8 de fev de 2015

Lula, Dilma e o golpismo midiático


Os discursos de Dilma e Lula na festa de aniversário de 35 anos do PT, na sexta-feira (6) em Belo Horizonte (MG), continuam rendendo reações histéricas dos “calunistas” da mídia privada. Merval Pereira (o “imortal” da Globo), Eliane Cantanhêde (a “massa cheirosa” que trocou a Folha pelo Estadão), Reinaldo Azevedo (o “criador de galinhas” da Veja) e muitos outros ficaram irritados com as críticas da presidenta e do ex-presidente. Afirmam que os pronunciamentos visaram “censurar” a coitadinha da imprensa, já tão perseguida no Brasil! A reação irada destes colunistas, que chamam o patrão de companheiro e mantêm intimas relações com o tucanato, mostra que Dilma e Lula acertaram no tom ao denunciar as manipulações da mídia. Não dá mais para aceitar calado tantas mentiras, intrigas e distorções do famoso “partido da imprensa golpista (PIG)”.

Durante o evento, Dilma evitou explicitar suas críticas à mídia monopolista, mas alfinetou nas entrelinhas ao conclamar a militância. “Devemos enfrentar o desconhecimento e a desinformação sempre e permanentemente, sem tréguas. É preciso reagir aos boatos e travar a batalha da comunicação”. Ela ainda rechaçou os oportunistas que tentam se utilizar da crise na Petrobras para atacar o governo e destruir a estatal. “Fomos nós que criamos as condições para que hoje se apurem as todas as denúncias de corrupção... A Petrobras é a empresa mais estratégica para o país, a que mais contrata e a que mais investe no Brasil. Vamos acreditar na mais brasileira das empresas do país. Ela só será realmente grande se for cada vez mais brasileira”. Ao final, ela mandou um recado para os golpistas de plantão. “Diante da crise, sempre tivemos força para reagir. Os que estão inconformados com o resultado das urnas têm medo da participação popular, têm medo da democracia. Mas temos força para resistir ao golpismo e ao retrocesso”.

Já o ex-presidente Lula não fugiu da polêmica e foi bem mais incisivo nas críticas. “O critério da mídia é a criminalização do PT desde que chegamos ao poder. Não importa se é verdade ou mentira”, disparou. Para ele, o objetivo desta ofensiva denuncista é sangrar o governo e, se possível, até derrubá-lo. “Não é fácil um partido de esquerda governar um país importante como o Brasil. Eles não querem nem deixar concluir o mandato da Dilma, tentando criar todo e qualquer processo de desconfiança”. O líder petista ainda lembrou as sujeiras da última eleição — “aquela em que os nossos adversários utilizaram as piores armas para tentar nos derrotar. Tentaram fraudar a vontade política da maioria, usando todos os seus recursos de comunicação para manipular, distorcer, falsear e até inventar episódios contra nosso partido, nosso governo e nossa candidata”.

Cantanhêde, Merval e... Reinaldo

Sem qualquer freio — talvez porque não tenha mais nada a perder e tema a hipótese da campanha de Lula em 2018 —, a mídia reagiu com fúria ao evento. Eliane Cantanhêde, que parece até mais irritadiça após o ingresso no falido Estadão, tentou desqualificar a solenidade. “Que festa?! Dificilmente haveria momento pior para encontros do gênero e para comemorar os 35 anos do partido... O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, acaba de sofrer uma ‘condução coercitiva’, algo ali entre depor espontaneamente e ser preso, pura e simplesmente. Em bom português, ele foi arrastado para depor. Não bastasse, o ex-gerente executivo da Petrobrás Pedro Barusco revelou que o PT recebeu até US$ 200 milhões de propina. Espantoso. Para completar, o novo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, acatou o pedido de abertura de uma nova CPI da Petrobrás”.

Já o “imortal” Merval Pereira, que será imortalizado pelas previsões furadas que obra em O Globo, não gostou da festa antes mesmo dela ocorrer. “Os 35 anos de criação do PT serão festejados em Belo Horizonte num momento em que o partido chega ao fundo do poço em termos de credibilidade. Claro que Vacari e outros companheiros serão ovacionados, e provavelmente exortados pelo ex-presidente Lula a não baixarem a cabeça e não se envergonharem da atuação do partido. Mas nada apagará o fato de que o PT perdeu o controle do Congresso, perdeu o controle da economia e está perdendo o controle da maior estatal brasileira, a Petrobras”, postou. Depois da festa, ele voltou a exercitar sua obsessão doentia. “Quando o ex-presidente Lula, como um Jim Jones aloprado, leva ao suicídio político seus seguidores repetindo na festa dos 35 anos do PT o mesmo discurso da festa dos 25 anos, em que o mensalão estava em evidência, vemos que o partido não saiu do lugar onde sempre esteve”.

Por último, Reinaldo Azevedo... Não é o caso de estragar o domingo com as opiniões do “pitbull” da Veja. Ele sempre repete as mesmas coisas. Ele não escreve, late — com todo o respeito aos cãezinhos! E ainda tem gente que acredita que a mídia é imparcial e neutra. E que a crítica ao golpismo midiático é pura visão conspirativa! Haja inocentes neste mundo.

Altamiro Borges
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Bandeira de Mello: Parecer contra Dilma é uma armadilha para desestabilizar o governo


Em artigo publicado na Folha de S. Paulo  de 3 de fevereiro, o  jurista Ives Gandra Martins diz haver fundamentos para o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) por causa dos escândalos na Petrobras. Gandra foi contratado pelo advogado José de Oliveira Costa para fazer um parecer sobre o tema.

No dia seguinte, 4 de fevereiro, reportagem de Mário César Carvalho na mesma Folha revela a origem. Costa trabalha para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e integra o conselho do Instituto FHC. É o golpismo do tucanato em andamento.

Pedi então a um dos mais respeitados juristas brasileiros, o professor Celso Antônio Bandeira de Mello, da PUC-São Paulo, que opinasse sobre a opinião de Ives Gandra.

Ele não quis comentar o conteúdo do parecer e alertou: “É uma armadilha. É uma tentativa de fazer com que juristas discutam esse tema. E não há nada que ser discutido. Para ser sincero,é um disparate, um absurdo completo”.

“A meu ver, é aquilo que no futebol se chama de tentativa de ganhar no tapetão. Nada mais do que isso”, previne.

“Eles [os tucanos] perderam a eleição e não gostaram. Agora estão tentando transformar isso em tema jurídico para desestabilizar o governo da Dilma”, explica.

“Eles querem que o assunto vire tema jurídico. E não é. É uma questão política”, frisa.

– É um artimanha para manter o tema na ordem do dia?

“Exato. Eles querem transformar o impeachment em tema para debate. E isso não é tema para debate algum”, ressalta Bandeira de Mello. “A Dilma ganhou lisamente a eleição. Eles fizeram de tudo para derrotá-la, não conseguiram. Agora, querem ganhar no tapetão o que perderam no campo.”

Conceição Lemes
No Viomundo
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O golpismo e a última pesquisa Datafolha


O impeachment é um processo que qualquer deputado pode pedir à Mesa da Câmara baseado em parecer jurídico? Sim. Porém, como o próprio Ives Gandra Martins reconheceu no parecer que fez sob encomenda de um dos diretores do Instituto FHC, publicado na Folha de S.Paulo e responsável por levar o tema novamente para o fogo alto, a conclusão é sempre muito mais política do que jurídica.

E é com essa perspectiva que todo um cenário favorável ao pedido da derrubada de Dilma se articula através de um golpe travestido de impeachment. É um golpe dado no tapetão. Se depois absolvido, como foi Collor, daí paciência. O objetivo terá sido alcançado.

Como se cria esse cenário, quem é o principal estimulador e proprietário do tapete? É complexo, mas o maior responsável é aquilo que se chama “grande mídia”.

Uma pesquisa divulgada neste domingo, revelou o estrago que a forma de informar praticada por esses oligopólios faz na cabeça do cidadão comum.

Segundo a pesquisa, 81% dos entrevistados acredita que a inflação irá subir. De onde vem essa percepção profética e catastrofista? Todo mundo agora é versado em economia e futurologia? Não. Quem fomenta esse clima de pessimismo é a grande mídia. A campanha alarmista da subida de taxas, tarifas e impostos é intensa, porém nem sempre verdadeira e completa.

O IPTU não iria subir para todos em São Paulo (só para uma minoria privilegiada ao passo que para outros haveria até redução) mas isso nunca era informado nos telejornais. Criar pânico é uma forma de terrorismo executado à perfeição por esses veículos. Vide os Datenas da vida e suas bem sucedidas carreiras.

Martelar o tema corrupção exaustivamente associando-o exclusivamente a um único partido e à estatal fazendo com que o problema seja visto, ao lado da saúde, como o que mais preocupa os brasileiros e que quase a metade (47%) das pessoas avaliem Dilma como “desonesta” sem haver ainda nenhuma prova de que ela seja mentora ou mesmo beneficiária é resultado dessa maquinação.

Não estou defendendo Dilma, o PT, ou alegando inocência total no caso. Há fortes indícios de que os desvios se confirmem. Mas a disparidade de tratamento é absurda e visivelmente manipuladora. A “formadora de opinião do brasileiro médio” tem veiculado obsessivamente apenas o que atinge a presidente. Nada se vê ou ouve acerca da Alstom, do cartel do metrô paulista, da irresponsabilidade na Sabesp. Neste último exemplo, a massa foi levada a acreditar que a culpa é da falta de chuvas.

Por tratar-se de um recurso natural e vital para a sobrevivência, penso que a maneira como governo do estado de São Paulo e a Sabesp trataram a questão da água deveria ser considerada crime contra a humanidade. Isso é muito mais sério e de consequências muito mais graves do que ficar noticiando que o dólar subiu, a bolsa de valores caiu, as ações X desvalorizaram. Quem tem esses investimentos? Que implicação isso tem na vida da imensa maioria? Nenhuma, só aduba o solo propiciamente ao que se quer plantar.

Ainda segundo a pesquisa, 60% dos paulistas concordam com a implantação do rodízio no abastecimento de água. Mas antes do povo acatar bovinamente e se submeter a mais um sacrifício, foi informado qual o percentual de água potável é destinada ao consumo direto e quanto é direcionada para o agronegócio, a indústria e a mineração? Ou preparou-se um terreno de modo a não causar uma revolta popular contra quem é do time da mídia?

Dirão que exagero, mas a chamada grande mídia exerce hoje um papel idêntico àquele que a igreja católica teve durante o fascismo na Italia. Deseja manter tudo como está de modo a ser a reconhecida como “religião única” e ganhar seu “estado” em forma de concessões.

Ela sente-se ameaçada pela possibilidade de uma regulação que irá minar sua força e por isso hoje articula a saída da atual governante. Ninguém quer perder o que já tem e é isso que é explorado através dessa prática. O povo sentir-se sob ameaça facilita que personagens como Mussolini se sobressaiam e ganhem voz.

Será portanto abastecido desse tipo de desinformação que muito provavelmente milhares de pessoas tomem as ruas no próximo dia 15 de março para pedir o impeachment de Dilma Roussef. A dúvida que fica é se querem entregar o posto a Michel Temer ou se nem pensaram sobre isso.

Mauro Donato
No DCM
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Dilma, Alckmin e Haddad: o fundo do poço é logo ali

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2015/02/08/dilma-alckmin-e-haddad-o-fundo-poco-e-logo-ali/

junho brasilia 

Há uma regra em política que não falha. Quando a população por um motivo ou outro acha que o país não vai bem, todos os políticos perdem. Quando tudo parece ir bem, mesmo os mais desastrados ganham.

Em 2008, o governo Lula ia de vento em popa e mesmo prefeitos muito mal avaliados se reelegeram, como João Henrique, de Salvador. E Kassab que não era assim nenhuma Brastemp deu um baile em Marta Suplicy em São Paulo.

Por isso, se Dilma vier a ser soterrada por conta da Operação Lava Jato, os governantes municipais, independentes de que partido político estejam, tendem a perder popularidade. E também a disputa da reeleição.

Esse é um dado que explode na pesquisa do Datafolha divulgada ontem.

E para a deteriorização do ambiente político contribuem não só as denúncias de corrupção na Petrobras, mas também os sinais de crise econômica, a crise hídrica que atinge principalmente São Paulo, o aumento da conta de luz e da gasolina e também a roubalheira no Metrô e as dificuldades de mobilidade nas grandes cidades.

Todos os governantes pagam o pato de tudo, mesmo que algumas coisas não sejam exatamente da sua responsabilidade. Mas os prefeitos, em especial os das maiores cidades, serão os principais prejudicados.

Alckmin só disputa nova eleição daqui a três anos e meio. Outros governadores, senadores, deputados, senadores e Dilma idem. Já os prefeitos terão que começar a pedir votos daqui a um ano.

Entre esses, Fernando Haddad, que viu sua popularidade voltar ao dedão do pé na pesquisa Datafolha. Hoje Haddad perderia a eleição até para Tiririca num segundo turno mesmo fazendo um governo não só bom, com também bastante moderno e muito melhor do que a média da histórica de São Paulo.

Esse é um dado dessa pesquisa. Outro, sob o qual me deterei num próximo post, é a possibilidade de um retorno das ruas no pós-carnaval, principalmente em São Paulo, onde a crise ainda mais brava da falta de água pode ser a gota de indignação que falta para isso.

Aí o bicho pode pegar. As ruas, como se viu em 2013, não são controláveis com gogó e papo furado. E não vai adiantar as pessoas ficarem chamando uns de coxinhas e outros de golpistas.

Antes que isso aconteça é preciso fazer algo. É urgentíssimo abrir uma nova agenda que aponte um caminho diferente para o país. O atual, como se costuma dizer no interior, é bananeira que já deu cacho.

O cenário que se anuncia não é algo corriqueiro. Vai ser muito mais difícil do que parece lidar com ele.
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Pesquisa Datafolha – O buraco é mais embaixo


Sei que a oposição e o conservadorismo da sociedade brasileira vão festejar a última pesquisa Datafolha como uma vitória política e, consequentemente, uma derrota do governo central, no caso, governo Dilma. Mas, mesmo sem ter tido acesso a todas as variáveis da pesquisa, com suas amostragens e resultados detalhados, posso afirmar — lendo apenas aquilo que foi publicado na tarde de sábado — que “o buraco é mais embaixo”.

A pesquisa mostra uma deterioração do ambiente político brasileiro em que o governo Dilma, por ser o poder central, é quem mais drena o descontentamento popular. Não estou aqui ignorando os ataques sofridos pelo governo na conjuntura, nem tampouco a ofensiva conservadora contra o PT totalmente desproporcional, se considerarmos a cobertura das denúncias de corrupção envolvendo a Petrobras, comparado com outras denúncias do momento, como a do Metrô de São Paulo, ou mesmo de outros partidos investigados na operação Lava Jato.

Os ataques ao PT também atingem o governo Dilma. Esses aspectos, que são específicos, e que podem gerar uma “volátil alegria para a oposição”, interferem na conjuntura, mas o que quero tratar aqui é de um problema estrutural, facilmente lido na pesquisa divulgada neste final de semana: a crise das instituições brasileiras.

As denúncias de corrupção (mesmo sendo combatidas pelas instituições do Estado brasileiro, no caso da Petrobras, pelos organismos federais), a crise hídrica, que atinge prioritariamente o governo paulista e os demais aspectos conjunturais, principalmente os reflexos da crise econômica internacional na economia brasileira, trazem mais uma vez para a superfície o sentimento de mudança que foi materializado em junho de 2013, que expressa um problema estrutural, de crise de representatividade das instituições brasileiras.

Não estou afirmando aqui que a história vai se repetir, que teremos manifestações idênticas, mas existe na sociedade um anseio para uma nova agenda para a política brasileira que alimenta “uma vontade de mudar” que atinge todos aqueles que estão exercendo tarefas de governo, seja no plano federal, estadual ou municipal, e mesmo a legitimidade das instituições do Estado.

Neste caso, não há o que comemorar e não há vitoriosos — nem situação e nem oposição, nem Executivo, nem Legislativo e nem Judiciário. Quando o “monstro emerge da lagoa”, todos perdem. O sentimento de mudança sem agenda propositiva abre espaço para as aventuras, para os oportunistas “salvadores da pátria”. Geralmente aponta para saídas conservadoras que colocam em “xeque” as instituições de Estado e a democracia.

Mais do que nunca é a hora para a construção de uma agenda que busque a reforma das instituições aproximando o Estado da sociedade civil. É urgente uma verdadeira reforma política. É necessário que o poder seja compartilhado cotidianamente com a sociedade civil, aumentando a transparência e o controle popular sobre as esferas de governo; é hora de uma nova governança.

É urgente a construção de consensos dos entes federados para uma reforma tributária, desonerando os setores mais fragilizados da sociedade, os assalariados. Precisamos democratizar e popularizar os instrumentos para a comunicação, que tornou-se a “grande arma” da sociedade civil nesse início de século XXI.

É urgente um novo pacto federativo que aprimore a qualidade da prestação de serviços. É necessário que se entenda que o Legislativo tem que se aproximar ao máximo da sociedade, acabando com o fosso entre representantes e representados. O Judiciário é um poder a serviço da sociedade e tem que estar submetido ao controle social tanto quanto as demais instâncias do Estado.

Se as forças democráticas do Brasil não entenderem o sentimento de mudança que está em gestação no atual “silêncio da sociedade brasileira”, podemos ser surpreendidos com engodos que significarão golpes contra a jovem democracia brasileira. Diante desse diagnóstico, cabe ao PT, maior partido do Brasil (mesmo sendo o que mais perdeu na conjuntura, mas também o que tem maior organicidade social), investir na construção de uma agenda de mudanças, sabendo que a Presidenta Dilma já se comprometeu e tem tido iniciativas para com essas mudanças.

Cabe também ao Partido dos Trabalhadores saber construir consensos que mobilizem as forças democráticas em um movimento de construção de transformações na estrutura do Estado brasileiro que levem a uma nova cultura política.

Edinho Silva, deputado estadual pelo PT em São Paulo, membro da direção nacional do PT e foi prefeito de Araraquara de 2000 a 2008
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Dilma “missing in action”, enquanto Lula ignora autocrítica


Dilma atinge a mais baixa avaliação desde Fernando Henrique Cardoso em dezembro de 1999, noticia a Folha. Obviamente o jornal não lembrou que, então, a inflação estava perto dos 8% e a taxa de desemprego perto dos 9% — atingindo mais de 25% para jovens de 18 a 20 anos de idade em áreas urbanas.

O repórter do jornal diz que vivemos “a mais rápida e profunda deterioração política desde o governo Collor”. Parece wishful thinking do Otavinho, quem sabe sonhando com um novo impeachment.

Assim: a Folha noticia incessantemente que o Brasil vai acabar, propõe o arrocho que empurra o país no rumo de uma crise de emprego, manda medir os impactos do seu noticiário — e da mídia corporativa em geral — sobre a opinião pública e usa as expectativas que ajudou a produzir para dizer que a crise vai se aprofundar (noticia, por exemplo, que 80% acreditam na alta da inflação).

O aumento de 20 pontos no índice de “ruim/péssimo” de Dilma, em nossa opinião, não pode ser creditado apenas à Operação Lava Jato. Dilma fez justamente a pirueta pregada pelos editorialistas do Otavinho: elegeu-se com uma plataforma progressista, mas abraçou de cara a austeridade, para não falar no Kassab e na Kátia Abreu.

Para se preservar, a presidente optou por compor um ministério que a ajude a se defender num Congresso que em breve será desmoralizado pelos desdobramentos da Lava Jato.

Do ponto-de-vista da comunicação, a presidente está missing in action. Ou, como também diriam os gringos, deu AWOL, ausente sem ter tirado folga. É um verdadeiro desastre ferroviário. No evento dos 35 anos do PT, que acompanhei pela internet, quando Dilma começou a falar perdi completamente o interesse. Era a gerentona, aparentemente alheia ao entorno.

Por conta da Operação Lava Jato, o Partido dos Trabalhadores enfrenta sua maior crise. Crise política se enfrenta fazendo política, com debate e informação. Dilma não fez uma coisa, nem outra. Parece acreditar que, mais uma vez, basta gerenciar os números, o que os dados da pesquisa da Folha demonstram que não basta, já que a taxa de desemprego é inferior a 5%.

O ex-presidente Lula, por sua vez, fez um discurso coerente e apontando caminhos. No entanto, não fez qualquer autocrítica.

Falou das instâncias burocratizadas do PT como se não tivesse responsabilidade na condução do partido. Reclamou que militantes pedem emprego e não carregam mais as faixas do partido de graça. Será que ele espera que os militantes trabalhem de graça enquanto assistem à ascensão dos beneficiados por cargos no governo e na própria máquina partidária? De que adianta militar se o dedaço de Lula é hoje a principal instância partidária do PT? Como atrair jovens se o PT usa a militância em véspera de eleição e depois descarta suas opiniões, como acaba de acontecer? São perguntas pertinentes, que ficaram sem resposta no aniversário de 35 anos do PT.

O mais doloroso foi ouvir Lula justificando todas as medidas de Dilma porque “tem de ser”, como se não fossem passíveis de discussão, conferindo à presidente o dom da infalibilidade. Numa sociedade em que os jovens querem cada vez mais participar das decisões sobre o mundo que os cerca, certamente não é o jeito de atraí-los para a vida partidária.

Numa recente viagem a Brasília, testemunhei mais uma vez uma cena extraordinária. Fui ao lado de uma família de agricultores do interior de Sergipe, de um vilarejo próximo a Lagarto, que andava pela primeira vez de avião. A mãe, felicíssima, me contou que a filha de 16 anos de idade, muito estudiosa, deverá ser a primeira da família a ingressar na universidade. Se tudo der certo, vai estudar engenharia em Aracaju. Fiquei matutando sobre a transformação pela qual o Brasil passou nos últimos 12 anos, sem dúvida a responsável pelos quatro mandatos seguidos obtidos pelo PT. No mesmo vôo, no entanto, um jovem de classe média carregava a revista Veja com os U$ 200 milhões que supostamente abasteceram o caixa do PT no esquema de corrupção na Petrobras.

Duas versões completamente distintas do Brasil, em duas fileiras de avião.

O jovem da Veja dizia que o PT vai virar fumaça assim que surgir uma prova concreta de que embolsou o dinheiro. A versão dele é a dominante na opinião pública.

Neste quadro, é incompreensível o “sumiço” da presidente.

A única explicação razoável é que ela já sabe que o aparecimento daquela prova é apenas uma questão de tempo.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Urgente, falta uma ponte entre o apelo e a rua

Se o PT, a esquerda em geral, os movimentos sociais e o campo progressista não se entenderem a tempo de definir uma agenda comum o juiz Moro o fará por eles.

Soa angustiante a dissociação entre o gesto  e o seu efeito.

Entre o apelo e o desdobramento.

Entre o alerta  do abismo e a impotência para deter o comboio.

De novo, no evento dos 35 anos do PT,   lideranças do partido, entre elas a do ex-presidente Lula, expuseram  diagnósticos corretos sobre a ofensiva conservadora no país, denunciaram o golpe dissimulado, como de hábito, faxina moralizante; conclamaram o partido a sacudir a letargia, ir às ruas,  lutar, resistir.

Porém... nada se move.

De novo Lula, Rui Falcão, Tarso Genro e outros falarão em novas oportunidades; com já fizeram em ocasiões anteriores repetirão os mesmos diagnósticos corretos de um golpe dissimulado em marcha, evocarão as ruas.

Porém... nada se move.

 Assim sucessivamente.

O anticlímax, para estreitar bastante a abrangência do retrospecto, teve um ponto de coagulação explícito na campanha de 2014.

Em diferentes momentos, então, mas sobretudo após a morte traumática do candidato do PSB,  Eduardo Campos, em 13 de agosto, a candidatura progressista  esteve  emparedada pela bateria conservadora, a ponto de muitos darem o jogo como perdido.

No final de agosto esse conjunto formava um aluvião anti-Dilma.

Porém, nada se movia.

Nenhuma reação.

Era tão denso o horizonte da derrota que expoentes do colunismo conservador ejaculavam precocemente divagações acerca do ‘pós-lulopetismo’.

A candidata Marina Silva chegou a abrir 10 pontos de vantagem nas enquetes  sobre um hipotético 2º turno, no qual o Datafolha dava como certa a sua presença.

Era uma dessas ladeiras de um sonho turbulento em que nada parece deter a aceleração em plano inclinado rumo ao muro de pedra.

Em cinco de setembro, em meio ao clima de colisão com o fim, uma reunião de avaliação da campanha  assistiu  à intervenção de um Lula  endiabrado.

As reservas instintivas do retirante nordestino que saiu da seca para ocupar a presidência do país por duas vezes  mobilizaram-se em seu organismo, à falta de outras formas de mobilização.

Desse arcabouço histórico/metabólico brotou um diagnóstico que sacudiu os brios de um comitê de campanha do PT e da  militância até então  atônitos com a aproximação veloz  do desastre.

Em duas frases, Lula esquadrejou a areia movediça ao redor e identificou um pedaço de chão firme e instalou uma alavanca para a reação bem sucedida: ‘Nós ficamos economicistas; não nos faltam obras, mas política’, disparou para prescrever o antídoto: ‘Temos que demarcar o campo de classe dessa disputa: é preciso levar a política à propaganda’.

A partir de então a essência radicalmente neoliberal embutida nas candidaturas de Marina Silva e Aécio passou a ser floculada do espumoso caudal dissimulado em ‘renovação’, ‘ética’ e ‘mudança’.

O extrato obtido foi exposto à luz do sol. A sonolenta  publicidade de sabonete do horário eleitoral ganhou uma narrativa pedagógica, determinada a tipificar um a um os riscos e alvos da agenda conseradora.

Na mesma chave narrativa, a Presidenta Dilma passou a dar nomes aos bois em debates, no rádio e na presença  diária na TV.

Ponto número 1: Dilma falava diariamente com o país.

Ponto número 2: confrontava  projetos.

Ponto número 3: discutia flancos ainda por enfrentar.

Ponto número 4: zelava pelo passado sem abstrair as lacunas enormes do muito que o Brasil ainda deve ao povo brasileiro.

Ponto número 5: não o fez, mas se tivesse incorporado à discussão os  ajustes necessários à reordenação de um novo ciclo baseado no investimento e no controle da inflação, o eleitor provavelmente entenderia — desde que...

Ponto número 6: desde que isso se fizesse acompanhar de salvaguardas, prazos e contrapartidas, ademais da determinação de dar à sociedade meios e estruturas para vigiar e assegurar a travessia segura rumo a um novo estirão de crescimento cm justiça social.

O fato é que no breve interregno entre cinco de setembro quando Lula explodiu sua indignação e a vitória final em 26 de outubro, o PT e o governo fizeram o que nunca haviam feito e, incompreensivelmente, não voltaram a fazer ainda.

O quê?

Estabeleceram um canal de conversa indispensável  com a população sobre um tema de interesse geral: o Brasil,  a vida de sua gente, seus trunfos e desafios — hoje, ontem e amanhã.

Fez-se ali um ensaio de repactuação da confiança mútua, sintonizada no compartilhamento de rumos e de desafios, que Lula agora sugere que o PT faça (ouça o seu discurso no evento dos 35 anos do partido), na forma de um Manifesto-compromisso e de uma repactuação política do partido com a nação.

Carta Maior viu no jorro de  desassombro daquela inflexão na campanha de 2014 um ponto de ruptura com o abismo há muito aguardado.

‘A ficha caiu’, saudou-se.

No final de setembro, seria a vez da própria candidata Dilma reforçar essa impressão.

Em entrevista a um grupo de blogueiros, ‘sujos, ideológicos, governistas’, como a eles se refere o colunismo isento, a candidata explicitou o divisor que marcaria o seu segundo mandato.

A vitória então já não era mais um sonho de vento a escapar pelos dedos.

‘Terei um embate (político) mais sistemático; não serei mais tão bem comportada; me levaram para um outro caminho, que não era o que eu queria’.

Menos de cinco meses depois, onde foi que tudo se perdeu?

Perdeu-se a ponto de retroagir à pasmaceira anterior a cinco de setembro de Lula, com o radical agravante de que Dilma agora ocupa a presidência da nação, de onde o conservadorismo fala abertamente em retirá-la.

E toma providências explícitas para isso.

Uma parte da recaída se deve à inércia traiçoeira  de uma fórmula de governo que se esgotou.

Em três mandatos presidenciais sucessivos predominou a determinação petista de restringir o confronto direto com os interesses conservadores na faixa de segurança permitida por uma correlação de forças adversa.

Mas a margem de manobra se esgotou proporcionalmente à contração do PIB e à pressão da crise mundial, agora  definitivamente  algemada ao Brasil.

O que antes parecia uma contingência administrável, ainda que a um custo político cada vez mais desgastante, acentua os contornos de um esgotamento de ciclo.

O conjunto aguça o desgaste intrínseco à tarefa de administrar o capitalismo ainda sem poder transformá-lo efetivamente.

O conjunto não pode ser descarregado apenas no colo de uma Dilma muda e jejuna em politica. No mínimo, a sonambulismo  presidencial funde as duas coisas: um pedaço da crise e o reflexo da sua imensa dureza.

Não fosse isso, por que então nada se move depois que Lula, Falcão, Tarso e outros se desdobram em evocações pela resistência?

Pela gravidade e abrangência do que precisa mudar para desviar o país do buraco negro conservador que diuturnamente vai sugando tudo ao redor, mas principalmente os corações e mentes da sociedade.

O Datafolha é o monitor de controle do mutirão sombrio. O relatório deste domingo avisa ao comando central: ‘estamos indo bem’.

À implosão do espaço acomodatício desfrutado em 12 anos de governo de composição emerge agora a clareza vertiginosa do despreparo organizativo, ideológico e programático para ir além da atual e angustiante  desconexão entre o apelo e a resposta.

Entre o gesto e o efeito.

Pior que tudo.

A desconexão imobilizante revelou um punhal de aço cravado contra as próprias costas do corpo prpgressista:  não há canais de comunicação  para uma urgente repactuação do futuro com a sociedade.

Nada se faz sem  a mediação tóxica da emissão conservadora.

Cujas prioridades editoriais estão mobilizadas para acelerar a velocidade disso que o Datafolha colhe em intercurso orgânico.

Quando Lula diz ‘temos que voltar às bases, o PT se tornou um partido de gabinetes’, o que se veicula é  a derrisão,  não a gravidade da autocrítica abraçada pelo maior líder progressista do país.

Como é possível que um partido formado por franjas de toda a esquerda, quadros de alta qualidade e distintas filiações, tenha cogitado construir um Estado de Bem-estar social tardio, na oitava maior economia do mundo — na era da livre mobilidade dos capitais chantageadores — sem dispor de canais pluralistas de comunicação?

Sem espaço ideológico  para exercer o repto à hegemonia expressa pela dama de ferro do neoliberalismo, Margareth Tatcher: ‘Não há alternativa’.

Não apenas não há, como o que virá ‘será doloroso’, sapateava o Financial Times, antes das eleições, em editorial onde apregoava a inevitabilidade de um conjunto de medidas cujo efeito ‘será doloroso’. ‘Ganhe quem ganhar a eleição’.

Os dias que correm parecem confirmar o vaticínio do porta-voz dos mercados financeiros globais.

Sem repactuação política desassombrada, sobra a receita seca do ajuste ortodoxo que, de tão postiço em relação ao que a transição de ciclo requer,  teve que ser terceirizado a um centurião de confiança do mercado.

O ‘estelionato eleitoral’ denunciado pelo coalizão conservadora abstrai  o fato de que ao esgotamento do espaço acomodatício pela crise, juntou-se um cerco policial em torno da Petrobras, o derradeiro braço do Estado para induzir o caputalismo no país.

À mutilação desse órgão vital (que carrega 13% do PIB), associou-se a queda de 50% nas cotações do barril e a maior seca já vivida no país em 80 anos.

Uma tempestade perfeita estacionou nos céus de Brasília.

Por onde começar?

‘Temos a oportunidade histórica de elaborar um novo Manifesto do PT. Isso exige humildade e coragem’, disse-o bem  Lula na última sexta-feira.

Falta agora o principal:  correr riscos.

Adicionar ao enunciado a agenda capaz de erguer a ponte entre o apelo e a resposta.

Definir aquilo que, efetivamente, ofereça uma razão suficientemente forte, crível, palpável para a letargia deixar o sofá do descrédito e ir às as ruas, voltar às bases, cobrar, debater e pactuar  o passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.

Se o PT, a esquerda em geral, os movimentos sociais e o campo progressista não se entenderem a tempo de definir uma agenda comum — e não há tanto tempo assim, avisa o Datafolha — o juiz Moro o fará por eles.

Dando uma razão conservadora suficientemente apelativa para aglutinar o passo final da marcha regressiva em curso no Brasil.

As graves denúncias de Paulo Henrique Amorim sobre as condições em que estão sendo extraídas as ‘delações premiadas’ da Lava Jato, bem como  o parecer ’Gandra/FHC’, indicam uma determinação muito clara: ir além do estado de direito.

Saul Leblon
No Carta Maior
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EUA vão nomear diplomata gay para defender direitos dos homossexuais

A indicação deve ser feita ainda no mês de fevereiro pelo secretário de Estado norte-americano, John Kerry

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, vai anunciar a nomeação de um enviado especial para a defesa dos direitos da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) no mundo. A porta-voz adjunta do Departamento de Estado, Marie Harf, informou, no sábado (7), que o Departamento de Estado do governo norte-americano vai selecionar um funcionário do Serviço dos Negócios Estrangeiros que seja homossexual assumido.

Segundo a imprensa norte-americana, a nomeação deve ocorrer ainda este mês em resposta a um projeto de lei patrocinado pelo senador de Massachusetts, Edward Markey, que defendeu a criação de um enviado para os direitos da comunidade LGBT.

Esta iniciativa é mais uma das que têm sido tomadas pelo Departamento de Estado em defesa dos direitos dos homossexuais. Em agosto de 2013, os Estados Unidos começaram a dar vistos a imigrantes de casamentos homossexuais com requisitos idênticos aos dos heterossexuais. Vários estados norte-americaos já legalizaram o casamento homossexual e, neste ano, a Suprema Corte deve julgar se estende este direito à comunidade LGBT de todo o país.

Em novembro passado, o Departamento de Estado enviou o primeiro comunicado sobre o dia da comunidade LGBT. A homossexualidade é perseguida em muitos países do mundo, onde as pessoas podem chegar a ser condenadas à pena de morte, como Arábia Saudita, Irã, Sudão e Mauritânia.
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Líder de governo petista em MG diz que houve 'total' corrupção em gestão do PSDB

O líder do governador de Minas Gerais, o petista Fernando Pimentel, na Assembleia Legislativa do Estado, deputado Durval Ângelo (PT), afirmou nesta sexta-feira, 6, que a auditoria que está sendo realizada pelo Executivo já mostrou que houve "total" e "absoluta" corrupção nas gestões anteriores envolvendo "as mesmas empreiteiras da Operação Lava Jato". Desde 2003, quando o atual senador Aécio Neves (PSDB-MG) assumiu o governo, o grupo do tucano comandou o Estado e só deixou o Executivo com a eleição de Pimentel em outubro passado. Até março de 2014, o governador era Antonio Anastasia (PSDB), eleito para o Senado.

Ao assumir o cargo em 1º de janeiro, o petista anunciou uma auditoria total nas contas do governo, que foi a principal vitrine usada pela campanha presidencial de Aécio no ano passado. A apuração, que é comandada pelo controlador-geral do Estado, o "xerife" Mário Spinelli, e tem prazo de 90 dias para ser concluída, é mantida em sigilo pelos integrantes do Executivo. "Eu, como líder do governo, não estou autorizado a divulgar as auditorias. Mas elas são estarrecedoras", afirmou Durval. Questionado se a apuração tem revelado que houve corrupção, foi categórico: "Tem total. Aqui (a corrupção) é absoluta".

Na avaliação de Durval, mesmo que as auditorias em Minas comprovem a participação das empreiteiras envolvidas no caso da Petrobrás com eventual corrupção nas gestões tucanas no Estado, elas "não vão ter o mesmo destaque por ser o Aécio Neves e o PSDB". "Agora, o PT não é um partido que agrada as grandes elites deste País", ressaltou Durval Ângelo.

PSDB refuta

O presidente do PSDB mineiro, deputado federal Marcus Pestana, confirmou que o governo mineiro fez contratos com as empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato, mas frisou que "é preciso separar o joio do trigo" e que aguarda o resultado da "tão falada auditoria" para responder "com firmeza cada informação equivocada". "O Brasil tem larga tradição no setor de construção civil pesada. Não é à toa que hidrelétricas, barragens e grandes obras mundo afora são realizadas por empreiteiras brasileiras. Todas as grandes obras envolvem as dez principais empreiteiras do País. Nos 12 anos de governo do PSDB em Minas nunca houve qualquer arguição sobre os padrões administrativos e éticos utilizados", afirmou.
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A natureza não tem nada a ver com o colapso do abastecimento da água em SP


Enquanto nos aproximamos do colapso total no abastecimento em São Paulo, políticos tentam desesperadamente culpar a natureza: “é por causa da falta de chuva”. Nada disso. O problema é político mesmo.

Secas são periódicas e perfeitamente previsíveis a partir de estatísticas das bases de dados históricas. Um sistema robusto (e decente) de abastecimento deve ser concebido para aguentar anos seguidos de chuvas abaixo da média. Pesquisadores sobre clima como o professor Antonio Carlos Zuffo, da Unicamp, apresentam dados convincentes da sazonalidade de secas como essa a cada 35 a 50 anos — e isso não tem nada a ver com aquecimento global. Planejar sistemas para eventos que aconteçam nesses intervalos é mais do que plausível, é obrigatório em uma metrópole como a nossa.

A Sabesp foi parcialmente privatizada nas últimas décadas. Hoje, mais de 49% do capital está nas mãos de poucos, inclusive na Bolsa de Nova York. O governo do Estado tem feito políticas que atendem aos interesses desses acionistas e não da população. Assim, os lucros sugaram a capacidade de novos investimentos. Só em 2013 foram R$ 1,6 bilhão que saíram dos consumidores para remunerar os donos da água da cidade.

Mesmo nos países mais capitalistas do mundo, como a Holanda, as empresas de abastecimento são públicas. Por quê? A água é estratégica demais para ser objeto de especulação financeira. A incompetência e ganância na gestão hídrica nos últimos 20 anos no Estado de São Paulo tem agora dramáticas consequências para a economia da metrópole. Sem água, a economia capenga.

São Paulo negligencia sistematicamente o gerenciamento hídrico. Já estava instalada, muito antes e sem alardes, por exemplo, a crise do saneamento. Os rios são poluídos por uma razão simples: o esgoto não é recolhido e tratado, como inclusive exigiria a legislação. O Estado ignorou a lei e não classificou o rio Tietê. Supérfluo ou caro demais?

Lugares como Singapura fecharam o sistema de esgoto e abastecimento. Assim, toda a água consumida é recolhida pela rede pública, tratada com alta tecnologia e devolvida para a torneira. Saneamento e abastecimento são, portanto, dois lados da mesma moeda.

Já o governo federal fingiu que o colapso da maior cidade do país não era um problema relevante. A ANA (Agência Nacional de Águas), fazendo vistas grossas, se uniu a incompetência e descaso do governador. Nada foi feito, nem mesmo mudanças institucionais para pressionar outras instâncias.

Há exatamente um ano, eu publicava na seção Tendências e Debates, da Folha, um texto chamando a atenção para a seriedade da crise. Um ano! Eu fico imaginando quanto tempo o governador e os diretores da Sabesp tiveram para saber da possibilidade concreta do desastre. Muito mais do que eu, com certeza.

Em um ano, seriam possíveis investimentos que, se não revertessem, amenizassem muito o desabastecimento: cavar poços públicos e até construir (em regime de urgência) estações de tratamento para usar a água dos braços poluídos das represas. Em um ano, as gigantescas perdas do sistema podiam ter sido reduzidas com investimentos massivos.

Nada foi feito. As eleições estavam aí. O mais conveniente era não chamar a atenção para o problema. A mídia colaborou, se calando convenientemente até o dia seguinte do primeiro turno. Todos foram reeleitos; isso que importava.

O impacto econômico da crise hídrica para a cidade provavelmente superará o capital que teria sido necessário para fazer sistemas de abastecimento e saneamento de alta tecnologia e robustos, para despoluir e reurbanizar todos os rios, para devolver às águas à cidade — não mais como problemas urbanos, mas como virtudes, organizando lugares de encontros, espaços públicos.

Agora, as convulsões sociais, talvez tardias, são inevitáveis. E nelas não faltarão policiais armados, balas de borracha, spray de pimenta e, certamente, os novíssimos canhões d”água para combater esses “vândalos” — desta vez, também sedentos. Afinal, a ordem precisa imperar frente ao caos, não é mesmo?

Gabriel Kogan
No DCM
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Dança da chuva

A escassez de água que alarma o país tem relação íntima com as florestas

Alterações no volume e periodicidade das precipitações e mau uso
dos aquíferos estão entre os fatores que secam os canos de parte
do Brasil
Léo Ramos
A Amazônia não é apenas a maior floresta tropical que restou no mundo. Esse sem-fim de verde entrecortado por rios serpenteantes de tamanhos e cores variados também não se limita a ser a morada de uma incrível diversidade de animais e plantas. A floresta amazônica é também um motor capaz de alterar o sentido dos ventos e uma bomba que suga água do ar sobre o oceano Atlântico e do solo e a faz circular pela América do Sul, causando em regiões distantes as chuvas pelas quais os paulistas hoje anseiam. Mas o funcionamento dessa bomba depende da manutenção da floresta, cuja porção brasileira, até 2013, perdeu 763 mil quilômetros quadrados (km2) de sua área original, o equivalente a três estados de São Paulo. Antonio Donato Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), não aponta o dedo para culpados. O que importa para ele é reverter esse processo e não apenas zerar o desmatamento, mas recuperar a floresta. No relatório O futuro climático da Amazônia, divulgado no fim de outubro, ele deixa claro que o único motivo para não se tomarem providências imediatas para reduzir o desmatamento é desconhecer o que a ciência sabe. Para ele, o caminho é conscientizar a população. “Agora é um bom momento porque as torneiras estão secando”, afirma.

No relatório, elaborado a partir da análise de cerca de 200 trabalhos científicos, ele mostra que a cada dia a floresta da bacia amazônica transpira 20 bilhões de toneladas de água (20 trilhões de litros). É mais do que os 17 bilhões de toneladas que o rio Amazonas despeja no Atlântico por dia. Esse rio vertical é que alimenta as nuvens e ajuda a alterar a rota dos ventos. Nobre explica que os mapas de ventos sobre o Atlântico mostram que, no hemisfério Sul e a baixas altitudes, o ar se move para noroeste na direção do equador. “Na Amazônia a floresta desvia essa ordem”, diz. “Em parte do ano, os ventos alísios carregados de umidade vêm do hemisfério Norte e convergem para oeste/sudoeste, adentrando a América do Sul.”

Essa circulação viola um paradigma meteorológico que diz que os ventos deveriam soprar das regiões com superfícies mais frias para aquelas com superfícies mais quentes. “Na Amazônia, o ano todo eles vão do quente, o Atlântico equatorial, para o frio, a floresta”, explica. Uma parceria com os russos Anastasia Makarieva e Victor Gorshkov, do Instituto de Física Nuclear de Petersburgo, tem ajudado a explicar do ponto de vista físico os fenômenos meteorológicos da Amazônia. Em artigo publicado em fevereiro de 2014 no Journal of Hydrometeorology, eles afirmam, com base em análises teóricas confirmadas por observações empíricas, que o desmatamento altera os padrões de pressão e pode causar o declínio dos ventos carregados de umidade que vêm do oceano para o continente. O grupo analisou os dados de 28 estações meteorológicas em duas áreas do Brasil e viu que os ventos que vêm da floresta amazônica carregam mais água e estão associados a maiores índices de chuvas do que ventos que partem de áreas sem floresta e chegam à mesma estação.

Isso acontece, segundo os pesquisadores, por causa da bomba biótica de umidade, uma teoria proposta pela dupla russa em 2007 para explicar a dinâmica de ventos impulsionada por florestas. Essa ideia completa a descrição feita pelo  climatologista José Antonio Marengo, à época pesquisador do Inpe, de como a Amazônia exporta chuvas para regiões mais meridionais da América do Sul. A teoria da bomba biótica aplica uma física não usual à meteorologia e postula que a condensação da água, favorecida pela transpiração da floresta, reduz a pressão atmosférica que suga do mar para a terra as correntes de ar carregadas de água.

018-025_CAPA-Aguas_226Os fundamentos da influência da condensação sobre os ventos foram apresentados em artigo publicado em 2013 por Anastasia e Gorshkov, em parceria com Nobre e outros colaboradores, na Atmospheric Chemistry and Physics, uma das revistas mais importantes da área. Por meio de uma série de equações, eles mostram que o vapor de água lançado à atmosfera pela transpiração da floresta gera, ao condensar, um fluxo capaz de propelir os ventos a grandes distâncias. De acordo com Nobre, a nova física da condensação proposta por eles gerou, ainda durante a revisão do artigo, uma controvérsia com meteorologistas, que debateram o assunto furiosamente em blogs científicos com a intenção de derrubar a principal equação do trabalho. Não conseguiram e o trabalho foi publicado. O pesquisador do Inpe explica a polêmica. “É uma física que atribui à condensação, um fenômeno básico e central do funcionamento atmosférico, um efeito oposto ao que se acreditava”, diz. “Será necessário reescrever os livros didáticos da área.”

Para dar a dimensão da dificuldade de diálogo entre físicos teóricos e meteorologistas, Nobre lembra que a física desenvolve um entendimento dos fenômenos atmosféricos a partir de leis fundamentais da natureza, enquanto a meteorologia o faz, em grande parte, com base na observação de padrões do clima do passado, cuja estatística é absorvida em modelos matemáticos. Tais modelos representam bem as flutuações climáticas observadas, mas apresentam falhas quando há alterações significativas no padrão.

É o caso agora, quando um novo contexto — ocasionado por desmatamento, mudanças globais no clima ou outros fatores — gera fenômenos climáticos inesperados para certas regiões, como chuvas mais torrenciais e secas mais extensas. A teoria física acerta onde extrapolações do passado erram, por isso é preciso, segundo ele, construir novos modelos climatológicos que recoloquem a física no centro dos esforços da meteorologia.

O momento agora é crucial porque o clima amazônico vem mudando. Secas importantes nessa região marcaram os anos de 2005 e 2010. “Antes a Amazônia tinha a estação úmida e a mais úmida, agora há uma estação seca”, diz Nobre. Os danos dessas secas na floresta não foram aniquiladores porque ela consegue se regenerar, mas o acúmulo dos danos aos poucos erode essa capacidade. Um efeito importante que já se observa, previsto há 20 anos por modelos climáticos, é um prolongamento da estação seca, que tem prejudicado a produção agrícola em porções do estado do Mato Grosso. A grande preocupação é que se chegue a um ponto de não retorno, em que a floresta já não consiga produzir chuva suficiente para suprir nem a si própria. Trabalhos de modelagem que levam em conta clima e vegetação indicam que esse ponto será atingido quando 40% da área original de floresta for perdida, um número que não é unânime. Segundo o relatório de Nobre, 20% da floresta já foi cortada e outros 20%, alterados a ponto de terem perdido parte de suas propriedades.

Rios voadores: correntes de vapor-d’água que se formam sobre a floresta amazônica exportam chuvas para a região Sul do Brasil
Rios voadores: correntes de vapor-d’água que se formam sobre
a floresta amazônica exportam chuvas para a região Sul do Brasil
© Gerard Moss / Projeto Rios Voadores
Se a teoria da bomba biótica estiver correta, os efeitos desse ponto de não retorno devem ser mais graves do que a savanização proposta pelo climatologista Carlos Nobre, irmão mais velho de Antonio (ver Pesquisa FAPESP nº 167). “Se a floresta perder a capacidade de trazer a umidade do oceano, a chuva na região pode cessar por completo”, diz o Nobre caçula. Sem água para sustentar uma savana, o resultado poderia ser uma desertificação na Amazônia. Se isso ocorrer, o cenário que ele infere para o Sul e o Sudeste do país poderia ser semelhante ao de outras regiões na mesma latitude: tornar-se um deserto.

Antonio Nobre não se arrisca a falar muito sobre São Paulo. “Meu relatório é sobre a Amazônia.” Mas ele acredita que a seca por aqui não independe do que acontece no Norte. Em sua opinião, foi possível devastar boa parte da mata atlântica sem sentir uma redução nas chuvas porque a Amazônia era capaz de suprir a falta de água na atmosfera local. Mas isso já não parece acontecer mais. Ele aproveita o ensejo para sugerir que não apenas a floresta amazônica, mas também a que acompanhava a costa de quase todo o Brasil precisa ser recuperada imediatamente. Se não for por outro motivo, o esgotamento a que chegaram as represas que alimentam boa parte da população paulista deveria bastar como argumento.

A exportação de água desde a Amazônia para outras regiões do Brasil, sobretudo o Sudeste e o Sul, é uma realidade, por meio do fenômeno conhecido como rios voadores (ver Pesquisa FAPESP nº 158). Um indício dessa linha direta foram as intensas chuvas no sudoeste da Amazônia no início de 2014, praticamente o dobro do volume habitual, ao mesmo tempo que São Paulo passava pelo pior momento de uma seca histórica. “A chuva ficou presa em Rondônia, no Acre e na Bolívia por causa de um bloqueio atmosférico, algo como uma bolha de ar que impedia a passagem da umidade. Isso criou uma estabilidade atmosférica, inibiu a formação de chuvas e elevou as temperaturas”, conta Marengo, agora pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Ele é coautor de um artigo liderado por Jhan Carlo Espinoza, do Instituto Geofísico do Peru, que está em processo de publicação pela Environmental Research Letters e é parte dos resultados do programa Green Ocean (GO) Amazon, que tem apoio da FAPESP.


Não é possível, porém, afirmar o quanto essa relação determina a estiagem paulista. “Ainda não se sabe calcular quanto das chuvas do Sudeste vem da Amazônia nem quanto chega aqui trazido por frentes frias vindas do Sul, pela umidade carregada por brisas marinhas ou pela evaporação local”, diz. Para ele, o desmatamento pode ter um impacto no longo prazo, mas ainda é impossível dizer se ele está relacionado com a seca atual. “O Sudeste pode não virar um deserto”, pondera, “mas os extremos climáticos podem se tornar mais intensos”. Estudos usando modelos climáticos criados pelo grupo de Marengo já previam uma redistribuição do total das chuvas, com um volume muito grande em poucos dias e estiagens mais prolongadas, algo que já tem sido observado no Sudeste e no Sul do país nos últimos 50 anos.

Além desse efeito a distância, em escala nacional, a relação entre vegetação e recursos hídricos também se dá numa escala mais local, de acordo com o engenheiro agrônomo Walter de Paula Lima, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador científico do Programa Cooperativo de Monitoramento Ambiental em Microbacias (Promab) do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais. Em seus estudos sobre o efeito das florestas (ou sua remoção) em microbacias hidrográficas, ele mostrou que a mata ciliar, que acompanha os cursos de água, ajuda a manter a boa saúde de pequenos rios. “O sistema Cantareira, que abastece São Paulo, é formado por milhares de microbacias”, conta. “As que estão mais degradadas não contribuem para o manancial.” Essa avaliação, porém, carece de dados experimentais concretos. Segundo Lima, para se saber exatamente o efeito das matas ciliares nos mananciais seria necessário estudar uma microbacia experimental em que se possa medir propriedades dos cursos d’água com e sem a proteção de floresta, sem que haja outros fatores envolvidos. Um quadro praticamente inatingível.

Uma experiência prática que reforça a importância de se preservar as matas ciliares para a manutenção dos recursos hídricos é relatada pelo biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, da Esalq, especialista em recuperação de florestas nativas. Ele conta que há 24 anos a água desapareceu da microbacia de Iracemápolis, município no interior paulista. A prefeitura buscou ajuda na Esalq, e o grupo de Rodrigues implementou um projeto de conservação de solo da microbacia e de recuperação da mata ciliar que deveria estar ali. “Fui lá recentemente e levei um susto”, conta o pesquisador. O nível da represa está um pouco mais baixo, mas tem água suficiente para continuar abastecendo Iracemápolis, que teve sua população triplicada nesse período. “Toda a região está com problemas de falta de água, mas Iracemápolis não.”

As florestas afetam a saúde dos recursos hídricos por meio de sua influência nas chuvas, mas também tem importância a sua relação com as águas subterrâneas. O engenheiro Edson Wendland, professor no Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP de São Carlos, estuda justamente o que acontece com a recarga do aquífero Guarani quando o cerrado é substituído por culturas como pastagem, cana-de-açúcar, cítricos ou eucalipto. O trabalho tem sido feito na bacia do Ribeirão da Onça, no município de Brotas, interior paulista, estudada desde os anos 1980.

No fim de novembro o sistema Cantareira tinha água no reservatório Paiva Castro...
No fim de novembro o sistema Cantareira tinha
água no reservatório Paiva Castro…
© Léo Ramos
Por meio de poços de monitoramento e estações climatológicas, a ideia é detalhar, antes que não sobre mais vegetação original de cerrado por ali, como se dá a recarga do aquífero Guarani sob diferentes regimes de uso do solo. “Não é possível gerenciar o que não se conhece”, diz Wendland sobre uma das fontes de água subterrânea mais importantes do Brasil. O aquífero é uma camada porosa de rochas na qual se infiltra a água das chuvas, depois liberada lentamente para os rios. Essa diferença de tempo entre o abastecimento e a descarga, consequência do trajeto lento da água pelo meio subterrâneo, é o que garante perenidade aos rios, que dependem dessa poupança hídrica.

O grupo de Wendland tem mostrado, por exemplo, que a disponibilidade de água diminui quando se substituem as pequenas árvores retorcidas do cerrado, adaptadas a viver sob estresse hídrico, por eucaliptos, que consomem bastante água e em poucos anos atingem o tamanho de corte. Medições feitas entre 2004 e 2007 mostram que as taxas de recarga têm relação íntima com a intensidade da precipitação e o porte das culturas agrícolas nessa região onde o cerrado está praticamente extinto, de acordo com artigo aceito para publicação nos Anais da Academia Brasileira de Ciências.

Isso não significa, porém, que os eucaliptos sejam vilões incondicionais. O impacto de árvores de grande porte depende, em parte, da profundidade do aquífero no ponto em que estão plantadas. Segundo Lima, os mais de 20 anos de monitoramento contínuo feito pelo Promab mostraram que a relação entre espécies florestais e água não é constante. “Onde a disponibilidade é crítica, um elemento novo pode secar as microbacias”, explica. “Mas onde o balanço hídrico e climático é bom, a diminuição de água nem é sentida.” Essas conclusões deixam claro que é necessário fazer um zoneamento de onde se pode plantar e onde a prática seria nociva, um planejamento que não existe no Brasil.

Para Wendland, a importância de entender a relação entre o cerrado e os aquíferos é crucial porque as nascentes da maioria das grandes bacias hidrográficas do país estão no domínio desse bioma. Além da importância como recurso hídrico, algumas dessas bacias — do Paraná, do Tocantins, do Parnaíba e do São Francisco — são as principais fornecedoras de água para geração de energia elétrica no Brasil.


Em pouco mais de meio século, metade da área do cerrado foi desmatada e deu lugar a atividades agrícolas. Para avaliar o efeito dessa alteração no uso do solo sobre a disponibilidade hídrica, o doutorando Paulo Tarso de Oliveira, do grupo de São Carlos, fez um estudo usando dados de sensoriamento remoto em toda a área desse bioma. Com os sensores, é possível avaliar não só a alteração da vegetação, mas também quantificar as precipitações, os índices de evapotranspiração pelas plantas e estimar a variação de armazenamento de água. Segundo artigo publicado em setembro de 2014 na Water Resources Research, os dados indicam uma redução do escoamento por causa de atividades agrícolas mais intensas.

O desmatamento e o uso agrícola do solo têm importância, mas Wendland afirma que o maior problema para a recarga do aquífero hoje é a redução nas chuvas. “O aquífero supre a falta de precipitação por dois ou três anos, depois já não consegue manter o escoamento de base nos rios”, diz. Nos últimos anos as precipitações da estação chuvosa foram abaixo da média, o que diz os resultados observados. Explica também, segundo ele, fenômenos alarmantes como o esgotamento da principal nascente do rio São Francisco, que permaneceu seca por cerca de três meses e só voltou a jorrar água no final de novembro.

O desafio do gerenciamento das águas subterrâneas, que representam 98% da água doce do planeta, tem outras particularidades em zonas urbanas, onde pode ser um recurso crucial. Segundo o geólogo Ricardo Hirata, do Instituto de Geociências (IGc) da USP, 75% dos municípios paulistas são abastecidos, em parte ou completamente, por essas águas. Isso inclui cidades importantes do estado, com destaque para Ribeirão Preto, onde elas servem a 100% dos mais de 600 mil habitantes. Na escala nacional, outras cidades completamente abastecidas por águas subterrâneas são Juazeiro do Norte, no Ceará, Santarém, no Pará, e Uberaba, em Minas Gerais, de acordo com o livro Águas subterrâneas urbanas no Brasil, em processo de publicação pelo IGc e pelo Centro de Pesquisa em Águas Subterrâneas (Cepas).

Surpreendente nas cidades é que a água perdida pelo abastecimento público vai parar no aquífero. “A impermeabilização do solo diminui a penetração da água da chuva, mas as perdas compensam e superam essa redução e o saldo é uma recarga maior onde há cidades, em comparação com outras áreas”, explica Hirata. “Se analisarmos a água de um poço qualquer em São Paulo, metade será do aquífero e metade da Sabesp.” Ele estima que a capital paulista tenha quase 13 mil poços, todos particulares, muitos ilegais. “Existe uma legislação para gerenciamento desse recurso, mas ela não é seguida”, conta.

... enquanto a seca  era evidente no Jacareí/Jaguari
… enquanto a seca
era evidente no Jacareí/Jaguari© LÉO RAMOS
Um problema causado pelas cidades é a contaminação dos aquíferos por nitrato, devido a vazamentos no sistema de esgotos. Como a descontaminação é cara, os poços afetados acabam abandonados. Nas cidades em que são usados para abastecimento público, a solução é misturar água poluída à de poços limpos para que a qualidade total seja aceitável. “Em Natal não há mais água suficiente para mesclar”, alerta Hirata. O subterrâneo é fonte de 70% da água na capital potiguar.

Outro tipo de poluição importante vem da indústria, como a causada pelos solventes organoclorados. O geólogo Reginaldo Bertolo, também do IGc e diretor do Cepas, estuda como esse poluente se comporta no aquífero abaixo de Jurubatuba, na zona Sul paulistana, uma região industrial desde os anos 1950. “É um contaminante de difícil comportamento no aquífero”, conta. Nessa rocha dura, onde a água corre em fraturas, o composto mais denso do que a água se aprofunda e só para quando chega a um estrato impermeável. “São produtos tóxicos e carcinogênicos.” A poluição impede o uso da água subterrânea numa região onde a demanda é forte.

Em colaboração com pesquisadores da Universidade de Guelph, no Canadá, o grupo de Bertolo está mapeando esses poluentes para entender como ele se comporta e propor estratégias para eliminá-lo do aquífero. Para isso, o próximo passo é usar um sistema desenvolvido pelos canadenses para retirar amostras da rocha e instalar poços de monitoramento especiais. “O equipamento permite coletar água de mais de 20 fraturas diferentes numa mesma perfuração”, afirma. “Vamos fazer um modelo matemático para reproduzir o que acontece e fazer prognósticos.”

Bertolo alerta que é importante mapear melhor as águas subterrâneas e analisar sua qualidade, porque é um recurso que pode ser complementar nas cidades. “A água subterrânea é um recurso pouco conhecido.” A engenheira Monica Porto, da Escola Politécnica da USP, não acredita que seja possível expandir muito o uso dessas águas na Região Metropolitana de São Paulo. Em sua opinião, para ir além dos cerca de 10 metros cúbicos por segundo (m3/s) extraídos dos milhares de poços existentes, seriam necessários milhares de novas perfurações. “Mas esses 10 m3/s não podem faltar, precisamos cuidar deles.”

Monica, que já foi presidente e ainda integra o conselho consultivo da Associação Brasileira de Recursos Hídricos, pensa em maneiras de assegurar a segurança hídrica para a população. Faltar água está, de fato, entre as coisas mais graves que podem acontecer numa cidade. “Somos obrigados a trabalhar com uma probabilidade de falha muito baixa.” Segundo ela, em 2009 o governo paulista encomendou a uma empresa de consultoria um estudo sobre o que precisaria ser feito para garantir o suprimento de água. O estudo ficou pronto em outubro de 2013, já em meio à mais importante crise hídrica da história do estado. Monica explica que é impossível considerar a Grande São Paulo de forma isolada, porque não há mais de onde tirar água sem disputar com vizinhos. Por isso, o estudo abrange a megametrópole, que engloba mais de 130 municípios e uma população de 30 milhões de pessoas.

As obras necessárias à melhoria da segurança hídrica já começaram, com um sistema para recolher água do rio Juquiá, no Vale do Ribeira, que deve ficar pronto em 2018. Está em fase de licenciamento ambiental a construção das barragens de Pedreira e Duas Pontes, que devem abastecer a região de Campinas. “Manaus e Campinas são as únicas cidades do Brasil com mais de um milhão de pessoas que não têm reservatório de água”, conta Monica. Não faz falta a Manaus, às margens do rio Amazonas, mas faz a Campinas, que depende do sistema Cantareira. Ela, que em casa “faz das tripas coração” para economizar água, afirma que a crise atual é importante para conscientizar a população sobre a necessidade de se reduzir o consumo. Também ressalta a importância do conjunto de medidas que precisará ser revisto em caráter emergencial. “Temos que aprender pela dor”, diz Monica, que costuma brincar que é melhor que não chova muito para não afastar a instrutiva crise. “Mas, se não chover muito em breve, vou parar de brincar: precisa chover.”

Projetos

1. Entendimento das causas dos vieses que determinam o início da estação chuvosa na Amazônia nos modelos climáticos usando observações do GoAmazon e chuva (13/50538-7); Pesquisador responsável José Antonio Marengo Orsini (Cemaden); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa – GoAmazon; Investimento R$ 57.960,00 (FAPESP).

2. Estabelecimento do modelo conceitual hidrogeológico e de transporte e destino de compostos organoclorados no aquífero fraturado da região de Jurubatuba, São Paulo (13/10311-3); Pesquisador responsável Reginaldo Antonio Bertolo (IGc-USP); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Investimento R$ 502.715,27 (FAPESP).

Artigos científicos

MAKARIEVA, A. M. et al. Why does air passage over forest yield more rain? Examining the coupling between rainfall, pressure and atmospheric moisture content. Journal of Hydrometeorology. v. 15, n. 1, p. 411-26. fev. 2014.

MAKARIEVA, A. M. et al. Where do winds come from? A new theory on how water vapor condensation influences atmospheric pressure and dynamics. Atmospheric Chemistry and Physics. v. 13, p. 1039-56. 25 jan. 2013.

ESPINOZA, J. et al. The extreme 2014 flood in South-western Amazon basin: The role of tropical-subtropical South Atlantic SST gradient. Environmental Research Letters. v. 9, n. 12. 8 dez. 2014.


OLIVEIRA, P. T. S. et al. Trends in water balance components across the Brazilian Cerrado. Water Resources Research. v. 50, n. 9, p. 7100-14. set. 2014.

No Pesquisa Fapesp
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Para sair da cama

Chega a um ponto em que você precisa ter uma razão muito forte para sair da cama de manhã. Né não? Um motivo sério, imperativo, irrecusável para se levantar, escovar os dentes, tomar banho, se vestir e sair para a vida, em vez de ficar na cama o dia inteiro. Estas razões são cada vez mais escassas. E precisam ser hierarquizadas e colocadas numa perspectiva.

Razão nº 1 para sair da cama de manhã: mudar o mundo. Difícil. Sua capacidade para regenerar a humanidade e salvar o planeta da autodestruição é zero. Mesmo se acordasse com superpoderes e, depois de se certificar que sua sensação de omnipotência não era efeito da ressaca da noite anterior, saísse para a tarefa de acabar com a insensatez humana e as barbaridades no mundo, não saberia por onde começar. Dizem que o próprio Super-Homem disse “cansei”, desistiu de combater o mal e hoje vive de levar crianças para voar num parque de diversões. Ou então fica na cama o dia inteiro.

Outra razão para sair da cama de manhã: trabalhar. Uma razão nobre. Ganhar a vida honestamente. Garantir meu sustento sem explorar ninguém e garantir o uísque das crianças. Mas já trabalhei demais. As crianças estão encaminhadas na vida. Não me pedem mais dinheiro. Ou me pedem e eu finjo que não ouço, o que é a mesma coisa. O tipo de trabalho que eu faço, na tabela das atividades que afetam a vida e o conhecimento das pessoas, está em 65º lugar, logo depois de empalhador de marmotas. Se eu ficasse o resto da vida na cama, sem trabalhar, ninguém iria notar a diferença.

Razão nº 3 para sair da cama: a perspectiva de um bom café da manhã. Mas um bom café da manhã pode ser servido na cama. O único problema seria convencer sua mulher que você acordou paralisado e precisa do iogurte na boca — todos os dias!

Outra razão para sair da cama: dar o exemplo. O que diriam os outros cidadãos de um homem ainda razoavelmente saudável e ambulante que prefere ficar na cama o dia inteiro? O que diriam a mulher, os filhos, os vizinhos, a posteridade? Meu legado seria o de alguém que concluiu que nada vale a pena e tudo é inútil, começando por sair da cama. Minha postura seria a de uma estátua simbolizando uma revolta contra a morte e o absurdo da existência, só que na horizontal. Meu legado seria de preguiça, certo, mas de uma preguiça com fundo filosófico.

A última e decisiva razão para sair da cama de manhã: você precisa fazer xixi. Não tem jeito: você sai da cama.

Luiz Fernando Veríssimo
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FHC: roubo de Barusco não tem nada a ver com ele


Teoria do ex-presidente tem dois pesos e duas medidas: roubalheira na época de seu governo é culpa exclusiva do ex-gerente da Petrobras; já os malfeitos ocorridos nas gestões petistas são de responsabilidade de Lula e de Dilma; em carta enviada ao Jornal Nacional, o ex-presidente tucano diz que o delator é explícito ao dizer que tratava-se de acordo direto entre ele e o representante de uma empresa; disse ainda desejar que a Justiça vá até o fim na investigação da Operação Lava Jato, embora tenha reforçado que as alegações de Barusco são sobre propinas pagas nos governo do PT

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou na noite do sábado (7) que não pode ser envolvido com a roubalheira promovida pelo o ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco, em 1997, ano em que governava. Em carta enviada ao Jornal Nacional, o decano tucano diz que deseja que a Justiça vá até o fim na investigação da Operação Lava Jato.

O ex-presidente alega que o depoimento de Barusco é extremamente minucioso e que, sobre as propinas anteriores às recebidas no governo Lula, o ex-gerente é explícito ao dizer que tratava-se de acordo direto entre ele e o representante de uma empresa.

FHC garantiu que não existe qualquer alusão ao seu governo neste depoimento de Pedro Barusco à Justiça. E que as alegações específicas de Barusco - sendo verdadeiras - são sobre propinas pagas durante os governos de Lula e Dilma, e com citações do delator a empreiteiras, funcionários da Petrobras e o tesoureiro do PT, partido que, em geral, segundo os depoimentos, teria ficado com a maior parte das propinas.

O PT também refutou as declarações de Barusco.


No 247
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Dilma paga a conta pelo silêncio


A inflação não disparou, o desemprego não subiu. Aprovação caiu 19 pontos porque, encerrada a campanha eleitoral, Dilma emudeceu e debate político voltou ao controle da velha mídia

Um mês depois do início do segundo mandato, Dilma Rousseff atinge um nível deprimente de impopularidade. A queda nos  índices de aprovação não é uma surpresa. Mas é importante discutir o que está por trás disso.

Nossos analistas econômicos continuam anunciando um apocalipse que insiste em não mostrar sua cara — ao menos até agora. O desemprego não aumentou. A inflação também não disparou. Não há novidade na Operação Lava Jato, que segue seu curso de espetáculo midiático.

Vários fatores explicam a queda de Dilma e pode-se mesmo dizer que o governo federal vive uma situação semelhante à do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e à do prefeito da capital, Fernando Haddad. Estes também caíram na aprovação do eleitor.

Para entender o que aconteceu com Dilma, porém, o ponto principal, na minha opinião, é a mudança no lugar do governo.

O último levantamento disponível, onde números de bom, ótimo, ruim e péssimos estavam praticamente invertidos, refletia a realidade política da campanha presidencial. Os ataques eram violentos e diários — mas Dilma tinha o horário político para defender-se, para argumentar e fazer o contraponto. Apesar da parcialidade dos meios de comunicação, o governo tinha como responder aos ataques, com bom espaço, no horário nobre. Também participava de debates, onde era possível denunciar a falsidade de boa parte das críticas.

Encerrada a campanha, voltamos ao monopólio dos adversários, ao Manchetômetro nosso de cada dia.  Para ficar no Jornal Nacional, os números da última semana indicam 24 notícias contrárias para 9 neutras.

Outros fatores também pesaram, porém. O governo não apenas não tinha o horário político para defender-se — mas em nenhum momento empregou o espaço convencional que a presidência oferece a quem está em palácio para dar explicações, argumentar ou responder. Não confrontou versões nem fez a disputa política — condição para impedir que um mentira repetida 1000 vezes se transforme em verdade.

A queda de 19 pontos na categoria bom e ótimo é um movimento tão grande que expressa outro sinal. Difícil negar que eleitores que garantiram a vitória de Dilma no segundo turno, num confronto polarizado de projetos políticos, ficaram decepcionados com aquilo que veio depois. Hoje, diz o DataFolha, um total espantoso de 54% dizem que Dilma é “falsa” — número que chegava a 13%, anteriormente.

A nomeação de um ministro da Fazenda inteiramente identificado com as ideias adversárias já seria complicada em qualquer situação, em particular num país onde a credibilidade não é a virtude mais reconhecida entre os políticos e candidatos. A novidade agravou-se porque a nova direção econômica veio acompanhada de medidas que, mesmo sendo justificáveis do ponto de vista técnico, são economicamente desvantajosas para os assalariados, que mais uma vez sentiram-se chamados, compulsoriamente, a pagar uma conta de ajuste que  caiu no seu orçamento, poupando os ricos e endinheirados de qualquer sacrifício.

Como disse na época o professor Wanderley Guilherme dos Santos em entrevista ao 247: o governo precisava ter explicado o que estava fazendo, por que, para chegar aonde. Disse Wanderley, em 16 de dezembro de 2014:

“Quem foi eleita prometendo idéias (e gente) novas para um governo novo, e suplicou o apoio ativo da esquerda na última semana da campanha — arrancada sem a qual teria perdido a eleição — não tem o direito de pedir silêncio quando surpreende a praticamente todos os setores da esquerda com suas indicações. Não se trata de oposição radical aos nomes indicados, mas de expectativa de que sejam informados de qual trajetória a ser cumprida. A indiferença do governo em relação ao espanto e reclamações de seus eleitores, ao lado de afagos a adversários de ontem, pode ser entendida como abuso de confiança. O governo deve satisfações a quem o elegeu.”

Paulo Moreira Leite
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