14 de fev de 2015

A Globo vai se perder por excesso de competência


Se o caos precede a ordem e o vácuo a nova era, a situação brasileira está como os sociólogos gostam.

Tem-se um governo Dilma decididamente sem rumo e uma oposição medíocre, alimentando-se apenas de golpismo; um Congresso entregue nas mãos do pior negocismo; um sistema partidário fragmentado.

E, finalmente, grupos de mídia enfrentando de forma inglória um fim de ciclo, um período em que reinaram absolutos no universo da opinião pública, e que está prestes a se encerrar.

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Em 2005, sob a liderança de Roberto Civita, o presidente do Grupo Abril, foi celebrado um pacto entre os quatro principais grupos de mídia do país: Globo, Abril, Folha e Estadão.

Tinha-se pela frente o cenário incerto das mudanças tecnológicas trazidas pela Internet; o receio do mercado ser invadido pelas empresas de telefonia.

A estratégia seguida foi a do magnata australiano Rupert Murdoch: um pacto entre os grupos de mídia tradicionais visando influenciar as eleições e conseguir, via o novo presidente, barrar a entrada dos novos competidores.

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A estratégia falhou em 2006, 2010 e 2014. Mas conseguiram, graças ao pesado tiroteio estabelecido, brecar a migração dos recursos de publicidade dos meios tradicionais para os digitais.

A partir daí houve uma guerra circular: sabia-se contra quem se estava guerreando mas sem saber o objetivo que estava se perseguindo. Assim como nos EUA, os grandes adversários não eram as empresas de telefonia, mas as novas redes sociais.

Quando o meio papel esgotou, saltaram na Internet. Mas a piscina estava vazia.

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O cartel brasileiro escolheu “inimigos” irrelevantes: meia dúzia de blogs pingados, que passaram a ser atacados como se representassem um inimigo imaginário.

Enquanto isto, o mercado publicitário era engolido pelo Google, Facebook e pelo maior dos integrantes do cartel: a rede Globo.

Segundo especialistas do setor, no ano passado os resultados das Organizações Globo vão permitir a distribuição de R$ 1 bilhão em dividendos para cada um dos três controladores.

Hoje em dia, a Globosat leva R$ 20,00 de cada R$ 100,00 pagos às TVs por assinatura; a TV aberta continua sendo um sugador de verbas; o sistema CBN de rádio domina amplamente o setor, assim como o portal G1.

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A Editora Abril caminha para o fim. Seu único ativo relevante, a revista Veja, não encontra compradores no mercado. Esta semana, foi vendido o controle da Abril Educação.

O Estadão está à venda há tempos e não tem muito fôlego pela frente. A Folha caminha para ser um pedaço da UOL — que está se consolidando como portal de serviços e de tecnologia.

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A Globo tornou-se a grande vitoriosa? Longe disso.

Desde o ano passado, os irmãos Marinho vinham mostrando desconforto com o enfraquecimento de seus parceiros, somado à crise de Rede Bandeirantes e aos problemas próximos de sucessão do Grupo Sílvio Santos. Esse enfraquecimento generalizado dos grupos de mídia, conferiu à Globo um poder absoluto de mercado.

Dentro de algum tempo, vai começar a se discutir sua divisão, da mesma forma como ocorreu com a ATT, o grande monopólio de telefonia dos Estados Unidos. Sua tentativa reiterada de derrubar o governo visa impedir qualquer ação visando reduzir seu monumental monopólio virtual

No futuro, se perceberá que a competência da Globo — vis-a-vis a incompetência de seus parceiros — cavou a sua própria cova.

Luís Nassif
No GGN
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"Blogs sujos": A unidade na diversidade


A entrevista concedida pelo ex-presidente Lula a nove blogueiros, em abril de 2014, é mais uma prova de que a blogosfera incomoda — e muito — os barões da mídia. Os seus impérios continuam intactos, graças à postura omissa dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, porém eles já não detêm mais o monopólio da palavra. Outras vozes se levantam, aproveitando-se da brecha tecnológica aberta pela internet, para desafiar o pensamento único autoritário e manipulador da ditadura midiática. Após a coletiva exclusiva, a quase totalidade dos jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão tentou desqualificar os entrevistadores, rotulando-os de “jornalistas chapa-branca” e de outros adjetivos.

O jornal O Globo, da bilionária famiglia Marinho, foi o que mais destilou ódio. Uma operação macartista foi montada para perseguir e triturar os blogueiros. Numa matéria de página inteira, o diário insinuou que a entrevista foi feita sob encomenda pelos “camaradas de Lula”. Uma enquete policialesca foi enviada para acuar os participantes da coletiva. Os que a responderam ainda tiveram suas declarações deturpadas. No caso mais grotesco, os serviçais das Organizações Globo — dona da emissora de tevê que recebeu quase R$ 6 bilhões em publicidade do governo federal nos últimos doze anos — ainda tentaram intimidar os anunciantes da revista Fórum, editada por Renato Rovai, um dos presentes na entrevista [1].

Vários “calunistas” da mídia tradicional — que são mais realistas do que o rei no seu servilismo aos “companheiros” patrões — também atacaram a blogosfera. Nos jornais Folha, Estadão, Zero Hora e outros, eles revelaram certo rancor por terem perdido a exclusividade das coletivas. Merval Pereira, o “imortal” da Academia Brasileira de Letras (ABL), e Carlos Alberto Sardenberg, o porta-voz dos agiotas na mídia rentista, chegaram a afirmar na rádio CBN, que também pertence ao império global, que os blogueiros são “vendidos” — o que levou Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, a sugerir a abertura de um processo por calúnia [2]. Em síntese, a velha mídia revelou todo o seu temor diante das novas mídias!

Como observou Rodrigo Vianna, do blog Escrevinhador, a reação hidrófoba da chamada grande imprensa confirmou que todas as armas serão utilizadas para atemorizar e sufocar a nascente blogosfera brasileira. “Trata-se de uma Operação para intimidar aqueles que nos últimos anos — ainda que de forma limitada — criaram um contraponto ao poder da velha mídia. Os barões da imprensa velhaca não se conformam com o fato de meia dúzia de blogueiros ‘sujos’ oferecerem outra narrativa ao Brasil. A Globo, a Abril e a Folha seguem a ter imenso poder. Mas já não falam sozinhas. Seria bom que soubessem: com essa tentativa de cerco, em vez de intimidar, vão mobilizar ainda mais blogueiros e internautas” [3].

Com a mesma postura altiva, Conceição Lemes, do Viomundo, respondeu diretamente aos leitores às provocações da famiglia Marinho [4]; Kiko Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, detonou o “Manual Globo da Entrevista Picareta” [5]; Miguel do Rosário, do Cafezinho, ironizou o fato do maior império midiático do país ter levado a blogosfera “ao centro do palco” [6]; Fernando Brito, do Tijolaço, explicou as razões dos “grandes jornais espumarem de ódio contra a entrevista de Lula” [7]; e Marco Aurélio Weissheimer, do site Carta Maior, destacou os principais pontos da coletiva [8]. A enorme repercussão da entrevista e a histeria da mídia só confirmaram a força crescente da “blogosfera progressista” no Brasil.

O barulho dos “blogs sujos”

Acompanhando as inovações mundiais da internet, os blogs brasileiros ganharam musculatura nos últimos dez anos. Ainda há poucos estudos, inclusive na academia, sobre este fenômeno recente. No boom da blogosfera, que trata de vários temas e com diferentes abordagens, surgiram os blogs mais politizados, sem vínculos com as corporações midiáticas e que fazem o contraponto às suas distorções. Na tese de doutorado para a Fundação Getúlio Vargas, o pesquisador Leonardo Vasconcelos Cavalier Darbilly registra que “o surgimento da blogosfera política no Brasil, caracterizada pela divergência com relação ao posicionamento de grande parte da mídia tradicional, ocorreu ao longo da década de 2000” [9].

Segundo o autor, o primeiro blog do chamado “campo progressista” foi o Viomundo, criado por Luiz Carlos Azenha em 2003. Em 2005 nascem os blogs de Renato Rovai e Antônio Mello; Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, e o blog de Luis Nassif aparecem em 2006; no ano seguinte surge o Blog da Cidadania, criado por Eduardo Guimarães, que também funda o “Movimento dos Sem Mídia” (MSM); já o blog Escrevinhador, de Rodrigo Vianna, nasce em 2008. Neste período, por todos os cantos do país — nas capitais e também em importantes cidades do interior — brotam centenas de páginas pessoais que se contrapõem às forças políticas conservadoras e que polemizam com a mídia tradicional.

Muitos jornalistas, descontentes com a cobertura enviesada da chamada grande imprensa, utilizam esta ferramenta para expor as suas posições criticas e independentes. Mas a blogosfera não se limita a este setor, permitindo que profissionais de diversas áreas exponham seus pontos de vista sobre variados temas. A maioria dos blogs ainda é produzida de forma amadora, na cara e na coragem, sem recursos financeiros ou apoio logístico. Em função destes obstáculos, muitos não possuem atualização permanente, e outros sequer conseguem resistir durante muito tempo. Mesmo assim, eles vão se constituído numa rede horizontal, sem maior organicidade, mas com capacidade de interferir nos debates nacionais.

Esta força emerge já na disputa presidencial de 2006, que pode ser considerada o primeiro grande teste da blogosfera. Na época, os nascentes blogs denunciam a cobertura tendenciosa da velha imprensa, como descreve o livro “A mídia nas eleições de 2006”, organizado por Venício A. de Lima [10]. Mas é na campanha eleitoral de 2010 que a blogosfera se consolida como força influente no debate sobre os rumos políticos do Brasil [11]. Neste embate, a mídia hegemônica escancara sua “posição oposicionista”, conforme confessou a ex-presidente da Associação Nacional dos Jornais e executiva do Grupo Folha, Judith Brito. E os blogs, mais fortalecidos, batem recordes de acesso ao desmascarar suas manipulações [12].

Alguns episódios ficaram famosos nesta batalha. Num deles, a mídia partidarizada tentou montar uma farsa sobre um pretenso atentado contra o candidato das forças conservadoras, o tucano José Serra. Ele teria sido atingido por um petardo durante uma passeata no calçadão de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, em 20 de outubro — na véspera do segundo turno do pleito presidencial. A TV Globo chegou a acionar um “perito” para analisar o suposto atentado terrorista e noticiou que o candidato do PSDB fez até uma tomografia. De imediato, a blogosfera e as redes sociais denunciaram a montagem, revelando que o tucano fora alvo de uma “bolinha de papel”, o que tornou a farsa motivo de piada.

Antes disto, em 14 de setembro, a esposa do tucano, Mônica Serra, numa caminhada em Nova Iguaçu (RJ), tentou convencer o ambulante Edgar da Silva, de 73 anos, a não votar na petista Dilma Rousseff. “Ela é a favor de matar as criancinhas”, esbravejou. O seu discurso preconceituoso foi amplificado pela mídia, mas não resistiu à força da internet. Pelo Facebook, a artista Sheila Ribeiro, ex-aluna de balé da tucana, desmontou a sua encenação. “Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre aborto, sobre seu aborto traumático. Mônica Serra fez um aborto”, escreveu, constrangendo as forças da direita e a sua mídia.

Outros episódios patéticos, como o da falsa ficha policial da “terrorista” Dilma Rousseff que a Folha de S.Paulo estampou na capa, também foram alvo da intensa guerrilha na internet. No livro Crime de imprensa, os jornalistas Palmério Dória e Mylton Severiano detalham as várias tentativas da manipulação do eleitorado e demonstram a importância que a blogosfera e as redes sociais tiveram nesta batalha [13]. Já no livro A ditadura continuada, Jakson Ferreira de Alencar mostra como a internet foi decisiva para desmontar os “factoides e o partidarismo da imprensa na eleição de Dilma Rousseff” [14]. Estas e outras análises comprovam que 2010 foi realmente o ano da consolidação da blogosfera progressista no Brasil.

Este avanço foi reconhecido, meio a contragosto, pelo próprio José Serra durante um seminário da Associação Nacional dos Jornais, em julho de 2010. Diante dos donos dos jornalões, o tucano explicitou o seu ódio à blogosfera e cunhou o termo “blogs sujos” — rótulo que foi imediatamente adotado pelos irreverentes ativistas digitais. Em editoriais e comentários na tevê, velha mídia também intensificou seus ataques à nova mídia. Já em novembro do mesmo ano, o presidente Lula concedeu a primeira entrevista coletiva a onze blogueiros, em pleno Palácio do Planalto, o que reforçou a legitimidade deste jovem movimento e gerou histérica crítica da chamada grande imprensa — similar à ocorrida em abril de 2014 [15].

Origem e evolução do BlogProg

É neste contexto de fortalecimento da blogosfera que surge a ideia da realização de um encontro de ativistas digitais. A proposta foi apresentada pelo jornalista Luiz Carlos Azenha durante a assembleia de fundação do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, ocorrida em 14 de maio de 2010 na sede do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo. Preocupado com a nítida e agressiva partidarização da imprensa tradicional na campanha eleitoral, ele propôs um “encontro presencial dos ativistas que se contrapõem às manipulações da mídia e que só se conhecem no mundo virtual”. Num gesto de ousadia, a proposta foi acatada por consenso e o encontro foi marcado para três meses depois.

Aos poucos, este movimento horizontal foi sendo batizado de “blogosfera progressista” sem qualquer decisão formal. Na linguagem instantânea da internet, ele também passou a ser chamado de BlogProg. Na base da militância voluntária e sem maiores estruturas, o 1º Encontro Nacional dos Blogueiros ocorreu nos dias 20, 21 e 22 de agosto, em São Paulo, e reuniu 330 pessoas de 19 estados da federação. Entre os participantes, militantes de distintos partidos políticos e, na maioria, ativistas sem vínculos partidários. Num universo plural, dois pontos garantiram a unidade do movimento: a denúncia do “terrorismo midiático” nas eleições e a luta pela democratização dos meios de comunicação no Brasil.

Esta unidade na diversidade é que garantiu a continuidade do movimento, com a formação de uma comissão nacional organizadora e a decisão de enraizar o BlogProg nos estados. Em 2011 ocorreram 14 encontros estaduais e vários eventos regionais, que culminaram com a realização do II Encontro Nacional dos Blogueiros, nos dias 17, 18 e 19 de junho, em Brasília, com a presença de 369 ativistas de 21 estados. Passada a refrega eleitoral, três pontos garantiram a unidade do movimento: a luta pela liberdade de expressão, contra as tentativas de cerceamento da blogosfera e por uma lei democrática da mídia. Prova da legitimidade conquistada, o evento teve a participação do ex-presidente Lula.

Em outra decisão ousada, o II BlogProg aprovou a realização de um encontro mundial para refletir sobre o impacto do ativismo digital em vários países — como na Primavera Árabe, na revolta dos indignados da Espanha e no Occupy Wall Street dos EUA. Inédito no planeta, o evento ocorreu nos dias 27, 28 e 29 de outubro de 2011, em Foz do Iguaçu (PR), e reuniu 468 ativistas digitais de 23 países e 17 estados brasileiros. Ele serviu para evidenciar o poder mobilizador das redes sociais, que se tornaram um palco decisivo da luta de ideias na atualidade. Os relatos dos vários países reforçaram a necessidade do fortalecimento da original iniciativa brasileira e destacaram o mérito da construção da unidade na diversidade.

Já o III Encontro Nacional de Blogueiros ocorreu nos dias 25, 26 e 27 de maio de 2012, em Salvador (BA). Com alguns problemas de estrutura, ele reuniu 292 ativistas digitais de 18 estados. Três temas concentraram as atenções dos presentes: a luta por um novo marco regulatório da mídia, que foi sintetizada na frase “Nada além da Constituição”, proferida pelo ex-ministro Franklin Martins; a campanha pela aprovação do Marco Civil da Internet, que teve seu ponto alto na audiência pública organizada pela Câmara dos Deputados em pleno evento; e a denúncia do aumento da perseguição, da violência e da censura contra a blogosfera. Todos estes encontros firmaram o BlogProg e sinalizaram os desafios para futuro.

Unidos, mas nem tanto!

Na prática, a chamada blogosfera progressista é um movimento em rede, horizontal, sem qualquer estrutura verticalizada e hierarquizada, e que reúne opiniões bem diversificadas. Na maioria dos temas mais candentes da política nacional e internacional, os blogueiros expressam posições divergentes e até antagônicas. Prova disto foi a sua divisão na leitura sobre a chamada “jornada de junho”, a onda de protestos que agitou o país em meados de 2013 e que teve como poderosa alavanca as redes sociais. O segredo da sua existência reside no esforço permanente, complexo e difícil para construir a unidade na diversidade. Daí a conclusão de que os blogueiros e as blogueiras estão unidos, mas nem tanto...

A denúncia das manipulações da mídia monopolizada e a luta pela regulação democrática dos meios de comunicação são os dois pontos que, até agora, garantiram a coesão deste movimento e seu crescente protagonismo na luta de ideias no país. Outros temas, porém, ganham relevância. Com o florescimento dos blogs, eles viraram alvo de perseguição – seja do prefeito irritado com as críticas, das empresas denunciadas nas suas irregularidades ou dos monopólios midiáticos, incomodados com a perda do monopólio da palavra. Além das ameaças físicas – e inclusive de assassinatos -, está em curso no Brasil um processo de judicialização da censura, com vários blogueiros sendo vítimas de processo na Justiça [16].

A defesa da verdadeira liberdade de expressão — que não se confunde com a falsa “liberdade de imprensa” dos monopólios midiáticos — é hoje uma bandeira que une a blogosfera. Esta preocupação resultou na criação do “Mapa da violência contra a blogosfera”, uma iniciativa conjunta da ONG Artigo 19 e do Centro de Estudos Barão de Itararé, que cadastra os casos de ameaças, agressões e processos judiciais contra ativistas digitais para denunciá-los em fóruns nacionais e internacionais de defesa dos direitos humanos. Isto explica também porque o movimento aderiu à campanha pela aprovação do Marco Civil da Internet com os seus princípios básicos – neutralidade, privacidade e liberdade de expressão.

Além destes temas, a blogosfera tem procurado os caminhos para alavancar a sua ação. Apesar da gritaria dos barões da mídia, que abocanham anualmente R$ 4 bilhões em publicidade dos governos federal, estaduais e municipais, parte da blogosfera entende que estas verbas públicas devem ser descentralizadas e democratizadas, servindo de estímulo à pluralidade e à diversidade informativa. Na busca pela profissionalização, que permita maior produção de conteúdo próprio, vários blogs realizam campanhas de sustentação financeira. Mas estas e outras iniciativas, debatidas nos quatro encontros citados, ainda não deram os resultados desejados e a blogs seguem como uma militância voluntária — virtual.

Mesmo com estas e outras dificuldades, a blogosfera progressista não se acomoda e nem se intimida. Ela sabe, como ensina o professor Dênis de Moraes, que “a internet se apresenta como mais uma arena de lutas e disputas pela hegemonia no interior da sociedade civil” e que ela já obteve expressivos avanços “na comunicação contra-hegemônica em rede”, o que não permite alimentar falsas ilusões [17]. Ela tem noção, como teoriza outro intelectual orgânico desta frente estratégica da luta de classes na atualidade, Venício A.de Lima, que “a grande mídia tradicional, por óbvio, continua relevante, mas não tem mais nem de longe a importância na formação da opinião pública a ela atribuída em passado recente” [18].

A blogosfera progressista, com suas divergências e dificuldades, tem um grande futuro pela frente!

Notas

1- “Macartismo comercial: Globo intimida anunciantes da Fórum”. Por Renato Rovai, na revista Fórum, 17 de abril de 2014.

2- “Merval e Sardenberg caluniam Blogueiros que entrevistaram Lula”. Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania, 11 de abril de 2014.

3- “Globo, que não mostrou o DARF, tenta intimidar blogueiros”. Por Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador, 14 de abril de 2014.

4- “Conceição Lemes, 33 anos de estrada: Resposta em público a O Globo”. Por Conceição Lemes, no blog Viomundo, 16 de abril de 2014.

5- “Jornalismo macartista e Manual da Globo da Entrevista Picareta”. Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo, 18 de abril de 2014.

6- “A Globo e a entrevista dos camaradas”. Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho, 17 de abril de 2014.

7- “Os ‘jornalões’ e os ‘bloguinhos’ com Lula. Ou como dói deixar o entrevistado falar”. Por Fernando Brito, no blog Tijolaço, 10 de abril de 2014.

8- “Lula reafirma que Dilma é a candidata e pede Constituinte Exclusiva para Reforma Política”. Por Marco Aurélio Weissheimer, no site Carta Maior, 8 de abril de 2014.

9- Leonardo Vasconcelos Cavalier Darbilly. “Blogosfera, estratégias de subversão e campo da comunicação no Brasil: uma análise do movimento dos blogueiros progressistas sob uma perspectiva de estudos organizacionais”. Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2014.

10- Venício A. de Lima (org.). “A mídia nas eleições de 2006”. Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2007.

11- Celia Maria Boregas. “A esperança de vencer o midiático: A militância de base em redes de contrainformação numa campanha majoritária”. Universidade de São Paulo (USP), 2012; Jéferson Andreu Knecht. “A blogosfera ‘progressista’ contra a ‘grande mídia’ na cobertura do ‘escândalo dos dossiês’ durante as eleições presidenciais de 2010”. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011;

12- Rafael de Paula Aguiar Araújo, Claudio Luis de Camargo Penteado e Marcelo Burgos Pimentel dos Santos. “Informação e contrainformação: O papel dos blogs no debate político das eleições presidenciais de 2010”. IV Congresso Latino Americano de Opinião Pública. Belo Horizonte, 2011.

13- Palmério Dória e Mylton Severiano. “Crime de imprensa: Um retrato da mídia brasileira murdoquizada”. Plena Editorial, São Paulo, 2011.

14- Jakson Ferreira de Alencar. “A ditadura continuada”. Editora Paulus, São Paulo, 2012.

15- “Mais uma tentativa de assassinato de reputação”. Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo, 18 de abril de 2014.

16- “Fui processado; o que eu faço?”. Publicação da ONG Artigo 19 e do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. São Paulo, 2013.

17- Dênis de Moraes. “A batalha da mídia”. Editora Pão e Rosas, Rio de Janeiro, 2009.

18- Venício A. de Lima. “Políticas de Comunicações: Um balanço dos governos Lula (2003-2010)”. Editora Publisher, São Paulo, 2012.

Versão adaptada do terceiro capítulo do livro "Blogueiros, uní-vos (mas nem tanto..)", de Felipe Bianchi e Altamiro Borges. Editado em maio de 2014 pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.
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Por que 8 mil contas de brasileiros em paraíso fiscal não são notícia no ‘JN’?


Não se pode dizer que a notícia é apenas de interesse estrangeiro, pois o volume de contas associadas ao Brasil configura a quarta maior clientela da lista do HSBC na Suíça

Sabe-se que o nome do "rei dos ônibus" está na lista;
mas há outros 8.600 nomes lá que a mídia brasileira
prefere ignorar
Desde segunda-feira, os telejornais do mundo inteiro noticiaram o escândalo mundial do banco HSBC ter ajudado milionários e criminosos a sonegar impostos em seus países, usando sua filial na Suíça. Mas no Jornal Nacional da TV Globo, nenhuma palavra sobre o assunto.

Não se pode dizer que a notícia é apenas de interesse estrangeiro, pois 8.667 correntistas são associados ao Brasil, despontando como a quarta maior clientela.

O ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco Filho, por exemplo, confessou em depoimento à Polícia Federal, ter mantido dinheiro de propinas neste HSBC Suíço durante um período.

No Brasil, não é só a TV Globo que parece desinteressada nesta notícia. O resto da imprensa tradicional brasileira também reluta em divulgar até nomes que já saíram na imprensa estrangeira.

Um portal de notícias de Angola noticiou a presença na lista da portuguesa residente no Brasil, Maria José de Freitas Jakurski, com US$ 115 milhões, e do empresário que detém concessões de ônibus urbanos no Rio de Janeiro, Jacob Barata, com US$ 95 milhões. A notícia traz dores de cabeça também para o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB-RJ), pois Barata é chamado o "rei dos ônibus" e desde junho de 2013 é alvo de protestos liderados pelo Movimento Passe Livre.

O dinheiro nas contas pode ser legítimo ou não. No caso de brasileiros, a lei exige que o saldo no exterior seja declarado no Brasil e, se a origem do dinheiro for tributável, que os impostos sejam devidamente pagos, inclusive no processo de remessa para o exterior. Porém é grande a possibilidade de esse tipo de conta ser usada justamente para sonegar impostos, esconder renda, patrimônio e dinheiro sujo vindo de atividades criminosas. O próprio HSBC afirma que mudou seus controles de 2007 para cá, e 70% das contas na Suíça foram fechadas.

A receita federal Inglaterra, onde fica a matriz do HSBC, identificou 7 mil clientes britânicos que não pagaram impostos. A francesa avaliou que 99,8% de seus cidadãos presentes na lista praticavam evasão fiscal. Na Argentina, a filial do HSBC foi denunciada em novembro de 2014, acusada de ajudar 4 mil cidadãos a evadir impostos. Segundo a agência de notícias Télam, o grupo de mídia Clarín (uma espécie de Organizações Globo de lá) tem mais de US$ 100 milhões sem declarar.

Os dados de mais de 100 mil clientes com contas entre 1988 e 2007 foram vazados pelo ex-funcionário do HSBC Herve Falciani. O jornal Le Monde teve acesso e compartilhou com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), formado por mais de 140 jornalistas de 45 países para explorar as informações e produzir reportagens, compondo o projeto SwissLeaks.

No Brasil, o jornalista Fernando Rodrigues do portal UOL é quem detém a lista e deveria revelar o que encontrou. Porém sua postura tem sido mais de esconder do que de revelar o que sabe. Segundo ele, revelará nomes que tiverem "interesse público" (portanto, independentemente da licitude) ou nomes desconhecidos sobre os quais venham a ser provadas irregularidades.

Mas o próprio Rodrigues disse que há nomes conhecidos de empresários, banqueiros, artistas, esportistas, intelectuais e, até agora, praticamente não publicou nenhum. Nem o de Jacob Barata, de claro interesse jornalístico. Só publicou dois nomes já divulgados no site internacional do SwissLeaks (contas do banqueiro falecido Edmond Safra e da família Steinbruch), o de Pedro Barusco, também já divulgado antes, e de outros envolvidos com a Operação Lava Jato, como Julio Faerman (ex-representante da empresa SBM), o doleiro Raul Henrique Srour, e donos da Construtora Queiroz Galvão.

Rodrigues não publicou nenhum nome de artista, esportista, intelectual, político ou ex-político, contradizendo sua política editorial de revelar tudo que seja de interesse público. Jornalistas do ICIJ de outros países divulgaram os nomes de celebridades, políticos, empresários. Há atores, pilotos de Fórmula 1, jogadores de futebol, o presidente do Paraguai etc.

A cautela no Brasil é contraditória com o jornalismo que vem sendo praticado pela imprensa tradicional de espalhar qualquer vazamento, sem conferir se tem fundamento, quando atinge alguém ligado ao governo da presidenta Dilma Roussef ou ao Partido dos Trabalhadores. Esta blindagem de não publicar o que sabe só costuma ser praticada quando há nomes ligados ao PSDB ou ligados aos patrões dos jornalistas e grandes anunciantes.

Um caso recente não noticiado pela mídia tradicional foi o discurso em 29 de abril de 2013 do ex-deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), no plenário da Câmara, em que disse sobre um dos donos da TV Globo: "(...) O Sr. João Roberto Marinho deveria explicar porque no ano de 2006 tinha uma conta em paraíso fiscal não declarada à Receita Federal com mais de R$ 100 milhões (...)". Tudo bem que o ônus da prova é de quem acusa, mas se fosse contra qualquer burocrata na hierarquia do governo Dilma, estaria nas primeiras páginas de todos os jornais e o acusado que se virasse para explicar, tendo culpa ou não.



O período que abrange o SwissLeaks, de 1988 a 2007, pega a era da privataria tucana e dos grandes engavetamentos na Procuradoria Geral da Republica, enterrando escândalos de grandes proporções sem investigações.

É só coincidência, mas o próprio processo de transferência do controle do antigo banco Bamerindus para o HSBC no Brasil se deu em 1997, durante o governo FHC. Reportagens da época apontaram que foi um "negócio da China" para o banco britânico.

Helena Sthephanowitz
No RBA
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8 razões pelas quais o preço do petróleo está voltando a subir

Apesar da conspiração entre árabes e americanos para baratear o petróleo e pressionar economicamente a Rússia, Irã e Venezuela, os preços voltam a subir.

Se ainda alguém não sabe, a Aramco — a empresa de petróleo da Arábia Saudita, e também a maior do mundo —, até bem pouco tempo, em 1977, se chamava Arabian American Oil Co., sendo de propriedade comum entre a família saudita e várias empresas da Califórnia e do Texas. Por isso, não se pode ficar surpreso se a dupla Washington-Riad tiver algo a ver com a queda brusca dos preços de 115 dólares o barril para 45 dólares entre junho e dezembro passados, levando em conta que o mercado de petróleo não é “livre”: ele é controlado por um cartel chamado OPEP e por grandes empresas petrolíferas ocidentais. E mais, o combustível gorduroso e malcheiroso, antes de tudo, é uma arma que nesse caso foi apontada contra a Rússia, o Irã e a Venezuela com a finalidade de conseguir mudanças em suas políticas via afundamento de suas economias, e ainda resgatar um falecido petrodólar — um dos pilares da hegemonia mundial dos EUA.

No entanto, a festa durou pouco e os promotores da “conspiração Aramco” se deram conta de que os prejuízos dessa queda de preços são maiores do que seus benefícios político-econômicos. Por isso, o preço de venda do petróleo para o mês de março teve uma notável melhora nos três mercados de Brent, dos EUA e da OPEN, oscilando por volta de 59 dólares o barril.

Aqui vão alguns motivos:

1. Os membros dos Brics, com exceção da Rússia, foram os principais agraciados pela compra de um petróleo barato.

a) China, o principal rival dos EUA e o segundo consumidor mundial de petróleo, bateu seu recorde de importações de petróleo, apesar de seu crescimento econômico ter sido o mais frouxo desde 1990 (mas registrou, no primeiro trimestre de 2014, um crescimento de 7,2%): começou a comprar 6,2 milhões de barris por dia, e acabou o mês de dezembro com 7,2 milhões de barris por dia, injetando-os em sua Reserva Estratégica de Petróleo (o armazenamento ocorre para afrontar as emergências, como a interrupção do abastecimento). Com isso, a China não só deixou os EUA nervosos, mas contribuiu para empurrar os preços para o alto, por dois outros fatores: tirar boa parte do excedente de petróleo que nadava no mercado e gerar incerteza sobre seu passo seguinte no mercado.

b) Beneficiou o Brasil, a principal potência rival dos EUA na América, e que agora está decidida a recuperar sua influência no seu “quintal”, e a África do Sul, o principal competidor de Washington na África. Os Brics decidiram abandonar o dólar em suas transações e criaram um banco com a finalidade de debilitar as instituições financeiras ocidentais.

2. Não conseguir mudar a postura de Moscou nos casos da Ucrânia, Crimeia e Síria. Pois se os setores belicistas ocidentais desferiram o primeiro ataque à Rússia, provocando um golpe de Estado na Ucrânia, levando à surpresa da integração da Crimeia à Federação Russa, eles pensaram que uma drástica queda nos preços do petróleo — triturando o rublo e a economia russa — fosse provocar a rendição do Kremlin. Estratégia ruim, já que o golpe à economia do país eslavo, assim como a dramática guerra da Ucrânia, deixou cerca de 6 mil mortos e milhões de desabrigados, e teve um efeito negativo sobre os países europeus aliados de Washington, que enfrentam uma ameaça de recessão: estão perdendo o mercado russo e também os investimentos, tanto dos magnatas russos como de seu Estado. Na Espanha, por exemplo, os milionários russos estavam comprando prédios inteiros herdados da era da especulação mobiliária. Além disso, é incompreensível que não previssem uma aproximação Moscou-Pequim (sem precedentes após a morte de Stalin) e Moscou-Teerã: os presidentes Vladimir Putin e Hassan Rouhani, que compartilham o sofrimento pelas sanções impostas pelos EUA e seus sócios, assim como pela “Conspiração Aramco”, tiveram quatro encontros em um ano, algo também sem precedentes na história dos dois vizinhos.

3. Quanto ao Irã, não conseguiram pressioná-lo para conseguir mais vantagem nas negociações nucleares em curso e subtrair suas forças na região porque:

a) Teerã não deixou de apoiar o governo de Bashar al-Assad (a Síria representa a profundidade estratégica do Irã enquanto ele está no poder), e inclusive já fala abertamente dos generais iranianos que trabalham em solo sírio;

b) nem aceitou o fechamento total de seu programa nuclear, e isso apesar de John Kerry ter lançado um ultimato a Teerã para assinar um acordo político global até o final de março — se não, não retomariam as negociações. O certo é que a administração Obama está muito consciente da luta pelo poder no seio da República Islâmica entre os setores militares — contrários a um acordo com os EUA — e o governo do presidente Rouhani, que tenta, por um lado, driblar as sanções que estão afogando a economia iraniana e, por outro, evitar um confronto bélico (tentou baixar a tensão depois que o míssil israelense matou um general iraniano na Síria, no último dia 20 de janeiro). Se Obama pretende impedir um Irã nuclear, um petróleo com preços no chão, aumentará a tensão social em um Irã monoprodutor e fortalecerá a posição dos céticos e dos setores que querem guerra (assim como EUA e Israel). As medidas de Rouhani diante da manobra da Aramco foram incentivar a exportação dos produtos não petrolíferos, investir no turismo, aumentar os impostos, manter os subsídios aos principais produtos de consumo e a ajuda às famílias desfavorecidas, além de uma política externa agressiva na região com um ramo de oliveira nas mãos — que inclui sobretudo os países árabes “inimigos” e membros da OPEP, como Kuwait ou Catar.

4. A perda de centenas de milhões de dólares por parte das grandes empresas petrolíferas ocidentais, como as que operam no Iraque, Líbia, Nigéria, entre outros.

5. O déficit orçamentário gerado pela queda do preço do petróleo criou dificuldades para os xeiques sauditas, em pelo menos estes três cenários:

a) No interior do país: seus orçamentos foram elaborados com base no barril de 72 dólares, e agora se enfrenta um aumento importante dos preços dos produtos básicos. Além disso, previu-se, desde a repressão da primavera de 2011, realizar uma série de projetos que melhorariam a vida dos cidadãos — como a construção de moradias, a criação de postos de trabalho, ou a chegada de água e luz a milhões de pessoas que vivem na pobreza absoluta — e que agora estão paralisados.

b) No Egito: a promessa feita em 2011 aos militares encabeçados pelo general Al-Sisi de receber 160 bilhões de dólares anuais acabam com a Irmandade Muçulmana do presidente Mohammed Mursi, preso após o golpe de Estado. O que acontecerá no Egito, seu grande aliado contra Irã, se não cumprir?

c) No Iraque e na Síria: dificuldade para pagar os honorários de milhares de jihadistas do Estado Islâmicos e grupos parecidos, cuja missão é acabar com os governos de Damasco e de Bagdá, ambos próximos a Teerã, e arrastar o Irã para uma guerra regional sectária. Desde 2011 até hoje, investiu bilhões de dólares nesses terroristas, com um êxito parcial: destruiu o Estado sírio, mas ainda não conseguiu levantar um novo e afim.

6. Nos EUA, dois fatos contribuíram para o aumento dos preços do barril:

a) Os cortes nos investimentos de capital por parte das multinacionais na extração do petróleo de xisto como resposta à queda dos preços. Pois cada barril lhes está custando entre 70 e 80 dólares (diante dos 15-20 dólares no Oriente Médio) e um petróleo por menos desse preço, obviamente, não é rentável. Com isso, nos EUA e no Canadá, cerca de 90 plataformas de exploração fecharam. BP perdeu bilhões de dólares em todo o mundo e planeja reduzir suas atividades de exploração à metade e os investimentos até 20%. A Chevron está em situação parecida.

b) A greve de cerca de 4 mil trabalhadores das empresas Royal Dutch Shell Oil e BP em nove refinarias em Ohio, Califórnia, Kentucky, Texas e Washington, iniciada em 1° de fevereiro. Exigem um convênio coletivo para o setor, a redução do número de trabalhadores não sindicalizados e melhorias nas condições de segurança e saúde, em uma greve que é a primeira dessa envergadura há várias décadas.

7. O aumento da tensão na Líbia e a perda de 800 mil barris em um incêndio.

8. O perigo de instabilidade social em países aliados aos EUA, como Iraque (incluindo seu Curdistão) ou Nigéria, pela queda dos petropreços.

O único e grande triunfo dos EUA e da Arábia Saudita nessa história até o momento foi transformar a OPEP em espectro do que foi entre 1960 e 1990, e não apenas porque sua cota de mercado caiu de 62% para os 30% de hoje, mas porque a Arábia, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos fizeram uma frente contra pesos pesados da organização, tais como Irã, Iraque, Argélia, Venezuela e Equador.

Os preços do petróleo tocaram fundo. É perfeitamente lógico que o “Naft” (seu nome em persa, e do qual vêm palavras como “naftalina”) não apenas recupere seu preço — que hoje é mais barato do que uma garrafa de bom vinho —, mas também seu valor: é o resultado de milhões de anos do esforço “não renovável” da natureza.

Nazanín Armanian
No Carta Maior
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Nota Oficial do Partido dos Trabalhadores do Paraná


O Paraná viveu na quinta-feira (12) um dos momentos mais baixos de sua história política. As imagens dos deputados governistas chegando à Assembleia Legislativa em um camburão da polícia envergonham o Estado.

Como de praxe, o governador Beto Richa (PSDB) não assumiu suas responsabilidades e atribuiu o fracasso de seu governo ao PT.

Disse que a manifestação que terminou com a ocupação das dependências da Alep foi realizada por “baderneiros” ligados ao partido. Garantiu que o pacote de maldades é resultado da “grave crise financeira” nacional. Como de praxe, faltou com a verdade.

O governador tem noções distorcidas sobre “democracia” e “baderna”. Seu governo carrega a marca inexorável da intransigência – vide quantos “tratoraços” realizou desde que assumiu o Palácio Iguaçu. Baderna foi exatamente o que promoveu nas finanças do Estado para inserir o Paraná na lastimável situação que se encontra hoje.

Richa não sucumbiu ao PT (ainda). Caiu para trabalhadores e trabalhadoras que se levantaram contra sua intransigência e irresponsabilidade.

O Paraná está diante de um dos maiores dilemas de sua história: enquanto o governador não reconhecer que o gatilho dos problemas do Estado não está na oposição ou em supostos “baderneiros”, mas na própria sala de jantar, não voltaremos a encontrar o caminho da prosperidade.

Curitiba, 14 de fevereiro de 2015.

Partido dos Trabalhadores do Paraná

Deputado federal Enio Verri – Presidente

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Sabesp faz tudo errado

Sabesp tirou do Cantareira mais que previsto por 8 meses, diz especialista

Professor defende redução na retirada de água para estoque durar mais.
Segundo ele, erro da Sabesp foi não ter feito redução drástica já em 2014.

Represa Jaguari-Jacareí na cidade de Bragança Paulista (SP).
O engenheiro civil e sanitarista José Roberto Kachel dos Santos, de 62 anos, aponta que a Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) retirou mais água que o recomendado do Sistema Cantareira durante ao menos oito meses entre 2013 e 2014.

Ex-funcionário da Sabesp, onde trabalhou por 34 anos, ele diz que indicações previstas na outorga concedida em 2004 e em recomendações da Agência Nacional de Águas (ANA) foram desrespeitadas, agravando o quadro da crise hídrica. Segundo ele, a empresa também ignorou um próprio plano interno que previa a adoção do rodízio a partir do começo de 2014.

Kachel explica que as reduções na retirada de água do Cantareira foram insuficientes e muito acima do indicado pela regra operacional, o que levou ao esgotamento prematuro e desnecessário do Cantareira. Ele fala com base nos dados disponibilizados pela Sabesp, pelos órgãos que gerenciam o serviço de água no Brasil e de meteorologia.

A consequência, segundo ele, deverá ser um rodízio radical 4x2 ou 5x2 para evitar o esgotamento total do restante do volume morto 2 e do volume morto 3 antes do início de setembro. O próprio diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, já admitiu em janeiro que o rodízio de cinco dias sem água e dois com água pode ser adotado caso o nível das represas continue caindo.

Segundo Kachel, a capacidade de fornecimento de água do Cantareira, que era de mais de 30 metros cúbicos por segundo está reduzida a menos de 10 metros cúbicos por segundo e não se sabe quantos anos levará para voltar ao normal. "Não é uma crise de curto prazo. Irá durar anos", afirmou.

A Sabesp informou em nota que segue rigorosamente as determinações dos órgãos reguladores do setor, a ANA e o DAEE, no que se refere à retirada de água dos sistemas de abastecimento. Segundo a Sabesp, em relação aos níveis dos sistemas, a medição também é feita de acordo com a regulamentação e a supervisão destes órgãos.

Segundo Kachel, os números atuais de chuva e reservas acumuladas indicam que maio pode ser o limite para parte dos dois principais sistemas que abastecem a região metropolitana. Neste mês deve se esgotar o principal reservatório do Sistema Alto Tietê (a represa Ponte Nova) e também o segundo volume morto do Cantareira.

Os cálculos do especialista tomam como base as chuvas registradas pela Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) até o começo de fevereiro. Ele tem mestrado em engenharia sanitária e doutorado em hidráulica e saneamento.

Retirada do Sistema Cantareira

Segundo o professor, a Sabesp e o DAEE têm de obedecer regras de retirada estabelecidos em conjunto com a Agência Nacional de Águas (ANA). São as chamadas curvas de aversão ao risco (CAR) que indicam quanta água pode ser retirada do sistema Cantareira simulando reservas de 5% e de 10% ao final de um ano.

A conta é feita com base no que entra e sai da represa e levou em consideração, para efeito de projeção, o pior cenário possível, no caso de São Paulo, a seca de 1953. "(Mas) o cenário para cálculo não era mais a seca de 1953 e, sim, 50% das mínimas da série histórica, o que implicaria em reduzir a retirada do Cantareira para o que está hoje, isso em junho de 2014", afirma.

Os cálculos apresentados pelo professor revelaram que, considerada a meta de manter 5% do estoque de água ao final de um ano, a Sabesp ultrapassou os limites de retirada estabelecidos pela curva de risco em oito meses, entre setembro de 2013 e fevereiro de 2014 e entre junho e julho de 2014. Na projeção de uma reserva de 10% ao final de um ano, o não cumprimento dos limites ocorreu em 12 meses, de agosto de 2013 a julho de 2014.

Ele cita um exemplo: se tivesse adotado o rodízio na Grande São Paulo e reduzido a retirada a partir de janeiro de 2014 em 4,3 metros cúbicos por segundo, a Sabesp teria ficado com 28,7 a 27,2 metros cúbicos por segundo e se enquadrado nos limites indicados pela curva de aversão ao risco.

Em vez disso, no mês de janeiro, a vazão foi de 33,05 metros cúbicos por segundo, e no mês de fevereiro, de 32,64 metros cúbicos por segundo, nos dois casos, acima do previsto pela curva de risco.

Acordo quebrado

Kachel lembra que em fevereiro de 2014, foi criado o Grupo Técnico de Assessoramento para Gestão do Sistema Cantareira (GTAG). Em março, abril e maio houve acordo entre a Agência Nacional de Águas (ANA), o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e a Sabesp sobre o caminho a ser traçado.

A partir de junho, segundo o especialista, as vazões afluentes (chuvas e rios) caíram muito, e, no segundo semestre, a ANA deixou o grupo por não concordar com a postura da Sabesp de não reduzir de forma drástica a retirada de água.

Kachel afirma que a seca desse ano é muito pior do que a de 1953, usada até recentemente pelos técnicos como exemplo do cenário mais adverso a ser enfrentado. Para ele, mesmo que o governo do estado tivesse feito antes as obras que agora anuncia para compensar o Cantareira, isso amenizaria o problema, mas não reduziria a gravidade da questão.

"Nós estamos com vazão afluente no Cantareira da ordem de sete vezes menor do que a média. É um fenômeno hidrológico extremamente anormal."

Kachel diz que seria preciso reduzir a retirada da água do Cantareira dos atuais cerca de 15 a 16 metros cúbicos por segundo para 10 ou 12 metros por segundo, para chegar até novembro. "E rezar para chover em novembro porque agora não tem mais o que fazer. Eu não diria [que o cenário é] catastrófico porque o pessoal vai usando criatividade, vai achando saída, vai convivendo. Agora, é uma situação bastante desconfortável, bastante séria, bastante complicada."

O especialista afirma que, se mantidas a entrada e a retirada de água no sistema, a água do terceiro volume morto do Cantareira termina no início de setembro. Segundo o ex-funcionário da Sabesp, a redução da retirada para 12 metros por segundo implicaria na necessidade de implantação de um rodizio de cinco dias sem água.

Isso garantiria que o volume morto três duraria até pelo menos novembro. "Seria uma garantia para esperar que até novembro chova", afirmou.

Esgotamento no Alto Tietê

Além do Cantareira, o Sistema Alto Tietê também está no limite, segundo Kachel. O sistema é composto pelas represas Ponte Nova, Paraitinga, Biritiba, Jundiaí e Taiaçupeba. Maior do sistema, a Ponte Nova tem 27,98 milhões de metros cúbicos.

"Da Ponte Nova está se retirando entre 8 e 9 metros por segundo. Seria conveniente reduzir essa vazão produzida, da mesma forma que se está falando que é necessário fazer no Cantareira", diz ele.

Kachel afirma que, apesar da queda inédita no nível das represas, sempre vai haver vazão afluente, isso é, água brotando do subsolo e dos rios que contribuem para o reservatório.

"Não vai secar tudo completamente. Vamos ficar sem regularização", diz. Segundo ele, esse estoque mais longo seria possível se tivesse sido adotado desde o início da seca um controle mais efetivo da retirada da água.

No G1



Em plena crise hídrica, Sabesp ainda premia grandes consumidores

Lista obtida pelo El País contém clientes com contratos que incentivam consumo
Consulte a lista de 294 clientes de demanda firme da Sabesp
Alertas ignorados, seca e eleições: a receita ideal para o desastre hídrico

Avenida Paulista em São Paulo.
Há 500 grandes consumidores de água da Sabesp que pagam preços excepcionalmente bons. Eles têm um contrato que premia o consumo, quanto maior ele for, menor será o preço pago por litro de água. É a lógica contrária à aplicada ao restante dos usuários. Mimar os melhores clientes é uma estratégia comum no mundo empresarial, exceto pelo fato de que São Paulo atravessa a pior crise hídrica em 84 anos.

Nessa lista, com data de dezembro de 2014, há condomínios de luxo, bancos, hospitais, shoppings, igrejas, indústrias, supermercados, colégios, clubes de futebol, hotéis e entidades como a Bolsa de Valores de São Paulo, a concessionária da linha 4 do Metrô, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos ou a SPTrans.

Alguns clientes [consultar lista], como o shopping Eldorado, consomem por mês cerca de 20.000 m3, o mesmo que mais de 1.200 famílias de quatro membros juntas, considerando que cada indivíduo gasta 130 litros por dia. O shopping, que recebe 1,8 milhão de visitantes por mês, não é o maior consumidor, e há quem gasta até três vezes mais, como a fábrica de celulose Viscofan no Morumbi, a campeã de consumo na lista à qual teve acesso El País.

Mas o consumo mensal desses clientes premium pode ser ainda maior porque o levantamento, que foi enviado pela Sabesp à CPI que investiga os contratos da companhia com a Prefeitura, está incompleto. Na lista, que contempla 294 clientes que assinaram seus contratos a partir de junho de 2010, há poucas indústrias. Alvo principal desses contratos, o setor industrial responde por cerca de 40% do consumo de água no Estado, conforme os dados do Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE).

O atrativo dos contratos é que todos estes clientes pagam menos do que o valor de tabela aplicado para as atividades comerciais e industriais que desempenham. Para o shopping Eldorado, por exemplo, cada mil litros de água custam 6,27 reais, enquanto os clientes do setor comercial que não assinaram esse contrato pagam 13,97 reais. Um desconto de mais de 55%. Já a Viscofan se beneficia de um desconto de 75%, pois a tarifa aplicada é de 3,41 reais para cada mil litros, quando, caso não tivesse o contrato, deveria pagar 13,97 reais.

Entre os exemplos há o caso do Hotel Hilton, na avenida Nações Unidas, no distrito financeiro de São Paulo. O mega-hotel, que mantém aberto um spa e um centro fitness 24 horas por dia, além de uma piscina com vista panorâmica, consome por mês o mesmo que 751 famílias de classe média com quatro membros (11.722 m3/mês). O hotel paga 6,76 reais por cada metro cúbico, quando a tarifa comercial é de 13,97. Neste caso, o valor é menor, inclusive, do que o pago por uma família de quatro membros que paga a tarifa comum (7 reais/m3).

Dos três exemplos citados apenas o shopping respondeu aos questionamentos da reportagem. O empreendimento afirma que toma medidas compensatórias diante de seu alto consumo com o objetivo de reduzi-lo em 15%. O hotel Hilton não havia respondido até a publicação desta reportagem.

A lista secreta

Os contratos, que incluem grandes descontos no fornecimento de água e tratamento de esgoto, foram desenhados para fidelizar os que usam no mês pelo menos 500 metros cúbicos – ou 500.000 litros– o que equivale ao consumo médio mensal de 128 pessoas. Mas o objetivo da Sabesp com essa estratégia, implementada em 2002, não é só fidelizar. A companhia quer impedir que seus clientes comerciais e industriais optem pelo uso de poços privados, conforme afirma em seu último relatório enviado aos investidores.

Esta lista de clientes era secreta até agora, pois a Sabesp se negou a divulgá-la com o argumento de proteger suas relações comerciais e a privacidade de seus clientes. A companhia também não esclareceu as questões enviadas pela reportagem. A falta de transparência e a vigência dos acordos e suas condições provocam críticas dos especialistas, pois, à beira de um racionamento, a companhia manteria uma política de incentivo a alta de consumo.

“Nesta crise, deveriam valer para todos as mesmas tarifas e condições de uso da água, porque o acesso à água daqui pra frente não pode mais ser visto como um privilégio de quem têm dinheiro ou contrato específico”, afirma Carlos Thadeu, gerente técnico do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

O consumo médio destes 294 clientes representa 1,23% do total do município, segundo cálculos da Sabesp incluídos no documento enviado aos vereadores. O percentual poderia aumentar expressivamente se forem somados os 206 consumidores mais antigos que a companhia omitiu na lista, como as grandes indústrias.

O corregedor-geral da administração estadual, Gustavo Ungaro, determinou no fim de janeiro que a companhia de saneamento entregue em até 30 dias os contratos de demanda firme porque “não há como negar interesse coletivo" da informação, "quer por envolver a atuação de uma sociedade de economia mista quer por ter por objeto a administração de um bem público: a água.” Ungaro analisava recurso da Agência Pública, que em dezembro pediu duas vezes os dados à Sabesp por meio da Lei de Acesso à Informação, mas a empresa se negou a dá-los.

Medidas de contenção

Até março de 2014, o modelo dos contratos incentivava ainda mais o consumo. Até a data, ele poderia ser comparado ao de um pacote de telefonia e internet, em que o cliente paga um valor cheio por um volume (de dados ou de água) acordado previamente. Se usava menos água, portanto, pagava o mesmo valor, mas se ultrapassava a quantidade contratada pagava uma diferença.

Com o agravamento da crise hídrica, a Sabesp modificou essa obrigatoriedade de consumo mínimo, liberou os clientes para usarem fontes alternativas de água e os incluiu no programa de multas pelo aumento de consumo até os mananciais se recuperarem.

Com essa liberação, 70% dos clientes adotaram fontes alternativas e reduziram seu consumo com a companhia, segundo o documento enviado à Câmara. É por isso que na lista aparecem vários exemplos de empresas cujo consumo caiu abaixo dos 500m3 exigidos para assinar este tipo de contrato.

A companhia, porém, não inclui seus clientes fidelizados no Programa de Redução de Consumo – que premia com 30% de desconto quem economizar 20%. Assim, uma grande redução do consumo não significaria necessariamente um grande alívio na conta desses clientes.

No El País



Sabesp corta água em SP e não só reduz pressão, denunciam técnicos da empresa

A Sabesp tem feito cortes no abastecimento de água em São Paulo há pelo menos seis meses, denunciam dez funcionários da empresa ouvidos pelo iG. A companhia atribui a falta de água percebida pelos consumidores — "uma minoria", segundo a organização — à redução de pressão realizada para evitar vazamentos, e nega a existência de racionamento ou rodízio.

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que sua gestão optou por não "zerar o sistema", e argumentou ainda não ter se decidido sobre a implantação de um rozídio na região metropolitana de São Paulo. Segundo os funcionários ouvidos, no entanto, a região enfrenta um revezamento de água desde agosto de 2014.

Sem saber que falava com a reportagem, um funcionário da Sabesp confirmou que a operação se tratava de um fechamento, feito diariamente naquele horário. "Volta às quatro horas da madrugada."

Nesta semana, a reportagem acompanhou quatro operações técnicas em três locais diferentes da capital. E em duas delas, segundo os técnicos, houve bloqueio total do abastecimento de água, que só seria reativado horas depois — numa terceira, houve a reabertura após cerca de 12 horas de torneiras secas. Na última operação, o desligamento foi feito dentro de um reservatório por volta das 13h e ficaria assim até as 4h da madrugada.

A medida é típica de uma política de racionamento e acarreta numa suspensão total de abastecimento de água para diversos bairros, inclusive naqueles que ficam em regiões localizadas em um nível mais baixo do que o do próprio reservartório e que, em tese, não sofreriam desabastecimento, explica o técnico João (nome fictício). Os horários de corte, segundo outros funcionários, normalmente coincidem com a lista de redução de pressão divulgada pela companhia em seu site.

No vídeo, um outro funcionário alega ser falso atribuir a falta de água à redução de pressão. "O governo falou que está só reduzindo a pressão. Mas a senhora não fica sem água? Na hora que fica sem água é a hora que estamos fechando tudo", disse ele, reproduzindo o diálogo que manteve com uma moradora do bairro. "As pessoas já estão desconfiando do que fazemos aqui".



Um terceiro funcionário relata que a Sabesp faz uma espécie de rodízio, alternando o fornecimento de água entre os bairros por meio de abertura e fechamento de registros nas ruas. O mesmo ocorreria nos reservatórios, com fechamentos que atingem conjuntos de bairros.

"As VRPs [válvulas redutoras de pressão] são usadas para conter uma área específica. Então por que todos os setores apresentam falta de água? Eles estão fechando as saídas dos reservatórios", explicou o técnico Marcelo (nome fictício), que tem quase 20 anos de experiência na companhia.

Um quarto funcionário da Sabesp, também ouvido sem saber que falava com a reportagem, admitiu que as operações que têm sido realizadas deixam bairros inteiros sem água — e não apenas um ou outro imóvel.

"Não tem rodízio"

A Sabesp se negou a fornecer a lista de cortes — como os denunciados pelos funcionários — já realizados e que eventualmente venham a ocorrer. Até hoje, a companhia admite apenas ter intensificado o programa de redução de pressão nas tubulações, que resultaria em falta de água para "bem menos de 1%" da população, "formada em geral pelos que moram em pontos elevados e que não possuem caixa d'água."

"A Sabesp esclarece que não há rodízio ou racionamento em São Paulo. O que está em operação é redução de vazão para evitar perdas de água nas tubulações", informou, em nota. "A empresa ainda recomenda que os clientes tenham caixas d´água em seus respectivos imóveis, que possibilitem a reservação por um período mínimo de 24 horas, o que pode atenuar os efeitos da redução de pressão na tubulação."

Pesquisa Datafolha de outubro de 2014, entretanto, apontava que 60% da população paulistana tinha ficado sem água em algum momento nos 30 dias anteriores ao levantamento (em junho, a fatia era de 35%). "Às 11h já está faltando todo dia, há quase três meses", diz o segurança Wagner Silva, de 40 anos, após a filha mostrar a torneira seca na entrada da casa. "Volta só de manhã".

O intervalo é o mesmo apontado por José Carlos Silva, que mora algumas quadras à frente. "Desde setembro, por aí, começou a faltar água. Começou às 15h e agora está acabando mais cedo", diz.

O próprio governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse em 30 de janeiro que sua gestão havia decidido não fazer cortes de água e apostava na redução de pressão, medida responsável por 52% da economia de água do sistema Cantareira (o maior da região metropolitana) entre 2013 e a primeira quinzena de janeiro de 2015.

"Optamos pela válvula redutora de pressão porque com ela você não zera o sistema e, não zerando o sistema, diminui o risco de contaminação, porque você mantém o sistema sob pressão", disse o tucano na ocasião.

O objetivo principal das VPRs é diminuir as perdas com vazamentos, segundo um artigo escrito por funcionários da Sabesp e publicado em uma revista da companhia. Embora o equipamento acaba por diminuir a vazão consumida pelo cliente final, não é esse o intuito, segundo o estudo de um mestre em Engenharia Hidráulica pela USP.

"De fato, a redução de pressão nas redes irá afetar os pontos de consumo ligados diretamente à rede de distribuição, reduzindo as vazões consumidas. Não obstante, os pontos de consumo ligados a reservatórios (caixas d’água) não sofrerão qualquer impacto de redução de consumo (Farley & Trow, 2003)", diz o trabalho de Renato Gonçalves da Motta.

A Sabesp informa existirem cerca de 1.500 instaladas na Região Metropolitana de São Paulo.

Procurado, o governo do Estado preferiu não comentar.

Carolina Garcia | Vitor Sorano
No iG
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Piketty foi brilhante no Roda Viva

Vale a pena ver o vídeo do Roda Viva com ele



Thomas Piketti, com seu inglês divertidamente afrancesado, deu um show no Roda Viva.

Ele superou, graças a seu talento, conhecimento e clareza nas ideias, o obstáculo de um moderador reacionário e despreparado.

(Quem acredita que Augusto Nunes leu o livro de Piketty acredita em tudo.)

Piketty, em 90 minutos menos o demorado tempo gasto por alguns entrevistadores para formular as perguntas, disse coisas mais úteis do que você ouvirá em um ano dos economistas e jornalistas econômicos brasileiros.

Ele não apenas identificou o problema da desigualdade mas apontou caminhos para resolvê-lo.

A primeira coisa taxar mais os ricos.

No Brasil, por exemplo, a taxação das heranças gira em torno de 4% — um décimo do número inglês ou francês.

Piketty desmontou, no Roda Viva, uma falácia amplamente disseminada pela mídia: o da alta carga tributária brasileira.

Ele citou países ricos como os escandinavos. Neles, a carga é de cerca de 50% do PIB. Falou depois em países pobres como Romênia e Bulgária, nos quais os tributos somam apenas 20% da economia.

O Brasil está no meio desses dois blocos, com 35%.

Qual exemplo seguir?

Você pode dizer que o cidadão, na Escandinávia, sabe onde vai parar o dinheiro de seu imposto — em escolas e hospitais públicos de alto nível, em estradas, portos e aeroportos de ponta etc etc.

No Brasil, a imprensa alimentou — em interesse próprio — que o dinheiro dos impostos termina nas mãos de políticos corruptos.

É um desserviço monstruoso à sociedade.

Piketty tem uma recomendação para isso: transparência. A sociedade tem que saber quanto é arrecadado em tributos, quem paga quanto, e onde o dinheiro é aplicado.

No Brasil, reina uma sombra espessa em torno da Receita.

Há mais de um ano sabe-se que a Globo cometeu um crime de sonegação, mas jamais a sociedade recebeu uma satisfação da Receita ou de alguma autoridade econômica.

Soube-se, há poucas semanas, que o Bradesco usou um paraíso fiscal para evitar imposto.

Que ação tomou a Receita? Ninguém sabe. O que todos sabemos é que o presidente do Bradesco foi convidado a ser o ministro da Economia. Ele recusou, e então o convite foi feito a um diretor do banco, Levy, que aceitou.

Não poderia haver mensagem pior, no capítulos dos impostos, para o cidadão comum.

Que governos conservadores protegessem os mais ricos, entende-se. Mas que em doze anos o PT não tenha feito nada para corrigir as distorções no sistema fiscal brasileiro é uma aberração.

Piketty, no Roda Viva, tratou de um outro ponto que explica em boa parte a desigualdade mundial: a falta de “proporção” na recompensa de inovadores.

Neste assunto, ele varreu elegantemente a defesa deslumbrada dos inovadores feita pelo economista André Lara Resende.

Piketty citou Bill Gates. Faz sentido ele haver acumulado um patrimônio de 60 bilhões de dólares por causa do Windows?

É o PIB de muitos países, notou ele. Qual o limite?

O que Piketty ponderou é que, se tivessem dito a Bill Gates quando jovem que ele acumularia uma riqueza de 1 bilhão de dólares, teria sido o suficiente para estimulá-lo a fazer o que viria a ser a Microsoft.

Ou seja: a inovação não depende de oferecer dinheiro em proporções colossais aos “criadores”.

Da mesma forma, ele disse que estudou o desempenho de empresas americanas cujos presidentes ganham vários milhões de dólares por ano.

A remuneração multimilionária de seus executivos, notou Piketty, não garante desempenho melhor.

Você tem que pagar bem os executivos. Mas isso não quer dizer que tenha que pagar um absurdo.

Piketty ajuda você a entender melhor o mundo. Por isso virou o fenômeno que é.

Paulo Nogueira
No DCM



Piketty conheceu o Roda Viva e de sobra o André Lara Resende


Ex-presidente do BNDES foi um dos entrevistadores do francês que defende a taxação de heranças e fortunas; nas redes sociais não faltaram críticas à “arrogância” do brasileiro

O economista francês Thomas Piketty, autor de “O Capital do Século XXI”, foi o entrevistado do programa Roda Viva, desta segunda-feira (9). Na ocasião, Piketty falou de suas teses, entre elas a defesa da taxação de grandes fortunas. Para ele, as classes mais baixas devem pagar menos impostos e quantias recebidas por meio de heranças, por exemplo, devem ser muito mais taxadas.

Nas redes, porém, a atuação do também economista André Lara Resende, que estava na bancada do programa, foi bastante comentada. “Eu nunca tinha visto o André Lara Resende — só conhecia o respeito que se tinha por ele em certos círculos de economistas neoclássicos. Na entrevista com o Piketty, no entanto, ele se mostrou um liberal arrogante, dogmático e muito pouco razoável. Não é por ser liberal — ele foi grosseiro e muito pouco sofisticado para alguém com a sua reputação”, disse Pablo Ortellado, professor doutor de Gestão de Políticas Públicas e orientador no programa de pós-graduação em Estudos Culturais da Universidade de São Paulo.

O também professor da USP Wagner Iglecias concordou: “Portou-se como se fosse ele o entrevistado, de tanto que falou. Perguntas longuíssimas, o que configura um desrespeito ao entrevistado”.

Já o internauta Sidney Martucci observou que “talvez a nota dissonante da entrevista tenha sido os apartes do economista André Lara Resende, principalmente em cima da fala do Piketty e sempre em contraponto à tese de que a ínfima parte dos milionários que concentra essa riqueza, não tem nenhuma obrigação social em ser obrigado a pagar uma taxação maior para que a divisão de renda seja mais equitativa. Porém esqueceu-se o André de que são exatamente esses ricos que mais se aproveitam das benesses do Estado, em subsídios, empréstimos via BNDES”.

“Os argumentos do André Lara são muito frágeis e pra falar a verdade ele estava lá muito mais para cutucar o Piketty com sua arrogância liberal”, disse outro internauta, Alexandre Marques.

Resende participou da elaboração do Plano Real, foi ex-presidente do BNDES no governo FHC, e foi demitido na ocasião do escândalo dos grampos da telefonia. Foi também sócio de Mendonça de Barros no banco Matrix, onde teria se tornado multimilionário. Entre seus hobbies está correr de Porsche. No ano passado, participou da campanha de Marina Silva à Presidência da República.

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Veneza Paulista privatiza rio e oferece alívio à crise hídrica


Enquanto a capital paulista enfrenta rodízio e falta d’água, condomínio no interior desvia curso de rio para criar clima veneziano. Moradores passeiam entre as casas de pedalinho.

Você anda chateado com a perspectiva de viver o tal do rodízio de cinco dias a seco para apenas dois com água? Anda procurando, sôfrego, tutoriais no Youtube sobre como construir sua cisterna caseira? Na geladeira da sua casa, ao lado dos tradicionais ímãs com os telefones da pizzaria, da lavanderia e do petshop, agora já tem um de caminhão-pipa? Seus dias de angústia acabaram!

Bem pertinho, a 70 km de São Paulo, você poderá se tornar o feliz proprietário de uma casa com água à vontade  —  água até dizer chega. Na verdade, trata-se de um rio inteiro, desviado de seu curso normal só para o bem-estar e lazer dos moradores. E tudo com a segurança de um condomínio fechado, vigiado 24 horas por dia por câmeras de monitoramento.

Cenas bucólicas da Veneza Paulista. Pedalinhos e pontes marcam o cenário das ilhas artificiais.
Trata-se do Condomínio Ribeirão do Vale, situado em Bom Jesus dos Perdões, na beira da rodovia Dom Pedro I. Ali, 100 casas, 95% das quais equipadas com piscinas, desfrutam o privilégio de ter um rio de águas límpidas passando pelo quintal. Moradores usam pedalinhos — sim, pedalinhos!  —  para visitar os vizinhos. Pontes românticas ligam os quarteirões ilhados.

Que lindo!

E pensar que, enquanto uns se viram com pedalinhos, piscinas e um rio para chamar de seu, quase no centro de São Paulo milhares de pessoas se veem completamente à mercê dos caprichos da Sabesp, ligando e desligando a água quando lhe dá na telha.

Contraste hídrico entre a Veneza Paulista e a Favela da Vila Mariana.
 Fotos: Sintaema (acima) e Hélio Mello/ Projeto Xingu (abaixo).
O repórter e fotógrafo Hélio Carlos Mello, do Projeto Xingu e do Conta D’Água, testemunhou, por exemplo, o que acontece com a favela da rua Doutor Mario Cardim, na Vila Mariana. As quinhentas famílias e mais de 2.000 moradores empilhados em barracos tentando preservar alguma dignidade diante das precárias condições de saneamento e superpovoamento do local…

Noventa por cento das casas não têm caixa d’água e, portanto, quando a torneira fica seca é a vida que seca.

Quem ali tem dinheiro para comprar água mineral ou contratar caminhão-pipa a R$ 1.200 a carga de 15.000 litros?

A ironia cruel é que também a favela da Vila Mariana convive diariamente com um rio, no caso o córrego do Sapateiro, que foi aterrado e passa bem embaixo do chão. Em alguns barracos ainda dá para ouvir o som da água subterrânea correndo. Mas fica nisso.

Moradora da Favela na Vila Mariana aguarda chegada da água da Sabesp.
Foto: Hélio Mello / Projeto Xingu
Diariamente, os moradores da favela Mario Cardim se apressam em fazer as atividades domésticas de lavar roupas e panelas, ao mesmo tempo em que põem a comida no fogo. Tudo muito rápido, antes que a torneira seque novamente.

Mas não pensemos nisso. E voltemos rapidamente para o Condomínio Ribeirão do Vale, injustamente apelidado de Veneza Paulista. É injusto porque o condomínio tem vantagens notáveis sobre o original vêneto/italiano. Por exemplo, moradores da versão brasileira podem pescar em seus quintais peixes nativos, como tilápias, pacus, curimbatás, bagres. Também se encontram ali espécies alienígenas, como os matrinxãs, que foram trazidos da bacia amazônica especialmente para o local.

Veneza perde!

Os repórteres da Conta D’Água visitaram o condomínio para ver como funciona esse paraíso. Entraram na área privada a pretexto de comprar um imóvel. Havia dois, anunciados pela internet.

Calma e pescaria na Veneza Paulista. Seu Luís
Foto: Mídia NINJA
Logo no primeiro, depararam-se com o morador na casa vizinha, senhor Luís, que explicou: o condomínio mantém três moinhos em funcionamento permanente a fim de oxigenar a água e manter os peixes saudáveis por mais tempo.

Pescador sortudo, ele se vangloriava da peixada de curimbatá na brasa que fizera na véspera. “Aqui é um oásis no meio da seca”.

O oásis, no caso, custa caro: R$ 330.000, que é o preço de um imóvel assim anunciado: “4 dormitórios, 3 wc, sala, cozinha, varanda com churrasqueira, piscina, rio com pedalinho”.

A ducha de água fria, contudo, o próprio corretor encarregou-se de jogar nos ansiosos compradores que éramos nós. É que as casas do local não têm escritura definitiva. Mas apenas uma tal “escritura de direitos possessórios”. Ou seja, R$ 330.000 a menos no bolso, o comprador será apenas um “posseiro”, sem direito a registro definitivo do imóvel.

Mas, o corretor avisa, “não tem perigo, não”. “O próprio ex-prefeito de Bom Jesus dos Perdões, Calé Riginik, do PSDB, é o morador até hoje da casa 10 do condomínio. Você acha que o ex-prefeito compraria um imóvel aqui se houvesse o mínimo risco de perdê-lo?” Imagine o leitor se em vez do prefeito e de gente como nós, fingindo ter R$ 330.000, “cash”, se não haveria risco de uma violenta “ação de reintegração de posse”, como aconteceu no tristemente famoso caso Pinheirinho.

Em uma entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo” realizada em 2010, o então secretário de obras de Bom Jesus dos Perdões, Gerson Coli, admitiu que o condomínio foi instalado sobre o leito do ribeirão Cachoeirinha, “sem licenças dos órgãos devidos (como a Cetesb)”.

No dia 4 de novembro de 2011, entretanto, veio a redenção diretamente do Departamento de Águas e Energia Elétrica da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Governo do Estado de São Paulo, sendo governador o tucano Geraldo Alckmin (PSDB).

“Fica a Sociedade de Amigos Marinas do Atibaia autorizada a utilizar recursos hídricos no Condomínio Ribeirão do Vale, para fins de lazer e paisagismo”. O despacho informa ainda que a água do ribeirão da Cachoeirinha pode ser captada à razão de 97,42 m³/hora, durante as 24 horas do dia, todos os dias e meses do ano.

Dá um total de 97.420 litros captados por hora. Ou 2.338.080 litros por dia. Ou 70 milhões de litros por mês. Ou 840 milhões de litros por ano.

Faça chuva ou faça sol, a água do Ribeirão da Cachoeirinha, água limpa que vem do alto da serra, será desviada por entre os canais artificiais que atravessam o condomínio, para só então ser lançada no Rio Atibaia, que abastece 95% de Campinas (SP), e precisa ser frequentemente socorrido por água do Sistema Cantareira (esse falido), já que se encontra em níveis críticos.

As palavras “crise” e “falência” estabeleceram nos dias atuais uma terrível parceria com as palavras rio, represa, abastecimento e sistema hídrico. E pensar que a palavra “Atibaia”, que dá nome ao rio que recebe as águas do condomínio, veio do tupi, significando rio manso, de águas tranquilas, abundantes, agradáveis ao paladar, “manancial de água saudável”.

É triste.

Em volta da tal Veneza Paulista, nas beiras dos rios, mais da metade da mata nativa já foi convertida em plantações de Eucalyptos urophylla, destinadas à produção de lenha e carvão, fonte energética para alimentar os fornos das pizzarias e padarias da Região Metropolitana de São Paulo.

O resultado dessa devastação toda, que acaba em pizza, tem sido a redução espetacular e veloz do total de chuvas na região. Em apenas vinte anos (de 1985 a 2005), o total de precipitações pluviométricas ali caiu de 1.800 mm por ano para uma média de 1.200 mm por ano.

Quando tudo acabar, entretanto, se comprarmos nosso chalé no condomínio, poderemos dizer, como num filme: “Nós sempre teremos Veneza…”

Mas cadê a graça de viver assim?


Laura Capriglione, da Ponte com fotos de Mídia NINJA
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