1 de mar de 2015

Mujica em dez frases marcantes


Neste domingo, José “Pepe” Mujica encerra seus cinco anos na presidência do Uruguai. Um mandato marcado por reformas controversas, incluindo a aprovação da lei da maconha; algumas dívidas, como na educação; e muitas declarações que ecoaram em todo o mundo.

A BBC conta em 10 frases os principais marcos do mandato de Mujica, que neste domingo passará a faixa presidencial ao ex-presidente Tabaré Vázquez, também da Frente Ampla.
1. “Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade.”
Muitas vezes ele é chamado de o “presidente mais pobre do mundo”, mas José Mujica diz que não é pobre, que o que faz é viver como a maioria dos uruguaios que governa.

Ele mora na mesma casa de campo há décadas, com sua mulher, Lucia Topolansky, e sua cadela de três patas, Manuela.

Seu estilo simples, mas não uma vida “austera” — uma palavra que lembra, segundo ele, os cortes sociais na Europa — despertou certa desconfiança entre seus compatriotas no início, quando eles acreditavam que o país passaria vergonha por ter um presidente que viaja em um carro velho, usa sapatos alpargatas e dirige um trator.

No entanto, ele triunfou no mundo, onde sua humildade foi aplaudida. Seus discursos na Organização das Nações Unidas e suas entrevistas para canais de todo o mundo foram compartilhadas sem parar nas redes sociais.

Mujica também parece ter conquistado a maioria dos uruguaios, já que deixa o governo com um índice de aprovação de 65%, de acordo com uma pesquisa recente da empresa Equipos Mori.
2. “Não é bonito legalizar a maconha, mas pior é dar pessoas ao narcotráfico. O único vício saudável é o amor.”
Talvez uma das leis que mais tenha dado fama internacional a Mujica foi a que colocou nas mãos do Estado a regulação estatal da produção, venda, distribuição e consumo de maconha, aprovada em dezembro de 2013, mesmo com a oposição da maioria dos uruguaios.

Essa lei, ainda em desenvolvimento, tem como objetivo frear o avanço do tráfico de drogas e regular um mercado que, de acordo com Mujica, cresce na sombra e está nas mãos de criminosos.

Foram estabelecidos limites para cultivo e venda de maconha, bem como registros de consumidores e clubes de fumadores.

A regra tornou o Uruguai o primeiro país do mundo com um regulamento tão abrangente.
3. “O casamento gay é mais velho do que o mundo. Tivemos de Júlio César a Alexandre, o Grande. Dizem que é moderno e é mais antigo do que todos nós. É uma realidade objetiva. Existe. E não legalizar seria torturar as pessoas desnecessariamente”.
Em agosto de 2013, entrou em vigor a lei do casamento igualitário, o que fez o Uruguai o segundo país na América Latina, depois da Argentina, a reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Embora ele tenha recebido críticas da Igreja Católica — menos influente aqui do que em outros países da região —, a medida foi aprovada por uma larga maioria dos legisladores da base do governo e da oposição, gerando menos controvérsia do que outras leis de questões sociais como o aborto ou a maconha.
4. “Legalizando e intervindo, é possível conseguir que muitas mulheres voltem atrás em sua decisão, sobretudo aquelas de setores mais humildes ou que estão sozinhas.”
Em 2012, o Uruguai tornou-se, juntamente com Cuba, o único país latino-americano a legalizar o aborto — não sem controvérsia.

À época, Mujica disse que a descriminalização poderia não só evitar mortes em interrupções de gravidez feitas clandestinamente, mas também poderia levar a uma redução no número de abortos.

“Todo mundo é contra o aborto. Mas se você dá apoio a uma mulher sozinha que precisa tomar esta decisão, alguns pensam que muitas iriam desistir”, disse.
5. “Somos meio vagabundos, não gostamos tanto de trabalhar. (…) Ninguém morre por excesso de trabalho, mas não é um país corrupto, somos um país decente.”
Com estas palavras, ele fez alguns desafetos entre os uruguaios. Suas declarações causaram muita dor de cabeça para seus assessores.

E, embora ele deixe o país com altos índices de aprovação, muitos uruguaios dizem que nem tudo é tão idílico como os estrangeiros podem ser levados a acreditar ao ler reportagens publicadas sobre o país.

Mujica reconhece que nem tudo foi feito e muitas vezes dá como exemplo de sua lista de pendências a falta de infraestrutura, a deterioração da educação ou o aumento da insegurança.

Muitos uruguaios também lembram que, durante seu mandato, viveram episódios que tinham pouco a ver com o “país das maravilhas” que aparecia na imprensa estrangeira.

Isso aconteceu, por exemplo, quando cerca de 12 mil toneladas de lixo se acumularam nas ruas de Montevidéu em uma greve de lixeiros em abril de 2014.

Ou com as grandes greves de professores que têm ocorrido nos últimos anos para exigir melhores salários e condições, que geraram protestos em escolas e faculdades.
6. “Essa velha é pior que o caolho. O caolho era mais político, ela é mais teimosa.”
O caolho a quem Mujica se referia era, no caso, o falecido presidente da Argentina, Néstor Kirchner. A velha era sua mulher, Cristina Fernandez Kirchner, o atual presidente.

Mujica foi flagrado falando assim da colega em 2013. Ele achava que o microfone estava desligado.

O uruguaio pediu “sinceras desculpas” por suas palavras, embora a relação entre os dois países tenha passado por momentos mais graves do que algumas palavras mal colocadas.

Em 2014, o governo da Argentina informou ao Uruguai que iria recorrer à Corte Internacional de Justiça de Haia (CIJ), alegando que seu vizinho violara o acordo fechado no tribunal no caso da fábrica de celulose UPM (ex-Botnia) localizada em um rio que os dois países compartilham.

O Uruguai e a Argentina haviam travado uma disputa na CIJ em 2006 por causa da construção da papeleira. O conflito havia terminado em 2010 quando o tribunal permitiu a construção, recomendando a criação de uma comissão binacional para avaliar o seu impacto ambiental.

Embora os dois países sejam importantes parceiros comerciais, houve alguns atritos na área no mandato de Mujica.

No entanto, o ex-guerrilheiro sempre defendeu a fraternidade de seu povo com o argentino: “O Uruguai é um país meio esquizofrênico: eles sugam o sangue dos argentinos e, depois, cospem”.

Mas o caso da “velha e do caolho” não foi a única vez que Mujica teve problemas por causa de suas palavras. Após a punição da FIFA ao jogador de futebol Luis Suárez por um incidente em uma partida da Copa do Mundo no Brasil, o presidente do Uruguai lançou uma mensagem controversa às autoridades do futebol mundial:

“A FIFA é um bando de velhos filhos da puta”.
7. “Eu acho que nós estamos sendo usados como ratinhos de laboratório. Por que a Phillip Morris está prestando tanta atenção em um país tão pequeno? Eu tenho certeza que eles vendem mais cigarros em qualquer bairro de Nova York do que no Uruguai.”
José Mujica herdou de seu antecessor — e sucessor — Tabaré Vázquez uma longa disputa com a fabricante de cigarros Philip Morris International (PMI), que acusa o Uruguai de prejudicar o livre comércio com medidas contra o tabaco.

As advertências contra o mal provocado pelo cigarro em 2009 chegaram a ocupar, por lei, 80% dos pacotes -espaço maior que em qualquer outro país. E desapareceram dos maços as palavras “light”, “mentolado” ou “ouro”, restando apenas a marca do cigarro.

A disputa será solucionada pelo Centro Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos, uma agência do Banco Mundial.

O presidente do Uruguai argumenta que a Phillip Morris tenta impedir as políticas anti-tabagismo rigorosas do Uruguai como um aviso a outros países que cogitem implementar medidas semelhantes.

De acordo com a empresa, eles desejam somente ser ressarcidos pelos danos de US$ 25 milhões em perdas comerciais.
8. “Tive que aguentar 14 anos em cana (…) Nas noites que me davam um colchão eu me sentia confortável, aprendi que se você não pode ser feliz com poucas coisas você não vai ser feliz com muitas coisas. A solidão da prisão me fez valorizar muitas coisas.”
José Mujica militou, quando jovem, no Partido Nacional (hoje um dos seus principais opositores) e foi um dos fundadores, nos anos 60, do Movimento de Libertação Nacional Tupamaros, uma guerrilha urbana de esquerda que praticava assaltos, sequestros e execuções.

Por isso, passou 14 anos preso, parte do tempo em um calabouço, sem acesso a livros ou contato humano. Ele conta que falava com animais para manter sua sanidade.

Sem dúvida, esses anos marcaram sua maneira de ver o mundo e também algumas das suas políticas.

Em 2014, o país recebeu um grupo de seis prisioneiros da base americana de Guantánamo, em Cuba, uma medida que foi criticada pela oposição e a qual se opõe a maioria dos uruguaios.

Sob sua liderança houve uma forte controvérsia sobre a tentativa do partido do presidente, a Frente Ampla, de aprovar uma lei para investigar as violações dos direitos humanos cometidas durante o último governo militar (1973-1985).

A chamada Lei de Anistia havia sido submetida a um referendo em duas ocasiões antes da presidência Mujica e população a rejeitou.

Mujica foi contra a anulação da lei, argumentando que seria reabrir feridas e colocar a estabilidade do país em risco: “Eu não sou viciado em viver olhando para trás, porque a vida é sempre o futuro e todos os dias amanhece.”
9. “O que é que chama a atenção mundial? Que vivo com pouco, em uma casa simples, que ando em um carrinho velho, essas são as notícias? Então este mundo está louco, porque o normal surpreende.”
Nos últimos anos, centenas de meios de comunicação estrangeiros chegaram ao o país sulamericano intrigados com a vida de Mujica.

“Isso me preocupa muito, me preocupa como anda o mundo”, disse ele à BBC Mundo em uma entrevista em dezembro.

“Eu vivo como vive a maior parte de meu povo, na política o normal teria que ser o meu modo de vida”, acrescenta.

“Vou à Alemanha e me dão um Mercedes Benz para andar daqui até a esquina — que tem uma porta que pesa três mil quilos — e 50 motos na frente e 50 atrás. Não concordo com isso”, diz ele.

“Eu acho que os governos, presidentes, devem se expressar em todo o tom da sua vida, a sua linguagem, sua maneira de ser, seu modo de vestir, nas relações públicas, como seu povo vive”.
10. “Sim, eu estou cansado, mas isso não para até o dia em que me coloquem em um caixão ou quando eu for um velho esquecido.”
Mujica reconhece que os cinco anos no cargo o deixaram exausto, mas não pretende se aposentar.

“Eu não vou ser um velho aposentado que vai para um canto escrever suas memórias. Eu não vou escrever nada, não tenho tempo, tenho coisas para fazer”.

O presidente planeja abrir uma escola de negócios agrícolas em um galpão atrás de sua casa.

“Vai começar em março, para aproveitar a terra que temos, os meios que temos e assim me divirto com os garotos do bairro”, disse.

E, certamente, tornar-se o principal conselheiro de sua mulher, Lucia Topolansky se, como as pesquisas sugerem, ela se tornar a nova prefeita de Montevidéu após as eleições de maio.

No BBC
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#13MAR — Defender a Petrobras é defender o Brasil!


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Coordenador de Aécio elogiou delação premiada antes de ser vítima dela

Os internautas descobriram e publicaram um tuíte em que o senador José Agripino, presidente do DEMo e coordenador da campanha de Aécio, elogiava a delação premiada antes de ser vítima dela num caso em que é acusado de extorquir uma propina de 1 milhão de reais.


No DCM
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De onde vem tanto ódio contra o PT?

Filhos da mídia
Bresser Pereira resumiu o que acontece no Brasil de hoje: um grotesco sentimento de ódio coletivo dos ricos pelo PT e por Dilma.

Ele atribuiu a Lula e sua atribulada luta pela inclusão social de brasileiros ao longo de anos, décadas, séculos excluídos.

Mas se esqueceu de falar na contribuição milionária da imprensa para a disseminação do ódio.

A jornada de raiva da mídia começa exatamente com Lula, em 2003.

A Veja, antes uma revista respeitada e não um panfleto vil, assumiu desde logo o comando.

Dois articulistas foram chave nisso: Diogo Mainardi, na edição impressa, e Reinaldo Azevedo, na digital.

Eles deram o novo tom da revista. Falta de compromisso com os fatos e objetivo único de sabotar o governo eleito e, com ele, a democracia.

Progressivamente, o resto da imprensa foi seguindo o mesmo caminho.

Jornalistas e colunistas progressistas foram sendo afastados das redações, substituídos por derivações de Mainardi e Azevedo.

Aí foi perdido um equilíbrio tradicional: ao longo dos tempos, o direitismo dos donos encontrava um contraponto no progressismo dos chefes de redação.

Um dos exemplos notáveis disso foi Frias, o velho, e Claudio Abramo, na Folha. Ou Roberto Civita e Mino Carta, na Veja.

Foi dentro desse quadro que surgiu a multidão de vozes patronais nas principais empresas jornalísticas nacionais.

O que houve foi uma ocupação.

O pensamento diferente foi virtualmente extirpado. Mesmo a Folha, que se vangloriou durante muitos anos da pluralidade, foi ampliando os colunistas de direita e jogando fora os demais.

Não é coincidência que Reinaldo Azevedo, o símbolo do jornalismo patronal, seja hoje colunista da Folha.

Nos bastidores das redações, ocorreu o mesmo. Na Globo, ascenderam a postos essenciais jornalistas como Erick Bretas, hoje diretor de Mídias Digitais da empresa.

Bretas se notabilizou, recentemente, por pedir o impeachment de Dilma no Facebook e conclamar seus seguidores a acompanhá-lo no protesto de 15 de março.

A mensagem central da mídia pós-Lula tem sido instilar raiva num público intelectualmente vulnerável, destituído de preparo para distinguir jornalismo de propaganda política.

Para isso, jornais e revistas tentam desmoralizar de todas as formas o governo. A maior arma, aí, são acusações de corrupção, e não à toa.

Isso sempre funcionou no Brasil. A classe média é facilmente manipulada. Getúlio foi boicotado assim, e depois dele Jango também.

O ódio de classes que marca o Brasil de hoje deriva daí. Os “corruptos”, no discurso calculado da imprensa, estão acabando com o Brasil e enriquecendo à custa de todo mundo.

Danem-se os fatos. O importante é propagar essa visão.

Um dos efeitos colaterais disso é a venezuelização do Brasil. O brutal ataque a Mantega no Einstein é uma amostra perfeita da venezuelização: a fúria irracional das classes privilegiadas contra tudo que remeta a um governo de esquerda, ou centro-esquerda.

Por trás de tudo, se esconde uma verdade prosaica: os privilegiados, e deles a imprensa é o porta-voz, não querem abrir mão de suas mamatas.

É assim na Venezuela, é assim no Brasil.

Lamentavelmente, Bresser Pereira é um dos poucos privilegiados que conseguem enxergar a vida além de seus próprios interesses.

É por isso que ele é ignorado pela mídia.

Paulo Nogueira
No DCM
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'Ricos nutrem ódio ao PT e a Dilma', afirma ex-ministro de FHC

O economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, 80, que está lançando o livro "A Construção Política do Brasil"
Adriano Vizoni/Folhapress
O pacto nacional-popular articulado pelos governos do PT desmoronou pela falta de crescimento. Surgiu um fenômeno novo: o ódio político, o espírito golpista dos ricos. Para retomar o desenvolvimento, o país precisa de um novo pacto, reunindo empresários, trabalhadores, setores da baixa classe média. Uma união contra rentistas, setor financeiro e estrangeiros.

A visão é do economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, 80, que está lançando "A Construção Política do Brasil", livro que percorre a história do país desde a independência. Ministro nos governos José Sarney e FHC, ele avalia que o ódio da burguesia ao PT decorre do fato de o governo defender os pobres.

Seu livro trata de coalizões de classe. O sr. diz que atualmente a coalização não é "liberal-dependente", como nos anos 1990, nem "nacional-popular", como no tempo de Getúlio Vargas. Qual é, então?

Não há. Desde 1930 houve cinco pactos políticos. O nacional-popular de Getúlio, de 1930 a 1960. De 1964 ou 1967 até 1977, há um pacto autoritário, modernizante e concentrador de renda, de Roberto Campos e dos militares.

Depois, há o pacto democrático-popular de 77, que vai promover a transição. Esse chega ao governo, tenta resolver o problema da inflação e fracassa. Com Collor e, especialmente com FHC, há um pacto liberal-dependente, que fracassa novamente.

Aí vem o Lula, que se propõe a formar novamente um pacto nacional-popular, com empresários industriais, trabalhadores, setores da burocracia pública e da classe média baixa. O governo terminou de forma quase triunfal, com crescimento de 7,4%, e prestígio internacional muito grande. Mas esse pacto desmoronou nos dois últimos anos do governo Dilma.

Por quê?

O motivo principal foi que o desenvolvimento não veio. De repente, voltamos a crescer 1%. Houve erros nos preços da Petrobras e na energia elétrica. E o mensalão. Aí os economistas liberais começaram a falar forte e bravos novamente, pregar abertura comercial absoluta, dizer que empresários brasileiros são todos incompetentes e altamente protegidos, quando eles têm uma desvantagem competitiva imensa.

É o que explica o desparecimento de centenas de milhares de empresas. O pacto político nacional-popular... Vupt! Evaporou-se. A burguesia voltou a se unificar.

E achou que podia ganhar a eleição do ano passado?

Sim. Aí surgiu um fenômeno que eu nunca tinha visto no Brasil. De repente, vi um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, contra um partido e uma presidente. Não era preocupação ou medo. Era ódio.

Esse ódio decorreu do fato de se ter um governo, pela primeira vez, que é de centro-esquerda e que se conservou de esquerda. Fez compromissos, mas não se entregou. Continua defendendo os pobres contra os ricos. O ódio decorre do fato de que o governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres. Não deu à classe rica, aos rentistas.

Mas os rentistas tiveram bons ganhos com Lula e Dilma, não?

Não. Com Dilma, a taxa de juros tinha caído para 2%. Isso, mais o mau resultado econômico, a inflação e o mensalão, articularam a direita. Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia que está infeliz.

Ao ganhar, Dilma adotou o programa dos conservadores?

Isso é uma confusão muito grande. Quando se precisa fazer o ajuste fiscal vira ortodoxo? Não faz sentido. Quando Dilma faz ajuste ela não está sendo ortodoxa. Está fazendo o que tem que fazer. Havia abusos nas vantagens da previdência. Subsídios e isenções foram equívocos. Nada mais desenvolvimentista do que tirar isso e reestabelecer as finanças. Em vez de dar incentivo, tem que dar é câmbio. E de forma sustentada.

Dilma chamou [o ministro da Fazenda] Joaquim Levy por uma questão de sobrevivência. Ela tinha perdido o apoio na sociedade, formada por quem tem poder. A divisão que ocorreu nos dois últimos anos foi violenta. Quando os liberais e os ricos perderam a eleição, muito antidemocraticamente não aceitaram isso e continuaram de armas em punho. De repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo. Não há chance disso funcionar.

Dilma está na direção certa?

Claro. Mas não vai se resolver nada enquanto os brasileiros não se derem conta de que há um problema estrutural, a doença holandesa. Enquanto houver política de controle da inflação por meio de câmbio e política de crescimento com poupança externa e âncora cambial, não há santo que faça o país crescer. Juros altos só se justificam pelo poder dos rentistas e do sistema financeiro. Falar em taxa alta para controlar inflação não tem sentido.

Qual pacto seria necessário?

Um pacto desenvolvimentista que una trabalhadores, empresários do setor produtivo, burocracia pública e amplos setores da baixa classe média. Contra quem? Os capitalistas rentistas, os financistas que administram seus negócios, os 80% dos economistas pagos pelo setor financeiro e os estrangeiros.

Um pacto assim não fere interesses consolidados?

Em primeiro lugar, fere interesses do capitalismo. Não há nada que o capitalismo internacional queira mais em relação aos países em desenvolvimento do que eles apresentem déficit em conta-corrente. Porque esses déficits vão justificar a ocupação do mercado interno nosso pelas multinacionais deles e pelos empréstimos deles. Que não nos interessam em nada. O Brasil está voltando a ser um país primário-exportador. Esse câmbio alto resultou numa desindustrialização brutal.

No livro o sr. trata das dubiedades da burguesia. Diz que muitos industriais são hoje quase "maquiladores". Viraram rentistas. Como compor esse pacto com empresários?

A burguesia tem sido ambígua, contraditória. Em alguns momentos se uniu a trabalhadores e ao governo para uma política de desenvolvimento nacional, como com Vargas e Juscelino. Em outros, não foi nacional, como entre 1960 e 1964. Ali, a burguesia se sentiu ameaçada. No contexto da Guerra Fria e da Revolução Cubana, se uniu e viabilizou o regime militar.

Estamos vendo isso novamente. A burguesia voltou a se a unir sob o comando liberal. Há esse clima de ódio, essa insistência de falar de impeachment.

Mas esse espírito não vai florescer. A democracia está consolidada e todos ganham com ela, ricos e pobres. O Brasil só se desenvolve quando tem uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Como define a burguesia hoje?

É muito mais fraca do que nos anos 1950. Tudo foi comprado pelas multinacionais. O processo de desnacionalização é profundo. Todos que venderam suas empresas viraram rentistas, estão do outro lado. Mas continuam existindo empresários nacionais e jovens com ideias. Mas não há oportunidade de investir com esse câmbio e esse juro. É uma violência que se está fazendo contra o país. Em nome de uma subordinação da nação aos estrangeiros e de uma preferência muito forte pelo consumo imediato.

Os brasileiros se revelam incapazes de formular uma visão de seu desenvolvimento, crítica do imperialismo. Incapazes de fazer a crítica dos déficits em conta-corrente, do processo de entrega de boa parte do nosso excedente para estrangeiros. Tudo vai para o consumo. É o paraíso da não-nação.

Por que isso aconteceu?

Começamos a perder a ideia de nação no regime militar. Porque os militares se identificaram com o nacionalismo e o desenvolvimentismo. Os intelectuais brasileiros aderiram à teoria da dependência associada e abandonaram a ideia de burguesia nacional e de nação. Porque não há nação em burguesia nacional. A nação é uma coalizão entre a burguesia nacional e os trabalhadores com o governo. Depois foi a crise da dívida externa e o fracasso do Cruzado. Nos anos 1980, o mundo foi dominado pelo neoliberalismo. Quando veio Lula, ele começou a pensar na era Vargas. Isso fracassou. Não foi possível fazer essa reconstrução da nação.

O sr. escreve que Lula foi fortemente social e hesitantemente desenvolvimentista

O desenvolvimentismo não deu certo. Sua política não foi a do novo desenvolvimentista [sobre a qual Bresser-Pereira teorizou].

Desnacionalização preocupa?

Profundamente. É uma tragédia. Vejo uma quantidade infinita de áreas dominadas por empresas multinacionais que não estão trazendo nenhuma tecnologia, nada. Simplesmente compram empresas nacionais e estão mandando belos lucros e dividendos para lá. Isso enfraquece profundamente a classe empresarial brasileira e, assim, a nação.

Então o senhor está pessimista em relação à burguesia?

A burguesia brasileira está sendo um cordeiro nas mãos do carrasco. O carrasco é o juro alto e o câmbio apreciado. Ela é incapaz de se rebelar. Suas organizações de classe se mostram muito fracas. Como vão defender mudanças no câmbio se têm empresas endividadas em dólar? Líderes ficam manietados. Eles sentem que estão indo para o cadafalso, mas não sabem o que fazer; estão divididos.

Não é fato que muitas empresas ganham mais com o mercado financeiro do que com a produção?

Isso também. Na hora em que se transforma uma indústria numa maquiladora, o câmbio já não importa mais. Porque se importa tudo. É até bom que seja alto porque seu produto fica barato. O câmbio é importante quando há conteúdo nacional e se paga salários para trabalhadores e para engenheiros. Quando não se paga nada disso, acabou, não é mais empresário industrial. Precisamos de um desenvolvimento baseado na responsabilidade fiscal e cambial, na afirmação de uma taxa de lucro satisfatória para empresários, da não necessidade de uma taxa de juros satisfatória para os rentistas. Para isso é preciso convencer a sociedade e precisamos de políticos com liderança que sejam capazes de fazer isso.

O sr. enxerga essa liderança?

Não. O PT perdeu essa oportunidade, que foi a primeira que tivemos desde o Cruzado. Pode ser que se reconstrua. A indicação do Levy representa um fracasso para os desenvolvimentistas. Eles não conseguiram fazer o seu trabalho. Mas não deixaram o país numa grave crise. A crise de 98 foi muito pior.

O sr. se arrependeu de ter apoiado a presidente naquele ato no Tuca?

Não me arrependo. Era preciso escolher entre um candidato desenvolvimentista e social e um outro candidato liberal, portanto profundamente contrário aos interesses nacionais, que era o Aécio.

Não houve, então, estelionato eleitoral?

Isso é bobagem. É uma concepção muito grosseira e simplista de entender o que é desenvolvimentismo. As boas ideias desenvolvimentistas são de responsabilidade fiscal, portanto ela tinha que restabelecer isso.

Qual sua avaliação do governo Dilma?

Os governos Fernando Henrique Cardoso e Lula/Dilma fracassaram do ponto de vista econômico. Quem foi altamente bem-sucedido foi Itamar Franco, em cujo governo FHC foi herói por causa do Real. Mas nos quatro anos que ele governou, o câmbio se apreciou brutalmente e resultado foi muito ruim; houve duas crises financeiras.

No governo do PT houve o boom de commodities, o crescimento dobrou. Lula teve o grande mérito de fazer distribuição de renda com êxito e foi muito bom. Mas Lula deixou para Dilma uma taxa de câmbio absolutamente apreciada. Ela não conseguiu sair dessa armadilha do câmbio altamente valorizado e do juro alto. Ela tentou nos dois primeiros anos e fracassou. Não houve retomada dos investimentos industriais porque o câmbio era insatisfatório e porque precisa tempo para isso.

A economia voltou à sua situação dos últimos 35 anos: semi-estagnação, um crescimento baixíssimo. Ela tentou a política industrial, um velho erro dos desenvolvimentistas clássicos, que supõem que ela resolve tudo. Resolve coisa nenhuma. É uma compensação para uma taxa de câmbio apreciada no longo prazo que torna as empresas não competitivas e com expectativas de lucro muito baixas. Ela gastou quase 2% do PIB em desonerações fiscais que resultaram em nada.

São políticas de enxugar gelo. Sou a favor delas, mas de forma estratégica, em momentos específicos. Todos os países fazem. Nos asiáticos foi elas foram muito importantes e continuam sendo. Mas esses países tinham a macroeconomia absolutamente equilibrada, os preços macroeconômicos certos.

Como certos?

É uma tese central do novo desenvolvimentismo que venho desenvolvendo nos últimos 15 anos. Na macroeconomia do novo desenvolvimentismo, países devem ter cinco preços certos. A taxa de lucro deve ser satisfatória para os empresários investirem; a taxa de juros deve ser baixa; a taxa de câmbio dever ser competitiva; a taxa de salários deve ser compatível com a taxa de lucro dos empresários; a inflação deve ser baixa.

São os pressupostos. No Brasil, desde Plano Real, a inflação é baixa, a taxa de lucros é insatisfatória para os empresários do setor produtivo, a taxa de câmbio é absolutamente apreciada no longo prazo. A taxa de juros permaneceu alta quase o tempo todo. E a taxa de salários cresceu mais do que a produtividade. Nessas condições, não há economia que cresça. É preciso fazer ajuste fiscal porque os dois últimos anos desorganizaram fiscalmente o país. Mas ajuste fiscal não resolve os problemas do país. Tem que ser feito, estou de acordo com a política do [Joaquim] Levy agora nesse ponto.

Estamos de volta a uma situação de semiestagnação de longo prazo, que vivemos há muitos e muitos anos. O Brasil continua numa armadilha macroeconômica de uma taxa de câmbio altamente apreciada e uma taxa de juros muito alta. Isso inviabiliza qualquer investimento das empresas industriais e significa desindustrialização e baixo crescimento ou quase estagnação. O crescimento da economia brasileira per capita de 1980 para cá é de menos de 1%, é 0,9%. Quando foi de 4,1% nos trinta anos anteriores. É o país que não faz o 'catching up', não estamos diminuindo a distância em relação aos países ricos.

Nós brasileiros, no plano econômico, estamos fracassando lamentavelmente nos últimos 30 e tantos anos. Por que a taxa de jutos é escandalosa. E mais ainda porque a taxa de câmbio é apreciada no logo prazo desde 1990/1991. O Brasil só cresceu de maneira extraordinária porque neutralizou a doença holandesa entre 1930 e 1980, que foi o período da revolução industrial brasileira, quando tivemos um crescimento sem igual no mundo.

A doença holandesa é uma apreciação permanente e variável da taxa de câmbio. Decorre do fato de que o país tem recursos naturais abundantes e baratos, que podem ser exportados com lucros satisfatórios para as empresas um a taxa de câmbio substancialmente mais apreciada do que a taxa de câmbio que é necessária para as empresas industriais e de serviços tecnológicos comercializáveis internacionalmente sejam competitivas.

Em preços de hoje, as empresas de commodities precisam de uma taxa de câmbio de R$ 2,50 por dólar. As empresas industriais brasileiras para serem competitivas precisam, na média, de R$ 3,10. Essa diferença é a doença holandesa. O jeito de neutralizá-la é através de um imposto. Nós tínhamos esse imposto, que era o confisco cambial. Foi desmontado com a abertura comercial de 1990/91.

Eu me penitencio nesse ponto porque, como ministro da Fazenda em 1987, fui quem deu início formalmente ao processo de abertura comercial.

E agora com o dólar mais elevado, o que muda?

Agora diminuiu a diferença e a doença holandesa fica bem menor. Mas é temporário. Consequência da queda do preço das commodities, da política norte-americana e de uma certa perda de confiança na economia brasileira. Passada a crise ele volta a se apreciar e em termos reais e vai voltar a girar em torno de R$ 2, 50, não em torno de R$ 3,10. A desvantagem competitiva vai continuar, o Brasil vai continuar semi-estagnado, a desindustrialização vai continuar a acorrer.

O senhor está pessimista?

É claro. Não vejo nenhum sinal de que esse problema vai ser enfrentado. Nem da parte do governo, nem das oposições, nem da academia.

Eleonora de Lucena
No fAlha
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Após silêncio de 20 dias, JN emite nota sobre HSBC, sem a palavra sonegação #GloboMostraDARF


Depois de 20 dias do escândalo do HSBC suíço estourar no mundo, na edição de sábado (28) do Jornal Nacional rompeu discretamente o silêncio sobre o assunto e o apresentador substituto William Waack leu uma notinha sobre o caso HSBC, de apenas 68 palavras (nenhuma delas era "sonegação").

Waack estava com cara de quem lia uma nota fúnebre, em rápidos 29 segundos, sem uso de imagens, nem infográficos explicativos, nem entrevistas, nada. Apenas o locutor lendo a nota.

A nota do Jornal Nacional disse apenas:


A Polícia Federal vai investigar as contas de brasileiros do HSBC na Suíça.

As irregularidades foram denunciadas pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos de 45 países. O HSBC teria ajudado clientes a esconder bilhões de dólares no país entre 2006 e 2007. A Polícia Federal quer saber se houve remessa ilegal de dinheiro.

O ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, disse que há indícios para abertura imediata de inquérito.
Nada de falar que o dinheiro escondido é em grande parte para sonegar impostos.

Nada de falar que a Receita Federal também investiga o caso, justamente para autuar grandes sonegadores, a exemplo do caso em que a própria TV Globo foi autuada por sonegar Imposto de Renda na compra dos direitos de transmissão da Copa 2002 da Fifa através de operações financeiras em paraísos fiscais.

E nada de falar na CPI da sonegação do HSBC já instalada no Senado na sexta-feira.

Que jornalismo mais sem-vergonha esse, que varre notícias para debaixo do tapete, quando afetam os interesses dos donos da emissora ou de seus anunciantes.

No Amigos do Presidente Lula
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A encruzilhada do Brasil que poderíamos ser

Se ainda há tempo para reverter a marcha dos acontecimentos é forçoso reconhecer que esse tempo se gasta aos saltos.

A via ortodoxa escolhida pelo governo para viabilizar o quarto mandato presidencial do PT está implantada e o paradoxo começa a dar frutos.

São ácidos.

O desemprego saltou de 4,3% em dezembro para 5,3% em janeiro; o governo acaba de anunciar um corte de 23,7% do orçamento do PAC e o BC deve aumentar a taxa de juro na próxima 4ª feira, para 12,75%.

Significa dizer que o ciclo econômico ajustou-se ao ciclo político.

Ao cerco conservador que antecedeu o período pré-eleitoral, e somente ali foi afrontado, sobrepõe-se agora uma asfixia econômica, que cada vez mais será percebida pela população como um torniquete que se ajusta diariamente.

Estamos só no começo da primeira volta.

A emissão conservadora ostenta uma coerência editorial de cabo a rabo. Não há mais dissonância entre o salvacionismo antipetista do noticiário político e os resultados registrados nas páginas de economia.

A recessão vai engrossar as fileiras do neoudenismo -- se não no aventado dia 15 de março, um pouco mais adiante.

Não há pressa. O tempo age a favor da turma que recentemente uivou contra o ex-ministro Guido Mantega, e sua esposa, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Ali ficamos definitivamente cientes de que ‘SUS’ para a fina estampa da elite paulista é o sinônimo de um palavrão.

O governo assiste a tudo com notável desdém pela própria cabeça.

A hora de Brasília não define mais a hora do Brasil.

A abertura e o fechamento dos mercados agendam a sociedade e não há contraditório.

A democracia não fala.

O ministro Joaquim Levy fala por ela.

Diariamente, oferece libras de carne fresca às tesourarias que no final do expediente dão a nota seca para o cardápio da jornada e deixam orientações para o desjejum da manhã seguinte.

É uma conversa de brancos de olhos azuis.

À Nação mestiça ninguém se dirige; tampouco lhe é facultado dizer o que pensa sobre o seu futuro.

Ilhadas na inundação das más notícias, sem comunicação com o governo, forças progressistas lançam manifestos desesperados em garrafas que nunca ultrapassam o espelho d’água do Planalto.

O aparato conservador não disfarça a sulfurosa agitação, nem camufla mais suas bandeiras no fundo do armário.

Serra fareja o clima e hasteia no peito a mais reluzente de todas.

O tucano quer fatiar e vender a Petrobras.

Sinal dos tempos: agora explicita aquilo que sempre teve o cuidado de ocultar.

Seu projeto resgata o plano sedimentado no governo FHC.

Trata-se de criar uma situação de fato.

Qual?

Privatizar pelas beiras, desossar o gigante por dentro, como uma proliferação de vermes. Até que a carcaça não pare mais em pé. E soe lógico rifá-la de vez.

Agências de risco lubrificam o metabolismo para a infestação maligna.

Ou não foi isso que a Moody’s fez ao rebaixar a nota da Petrobras?

A atilada organização, incapaz, como as demais, de enxergar uma mísera trinca no carrossel global antes de 2008, justificou o rebaixamento do rating pelo temor de que a estatal não tenha fôlego financeiro à altura dos seus compromissos.

Estranho.

A Petrobras tem como principal acionista o Tesouro brasileiro.

O Tesouro brasileiro não quebrou, nem vai quebrar. A Moody’s, ela própria, descarta dúvidas em relação à saúde fiscal do país.

Portanto, o Estado faria aportes necessários se e quando a estatal requisitasse.

E tampouco é o caso.

A Petrobras tem US$ 20 bilhões em caixa, o que a dispensa de ir ao mercado em busca de crédito em 2015.

Dispõe, ademais, de carta de crédito garantido, da ordem de mais R$ 10 bilhões, em três bancos: Banco do Brasil, Caixa e Bradesco.

O que a Moody’s fez então?

O velho truque de insuflar a profecia autorrealizável: a perda do rating, se acompanhada por outras agencias, impedirá que fundos internacionais possam investir na estatal.

Desidratada em sua capacidade de explorar o pré-sal restaria a ‘solução’ Serra.

Vender aos pedaços até sobrar só o tutano, o pré-sal. Então sepultar o regime de partilha para entregar o mocotó às petroleiras internacionais.

‘A Petrobras virou um monstro inadministrável’, vaticina o ex-presidente da UNE, de olho no efeito Moody’s, ele que em 1964 mirava as massas ao lado de Jango, no comício da Central do Brasil.

A figura melíflua simboliza a essência da degeneração política brasileira.

Daí não sai nada.

Exceto a reiteração das misérias seculares dissimulada em bandeiras salvacionistas.

Vender a Petrobras é a obsessão da consciência culpada que não suporta conviver com espelhos de sua traição.

O ex-governador de São Paulo é um marcador desse passado que regurgita sempre que o flanco histórico se abre.

Foi escancarado agora.

A disputa entre dois projetos de Brasil, que tem na luta pela destinação social do desenvolvimento um diferencial progressista, perdeu seus contornos históricos.

A vantagem estava expressa na carteira assinada, no ganho real do holerite, no fomento ao pleno emprego, no amparo aos mais vulneráveis, mas também em pilares simbólicos de uma ponte para o futuro assentada em mais justiça social e cidadania.

O pré-sal era, e ainda é, o principal alicerce dessa construção.

Que todavia carrega um pé de barro cuja fragilidade agora cobra suas consequências históricas: o projeto do PT delegou exclusivamente ao sucesso econômico a sua sustentação política.

Entranhado nesses doze anos de mandatos progressistas, o economicismo subestimou as contradições inerentes ao ambiente sublevado pela crispação oposicionista, que ganharia aderência social a partir da estagnação internacional.

Lacunas fatais foram coaguladas no rastro desse voluntarismo cego.

O PT e demais organizações progressistas tornaram-se organicamente obsoletos ao desempenho da engrenagem.

Daí para o peleguismo e a infecção burocrática é preciso pouco.

Não havia muito o que fazer.

Delegou-se a formação do discernimento popular a um pragmatismo de resultados, na certeza de que ele percolaria, automaticamente, das gôndolas dos supermercados para a correlação de forças da sociedade e daí para vitórias sucessivas nas urnas.

Nesse atalho da fila do caixa para a da urna a expressão ‘organização de base’ deixou de fazer sentido.

Perderia sentido também a conquista de uma hegemonia cultural e ideológica, com consequências nefastas.

A principal delas foi a pax branca que concedeu ao conservadorismo a prerrogativa intocável da comunicação com a sociedade.

Subestimou-se assim o impacto daquilo que mais cedo, ou mais tarde, estava fadado a acontecer: a crise internacional aportaria por aqui, exigindo do projeto progressista mais do que resultados econômicos imediatos para se legitimar.

Essa hora chegou.

E encontrou o terreno fértil de uma escalada golpista que enxerga na Lava Jato a avenida monumental para destruir o legado do PT, derrubar o governo Dilma e proceder à restauração neoliberal na sua volta ao poder.

Mais que isso, porém.

O equívoco que na bonança delegou exclusivamente às gôndolas a tarefa de legitimar um projeto progressista, agora se repete de forma ainda mais desconcertante na fase de baixa do ciclo econômico.

Transferiu-se — de novo e exclusivamente — à lógica de mercado, a ordenação de um ajuste que se faz à margem da negociação social.

De modo abrupto, sem salvaguardas, sem prazos, sem mediações políticas, sem a necessária repactuação do passo seguinte do desenvolvimento, transferiu-se a um centurião do mercado a tarefa de pavimentar um futuro, a contrapelo da bússola progressista.

Um governo é o seu legado e o seu futuro: como defendê-lo se nem o seu ministro da Fazenda o respeita mais?

O Brasil vive uma de suas mais graves encruzilhadas.

Se ainda há tempo para reverter a marcha dos acontecimentos, é forçoso reconhecer que esse tempo se gasta aos saltos.

A ampulheta do destino brasileiro escorre aos soluços.

A pouca sedimentação organizativa e ideológica da década de avanços reflete-se agora no acoelhamento de uns, na catatonia de outros, no sectarismo suicida de muitos, na prostração contagiosa e na inebriante determinação de não correr riscos — não correr riscos! — daqueles que bordejam o precipício e fingem não enxergá-lo.

O primeiro e mais dramático de todo os riscos é permitir que o Brasil retroceda às mãos da restauração neoliberal.

O segundo, acoplado ao anterior, será permitir que isso aconteça sem luta.

O terceiro, aceita-lo, antecipadamente, como se fosse fatalidade.

Daí para a rendição urdida na recusa à autocrítica e à retificação daquilo que não deveria nunca ter sido descuidado, é um passo.

Não um passo qualquer.

Mas o derradeiro passo em falso capaz de sepultar uma década e tanto de caminhada em direção ao país que o Brasil poderia ser no século XXI.

Mas que ainda não somos.

E não seremos jamais — se a restauração neoliberal vingar sobre uma base de acoelhamento progressista aviltante.

A ver.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Quem é Ivar Schmidt, que lidera o movimento de lock-out nas estradas contra Dilma

As entidades de classe dos motoristas fecharam um acordo com o governo e anunciaram que a greve, que permanece, seria na verdade um lock-out (movimento dos empresários).

A figura que emergiu como articulador das paralisações Brasil afora, via WhatsApp e à parte das organizações de classe, foi o empresário de Mossoró, Ivar Schmidt.

Schmidt é presidente de uma pequena associação de empresários do setor de transportes.

Ivar era caminhoneiro nos anos 90. No governo Lula, abriu uma pequena transportadora e com o crédito ao trabalhador se tornou um forte empresário do setor de transporte da região.

Eleitor e defensor assíduo de Aécio Neves (PSDB) nas últimas eleições, Ivar junto com Tássio Mardony, vereador do PSDB, e alguns empresarios e médicos lideraram a campanha do tucano em Mossoró.

“É curioso destacar que tanto o próprio Ivar e sua família foram um dos muitos casos de crescimento de renda nos governos petistas. Não se sabe ao certo o motivo do ódio, mas é no mínimo contraditória a posição de Ivar”, questiona uma mensagem que chegou ao blog. “Mas ninguém sabe ao certo de onde saiu o emponderamento do mesmo, já que as associações, sindicatos e federações não o reconhecem como liderança da categoria”, conclui.


No Carta Potiguar
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Spartacus

Há dias vi na TV a versão restaurada de “Spartacus”, de Stanley Kubrick, lançado originalmente em 1960. “Spartacus” não era exatamente um filme “de Stanley Kubrick”, na medida em que Kubrick só assumiu a direção depois que Anthony Mann, o primeiro escolhido, brigou com Kirk Douglas, o astro principal e um dos produtores do filme, e pediu o boné. Se Mann, que dirigiu alguns westerns clássicos e um épico inesquecível, “El Cid” (Charlton Heston, Sophia Loren e a paisagem da Espanha, todos monumentais), faria um filme diferente, é matéria para debate acadêmico ou de mesa de bar. Kubrick já dirigira Kirk Douglas em “Glória feita de sangue”, mas pode-se imaginar que não tenha se sentido muito confortável como o segundo escolhido para dirigir “Spartacus”. O filme tem alguns toques kubrickianos, se você procurar bem, mas Mann parece ter deixado uma marca pessoal mais evidente no produto final. E todas estas especulações são irrelevantes porque, se há um filme na historia do cinema em que quem escreveu é mais importante do que quem dirigiu, este é “Spartacus”.

A origem literária do filme é um romance de Howard Fast, ativista político perseguido pelo macarthismo e um batalhador por causas como a do sindicalismo e dos direitos de trabalhadores e imigrantes — e, além disso, um bom escritor. A adaptação do romance de Fast para o cinema foi feita por Dalton Trumbo, um dos roteiristas de Hollywood que durante muito tempo foram obrigados a assinar seus trabalhos com pseudônimos, pois estavam na lista negra do macarthismo. Trumbo dá uma lição, no roteiro de “Spartacus”, de como ser político sem ser panfletário ou aborrecido. A sentimentalização do escravo rebelde segundo Trumbo às vezes resvala no xarope mas o próprio Douglas se encarrega de manter sua nobreza de espirito dentro de limites palatáveis. E para representar a luta pelo poder em Roma enquanto os escravos rebeldes enfrentam as centúrias mandadas para subjugá-los — que é o subtexto, como se dizia no meu tempo de mesa de ar, da história — Trumbo conta com dois atores fantásticos, Laurence Olivier e Charles Laughton. Laurence incorporando o aristocrata que defende uma Roma idealizada, sem lugar para a ralé e muito menos para escravos insubmissos, e de preferência sob a sua ditadura, enquanto o gordo e libertário (e simpaticamente corrupto) Laughton representa o povo e os valores da República. Trumbo lhes dá discursos definitivos sobre o que cada um simboliza, na Roma da época e em gerações ainda por vir.

A versão restaurada do filme repõe uma cena cortada do original, considerada sugestiva demais. Crassus (Laurence Olivier) escolhe um escravo bonitinho (Tony Curtis, com sotaque do Brooklyn intacto) para ser seu servo pessoal. Numa cena penumbrosa na beira de uma piscina, Crassius, recém-saído do banho, diz ao servo que às vezes gosta de ostras, às vezes gosta de escargôs, o que foi considerada uma confissão cifrada mas clara de bi-ssexualidade. Tony Curtis, sensatamente, dá o fora. Como se vê, uma das coisas que mudariam em gerações ainda por vir, em Hollywood, seria o conceito de sugestivo.

Luís Fernando Veríssimo
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Bloqueio nas estradas faz acabarem comida e combustível, diz a Globo. Só que não…


Do Facebook do simpático professor catarinense Pedro Cabral Filho, os vídeos a que ele se refere, para você ver que não tem exagero.

É a Globo (RBS, lá) em mais uma sessão de “o mundo está se acabando”.

Chega a dar vergonha de ser jornalista: ser desmentido ao vivo pelas pessoas que estão sendo entrevistadas, na ânsia de incutir o pânico na sociedade.

Diz o Pedro:

Péssimo dia Santa Catarina. Na sua campanha do vale tudo contra o governo Dilma o jornaleco matinal da RBSteira, mau dia Santa Catarina de hoje (26) de manhã repercutiu assim a greve dos caminhoneiros:



— Faltará comida no Estado e o desabastecimento já começou nos supermercados de Itajaí.

Diz a antara, ou âncora.

— Vamos direto com a repórter Tal diz:

— Estou aqui com o Sr. Fulano, do sindicato dos supermercados. Como está o desabastecimento?

— Não existe desabastecimento em Santa Catarina. Cuidado com esta campanha de apavoramento, isso não acontece aqui.

A repórter gagueja e tenta reverter a pergunta. O entrevistado volta a afirmar que a paralização está acabando e está tudo regular.

— Pois é, é com vocês do estúdio.

Não satisfeitos e com a pauta do ódio, a metralhadora é virada para os postos de gasolina.




— Já falta gasolina em Santa Catarina, principalmente no Oeste do Estado. Vamos conversar com o Sr. Sicrano, representante das empresas de distribuição.

— Já falta combustível nos postos de Florianópolis e região? Dizia a coitada da repórter.

— Claro que não. Florianópolis é abastecida pela região de Biguaçu e isso não tem a menor condição de acontecer.

— Mas a gasolina irá aumentar. Diz a tansa.

— Como? Uma coisa não tem relação com a outra.

A tola retorna para o estúdio e as caras de “puta que pariu” não deu certo, dava até vergonha. O difícil é que a sutileza apresentada não é para todos. Por isso continuo afirmando que educação é tudo. Ler torna a gente mais inteligente, mais esperto e perspicaz. Dói, mas é prazeroso.

Conferi os vídeos: com uma palavra a mais ou a menos, é isso mesmo: a nítida tentativa dos repórteres de levar os entrevistados a pintarem o inferno de  Dante.

Foi a época em que jornalismo se fazia com notícia….

Fernando Brito
No Tijolaço
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Por que mídia escondeu a sonegação de R$ 502 bilhões em 2014?


A confirmação de abertura da CPI do Suiçalão no Senado pode ser uma grande oportunidade.

Aliás, doravante podemos até mudar o nome dela para CPI da Sonegação.

Há algumas semanas, o Sindicato dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz), divulgou um estudo em que estimava a sonegação tributária no ano passado em R$ 502 bilhões.

Para efeito de comparação, os estudos oficiais sobre a corrupção no Brasil costumam estimar um prejuízo em média de R$ 70 a 80 bilhões por ano.

Um estudo da Câmara Federal estimou precisamente em R$ 85 bilhões por ano.

A Veja, que tem interesse em apresentar o Brasil como o país mais corrupto do mundo, estima que a corrupção no Brasil atingiu R$ 82 bilhões por ano.

Procurei a informação sobre o estudo do Sinprofaz na grande mídia.

Nada.

Por que “sonegaram” essa informação?

Os procuradores estimam que a redução da sonegação poderia permitir uma queda brutal da carga tributária.

Eu prefiro nem pensar assim.

Prefiro pensar que poderíamos, ao invés de reduzir a carga tributária, aprimorar de maneira extraordinária a qualidade dos serviços públicos oferecidos aos brasileiros.

Esse mais de meio trilhão de reais por ano dá para bancar, para início de conversa, uma revolução na infra-estrutura, construindo metrôs, trens, vlts, novas estradas, portos, aeroportos em todo país.

Por que a mídia abafa obsessivamente as denúncias e os debates sobre a sonegação e evasão fiscal no país, notadamente a maior do mundo, segundo a ONG Tax Justice?

Diante deste quadro, que arrasa as contas públicas nacionais, o escândalo do HSBC oferece excelente oportunidade para combatermos a cultura da sonegação.

A mesma coisa vale para a sonegação da Globo.

As eleições do ano passado, extremamente turbulentas, sobretudo por causa da morte trágica de Eduardo Campos, abafaram um pouco a divulgação dos documentos completos da sonegação da Globo.

Entrem neste post do Cafezinho, baixem os arquivos e me ajudem a estudar o processo da Receita Federal contra a Globo.

Há vários documentos com as assinaturas dos irmãos Marinho, proprietários da Globo.

Não é nenhuma “delação premiada”.

São provas materiais, concretas, de crime contra o sistema tributário nacional.

Um crime cometido por uma concessão pública de TV que ganha bilhões e bilhões de recursos públicos, de todos os governos, municípios, estatais, e todo o tipo de órgão público nacional.

A Globo é a última empresa que poderia sonegar impostos e evadir recursos para o exterior ilegalmente.

E, no entanto, ela fez isso.

A Globo não pode sair impune tão facilmente de uma operação que envolveu a tentativa criminosa de escamotear recursos que pertencem ao povo brasileiro.

Não adianta falar que pagou o Darf.

Evasão fiscal e lavagem de dinheiro não podem ser perdoados porque se pagou uma dívida.

A Justiça e o Ministério Público não zelam, de maneira tão rígida, pelo bem público, a ponto de pretenderem fechar e quebrar todas as grandes empreiteiras nacionais em nome disso?

Por que um zelo obsessivo, até mesmo destruidor, de um lado, e nenhuma disposição para investigar os grandes sonegadores nacionais?

A nossa mídia faz uma campanha sistemática contra os impostos, sem jamais explicitar que a sonegação representa o crime mais lesivo aos cofres públicos.

Por que isso, se a sonegação é a seis vezes maior que a corrupção?

Queremos mais informações sobre o estranho roubo do processo da sonegação da Globo, um roubo que resultou em grande vantagem para a emissora, porque postergou a sua transferência para a esfera criminal do Ministério Público.

Esperemos que a CPI do Suiçalão, enfim, abra uma brecha neste mórbido pacto de silêncio da mídia quando o assunto é o principal problema brasileiro, aquele que atinge diretamente as contas públicas nacionais.

Também estamos curiosos para entender porque o PSDB não assinou o requerimento da criação da CPI do Suiçalão?

O PSDB não acha que a sonegação brasileira seja um problema nacional?

E a mídia, por quanto tempo vai bloquear o debate sobre a evasão fiscal brasileira?

Miguel do Rosário
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O nascimento de um jornal de referência

A independência em relação aos poderes econômicos ou políticos e a total liberdade da redação são princípios fundadores do Le Monde.

Por estar convicto de que a imprensa é um poder que pode estar na contramão dos interesses do país, o general De Gaulle decidiu criar um jornal para defender os interesses da França, recém-libertada da ocupação alemã, que durou quase cinco anos. Nascia o Le Monde.

O primeiro número do diário vespertino foi publicado dia 18 de dezembro de 1944 (com data do dia seguinte, como até hoje). Surgiu da determinação do general de Gaulle de dotar o país de um jornal prestigioso voltado para o mundo. Mas, logo nos primeiros anos de vida, a redação se libertou do peso de cotidiano oficioso pois os jornalistas tinham um projeto de jornal totalmente independente.

Convidado a dirigir o Le Monde, Hubert Beuve-Méry não tinha vocação de vassalo do poder. Fundou uma sociedade de responsabilidade limitada e depois a Société des Rédacteurs du Monde para defender a independência da redação e deixou claro que não aceitava estar sob a proteção ou dependência de qualquer poder, político ou econômico. No primeiro editorial Beuve-Méry deu o tom: « O jornal vai garantir ao leitor informações claras, verdadeiras e, na medida do possível, rápidas e completas”.

Nascia o mais respeitado jornal francês, conhecido como « le quotidien de référence » por seu compromisso com o jornalismo isento, no qual os jornalistas decidem de A a Z o conteúdo editorial. A atual Charte d’étique et de déontologie (Código de Ética), reescrita para se adaptar às novas mídias sem nunca se afastar dos princípios fundadores, diz claramente: “A independência editorial das publicações do grupo Le Monde em relação aos acionistas, anunciantes, poderes públicos, políticos, econômicos, ideológicos e religiosos é condição necessária a uma informação livre e de qualidade”.

Logo no preâmbulo a Charte d’étique assinala que seu objetivo é « definir os princípios essenciais de independência, de liberdade e de fiabilidade da informação, além de precisar os direitos e deveres dos jornalistas, dos dirigentes assim como dos acionistas. »

O caso HSBC

No mês de fevereiro deste ano, o jornal deu, mais uma vez, provas de sua absoluta liberdade de edição em relação aos acionistas ao publicar em duas edições seguidas o furo sobre o sistema de fraudes fiscais de contribuintes do mundo inteiro que tinham contas na Suíça, no banco inglês HSBC.

No dia seguinte à primeira publicação pelo Le Monde de algumas dezenas de contribuintes franceses — de uma lista de 3 mil que para escapar do fisco francês se beneficiaram do guarda-chuva do HSBC — dois dos três acionistas do jornal, Mathieu Pigasse e Pierre Bergé, declararam publicamente, em entrevistas, não concordar com a decisão editorial.

Mathieu Pigasse, diretor-geral do Banco Lazard, conhecido por suas posições de esquerda e por seu interesse particular pela imprensa (detém parte do grupo Le Monde, juntamente com Pierre Bergé e Xavier Niel, além da revista Les Inrocks) criticou a decisão editorial de publicar nomes como um certo “populismo” ou “macartismo fiscal”. Mas declarou-se “orgulhoso” pelo trabalho de investigação feito pelos jornalistas do Le Monde.

Pierre Bergé — ex-companheiro de Yves Saint-Laurent, criador e responsável pelo sucesso da marca do estilista —, que viu a publicação de nomes como uma espécie de “delação”, lembrou: “Eu me comprometi por escrito a não intervir no conteúdo do jornal, o que sempre respeitei. Mas não me comprometi a me calar e não criticar as matérias”. Entre os direitos dos acionistas não consta no código de ética nenhuma intervenção no conteúdo editorial. Isso faz deles um leitor como outro qualquer.

De fato, o código de ética do jornal, assinado por seus três acionistas ao comprar o título em 2010, diz que o papel deles é “definir a estratégia da empresa e não tentar pesar sobre o sentido da informação”, como assinalou a Société des rédacteurs du Monde (SRM), que viu nas críticas dos dois acionistas uma “tentativa de intrusão no conteúdo editorial do jornal”. O presidente atual da SRM, Alain Beuve-Méry, afirmou que, como leitores, tanto Pigasse quanto Bergé podem se expressar e criticar o jornal à vontade. Como acionistas, têm que respeitar a código de ética, ou charte d’éthique, que assinaram.

Jornalistas fuzilados depois da libertação de Paris

Le Monde tem a política no seu DNA. Nasceu como herdeiro natural do jornal Le Temps, acusado de colaboração com os nazistas. Dele herdou a apresentação gráfica sóbria, além de parte da redação e o local na Rue des Italiens. A imprensa que colaborou com o ocupante e com o governo fantoche do marechal Pétain, instalado em Vichy, desapareceu com a vitória dos aliados e o restabelecimento da democracia. Alguns dos diretores dos jornais colaboracionistas foram julgados e fuzilados, como Georges Suarez, que dirigia o jornal Aujourd’hui, patrocinado pela embaixada alemã. Foi o primeiro jornalista condenado à morte depois da libertação de Paris, em 1944. Apesar de judeu, Suarez vendera a alma ao nazi-fascismo.

No imediato pós-guerra, o papel era drasticamente racionado e o Le Monde, como outros jornais, começou a circular em folha única impressa dos dois lados. Ao completar 70 anos em dezembro de 2014, o jornal comemorou a publicação de 21 mil números.

Com o tempo, o jornal foi se tornando um grupo de imprensa poderoso e multifacetado que hoje conta diversos títulos, entre eles o jornal online lemonde.fr, o Le Monde Diplomatique, Le Monde des Religions, o Courrier International, as revistas Télérama e La Vie.

Para a direita ele é à esquerda demais. Uma esquerda mais radical o considera de centro-esquerda e o critica por não tomar posições mais claras defendendo os países mais frágeis contra o poder da Troika, como no caso da Grécia. No entanto, para jornalistas de todos os espectros do leque político, o Le Monde é um modelo. Tornou-se o « jornal de referência » na avaliação de jornalistas e políticos por sua ética e sua independência.

Mas nenhum jornal pode se tornar uma referência se não tiver como norte os três princípios que abrem a lista dos « deveres dos jornalistas » do Le Monde: 1. Respeitar a verdade, quaisquer que sejam as consequências para si mesmo, em razão do direito que o público tem de conhecer a verdade; 2.Defender a liberdade de informação, de comentário e crítica; 3. Publicar somente informações cuja origem é conhecida ou então acompanhá-las das reservas que se impõem; não suprimir as informações essenciais e não alterar os textos e documentos.

Em outro texto do código de ética do jornal lê-se que as diversas mídias do grupo têm por vocação fornecer uma informação de qualidade, precisa, devidamente checada e equilibrada. Os jornalistas devem ter um olhar crítico sobre os acontecimentos e os jornais do grupo devem expressar o pluralismo das opiniões.

Quantos jornais e revistas da grande imprensa brasileira poderiam garantir que respeitam esses deveres básicos do bom jornalismo?

Para garantir a pluralidade da informação, a République Française subvenciona, através de ajudas diretas e indiretas, os órgaõs de informação, abrangendo todo o espectro ideológico. Assim, seja o comunista L’Humanité, o católico La Croix, os jornais de centro-esquerda Le Monde e Libération ou o direitista Le Figaro, todos recebem subvenções do Estado. No orçamento de 2013 estas se elevavam a 513 milhões de euros, segundo o Projeto de Lei de Finanças. Além dessas ajudas diretas, o Estado também garante tarifas de postagens especiais para os jornais e um sistema fiscal que beneficia os 36 mil jornalistas franceses.

Exatamente um mês depois do atentado que dizimou a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, foi aprovada nova lei de ajuda à imprensa que prevê isenção fiscal de pessoa física para doações a empresas jornalísticas com menos de 50 assalariados. A lei recebeu o nome de Charb, o diretor de Charlie, morto no massacre de 7 de janeiro.

Leneide Duarte-Plon
No Carta Maior
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Dilma, o único antídoto contra o fundamentalismo é o confronto

Foto: José Cruz/Agência Brasil
Entendo que Lula deseje pacificar Dilma com o PMDB para que, afinal, eles não acabem participando da trama do impeachment. Entendo que a própria presidenta queira isso. Mas há PMDBs e PMDBs. Não existe mais a possibilidade de Dilma dialogar com o PMDB que Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, representa. O PMDB dos fundamentalistas religiosos, dos que querem transformar o País numa teocracia. Esta gente odeia Dilma, odeia tudo que ela representa. E quer tomar o seu lugar.

A história do PT o empurra para a obrigação de deter a escalada dos fundamentalistas, cujo alvo principal é a presidência da República. Ou Dilma e Lula têm a ilusão de que em 2018 terá este PMDB a seu lado novamente? Em nome da tal governabilidade, o PT dilapidou seu patrimônio ético e político ao longo dos anos que está no poder. Para agradar setores à direita, eliminou os “radicais” do partido, quando em muitos aspectos eles eram o que de melhor o PT tinha. Que falta eles fazem hoje!

Será que o PT acalenta o sonho de permanecer no poder em 2018? Ou melhor: será que o PT será reeleito em 2018? Tenho minhas dúvidas. Mas tanto para permanecer no poder quanto para se preparar para deixá-lo, o partido deveria começar a fazer o que tem de ser feito. Dar ao Brasil de presente a entrada no primeiro mundo de fato, onde a civilidade supera a barbárie. Neste quarto mandato à frente do País, o PT precisa passar a história, como fez Pepe Mujica no Uruguai e mesmo Barack Obama nos Estados Unidos. E acredito que Dilma sairá fortalecida se o fizer. O PT cresce quando confronta.

O contra-ataque no Congresso deveria se basear em quatro projetos basicamente:

1. Imposto sobre grandes fortunas: é um assunto que conta com o apoio de grande parcela da população. Só é polêmico, na verdade, para quem possui grandes fortunas.

2. Legalização da maconha para uso medicinal: segundo pesquisa Datafolha de novembro do ano passado, 56% dos brasileiros se manifestaram contrários à venda da maconha para uso medicinal. Mas e os outros 44%? Uma boa campanha não seria capaz de modificar o pensamento de quem se opõe? Se o próprio ex-presidente FHC, que é da oposição, participa de campanhas a favor… Este é um tema caro à esquerda brasileira, tão menosprezada pelo PT nos últimos anos. E o ideal é que fosse um projeto que abarcasse também o uso e o plantio para consumo próprio, o que elimina o narcotráfico.

3. Reforma política: um projeto próprio e avançado, com tudo que o PT sempre quis colocar em pauta. Voto em lista, financiamento público de campanha e aumento da participação da mulher. Nada mais perfeito para mostrar quem está mesmo preocupado com a ética na política.

4. Criminalização da homofobia: pesquisa do Ibope de setembro do ano passado mostrou que 53% dos brasileiros são contra o casamento gay, mas 40% são a favor. Trata-se de uma parcela muito significativa da população que se mostra partidária da tolerância com o semelhante e que precisa ser atendida em seu desejo de que o País avance no combate ao preconceito. Sem contar que os LGBTs votaram em Dilma, ela lhes deve isso.

Ao apresentar estes projetos no Congresso, Dilma iria recuperar imediatamente a simpatia da parcela mais progressista do eleitorado, que é formadora de opinião e foi importantíssima para sua reeleição. E, assim como Obama fez, dará um xeque-mate no conservadorismo religioso, porque é uma dessas ocasiões em que, mesmo se for derrotada, Dilma ganha. Se perder, o Congresso sairá com uma imagem extremamente retrógrada não só diante do Brasil como do mundo. A presidenta, ao contrário, sairá como a mulher que tentou colocar o País no rumo das nações mais civilizadas do planeta e foi derrotada por políticos atrasados, dignos de república de bananas.

Aposto que seria uma boa briga e que só faria bem à popularidade da presidenta. Um antídoto contra o golpismo dos fundamentalistas, que dificilmente conseguiriam levantar a cabeça de novo. Se, em vez disso, o PT e Dilma resolverem baixar a cabeça, cedendo cargos e espaço no governo para o conservadorismo, nada mais farão que dar um tiro no próprio pé e enterrar o partido de vez. Além de colocar o Brasil no rumo das trevas.

Ninguém aguenta mais a covardia que o PT está demonstrando no governo. Afinal, a presidenta tem coração valente ou era só truque de marketing? Vai para cima deles, Dilma!

(Mais para o final do mandato, a presidenta Dilma deveria apresentar ao País um bom projeto para a legalização do aborto. Está mais do que na hora e ela é a pessoa certa para fazê-lo e passar à história. Tenho certeza disso.)

Cynara Menezes
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