período de adequação da empresa às rápidas mudanças no mercado de mídia. Desde o final de 2011, quando assumiu o cargo, Fábio Barbosa tomou decisões que trouxeram agilidade e eficiência ao negócio, adequando-o à nova realidade do mercado. Houve uma importante redução de custos, principalmente na área operacional e de suporte, sem comprometer a qualidade editorial. De 2013 para cá, houve também uma revisão do portfólio de títulos. Há seis meses, Alexandre Caldini voltou à Abril, a convite de Barbosa e de Giancarlo, como presidente da Editora Abril. Caldini passa a atuar diretamente com Giancarlo Civita.

Giancarlo agradece toda a contribuição de Fábio, nesse ciclo que agora se encerra: “Fábio contribuiu muito com a nossa missão. Somos uma empresa com mais de seis décadas de atuação no mercado brasileiro, temos orgulho das nossas marcas e trabalhamos todos os dias para que a Abril continue ocupando seu relevante papel na sociedade brasileira. Ele fez parte dessa história. Desejo muito sucesso ao Fábio nesta sua nova etapa de vida”.

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Ou mais democracia ou vamos para o beleléu

O que está em jogo é avançar ou não na capacitação da sociedade para disputar o futuro do país contra a lógica dos mercados.

A separação entre direitos políticos e jurídicos, de um lado, e direitos sociais e econômicos, de outro, marca um período histórico específico da sociedade humana.

O período capitalista.

Aquele em que a democracia promete mais do que o mercado está disposto a conceder.

Em outros ciclos, sob o império romano, por exemplo, ou em sociedades escravocratas, as relações políticas e as estruturas econômicas guardavam asfixiante coerência.

Um escravo, como o próprio conceito indica, era integralmente despossuído de prerrogativas de quaisquer natureza.

Seria um oximoro falar em escravo com direitos civis se um poder irrestrito detinha  o mando sobre o seu corpo, a sua vida e a alma.

O escravo aos olhos do seu senhor era um ente desprovido de invólucro social.

A convivência nunca amistosa entre capitalismo e democracia guarda laços com essa raiz de polos antagônicos.

Do conflito emergiram avanços sociais, políticos e jurídicos  que abriram espaços de direitos subtraídos ao capital, em uma relação ontologicamente inconciliável  entre os que detém os meios produzir riqueza e aqueles cuja opção é vender seu corpo, sua mente — não raro, a alma — para esse fim.

Quando a realidade ao redor chapinha na água rasa das querelas em que cidadãos da tipologia de um Eduardo Cunha, ou de um Aécio, mas também um Cândido Vacarezza (o ex-deputado petista que se avocou um projeto de reforma política à imagem e semelhança de sua particular visão de mundo) disputam o ordenamento da democracia brasileira, é quase uma questão sanitária olhar para além dos seus limites.

O Brasil só não vai para o beleléu da ingovernabilidade se mirar acima do tornozelo histórico em torno do qual o estamento conservador pretende restringir a influência direta da sociedade na definição do seu futuro e do futuro   do seu desenvolvimento.

Não são palavras retóricas.

O que está em jogo é uma disjuntiva que deveria ser explicitada à população por quem pretende ir além dos limites nos quais a estirpe dos ‘cunhas’ quer restringir a profundidade da reforma política brasileira.

O que está em jogo é avançar ou não na capacitação da sociedade para disputar o futuro do país com a lógica dos mercados.

O descrédito atual no sistema  político  decorre da incontornável constatação de que o grau de democratização das decisões no Brasil não propicia à sociedade as ferramentas necessárias à superação de um impasse econômico que está arrastando a nação  para o beleléu da ingovernabilidade.

Pior que isso.

O que o conservadorismo pretende, mais uma vez, é adequar a democracia ao mercado, não dotar a sociedade dos meios para se impor a ele.

Esse é o cerne da disputa em torno da reforma política.

Até onde é necessário reformar a democracia brasileira?

Até onde for preciso para construir uma cidadania plena, capaz de dar ao desenvolvimento a sua destinação social e civilizatória.

Não é uma discussão metafísica.

No Brasil realmente existente  uma família assalariada paga imposto sobre o litro de leite;  a república dos acionistas embolsa dividendos livre, leve e solta, totalmente isenta de tributação.

O mesmo se dá com os lucros remetidos pelo capital estrangeiro, que o governo Fernando Henrique Cardoso isentou do imposto de 17% até então vigente no Brasil.

Idêntico critério plutocrático isenta integralmente os herdeiros, reiterando na esfera fiscal a discriminação sócio-genética que condena os frutos do berço pobre ao limbo.

Quando se fala que o Estado está gastando mais do que arrecada e é preciso ‘cortar’, dissimula-se um embate político que cabe ao glorioso jornalismo de economia lubrificar em gordurosas perorações de meia verdade fiscal.

Uma democracia capaz de taxar dividendos, remessas e heranças subtrairia ao centurião Joaquim Levy a prerrogativa de agir como um Bonaparte, que arbitra nas costas dos assalariados o principal  quinhão de sacrifício para regenerar as contas de toda a sociedade.

O governo estuda taxar as grandes fortunas, heranças, lucros e dividendos.

Por que não o fez logo de início?

Porque o sistema político brasileiro está assentado no poder dos interesses que seriam atingidos por esse cardápio de ‘ajuste’.

Uma reforma política que mantenha intocado o poder do dinheiro de sequestrar a democracia, precificando candidatos e partidos para inscrevê-los entre os seus ativos disponíveis, não credenciará a sociedade para destravar o passo seguinte que o Brasil requer.

O impasse coloca em jogo muito mais que um embate entre PT e PSDB.

A crise em curso  marca uma mudança qualitativa em relação a tudo o que o país viveu nos últimos doze anos.

Não é apenas um intermezzo de ajustes para voltar ao que era antes, como sugere a conveniência do discurso conservador.

De agora em diante será estruturalmente mais complexo, inevitavelmente mais conflitivo, governar em favor da maioria e da justiça social.

As determinações internacionais são relevantes.

A crise global é e será por muitos anos o novo normal. A China não crescerá mais os dois dígitos, em média, observados nas  últimas três décadas.

O desmonte definitivo do Estado social na Europa arrastará o continente para uma longa espiral descendente.

O império americano não tem mais fôlego para se erguer e arrastar o mundo ao redor.

Que esse trem descarrilado avance pelo sétimo ano, na mais lenta, incerta e anêmica recuperação de todas as grandes crises capitalistas do século XX, dá a medida do quão longe se encontram as margens do rio revoltoso em que flutua o futuro brasileiro

Mas há distorções locais de igual gravidade.

Elas não podem mais ser subestimadas, sob pena de se aleijar a capacidade de resistência diante do moedor de carne conservador.

A economia brasileira resistiu à lógica da restauração neoliberal nos últimos anos, mas deixou aberto um flanco que agora ameaça reverter suas conquistas e inviabilizar outras novas.

Esse é o principal alicerce da crise em curso.

A verdade é que a largueza das mutações sociais registradas desde 2003 não se fez acompanhar de uma contrapartida de representação política suficiente forte para evitar o risco do revés agora em marcha.

O Brasil avançou nos últimos anos explorando rotas de menor resistência, indo além delas em alguns casos e setores. Mas a crise global evidenciou os limites dessa associação a frio entre desenvolvimento e justiça social.

Ao bonapartismo do crescimento sucedeu-se assim o cesarismo do ajuste, igualmente à margem da repactuação social, e ao custo de uma quase catatonia das forças progressistas.

O conjunto remete de volta à natureza singular da disputa em torno da reforma política brasileira.

Ademais de uma transição de ciclo econômico, e sobreposta a ela, há uma crise da democracia brasileira que sonega aos interesses amplos da sociedade meios para liderar um novo estirão de desenvolvimento com justiça social.

O risco de o Brasil ir para o beleléu da ingovernabilidade a bordo de uma paralisia econômica — que interessa ao conservadorismo fomentar — não é negligenciável.

A saída existe e não é essa que o Banco Central pratica, de manter a conflagração latente em estado de coma  através de doses crescentes de juros (12,75%, ou uma  taxa real de 5,3%, mais alta do planeta)

O desafio é encarar de frente uma lacuna de que sempre se ressentiu a agenda progressista desde a chegada ao poder, em 2003.

A lacuna da coerência entre meios e fins; entre o desenvolvimento que se quer para o Brasil e a democracia necessária para construí-lo.

Essa é a contradição que a crise escancarou.

Não se incorpora 60 milhões de ex-miseráveis e pobres ao mercado sem mexer nas placas tectônicas de uma ‘estabilidade capitalista’ alicerçada em uma das mais desiguais estruturas de distribuição de renda do planeta.

Sobram duas opções.

Avançar e dar coerência estrutural e política à emergência desse novo ator, ou recuar e devolvê-lo à margem de origem, colocando-o em modo de espera até a próxima maré cheia.

Até um novo ciclo de bonapartismo do crescimento acomodatício.

Não é apenas um impasse conjuntural.

É uma encruzilhada da democracia. O seu avanço, ou o seu acoelhamento através de uma reforma abastardada, determinará se iremos para o beleléu enquanto projeto de futuro solidário e próspero; ou se a sociedade assumirá o comando do seu destino para ditar um novo curso ao século XXI brasileiro.

Saul Leblon
No Carta Maior
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A terceira chance de Dilma


Há espaço para uma recuperação do segundo governo Dilma 2, devido às seguintes razões.

A primeira é que presidente Dilma Rousseff está começando a ficar barata.

O princípio básico do mercado é que ninguém é bom ou ruim: é caro ou barato. Se o mercado percebe que algum ativo está precificado acima do seu valor, dá início a um ajuste de preços, derrubando as cotações. Esse ajuste acaba potencializado pelo fenômeno conhecido como “overshooting”. Cai tanto até que começa a ficar barato. Se não virar pó, pode se recuperar, quando o mercado se dá conta que também não é assim tão ruim

“Virar pó” significa o impeachment.

* * *

O desastre político de Dilma consistiu em outro fenômeno eleitoral: a segunda chance. Em geral, depois de grandes erros, alguns políticos acabam tendo direito à segunda chance. Só que, nesse caso, encontrará eleitores muito mais severos, pouco propensos a perdoar a repetição de erros.

Com a teimosia e os erros de avaliação na disputa da presidência da Câmara, na divulgação do pacote de ajuste fiscal e na demora em resolver a questão Petrobras, Dilma queimou a segunda chance e tornou-se a Geni do país. Todos os problemas estão sendo debitados na sua conta. E isso a torna barata.

* * *

A segunda razão são sinais de mudança de estilo da presidente — premida pelas circunstâncias.

Nos últimos dias ela desceu do salto e aproximou-se do PMDB, reuniu-se com lideranças, prometeu participação nas decisões, tentando recompor sua base política.

Esse sopro de realismo é um sinal, ainda que pequeno, de alento.

* * *

A terceira razão é a descompressão das demandas imediatas.

Nas próximas semanas, os seguintes problemas deverão estar equacionados:
  1. Petrobras. O novo presidente Aldemir Bendini assumiu com um plano claro de ajuste: implementar formas de governança modernas, desmobilizar ativos que não estejam na operação central da empresa e equacionar as novas necessidades de investimento. É questão de tempo para a empresa recuperar-se e deixar de ser notícia.
  2. Recomposição da base de apoio. As denúncias da Lava Jato baratearam novamente, especialmente por enfraquecer os dois principais caciques do PMDB.
  3. Recomposição do grupo estratégico, com a inclusão do vice-presidente Michel Temer. Com sua senhoridade, Temer poderá dar rumo às discussões e domar os conflitos internos, controlando melhor os ímpetos do Ministro da Casa Civil Aloizio Mercadante.
  4. Ajuste fiscal. O saco de maldades está prestes a se completar. Por falta de alternativas acabará recebendo apoio do PT e do próprio PMDB. Depois, haverá espaço para começar a espalhar bondades. Dilma tem dois bons oficiais para o segundo tempo do jogo: o Ministro do Planejamento Nelson Barbosa e o Secretário de Assuntos Estratégicos Roberto Mangabeira Unger.
* * *

A quarta razão é que o impeachment não está mais sendo visto como saída.

Quando o presidente do Senado, Renan Calheiros, devolveu a Medida Provisória do ajuste fiscal, como represália, e foi saudado pelo senador Aécio Neves como “presidente de todos os brasileiros”. Comprovou que a única bandeira da oposição é ver o circo pegar fogo. Era assim com o PT oposição; é assim o PSDB.

Por falta de alternativas, é possível que Dilma seja premiada com a terceira chance.

Luís Nassif
No GGN
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O estranho mundo dos midiotas

Se você lê jornais e assiste ao noticiário televisivo, e além disso leva em conta os comentários dos especialistas em generalidades que proliferam nas emissoras de rádio e acompanha sofregamente tudo que circula nas redes sociais digitais, pode estar certo de que você está incurso no arco de seres humanos que estão sendo estudados pelos especialistas em comunicação de algumas das melhores universidades do mundo. Esse espectro vai do indivíduo profundamente elaborado, que é capaz de filosofar sobre o mundo midiatizado, ao perfeito midiota.

O contexto teórico considerado por esses estudiosos tem como objeto o que em língua inglesa se chama “media literacy” e que, em português, é chamado, principalmente no núcleo de estudos específicos da Universidade de São Paulo, como Educomunicação. Trata, como se pode depreender, de uma educação especial que habilita o indivíduo a entender o conteúdo da mídia e formular sua própria opinião a respeito dos assuntos abordados. O pressuposto de tal disciplina é que a mídia tem uma função social que vai muito além da tecnologia e dos recursos financeiros usados para fazer com que aconteça a comunicação.

O professor Thomas Bauer, responsável pela cadeira de Cultura da Mídia e Educação pela Mídia na Universidade de Viena, observa que essa função dos meios deve extrapolar o conceito de troca de informações passando por um filtro (mediação), para o propósito de contribuir para a construção de uma ordem social baseada na diversidade. Além de balizar a organização da ordem social, juntamente com outras instituições e entidades formais ou informais, a mídia deve participar das negociações entre os indivíduos, isoladamente ou em grupos, e entre si, para que se obtenha uma sociedade sustentável.

Uma proposta de educação que considere o papel da mídia como tal deve, segundo Bauer, apontar para a conquista da competência de distinção do significado de diferentes situações, em termos de ética, estética e benefício potencial. Numa circunstância ideal, a sociedade sustentável conta com pessoas capazes e responsáveis pelo uso da mídia como meio de comunicação e conexão social, e não apenas como clientes a serem convencidos disto ou daquilo.

Uns e outros

Como no “vidiota” do romance de Jerzy Kosinski que inspirou o filme intitulado Muito além do jardim, a intensa exposição à mídia, sem o contraponto do senso crítico, pode ser uma prática perigosa. O indivíduo habilitado para interpretar a narrativa e o discurso propostos pela mídia nesse papel é também capaz de questionar o sentido que a mídia propõe para os acontecimentos do cotidiano.

Um grande contingente de cidadãos em condições de distinguir os vários significados das situações que a imprensa lhes apresenta será mais senhor de seu destino e se tornará menos vulnerável a discursos manipuladores e demagógicos.

O dilema está no fato de que esse benefício depende em grande parte de uma determinação da mídia hegemônica de usar seus recursos eticamente e com grande empenho estético. O problema se complica quando a própria imprensa faz escolhas contrárias à ética, esteticamente inadequadas e fora do propósito do bem, com o objetivo de usar a conectividade social que lhe é atribuída para arregimentar adeptos a um modo de vida simbólico que contraria o interesse coletivo.

Claro que tudo isso pressupõe a existência de interesses coletivos em meio a idiossincrasias individuais, mas o problema se resolve com a observação segundo a qual a sociedade se forma por meio da comunicação, produtora de sentido — portanto, criadora de cultura.

Uma maneira simples de avaliar se determinado meio contribui para este ou aquele tipo de sociedade é observar se suas mensagens estimulam, por exemplo, uma cultura de paz ou a violência; se propõe uma visão tolerante das diferenças ou se investe no confronto.

É da modernidade supor que o indivíduo se torna responsável por suas escolhas, ou, em outra acepção, no uso de suas vontades fortes ou fracas. Portanto, parte da responsabilidade pelo que se processa no ecossistema midiático compete à mídia, mas o arbítrio ainda é do cidadão.

Quando dizemos que “você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito”, estamos apostando que, exercitando a observação crítica da imprensa, o indivíduo se educa para a mídia. Essa distinção de habilidades é o que faz, de uns, midialiteratos e, de outros, no ponto extremo do que acreditam em tudo que leem, midiotas.

Luciano Martins Costa
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Marta saiu do PT

Como milhões de pessoas, por diversas vezes votei em Marta Suplicy.

Não me arrependo do meu voto. Votei numa petista, contra inimigos da classe trabalhadora.

Pelas mesmas razões pelas quais votei em Marta, considero que ela deveria — com "audácia e transparência" — pedir sua imediata desfiliação do Partido dos Trabalhadores.

Desfiliar-se seria um ato meramente formal, já que do ponto de vista político ela já saiu do PT. 

Exemplo disto é seu artigo no jornal Folha de S. Paulo, intitulado A vaca vai pro brejo?

(O artigo de Marta pode ser lido no seguinte endereço: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/martasuplicy/2015/03/1598912-a-vaca-vai-pro-brejo.shtml)

Em seu artigo, Marta dedica-se a um esporte cada vez mais popular: desancar o governo Dilma e o PT. 

Nisto, ela não se diferencia da maioria dos petistas, que também está insatisfeita com as ações recentes da nossa presidenta e com as (in)ações de setores de nosso partido. 

O problema não está, portanto, no fato de Marta criticar o governo Dilma e o PT.

O problema está no ponto de vista a partir do qual ela critica.

Seu ponto de vista é tucano. 

Segundo Marta, "em política existem duas coisas que levam a vaca para o atoleiro: a negação da realidade e trabalhar com a estratégia errada". 

Talvez seja certo, salvo por um detalhe: o sujeito oculto. 

Explico: do jeito "genérico" com que a frase está construída, ela vale para qualquer um. 

Vale para Vargas e Carlos Lacerda, para Geisel e Ulysses, para Lula e FHC, para Dilma e Aécio, para o PT e para o PSDB, para a classe trabalhadora e para o grande capital. 

Como o raciocínio vale para qualquer um, omite-se o conteúdo da política, o programa defendido, os objetivos pelos quais se luta.

E quem omite o conteúdo da luta, quem esquece quem somos e pelo que lutamos, pode não ter percebido, mas já entrou no pântano dos oportunistas

Oportunistas não estão do lado certo. Estão do lado que está "dando certo"

Quando o lado certo não está dando certo, os oportunistas mudam de lado. 

É importante dizer, contudo, que o fato de Marta agir como uma oportunista não significa necessariamente que todas suas críticas sejam improcedentes.

Portanto, vale a pena refletir sobre o que ela afirma no artigo A vaca vai pro brejo?

Segundo Marta, "bem antes da campanha eleitoral deslanchar" já "percebiam-se os desacertos da política econômica. Lula bradava por correções". 

Certamente devido a problemas de espaço, Marta não pode explicar aqui o que ela detalhou em entrevista dada à Eliane Cantanhede, no dia 10 de janeiro de 2015.

Minha análise daquela entrevista está disponível no endereço http://www.valterpomar.blogspot.com.br/2015/01/marta-suplicy.html

Naquela entrevista, fica claro que Marta critica os "desacertos" assumindo como seu o ponto de vista do grande capital. Ou seja, o ponto de vista dos tucanos.

Da mesma forma, a crítica que a senadora faz contra a campanha presidencial de 2014 é tucana. 

Palavras dela: "afunda-se o país e a reeleição navega num mar de inverdades, propaganda enganosa cobrindo uma realidade econômica tenebrosa, desconhecida pela maioria da população".

Aécio Neves não diria diferente.

Assim como Serra não diria diferente sobre a Petrobrás.

Palavras de Marta: "os brasileiros passam a ter conhecimento dos desmandos na condução da Petrobras. O noticiário televisivo é seguido pelo povo como uma novela, sem ser possível a digestão de tanta roubalheira. Sistêmica! Por anos". 

Mas atenção: é sistêmica, vem de anos, mas... é um erro culpar FHC!!!

Claro, aos petistas, nem mesmo a lei. Mas aos tucanos é garantido o benefício da dúvida.

Notem quanto a argumentação da senadora é habilidosa. 

Marta não diz que o PT, Dilma e Lula são culpados. Mas ao falar "do tamanho do rombo atual" e de "roubalheira sistêmica", ao tempo que poupa FHC, Marta aponta o dedo indicador para onde?

Marta não é definitiva sobre a culpa de FHC. Mas faz questão de dizer que a "estratégia" de culpabilizar FHC "parece" diversionismo. 

E mesmo quando fala de FHC, ela é de uma generosidade ímpar: diz não saber se a corrupção "começou no" governo dele. Claro: a corrupção começa com governos petistas e no governo de outros partidos... 

Mas o pior de ainda está por vir.

Marta conclui seu artigo dizendo o seguinte: "Recupera-se o discurso de que as elites se organizam propagando mentiras porque querem privatizar a Petrobras. Valha-me! O povo, e aí refiro-me a todas as classes sociais, está ficando muito irritado com o desrespeito à sua inteligência. Daqui a pouco o lamentável episódio ocorrido com Guido Mantega poderá se alastrar. Que triste".

A leitura deste parágrafo confirma que devemos deixar de lado todas as esperanças com quem entra no pântano do oportunismo.

Há uma campanha pela privatização da Petrobras. Isto não é um "discurso", não é uma invenção dos petistas.

Há uma campanha de mentiras contra o governo Dilma, contra o PT e contra a esquerda. 

Assim como há uma irritação crescente em todas as classes sociais. 

Mas quais são os motivos e as causas desta irritação? 

Não terá algo que ver com o fato de que nosso governo foi eleito pela esquerda, mas não agrada a esquerda porque faz um ajuste de direita, mas tampouco agrada a direita porque foi eleito pela esquerda?

Por fim: o "lamentável episódio" ocorrido com Guido Mantega não foi obra de todas as classes sociais, não foi obra do povo em geral. 

Foi obra dos mesmos setores que tantas vezes agrediram Marta Suplicy, por que a consideravam uma traidora de sua classe social de origem.

Que triste que Marta esqueça disto.

Valter Pomar
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A sonegação do jornalista Fernando Rodrigues no caso HSBC — Swissleaks


Fernando Rodrigues é o único brasileiro que tem acesso aos registros do Swissleaks, o maior vazamento de informações na história dos bancos suíços. Mais de 106 mil investidores enviaram quase R$ 300 bilhões para o HSBC em Genebra, numa teia de evasão de divisas e sonegação de impostos que faria Al Capone corar. O valor se refere ao saldo das contas em 2006/2007.

Nesse bolo, apareceram mais de R$ 20 bilhões originários de 8.667 contas vinculadas ao Brasil. Apenas 3% dos donos destas contas foram revelados. O restante ainda está nos arquivos de Rodrigues. A relutância em escancarar a lista toda lançou sobre o experiente jornalista do UOL e ex-colunista da Folha de S. Paulo, de 51 anos, duros questionamentos. O que está por trás da demora em mostrar quem são os "empresários, banqueiros, artistas, esportistas e intelectuais", representantes de "uma parte considerável da elite brasileira" que têm seus nomes na lista do HSBC?

Em pelo menos um ponto o Swissleaks já se cruzou com a Operação Lava Jato. O jornalista revelou que 11 membros da família Queiroz Galvão, dona da empreiteira homônima investigada por corrupção, formação de cartel e frustração de licitação aparecem nos registros do HSBC. A família nega que as remessas tenham sido sonegadas ao fisco. Essa pequena amostra dá uma ideia do poder explosivo que a lista toda pode ter. Em revelação paralela, emergiram 31 nomes de pessoas ligadas a empresas que exploram concessões de ônibus intermunicipais no Rio de Janeiro.

O problema em divulgar mais nomes é que não há nada na lei que proíba um brasileiro de colocar seu dinheiro em bancos no exterior. O crime ocorre quando as remessas não são declaradas à Receita Federal. O cruzamento entre correntistas do HSBC de Genebra e sonegadores de impostos aqui no Brasil só pode ser feito, no entanto, pelo governo brasileiro, que, segundo o jornalista, não move um dedo sequer, por "desídia, preguiça e talvez má-fé".

Rodrigues teve acesso exclusivo aos dados porque é membro do ICIJ (International Consortium of Investigative Journalism), um clube de repórteres investigativos com seletos membros espalhados pelo mundo que se dedicam a destrinchar de maneira colaborativa pautas de interesse público que requerem longas e complexas jornadas de apuração.

A Vice encontrou o repórter num hotel de São Paulo para saber porque os elos brasileiros dessa cadeia não vêm a público de uma vez. Rodrigues vestia calça e camisa negras, e estava sentado na frente de uma parede negra também. Sobre o tampo negro de uma mesa negra, repousavam dois aparelhos celulares. Um deles só funciona com chips pré-pagos, descartados regularmente cada vez que o repórter usa o aparelho para conversar com fontes do Swissleaks. A estratégia visa a driblar grampos.

Discreto, prudente e interessado em explicar as minúcias do caso, Rodrigues falou com empolgação sobre o trabalho em curso, demonstrando segurança no manejo das informações e excitação com o que pretende revelar nos próximos dias.

Você tem uma lista de aproximadamente 6.600 contas, 8.667 clientes e mais de R$ 20 bilhões em depósitos, contando apenas o lado brasileiro da história. Quando o público saberá quanta picaretagem existe de fato no meio dessa numeralha toda?

É muito difícil dizer com precisão se algum dia nós saberemos todas as picaretagens que possam ter sido cometidas por esses correntistas do HSBC na Suíça, inclusive os do Brasil. A razão é a seguinte: a parte jornalística da apuração tem limites fixados pela lei. Os jornalistas podem ir até onde o ofício permite. A partir daí, a outra parte sempre terá de ser apurada pelos órgãos de controle do governo. Quais dessas contas foram declaradas à Receita Federal do Brasil? Ninguém tem resposta a essa pergunta, com exceção do governo. O governo é quem tem os meios para pesquisar.


Há empresários de meios de comunicação na lista?

Eu não posso te falar sobre nenhum dos empresários, banqueiros, artistas, esportistas, intelectuais que estão na lista. Senão, você vai começar a me perguntar por nomes. Então, prefiro não dizer. Agora, numa lista de quase nove mil clientes, você pode imaginar que uma parte considerável da elite brasileira esteja nela.

E é difícil imaginar que entre uma parte considerável da elite brasileira não haja empresários de meios de comunicação.

Conversei com o ex-secretário da Receita Federal, Everardo Maciel. Pedi que ele especulasse o seguinte: o senhor acha que existe uma razão para alguém do Brasil ter uma conta numerada, sem que apareça o nome, na Suíça, para depois declarar essa conta no Imposto de Renda? 'Seria um situação muito inusitada. Ter uma conta numerada na Suíça é um indício muito grande, justifica a abertura de uma investigação', ele respondeu. Eu não posso afirmar de maneira peremptória, mas posso suspeitar que a maioria abriu uma conta na Suíça para não declarar ao fisco brasileiro. Essas pessoas podem ter cometido um crime.

Por que você divulgou alguns nomes e outros não?

Porque há interesse público. Digamos que o José da Silva, que mora na Capela do Socorro, não ocupa cargo público, não é dono de concessão de ônibus, e tem US$ 50 mil, digamos.

Claro, mas você mesmo disse que é a elite que está lá. O José da Silva não vai estar lá.

Mas eu não trabalho para fazer reportagem sobre a elite, trabalho para fazer reportagem que tenha interesse jornalístico. Então, se eu puder provar que José da Silva não pagou Imposto de Renda, aí tem interesse público.

Se ele for financiador de campanha, há um interesse público. E se ele é empreiteiro, provavelmente ele é financiador de campanha.

Exato. É empreiteiro? Tem obra pública? Tem expressão nacional? Se não, por que eu vou ligar para o José da Silva? Ela não vai falar, porque é um assunto privado. E de fato é. Digamos que ele seja o único dos nove mil que pagou Imposto de Renda. Pelo resto da vida esse desgraçado vai ser chamado de 'José da Silva, aquele que tem conta na Suíça'. E eu serei o responsável, não os professores de jornalismo que querem que eu divulgue o nome do José da Silva de forma indiscriminada e irresponsável. Eu não vou fazer isso.

Qualquer político que esteja na lista caracteriza uma informação de interesse público. Logo, se você não publicou o nome de nenhum político em particular, significa que não há nenhum político na lista, certo?

Por que eu divulguei primeiro as 11 pessoas ligadas à Lava Jato? Porque é o assunto que as pessoas estão vendo mais. É um critério jornalístico. Se eu achar mais, eu vou divulgar.

Não estão Renan Calheiros nem Eduardo Cunha na lista?

Se tivesse um presidente ou ex-presidente da República, esse nome já teria sido publicado.

Ou o presidente do Congresso e o presidente da Câmara.

É. Eu não vou falar que tem ou não tem, mas você acha que, se tivesse, eu teria publicado já?

Sim.

É uma boa inferência.

O que está em debate nesse caso é a qualidade ética do jornalismo feito hoje no Brasil?

O Brasil é um país infantilizado no qual a maioria das discussões são quase sempre rasteiras, epidérmicas e inúteis. Então, acho que não. Ninguém tem vontade de discutir isso com seriedade.

Sua apuração tem um padrão ético superior à apuração do caso Wikileaks?

Depende. Eu tive acesso ao material do Wikileaks no Brasil e não publiquei nada sem checar antes, sem ligar, entender, contextualizar, apurar. Então depende de quem publica.


Você não acha que em casos similares a imprensa foi menos criteriosa na divulgação de nomes de suspeitos do que você tem sido agora?

Cite uma que me envolva.

Não estou falando que você tenha sido menos criterioso no passado.

Então eu acho que a sua observação é generalista.

Bom, o Lava Jato é um exemplo.

Não existe 'a mídia'. É como falar 'o mercado'. Quem publicou? Eu acho, por exemplo, que a cobertura que parte da mídia vem dando à Operação Lava Jato é correta. As pessoas vão lá, em juízo, e prestam um depoimento, esse depoimento tem valor de notícia, tem interesse público. É mentira? Verdade? Não sei, mas a mídia não vai divulgar? Alguns professores de jornalismo questionam 'vai divulgar uma delação premiada?'. Eu digo, 'ora, vai esconder uma delação premiada?'

O problema não é esconder ou não uma delação premiada, mas não publicar o nome de pessoas que possam estar na lista do HSBC e, ao mesmo tempo, na Operação Lava Jato, por exemplo.

Eu respondo por mim. Tudo o que eu estou fazendo está de acordo com as regras do bom jornalismo. Nas próximas semanas, publicarei muitos nomes. No Lava Jato é completamente diferente. Nela, a Justiça Federal, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal estão muito à frente. Os agentes públicos entraram na história muito antes dos jornalistas. No HSBC, os jornalistas entraram antes dos agentes. A ordem das coisas altera o produto. São coisas completamente diferentes. Comparar banana com laranja está errado. Tentei estabelecer uma colaboração em nome do bom jornalismo e do interesse público com agentes do Estado que poderiam colaborar na investigação do Swissleaks. Fiz isso de boa fé, fazendo bom jornalismo e fazendo propostas absolutamente legítimas para estes agentes que foram protagonistas de desídia, preguiça e talvez má-fé. Essa minha tentativa foi um fracasso. Eu fracassei. Quem perdeu mais foi o Estado por ter maus funcionários, mal preparados e talvez desleais e criminosos.

Você se sente injustiçado, pensando em tudo o que você fez como repórter, nos casos que você revelou, nos casos semelhantes de corrupção do passado?

Não. Isso sempre teve. O Brasil é um país muito caipira, subdesenvolvido e atrasado.

João Paulo Charleaux
Fotos Felipe Larozza
No Vice
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Campanha infeliz: Grife de Luciano Huck é notificada pelo Procon


Após gerar enorme repercussão e ser acusada de incitação à pedofilia, a marca do apresentador global foi notificada pelo órgão, que entende que houve prática abusiva na comercialização da camiseta infantil com a frase “Vem ni mim que eu tô facin”; grife interrompeu as vendas e pediu desculpas no site 

Não passou batido. Poderia ser só mais uma das inúmeras peças de roupa com mensagens polêmicas ou preconceituosas da marca Use Huck, mas a camiseta infantil com a estampa “Vem ni mim que eu tô facin” gerou tanta repercussão que a grife acabou sendo notificada pelo Procon do Rio de Janeiro nesta quinta-feira (5).

No anúncio do site, foram publicadas fotos de crianças usando a camiseta com a mensagem de claro cunho de objetificação e, nas redes sociais, a marca foi acusada de incitação à pedofilia.

Diante da infeliz campanha e sua consequente repercussão, o órgão resolveu notificar o site da grife e quer saber, exatamente, quantas peças foram vendidas, para quem e se já foi elaborada uma “contrapropaganda para apagar os efeitos negativos da publicidade ilícita no comportamento do consumidor”. Caso não preste os devidos esclarecimentos e não tome providências, a companhia pode ser multada e, o site, retirado do ar.

“Essa é uma prática abusiva prevista no artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor, que incita a violência, se prevalece de vulnerável para obter lucro e denigre a imagem de crianças e adolescentes”, afirmou, em nota, a secretaria municipal de Defesa do Consumidor do Rio.

A marca, por sua vez, retirou de seu site o modelo em questão e pediu desculpas aos clientes.

“Sentimos muito por todos que foram ofendidos pela imagem”, diz a nota publicada na homepage da marca, que tentou explicar as causas do que chamou de “lamentável erro”. “É comum em e-commerce que as artes das estampas sejam aplicadas posteriormente sobre fotos dos modelos com camiseta branca, conforme o exemplo abaixo. Por erro nosso, todas as artes de Carnaval (inclusive e infelizmente esta arte) foram aplicadas sobre a coleção infantil e disponibilizadas no site sem a devida revisão”, continuou o texto.

Não é só uma

Embora a estampa “Vem ni mim que tô facin” tenha causado maior repercussão, em uma rápida olhada no site, Fórum encontrou outros modelos preconceituosos — como o que leva os dizeres “Salvem as baleias que eu salvo as sereias” — e até incentivadores da cultura do estupro, como o que carrega a mensagem “Quando um não quer, o outro insiste” (confira aqui).

Em 2014, a Use Huck protagonizou situação parecida, quando se aproveitou do episódio de racismo sofrido pelo jogador Daniel Alves durante partida na Espanha para comercializar camisetas com a estampa “Somos todos macacos”.

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