7 de fev de 2015

Parece que desta vez o PT decidiu não apanhar calado

“Por que só eu?”
O Petrolão é o novo Mensalão.

Tudo é parecido, a começar pelo comportamento da imprensa.

Mas deu já para perceber que uma coisa é completamente diferente: a atitude do PT.

No Mensalão, o PT ficou acuado. Agora, como que cansado de apanhar calado, resolveu partir para o contra-ataque.

É dentro dessa nova estratégia que devem ser entendidas as palavras de Lula na festa de 35 anos do PT.

Lula falou em pretensões golpistas da oposição, um “atalho” para o poder. E disse que a imprensa está ocupada primordialmente em “incriminar” o PT. Destacou, ainda, o caráter “político”, muito mais que jurídico, da Operação Lava Jato.

Você pode dizer, com razão: esperava-se que o PT renovasse a pantanosa política brasileira, e isso lamentavelmente não ocorreu.

O PT se juntou ao “sistema”, em nome da governabilidade, em vez de mudá-lo, e só a história poderá dizer se foi um gesto brilhante de sobrevivência na selva ou um ato de completa pusilanimidade.

Mas há na argumentação petista, nestes tempos, um ponto incontestável: há um rigor em relação a tudo que diga respeito ao PT que absolutamente não se vê para os demais partidos.

Isso tem pelo menos dois efeitos.

Primeiro, desmoraliza, deslegitima as acusações contra o PT. Mesmo quando elas têm fundamento, a injustiça de tratamento retira a força dos ataques.

Segundo, você acaba dando ao agredido, paradoxalmente, uma aura de perseguido.

As regras têm que valer para todos, para que a luta pela ética não seja farisaica.

Quer dizer o seguinte, trazidas as coisas para o cotidiano.

Enquanto FHC pontificar sobre a moralidade, ele que se elegeu depois da compra despudorada de votos para a emenda da reeleição, ninguém vai levar a sério a pregação anticorrupção veiculada pelas grandes empresas de mídia.

Elas mesmas: enquanto a Globo — flagrada num delito de sonegação milionária — se atrever a dar lições de moral, a hipocrisia estará triunfando.

Ainda em relação à mídia. Enquanto um jornal como a Folha fugir covardemente da obrigação de cobrir o crime fiscal da Globo, ele estará moralmente impedido de falar de esticar o dedo acusatoriamente para os outros.

Você não pode exigir decência quando age indecentemente. Um dos exemplos mais notáveis disso é Aécio.

Ele não explicou o aeroporto de Cláudio. Não se desculpou por ter colocado dinheiro público nas rádios da família, pelas mãos da irmã, como governador de Minas. Não esclareceu como podia falar tanto em meritocracia quando dava grandes empregos a tanta gente de seu círculo íntimo.

E mesmo assim, com todo esse passivo moral, ousa posar de Catão. E só tagarela porque os amigos lhe estendem o microfone continuamente sem que uma única cobrança lhe seja feita.

Poucas coisas demonstram tanto a miséria do jornalismo nacional como nenhuma empresa de mídia haver coberto o caso do helicóptero de um amigo de Aécio flagrado com 450 quilos de pasta de cocaína.

A omissão, aí, só se entende pelo empenho mórbido em poupar o amigo Aécio.

A mesma especulação já foi feita milhares de vezes, mas ei-la novamente: e se o helicóptero fosse de um amigo de Lula?

É por esse conjunto obsceno de coisas que mesmo pessoas sem vínculo com o PT — eu, se querem um caso — não se comovem em nada com as acusações que jorram dos suspeitos de sempre.

Existe apenas uma coisa pior do que não combater a corrupção. É você fingir que está combatendo-a, como em 1954 e 1964 — com finalidades inconfessáveis.

Paulo Nogueira
No DCM
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Declarações do Papa em apoio aos mais pobres incomodam bilionário americano

Bilionário norte-americano ameaça parar com doações caso o Papa Francisco continue a criticar o capitalismo e discursar em defesa dos mais pobres


O bilionário Kenneth Langone, fundador da Home Depot, empresa varejista norte-americana de produtos para casa, enviou um aviso ao Papa Francisco durante uma entrevista no canal CNBC: pessoas “como ele” estão se sentindo ofendidas com as mensagens do Vaticano em apoio aos mais pobres.

Para completar, disse que se o Pontífice continuasse a fazer declarações contra o capitalismo, ele iria parar com as doações que realiza.

Em um discurso realizado no Brasil em julho, o Papa Francisco pediu para “aqueles que têm posse de grandes recursos” não pararem de lutar por um mundo mais justo e solidário. “Ninguém deve se manter insensível em relação à desigualdade que enfrentamos”, afirmou Francisco.

Conservadores incomodados

Na era Reagan, os republicanos conservadores sentiam que tinham no Papa João Paulo II um poderoso aliado, pois sua enérgica postura anticomunista e contra o aborto era levada a cabo na política americana.

Os conservadores de hoje estão apreensivos em relação ao Papa Francisco, que não modificou as doutrinas, mas modificou o tom e a cultura da Igreja Católica em menos de dois anos de pontificado. Ele enfatiza, com veemência e autenticidade, mais um compromisso com a pobreza e com a desigualdade de renda do que com as questões sociais que dominaram grande parte do debate católico nos EUA.

O papa ajudou a intermediar o recente descongelamento das relações entre os EUA e Cuba, para consternação de conservadores como o senador da Flórida, Marco Rubio. Francisco agora está decidido a fazer com que a mudança climática seja um imperativo moral para os 1,2 bilhão de católicos do mundo.

Isso não quer dizer que Francisco seja o papa dos sonhos dos democratas liberais: “Ele está desafiando a todos”, disse Carr, que agora dirige a Initiative on Catholic Social Thought and Public Life na Universidade de Georgetown. “A maioria dos democratas não falava sobre pobreza”.

Visita aos EUA

O papa visitará os EUA em setembro. Ele irá a Filadélfia, a Nova York e, provavelmente, a Washington. Se assim for, ele pretende visitar a Casa Branca, e também algum refeitório popular ou algum outro lugar que atenda os pobres. E poderia aceitar o convite do presidente da Câmara, John Boehner, para ser o primeiro pontífice a discursar em uma sessão conjunta do Congresso.

Em privado, alguns republicanos de direita resmungaram por causa desse convite, mas eles não podem fazer nada. Não é difícil imaginar o momento excepcional no Capitólio quando democratas que defendem o aborto se contorcerem ao ouvir o papa celebrar a santidade da vida e republicanos se remexerem ao ouvir o Sumo Pontífice falar de justiça social e da desigualdade de renda.

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“Critério da mídia é o da criminalização do PT”, diz Lula em discurso


O ex-presidente Lula disse esta noite, na festa do aniversário de 35 anos do Partido dos Trabalhadores, comemorado em Belo Horizonte, que o critério da mídia para a cobertura da Operação Lava Jato é o da “criminalização do PT”.

Segundo ele, “estamos assistindo a um filme com final conhecido”: acusações sem provas, falta de contraditório e julgamento pela imprensa. O ex-presidente não fez menção ao escândalo do mensalão.

Lula disse que não existe uma única acusação provada contra o partido até agora na Operação Lava Jato. Para ele, o que se pretende é condenar o PT por doações obtidas legalmente.

Lula se disse indignado com a condução coercitiva do tesoureiro do PT para depor à Polícia Federal, afirmando que João Vaccari Neto teria comparecido se tivesse sido intimado.

Segundo Lula, a mídia está construindo uma versão, uma narrativa que criminaliza o PT, com o vazamento seletivo dos fatos.

Referindo-se à oposição como antinacional e excludente, o ex-presidente disse que “foi o governo deles que tentou destruir a Petrobras”.

Lembrou também que “eles nunca investigaram nada, varreram tudo para debaixo do tapete”.

Para Lula, foi a quarta derrota consecutiva “que despertou os mais baixos instintos dos nossos adversários”.

O ex-presidente afirmou que “eles não querem esperar por outra derrota”, por isso “investem na crise, apostam no caos”.

Para Lula, “cabe ao PT denunciar essas manobras”.

Ouça o discurso:



Luiz Carlos Azenha
No Claudicando
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Campanha por Enio Barroso ultrapassa um terço arrecadado


A campanha 'Vá pra Cuba, companheiro!', em solidariedade ao blogueiro e histórico militante Enio Barroso, contabilizou nesta sexta-feira (6) R$ 17.956,09 arrecadados dos R$ 50.000,00 necessários para que o cadeirante viaje à ilha caribenha. Acometido de uma grave distrofia muscular, Enio nutre no Centro Internacional de Restauração Neurológica (Ciren) a esperança de um tratamento que controle o avanço da doença e combata seus sintomas. A campanha de solidariedade é idealizada pelo Barão de Itararé, em parceria com os blogueiros e amigos de Enio Barroso.

O montante arrecadado está sendo divulgado na página do Barão de Itararé sempre às sextas-feiras, seguindo o princípio da transparência e atualizando os amigos e simpatizantes de Enio sobre o andamento da iniciativa.

Vá para Cuba, companheiro!

Nosso amigo e blogueiro Enio Barroso precisa tratar de uma distrofia muscular em estágio avançado. Em Cuba há um tratamento que controla o avanço da doença e ameniza os sintomas já existentes. O tratamento é feito em duas etapas, que ao todo somam 35 dias. Durante todo o tratamento é necessário que ele tenha um acompanhante.

O custo total para a viagem do Enio e do acompanhante ficará em torno de U$ 18.000,00. Nesse valor está incluso passagem aérea ida e volta e hospedagem para duas pessoas, e o tratamento do Enio nas duas fases.

Lançamos essa campanha na expectativa de arrecadar o valor necessário, e assim mandar o Enio para Cuba!

Convidamos todos os blogueiros, ativistas digitais e simpatizantes de Enio a escreverem depoimentos em prol da campanha e compartilharem a causa em suas redes. As doações podem ser feitas em qualquer quantia, tanto via depósito direto na conta poupança de Enio quanto pelo botão do Pagseguro (neste link).

Depósito direto em conta poupança:

Ênio Barroso Filho

104 - Caixa Econômica Federal

CPF 000.831.558-21

Agência 0244 - Casa Verde

Operação: 013

Conta Poupança: 19636-2
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Somos um governo de torturadores?


As celas da Polícia Federal são dependências do Poder Executivo federal e, portanto, sujeitas à autoridade do Diretor da Polícia Federal, do Ministro da Justiça e da própria Presidenta da República.

O relato repugnante enviado a Paulo Henrique Amorim sobre as condições em que estão sendo mantidos há três meses os detentos — sem condenação ou julgamento — da Operação Lava Jato se configura em um escândalo de proporções internacionais.

Não porque, infelizmente, a situação possa ser semelhante da de milhares de outros presos nas reconhecidamente precárias prisões brasileiras, o que não é o caso da detenção da Polícia Federal em Curitiba, instalada num bom e moderno prédio que você vê na foto.

Mas porque isso é feito de forma deliberada, para extrair-lhes, verdadeiras ou falsas, delações premiadas — como as que estão sendo feitas às dúzias — e atingir sabe lá que píncaros em envolvimentos supostos de pessoas.

Maus-tratos deliberados, com este fim, têm um nome: tortura.

E tortura é inadmissível contra quem quer que seja, do pedreiro Amarildo a um diretor da Mendes Júnior.

É um princípio, um crime hediondo, que não deixa de sê-lo se é feito com um chicote ou com pressões psicológicas.

Não se use o torpe argumento de que para eles se quer regalias, porque são homens poderosos e ricos.

Pimenta Neves e Roger Abdelmassih também são e a eles, com razão, não se fez isso, embora tenham feito outras coisas, sem razão, bem mais gentis.

É um absurdo por serem seres humanos e por sermos, nós, seres humanos, que não nos comprazemos com o sofrimento desnecessário de outrem, seja quem for.

Talvez os mais jovens não saibam que foi o ferrenho anti-comunista Heráclito Sobral Pinto que, em defesa de Luis Carlos Prestes e de Harry Berger, comunistas, invocou contra Filinto Muller  o artigo 14 da Lei de Proteção aos Animais, que proibia “manter animais em lugares anti-higiênicos ou que lhe impeçam a respiração, o movimento ou o descanso, ou os privem de ar ou luz”.

Se a denúncia enviada a Paulo Henrique Amorim é falsa — tomara que seja! — tanto melhor para todos, inclusive para os responsáveis por aquele cárcere: pela ordem, o delegado local, o Diretor da PF, o Ministro da Justiça e a Presidente da República.

Mas exige explicações e apuração.

Já, para que não se façam cúmplices todos os que têm responsabilidades por aquela dependência do Estado brasileiro.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A transferência de responsabilidades


Já em plena crise hídrica, o patético esforço da oligarquia tucana para explicar o desastre que ela própria provocou

A metáfora não poderia ser melhor. O Brasil tem em seu território uma das maiores reservas hídricas de água potável do mundo, algo em torno de 12% de toda a reserva mundial. Em 2015, o estado mais rico da federação, comandado por uma oligarquia que se perpetua no poder há mais de 20 anos, está prestes a colocar em marcha uma política de guerra para racionar água, acrescentando assim outro capítulo ao “racionamento que tem medo de dizer seu nome” aplicado há meses no estado. Até mesmo a hipótese de evacuação parcial da cidade de São Paulo foi discutida. Ou seja, mesmo quando temos todos os recursos disponíveis conseguimos chegar em uma situação de catástrofe.

Poderíamos começar aqui por fazer explicações, as mais inteligentes e elaboradas, remetendo as razões da crise hídrica ao “patrimonialismo ibérico”, ao “despreparo dos governantes”, à “falta de estatura moral do povo”, ao “degelo da Era Glacial” ou qualquer outro candidato a significante vazio da vez. No entanto, muitas vezes fazemos de tudo para procurar causas distantes e genéricas simplesmente para não tomar providências diante das causas diretas e visíveis a qualquer um que queira ver.

No caso da crise hídrica de São Paulo, a causa tem nome e sobrenome: o governador Geraldo Alckmin, assim como seus antecessores diretos, todos eles ligados ao mesmo grupo político. Não é possível que setores da população de São Paulo continuarão com essa incapacidade patológica de responsabilizar claramente quem tem a responsabilidade direta sobre o problema. Foi tal incapacidade que se expressou, por exemplo, na maneira errática com que setores hegemônicos da imprensa trataram o problema e suas causas, sem aquele ímpeto investigativo conhecido de todos quando é questão de explorar as responsabilidades do governo federal. Foi ela que deu a tais governos a sensação de impunidade, de poder fazer o que bem entender, escondendo informações da população, jogando com a sorte para ver se chove no lugar certo. Tudo isso até chegarmos nesse ponto deplorável.

Os estudos agora começam a se avolumar, mostrando a ausência de um planejamento mínimo de longo prazo, assim como falta de investimento em obras essenciais, desconhecimento completo de problemas ecológicos e de impacto ambiental, complacência com a especulação imobiliária em áreas de mananciais. Ou seja, uma quantidade tão grande de inépcia e ausência de reconhecimento honesto dos problemas diante da população, nos confere o direito de perguntar se realmente precisamos de governo estadual. Ter deixado tudo sem administração não teria produzido resultados muito diferentes dos atuais.

Por exemplo, pergunte-se há quanto tempo o Rio Tietê está “em processo de despoluição” e quais são seus maravilhosos resultados. Se a política que, salvo engano, começou no governo Fleury, tivesse sido conduzida de maneira séria, poderíamos ter um rio integrado ao sistema hídrico estadual. Pergunte-se qual a última vez que um reservatório foi construído no estado ou qual o resultado efetivo da abertura do capital da Sabesp. Sim, há muitas perguntas a serem formuladas.

No entanto, o que não podemos mais fazer é nos escondermos no cinismo covarde de quantos reconhecem o caráter insuportável da situação, mas se apressam a dizer: “Bem, não há alternativa mesmo, então melhor não fazer nada”. As alternativas são criadas quando mostramos nossa indignação e recusamos o que tenta se impor a nós com a única justificativa de dever continuar porque aqui já está. São Paulo é um estado com grande inteligência e capacidade de criação, com duas das mais importantes universidades do Brasil capazes de estudos que o governo estadual ama ignorar. Setor algum da população é ouvido na discussão de políticas que afetam a todos. Apenas a arrogância tecnocrática de sempre, com seus resultados patéticos de sempre.

Por fim, há de se lembrar que um país com os recursos hídricos do Brasil não teria o direito de impor tamanha humilhação à sua população, em especial o setor mais pobre, que sofre as consequências da irresponsabilidade governamental há tempos. O esgotamento do cenário político nacional é acompanhado de um esgotamento ainda mais impressionante no plácido cenário estadual do Tucanistão. Há de se virar todas as páginas.

Vladimir Safatle
No Esquerda Caviar
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Cubesat, satélite 100% brasileiro, é lançado com sucesso da estação espacial internacional

Imagem do AESP-14 no após a ejeção.
O cubesat AESP-14, primeiro satélite de pequeno porte totalmente desenvolvido no país, foi lançado com sucesso nesta quinta-feira (5), às 10h50 (horário de Brasília), a partir da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês).

A colocação do AESP-14 no espaço foi realizada por meio do dispositivo japonês JEM Small Satellite Orbital Deployer (J-SSOD), um lançador desenvolvido para satélites de pequeno porte.

Com as dimensões de um cubo com 10 centímetros de lado e pesando quase um quilo foi produzido em parceria entre o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), ambos em São José dos Campos (SP). Sua missão é validar subsistemas desenvolvidos por alunos de graduação e pós-graduação do ITA.

Para cumprir a tarefa, 30 minutos após o lançamento foi ativado um modem a bordo, que transmitiriu informações de cientistas brasileiros na frequência de rádio amador e os dez primeiros rádio amadores que captaram a transmissão receberão certificado de participação.

O modem tem potência de 500 mW operando na frequência de 437.600 MHz. O cubesat transmitirá informações com uma taxa de 9600 bps padrão G3RUH na modulação GFSK. Para a comunidade radioamadora, receber os frames de telemetria e decodificá-los, o documento básico está disponível no site do projeto AESP-14.

A Agência Espacial Brasileira (AEB) investiu R$ 250 mil no desenvolvimento do satélite, cabendo ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) o aporte de R$ 150 mil em bolsas para pesquisas. A AEB ainda financiou US$ 555 mil para os lançamentos do AESP-14, do Sistema Espacial para a Realização de Pesquisa e Experimentos com Nanossatélites (Serpens) e do Tancredo-1, estes dois últimos programados para lançamento ainda este ano.

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O AESP-14 foi lançado quando a ISS se aproximava das costas do continente africano.

No AEB
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O que nos ensina a indústria aeroespacial brasileira?


Ela nos ensina a questionar o modelo mental do complexo de vira-latas!

Sim, infelizmente, uma boa parte dos brasileiros adota esse modelo mental.

O Brasil não é um país sério! Disse, no auge da “guerra da lagosta”, em 1962, o embaixador brasileiro na França, Carlos Alves de Souza. Ao longo da minha vida, escutei essa frase inúmeras vezes. Ela é proferida, quase sempre, num contexto em que governos tentam realizar ações ousadas, aparentemente de risco, e que somente apresentarão resultados no longo prazo.

Uma dessas ações ousadas foi a criação da Embraer – Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A., em agosto de 1969. Sua primeira missão foi produzir e comercializar o avião Bandeirante. Em seguida veio o pedido do Governo Brasileiro para fabricar o jato de treinamento avançado e ataque ao solo EMB 326 Xavante, sob licença da empresa italiana Aermacchi. Outros desenvolvimentos que marcaram o início das atividades da Embraer foram o planador de alto desempenho EMB 400 Urupema e a aeronave Agrícola EMB 200 Ipanema.

Ao final da década de 1970, o desenvolvimento de novos produtos — como o EMB 312 Tucano e o EMB 120 Brasilia, seguidos pelo programa AMX, em cooperação com as empresas Aeritalia (hoje Alenia) e Aermacchi — permitiram que a Empresa atingisse novo patamar tecnológico e industrial.

A partir daí, o enorme sucesso alcançado pela plataforma ERJ 145 e pelos E-Jets, a confirmação da presença definitiva da Embraer no mercado de jatos executivos com o lançamento das famílias Phenom, Legacy e do Lineage.

Atualmente, a Embraer é exportadora de aeronaves de todo tipo e acaba de concluir mais uma etapa importante para o país. Trata-se do primeiro voo do avião cargueiro KC-390, a maior aeronave já produzida na América Latina. Assino embaixo do que disse o Brigadeiro do Ar José Augusto Crepaldi Affonso, presidente da COPAC: “O KC-390 representa para a Força Aérea Brasileira e para a indústria nacional o ápice, o coroamento da nossa capacidade de emitir requisitos e principalmente a capacidade da nossa indústria nacional de desenvolver um produto aeroespacial de última geração”.



Mas, para chegar a este ponto quarenta e cinco anos depois, houve a ousadia de romper com o complexo de vira-latas! Decidir que o Brasil dominaria a tecnologia de construção de aeronaves e se tornaria um dos principais fabricantes do mundo. Bem aqui na  América do Sul. Região condenada pelos países centrais à vocação agropecuária e extrativa de minerais.

Outros movimentos foram feitos por diversos governos para que o Brasil não ficasse condenado a ser um eterno exportador de produtos primários e importador de produtos manufaturados e de tecnologia. Sempre condenados por um grande número de brasileiros.

O governo Lula deu uma enorme contribuição ao colocar recursos e medidas institucionais a serviço de uma Petrobras cada vez mais forte e principal alavancadora do desenvolvimento econômico e social brasileiro.

A nossa indústria naval que estava falida, sucateada foi retomada vigorosamente, e hoje é uma das principais do mundo. Além dos navios da Petrobras, temos a fabricação de submarinos para a marinha brasileira.

Em breve, o país precisará retomar a construção e operação de navios mercantes de bandeira brasileira para não ficar totalmente nas mãos dos armadores estrangeiros, como acontece hoje. Podemos começar fabricando navios porta-contêineres para nossas empresas de navegação de longo curso e de cabotagem e, quem sabe?, venhamos a conseguir, no longo prazo, nos tornar um dos principais exportadores desse tipo de embarcação.

Além desse, há um projeto — desconhecido pela quase totalidade dos brasileiros — que é a fabricação, em nosso país, de dirigíveis de carga. Trata-se da Airship do Brasil – ADB, que já realizou projetos piloto para a Petrobras e Eletrobras, especialmente para movimentação de cargas muito grandes e indivisíveis na Amazônia, de forma altamente eficiente.

Localizada em São Carlos/SP a ADB é uma empresa privada 100% nacional. Focada no desenvolvimento de equipamentos mais leves que o ar, voltados para o transporte de carga, patrulhamento de infraestruturas, serviços de sensoriamento e monitoramento, a Airship oferece ainda serviços de apoio logístico, segurança, vigilância, publicidade,  geofísica aérea, meteorologia e meio ambiente.


Finalmente, outro nicho importante para o desenvolvimento do país será a indústria ferroviária de trens de alta velocidade. Mas essa é uma outra história que retomaremos mais à frente.

Espero que com esses projetos em funcionamento consigamos, de vez, abandonar o complexo de vira-latas.

Jose Augusto Valente
No Blog do Zé
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Relação entre médicos e indústria farmacêutica pode afetar jornalismo

O quanto a relação entre médicos e a indústria farmacêutica pode prejudicar o jornalismo? Imensamente, na opinião do jornalista Paul D. Thacker, que abordou o assunto em artigo para a Columbia Journalist Review. Thacker é um especialista em questões de integridade científica e foi a fundo na investigação dos repasses de verbas de laboratórios e fabricantes de equipamentos médicos a profissionais de saúde nos Estados Unidos.

A questão começou quando, em setembro de 2014, o governo federal americano lançou um site com um banco de dados publicamente pesquisável, a fim de detalhar como as empresas farmacêuticas e fornecedoras de equipamentos médicos remuneravam profissionais da área de saúde por pesquisas, consultorias, palestras e participações em eventos.

O objetivo da medida legal era simplesmente evitar conflitos de interesses; num exemplo prático, qualquer um poderia verificar se seu médico havia receitado determinado medicamento por confiar em seus princípios ativos ou se seria apenas uma influência devido a gratificações do laboratório. O grande problema é que o lançamento da página revelou relações muito mais sórdidas, nas quais médicos tinham até almoços e jantares bancados por gigantes da indústria farmacêutica.

O assunto, obviamente, tornou-se um prato cheio para jornalistas americanos, que se puseram a vasculhar os dados publicados e realizaram uma infinidade de reportagens sobre médicos e seus acordos lucrativos.

Respingos no jornalismo

Em seu artigo, Thacker suscitou uma questão que vai muito além do interesse jornalístico em divulgar esquemas de corrupção no sistema de saúde americano. Ele diz que o referido site pode acabar revelando conflitos de interesse no próprio jornalismo.

Sendo mais específico, ele observou que muitos dos médicos presentes no polêmico banco de dados oferecem consultoria regular em canais de TV como Fox News, ABC News e CBS News. Dentre eles, estariam rostos conhecidos pelos telespectadores norte-americanos: Jonathan LaPook, professor de medicina na Universidade de Nova York e correspondente do programa CBS Evening News; Jennifer Ashton, correspondente da ABC News e habitué no programa Good Morning America; e Keith Ablow, da Fox News.

Questionado, Jonathan La Pook respondeu que sua política é de não aceitar qualquer tipo de gratificação, seja como jornalista ou como médico. Ele disse que os almoços aos quais compareceu foram organizados pelo departamento do hospital onde atua. A CBS News, por sua vez, não divulgou sua política interna e disse apenas que considera o caso encerrado.

Jennifer Ashton declarou que, às vezes, recebe honorários para discursar em eventos, mas que sempre se recusou a endossar produtos.

Embora Keith Ablow não tenha se pronunciado, em 2011 ele causou polêmica ao falar sobre a influência da indústria na prática da medicina. À época, ele se desligou da Associação Psiquiátrica Americana (APA), questionando a credibilidade ética da mesma. Ablow chegou a dizer abertamente que a APA cedia às investidas das empresas farmacêuticas e que este era o grande problema do sistema de saúde americano.

Venda de influência

Thacker frisou que médicos que realizam consultorias na TV não devem de forma alguma influenciar o público com base em gratificações de laboratórios. “O código de ética da Sociedade de Jornalistas Profissionais afirma que profissionais de imprensa devem recusar ‘presentes, favores, honorários, viagens gratuitas e tratamento especial, e evitar atividades política e outras atividades externas que possam comprometer a integridade ou imparcialidade, ou que possam prejudicar a credibilidade’”, citou.

Ele reiterou, no entanto, que esta sempre foi uma prática comum e que sempre funcionou como um modo de comprar influência de médicos badalados na TV. Resta saber se, agora, ela vai resistir ao escrutínio do público.

Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Paul D. Thacker [“Database may uncover conflicts of interest for TV doctors”, Columbia Journalism Review
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Dallari faz picadinho do parecer de Gandra e FHC


O jurista Dalmo Dallari, um dos mais respeitados do País, rebateu o parecer de Ives Gandra Martins, encomendado por um advogado ligado ao Instituto Fernando Henrique Cardoso, sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Dallari concedeu entrevista à assessoria do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), que pode ser lida abaixo:

Em entrevista concedida de Paris, por telefone, à assessoria de comunicação do mandato do deputado federal Paulo Teixeira, realizada na tarde desta sexta-feira (6/2), o jurista Dalmo Dallari acusou o também jurista Ives Gandra de elaborar um parecer “absolutamente inconsistente” sugerindo a existência de elementos para a abertura de um processo de impeachment da presidenta Dilma. “Eu não vejo a mínima consistência nessa tentativa de criar uma base jurídica para o impeachment”, afirmou.

Professor emérito da Faculdade de Direito da USP e especialista em Direito do Estado, Dallari chamou de absurda a aplicação da doutrina do domínio do fato no caso Petrobras e lembrou que, se fossem seguir a lógica sugerida por Ives Gandra, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deveria perder seus direitos políticos e todos os senadores do país poderiam ser igualmente cassados. “A Constituição, no artigo 52, dá como atribuição do Senado ‘processar e julgar o Presidente e o Vice-Presidente da República nos crimes de responsabilidade’”, disse. “Portanto, se ele considera que, mesmo sem comprovação de conhecimento direto, existe a obrigação de agir, então essa obrigação existe para os senadores também.”

Na hipótese de parlamentares de oposição levarem adiante um pedido de impeachment, Dallari sugere recorrer ao Supremo Tribunal Federal com um mandato de segurança. “Uma ação visando cassar direitos sem haver nenhuma fundamentação é claramente inconstitucional”, cravou.

O sr. tomou conhecimento do parecer divulgado pelo Dr. Ives Gandra Martins? Concorda que há base jurídica para pedir o impeachment de Dilma?

Esse parecer do Dr. Ives Gandra é absolutamente inconsistente. Ele cita uma porção de artigos e leis, mas não cita um único fato que demonstre a responsabilidade da presidente Dilma. O que ele está fazendo é uma aplicação da chamada doutrina do conhecimento do fato, ou domínio do fato, e que é absolutamente absurda, não é juridicamente aceitável. Ele de fato não fez a mínima demonstração, nem por via direta ou indireta, de que a presidente tivesse conhecimento do que ocorria de irregular dentro da Petrobras, de maneira que eu não vejo a mínima consistência nessa tentativa de criar uma base jurídica para o impeachment. Aliás, posso acrescentar um dado interessante. Se a base for simplesmente esta, se a obrigação de zelar pela probidade administrativa for suficiente para a cassação de um mandato, então deveriam, pela mesma lógica, ser cassados os mandatos de todos os senadores.

Por quê?

Porque a Constituição, no artigo 52, dá como atribuição do Senado “processar e julgar o Presidente e o Vice-Presidente da República nos crimes de responsabilidade”. Portanto, se ele considera que, mesmo sem comprovação de conhecimento direto, existe a obrigação de agir, então essa obrigação existe para os senadores também. Coerentemente, ele deveria propor a cassação do mandato de todos os senadores por crime de responsabilidade, o que é evidente absurdo. Há um jogo evidentemente político tentando criar uma aparente fundamentação jurídica que, de fato, não existe. É pura tentativa de criar uma aparência de legalidade quando o que existe é um objetivo político, nada mais.

Depoimentos recentes na delação premiada indicaram que os desvios datam de 1997 e teriam chegado ao auge em 2000. Se isso se comprovar, poderia resvalar de alguma forma no ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

É curioso que acaba de ser publicada no jornal francês Le Monde uma matéria a respeito da empresa francesa Alstom, que atua no metrô brasileiro, e que, segundo o jornal, já em 1998 praticava corrupção no Brasil. Em 1998, o presidente era o Fernando Henrique Cardoso. Então (pela mesma lógica) ele deveria perder os direitos políticos. Ele deve ser considerado conivente. Foi omisso, permitiu que uma empresa estrangeira praticasse corrupção no Brasil. Isso mostra, também, o absurdo dessa tentativa de criar uma imagem de responsabilidade jurídica quando não há de fato nenhum fundamento para essa responsabilização.

O sr. está acompanhando o processo da Petrobras de Paris? Que avaliação o sr. faz dos encaminhamentos recentes?

Estou acompanhando. Verifiquei um dado muito interessante, num artigo do Janio de Freitas, que vai frontalmente contra as afirmações do parecer do Ives Gandra, quando ele diz que a presidente destruiu a Petrobras. Uma compilação de dados de agora mostra que, em 2014, a Petrobras obteve proveitos excepcionais. Ela cresceu muito. Não houve essa destruição que é expressamente referida no parecer de Ives Gandra. É mais um elemento para demonstrar que essa argumentação é inconsistente. Isso apenas revela uma tentativa de políticos inconformados porque perderam a eleição e não conseguem retornar ao poder. No caso do Ives Gandra, ele pura e simplesmente recebeu para fazer um parecer dizendo isso. Toda a carreira dele é no sentido de uma posição de estrema direita, ultraconservadora, de maneira que tudo isso faz com que seu parecer não tenha nenhuma importância jurídica.

Numa especulação rasteira, se a oposição levar adiante qualquer tipo de proposta de impeachment, como o sr. acha que vai se dar o debate?

Acho que caberia um mandato de segurança, uma ação no Supremo Tribunal Federal bloqueando essa iniciativa por absoluta falta de fundamento jurídico. Aí, sim, o cabimento é tranqüilo, direto, indiscutível. Uma ação do Parlamento visando cassar direitos sem haver nenhuma fundamentação é claramente inconstitucional. Então caberia um mandato de segurança para a sustação de um projeto nesse sentido.

No 247
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O frustrante início do segundo governo Dilma


Em casa que falta pão todo mundo fala e ninguém tem razão. De certo modo, é o clima no Palácio do Planalto após a demissão da diretoria da Petrobras.

Acusa-se a ex-presidente Graça Foster de ter colocado seus interesses específicos acima dos interesses do país e da própria empresa e não providenciado uma defesa adequada para a Petrobras.

Por exemplo, como parte no inquérito da Lava Jato, a Petrobras teria acesso aos depoimentos e poderia ter armado uma batalha de contrainformação. Mas nada fez. Em nenhum momento esboçou uma estratégia de defesa no campo da comunicação, como ocorreu em outros momentos — na época dos pesados ataques das Organizações Globo contra a empresa.

Graça teria impedido qualquer ação da comunicação, a ponto de proibir ligações de alguns funcionários-chave para o próprio Palácio. As únicas defesas da Petrobras — reclama-se no Palácio — foram tijolões publicados nos jornais, escritos pela própria Graça, muito mais em defesa dela do que da empresa.

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Nesse tempo todo, quem foi a única pessoa que defendeu a Petrobras? indaga-se no Palácio. Foi Dilma na campanha eleitoral, defendendo o projeto Petrobras, a importância do modelo de partilha e dos fundos para saúde e educação.

Desde que foi envolvida — indevidamente — na Lava Jato, de fato, Graça Foster tratou de defender sua pele. Mas a ânsia de se desvencilhar do passado visava, também, blindar Dilma Rousseff.

O ápice desse movimento foi a maluquice em imputar todo o ajuste contábil — de R$ 88 bilhões — à corrupção, que deve ter envolvido de R$ 2 bi a R$ 3 bi dos fornecedores.

Ora, se desde o ano passado era evidente a falta de equilíbrio emocional de Graça para administrar a crise, porque se postergou tanto a decisão de demiti-la?

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Aí se entra na paralisia que toma conta do governo Dilma.

Do primeiro para o segundo governo, ocorreram apenas duas mudanças.

A primeira, a autonomia inédita que Dilma concedeu ao Ministro da Fazenda Joaquim Levy — autonomia que Guido Mantega (felizmente) nunca gozou.

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A segunda mudança  foi o fato de ter se cercado de um pequeno conselho de coordenação, composto pelo Ministro Chefe da Casa Civil Aloizio Mercadante, pelo Ministro da Defesa Jacques Wagner, pelo Ministro da Secretaria Geral da Presidência Miguel Rosseto e pelo assessor especial Giles Azevedo, Na preparação da eleição da mesa da Câmara, incorporaram-se o Ministro das Comunicações Ricardo Berzoini e Pepe Vargas, das Relações Institucionais.

Desde os primeiros experimentos de Clóvis Carvalho no governo FHC mas, principalmente, após Lula, o governo havia aprendido a trabalhar de forma interministerial. Houve enormes avanços no modelo de gestão, com cada Ministro atuando como solista em sua área, mas diversos conselhos facilitando os programas interministeriais e a interação com a sociedade civil.

O primeiro governo Dilma tornou-se mais fechado e centralizado do que em qualquer outro momento da história recente,

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O pequeno conselho é um avanço em relação ao monocratismo do primeiro governo Dilma. Mas é um avanço muito tímido.

Com exceção do segundo governo FHC — que terminou no primeiro mês, com a crise cambial — poucas vezes se teve um início de governo tão frustrante como o atual.

Luís Nassif
No GGN
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Dilma em seu labirinto

O segundo mandato presidencial de Dilma Rousseff completa hoje exatos e redondos 37 dias. E não houve um só deles sem que surgisse algum tipo de problema. Há ainda outra característica inquietante neste quadro: além de somarem-se a problemas já existentes, cada novo parece mais grave que os anteriores.

Enquanto isso, o governo mostra que não sabe como reagir. E quando reage, o faz mal, ou além de mal, tardiamente.

Nesta altura, nestes escaços 37 dias sobram razões para pensar que a equipe montada por Dilma para fazer a articulação política de seu segundo mandato merece ser plenamente estudada e analizada, como exemplo olímpico do que não se deve fazer. Os resultados até agora são uma sequencia de erros e de derrotas que confirmam um emaranhado paralizante. Lento, atônito e sem um rumo claro, é como se o governo de Dilma tivesse encontrado um cenário cheio de armadilhas, fios soltos, de temas ocultos, tudo isso herdado do presidente anterior. Mas sequer essa desculpa pode ser apresentada: ao fim e ao cabo, a presidente anterior era ela mesma Dilma, que agora parece perdida em um escuro labirinto.

Ontem ela recibeu em seu despacho no Palácio do Planalto o novo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. O presidente reeleito do Senado, Renan Calheiros, participou do encontro que durou hora e meia e se juntaram ao redor da mesa o vice-presidente Michel Temer, o chefe de Gabinete, Aloísio Mercadante, e o ministro de Relações Institucionais, Pepe Vargas. Tudo transcureu em um clima formal, frio. Na saída mão houve declarações, mas as fontes habituais, cuja missão é filtrar algo para a mídia, disseram que o encontro serviu para estabelecer “um diálogo permanente” entre o Executivo e o Legislativo, para asegurar que haja armonia entre os poderes.

Ou seja, palavras ao vento. Cunha propiciou no domingo passado uma derrota humilhante à Dilma, a seu governo e ao PT, ao eleger-se para um posto no qual poderá criar oceanos de dificultades para depois cobrar o preço que quizer para vender facilidades. E suas primeiras ações foram exemplares do que poderá — ou não — vir de agora em diante. Para começar, deu luz verde para que fosse aprovado o pedido apresentado pela oposição, criando uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito sobre os escândalos de corrupção na Petrobras. No Brasil, as CPIs tem tanto poder como um Tribunal de Justiça, com a vantagem de atuar de maneira muito mais ágil e mais rapidamente.

No mandato anterior teve uma Comissão dessas, mas o governo de Dilma conseguiu neutralizá-la. Agor, ninguém sabe o que vai acontecer. O presidente da Câmara, apesar de pertencer a um partido aliado, é claro opositor do governo. Além disso, as denúncias se intensificaram de maneira formidável e a cada dia as investigações avançam mais, acercando-se perigosamente da cúpula do PT. Há outros partidos envolvidos, inclusive o PSDB da oposição. Mas tudo o que a Justiça e a Polícia Federal vazam para a imprensa tem como foco central o partido de Lula e Dilma.

Se o progresso das investigações e o vazamento cotidiano de novas revelações (por enquanto, ninguém pode provar nada, mas fica evidente que houve um amplo esquema de corrupção que funcionou ao longo de pelo menos dez anos) preocupam cada vez mais o PT e ao governo, uma CPI terá, sob muitos aspectos, a capacidade de ser uma usina geradora de problemas.

É muito difícil saber se todo esse quadro poderia ter sido evitado, se Dilma fosse uma negociadora hábil e se não tivesse escolhido uma equipe de articulação tão incompetente. Mas a imagem é clara: além de uma Câmara presidida por um deputado rebelde e capaz de qualquer coisa para em seguida mostrar seus talentos de chantagista, o país enfrenta um quadro econômico de alta complexidade pelo que será a nova política econômica de Dilma, seguramente criará tropeços sérios, que irão da recessão a incerteza sobre programas sociais e conquistas alcançadas (o Brasil tem hoje a mais baixa taxa de desemprego dos últimos 80 anos). Ao mesmo tempo, a maior empresa brasileira, a Petrobras, é bombardeada incessantemente por denúncias, chegando a insólita situação de ficar acéfala: a presidenta e quatro dos seis diretores renunciaram, contrariando o que havia sido acordado com Dilma.

O que se ve, entretanto, é um governo catatônico, um vacio desconcertante de poder, uma presidenta absolutamente decidida a não ceder (resultado: como é inevitável, se rende a realidade). Uma presidenta que leva um tempo enorme para tomar decisões, enquanto as circunstâncias as vão afogando.

O ano apenas começou, o governo recém estreado não caminha, tropeça, e há uma rede de problemas em seu caminho. A dificuldade em adotar decisões surge como uma nova característica de uma mandatária que nunca pareceu o que é agora: confusa, sem rumo. Nenhum governo resiste ao vazio de poder. Nenhum governo começa a dar resultados quando não tem capacidade de decisão.

Dilma parece imersa em um labirinto. O país parece perplexo.

Eric Nepomuceno
No Página|12
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Um judiciário safado


É muita safadeza. Vejam só:

"O jornal Valor Econômico, desta quinta-feira (5), relata, sem nenhum tom crítico, como são escandalosamente barganhadas as “delações”. A matéria com o título “Novas delações premiadas começam a ser negociadas”, revela esta trama verdadeiramente kafkiana.

Relata o Valor:
Os acusadores insistiam para que os dirigentes da Camargo Corrêa assumissem a prática de corrupção com percentual de 5% sobre os contratos celebrados pela Petrobras com a empreiteira, no período de 2004 a 2014. Mas os executivos estavam dispostos a confessar a culpa até o máximo de 2% dos contratos. Discordavam também do período de tempo em que as irregularidades aconteceram (…) As negociações evoluíram quando as duas partes cederam: os empreiteiros se dispuseram a confessar pagamento de propinas de até 3% nos contratos firmados com a estatal. O MPF teria concordado”.
Ou seja, os “delatores” dizem que a propina era de 2%, o MPF quer que eles digam que foi 5%, mas aceita 3%! Nada de investigação, nada de busca pela verdade, apenas uma reles barganha com fim político. Um fim político tão claro que o MPF exige que o período abarcado seja de 2004 até 2014, ou seja, se alguém quiser “delatar” o período FHC já está de antemão avisado que o MPF não o ouvirá, a mídia não divulgará e o prestimoso juiz Sérgio Mora não “premiará”."

Marco Antonio Araujo
No Esquerda Caviar
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Em ação, a República da Polícia Federal


A Polícia Federal invade a casa de Eike Baptista, antes mesmo que seja julgado, e apreende de tudo, até seu celular. Pula o muro da  casa do tesoureiro do PT João Vaccari Neto para levá-lo coercitivamente para depor. Delegados vazam informações seletivas para a imprensa, sem que nada ocorra. Outros são flagrados fazendo campanha para o candidato de oposição e nada acontece.

É o preço que Dilma Rousseff paga por sua teimosia e amadorismo de escolher um Ministro da Justiça pelo critério simpatia e bom papo.

Há limites para tudo: para o amadorismo, para as amizades, para a desatenção, para o descompromisso com a estabilidade.

Dilma vem ultrapassando todos esses limites de desatenção.

Provavelmente irá acordar quando um delegado do Paraná invadir o Palácio do Planalto para levar algum Ministro algemado.

Luís Nassif
No GGN
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Os dias e as noites na Guantánamo do Dr Moro


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A mensagem trazida por Bendine


Identificado com a política econômica que permitiu a Lula-Dilma acumular vitórias eleitorais, novo presidente da Petrobras recebe críticas já esperadas dos porta-vozes do mercado

A indicação de Aldemir Bendine para a presidência da Petrobras é mais positiva do que parece.

Bendine representa uma novidade na melodia exibida pela equipe econômica de Joaquim Levy. Não tem uma história ligada ao mercado, mas à política econômica que permitiu ao Brasil resistir ao colapso do capitalismo na crise de 2008-2009.

Na época, ele assumiu o Banco do Brasil para realizar uma bem sucedida política de ampliação do crédito, redução de juros e conquista de clientes que o setor privado decidira abandonar para não rebaixar seus lucros.

Nos telejornais, fala-se da queda dos papéis da Petrobras, após a nomeação de Bendine. como se este movimento, de caráter essencialmente especulativo, fosse diminuir a quantidade de arroz e feijão na mesa dos brasileiros.

É uma tentativa de despolitizar um debate importante.

A indicação do presidente da Petrobras, ainda mais numa conjuntura como a atual, tem um componente político inevitável. É um posto que define rumos, fortalece determinadas opções e pode enfraquecer outras.

Do ponto de vista dos mercados, só interessava um presidente capaz de encaminhar medidas privatizantes no futuro da empresa — e até a mudança no controle, se fosse possível.

Para este ponto de vista, essa mudança seria — e é — a chave de ouro para a Lava Jato, investigação que, muito além de qualquer desvio, propina ou irregularidade, criou um ambiente artificial de catástrofe e inquisição na maior empresa brasileira. Foi isso o que ocorreu com a ENI, estatal italiana de petróleo, no capítulo final da Operação Mãos Limpas, assumida fonte inspiradora do juiz Sergio Moro.

Imagine que, em oposição a Bendine, os jornais até noticiaram que o economista Paulo Leme chegou a ser incluído entre os possíveis candidatos a dirigir a empresa.

Era uma proposta apenas risível. Não há objeção à formação de Leme, um brasileiro que fez carreira como executivo do Goldman Sachs, e tem uma experiência profissional reconhecida. A questão é que se trata de um adversário agressivo do governo desde 2002, quando Lula tornou-se favorito na sucessão de Fernando Henrique Cardoso.

Sob sua guarda, um economista do Goldman Sachs chegou a produzir uma peça de campanha antipetista chamada Lulômetro. Tratando Lula com um candidato que merecia usar o chapéu de bôbo entre os concorrentes, o Lulômetro fazia previsões apocalípticas sobre a inflação e cambio que, com o passar dos anos, tornaram-se pura anedota.

Paulo Moreira Leite
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Foi bom Dilma ter afrontado o “mercado” na sucessão na Petrobras

O “mercado” não queria este homem
Um dos lugares comuns mais imbecis do noticiário é aquele que fala em nome do “mercado”.

O mercado gostou. O mercado detestou. O mercado aprovou. O mercado rejeitou.

O mundo seria um horror se os desejos do “mercado” fossem sempre atendidos.

O “mercado” é o nome fantasia do que se pode chamar de direita.

Se a humanidade tivesse seguido as sugestões do “mercado”, viveríamos como na Revolução Industrial. Jornadas de 18 horas, crianças nas máquinas, nada de férias, nenhum direito.

Foi Bismarck, na Alemanha da segunda metade do século 19, que criou o chamado Estado de Bem Estar. Não porque fosse um homem bonzinho, mas por temer o que a esquerda alemã, sob a inspiração de um certo Karl, poderia fazer caso a classe trabalhadora continuasse a viver no inferno.

Bismarck afrontou o “mercado”.

Mais recentemente, os gregos também disseram não ao “mercado”. Eles se cansaram de dizer sim, e por conta disso viver em condições abjetas.

O “mercado” clama por austeridade. Mas austeridade para os 99%, porque para o 1% a festa continua.

No Brasil, como na Grécia, a sociedade também rejeitou o “mercado”, que queria Aécio.

Ironicamente, Dilma, a escolhida pelo voto popular, se comportou no começo de seu segundo mandato como se o “mercado” tivesse saído vitorioso nas urnas.

Joaquim Levy é o símbolo disso.

O novo presidente da Petrobras traz uma novidade: é a primeira vez, da Dilma 2, em que o “mercado” é rejeitado.

Vamos resumir. Se o “mercado” fosse bom assim, o mundo não enfrentaria uma crise econômica que se arrasta desde 2008.

Porque esta crise veio exatamente do “mercado”. Ele impôs, e Thatcher foi chave nisso, desregulamentações em série nos bancos.

Resultado: entregues à própria ganância, traduzida em bônus milionários, e sem fiscalização de qualquer espécie, os banqueiros começaram a fazer operações cada vez mais perigosas.

Num certo momento, tais operações se tornaram suicidas – emprestar maciçamente a quem talvez não tivesse condições de honrar os empréstimos.

Veio a quebradeira dos bancos, em 2008 — e com ela o colapso na economia global que ainda vemos hoje.

O dinheiro do contribuinte salvou os grandes bancos nos Estados Unidos e na Europa desenvolvida — Alemanha, Reino Unido e França.

O “mercado” mandava desregulamentar, e assim se fez.

Em todo o mundo, há um cansaço com o “mercado” — pelas enrascadas em que ele mete quem o segue.

E pelo preço que sempre cobra em ações sociais. Quando virou ministra da Educação, antes de se tornar premiê, a primeira ação de Thatcher, a Rainha do “Mercado”, foi cortar o leite que era fornecido às crianças nas escolas britânicas.

Não surpreende a festa que os ingleses fizeram quando ela morreu. Cobri uma delas, em Trafalgar Square, no centro de Londres, e posso garantir que a animação não era pequena.

É positiva a escolha do novo presidente da Petrobras quando mais não seja pelo não submissão ao “mercado”.

Se dependesse dele, a Petrobras desde FHC teria o destino da Sabesp — que, em bom pedaço privatizada, deu grandes lucros aos acionistas até não dar mais água aos paulistas.

Paulo Nogueira
No DCM
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Sérgio Porto # 129


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Essa é do Barão... 187


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