17 de jan de 2015

Se esses 4 são contra, o papa só pode estar certo


Num movimento que parece orquestrado, quatro fundamentalistas da imprensa brasileira (Reinaldo Azevedo, Guilherme Fiúza, José Roberto Guzzo e Ricardo Noblat) decidiram liderar uma guerra santa contra o papa Francisco; o motivo: o fato de o pontífice declarar que as religiões não devem ser insultadas, após condenar o ataque à redação do Charlie Hebdo; para os jihadistas da imprensa brasileira, a liberdade de expressão deve ser encarada como um valor absoluto, mesmo que essa não seja a realidade da França (basta pensar no humorista Dieudonné) nem dos Estados Unidos (alô, Wikileaks); ordem do Instituto Millienium?

Cartilha do Instituto Millenium

Nem todo mundo sabe, mas as famílias Civita e Marinho são sócias e mantenodoras do Instituto Millenium, um think tank criado para tentar organizar o "pensamento correto" da elite brasileira. É desse instituto, apoiado também por empresas como a Gerdau, que saem os Fiúzas, Mainardis, Magnolis, Guzzos, Contantinos e afins.

Pode-se imaginar que os quatro colunistas tenham tido a ideia simultânea de iniciar sua guerra santa contra o papa Francisco — hoje, uma das figuras mais populares e admiradas do mundo. Mas também não deve ser descartada a hipótese de uma blitz coordenada, como ocorreu em Paris com o ataque ao Charlie Hebdo e ao mercado judaico.

Se você não quiser refletir muito sobre as declarações do papa Francisco, nem é preciso. Basta olhar para quem levantou a voz contra suas declarações. Se os jihadistas da imprensa brasileira estão contra o papa, não tenha nenhuma dúvida: ele só pode estar certo.

No 247



Demorou para Francisco ser atacado pela imprensa

Francisco está certo e eles errados
Francisco está certo e eles errados

Finalmente a mídia começou a criticar o Papa Francisco.

Demorou, visto que o papa representa o exato oposto daquilo pelo que se batem os donos das grandes empresas jornalísticas.

Desde o primeiro momento de seu pontificato, Francisco tomou o partido dos pobres. Em quase todos os seus pronunciamentos, ele investe contra a desigualdade social.

Francisco captou magistralmente o Zeitgeist, o espírito do tempo. Com sua pregação vigorosa e ainda assim bem humorada pela igualdade ele retirou o Vaticano das sombras da irrelevância em que sucessivos papas inoperantes o atiraram.

O motivo encontrado pela mídia para atacá-lo foram suas declarações sobre os limites da liberdade de expressão, no rastro do caso do jornal Charlie Hebdo.

Evidentemente, Francisco está certo e seus críticos errados.

A liberdade de expressão tem limites. Isso não significa aprovar o massacre dos cartunistas, como aliás fez questão de dizer Francisco.

Mas que há limites, isso é inegável.

Há cem anos, aproximadamente, o juiz americano Oliver Wendell Holmes, da Suprema Corte, colocou isso brilhantemente.

Você não pode gritar fogo num auditório cheio e depois alegar liberdade de expressão, escreveu Holmes. (Outra frase de Holmes que colide com nossos barões da sonegação: “Imposto é o preço que pagamos por uma sociedade civilizada.”)

Hoje, na maior parte dos países ocidentais desenvolvidos, você pode ser enquadrado como defensor do terrorismo caso diga ou escreva certas coisas.

Indo para o mundinho cotidiano das redações das companhias jornalísticas brasileiras, a liberdade de expressão de cada jornalista significa a concordância com a essência das ideias dos donos.

É uma regra não escrita, e não admitida pelos colunistas, mas é perfeitamente entendida, respeitada, acatada e seguida.

É o chamado colunismo patronal, ou chapa branca, ou pelego. Ironicamente, os colunistas patronais são aqueles que mais lançam acusações contra jornalistas independentes do mundo digital.

É como se estivessem olhando o espelho. Sua função é defender os interesses econômicos dos patrões e amigos.

O papa já manifestou desprezo por este tipo de mídia. Ele sabe quanto ela contribuiu para a desigualdade econômica, da qual tira um proveito indecente.

Francisco é uma voz poderosa contra tudo isso. Por isso é atacado. Quanto mais ele for atacado, melhor ele estará fazendo o precioso trabalho de combater a iniquidade que envergonha o Brasil e, de forma geral, a humanidade.

Que venham mais pancadas contra ele por parte dos colunistas patronais, portanto.

Paulo Nogueira
No DCM
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Cocaína e a hipocrisia da mídia oligárquica


Há mais ou menos uma semana não se fala em outra coisa na mídia oligárquica: o fuzilamento, já ocorrido hoje por conta do governo da Indonésia, do brasileiro Marco Archer, por tráfico de 13,4 kg de cocaína.

Preso há mais de 10 anos e condenado à pena de morte, Archer teve diversos pedidos de clemência negados, o último feito ontem pela Presidenta Dilma.

Como sói acontecer, o ponto central da questão foi desviado: do tráfico de drogas passamos a discutir a pena de morte. O crime cometido por Archer é tacitamente aceito por todos, mas a condenação não. Logo, diz a mídia oligárquica, vamos falar apenas da condenação e não do crime.

E nisso reside a hipocrisia: se todos admitem que traficar é um crime grave — mas não tão grave para uma pena de morte — a pergunta é: por que o tráfico do 450 kg apreendidos pela Polícia Federal em um helicóptero até hoje está sem resposta? Onde está a mesma mídia oligárquica que alardeia o caso Archer e nada faz para que todos os envolvidos no caso do helicóptero sejam presos e julgados?

A razão é simples e todos sabemos qual é: quando tem gente “graúda” envolvida — e protegida pela mídia oligárquica — convém silenciar.

E assim todos discutem a pena de morte por 13 kg e seguem esquecendo dos 450 kg…

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O perfil de Marco Archer por um jornalista que conversou com ele 4 dias na prisão

Nos bons tempos
O reporter Renan Antunes de Oliveira entrevistou Marco Archer em 2005, numa prisão na Indonésia. Abaixo, seu relato:

O carioca Marco Archer Cardoso Moreira viveu 17 anos em Ipanema, 25 traficando drogas pelo mundo e 11 em cadeias da Indonésia, até morrer fuzilado, aos 53, neste sábado (17), por sentença da Justiça deste país muçulmano.

Durante quatro dias de entrevista em Tangerang, em 2005, ele se abriu para mim: “Sou traficante, traficante e traficante, só traficante”.

Demonstrou até uma pontinha de orgulho: “Nunca tive um emprego diferente na vida”. Contou que tomou “todo tipo de droga que existe”.

Naquela hora estava desafiante, parecia acreditar que conseguiria reverter a sentença de morte.

Marco sabia as regras do país quando foi preso no aeroporto da capital Jakarta, em 2003, com 13,4 quilos de cocaína escondidos dentro dos tubos de sua asa delta. Ele morou na ilha indonésia de Bali por 15 anos, falava bem a língua bahasa e sentiu que a parada seria dura.

Tanto sabia que fugiu do flagrante. Mas, acabou recapturado 15 dias depois, quando tentava escapar para o Timor do Leste. Foi processado, condenado, se disse arrependido. Pediu clemência através de Lula, Dilma, Anistia Internacional e até do papa Francisco, sem sucesso. O fuzilamento como punição para crimes é apoiado por quase 70% do povão de lá.

Na mídia brasileira, Marco foi alternadamente apresentado como “um garoto carioca” (apesar dos 42 anos no momento da prisão), ou “instrutor de asa delta”, neste caso um hobby transformado na profissão que ele nunca exerceu.

Para Rodrigo Muxfeldt Gularte, 42, o outro brasileiro condenado por tráfico, que espera fuzilamento para fevereiro, companheiro de cela dele em Tangerang, “Marco teve uma vida que merece ser filmada”.

Rodrigo até ofereceu um roteiro sobre o amigo à cineasta curitibana Laurinha Dalcanale, exaltando: “Ele fez coisas extraordinárias, incríveis”.

O repórter pediu um exemplo: “Ué, viajou pelo mundo todo, teve um monte de mulheres, foi nos lugares mais finos, comeu nos melhores restaurantes, tudo só no glamour, nunca usou uma arma, o cara é demais”.

Para amigos em liberdade, que trabalharam para soltá-lo, o que aconteceu teria sido “apenas um erro”, do qual ele estaria arrependido.

Na versão mais nobre, seria a tentativa desesperada de obter dinheiro para pagar uma conta de hospital pendurada em Cingapura — Marco estaria preocupado em não deixar o nome sujo naquele país.

Com esta ficha corrida, a campanha pela sua liberdade nunca decolou das redes sociais. A mãe dele, dona Carolina, conseguiu o apoio inicial de Fernando Gabeira, na Câmara Federal, com voto contra de Jair Bolsonaro.

O Itamaraty e a presidência se mexeram cada vez que alguma câmera de TV foi ligada, mesmo sabendo da inutilidade do esforço.

Mesmo desafiador, ele deixou transparecer que tudo seria inútil, porque falava sempre no passado, em tom resignado: “Não posso me queixar da vida que levei”.

Marco me contou que começou no tráfico ainda na adolescência, diretamente com os cartéis colombianos, levando coca de Medellín para o Rio de Janeiro. Adulto, era um dos capos de Bali.

O homem preso por narcotráfico passou a maior parte da entrevista chapado, o consumo de drogas em Tangerang era uma banalidade.

Pirado, Marco fazia planos mirabolantes — como encomendar de um amigo carioca uma nova asa, para quando saísse da cadeia.

Nos momentos de consciência, mostrava que estava focado na grande batalha: “Vou fazer de tudo para sair vivo desta”.

Marco era um traficante tarimbado: “Nunca fiz nada na vida, exceto viver do tráfico”. Gabava-se de não ter servido ao Exército, nem pagar imposto de renda. Nunca teve talão de cheques e ironizava da única vez numa urna: “Minha mãe me pediu para votar no Fernando Collor”.

A cocaína que ele levava na asa tinha sido comprada em Iquitos, no Peru, por 8 mil dólares o quilo, bancada por um traficante norte-americano, com quem dividiria os lucros se a operação tivesse dado certo: a cotação da época da mercadoria em Bali era de 3,5 milhões de dólares.

Marco me contou, às gargalhadas, sua “épica jornada” com a asa cheia de drogas pelos rios da Amazônia, misturado com inocentes turistas americanos. “Nenhum suspeitou”. Enfim chegou a Manaus, de onde embarcou para Jakarta: “Sair do Brasil foi moleza, nossa fiscalização era uma piada”.

Na chegada, com certeza ele viu no aeroporto indonésio um enorme cartaz avisando: “Hukuman berta bagi pembana narkotik’’, a política nacional de punir severamente o narcotráfico.

“Ora, em todo lugar do mundo existem leis para serem quebradas”, me disse, mostrando sua peculiar maneira de ver as coisas: “Se eu fosse respeitar leis nunca teria vivido o que vivi”.

Ele desafiou o repórter: “Você não faria a mesma coisa pelos 3,5 milhões de dólares”?

Para ele, o dinheiro valia o risco: “A venda em Bali iria me deixar bem de vida para sempre” — na ocasião, ele não falou em contas hospitalares penduradas.

Marco parecia exagerar no número de vezes que cruzou fronteiras pelo mundo como mula de drogas: “Fiz mais de mil gols”. Com o dinheiro fácil manteve apartamentos em Bali, Hawai e Holanda, sempre abertos aos amigos: “Nunca me perguntaram de onde vinha o dinheiro pras nossas baladas”.

Marco guardava na cadeia uma pasta preta com fotos de lindas mulheres, carrões e dos apartamentos luxuosos, que seriam aqueles onde ele supostamente teria vivido no auge da carreira de traficante.

Num de seus rolés pelo mundo ele fez um cursinho de chef na Suiça, o que foi de utilidade em Tangerang. Às vezes, cozinhava para o comandante da cadeia, em troca de regalias.

Eu o vi servindo salmão, arroz à piemontesa e leite achocolatado com castanhas para sobremesa. O fornecedor dos alimentos era Dênis, um ex-preso tornado amigão, que trazia os suprimentos fresquinhos do supermercado Hypermart.

Marco queria contar como era esta vida “fantástica” e se preparou para botar um diário na internet. Queria contratar um videomaker para acompanhar seus dias. Negociava exclusividade na cobertura jornalística, queria escrever um livro com sua experiência — o que mais tarde aconteceu, pela pena de um jornalista de São Paulo. Um amigo prepara um documentário em vídeo para eternizá-lo.

Diplomatas se mexeram nos bastidores para tentar comprar uma saída honrosa para Marco. Usaram desde a ajuda brasileira às vítimas do tsunami até oferta de incremento no comércio, sem sucesso. Os indonésios fecharam o balcão de negócios.

O assessor internacional de Dilma, Marco Aurélio Garcia, disse que o fuzilamento deixa “uma sombra” nas relações bilaterais, mas na lateral deles o pessoal não tá nem aí.

A mãe dele, dona Carolina, funcionária pública estadual no Rio, mexeu os pauzinhos enquanto deu para livrar o ‘garotão’ da enrascada, até morrer de câncer, em 2008.

As visitas dela em Tangerang eram uma festa para o staff da prisão, pra quem dava dinheiro e presentes, na tentativa de aliviar a barra para o filhão.

Com este empurrão da mamãe Marco reinou em Tangerang, nos primeiros anos — até ser transferido para outras cadeias, à espera da execução.

Eu o vi sendo atendido por presos pobres que lhe serviam de garçons, pedicures, faxineiros. Sua cela tinha TV, vídeo, som, ventilador, bonsais e, melhor ainda, portas abertas para um jardim onde ele mantinha peixes num laguinho. Quando ia lá, dona Carola dormia na cama do filho.

Marco bebia cerveja geladinha fornecida por chefões locais que estavam noutro pavilhão. Namorava uma bonita presa conhecida por Dragão de Komodo. Como ela vinha da ala feminina, os dois usavam a sala do comandante para se encontrar.

A namorada
A namorada
A malandragem carioca ajudou enquanto ele teve dinheiro. Ele fazia sua parte esbanjando bom humor. Por todos os relatos de diplomatas, familiares e jornalistas que o viram na cadeia de tempos em tempos, Marco, apelidado Curumim em Ipanema, sempre se mostrou para cima. E mantinha a forma malhando muito.

Para ele, a balada era permanente. Nos últimos anos teve várias mordomias, como celular e até acesso à internet, onde postou algumas cenas.

Um clip dele circulou nos últimos dias — sempre sereno, dizendo-se arrependido, pedindo a segunda chance: “Acho que não mereço ser fuzilado”.

Marco chegou ao último dia de vida com boa aparência, pelo menos conforme as imagens exibidas no Jornal Hoje, da Globo. (assista abaixo)

Numa gravação por telefone, ele ainda dava conselhos aos mais jovens, avisando que drogas só podem levar à morte ou à prisão.

Sua voz estava firme, parecia esperar um milagre, mesmo faltando apenas 120 minutos pra enfrentar o pelotão de fuzilamento — a se confirmar, deixou esta vida com o bom humor intacto, resignado.

Sabe-se que ele pediu uma garrafa de uísque Chivas Regal na última refeição e que uma tia teria lhe levado um pote de doce-de-leite.

O arrependimento manifestado nas últimas horas pode ser o reflexo de 11 anos encarcerado, afinal, as pessoas mudam.

Para mim, o homem só disse que estava arrependido de uma única coisa: de ter embalado mal a droga, permitindo a descoberta pela polícia no aeroporto.

“Tava tudo pronto pra ser a viagem da minha vida”, começou, ao relatar seu infortúnio.

Foi assim: no desembarque em Jakarta, meteu o equipamento no raio x. A asa dele tinha cinco tubos, três de alumínio e dois de carbono. Este é mais rijo e impermeável aos raios: “Meu mundo caiu por causa de um guardinha desgraçado”, reclamou.

“O cara perguntou ‘por que a foto do tubo saía preta’? Eu respondi que era da natureza do carbono. Aí ele puxou um canivete, bateu no alumínio, fez tim tim, bateu no carbono, fez tom tom”.

O som revelou que o tubo estava carregado, encerrando a bem-sucedida carreira de 25 anos no narcotráfico.

Marco ainda conseguiu dar um frible nos guardas. Enquanto eles buscavam as ferramentas, ele se esgueirou para fora do aeroporto, pegou um prosaico táxi e sumiu. Depois de 15 dias pulando de ilha em ilha no arquipélago indonésio passou sua última noite em liberdade num barraco de pescador, em Lombok, a poucas braçadas de mar da liberdade.

Acordou cercado por vários policiais, de armas apontadas. Suplicou em bahasa, tiveram misericórdia dele.

No sábado, enfrentou pela última vez a mesma polícia, mas desta vez o pessoal estava cumprindo ordens de atirar para matar.

Foi o fim do Curumim.

No DCM



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Um “Feliz 2015″ sem TV!


Tenho duas certezas sobre TV. A primeira é que ela faz mais mal do que bem. Absorver informação pelos canais tradicionais, abertos ou a cabo, é tão saudável quanto ingerir fast-food. Em um mundo onde qualquer fonte de informação ou entretenimento produzida pela humanidade está disponível pra ser acessada a qualquer hora e lugar, gastar tempo com novela, Jornal Nacional ou reality shows é, no mínimo, equivalente a ter uma dieta com pouco valor “nutricional”.

A segunda é que seus dias estão contados. A TV vai acabar. Não a tela dominando a sua sala. Ele vai continuar lá, cada vez maior e mais cheia de pixels. Me refiro ao fim da TV no seu paradigma de negócio atual, onde poucas organizações controlam o privilégio de transmitir conteúdo nessa tela dominante da sua sala.

Por estas duas certezas, resolvi expurgar a TV da minha vida em 2015.

Vai ser bom pra minha vida, porque ganharei mais tempo útil para fazer outras coisas. Vai ser bom pra minha mente, pois vou buscar outras fontes de informação para rechear a tela gigante em minha sala. Vai ser bom pros meus negócios, porque vou entender cada vez mais a “geração pós-TV”, composta por uma infinidade de pessoas que, muito antes do que eu, já organiza o seu consumo de informação e entretenimento audiovisual de uma maneira independente do que nos é oferecido pela TV aberta e por assinatura.

Toda semana vou compartilhar aqui no youPIX o que estou aprendendo neste 2015 sem TV. Falarei sobre o que assisti, sobre equipamentos e soluções que facilitaram esta minha nova rotina ou ainda sobre movimentos do mercado que sinalizam esta implosão no “mercado de TV como conhecemos”. Afinal, trabalho com isso. Me ofereço para ser a sua cobaia. Ou um enviado especial para este novo mundo onde cada vez mais pessoas não têm a menor ideia de quem são os artistas famosos da novela ou os novos aspirantes a celebridades apresentados pelos reality shows.

Chromecast + YouTube

Na minha rotina, uso bastante o Chromecast pra preencher a programação de vídeos semanais. O que normalmente faço é marcar um vídeo de YouTube mais longo usando o recurso “assistir depois”. Assim, crio uma fila de conteúdo que trombei ao longo do meu dia, seja no celular ou no computador, mas não era o momento certo pra parar e assistir. Daí acesso essa lista pela TV + Chromecast no meu “momento sofá”, vendo todas estas coisas mais longas em uma tela maior e com mais conforto. O destaque desta minha semana foi a playlist de biologia do canal Khan Academy em Português. A Minha Senhora tirou sarro porque voltei a assistir aulas com conteúdo de quinta série. E eu simplesmente respondi: quando estava na quinta série não tinha experiência e maturidade para entender como bactérias são seres fantásticos.

AppleTV + Itunes

Nem só de YouTube vive um cidadão do mundo pós-TV. Para alguns momentos, doses mais elaboradas de entretenimento são necessárias. E, nesta semana, a loja da Apple se revelou uma bela parceira. O destaque fica com a promoção de documentários, com vários títulos podendo ser alugados por apenas 99 centavos (de dólar). Recomendo o “Particle Fever“, contando a história da maior máquina já construída pelo homem, o LHC. Uma viagem para quem ouviu falar de átomos pela última vez na longínqua quinta série.

Participe!

Você já é ou pretende se tornar um ser humano pós-TV? Me envie sua experiência, dicas e dúvidas no email mrmanson@youpix.com.br ou aqui nos comentários. E não deixe de voltar neste website semana que vem para saber o que aconteceu comigo em mais uma semana sem TV. Será que vou sucumbir e ligar para minha corporação de TV a cabo predileta e pedir o plano super-HD-ultra-plus de volta? Não perca as cenas do próximo capítulo!




Je Suis YouTubê


Como usar o Youtube pra substituir os canais de notícia da televisão e ficar ainda mais bem informado

Semana 2 desta coluna/reality show que certamente nunca será televisionada. Como poucos ainda sabem, em 2015 decidi eliminar a TV aberta e fechada da minha vida. Agora só consumo conteúdo em vídeo via internet e explico algumas das razões na coluna inaugural acima.

Alguns podem se perguntar: é possível se manter ligado nos fatos do Brasil e do mundo sem TV? Jovens, posso vos garantir que estou me sentindo muito melhor informado do que quem fica ligado na GloboNews e outras opções que o cabo nos oferece.

Uso como exemplo o atentado terrorista na França, assunto que dominou esta semana. Tive o privilégio de acompanhar as primeiras imagens, ainda sem interpretações de jornalistas, em canais do YouTube como a Agence France Presse Brasil e Associated Press. “Hard news” na veia.

Depois das primeiras imagens, consegui contar com a diversidade de opiniões e contextos culturais. Curto muito o canal da Al Jazeera em inglês e o Russia Today. Além de darem visão diferente da nossa mídia “judaico-cristã-ocidental”, ambos são feitos especialmente para a plataforma, ao contrário de algumas TVs que usam o YouTube apenas como repositório de matérias antigas e divulgação de programas.

Falando em “pensado pra YouTube”, não posso deixar de citar a Vice News. As iniciativas da Vice estão anos luz na frente das demais, tanto em aprendizado como em recursos. São coberturas que fazem a CNN parecer um dinossauro. Coloco minhas fichas na Vice como próximo grande membro do oligopólio de mídia global.

E, aqui em terras brasileiras, acompanho muito os canais do Estadão e a TV Folha. O tempero local do Diário de SP também é interessante, apesar da baixa qualidade técnica dos vídeos. Os canais de notícia brasileiros ainda estão muito fracos em notícias em cima do lance, ficando mais restritos a versões em vídeo das matérias feitas para o jornal de papel. Mas é animador ver que os impressos, naturalmente condenados a desaparecer, já estão bem na frente dos canais de TV brasileiros quando se trata de YouTube. Certamente porque a falta de dinheiro está forçando esta reinvenção.

E você? Já conseguiu montar uma rede para se informar exclusivamente pela internet? Ou acha que GloboNews ainda tem a sua relevância para justificar o custo pacote da TV a cabo? Comenta aí ou me manda um email: mrmanson@youpix.com.br.

Wagner Martins
No youpix
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Morre, em Brasília, o jornalista Oswaldo Buarim Jr.

Buarim trabalhou na Casa Civil e na campanha eleitoral de Dilma Rousseff. Presidenta se solidarizou com a família

Oswaldo Buarim Jr.: morte prematura, aos 49 anos
Vítima de infarto, Oswaldo Buarim Jr. chegou a ser atendido por uma equipe médica do Samu, em casa, mas não resistiu.

Jornalista com passagens pelos principais meios de comunicação do País, Buarim atuou no “Jornal de Brasília”, “Jornal do Brasil”, revista “Época”, “Folha de S.Paulo” e “Correio Braziliense”.

Também tinha consolidado uma carreira de sucesso como assessor de comunicação nos governos do PT, inclusive na Casa Civil da Presidência da República.

Trabalhou, ainda, nas campanhas eleitorais de 2010 e 2014 como consultor do comitê da presidenta Dilma Rousseff. Atualmente, era gerente de comunicação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial.

Buarim era casado com a jornalista Marina Oliveira e deixa dois filhos: David, 9 anos, e Ciro, 23, além da enteada Mila, 16, a quem considerava como filha. Também era ex-marido da jornalista Cynara Menezes.

O velório está marcado para este domingo, 18 de janeiro, a partir das 8h, na Capela 1 do Cemitério Campo da Esperança e o enterro, previsto para às 11h30.

Leandro Fortes
No Agência PT de Notícias
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Obama alivia el bloqueo y busca los mismos objetivos de sus antecesores

El gobierno de Barack Obama implementó una serie de medidas para proceder con la normalización de relaciones con Cuba, las cuales desmantelan buena parte de la política del bloqueo del último medio siglo, pero esto fue justificado como una nueva manera de lograr los mismos objetivos de hace décadas: fomentar el cambio político y económico en la isla.

Las medidas elaboradas según la orden ejecutiva de Obama que entran en vigor a partir de este viernes anulan varias restricciones sobre comercio, viajes e intercambios bancarios establecidas por el bloqueo estadunidense durante las últimas décadas.

Entre los cambios principales: se permitirá la exportación de ciertos bienes al sector privado cubano — sobre todo materiales de construcción y aparatos y sistemas de telecomunicaciones — y se facilitará aún más el comercio de bienes agrarios y médicos; bancos estadounidenses podrán abrir cuentas en Cuba, y viajeros, empresarios y los que hacen remesas podrán usar tarjetas de crédito y débito; ya no serán necesarias licencias para ventas al sector privado cubano, ni para el envío de material a organizaciones civiles en la isla, así como también donaciones a ciertos sectores.

Más remesas

Aunque no se anula la prohibición del turismo estadunidense a la isla, ya no se requiere una licencia especial para viajar, sino simplemente la declaración de que uno viajará según los 12 rubros establecidos (para fines culturales, científicos y de educación, entre otros). Los viajeros ahora podrán usar sus tarjetas de crédito en la isla, y regresar con un total de 400 dólares en productos cubanos, que incluyen hasta 100 por persona en ron y tabaco cubanos.

Por otro lado, las nuevas medidas elevan a 2 mil por trimestre las remesas que se pueden hacer a un cubano (con excepción de ciertos funcionarios del gobierno de la isla o del Partido Comunista) y deja sin límites envíos destinados a cubanos para uso en proyectos humanitarios, de apoyo al pueblo cubano o para el desarrollo de empresas privadas, así como para organizaciones independientes que buscan promover una “transición rápida y pacífica a la democracia”, y el “fortalecimiento de la sociedad civil”.

Las nuevas medidas se implementan a poco menos de un mes del sorpresivo anuncio de ambos gobiernos de que restaurarían relaciones diplomáticas y sólo tres días después de que Washington confirmó que La Habana cumplió con su promesa de liberar a 53 prisioneros en Cuba, parte del proceso para encarrilar la normalización.

La semana entrante, una delegación encabezada por la secretaria asistente de Estado Roberta Jacobson, la diplomática encargada de las relaciones interamericanas, viajará a Cuba para proceder con el proceso de normalización, que incluye restablecer una plena relación diplomática. Si todo procede como se anticipa, se contempla que el secretario de Estado John Kerry realice una visita oficial a la isla en los próximos meses.

El gobierno de Obama reiteró que todo esto se impulsa con el propósito de promover el mismo objetivo estadounidense de siempre: el cambio en Cuba. Una declaración de la Casa Blanca sobre el inicio del proceso de normalización con la implementación de estas medidas afirma: firmemente creemos que permitir un incremento en viajes, comercio y el flujo de información hacia y desde Cuba permitirá a Estados Unidos promover mejor nuestros intereses y mejorar las vidas de cubanos ordinarios.

Agrega que la política del pasado no ha funcionado por más de 50 años, y creemos que la mejor manera de apoyar nuestros intereses y nuestros valores es a través de la apertura en lugar del aislamiento. Estados Unidos mantiene su compromiso con nuestro objetivo duradero de promover el surgimiento de una Cuba más próspera, que respete los derechos universales de todos sus ciudadanos.

Jacob Lew, el secretario del Tesoro de Estados Unidos, dependencia encargada de aplicar las nuevas medidas — junto con las secretarias de Comercio, Estado y Transporte — declaró que éstas representan un paso más hacia sustituir políticas caducas que no estaban funcionando y ponen en lugar una política que ayuda a promover la libertad política y económica para el pueblo cubano.

Aun con todo esto, el bloqueo sigue en vigor, y aún no se permitirá un flujo libre de comercio, inversión y turismo. Vale recordar que el bloqueo sólo puede ser levantado por el Congreso, algo que ha solicitado Obama pero que por ahora pocos esperan. Sin embargo, para observadores estas medidas desmantelan, en los hechos, partes fundamentales del bloqueo que se impuso en 1960, poco después del triunfo de la revolución en Cuba.

El anuncio de hoy fue recibido con las esperadas condenas de políticos cubano-estadunidenses. El senador republicano de Florida, Marco Rubio, cubano-estadounidense, afirmó que el régimen de Castro utilizará los beneficios de todo esto para financiar su represión contra cubanos, como también sus actividades contra intereses nacionales estadounidenses en América Latina y más allá.

Pero a la vez, la Cámara de Comercio de Estados Unidos, figuras políticas de un amplio espectro, organizaciones latinas y otras entidades influyentes aplaudieron el anuncio.

El giro más dramático en la relación bilateral fue fruto de negociaciones secretas durante 18 meses, algunas facilitadas por el Vaticano y, en menor grado, Canadá, las cuales culminaron el mes pasado con la liberación de un contratista estadounidense encarcelado en Cuba por violaciones a la ley, y tres agentes cubanos presos por Estados Unidos por 16 años. Eso fue seguido por una conversación telefónica directa entre Obama y su homólogo cubano, Raúl Castro, y un anuncio simultáneo a sus respectivos pueblos por ambos presidentes el día siguiente.

David Brooks
No IslaMía
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Consternada com a execução de brasileiro, Dilma chama embaixador na Indonésia para consultas

A presidenta da República Dilma Rousseff lamentou neste sábado (17) a execução do brasileiro Marco Archer ocorrida às 15h31, horário de Brasília, na Indonésia. A presidenta recebeu a notícia com indignação e consternação, segundo nota divulgada pela Secretaria de Imprensa da Presidência da República.

Mesmo consciente da gravidade do crime que levaram à condenação do brasileiro, a presidenta ainda dirigiu, pessoalmente, um apelo humanitário ao presidente indonésio, Joko Widodo, nesta sexta-feira (16) pela clemência do réu. No entanto, o pedido não foi acolhido.

A presidenta lamentou o episódio e destacou que a pena de morte, condenada crescentemente pela população mundial, afeta as relações entre Brasil e Indonésia. Dilma ainda dirigiu uma mensagem de conforto à família de Marco Archer e convocou o embaixador do Brasil em Jacarta para consultas.

Confira a nota na íntegra:

A presidenta Dilma Rousseff tomou conhecimento – consternada e indignada – da execução do brasileiro Marco Archer ocorrida hoje às 15:31 horário de Brasília na Indonésia.

Sem desconhecer a gravidade dos crimes que levaram à condenação de Archer e respeitando a soberania e o sistema jurídico indonésio, a Presidenta dirigiu pessoalmente, na sexta-feira última, apelo humanitário ao seu homólogo Joko Widodo, para que fosse concedida clemência ao réu, como prevê a legislação daquele país.

A Presidenta Dilma lamenta profundamente que esse derradeiro pedido, que se seguiu a tantos outros feitos nos últimos anos, não tenha encontrado acolhida por parte do Chefe de Estado da Indonésia, tanto no contato telefônico como na carta enviada, posteriormente, por Widodo.

O recurso à pena de morte, que a sociedade mundial crescentemente condena, afeta gravemente as relações entre nossos países.

Nesta hora, a Presidenta Dilma dirige uma palavra de pesar e conforto à família enlutada.

O Embaixador do Brasil em Jacarta está sendo chamado a Brasília para consultas.

Secretaria de Imprensa
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República
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Boaventura: a Europa à beira do estado de sítio


A liberdade de expressão e seus limites — inclusive no “Charlie Hebdo”… “Valores ocidentais” ou hipocrisia? EUA alimentam o fundamentalismo islâmico. As vidas festejadas e as vidas esquecidas

O crime hediondo que foi cometido contra os jornalistas e cartunistas do Charlie Hebdo torna muito difícil uma análise serena do que está envolvido neste ato bárbaro, do seu contexto e seus precedentes e do seu impacto e repercussões futuras. No entanto, esta análise é urgente, sob pena de continuarmos a atear um fogo que amanhã pode atingir as escolas dos nossos filhos, as nossas casas, as nossas instituições e as nossas consciências. Eis algumas das pistas para tal análise.

A luta contra o terrorismo, tortura e democracia.

Não se podem estabelecer ligações diretas entre a tragédia do Charlie Hebdo e a luta contra o terrorismo que os EUA e seus aliados travam desde o 11 de setembro de 2001. Mas é sabido que a extrema agressividade do Ocidente tem causado a morte de muitos milhares de civis inocentes (quase todos muçulmanos) e tem sujeitado a níveis de tortura de uma violência inacreditável jovens muçulmanos contra os quais as suspeitas são meramente especulativas, como consta do recente relatório apresentado ao Congresso norte-americano. E também é sabido que muitos jovens islâmicos radicais declaram que a sua radicalização nasceu da revolta contra tanta violência impune.

Perante isto, devemos refletir se o caminho para travar a espiral de violência é continuar seguindo as mesmas políticas que a têm alimentado, como é agora demasiado patente. A resposta francesa ao ataque mostra que a normalidade constitucional democrática está suspensa e que um estado de sítio não declarado está em vigor, que os criminosos deste tipo, em vez de presos e julgados, devem ser abatidos, que este fato não representa aparentemente nenhuma contradição com os valores ocidentais. Entramos num clima de guerra civil de baixa intensidade. Quem ganha com ela na Europa? Certamente não o partido Podemos, na Espanha, ou o Syriza, na Grécia.

A liberdade de expressão.

É um bem precioso mas tem limites, e a verdade é que a esmagadora maioria deles são impostos por aqueles que defendem a liberdade sem limites sempre que é a “sua” liberdade a sofrê-los. Exemplos de limites são imensos: se na Inglaterra um manifestante disser que David Cameron tem sangue nas mãos, pode ser preso; na França, as mulheres islâmicas não podem usar o hijab; em 2008 o cartunista Maurice Siné foi despedido do Charlie Hebdo por ter escrito uma crônica alegadamente antissemita. Isto significa que os limites existem, mas são diferentes para diferentes grupos de interesse. Por exemplo, na América Latina, os grandes meios de comunicação, controlados por famílias oligárquicas e pelo grande capital, são os que mais clamam pela liberdade de expressão sem limites para insultar os governos progressistas e ocultar tudo o que de bom estes governos têm feito pelo bem-estar dos mais pobres.

Aparentemente, o Charlie Hebdo não reconhecia limites para insultar os muçulmanos, mesmo que muitos dos cartuns fossem propaganda racista e alimentassem a onda islamofóbica e anti-imigrante que avassala a França e a Europa em geral. Para além de muitos cartuns com o Profeta em poses pornográficas, um deles, bem aproveitado pela extrema-direita, mostrava um conjunto de mulheres muçulmanas grávidas, apresentadas como escravas sexuais do Boko Haram, que, apontando para a barriga, pediam que não lhes fosse retirado o apoio social à gravidez. De um golpe, estigmatizava-se o Islã, as mulheres e o estado de bem-estar social. Obviamente, que, ao longo dos anos, a maior comunidade islâmica da Europa foi-se sentindo ofendida por esta linha editorial, mas foi igualmente imediato o seu repúdio por este crime bárbaro. Devemos, pois, refletir sobre as contradições e assimetrias na vida vivida dos valores que alguns creem ser universais.

A tolerância e os “valores ocidentais”.

O contexto em que o crime ocorreu é dominado por duas correntes de opinião, nenhuma delas favorável à construção de uma Europa inclusiva e intercultural. A mais radical é frontalmente islamofóbica e anti-imigrante. É a linha dura da extrema direita em toda a Europa e da direita, sempre que se vê ameaçada por eleições próximas (o caso de Antonis Samara na Grécia). Para esta corrente, os inimigos da civilização europeia estão entre “nós”, odeiam-nos, têm os nossos passaportes, e a situação só se resolve vendo-nos nós livres deles. A pulsão anti-imigrante é evidente. A outra corrente é a da tolerância. Estas populações são muito distintas de nós, são um fardo, mas temos de as “aguentar”, até porque nos são uteis; no entanto, só o devemos fazer se elas forem moderadas e assimilarem os nossos valores. Mas o que são os “valores ocidentais”?

Depois de muitos séculos de atrocidades cometidas em nome destes valores dentro e fora da Europa — da violência colonial às duas guerras mundiais — exige-se algum cuidado e muita reflexão sobre o que são esses valores e por que razão, consoante os contextos, ora se afirmam uns, ora se afirmam outros. Por exemplo, ninguém põe hoje em causa o valor da liberdade, mas já o mesmo não se pode dizer dos valores da igualdade e da fraternidade. Ora, foram estes dois valores que fundaram o Estado social de bem-estar que dominou a Europa democrática depois de segunda guerra mundial. No entanto, nos últimos anos, a proteção social, que garantia níveis mais altos de integração social, começou a ser posta em causa pelos políticos conservadores e é hoje concebida como um luxo inacessível para os partidos do chamado “arco da governabilidade”. A crise social causada pela erosão da proteção social e pelo aumento do desemprego, sobretudo entre jovens, não será lenha para a fogueira do radicalismo por parte dos jovens que, além do desemprego, sofrem a discriminação étnico-religiosa?

O choque de fanatismos, não de civilizações.

Não estamos perante um choque de civilizações, até porque a cristã tem as mesmas raízes que a islâmica. Estamos perante um choque de fanatismos, mesmo que alguns deles não apareçam como tal por nos serem mais próximos. A história mostra como muitos dos fanatismos e seus choques estiveram relacionados com interesses econômicos e políticos que, aliás, nunca beneficiaram os que mais sofreram com tais fanatismos. Na Europa e suas áreas de influência é o caso das cruzadas, da Inquisição, da evangelização das populações coloniais, das guerras religiosas e da Irlanda do Norte. Fora da Europa, uma religião tão pacífica como o budismo legitimou o massacre de muitos milhares de membros da minoria tamil do Sri Lanka; do mesmo modo, os fundamentalistas hindus massacraram as populações muçulmanas de Gujarat em 2003 e o eventual maior acesso ao poder que terão conquistado recentemente com a vitória do Presidente Modi faz prever o pior; é também em nome da religião que Israel continua a impune limpeza étnica da Palestina e que o chamado califado massacra populações muçulmanas na Síria e no Iraque.

A defesa da laicidade sem limites numa Europa intercultural, onde muitas populações não se reconhecem em tal valor, será afinal uma forma de extremismo? Os diferentes extremismos opõem-se ou articulam-se? Quais as relações entre os jihadistas e os serviços secretos ocidentais? Por que é que os jihadistas do Emirato Islâmico, que são agora terroristas, eram combatentes de liberdade quando lutavam contra Kadhafi e contra Assad? Como se explica que o Emirato Islâmico seja financiado pela Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Turquia, todos aliados do Ocidente? Uma coisa é certa: pelo menos na última década, a esmagadora maioria das vítimas de todos os fanatismos (incluindo o islâmico) são populações muçulmanas não fanáticas.

O valor da vida.

A repulsa total e incondicional que os europeus sentem perante estas mortes devem-nos fazer pensar por que razão não sentem a mesma repulsa perante um número igual ou muito superior de mortes inocentes em resultado de conflitos que, no fundo, talvez tenham algo a ver com a tragédia do Charlie Hebdo? No mesmo dia, 37 jovens foram mortos no Yemen num atentado a bomba. No ano passado, a invasão israelense causou a morte de 2000 palestinos, dos quais cerca de 1500 civis e 500 crianças. No México, desde 2000, foram assassinados 102 jornalistas por defenderem a liberdade de imprensa e, em Novembro de 2014, 43 jovens, em Ayotzinapa. Certamente que a diferença na reação não pode estar baseada na ideia de que a vida de europeus brancos, de cultura cristã, vale mais que a vida de não europeus ou de europeus de outras cores e de culturas assentes noutras religiões ou regiões. Será então porque estes últimos estão mais longe dos europeus ou são pior conhecidos por eles?

Mas o mandato cristão de amar o próximo permite tais distinções? Será porque os grande media e os líderes políticos do Ocidente trivializam o sofrimento causado a esses outros, quando não os demonizam ao ponto de fazerem pensar que eles não merecem outra coisa?

Boaventura de Sousa Santos
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De cara para a pena de morte



O vídeo de Marco Archer permite aos brasileiros encarar a realidade de um debate necessário

Devemos agradecer ao brasileiro Marco Archer pela coragem de gravar um vídeo horas antes de ser fuzilado na na Indonesia. A tragédia é conhecida: professor de asa delta, Archer tentou entrar no país com 13 quilos de cocaína escondidos na bagagem.

Iria ganhar um bom dinheiro. Agora, irá perder a vida.

Num país onde a pena morte é uma conversa abstrata, o depoimento de Archer ilustra a situação concreta. Um cidadão com rosto, voz embargada, pede pela vida.

É capaz de falar de verdades humanas — erro, arrependimento, esperança, vontade de uma segunda chance e muito medo.

Olhar para aquele rosto, no vídeo, é como contemplar um pequeno animal, sem qualquer defesa, que será abatido a tiros.

Já participei de uma caçada a raposa no interior da Argentina. Foi emocionante até o momento em que um dos cães surgiu, imenso, imponente, saudado pelos latidos selvagens da matilha de cachorros com o pequeno animal pendurado na mandíbula, braços e pernas caídos. Uma morte de desenho animado.

A pena de morte foi abolida no Brasil ainda no império, depois que a Justiça executou um inocente. O caso não é este, agora. O próprio Archer reconhece sua culpa, fala em erro gravíssimo.

Não tem nada a ver com a raposa, que morreu porque era raposa. Mas ele sabe que cometeu um erro, o que uma raposa nunca poderia saber.

A pena de morte entra e sai de nossos discursos universalmente demagógicos, ao sabor dos crimes hediondos da vida cotidiana que passam por nossos olhos. Querem provocar nossos instintos mais selvagens, de cães. Devemos agradecer a Marco Archer porque seu vídeo nos humaniza.

É um ser humano indefeso, que não pode nem fugir — como fez aquela raposa na caçada em Calafate, que deu um baile em seus perseguidores: corria atrás das árvores, sumia e reaparecia em buracos, ressurgia aos saltos lá adiante, num desespero que até parecia alegria.

Archer, o traficante, foi preso há nove anos. Imagine seus passos nas celas. Será que consegue caminhar?

Às voltas com a expansão da criminalidade ligada às drogas, o novo governo da Indonesia foi eleito com a promessa de combater o tráfico de todas as maneiras, com a mão dura da lei, que prevê a pena de morte.

O argumento é que se trata de uma promessa de campanha.

Mas a ordem de atirar para matar aquele homem que nos olha pelo vídeo, de quem eu nunca ouvira falar, que poderia passar a nosso lado na calçada, quem sabe numa fila de banco, separa toda a distância que existe entre cada ser humano e cada cão selvagem.

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Bachelet propõe comissão de alto nível para democratização da mídia


Na véspera de seu embarque para Nova York, onde presidirá o Conselho de Segurança da ONU, na segunda-feira, 19, a presidenta do Chile, Michelle Bachelet, abriu sua apertada agenda para uma reunião com a direção do Colegio de Periodistas (Ordem dos Jornalistas), que no Chile regula e normatiza o exercício profissional no setor de comunicação.

O que chamou atenção não foi a gentileza da brecha concedida pelo cerimonial, mas foram as duas horas de duração do encontro, ao que tudo indica, estratégico, e aberto com um sugestivo presente da direção da Ordem à presidenta: um exemplar do livro “Los Magnates de la Prensa”, de autoria da professora María Olivia Mönckeberg, jornalista, ensaísta, diretora do Instituto de Comunicación e Imagen, da Universidade do Chile, e Prêmio Nacional de Jornalismo de 2009.

Em conversa com a jornalista Javiera Olivares, presidente da Ordem, e os diretores Patricio Martínez, Patricio Segura, Vanessa Sabioncello e Evelyn Miller, Bachelet revelou sua preocupação com a falta de diversidade no atual mercado midiático chileno — preocupação já compartilhada pela presidenta do Senado, Isabel Allende (filha do presidente Salvador Allende, morto em setembro de 1973), ao ser consultada pelo GGN durante um café da manhã com a Associação de Correspondentes Estrangeiros no Chile, ocorrido em Santiago, em outubro de 2014.

Advertência à SIP

Naquela oportunidade, Allende admitiu que nas esferas legislativa e executiva a necessidade de um novo marco regulatório ou “ley de medios” ainda era pauta pouco qualificada. Contudo, em plano paralelo, no final do mesmo mês de outubro, Bachelet dirigiu grave reparo à 70ª assembleia anual da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), ocorrida em Santiago, dizendo: "É com preocupação que lemos, muitas vezes, como a diversidade política e social, que tingiu de novas cores o presente da nossa América, é resenhada com parcialidade ou não é retratada como um todo" — diagnóstico agravado por enérgica advertência, na mesma assembleia, protocolada por Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal): "Vocês são parte de uma indústria na qual se verifica uma paulatina concentração da propiedade. Realidade global que pode infligir danos irreparáveis à pluralidade e à saudável diversidade de olhares. Aqui está um tremendo desafio a enfrentar".

O “cerco comunicacional” no Chile

Comparativamente, com seus 17 milhões de habitantes e seu PIB de 277,0 bilhões de dólares (2014), o Chile é um país pequeno, mas com notável taxa de concentração de bens e capitais, como reflete o mercado da comunicação.

Neste, a imprensa escrita é controlada pelo “duopólio” El Mercurio S.A. e o Grupo Copesa, editor do jornal La Tercera; o primeiro desgraçadamente associado à dinastia Edwards, financiada pela CIA para derrubar o governo democraticamente eleito de Salvador Allende (leia mais em Especial: El Mercurio no banco dos réus), e o segundo pertencente ao empresário de origem árabe, Álvaro Saieh, dono de supermercados, bancos e grande parte do mercado de revistas. Juntos, os Edwards e os Saieh embolsam 87% da verba publicitária do governo, destinada aos meios impressos.

Metade, redondos 50% das frequências de rádio, estão em mãos do grupo español PRISA, que concentra 40% da publicidade do meio.

Os canais privados de televisão abocanham 52% da verba publicitaria, pública e privada, com um faturamento anual de 500,0 milhões de dólares. Neste mercado, a TVN, único canal não privado, é uma “estatal” regida pela lógica do auto-financiamiento, com alto grau de dependência da captação de publicidade que, por tabela, acaba determinando o conteúdo ralo de sua grade de programação. Vão daí as pressões do meio jornalístico para que o Estado assuma pelo menos parcela de sua paternidade e reserve fatia orçamentária para dotar de maior diversidade a produção do canal .

No Chile, o que chama a atenção é a dominação do mercado de mídias eletrônicas, ou por empresas chilenas, estranhas no experimentado ninho da comunicação, ou por multinacionais norte-americanas e espanholas. É o caso do canal Mega, do grupo Claro, dono de Compañía Sudamericana de Vapores, Cristalerías Chile, Editorial Zig–Zag, Diario Financiero e Elecmetal. Chilevisión, que até 2010 pertencia ao multi-bilionário Sebastián Piñera, só foi vendido à Time Warner diante de contundente pressão política, alertando ao conflito de interesses entre a posse e a então candidatura de Piñera à presidência da República. No mercado chileno, a Time Warner ainda opera CNN, HBO, Cartoon Network e TNT. A “cereja no bolo” é o Canal 13 — lendária emissora de TV com famosa grade cultural, fundada pela Universidade Católica na década de 1960, mas reprimida, usurpada e privatizada pela ditadura Pinochet — adquirido pelo Grupo Luksic, que detém 67% do capital acionário, e é dono, nada menos, que do Banco de Chile, de grandes empresas de mineração, das Viñas San Pedro e Tarapacá, constituindo o maior patrimônio privado do Chile, com aproximadamente 18,0 bilhões de dólares, que lhe confere a posição 77 no ranking Forbes das maiores fortunas do planeta.

Agenda

Otimista, Javiera Olivares acredita na vontade política de Bachelet de debater em profundidade as graves distorções no mercado chileno de mídias, que pede rigoroso marco regulatório.

O otimismo baseia-se na concordância de Bachelet em impulsionar desde o Executivo um grupo de trabalho com a missão de gerar uma proposta de políticas públicas em matéria de institucionalidade midiática e comunicação, processo que poderá deslanchar em março, após as férias de verão.

Frederico Füllgraf
No GGN
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Somos todos Manchetômetro!

Tremei déspotas da primeira página: sua parcialidade voltou a ser medida e monitorada cientificamente pelo manchetometro, site de monitoramento de mídia

No momento em que o conservadorismo captura o tema da liberdade de expressão para, mais uma vez, colocá-lo ao abrigo das suas conveniências, servindo-se agora da justa comoção causada pelo massacre terrorista contra o Charlie Hebdo, uma fresta se abre na esférica blindagem do oligopólio midiático brasileiro.

De dentro dela uma teimosia se levanta para dizer: ‘O Manchetômetro está de volta’.

Tremei déspotas da primeira página e maestros das escaladas de uma nota só: sua parcialidade voltou a ser medida e monitorada cientificamente.

O site de monitoramento de mídia, criado por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) para avaliar a cobertura das eleições de 2014 fez tanto sucesso entenda-se, incomodou tanto — que voltou à frente de batalha.

Espera-se que desta vez para ficar.

Seu relançamento traz agora a tinta fresca do comportamento pós-urnas da mídia derrotada junto com Aécio Neves em 26 de outubro.

Os dados, sobretudo os gráficos que medem a opinião editorial dos jornalões sobre o governo Dilma, não deixam margem a dúvidas quanto ao que vem pela frente.

O Manchetômetro, ao contrário, não opina. Sua vocação é medir e expor aquilo que os mais aguerridos defensores do bordão ‘somos todos Charlie’ fazem por essas bandas em nome da liberdade de expressão.

Os dados frequentemente chocam.

Na reta final do primeiro turno das eleições presidenciais de 2014, por exemplo, quando o voto dos indecisos poderia interferir na sorte da candidatura progressista, Lula estava nas ruas para falar aos eleitores.

Porém, mais que isso, para convocar engajamento contra a barragem de fogo midiática que sufocava Dilma.

Numa carreata em Diadema, a dois dias do voto, ele levava no bolso sua principal arma de convencimento: anotações com estatísticas do site Manchetômetro sobre a cobertura jornalística da disputa política mais virulenta registrada no país desde 2002.

Na boleia de uma caminhonete, por mais de dez minutos, um ex-presidente da República rouco e banhado de suor e indignação, dissecou o sentido político dos números frios colhidos pelo Manchetômetro.

Lula fez então manchetes com notícias que não saem nos jornais.

Ao mencionar, por exemplo, o tempo ocupado por escaladas negativas contra a presidente Dilma Rousseff no Jornal Nacional (1h46m), recorreu à metáfora futebolística e disparou para ninguém mais esquecer:

‘A Globo na campanha presidencial de 2014 dedicou mais tempo dando manchetes contra a Dilma do que a duração de uma partida de futebol’.

Pronto. Não precisava mais nada.

Mas para reforçar ele não hesitou em sacudir a anotação no ar perguntando à audiência hipnotizada: ‘Sabem quantos minutos de noticiário negativo a candidata do PSB teve no mesmo período?’

‘Nenhum’.

‘Isso mesmo: nem um único minuto’

A maestria na pontuação oral fez o resto.

Sobraria em seguida para os jornalões da ‘gloriosa imprensa brasileira’, como Lula gosta de alfinetar com ironia ácida.

O número pinçado por ele então resumia todos os demais.

Desde o início da disputa, em 6 de junho, lembrou a voz rouca, mais afiada que nunca, os jornais Folha de SP, Globo e Estadão deram nada menos que 490 manchetes negativas contra Dilma.

‘Isso significa’, ele conferiu o dado do Manchetômetro e fuzilou em seguida: ‘quatro vezes mais que a soma de todas as manchetes negativas atribuídas a Aécio e Marina juntos (114)’.

Na conclusão disso tudo a voz rouca adquire um tom pedagógico e irado diante do qual é impossível ficar indiferente.

Imagine o efeito dessa cena no Jornal Nacional.

Bem, ela nunca acontecerá porque a rede dos Marinhos jamais divulgará o que Lula disparou em seguida.

‘Tudo isso se dá, minha gente’, disse ele com os papeizinhos na mão, ‘porque neste país não existe liberdade de imprensa, mas sim a doutrina de nove famílias que dominam a comunicação e nutrem ódio pelo PT. Não pelos erros que o PT possa ter cometido’, fuzila a rouquidão indignada. ‘O PT tem defeito? Tem’, prossegue depois de uma pausa. ‘Mas eles nos odeiam não pelos nossos defeitos. E, sim, porque o PT promoveu a ascensão social dos pobres neste país. É por isso que desde o início da campanha eles atacam a Dilma com o equivalente a três manchetes negativas por dia cada um’.

Pois bem, a usina de monitoramento equidistante que coleta e mede o material expelido diariamente pelo oligopólio brasileiro de mídia está de volta.

A liberdade de expressão lhe deseja longa vida e festeja puxando o coro:

‘Somos todos Manchetômetro!’

Saul Leblon
No Carta Maior
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Obrigado, Cecília, que brevemente mostrou ao público a verdade


Trabalhar ao vivo, na televisão, é sempre muito complicado. Os críticos de sofá não têm a mínima ideia do que o repórter já enfrentou antes de aparecer na telinha para dar as informações mais recentes.

Para complicar, quem está do lado de cá não imagina o que está sendo dito naquele fone no ouvido do repórter. “Acelera”, “corta”, “acabou”, “fala mais um pouco” — eu mesmo já ouvi de tudo enquanto tentava desenvolver um raciocínio ao vivo, com limite de tempo e “segurando” toda a emissora.

A experiência sempre ajuda. Tive a sorte de fazer 100 transmissões ao vivo de automobilismo, nos boxes, o que me deu certa capacidade de improvisação. Quando Fernandinho Beira-Mar foi preso na Colômbia, usando o celular fiz uma entrevista ao vivo com o promotor do caso, traduzindo simultaneamente, direto das escadarias da Fiscalia, em Bogotá.

Mas nunca cheguei perto de gente como o Arnaldo Duran, que veio da escola do rádio. Se você colocar o Duran para falar ao vivo sobre qualquer assunto, em qualquer lugar do planeta, ele toma conta da situação de maneira formidável. É capaz de apurar uma informação logo ali na sua frente, sem perder o fio da meada.

Duran na verdade integra um grupo de veteranos que resiste em todas as emissoras, Globo inclusive. Antes de ser o repórter que aparece na TV, o “famoso”, Duran expõe sua humanidade no vídeo, sem nunca se imaginar celebridade.

No campo das transmissões ao vivo, a Globo é refém de seu próprio formato. É tudo tão certinho, tão quadrado, que quando alguém destoa chama a atenção.

No meu tempo, nem mesmo as entradas ao vivo eram improvisadas. O texto era escrito de antemão e pré-aprovado. Se alguém imaginava que aquilo estava sendo dito “no calor dos acontecimentos”, estava enganado.

Hoje, talvez mais que nunca, a Globo é um império editorialmente verticalizado. Isso exige repórteres bem adestrados ou amarrados.

Assim, a emissora será sempre pega de surpresa quando seus profissionais forem forçados a improvisar, por conta de acontecimentos ao vivo, em situações que fujam ao controle dos chefes.

A repórter Cecília Malan foi criticada nas redes sociais por supostamente ter se assustado com tiros em Paris. Normal.

O que me surpreendeu é que, provavelmente sem querer, ela entregou um dos segredos dos correspondentes internacionais de hoje.

Foi quando disse que não tinha condições de contar as novidades por falta de internet.

Registro, antes de avançar, que minha carreira de correspondente internacional começou antes da era Google. Na Manchete, em Nova York, a gente furava as mensagens em fita antes de enviá-las por telex para a editora internacional Teresa Barros, no Rio de Janeiro. Nossas transmissões eram, de fato, via satélite. Dez minutos Nova York-Rio custavam 1.500 dólares.

Quando o correspondente viajava, às vezes contava com o apoio de uma agência internacional, como a Reuters. Mas, na maioria das vezes, tinha mesmo de dar duro: fazer entrevistas, apurar fatos, checar informações com as fontes originais.

Eu sempre preferi dar um tom pessoal às minhas reportagens para escapar da interferência de superiores hierárquicos que estavam muito mais distantes — e menos informados — do que eu sobre os acontecimentos.

Dei sorte. Em Moscou, em 1988, alijado por sorteio de uma entrevista coletiva que encerrava a cúpula Gorbatchev-Reagan, trombei por acaso com o líder soviético dentro do Kremlin. Saiu uma entrevista exclusiva, quando o objetivo original era apenas mostrar as lindíssimas igrejas então convertidas a museus no centro de poder da URSS.

Infelizmente para os correspondentes internacionais, esse tempo acabou.

Hoje eles se tornaram reféns de seus editores no Brasil.

Enquanto estes acompanham dezenas de fontes de informação em tempo real, os repórteres, quando muito, têm uma visão local do evento.

Em Paris, a repórter da Globo reclamava acesso à internet com razão: queria saber o que estava acontecendo longe de seu posto de observação.

É isso o que as emissoras esperam dos correspondentes: que eles ajudem a mascarar o fato de que a maior parte do que transmitem é produzido por terceiros.

São dados e imagens de segunda mão vendidos como de primeira.

Foi-se o tempo de correspondentes como o Reali Júnior, que morou tanto tempo em Paris que era reconhecido inclusive por autoridades locais e tinha fontes, muitas fontes, francesas.

Ao longo dos últimos anos os salários despencaram e ser promovido a correspondente passou a ser, acima de tudo, uma questão de status.

Boa parte do trabalho é feito com “pacotes” de imagens e informações comprados de agências internacionais.

Nos grandes eventos, com transmissões ao vivo, a presença física do correspondente não significa necessariamente que esta equação se altere.

Para as empresas, o correspondente de autonomia limitada, além de mais barato, é mais fácil de controlar editorialmente.

Os veteranos foram sacrificados no altar da redução de custos.

Jovens repórteres aceitam com mais facilidade ler o que outros escrevem. Uma boa presença no vídeo é o que mais conta.

O público, sem acesso aos bastidores, fica fascinado ao se ver representado no centro dos acontecimentos.

Muitas vezes é isso mesmo: uma grande representação.

Neste sentido, o “pecado” de Cecília Malan deveria servir de crédito: ainda que inadvertidamente e por um breve momento, ela abriu a cortina da ilusão.

Luíz Carlos Azenha
No Viomundo



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Apologia a Tancredo esconde seus desastres

Se Tancredo merece respeito, a memória também. Ele traçou os rumos da transição democrática, mas também montou o governo Sarney e fez o PMDB ser o que é.

Quem foi Tancredo Neves?

A apologia a Tancredo Neves (1910-1985), por ocasião dos 30 anos de sua eleição para a Presidência da República, doura a personagem e até mesmo a política da época, sem um mínimo de respeito à memória e à história do período.

Tancredo era um político hábil, uma das grandes raposas da política mineira. Foi um aguerrido ministro da Justiça no último governo de Getúlio Vargas, o mesmo Vargas que havia provocado a cassação de seu mandato de vereador, quando sobreveio o chamado Estado Novo, em 1937.

Tancredo foi também um Primeiro-Ministro afinado com João Goulart em nossa breve experiência parlamentarista de 1961.

Depois do golpe, foi um moderado da luta contra a ditadura, bem menos ousado do que o já moderadíssimo Ulysses Guimarães.

Tancredo tem sido agora principalmente lembrado como o arquiteto da transição democrática, a partir daquela eleição para a Presidência, em janeiro de 1985.

Tancredo é autor da frase de que nosso progresso político deveu-se mais à força das reivindicações do povo do que à consciência das elites. As elites, que ele conhecia muito bem, sempre tiveram que ser empurradas, dizia ainda com alguns resquícios do varguismo.

Mas Tancredo também é conhecido pela frase de que "entre a Bíblia e O Capital [o livro clássico de Karl Marx], o PSD fica com o Diário Oficial”.

A frase é dos tempos em que o político mineiro estava justamente no PSD, a grande máquina eleitoral dos anos 1946 a 1964, um partido que em muitas coisas lembra o PMDB de ontem, de hoje, de sempre.

A expressão "Diário Oficial" pode ser traduzida pela "santíssima" trindade da política tradicional: cargos, verbas e a caneta para dizer "sim" ou "não".

A máxima tancrediana é uma defesa de que política é mais pragmatismo do que ideologia.

Assim pensava o Tancredo que muitos, talvez por esquecimento, consideram tão diferente da maioria dos políticos no Congresso.

O governo Sarney é obra de Tancredo

Tancredo derrotou Maluf, mas trouxe consigo, para dentro do governo, políticos que tinham seu próprio jeito malufista de ser, a começar de seu vice-presidente, José Sarney, que tinha sido tão Arena (o partido governista da ditadura) e tão PDS (o sucessor da Arena) quanto o próprio Maluf.

José Sarney desembarcou do barco que afundava com o último presidente militar, o general João Figueiredo (1918-1999), e pulou nos braços do PMDB, onde está até hoje.

Sarney empossou o ministério montado por Tancredo, sem tirar nem pôr.

O PMDB era o partido majoritário, sem rivais, tal sua força de atração e tal o sucesso conquistado na primeira fase do mandato, embalado pela popularidade do Plano Cruzado, que parecia, enganosamente, ter finalmente domado a inflação.

Um dos legados de Tancredo foi o silêncio sobre fatos da ditadura que só recentemente foram reconhecidos pelo Governo e pela Comissão da Verdade, ainda assim, preliminar e até timidamente.

A Aliança Democrática de Tancredo deu tão certo que foi responsável direta por limitar maiores avanços na Constituinte, como no tema da reforma agrária.

PMDB e PFL rapidamente se reconciliaram com o PDS em um bloco apelidado de Centrão, que unificou a direita no Congresso e deu a tônica da segunda metade daquele governo.

A figura emblemática do Centrão foi o deputado paulista Roberto Cardoso Alves, que justificou suas barganhas políticas com o lema de que "é dando que se recebe", deturpando ironicamente o lema de S. Francisco de Assis. Ficara explícito quanto era velha a Nova República criada por Tancredo.

Tancredo ajudou o PMDB a ser o que é

Tancredo patrocinou o gigantismo do PMDB. Mesmo com sua morte, seu peso na trajetória do PMDB acabou sendo muito maior que o do próprio Ulysses Guimarães, graças ao modelo de governança e de governabilidade tocado pelo governo Sarney.

Não foi por outra razão que, em 1989, o próprio Ulysses foi derrotado pelo peemedebismo. Seu partido o abandonou em plena campanha presidencial para apoiar o candidato favorito, Fernando Collor. De novo, a preocupação maior era o Diário Oficial.

O PMDB tornou-se, desde Tancredo, um fator de estabilidade e de grande instabilidade da política nacional pós-ditadura.

É um partido com o qual todos os presidentes querem contar, pelo tamanho de sua base congressual, mas é o grande responsável por transformar o chamado presidencialismo de coalizão em uma zorra.

O PMDB tem uma fome insaciável por cargos, verbas e canetas — não que seja o único com tal característica na política nacional, mas o tamanho do estômago do PMDB, expandido pelo fato de que tem mais alas do que uma escola de samba — cada qual com sua própria cadência e atravessando o ritmo —, faz toda a diferença em relação a outros partidos.

O centro de gravidade do sistema político brasileiro gira tanto em torno do PMDB que o filósofo Marcos Nobre ("Imobilismo em movimento: da abertura política ao governo Dilma". São Paulo: Companhia das Letras, 2013) defende a tese de que todos os partidos acabam sendo atraídos por seu modo de fazer política, o que Nobre chama de peemedebismo.

O PMDB é um balaio de grupos estaduais eternamente descontentes, a maioria deles adepta do velho provérbio de que "quem não chora, não mama". As exceções ficam por conta do senador Roberto Requião e outra meia dúzia, no máximo.

O PMDB é uma coisa no Pará, outra no Paraná. É uma coisa na Câmara, outra no Senado. É um partido que age de uma maneira, quando liderado por Michel Temer e Sarney, e de outra quando comandado por Eduardo Cunha e Renan Calheiros.

Não é sempre o mesmo PMDB, pois a política o obriga a mudar, mas não dá para dizer que ele já foi melhor, salvo se enveredarmos na mitologia.

A velha luta da memória contra o esquecimento

Todo e qualquer presidente contribui, de uma maneira ou de outra, com êxitos e desastres maiores ou menores — dependendo das circunstâncias históricas e de como reage a elas.

Pela maioria dos relatos comemorativos da eleição de 15 de janeiro de 1985, até parece que a única coisa que deu errado com Tancredo e sua transição democrática foi sua morte.

Na narrativa que conta a jornada dos anos dourados à decadência completa, a malandragem é esculhambar o presente sem contar metade da missa, como se tivéssemos vindo de um mar de rosas e, no meio do caminho, alguém houvesse tropeçado — justo quando Tancredo já não estava mais lá para "ajudar".

Além de ter sido o protagonista da vitória no Colégio Eleitoral, Tancredo não pode ser dissociado do que foi o governo Sarney e do que ocorreu com o PMDB.

A raposa mineira traçou os rumos da transição democrática, montou o governo Sarney e armou o jogo que fez o PMDB ser o que é.

Se o presidente morto merece respeito, a memória e a história também.

Enaltecer Tancredo não pode ser um pretexto para distorcer a memória dos fatos e fazer com que todos se esqueçam, como num passe de mágica, de onde viemos, onde estamos e dos monstrengos que estão à frente do povo brasileiro fazendo da política, muitas vezes, um obstáculo, e não em uma via de transformação social e econômica do país.

As gerações que não viveram aquela época, mas que receberam esta pesada herança, merecem um relato condizente e fidedigno que contribua com seu aprendizado político na luta pela cidadania. Pelo menos, algo que ajude a entender as coisas que ainda acontecem à nossa volta.

Antonio Lassance, cientista político.
No Carta Maior
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Cerveró, culpado ou apenas o homem errado?


É possível que Nestor Cerveró tenha feito parte dos esquemas de Fernando Soares (o tal “Fernando Baiano”, intermediário do PMDB) e de Júlio Camargo, o lobista da Samsung.

Mas até agora não há nenhuma prova maior de que tenha recebido propinas. Todos os pontos indicados pelo Ministério Público Federal baseiam-se exclusivamente nos depoimentos de Júlio Camargo, lobista da Samsung, e de Fernando Baiano.

O que se tem de concreto:

1.     Cerveró e Baiano são amigos.

2.    A pedido de Baiano, Cerveró recebeu a Samsung, que ofereceu um navio para perfuração de poços na costa da África.

3.    Depois, indicou o produto para a Petrobras. Foi montado um Grupo de Trabalho que endossou a indicação.

4.     Pelo trabalho efetuado, Júlio Camargo recebeu comissão da Samsumg, parte da qual repassou para Fernando Baiano.

Esses são os fatos comprovados.

Em cima desses fatos, há duas narrativas possíveis:

A narrativa pró Cerveró — era amigo de Fernando Baiano. A seu pedido recebeu a Samsung que demonstrou dispor de uma tecnologia superior para sondas. Foi montado um grupo de trabalho para analisar os produtos, que foram aprovados. Foi um trabalho técnico pelo qual não teria recebido nenhuma remuneração.

A narrativa contra Cerveró — a compra dos equipamentos foi acertada previamente com Fernando Baiano e resultou no pagamento de propinas a Cerveró.

A prova do pudim é simples:

1.     A prova de que Cerveró recebeu as propina.

2.   A comprovação de que havia similares internacionais do produto, justificando uma concorrência internacional.

Há um princípio jurídico internacional, de que “in dubio, pro reo”. Ou seja, em caso de dúvida, prevalece a versão do réu. E há um princípio do acusador: “in dubio, pro societate” — vulgarmente conhecido como “in dubio, pau no réu”.

Ou seja, se existem dúvidas de monta, adota-se o que se considera a atitude pró-sociedade. Depois, o julgamento em si procurará demonstrar a inocência ou culpa. E, aí sim, em caso de dúvida, o réu é beneficiado.

Cerveró foi preso por tentar sacar R$ 400 mil de um plano de aposentadoria e repassar três imóveis para os filhos. São valores irrisórios perto dos supostos US$ 40 milhões que, segundo o MPF, Cerveró teria recebido, em sociedade com Fernando Baiano.

Há um dado suspeito em um dos imóveis: o fato de estar em nome de uma offshore. Mas nenhuma indicação de que os imóveis tenham sido adquiridos de forma ilícita. Não vale comparar a renda histórica de Cerveró — alto executivo da Petrobras —, ou os valores declarados dos imóveis com os valores atuais. Mais do que em outras cidades, o Rio vive uma bolha imobiliária.

A peça acusatória do MPF mostra uma profusão de contas em paraísos fiscais, levantadas junto a Yousseff, Camargo e Baiano. Curiosamente, apesar de acusarem Cerveró, nenhum deles aponta a conta através da qual ele supostamente teria recebido o dinheiro da propina.

Como diz a acusação: “embora ainda não apurada a forma como o dinheiro foi transferido a este DENUNCIADO, não há dúvida de que ele efetivamente agiu de modo combinado”. É pouco.

O que Camargo e Baiano teriam a ganhar, caso envolvessem Cerveró? A delação premiada ganharia mais peso e haveria uma terceira pessoa com quem dividir o ressarcimento da propina recebida.

É cedo ainda para saber se Cerveró é inocente ou culpado. A probabilidade maior é que seja culpado. Mas há uma probabilidade não desprezível de que Cerveró seja uma versão moderna do clássico “O homem errado”, de Hitchcock.

Luís Nassif
No GGN
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