16 de fev de 2015

Celso Amorim — Ex-Chanceler, Ex-Ministro da Defesa

“Há uma obsessão na mídia local por denegrir o Brasil”

Celso Amorim fala sobre Irã, em 2012.
Antonio Cruz (ABr)
Ex-chanceler dos anos Lula revisita tentativa de mediação com o Irã ao lado da Turquia

Diplomata lamenta crise de recursos na diplomacia e recuo em iniciativas do Brasil

Primeiro, ele confiava na memória. Depois, até espaços em branco em cardápios de restaurantes foram sendo preenchidos em centenas de viagens. Foi só um ano e meio depois de estrear como chanceler do governo Lula que Celso Amorim ganhou um presente: “Quem me deu um caderninho foi a Dilma. No Equador. Ela era ministra de Minas e Energia e ela me disse: ‘Olha aqui, para você escrever’.”

Desse caderninho e dos que se seguiram, Amorim retirou as anotações para refletir, anos depois, sobre três momentos de sua passagem pelo Itamaraty entre 2003 e 2010. O resultado está em "Teerã, Ramalá e Doha - Memórias da política externa ativa e altiva" (Benvirá), a ser lançado no mês que vem.

No livro, Amorim revisita a tentativa do Brasil e da Turquia de mediar a negociação do programa nuclear iraniano, em 2010, um momento de protagonismo global mas controverso de sua gestão, os movimentos da diplomacia local no mundo árabe e o papel brasileiro nas negociações da OMC (Organização Mundial do Comércio).

Na entrevista abaixo e no livro, o ex-ministro de 72 anos sublinha o que julga ter sido um papel ambíguo da então colega Hillary Clinton na questão. Ele relata que a secretária de Estado tentou, sem sucesso, dissuadi-lo da tarefa de conseguir o acordo com Teerã, que previa o enriquecimento de urânio para pesquisa médica tendo o Brasil e Turquia como fiadores — Istambul seria ainda intermediária e guardiã do material. O acordo foi, depois, rejeitado pelos EUA, apesar de cumprir os requisitos pedidos inicialmente, em carta, por Barack Obama. Para o ex-chanceler, um fator para o recuo americano em relação à proposta turco-brasileira foi a agenda política própria da democrata.

Amorim queixa-se, como no livro, da cobertura da imprensa brasileira deste caso e de outros. Para ele, é excessivamente negativa, uma "obsessão" local, o tratamento depreciativo do Brasil na grande mídia ­ (e não só sob Lula).

Já desvencilhado das funções de ministro da Defesa de Dilma desde dezembro, o ex-chanceler explica por que resolveu falar publicamente da crise de recursos do Itamaraty. Mostrou-se frustrado porque as diretrizes de expansão do corpo diplomático brasileiro e certas iniciativas globais lançadas por ele não tiveram seguimento no governo da sucessora de Lula.

Por que o sr. quis escrever sobre a iniciativa do Brasil e Turquia na questão iraniana? Foi para evidenciar a troca de posição de Hillary Clinton especialmente?

Achei que era importante reunir de uma maneira mais ou menos sistemática as minhas anotações e as minhas lembranças. Comecei a fazer isso na época em que tinha saído o acordo provisório do P5+1 com o Irã (sobre o programa nuclear iraniano, em 2013). Recebi dois pesquisadores americanos que estavam escrevendo sobre ‘oportunidades perdidas’. Eles tinham escrito sobre (Jimmy) Carter e Cuba nos anos 70 e vieram falar comigo sobre Irã, por isso tive a ideia do título (do capítulo: ‘Declaração de Teerã: oportunidade perdida?’). É evidente que no curso da narrativa eu tive a preocupação de esclarecer como eu vi tudo se passar. Foram criados muitos equívocos. Como é que o presidente escreve uma coisa e quinze dias depois um ministro diz uma coisa diferente? Eu dou duas explicações possíveis, e eu confesso que a primeira a que eu me inclinei foi achar que Hillary não conhecia em detalhe (a carta de Obama que propunha os termos de um possível acordo com o Irã). Não é impossível, mas não é comum, porque lá eles são muito coordenados. Depois, pensei que poderia ter sido uma coisa diferente, como quem diz: ‘Obama escreveu mesmo, mas não tem importância. Estou aqui eu. Eu sou secretária de Estado e estou dizendo’.
Há uma obsessão pelo autodenegrimento na mídia brasileira, deve ser uma coisa da psicologia coletiva. Eu acho que é pior com o PT, mas mesmo sem o PT era assim.
Em retrospectiva, o que o sr. e o Brasil poderiam ter feito diferente?

Nós fomos até onde podíamos com a nossa capacidade diplomática, nossa capacidade de persuasão. Não acho que teríamos outra coisa a fazer. Até porque não era uma agenda nossa, e no livro eu deixo isso claro. O Obama é quem pediu. Eu me interessava, tinha participado daqueles episódios do Iraque. Eu achava que o Brasil tinha, sim, capacidade para ajudar a resolver o problema, desde que houvesse disposição das partes. Quando o Obama pediu, pareceu que era uma oportunidade. Nós temos uma vocação universalista na política externa e o Irã é um país importante. Dados os preconceitos e as atitudes muito tímidas que a opinião pública brasileira, e sobretudo a mídia brasileira, estimula, o Irã era, não digo essencial, mas útil para que o Brasil estivesse envolvido positivamente em uma questão universal. O que houve foi uma mudança de comportamento político, mas nós produzimos o que ninguém acreditava que nós fôssemos produzir, que o P5 + 1 não tinha produzido, que a Rússia não tinha produzido. Enfim, seria um gol. O fato de não ter sido gol não quer dizer que você não tem que chutar. Se não chutar, não vai fazer gol nunca.

O sr. falou da mídia e a crítica à imprensa brasileira é muito presente no livro. O que se escreve aqui tem tanto peso assim?

A mídia tem uma influência na opinião pública. Você pode dizer que hoje em dia, talvez, é menos importante do que foi no passado, que há outras fontes de informação, redes sociais, etc., mas obviamente tem um peso. As pessoas às vezes fazem perguntas estapafúrdias de quem nunca entendeu nada porque só leu a mídia brasileira. Não estou falando uma coisa da minha cabeça. Conversando com embaixador estrangeiro aqui, depois até de sair da Defesa, ele fez um comentário: ‘Nunca estive num país em que a mídia fosse tão unanimemente contra o governo quanto é no Brasil.’ Vou até complementar isso, embora, você sabe, eu tenha trabalhado com Lula, Dilma, seja ligado ao PT: Eu acho que é pior com o PT, mas mesmo sem o PT era assim. Eu dizia isso e meus amigos do PT não gostavam muito, não, mas é a verdade.

Cito um exemplo: uma vez eu estava na OMC, quando aconteceu aquele episódio da Vaca Louca no Canadá logo depois da questão da Bombardier e a Embraer. Claro que eles negaram até à morte que houvesse ligação entre as duas coisas, mas, para mim, tinha, e eles não tinham fundamento na questão da Vaca Louca. Eu convoquei uma reunião de um dos comitês fitossanitários que tem lá na OMC e era uma coisa fora do comum que um embaixador fosse a esse tipo de reunião mais técnica. Cinco ou seis países apoiaram o Brasil e o Canadá, exclusivamente, criticou o Brasil. Manchete no outro dia num dos grandes jornais: ‘Brasil é criticado na OMC’. Isso era na época do Fernando Henrique. Não posso nem dizer (que era coisa contra o PT). Há uma obsessão pelo autodenegrimento, deve ser uma coisa da psicologia coletiva, que eu acho que se acentuou com um governo popular, que não é de elite, mas não é só com ele, não.

Mas o sr. não acha que é melhor isso que uma coisa à americana, de imprensa patriótica fechada com o governo, o que pode acabar em desvios?

Não acho que deve ser fechada. Acho que deve ser objetiva. Dou esse exemplo porque ele é emblemático. Nunca fizemos o que a mídia queria, mas temos de lidar com a opinião pública. Tudo foi pintado de uma maneira totalmente diferente do que era, que o Brasil queria ser amiguinho do Irã, voluntarismo, Chávez. Uma misturada na cabeça.
Enfim,  (com o Irã) seria um gol. O fato de não ter sido gol não quer dizer que você não tem que chutar. Se não chutar, não vai fazer gol nunca.
Os relatos do livro sobre as iniciativas globais do Brasil na sua gestão contrastam com a leitura atual da política externa, de recolhimento e também de crise financeira, como o sr. escreveu em artigo para a Folha de S. Paulo. Por que decidiu falar da crise no Itamaraty?

Escrevi porque achei que tinha obrigação de escrever. Fui ministro de Relações Exteriores por nove anos e meio. Não é quantidade que faz a qualidade, mas fui o chanceler mais longevo da República ou até do Império. Eu me sinto responsável pelos jovens que entraram no Itamaraty ou que querem entrar no Itamaraty em grande parte motivados pela nossa política externa, mas que precisam de um mínimo de meios materiais para fazer essa política. Todo dia que eu abria o jornal tinha uma notícia negativa. Tenho muita confiança no Mauro (Vieira, novo chanceler). Ele tem tudo para ser um excelente ministro. Ele tem muito conhecimento da política externa, da diplomacia. Trabalhou comigo duas vezes. Foi chefe de gabinete. Conheço ele muito bem. Ele é muito hábil, e talvez seja mais hábil que eu. Eu falo muito o que eu penso, e isso de repente até cria resistências. Não sei. Eu acho que ele vai conseguir melhorar. Provavelmente, isso vai acontecer gradualmente. Não quero fazer esse julgamento. Achei que minha palavra poderia ter algum peso, estimular os jovens a ir para frente. Quem sabe isso também chega aos ouvidos de outras pessoas.

O sr. nunca recebeu o convite para voltar para o Itamaraty?

Não recebi o convite.

Se tivesse recebido, teria voltado?

Quero deixar isso muito claro: não pleitearia, e não pleiteei. Cheguei a comentar, não com a presidenta, mas cheguei a comentar que o problema aí não era tanto o nome, mas ter condições. Não pleitearia até pelas condições do país. Dificilmente eu teria como fazer um trabalho, a meu ver, tão positivo como eu fiz naquela época, tem também o momento do Brasil, do mundo naquela época. Eu não poderia recusar porque eu teria um sentimento de responsabilidade com relação às pessoas, sobretudo os jovens. Só em quatro concursos entraram 400 pessoas, 40% do quadro do Itamaraty. Como eu poderia dizer, se fosse convidado: ‘Agora não é comigo, não, porque eu já cansei’.
Houve vitórias também. Um dado muito importante recente foi a criação do Banco dos Brics. As reações da presidenta Dilma sobre a espionagem americana foram muito corretas.
Quantos às vagas no Itamaraty e os postos na África, há quem diga que o governo Lula deu um passo maior que a perna, que não era sustentável, e que a crise agora reflete isso. O que sr. diz?

Hoje em dia não está na moda citar Marx, mas vou citar uma frase dele que eu muito certa: a humanidade só coloca problemas que ela pode resolver. Você não pode querer, de antemão, resolver todos os problemas. Essas questões iam surgindo e a gente ia resolvendo. Eu confiava que as coisas continuassem no mesmo sentido. Evidente que você não pode deixar o embaixador sozinho na África, porque senão você faz das críticas, como se diz em inglês, uma profecia autocumprível. Se bem que, na hora de eleger o doutor Graziano (da FAO) e o Azevêdo (na OMC), ter embaixador na África ajuda, mesmo que ele não estiver fazendo nada, mas é claro que ele precisa fazer alguma coisa. Precisa de recursos para a Agência Brasileira de Cooperação, precisa ter condições de trabalho adequadas, que as pessoas não fiquem com medo de pegar malária. Isso pode acontecer com qualquer um, mas porque não tem ar condicionado porque não pagou a conta de luz não tem cabimento. Você tem que dar os estímulos adequados, as pessoas têm de saber que vão para um posto difícil e que depois terão recompensa, seja nas condições de vida materiais, seja em promoções.

Não acho que foi passo maior que a perna. Isso é a visão de quem não quer fazer nada. No mesmo ano em que aumentamos de 1.000 para 1.400 diplomatas, os EUA aumentaram de 10.000 para 14.000. Não estou dizendo que temos de ser do mesmo tamanho, mas também não podemos ter 1.000.

O sr. acha que faltou esse entendimento no governo Dilma?

Não vou julgar. Eu fui ministro do governo Dilma. Não sei se as circunstâncias não permitiram. Não cabe a mim dizer. Eu sei o que eu esperava fazer, que era preciso ter um apoio grande, era preciso que a outra lei que criava mais 400 vagas tivesse sido implementada — se não no ritmo que a gente fez, num ritmo um pouco menor, cinco, seis anos, sei lá. Motivação é fundamental.

E gestos de prestígio da presidenta? No seu livro, o sr. cita várias vezes o entusiasmo de Lula.

Lula gostava muito do Itamaraty. Ele foi até lá muitas vezes. Isso realmente estimula, ajuda as pessoas. Não quero fazer críticas. Volto a dizer: a própria escolha do Mauro demonstra, na minha opinião, que a presidenta Dilma está empenhada em ter uma boa política externa. Eu só tenho que ter esperança. Vamos ver se isso se concretiza. Isso depende da habilidade de cada um.

Em meio à crise, o governo cortou verbas de viagem, também não compareceu a uma discussão sobre a guerra na Síria, em Genebra. Isso não é frustrante para o senhor, que dedicou um capítulo do livro à movimentação diplomática brasileira no Oriente Médio?

Eu lamento. Você não constrói condições para ser convidado para uma reunião de poucos países sobre a Síria em poucos dias, você constrói em dez anos. É importante. Não vou negar que, nesse episódio específico, fiquei pensando: ‘Puxa vida, devíamos ter ido’. Às vezes tem isso: o Brasil é pioneiro e depois fica para trás. Sobre Cuba, por exemplo, temos de continuar lá com nossos investimentos. Com o Irã as portas comercialmente estavam muito abertas para o Brasil, e depois teve um recuo. O nosso trabalho na África. Tudo isso é recuperável. A história não é linear. Ela tem ciclos. Dá trabalho retomar ciclos. Mas quero dizer que houve vitórias também no Governo. Um dado muito importante recente foi a criação do Banco dos Brics. Esse é um dado novo. Realizar as coisas é muito difícil, porque eu conheço as resistências, inclusive da nossa área econômica. É um passo muito importante. As reações da presidenta Dilma sobre a espionagem americana foram muito corretas.
Generais e diplomatas de pijama

O mais longevo chanceler da história brasileira passou quatro discretos anos à frente do Ministério da Defesa, entre 2011 e 2014. No cargo, teve a tarefa de comandar a pasta enquanto o governo criava a Comissão Nacional da Verdade, para apurar as violações de direitos humanos entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988.

As três Forças Armadas foram acusadas de obstruir a informações e arquivos da ditadura. Os chefes militares não compareceram ao lançamento do relatório e jamais pediram desculpas pelas violações. Amorim, no entanto, recebeu elogio da comissão pela mediação.

"Tivemos uma colaboração importante, claro que pela pressão da própria sociedade, representada pela própria Comissão da Verdade”, diz o ex-ministro. “Cada momento histórico é o seu momento histórico. É possível que se avance mais. O Estado brasileiro já reconheceu que houve essas violações, então não pode ninguém negar que houve. As Forças Armadas são parte do Estado brasileiro, que é um só.”

Amorim disse que não enfrentou resistência dos militares da ativa, numa pasta que, segundo os especialistas da área, segue sem subordinação total ao poder civil. Segundo ele, os problemas, em sua "maioria", se resumiram às manifestações dos militares da reserva, que protestaram durante sua gestão. “Ai, os generais de pijama! Eu já tinha tido problemas com os embaixadores de pijama”, ironiza, em referência a suas diatribes públicas com proeminentes diplomatas ligados ao PSDB durante o governo Lula.
No El País


O doce triunfo de Celso Amorim sobre a mídia e os embaixadores de pijama

A Veja (acima, ilustração publicada no site da revista) e a mídia em geral colocaram várias pedras no caminho
de Amorim. No caso do Irã, a revista chamou de “explosivo” um acordo que tirava urânio do Irã e disse
erroneamente que o ministro “costurou um acordo para desenvolvimento de tecnologia nuclear com o
presidente do Irã”. Ou seja, aparentemente a turma da revista nem leu a Declaração de Teerã.
Quando viu Muammar Gaddafi fazendo gestos bruscos com um objeto na mão, dentro de uma tenda em um deserto nas proximidades de Trípoli, o então chanceler Celso Amorim chegou a imaginar que o líder líbio estava se autoflagelando diante de convidados importantes: o presidente Lula, o líder nicaraguense Daniel Ortega e o ex-presidente argelino Ben Bella.

Mas, não se tratava de um gesto de caráter religioso. Na verdade, Gaddafi usava uma espécie de abanador de fibra vegetal para se livrar das moscas que infestavam o ambiente.

Esta e muitas outras anedotas saborosas fazem parte do livro Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva, da editora Benvirá, o terceiro em que o ex-chanceler brasileiro narra fatos de sua passagem pelo Itamaraty. Os outros são Conversas com jovens dipomatas e Breves narrativas diplomáticas, lançados anteriormente pela mesma editora.

O novo livro — que será lançado em março em eventos no Rio, em São Paulo e Brasília — trata de alguns dos mais criticados aspectos da política externa que Amorim desenvolveu ao lado do ex-presidente Lula, a partir de 2002: a aproximação com o Irã e os países árabes.

Na mesma viagem em que encontrou Gaddafi, em dezembro de 2003, Lula já havia passado pela Síria, Líbano, Emirados Árabes Unidos e Egito. Lula foi criticado por se encontrar com Bashar al-Assad e Gaddafi, mas não com o emir de Abu Dhabi, aliado dos Estados Unidos.

Ao narrar a passagem por Tripoli, Amorim relembra: “Repetia [a mídia] aqui, com agravantes, o mesmo tipo de crítica que ouvimos em Damasco. Como podia o líder de um país democrático, que ascendera ao poder mediante eleições livres, ser recepcionado por um anfitrião que chefiava um regime sabidamente ditatorial? Mas, como na Síria, o que preocupava a nossa imprensa não era tanto a natureza autoritária ou ditatorial do regime, mas a falta de consulta prévia a Washington. Tanto assim que os mesmos veículos pareciam encarar com grande naturalidade os contatos de Colin Powell em Damasco e trataram de forma positiva, ou pelo menos indiferente, as viagens que os primeiros-ministros José María Aznar e Tony Blair viriam a fazer dentro de poucos meses à Líbia”.

Em outras palavras, os Estados Unidos podiam conversar com a Síria; o Reino Unido e a Espanha, com a Líbia. O Brasil, não!

A aproximação do Brasil com os países árabes, que culminou com a Cúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA), além de ampliar mercados para produtos brasileiros visava reforçar um dos pilares centrais da política externa, a de promover o multilateralismo.

Mas a maior reação da mídia se deu contra a aproximação entre o Brasil e o Irã, que em 2010 resultou na Declaração de Teerã, pela qual o regime iraniano se comprometeu a “depositar 1200 quilos de urânio levemente enriquecido (LEU) na Turquia. Enquanto estiver na Turquia, esse urânio continuará a ser propriedade do Irã. O Irã e a AIEA [Agência Internacional de Energia Atômica] poderão estacionar observadores para monitorar a guarda do urânio na Turquia”. Feito o depósito dentro de um mês, “com base no mesmo acordo, o Grupo de Viena deve entregar 120 quilos do combustível requerido para o Reator de Pesquisas de Teerã em não mais que um ano”.

O acordo, em outras palavras, tirava do Irã o urânio levemente enriquecido que em tese poderia ser utilizado para fabricar a bomba atômica.

Arquivo Escaneado 3A iniciativa de Lula foi fuzilada pela mídia brasileira, com apoio dos “embaixadores de pijama” que serviram a FHC. O Brasil teria dado passo maior que a perna, disseram alguns. Teria sido usado pelos malévolos aiatolás, afirmaram outros.

Na verdade, a repercussão foi mundial.

Sobre a foto dos presidentes Lula, Mahmoud Ahmadinejad e do primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan, a revista Newsweek perguntou: “É este o futuro? O poder americano e seus limites”.

No texto, Fareed Zakaria constatou: “Raramente uma única fotografia irritou tanta gente”.

Ele se referia aos críticos direitistas do presidente Barack Obama. O Wall Street Journal definiu a imagem como o debacle da política externa de Obama. Para o neocon Charles Krauthammer, escrevendo no Washington Post, a cena em Teerã demonstrou como “poderes em ascensão, aliados tradicionais dos Estados Unidos, depois de ver o governo Obama em ação, decidiram que não existe custo em se aliar a inimigos dos Estados Unidos e nenhuma vantagem em se aliar a um presidente [Obama] dado a pedidos de desculpas e appeasement“.

Como se sabe, naquele período muito se falava num “inevitável” ataque militar de Israel ao Irã para eliminar o programa nuclear iraniano. Os falcões batiam o bumbo da guerra e, ainda que reflexivamente, eram imitados pelos seus amigos na mídia brasileira.

Obama, aliás, foi quem estimulou a iniciativa turco-brasileira. Pessoalmente e por escrito. Assessores dele não acreditavam no sucesso de Lula e Erdogan. Quando deu certo, trataram de puxar o tapete dos aliados.

Àquela altura, os Estados Unidos já pretendiam ir ao Conselho de Segurança da ONU em busca de aprovar sanções contra o Irã, o que conseguiram com o apoio de todo o clube atômico — Rússia, China, França e Reino Unido.

Hoje, ironicamente, os Estados Unidos perseguem, dentro do chamado P5, um acordo parecido com o obtido por Brasil e Turquia, porém mais amplo.

Para Celso Amorim, aceitar a Declaração de Teerã como primeiro passo teria tido vantagens. Se em 2010 o Irã dispunha de urânio levemente enriquecido para fazer uma bomba, no início de 2014 tinha para três ou quatro artefatos. Se Washington sempre perseguiu medidas de “confidence building” com Teerã, poderia tê-las celebrado muito antes. Além disso, a população iraniana teria sido poupada do sofrimento das sanções.

“Não podemos esquecer que há na região um Estado — Israel — que, sabidamente, detém poderoso arsenal atômico. Por isso, temos insistido que a solução duradoura para a questão reside na conclusão de um acordo que faça do Oriente Médio uma zona livre de armas nucleares”, escreve o ex-chanceler no livro.

A iniciativa brasileira em conjunto com a Turquia acabou mais festejada fora do que dentro do Brasil. Ainda em 2010, Amorim foi incluído em sétimo lugar na lista dos 100 Maiores Pensadores Globais da revista Foreign Policy.

Dois pesquisadores norte-americanos — John Tirman, do MIT, e Malcolm Byrne, do National Security Archives –, entrevistaram Celso Amorim sobre a iniciativa em 2013. Eles escrevem justamente sobre oportunidades perdidas em política externa.

Ao longo de Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva, Celso Amorim demonstra que não há espaço em política externa para o maniqueísmo, o simplismo e o saber rattling, frequentes nas colunas de jornal brasileiras.

É um prazer vê-lo descrever todas as nuances que informam as decisões de Estado.

O livro é isso: você é convidado a viajar com Celso Amorim pelos bastidores da diplomacia.

Cotejando o conteúdo das memórias de Amorim — e sua ênfase em soluções negociadas — com a realidade dos dias de hoje, fica subentendido o “doce triunfo” a que nos referimos no título: o Iraque, onde o Brasil foi um dos países mais vocais na oposição à ocupação dos Estados Unidos, foi demolido de tal forma que perdeu controle de parte do território para o chamado Estado Islâmico;  a Síria, onde o Brasil também rejeitou intervenção externa, está mergulhada em uma guerra civil que custou a vida de ao menos 200 mil pessoas; na Líbia, a intervenção da OTAN que derrubou Gaddafi — repudiada pelo Brasil — produziu o caos em um país que era estável e agora caminha para a desintegração; no Irã e em Cuba, grosseiramente, os Estados Unidos perseguem o caminho recomendado pelo Itamaraty.

O ex-ministro atribui a ousadia da política que praticou no Itamaraty à liberdade de ação dada pelo presidente Lula. Segundo Amorim, o ex-presidente é um “asset” da política externa brasileira tão importante quanto Nelson Mandela foi para a África do Sul.

Sobre as críticas recebidas ao longo dos anos, o ex-chanceler adota uma postura olímpica: “Intrigava-me o fato de que aqui [no Brasil], ao contrário [de outros países], as tentativas que fizemos [de participar das grandes questões] eram em geral consideradas uma intromissão desnecessária e perigosa em temas que não nos diziam respeito. Eu me perguntava (e ainda me pergunto) a razão desse apego a uma posição secundária e de dependência, com raizes aparentemente tão profundas em nossos formadores de opinião. [...] De certa forma, é como se temêssemos assumir os ônus, que são uma decorrência natural do crescimento e da maturidade, e preferíssemos viver ao abrigo de uma metrópole, real ou imaginária, ainda que isso custe o abandono de oportunidades e o sacrifício de interesses”.

Traduzindo em português castiço: complexo de viralatas.

Veja abaixo nossa entrevista com Celso Amorim, feita em Brasília


Luís Carlos Azenha
No Viomundo
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Globo tira do ar vídeo de especialista que fala da Petrobras e Pasadena

Globo Passadena

Jean-Paul Prates, consultor na área de petróleo, comenta a compra da refinaria de Pasadena, nos EUA, e outras polêmicas que a Petrobras atravessa.

A repórter da GloboNews Leilane Neubarth ainda se esforçou, em vão, para rebater as palavras do especialista em petróleo, que deixou claro que a atual discussão travada em torno de Pasadena é política, e que assuntos desta magnitude não podem ser tratados com oportunismo e de modo superficial.

Como a Globo resolveu tirar do ar: aqui (printscreen da página no topo)

Assista a seguir:



No Viomundo
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O Carnaval do Merval: uma peça em um ato


Rio de Janeiro, Carnaval de 2030. Num apartamento na avenida Atlântica, Merval Pereira e seu neto de sete anos conversam.

O neto: “O que é isso, vovô? Me deram na escola.” O garoto segura uma máscara de Carnaval com o rosto do avô.

Merval disfarça a surpresa: “Uma homenagem que fizeram ao vovô em 2015, muito antes de você nascer.”

O neto: “Por que você foi homenageado, vovô?”

Merval, rápido: “Porque eu era um jornalista muito amado.”

O neto: “Amado pelo povo! Que bom, vovô. Por que o povo amava você?”

Merval: “Porque eu defendia o povo nas coisas que eu escrevia e dizia.”

O neto: “Onde o senhor escrevia, vovô?”

Merval: “No Globo.”

O neto: “Globo? Que é isso?”

Merval: “Um jornal. Era um jornal.”

O neto: “Jornal. O que é isso?”

Merval: “Era onde as pessoas liam notícias antes de você nascer. No papel.”

O neto: “Papel. O que é isso?”

Merval se ergue e pega, no escritório, um exemplar de sua coleção: “É isso aqui.” E passa para o garoto.

O neto: “Por que não fazem mais isso, vovô?”

Merval: “Por causa da internet.”

O menino, recém-alfabetizado, começa a folhear o jornal: “Onde o senhor escrevia?”

Merval mostra a ele uma coluna sua. Nela, atacava a taxação das grandes fortunas e defendia o financiamento privado das campanhas.

O neto: “Ah, aqui que o senhor protegia os pobres, vovô?”

Merval: “Exatamente.”

O neto: “O senhor lê para mim então isso que escreveu pelos pobres?”

Merval: “Amanhã, sem falta.”

O neto vê o nome do dono do jornal.

“Quem é esse?”

Merval explica.

O neto: “Ele também defendia os pobres, vovô?”

Merval: “Claro. Ele e toda a família. Sempre.”

O neto: “Fizeram máscara de Carnaval para ele também?”

Merval: “Hmmm. Não que eu lembre. Mas merecia.”

O neto: “O que ele fez pelos pobres?”

Merval pensa em alguma coisa: “Criou o Bolsa Família e o décimo terceiro.”

O neto: “Décimo terceiro?”

Merval: “Um salário a mais para os trabalhadores.”

O neto parece impressionado. Merval não está muito confortável com a conversa. Quer acabar logo com ela: “Agora vamos para a rua para aproveitar o Carnaval.”

O neto: “Posso ir de máscara?”

Merval: “Hmmm. Não. Vovô quer comprar uma máscara nova para você.”

O neto: “Do Lula?”

Merval: “Não, não. Esse não.”

O neto: “Por quê? Ele era ruim para os pobres?”

Merval: “Era. A gente escolhe uma máscara na hora, na rua.”

O neto, olhando para a máscara do avô: “Por que as lágrimas, vovô?”

Merval: “Porque … porque o vovô ficou emocionado com a homenagem.”

O neto, antes que os dois fossem para a rua: “Vou contar tudo isso na escola amanhã.”

Merval, incisivo: “Melhor não, meu filho. Devemos ser modestos, humildes. Guarde tudo isso apenas para você. Vou contar uma última. Aquele ficou conhecido como o Carnaval do Merval.”

O garoto sorriu.

E então avô e neto foram festejar o Carnaval de 2030.

Paulo Nogueira
No DCM
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Condenado no Banestado recebeu nota fria a pedido de "amigo" de Eduardo Cunha

Ao GGN, Meire Poza, contadora de Alberto Youssef, afirmou que Giovani Gionédis é dono da EBCP. A empresa recebeu R$ 1,2 milhão em nota fria a pedido Ari Ariza, empresário que se diz íntimo de Eduardo Cunha


A EBCP, empresa que recebeu uma nota fria no valor de R$ 1,2 milhão da GFD (uma das empresas que compõem a lavanderia do doleiro Alberto Youssef), pertence ao empresário Giovani Gionédis, o ex-presidente do Conselho de Administração do Banestado apontado pela Justiça do Paraná como operador do caixa dois da campanha de Jaime Lerner (ex-PFL, hoje sem partido) ao governo do Estado, em 1998.

A informação sobre a propriedade da EBCP (Empresa Brasileira de Consultoria Econômica e Participações Ltda.) foi dada com exclusividade ao GGN pela ex-contadora de Youssef, Meire Poza, que contribui na condição de testemunha com a Lava Jato. A operação se debruça sobre indícios de formação de cartel, pagamento de propina a executivos e políticos e supertafuramento de contratos na Petrobras.

Essa semana, Meire foi alvo de reportagens na Rede TV!, nas quais revela a amizade de Ari Ariza com o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB). Ari é um empresário que tinha negócios com Youssef e se dizia, segundo Meire, muito íntimo do presidente da Câmara Federal. Foi Ari quem pediu à Meire a emissão da nota fria de R$ 1,2 milhão, forjada em 24 de outubro de 2014.

"Depois de deflagrada a Lava Jato, eu estive com o Ari — até porque ele tinha preocupação com essa nota da GFD — e ele disse que se eu precisasse de alguma coisa, ele poderia falar com o deputado Eduardo Cunha”, contou Meire.


Em troca de mensagem com a equipe do GGN, Meire comentou que a EBCP "é uma empresa de Curitiba, de um empresário chamado Giovani Gionédis. Quem intermediou essa operação [entre GFD e EBCP] foi o Ari Ariza, que me falou que é grande amigo do deputado Eduardo Cunha, embora o deputado não tenha sido citado nessa operação."

O advogado tributarista Giovani Gionédis foi presidente do Conselho de Administração do Banestado, na gestão de Jaime Lerner no Paraná, no final da década de 1990. Ele também passou pela Casa Civil e a Secretaria de Finanças do Estado. Anos depois, presidiu o Coritiba.

No caso Banestado, Gionédis foi condenado a quatro anos de reclusão e multa, em 2008, em ação movida pelo Ministério Público Federal, que acusou ex-gestores do Banestado de utilizar de maneira fraudulenta a estrutura da instituição financeira para viabilizar doação eleitoral irregular à campanha de Lerner, em 1998, no valor de R$ 1 milhão. [N.E. Na lista do SwissLeaks, de brasileiros com conta no HSBC, há menção ao nome de uma certa família Lerner. Apenas coincidência.]

Segundo a denúncia, a empresa Bauruense Serviços Gerais teria entregue a Gionédis (coordenador financeiro da campanha de reeleição de Lerner) oito cheques administrativos nominais a supostos laranjas. "Gionédis, então, teria ordenado a diretores do Banestado a realização de saque em espécie de R$ 1 milhão na tesouraria do Banestado. Após o saque fraudulento, o dinheiro foi repassado a Gionédis e os cheques foram entregues aos diretores que os repassaram ao banco para compensação do saque."

Em 2014, o juiz Sergio Moro, que atua na Lava Jato, condenou Alberto Youssef a quatro anos de prisão por participação no caso Banestado.



De acordo com o MPF, Youssef ajudou uma empresa de veículos a conseguir um financiamento de 1,5 milhão de dólares junto ao Banco, em troca de pagamento de propina ao operador internacional da instituição.

A EBCP, de Gionédis, está listada entre as empresas que operam na Bovespa. A contadora Meire Poza afirmou ao GGN que não tem condições de afirmar se a empresa de fato existe e presta atividades.

Em outubro de 2014, Meire colaborou com a CPI da Petrobras também na condição de testemunha. Naquele dia, Eduardo Cunha atacou a contadora afirmando que faria uma representação para que ela voltasse a falar à CPI na condição de investigada, além de solicitar a quebra de seu sigilo fiscal. Antes da CPI começar, outro deputado do PMDB, Lucio Vieira Lima, tentou junto à presidência da Comissão que o depoimento de Meire tivesse caráter sigiloso.

Já Ari Ariza, que diz ter amizade forte com Eduardo Cunha, é “Ari Teixeira de Oliveira Ariza, condenado em 2010 a pagar R$ 500 mil de multa por operações cambiais fraudulentas realizadas em 2002, num processo que envolveu a Eucatex (de Paulo Maluf), Flávio Maluf e a Corretora Bônus-Banval, aquela do padrinho de Paulo Roberto Costa, o falecido José Janene (PP). Ah, e a UTC Engenharia, uma das metidas na Lava Jato”, segundo publicou o Conversa Afiada.

Cíntia Alves
No GGN
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Globo convoca o “Fora Dilma”


Dando sequência ao que foi construído ao longo dos últimos meses, nesta terça-feira (10) a Globo, através do seu jornal impresso, convocou claramente o “Fora Dilma”.

A coluna Panorama Político, de Ilimar Franco, em O Globo, traz no título a seguinte informação: “O PSDB adota o ‘Fora Dilma’ ”. E na primeira linha: “O PSDB decidiu apostar no impeachment da presidente Dilma.” Ilmar também diz a data das manifestações pelo impeachment, 15 de março, convocado pelas “redes sociais”. A Globo usa o principal braço parlamentar do sistema de oposição (PSDB) para explicitar o que todos já sabiam: a tentativa de afastar a presidenta está a caminho. No editorial o jornal, arvorando-se em poder judiciário de fato (absolvendo os amigos e condenando os inimigos), antecipa as investigações e diz que o “petrolão” representou a “ocupação do Estado”. Este mesmo editorial exalta a “gestão de FH”. Consumado o golpe, a Globo, que já julga, talvez ceda enfim à tentação de exercer poder de polícia, publicando em seu jornal listas de pessoas a serem presas, prática na qual um dos seus colunistas amestrados, Merval Pereira, já se exercita.

O Triângulo amoroso que promove o golpe

Na mesma coluna de Ilimar Franco o golpe militar de 1964 (também apoiado pela Globo) é chamado, pelo presidente do DEM, senador José Agripino, de “revolução”. Para Agripino (cuja declaração está em grande destaque na coluna), a “revolução” de 64 só aconteceu porque o povo foi para as ruas e atualmente “a insatisfação dos brasileiros é um copo que está enchendo”. A menção à “revolução de 64” não é gratuita. É um dos acenos que a Globo volta e meia faz à extrema direita, de quem por muito tempo foi amasiada e com a qual traí constantemente os tucanos que, interesseiros, aceitam tudo, certos de que são o amor verdadeiro da vênus platinada. Mas no fundo os tucanos sabem que participam de um triângulo amoroso. O grande cafetão, que domina totalmente a moça do Jardim Botânico, é um malandro chamado mercado financeiro.

O plano B

A mídia hegemônica, que tem o Sistema Globo como seu carro-chefe, aposta em primeiro lugar na possibilidade de afastar a presidenta. Caso não seja possível, o plano B é enfraquecê-la ao máximo, para assim poder ditar as regras, como arrogantemente já faz na edição desta segunda-feira (página 3), no espaço “Opinião” onde dá a receita para a Dilma sair dar crise: livrar-se “dos velhos cacoetes lulopetistas”. Enquanto isso, na Argentina, o chefe de gabinete de Cristina Kchiner rasgou o Clarin (O Globo de lá) em plena entrevista coletiva.

Mídia age criminosamente sonegando informações

Quem não está convencido sobre a necessidade de uma lei de meios no Brasil não sabe o quanto lhe sonegam de informação, através de manipulação ou simples supressão de notícias inconvenientes. Existe atualmente um clima de que “tudo no Brasil está errado” graças ao governo Dilma. Em nome da perpetuação deste clima é proibida a divulgação de notícias boas. Por exemplo, nesta segunda-feira (9) tivemos duas delas: no primeiro semestre de fevereiro o déficit da balança comercial caiu 44,6% e a inflação recuou no mesmo período. Quem se informa apenas pela mídia hegemônica não conseguiu saber destes fatos, escondidos das capas e chamadas principais. Pode ser que estes índices não sejam suficientes para comemoração, mas se fosse o contrário, se o déficit da balança comercial houvesse aumentado e a inflação subido, chamadas garrafais estampariam todas as edições desta terça-feira (10).

Cunha, o probo faz o serviço

A mídia hegemônica, em relação ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), parece uma mãe zelosa: só falta babar de orgulho pelo filho comportado. Diz que Cunha “imprime novo ritmo às votações”, que cobra horário de chegada dos deputados, entre outras medidas moralizadoras, dignas de um probo. E Cunha realmente tem feito o serviço para o qual foi eleito com apoio da mídia hegemônica: defende o financiamento das campanhas eleitorais pelas empresas, promete barrar qualquer lei de regulação da mídia, é homofóbico, e agora entregou ao DEM o comando da comissão da Reforma Política. A máscara da ética empunhada pelos falsos moralistas das empresas de comunicação não resiste a um segundo da vida real.

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A origem do Impítiman é meuzovo e seu emprego

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MST rejeita interferência dos EUA na Venezuela

Movimento dos Sem Terra se solidariza com a Venezuela.
A organização social brasileira disse em um comunicado que não hesitará em defender até as últimas consequencias as aspirações libertárias que materializam a Revolução Bolivariana.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil rejeitou, através de comunicado, as medidas intervencionistas tomadas pelo governo dos Estados Unidos contra a Venezuela.

Eles expressaram sua mais profunda rejeição contra as "infames sanções unilaterais que o Governo dos EUA, fiel a sua vocação imperialista, impõe ao governo e ao povo venezuelano".

"Acreditam ainda que América Latina e o Caribe sejam o seu quintal, e usando a inefável Doutrina Monroe, o governo dos EUA pretende hoje, em pleno século XXI, aplicar medidas coercitivas com a finalidade de quebrar e destruir o processo político transformador que vive a Venezuela há mais de três décadas ", diz o comunicado.

Recordando as palavras do libertador Simón Bolívar, o MST iniciou seu comunicado com um trecho da carta de protesto de Simón Bolívar ao senhor Irvine, representante do governo norte-americano em Angostura, 07 de outubro de 1818.

"... Eu vos digo que não permitirei que se ultraje nem se despreze o governo e os direitos da Venezuela. Defendendo-se da Espanha está morrendo uma grande parte da nossa população, e o resto que fica, permanece ansioso por merecer o mesmo destino. Para a Venezuela, lutar contra a Espanha vale o mesmo que lutar contra o mundo inteiro, se todo o mundo a ofender. "

O Movimento dos Sem Terra não hesitará em defender até as últimas consequencias as aspirações libertárias que nos deixaram nossos libertadores e libertadoras, e hoje estão consagrados na Revolução Bolivariana.

No teleSUR
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Blogueiros repudiam chacina de Salvador e denunciam perseguição

Os blogueiros e ativistas digitais reunidos em torno do #BlogProg manifestaram-se publicamente sobre a chacina de 15 jovens ocorrida em Salvador, na Bahia, no dia 6 de fevereiro. Em nota, os blogueiros repudiaram a violência da polícia e a postura do governador Rui Costa (PT), mas também denunciaram a ameaça que ativistas digitais e comunicadores sociais estão recebendo por parte da Polícia Militar do estado.

Confira a íntegra do texto:


Nós, da Comissão Nacional de Blogueiros e Ativistas digitais vimos a público repudiar a violência institucional da polícia baiana que, em três dias de ação do GRUPAMENTO RONDESP, resultou na morte de 15 jovens negros em Salvador.

Repudiamos igualmente o pronunciamento lamentável do governador Rui Costa (PT) , que fez uso de uma metáfora futebolística ao comparar ações dos policiais envolvidos na chacina de 12 jovens negros no Cabula em 06/02/2015 com a atitude de um artilheiro diante do gol.

Sem qualquer investigação, sem ouvir testemunhas, o governador saiu em defesa de uma corporação com histórico de extrema violência, fazendo uso de um discurso assustadoramente irresponsável diante de um crime destas proporções.

A Anistia Internacional diz haver 'indícios de execuções sumárias', uma testemunha ouvida pela Ponte.org afirma que os jovens foram mortos quando já estavam rendidos. Blogs baianos afirmam terem consultado dados da Secretaria de Segurança e constatado que apenas uma das vítimas tinha passagem pela polícia devido a brigas durante o Carnaval.

Recebemos denúncias de que ativistas digitais (que denunciaram a violência policial) estão sendo ameaçados por PMs, como se não vivêssemos em uma estado democrático.

Tais práticas de terror, comuns em regimes autoritários e que ferem direitos constitucionais e os direitos humanos, estão sendo usadas para coibir denúncias de abuso de poder e ações criminosas por parte da corporação.

Exigimos que o governador no exercício de seu poder investigue as denúncias dos parentes das vítimas e das testemunhas (sobre as acusações que recaem sobre o grupamento Rondesp), e tome todas as medidas legais possíveis.

Exigimos que se investigue as denúncias de ameaças contra ativistas que, no seu direito democrático de livre expressão combatem o genocídio negro da juventude brasileira instittucionalizado.

É intolerável que governos democráticos não empreendam todos os esforços para diminuir as vergonhosas estatísticas ano após ano que apontam que 70% dos jovens assassinados no Brasil são da cor negra.

É inadmissível que testemunhas, parentes e ativistas da comunicação e de defesa dos direitos humanos sofram ameaças num estado democrático de direito.

É recomendável ainda que o governador petista Rui Costa, respeitando a longa história de seu partido na defesa dos direitos humanos, se retrate perante a sociedade sobre as sua lamentáveis declarações.
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Personalidades mundiais no SwissLeaks


No ICIJ
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O escândalo dos outros


Um dos maiores escândalos financeiros de todos os tempos se desenrola na Suíça e tem como epicentro o braço de finanças privadas do HSBC, banco britânico com origem em Hong Kong, e suas repercussões ecoam por quase todo o mundo. Menos no Brasil.

O pedido público de desculpas, distribuído pelo banco a toda a imprensa mundial, foi publicado no domingo (15/2) em jornais, revistas, portais e boletins especializados. No Brasil, pode-se ler uma nota na Folha de S. Paulo de segunda-feira (16/2) citando o assunto. Ainda assim, o texto curto do jornal paulista não faz referência à extensão do caso e, no que se refere ao Brasil, apenas observa que “na lista de contas secretas do banco vazada no Swiss Leaks há ao menos 11 pessoas ligadas ao escândalo da Petrobras”.

Swiss Leaks não é um endereço na internet: é o nome dado à investigação jornalística independente sobre a gigantesca operação de fraude fiscal de que é acusada a subsidiária do HSBC em Genebra. Mais de 180 bilhões de euros teriam passado pelas contas de 100 mil clientes e operadas por 20 mil empresas offshore em transações do banco no período até aqui investigado.

A reportagem foi produzida pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) a partir de vazamentos produzidos por um ex-funcionário do banco, o engenheiro de software Hervé Falciani, e entregue a autoridades da França em 2008 (ver aqui). Desde então, mais de 130 jornalistas vêm trabalhando na apuração dos dados, em 49 países.

Somente esse esforço jornalístico deveria merecer da imprensa brasileira muito mais do que uma nota curta perdida num pé de página ou o interesse restrito em nomes de empreiteiros e doleiros envolvidos na Operação Lava Jato. Se não fosse pela grandiosidade dos números, que revelam a extensão das fraudes que sustentam grandes fortunas por todo o mundo, seria de se esperar que um jornalismo minimamente objetivo se interessasse ao menos por um fato revelado na investigação: são muitos os milionários brasileiros citados nos documentos, e não apenas os 11 nomes ligados de alguma forma ao escândalo da Petrobras.

O mapa da lavagem

O que os jornais brasileiros temem revelar? Não erra quem imaginar que entre as 6.066 contas suspeitas de 8.667 clientes que ligam o banco suíço ao Brasil podem ser encontrados nomes surpreendentes. Sabe-se, por exemplo, que os donos do grupo argentino de comunicação Clarín estão na lista.

Para se ter uma ideia da extensão do escândalo, basta citar que as contas ilegais, pelas quais foram fraudados os tesouros de dezenas de países, incluem políticos da Inglaterra, Rússia, Ucrânia, Geórgia, Quênia, Romênia, Índia, Liechtenstein, México, Líbano, Tunísia, República do Congo, Ruanda, Zimbábue, Paraguai, Djibuti, Senegal, Venezuela, Filipinas e Argélia.

Trata-se de um mapa precioso para o rastreamento de dinheiro desviado por políticos corruptos, ditadores, além de contrabandistas de armas e diamantes e traficantes de drogas.

O banco privado onde circulava esse dinheiro era parte do conglomerado Republic Bank de Nova York, que foi comprado pelo grupo britânico do banqueiro Edmond Safra, judeu de origem libanesa que se naturalizou brasileiro. Safra morreu em dezembro de 1999, quando era finalizada a negociação, em um incêndio provocado por dois supostos assaltantes que invadiram seu luxuoso apartamento em Montecarlo.

O noticiário da época conta que Safra havia informado autoridades dos Estados Unidos que o Republic Bank estava sendo usado pela máfia russa para lavar dinheiro. O enredo inclui ainda agentes do serviço secreto israelense, que treinaram seus seguranças particulares, e outros detalhes instigantes, entre eles o fato de os supostos ladrões terem entrado e saído com facilidade de um dos edifícios mais protegidos da capital do principado de Mônaco.

Mas nada disso parece interessar a brava imprensa brasileira. A mídia nacional não parece curiosa, por exemplo, com o fato de que o Brasil é o nono país na lista dos maiores valores encontrados nas contas suspeitas: US$ 7 bilhões pertencentes a brasileiros ou estrangeiros com negócios no Brasil foram encontrados no HSBC Private Bank.

O texto da reportagem do ICIJ observa que nem todo dinheiro listado nos documentos é ilegal, mas autoridades de vários países estão examinando todos os negócios do banco.

No Brasil, o assunto é acompanhado apenas por um ou outro blogueiro: nossa imprensa entende que esse é um escândalo dos outros.

Luciano Martins Costa
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Governo ou desgoverno?

Se o governo não destaca qual é seu projeto, quem irá afrontar a restauração neoliberal anexada ao programa econômico do impeachment?

Quem vê de fora pode achar que o governo Dilma fez uma aposta arriscada na ressurreição da vida depois da eutanásia da alma.

Os adversários agem como se assim fosse e não demonstram propensão à indulgência diante da travessia penosa e incerta.

O agendamento conservador pauta a sociedade brasileira de alto a baixo nesse momento.

Eduardo Cunha, a lebre omnívora, fareja negócios, redesenha o cardápio institucional, oferece oportunidades. Antes cevado, agora regurgita. Abriu uma avenida monumental para os que perderam nas urnas mas cobiçam uma instância de decisão para chamar de sua.

Na frente principal, onde já se trava a guerra aberta do impeachment, o juiz Moro e a falange midiática encurralaram o PT e a Petrobras numa estreita garganta; ali secionam ou interligam veias ao sabor da conveniência. Dia sim, o outro também, anunciam transfusões de sangue contaminado.

Dá-se a isso o nome de faxina na vida nacional.

Essa é a hora do Brasil.

O país não amanhece nem dorme sem consultar os ponteiros manejados pelo petit enfant aleitado nas cercanias do consagrado governador tucano Beto Richa (leia nesta pág. ‘A pauta da rebelião curitibana’)

O bastão passado a Joaquim Levy na economia gerou igual dependência adversa ao deixar o Planalto e o PT reféns do êxito ou do fracasso ortodoxo.

Seja qual for o desfecho, o preço da delegação será o mesmo: alto.

Ainda que produza a desinflação perseguida, entregue a meta fiscal, reduza o poder de compra das famílias assalariadas e reverta o pleno emprego (esse é o alvo de Levy) , não há garantia de que o Brasil ingressará em um novo ciclo de investimento produtivo.

Falta combinar com as recidivas de uma crise internacional que escapam ao controle de cada nação.

A contração da demanda agregada das famílias, governos e empresas em boa parte das economias ricas, e um processo de deflação em marcha — que adia o consumo e adiciona incertezas ao investimento — impulsionam agora a guerra cambial de todos contra todos.

A epidemia de taxas de juros negativas urbi et orbi — para evitar a valorização das moedas locais — é o sinal de que ainda há abismo a escavar.

No desencontro entre a capacidade da oferta e a anemia da demanda, paridades cambiais se esfarelam. Disputa-se quem vai sobrar na dança das cadeiras do comércio internacional.

Mesmo reduzindo o poder de compra do trabalho em dólar, o Brasil terá dificuldades para abrir um novo canal de expansão via exportações.

O ambiente externo é o oposto do vivido no primeiro governo Lula, favorecido então pelo apetite chinês, rebatido em um ciclo de alta nos preços das commodities exportadas pelo país.

Uma longa sístole de seis anos sem prazo para encerrar é o que mostra a radiografia do metabolismo econômico mundial.

O governo Dilma concluiu que a longa convalescença da crise esgotou a capacidade de resistência da diástole brasileira, mantida às custas de incentivos ao emprego e ao consumo, desde 2008.

Sérias e respeitabilíssimas cabeças pensantes do campo progressista questionam: a melhor maneira de contornar o pântano é embarcar no trem com destino ao abismo? (Leia o especial de Carta Maior sobre esse tema; nesta pág)

Dito em outras palavras, se o investimento privado está arisco, por que se animaria sob uma dinâmica que encarece o financiamento, comprime o crédito, inibe o consumo e contrai o investimento público?

Quanto de arrocho salarial e desemprego seria preciso para despertá-lo?

A aposta do governo depende de uma cirúrgica e fortuita intersecção de varáveis virtuosas: sua expectativa é a de que, feito o ajuste, e dê tudo certo, entre 2015 e 2016 a recuperação internacional passe encilhada como um corisco pela linha do Equador.

O Brasil então galoparia uma nova arrancada baseada nas exportações — agora não só de commodities, mas de uma manufatura dotada de renovada competitividade, por conta da desvalorização cambial em marcha.

Dar a isso o nome de estelionato eleitoral não é tão simples quanto gostaria o colunismo isento.

Não se mede a coerência de um ciclo no varejo das horas.

Tampouco existe uma ‘ciência’ econômica, ou ferramental macroeconômico, que se possa carimbar preliminarmente como sendo de esquerda, de centro ou de direita.

Nunca é demais repetir: quem define a coerência macroeconômica de uma época é a correlação de forças do período — e hoje essa matemática foi globalizada pela livre mobilidade dos capitais, que potencializou seu desafio.

Fugas walquirianas das manadas especulativas, explosão cambial, alta da inflação, seca das linhas internacionais às empresas, corrosão das reservas, demissões etc

Esse tem sido o saldo dos enfrentamentos solitários, que compreensivelmente vem cedendo lugar à busca de articulações internacionais para redesenhar a fronteira da soberania em nosso tempo.

Brics, Mercosul, Unasul incluem-se nesse assoalho em instalação.

Deslocar os capitais do circuito da riqueza financeira para a da produção é, essencialmente, uma construção política.

Portanto, não basta anunciar metas e medidas para mover e direcionar a engrenagem econômica do desenvolvimento.

Para ter chance de vencer nesse tabuleiro os requisitos são mais complexos.

O grau de articulação geopolítica e de mobilização social determina o que negociar, como negociar e até onde negociar.

Essa é a alma da luta pelo desenvolvimento no século XXI.

É discutível que a alma ressuscite se a negociação com o mercado incluir a renúncia ao comando político do processo e a desmobilização de quem tem interesse efetivo no passo seguinte da história.

O economista Ianis Varoufakis, ministro das finanças da Grécia, mergulhado de corpo e alma num braço de ferro com a troica, proferiu recentemente uma frase lapidar:

‘Só tem algo a negociar quem está preparado para romper’.

Vale para Atenas. Mas também para Brasília.

A ilusão de que não é bem assim, explica, por exemplo, a renúncia histórica do PT, paga agora em libras de carne do próprio pescoço, em prover a democracia brasileira de um sistema de comunicação que franqueie à sociedade a discussão e o escrutínio do seu destino.

É assim que o ciclo político determina o ciclo econômico, num caminho invariavelmente marcado pelo conflito que opõe a democracia social à lógica capitalista.

Imaginar o contrário, que é possível pegar carona em um centurião do dinheiro grosso e, a partir daí, ‘sanar’ as inconsistências e esgotamentos de um ciclo de crescimento em direção a outro, é quase como acreditar na mão invisível dos mercados.

Essa tentação pode devorar o governo Dilma.

Não se trata de demonizar um freio de arrumação necessário e urgente.

Conter a escalada de gastos com importações de bens manufaturados, por exemplo, é crucial para impedir a sangria de empregos, renda e receita em direção aos clusters asiáticos.

Isso não se faz sem custos.

Enquadrá-los em uma negociação de prazos, compensações, salvaguardas e ganhos futuros é uma responsabilidade da agenda progressista.

Erguer pontes para pavimentar as condições de uma retomada do investimento privado, idem.

Supor fazê-lo ao largo de uma repactuação política que ordene os rumos dessa transição é mais que arriscado: pode ser o eclipse definitivo da alma, sem o benefício da ressurreição do corpo.

Esse risco de uma cavalgada em marcha ré projeta no governo recém reeleito a auréola de um poder crepuscular.

Faz mais que isso.

Joga o PT nas cordas de onde não consegue se erguer; quando o faz, não sabe para onde ir.

Torna o apelo às ruas um adereço ornamental; a falta de eco mais revela do que afronta a desorientação generalizada.

Dá à agenda progressista um rosto disforme no qual ninguém se enxerga, nem o próprio ministério — não há poder de iniciativa política sem identidade coesa.

Hoje o governo acorda para se informar sobre o revés do dia, não para fomentar a pauta da nação.

O conjunto elegeu Eduardo Cunha à presidência do Congresso e derrubou a aprovação à Presidenta de forma fulminante, depois de 54 milhões de votos e menos de 50 dias de governo.

Imaginar que a partir de agora poderá ser diferente, mantido tudo o mais constante, é assinar um contrato de novas e cada vez mais sérias derrotas.

A passividade desconcertante do Estado diante do cerco à Petrobras é um sinal de que esse tipo da doença, se não for atacado a tempo leva à catatonia e à inanição.

A orfandade a que estão sendo abandonados os trabalhadores nos canteiros de obras do pré-sal — esmagados entre o desemprego, a incerteza e atrasos salariais — é um pequeno manual de como se constrói um ruptura entre um governo progressista e sua base histórica.

O risco agora é essa prostração se transformar em epidemia, desossando, em retribuição, os movimentos sociais.

Exagero?

Quem defenderia o governo hoje se o conservadorismo atravessar o sinal vermelho e vier para cima, a contrapelo do estado de direito?

As respostas devem ser enviadas ao Planalto, à Secom, ao PT, ao MTST, ao PSOL, ao MST, à CUT e demais protagonistas que ainda hesitam em sentar e conversar a sério sobre uma agenda comum para defender e ampliar os avanços e conquistas dos últimos anos.

Que fique claro: não se trata de convocar a retórica para calafetar buracos estratégicos.

Mas de cercar as circunstâncias com uma frente progressista capaz de liderar a repactuação do país com o crescimento e deste com um novo estirão de democracia social.

As recidivas da crise mundial desmentem que a resposta à Lava Jato seja a entrega do pré-sal e do país à proficiência dos livres mercados.

Nas mãos do livres mercados, na verdade, delega-se a economia e a sociedade ao planejamento dos cartéis e oligopólios, os mesmos que sugaram a Petrobras e planejaram o metrô de São Paulo no lugar dos governantes tucanos.

Sem afrontar os mitos conservadores, porém, fica difícil não sucumbir aos seus complementos.

O mais grave deles — consagrado no silêncio oficial — é permitir que se instaure no imaginário brasileiro aquilo que o jogral conservador martela diuturnamente como verdade: a saúde dos mercados e a deriva da sociedade antes de serem contraditórios, constituem um requisito da estabilidade econômica em nosso tempo.

E para isso não há alternativa. Exceto o caos.

Questionado em 1983, qual seria a diferença entre o seu governo e as mesmas medidas neoliberais tomadas por um governante da direita, consta que François Miterrand, líder socialista que dirigiu a França por 15 anos, teria respondido:

‘A diferença é que fazemos isso com dor no coração.’

O drama vivido pelo governo Dilma não é novo na história dos governos progressistas desafiados a administra o capitalismo ainda sem força para transformá-lo.

Mas ele prestaria inestimável serviço à democracia, ao país, ao desenvolvimento — e a si mesmo — se compartilhasse esses limites com a sociedade. E, sobretudo, se a convocasse para a erguer as linhas de passagem capaz de superá-los.

Não é pouco.

Na verdade, pode ser muito.

Pode ser a diferença entre um governo ou o desgoverno.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Paralelismo suspeito entre a Argentina e o Brasil

Aqui, setores de direita pretensamente independentes e anônimos, convocam para uma manifestação dia 15 de março, pedindo o impeachment de Dilma. Lá, na Argentina, setores semelhantes convocam uma manifestação para 18 de fevereiro. Vejam o paralelismo. O mesmo desenho suspeito. Dá para pensar numa articulação que vai além de nossas fronteiras...

O pretexto na Argentina é a morte de um fiscal, Alberto Nisman, na véspera em que ia entrar com uma denúncia contra Cristina. Há uma forte suspeita de que os autores do crime poderiam ser setores em conflito e infiltrados dentro dos serviços de inteligência do governo. A presidente se dirigiu à Nação de maneira forte, clara e direta, denunciou tentativa golpista e dissolveu o serviço de inteligência possivelmente infiltrado. Nesses meios há muitas vezes agentes duplos. Lá como aqui, é a imprensa opositora que incita diariamente a população, em nosso caso omitindo dados sobre a real dimensão da Petrobrás.

Diante dessa situação, na Argentina foi lançado um Manifesto dia 10 de fevereiro, que transcrevemos parcialmente abaixo:

"Diante da convocação de alguns fiscais para o 18 F, e o oportunismo político opositor, pedimos assinar e divulgar este manifesto:

Pela Constituição, a Democracia, a Justiça, os Direitos Humanos e a Paz na República.

Os abaixo assinados do campo intelectual, artistas, cientistas, profissionais... nos manifestamos contra toda forma de violência. Inclusive a aparentemente sutil e subliminar, como a que se incita a partir do terrorismo jornalístico dissimulado... Repudiamos toda intenção de desestabilização institucional... Repudiamos a paródia ‘democraticista’ de um pequeno grupo de fiscais, quase todos desprestigiados, apadrinhados pelos meios hegemônicos, na convocação de uma marcha claramente sectária e provocadora ... A Argentina precisa seguir trabalhando em Paz, para avançar ainda mais nas conquistas sociais e laborais já conseguidas, a inclusão social, a defesa do patrimônio público, a independência econômica e a soberania política que a cidadania recuperou... Exigimos ... uma transformação democrática e profunda das estruturas de "inteligência”. Não à mentira e ao uso político da morte de Nisman. Não ao golpe ‘suave’. Mais democracia. Mais justiça.”

Abaixo, para quem desejar, vai o texto integral em espanhol.

E aqui no Brasil, diante de propostas semelhantes, como vai reagir, clara e fortemente o governo? O que vão fazer os parlamentares da real base aliada do governo, políticos independentes, de outros partidos progressistas, setores nacionalistas, os movimentos sociais, sindicatos e a cidadania em geral? O manifesto da FUP que tem circulado, já conta com milhares de assinaturas. O que fazer então diante da convocação da passeata golpista dia 15 de março? Um ato falho da convocação que anda circulando, pretensamente independente: pedem que a população saia de verde e amarelo. Esqueceram que esse foi o mesmo pedido de Collor, que deu no que deu. A direita tem muitas caras e está em muitos lugares.

Para podermos sair às ruas, em contrapartida, precisamos ouvir explicações claras do governo, informando da real situação da Petrobrás, da importância do pré-sal (há apetites do grande capital diante dele). E, como disse Olívio Dutra, expulsar de seu partido quem estiver ligado a malfeitos, numa necessária depuração. Aí estaremos motivados para manifestar em favor do governo legal e legitimamente eleito e da maior empresa do país e das maiores do mundo, a Petrobrás.

Não esqueçamos que a carta-testamento de Getúlio, em 1954, denunciava os inimigos de uma Petrobras que estava nascendo. Hoje ela é pujante e um orgulho para o país.

Uma pergunta que fica no ar: a pesquisa que indica uma forte queda no prestígio da presidente, onde foi feita, em que universo? Se limitada ao sudeste e sul, por exemplo, não indica a posição de toda a população. E parte da população, mesmo nessas regiões, não está recebendo informação adequada, mas vem sendo torpedeada sem parar pelas organizações Globo, Folha, Veja, etc. O que poderão fazer os meios de comunicação do governo, sites, blogs, presença no facebook e canais independentes? Não podemos ficar falando para nós mesmos, num círculo estrangulado pela grande e poderosa mídia. Muitos companheiros me escrevem querendo agir. Precisamos material e informação para isso. Há uma forte vontade de resistir ao golpismo e ao entreguismo. Transformemos essa vontade em ação concreta. Já na próxima semana e mesmo dentro dos tempos do carnaval. O "caminhando e cantando” mobilizou a juventude nos tempos da ditadura. O "bota o retrato do velho” preparou a volta de Getúlio. Que tornem a serem escandidos o "Lula lá” e o "Dilma lá”. Sem medo de sermos felizes, num país em transformação que temos de fazer irreversível.

MANIFIESTO

Ante la convocatoria de algunos fiscales para el 18F, y el oportunismo político opositor, llamamos a firmar y divulgar este manifiesto

Por la Constitución, la Democracia, la Justicia, los Derechos Humanos y la Paz en la República

Los abajo firmantes, argentinos y argentinas del campo intelectual, artistas, científicos, profesionales de las más diversas actividades, nos manifestamos en favor del estricto cumplimiento de la Constitución y por la salud de la Democracia, el saneamiento profundo de la Justicia, el respeto irrestricto de los Derechos Humanos y el imperio de la Paz en la República.

Nos manifestamos en contra de toda forma de violencia. Incluso la aparentemente sutil y subliminal, como la que se incita desde el terrorismo periodístico disimulado, la financiera, la empresaria y/o cualquier otra.

Repudiamos todo intento de desestabilización institucional, y exigimos que se cumplan las leyes, todas, sin chicanas ni cautelares como las que es costumbre político-judicial disponer en beneficio de los poderosos, sean personas o grupos empresariales.

Rechazamos la parodia democraticista de un pequeño grupo de fiscales, desprestigiados casi todos, apadrinados por los medios hegemónicos en la convocatoria a una marcha a todas luces sectaria y provocadora. Y rechazamos también el siempre renovado oportunismo de dirigentes políticos capaces de todo tipo de inconductas y servilismos a gobiernos extranjeros, y a irritantes violencias verbales.

La República Argentina necesita seguir trabajando en Paz, para avanzar aún más en las conquistas sociales y laborales ya logradas, la inclusión social, la defensa del patrimonio público, la independencia económica y la soberanía política que la ciudadanía ha recuperado después de la crisis terminal de 2001 y 2002.

Exigimos una investigación seria y honesta sobre la muerte del Fiscal Alberto Nisman.

La designación de una Corte Suprema de Justicia completa, como manda la Ley.

Una transformación democrática y profunda de las estructuras de inteligencia.

En la República Argentina, a 10 de Febrero de 2015.

No a la mentira y el uso político de la muerte de Nisman.

No al golpe "suave".

Más democracia, Más Justicia.

Luiz Alberto Gómez de Souza
No Adital
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