11 de jan de 2015

A longa história de um massacre esquecido

"Aqui afogaram os argelinos". Quarteirão Conti, em Paris, alguns dias após o massacre de 17 de outubro de 1961.
Há 50 anos, cerca de 100 a 200 argelinos que se manifestavam pacificamente em Paris foram assassinados pelas forças policiais. Ocultado durante muito tempo pelo poder, este 17 de outubro de 1961 integra progressivamente a memória coletiva.

Durante as décadas de 1970 e 1980, a lembrança de 17 de outubro de 1961 esteve envolta numa espessa mortalha. Quem se lembra ainda daquele dia de outono em que homens, mulheres e crianças que se manifestavam em família, desarmados, nas ruas de Paris, foram mortos à coronhada pela polícia, lançados vivos ao Sena, enforcados em árvores?

“Depois do século XIX, esta foi uma das raras vezes em que a polícia atirou contra operários, em Paris”, afirma o historiador Benjamin Stora. Nas semanas seguintes, dezenas de cadáveres de argelinos com rostos tumefactos foram retirados do Sena. Benjamin Stora supõe que a repressão fez uma centena de mortos, o historiador inglês Jim House pensa que, “no mínimo”, os mortos foram 120 ou 130, Jean-Luc Einaudi, autor de La Bataille de Paris [A Batalha de Paris], diz que foram mais de 150. Nesse dia, os “franceses muçulmanos da Argélia”, convocados pela federação de França da FLN, manifestaram-se contra o recolher obrigatório que lhes tinha sido imposto pelo diretor da polícia de Paris, Maurice Papon. Habitualmente confinados aos bairros de lata dos subúrbios, mais de 20 mil homens, mulheres e crianças desfilaram, então, pacificamente pelas ruas do Quartier Latin, pelas grandes avenidas e próximo dos Campos Elísios.

A violência da polícia foi inaudita: os agentes esperaram-os nas saídas do metro e nas ruas para os espancarem e insultarem. “Aos mais fracos, aos que já estavam cheios de sangue, batiam-lhe até à morte, eu vi”, contou Saad Ouazen em 1997. Apesar de não terem oposto a mínima resistência, dezenas de manifestantes foram mortos a tiro, outros foram afogados no Sena. Ao todo, mais de onze mil argelinos foram presos e levados para o Palácio dos desportos e para o estádio Pierre-de-Coubertin. Mantidos durante vários dias em condições de higiene assustadoras, foram violentamente espancados pela polícia, que lhes chamava “porcos árabes” e “ratos”. No Palácio dos desportos, os detidos, aterrorizados, nem sequer ousavam ir à casa de banho, porque a maioria dos que ali iam era morta. Na manhã do dia seguinte, a polícia contava oficialmente três mortos — dois argelinos e um francês da metrópole. A mentira instala-se. O silêncio depressa a cobre. Perdurará por mais de 20 anos.

Uma campanha de dissimulação

Esta longa ausência, nas consciências, do massacre de 17 de outubro não surpreende Benjamin Stora. “Nessa altura havia [em França] um imenso desconhecimento daquilo a que chamamos o indígena ou o imigrante, ou seja, o outro. Quando se tem esta perceção do mundo, como é que alguém se interessa pelos imigrantes que vivem nos bairros de lata da região parisiense? Os argelinos eram os “invisíveis” da sociedade francesa. A esta indiferença de opinião junta-se, nos meses que se seguiram ao 17 de outubro, uma campanha de dissimulação lavada a cabo pelos poderes públicos. Os relatos que põem em causa a versão oficial são censurados. A amnistia que acompanha a independência da Argélia, em 1962, sela, depois, o silêncio da sociedade francesa: todas as queixas foram arquivadas. Apesar do silêncio, a memória do 17 de outubro sobrevive aqui e ali, fragmentada, explosiva, subterrânea. Continua viva, evidentemente, entre os imigrantes argelinos da região parisiense. “Esses homens conversavam entre si, mas a maior parte deles não transmitiu essa recordação dos acontecimentos aos seus filhos. Na década de 1980, sabem que os seus filhos ficarão em França e têm medo de lhes comprometer o futuro contando-lhe a violência policial a que foram submetidos”, explica o historiador inglês Jim House. Foi necessária a chegada à idade adulta desta segunda geração de imigração argelina para agitar profundamente a paisagem da memória. Estes jovens frequentaram a escola da República, são eleitores e cidadãos franceses, mas intuem que os preconceitos e os olhares desconfiados de  que são vítimas estão ligados à guerra da Argélia. Pouco a pouco, a memória desperta: na década de 1980, Jean-Luc Einaudi inicia um imenso trabalho de investigação. Quando o seu livro sai, no ano do trigésimo aniversário do 17 de outubro, provoca choque: La Bataille de Paris [A Batalha de Paris], que descreve hora a hora o desenrolar dos acontecimentos e o silêncio que se lhe seguiu, gera o debate sobre a repressão contra os argelinos.

O Estado nunca reconheceu o massacre

Com este livro e alguns outros, a memória do 17 de outubro de 1961 começa a entrar no espaço público. Dois documentários vêm, depois, alimentar a recordação do 17 de outubro: Le Silence du Fleuve [O Silêncio do Rio], de Agnès Denis e Mehdi Lallaoui, em 1991, e Une Journée Portée Disparue [Um Dia Perdido], de Philip Brooks e Alan Hayling. No entanto, as autoridades da época mantiveram a versão oficial. Depois dos historiadores e dos militantes da memória, é a justiça que entra em cena: durante o processo do antigo responsável de Vichy, em 1997, em Bordéus, os juízes debruçam-se longamente sobre o 17 de outubro de 1961. Confrontado com Jean-Luc Einaudi, o ex-diretor da polícia acaba por admitir “quinze ou vinte mortos” durante esse “infeliz dia”, mas atribui-os a ajustes de contas entre os argelinos.

Pela primeira vez, o poder faz um gesto: o primeiro-ministro, Lionel Jospin, abre os arquivos. Baseando-se unicamente no registo de entrada do instituto médico-legal — a maior parte dos arquivos da polícia e da brigada fluvial desapareceram misteriosamente —, conclui, em 1998, que houve pelo menos 32 mortos. Dois anos mais tarde, Maurice Papon decide processar Jean-Luc Einaudi por difamação. Desta vez, Papon admite que houve 30 mortos, mas o tribunal não lhe dá razão: prestando homenagem ao caráter “sério, pertinente e completo” do trabalho de Jean-Luc Einaudi, os juízes concluem que “alguns membros das forças da ordem, relativamente numerosos, agiram com violência extrema, sob o império de uma vontade de represálias”. A versão oficial do 17 de outubro está agora desfeita. Chegou o tempo da comemoração. Por altura do 40º aniversário, em 2001, o presidente do município de Paris, Bertrand Delanoë, colocou na ponte Saint-Michel uma placa “em memória dos muitos argelinos mortos durante a sangrenta repressão da manifestação pacífica de 17 de outubro de 1961”. Na região parisiense, cerca de 20 placas lembram, agora, à memória coletiva, esses dias de outono. O quebra-cabeças da memória coletiva acabou por se refazer mas, para muitos, ainda falta uma peça: o reconhecimento do Estado. [O site Mediapart, lançou, com esse intuito, a 12 de outubro, um apelo ao reconhecimento oficial da tragédia de 17 de outubro de 1961, em Paris

Ariane Chemin
Do Voxeurop
No GGN
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Quando a inteligência foi abatida a tiros




Numa fria tarde de quarta-feira em Paris, as palavras subitamente perderam o sentido.
Tudo ficou de ponta-cabeça.
O risco do cartum virou risco de vida.
A frase satírica virou sentença de morte.
As penas perderam o fio e a tinta virou sangue.
Numa fria tarde de quarta-feira em Paris o humor perdeu a graça.
A irreverência caiu diante da reverência fanática e a expressão da liberdade virou uma máscara de dor.
Numa fria tarde de quarta-feira em Paris, a inteligência foi abatida a tiros.
Luís Fernando Veríssimo
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Marta Suplicy

http://valterpomar.blogspot.com.br/2015/01/marta-suplicy.html

É muito importante ler a entrevista que Marta Suplicy concedeu a Eliane Cantanhêde no dia 10 de janeiro de 2015 (ver ao final, na íntegra).

Para os que conhecem os bastidores do Partido e do governo, há na entrevista tanto fatos sabidos, quanto "versões martistas" que mereceriam correções factuais ou de interpretação.

Contudo, embora a discussão sobre tais fatos e versões seja seguramente o mais saboroso, não é nem de longe o mais importante na entrevista de Marta.

O mais importante está contido no bordão que finaliza a entrevista: "ou o PT muda ou acaba".

Ideia similar está na boca e mente de muita gente. Gente de direita, de centro e de esquerda. Amigos do PT e inimigos do PT. 

Tanta gente e tão diversa falando coisa parecida demonstra basicamente: 1) o papel central que o PT ocupa na vida política nacional; e 2) a total divergência existente acerca do conteúdo da tal mudança, que tanto uns quanto outros consideram essencial para a sobrevivência do PT.

Vejam o caso desta entrevista de Marta: sua crítica à Dilma e sua crítica ao PT estão diretamente relacionadas com o elogio à "equipe econômica" encabeçada por Joaquim Levy e às preocupações do grande empresariado (os "30 PIBs" paulistas, Lázaro Brandão inclusive!!!).

Sendo generoso, está implícito que para Marta mudar o PT é mudar em direção aos interesses e preocupações do grande empresariado.

Isto posto, derivo três outras conclusões desta entrevista de Marta Suplicy. 

A primeira delas: todas as mudanças que o PT já fez, todas as moderações, todas as concessões, todo o pragmatismo, não são suficientes para as pessoas que pensam como Marta Suplicy.

A verdade é que, para tal fração política e social, a mudança só seria plenamente satisfatória se e quando.. acabar com o PT enquanto partido dos trabalhadores

A segunda conclusão é: mudando ou não, seja em que direção for, seja com que velocidade for, o PT certamente perderá uma parcela de seus atuais filiados, militantes e eleitores. 

Assim, deste ângulo do problema. a questão é: quem estamos perdendo e podemos vir a perder e por quais motivos

Gente fazendo críticas pela direita (ou seja, questionando os conflitos do PT com o empresariado e com setores da direita)?

Ou gente fazendo críticas pela esquerda (ou seja, questionando as concessões do PT e de seus governos ao empresariado e a setores da direita)?

Visto deste ângulo, Marta não é a regra: a maior parte das pessoas que saíram do PT nos últimos anos e meses, saiu fazendo críticas pela esquerda

Sempre lembrando que — como vimos no caso de Luíza Erundina, Heloísa Helena e Marina Silva — há pessoas que saem criticando as alianças do PT com a direita, mas terminam fazendo alianças com a direita contra o PT, 

A terceira conclusão é a seguinte: embora sejamos o Partido dos Trabalhadores, entre nossos dirigentes há gente muito importante que adota o modo de pensar de outra classe social.

No caso de Marta, não se trata apenas do conteúdo político-econômico de suas preocupações, mas da forma "principesca" como ela enxerga a política, tanto no país quanto no partido.

Vejamos alguns exemplos deste modo de pensar, que faz tudo girar em torno da ação de determinadas personalidades.

Os erros e acertos da presidenta Dilma ao tratar com os gravíssimos problemas da economia nacional e internacional são resumidos da seguinte forma: "Era preciso mudar a equipe econômica e o rumo da economia, e sabe por que ela não mudou? Porque isso fortaleceria a candidatura do Lula, o ‘Volta, Lula’."

As divergências internas do PT acerca da tática nas eleições de 2014 são resumidas assim: "Mercadante mente quando diz que Lula será o candidato. Ele é candidatíssimo e está operando nessa direção desde a campanha, quando houve um complô dele com Rui e João Santana (marqueteiro de Dilma) para barrar Lula".

E o próprio papel de Marta no PT é tratado da seguinte forma: "Cada vez que abro um jornal, fico mais estarrecida com os desmandos do que no dia anterior. É esse o partido que ajudei a criar e fundar? Hoje, é um partido que sinto que não tenho mais nada a ver com suas estruturas. É um partido cada vez mais isolado, que luta pela manutenção no poder. E, se for analisar friamente, é um partido no qual estou há muito tempo alijada e cerceada, impossibilitada de disputar e exercer cargos para os quais estou habilitada".

Como nos antigos livros de história, toda a análise política feita nesta entrevista de Marta Suplicy gira ao redor dos "príncipes", das pessoas importantes. O papel do povo, das massas, das classes, das bases, da militância aparece no máximo como acessório. 

Aliás, quem a "impossibilitou" de disputar e exercer algum cargo no PT? Que culpa o Partido como um todo tem, por ela ter aceito um determinado método decisório?? Foi "o partido" que "se acovardou" ao "recusar um debate sobre quem era melhor"??? 

É verdade, como alguém já me explicou, que não se trata apenas de um "erro de método" cometido por Marta e outras pessoas como ela. 

Existem dezenas de milhões de pessoas que acreditam que a política resume-se a luta entre os pares da nobreza. Estes milhões agem de acordo com esta crença. E, ao fazerem isto, efetivamente tendem a transformar a luta política num espécie de conflito entre "carreiras pessoais".

Nestes termos, não é contraditório que Marta critique a "luta pela manutenção do poder". Pois, como todos sabem, para um determinado setor é mesmo deplorável que a classe trabalhadora lute pelo poder, ao mesmo tempo que é considerado louvável que uma pessoa lute por cargos

Acontece que uma das razões pelas quais foi fundado o PT — e uma das razões pelas quais quais existe todo o movimento socialista desde o século XIX — é fazer com que a emancipação da classe trabalhadora seja obra da própria classe trabalhadora. 

O que inclui, entre outras coisas, fazer com que a política seja ato cotidiano de centenas de milhões de pessoas e não um ofício restrito a uns poucos milhares.

Um dos subprodutos da aristocratização da política é fortalecer, em algumas camadas do povo, o sentimento anti-política, sentimento que ao fim e ao cabo ajuda na manutenção do status quo econômico e social.

O "interessante" é que o crescimento da influência do modo de pensar e do modo de agir burguês na cúpula do Partido está criando situações difíceis não apenas para o PT como um todo, mas também para os que compartilham aquele ponto de vista.

Pode ser necessário sair de um partido, por exemplo devido a divergências programáticas ou estratégicas. Mas quando se participa da luta política em defesa de um projeto de poder para a classe trabalhadora, em defesa de uma democracia popular, em defesa de reformas estruturais democrático-populares, em defesa do socialismo, há muito mais "espaço" para todos e todas contribuírem. 

O mesmo não acontece quando — dada a premissa da defesa dos interesses do grande empresariado — a luta política é organizada com base nos projetos pessoais e nas "carreiras". Neste caso, não há mesmo "espaço" suficiente. E uma eventual ruptura com o Partido não decorre principalmente de divergências programáticas e estratégicas; ainda que possam existir, tais divergências são acentuadas artificialmente, para tentar dar respeitabilidade a motivações de outro tipo.

Por isto, não me comovo nem um pouco ao saber que Marta passou dois meses "chorando, com uma tristeza profunda, uma decepção enorme", se "sentindo uma idiota", ao mesmo tempo que declara ter "portas abertas e convites de praticamente todos" os partidos.

O que me provoca uma preocupação realmente profunda é saber que Marta está longe de ser a única, na cúpula do Partido, a encarar desta forma a luta política.

Como já dissemos noutro texto, se quisermos não apenas seguir governando, mas principalmente seguir transformando o Brasil. é essencial que a esquerda, especialmente o PT, construa não apenas uma nova estratégia mas também um novo padrão de organização e atuação.








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Viva a falta de respeito, humor não é ofensivo

Um dos problemas de morrer é esse: vão falar muita asneira a seu respeito. E você já nem pode se defender. Não bastou serem fuzilados, os cartunistas do "Charlie Hebdo" foram vítimas de um massacre póstumo.

Pessoas de todas as áreas de atuação lamentaram a tragédia, MAS (não entendo como alguém, nesse caso, consegue colocar um "MAS") lembraram que o humor que eles faziam era altamente "ofensivo".

Poucas coisas irritam mais do que a vagueza desse termo "ofensivo" quando usado intransitivamente. Ofensivo a quem? A mim, definitivamente, não era. "Eles não deviam ter brincado com o sagrado", alegam alguns. MAS (aqui sim cabe um "mas") o que define o humor é exatamente isso: a brincadeira com o sagrado.

Discordo de quem pede respeito pelo sagrado. Para começar, acho que a palavra respeito é uma palavra que não cabe. Uma vez, vi o Zé Celso pedir a um jovem ator que não o tratasse por "o senhor", mas por "você". O ator disse que não conseguia porque tinha muito respeito por ele. E ele respondeu: "Não me interessa o respeito. O que me interessa é a adoração.".

O espaço da arte não é o espaço do respeito, mas o espaço da subversão, ou então da reverência, do culto. Do respeito, nunca.

No mais, tudo é sagrado para alguém no mundo. A maconha, a vaca, a santa de madeira, o Daime, Jesus e Maomé: tudo merece a mesma quantidade de respeito, e de falta de respeito.

Esperava essa reação raivosa dos fanáticos religiosos. No Brasil, o fundamentalista prefere os meios oficiais: não usa metralhadoras, mas tem bancada no Congresso e milhões no exterior.

Muitos (dentre os quais o pastor Marco Feliciano) já externaram o desejo de que o Porta dos Fundos "brincasse com islamismo pra ver o que é bom pra tosse". Até nisso temos complexo de vira-lata: nosso fundamentalismo tem inveja do deles.

O que nunca imaginei era que a mesma reação de "fizeram por merecer" partiria da própria esquerda. Muitos condenaram as charges como sendo islamofóbicas e lembraram que os imigrantes islâmicos já sofrem preconceito demais na França.

Mas esses imigrantes não eram os alvos, definitivamente, do humor do cartunistas assassinados. O embate não era entre franceses e não franceses, mas entre humor e fanatismo.

O traço infantil talvez confunda o leitor desavisado, mas é bom lembrar que as charges do "Charlie Hebdo" não tinham nada de ingênuas: eram facas afiadas na goela do ódio.

As coletâneas de capas do semanário sobre islamismo fazem parecer que esse era o grande tema do jornal. Não era. O jornal atirava para todos os lados, mas o alvo preferido era justamente a extrema direita de Le Pen — esse sim, islamofóbico.

Os chargistas que, mesmo ameaçados, não baixaram o tom, não devem ser tratados como pivetes malcriados que "fizeram por merecer", mas como artistas brilhantes que morreram pela nossa liberdade. Nosso dever é continuar lutando por ela, sem fazer concessões nem perder aquele ingrediente essencial: a falta de respeito pelo ódio.

A questão por trás disso tudo é a mesma de sempre: existe limite para o humor? A questão é complexa, mas a melhor resposta parece ser a seguinte: o limite está no objeto do riso. Rir de quem está por baixo é covarde, rir de quem está por cima é corajoso. Deve-se rir do opressor, e não do oprimido.

O problema é que essa resposta gera novas perguntas. Quem é o oprimido? Quem é o opressor? Muitas vezes, essa distinção não é clara.

Uma dica: quando surgir a dúvida sobre quem é o oprimido e quem é opressor, em geral, o indivíduo que foi fuzilado é o oprimido.

Gregorio Duvivier
No fAlha
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‘Charlie’

Alguém já disse que cidade civilizada é aquela em que, a qualquer hora da noite, você encontra um lugar aberto para tomar uma sopa e comprar um jornal. Outro disse que cidade civilizada é aquela em que, a qualquer hora da noite, você encontra um lugar aberto para tomar uma sopa e comprar o “Pravda”. Para mim, cidade civilizada é aquela em que, a qualquer hora da noite, você encontra um lugar aberto para tomar uma sopa e comprar o “Charlie Hebdo” ou similar, o que exclui todas as outras cidades do mundo, salvo Paris.

O “Charlie Hebdo” e outros, como o “Canard Enchainé”, pertencem a uma tradição de imprensa malcriada que vem desde antes da Revolução Francesa. É uma imprensa que não reconhece limites nem de alvos para o seu humor corrosivo nem de coisas vagas como “bom gosto”. Lembro uma capa que ficou famosa, já não sei mais se do “Charlie” ou do “Canard”, que era a seguinte: fotos dos órgãos genitais de várias pessoas, com legendas embaixo especulando de quem seriam. Entravam na lista políticos, astros e estrelas e até o Papa.

O “Charlie Hebdo” é um jornal nitidamente de esquerda, mas que nunca livrou a esquerda das suas gozações. Seu alvo preferencial é a direita religiosa francesa, mas, de uns anos para cá, ele vem incluindo o fundamentalismo islâmico nas suas críticas — mesmo com o risco de atentados como o que acabou acontecendo na quarta-feira, que foi o mais trágico mas não foi o primeiro. Jornais como o “Charlie”, impensáveis em qualquer outro lugar, se beneficiam de outra tradição francesa, a da tolerância com a contestação política e respeito à liberdade de expressão. Por ironia, o atentado de quarta-feira deve fortalecer a direita xenófoba e anti-Islã da França, justamente a que o “Charlie” mais combatia. O cartunista Wolinski e os outros morreram pelo direito de serem livres, totalmente livres, mas seus assassinos não tinham nenhuma tradição parecida com a da França para conter o dedo no gatilho. No fim, os mortos do “Charlie” podem virar mártires de uma causa inimiga. Uma ironia que todos eles dispensariam, se pudessem.

Quando a turma do “Pasquim” foi presa pela ditadura, houve uma mobilização para mantê-lo nas bancas. Muita gente, arregimentada, entre outros, pela Baby Oppenheimer, então casada com o Tarso de Castro, colaborou. Até meu pai participou do mutirão solidário. Está acontecendo a mesma coisa com o “Charlie”. A próxima edição do semanário será histórica.

Luís Fernando Veríssimo
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O melhor de Christopher Hitchens


Uma seleção das melhores espinafradas de um dos maiores livre-pensadores do nosso século. Simples, direto e um soco na cara do obscurantismo.

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Chinaglia avança após novo indício de cumplicidade entre Eduardo Cunha e doleiro

Chinaglia falou a um grupo de parlamentares, em um encontro no Rio
Na corrida à Presidência da Câmara dos Deputados, o parlamentar petista Arlindo Chinaglia (SP) ganha terreno sobre seu principal adversário, Eduardo Cunha, após ter seu nome citado na Operação Lava-Jato, da Polícia Federal (PF) e ser apontado por seu possível envolvimento com o doleiro Lúcio Funaro, condenado no julgamento da Ação Penal (AP) 470, processo conhecido como ‘mensalão’, segundo denúncia do deputado federal Anthony Garotinho (PR-RJ), em seu blog. Segundo o ex-governador fluminense, com esses novos dados sobre possíveis negócios escusos de Cunha, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, “acerta na mosca”.

– Quando fui governador, demiti o Eduardo Cunha por conta de suspeitas graves sobre a gestão de dinheiro público – afirmou Garotinho, em entrevista ao Correio do Brasil e ao site de notícias Conexão Jornalismo, durante reunião de apoio a Chináglia, em um restaurante da Zona Sul do Rio.

Chinaglia foi recebido, no encontro, pelas deputadas Jandira Feghali (PCdoB) e Clarissa Garotinho (PR) entre outros. O deputado chegou com um atraso de três horas.

Na entrevista, Garotinho antecipou razões pelas quais acredita que a candidatura de Cunha foi gravemente atingida por documentos que revelam o envolvimento do parlamentar na Lava-Jato.

Clarissa, a escolhida pelo PR para dar as boas vindas à Chinaglia, arrematou em público: “é inaceitável que um homem envolvido até os fios de cabelo no escândalo Lava-Jato possa pleitear a Presidência da Casa”.

Garotinho disse que a chave para chegar à parte mais sensível da candidatura Cunha tem nome e alguns contatos políticos importantes:

– Eric David Bello foi sócio da corretora de valores mobiliários Turfa, sendo responsável por prejuízos milionários no Rio-Previdência e na Prece, o fundo de previdência da Cedae. Ele é homem ligado a Eduardo Cunha e está envolvido até o último fio de cabelo na Operação Lava Jato. Eric e sua mulher foram conduzidos coercitivamente por policiais até a sede da Polícia Federal no Rio de Janeiro a fim de prestarem esclarecimentos sobre a sua participação no caso – disse o ex-governador.

No seu discurso na Fiorentina, de onde saiu convencido de que levava consigo o apoio de 19 dos 46 parlamentares fluminenses, Chinaglia fez um apelo para que a sociedade se mobilize e impeça a eleição do adversário.

– O eleitor exige exemplo de quem o representa – disse.

Jandira Feghali alertou que estava em jogo mais do que uma disputa pela Presidência:

– Trata-se de uma eleição. Temos que encarar com a seriedade necessária porque não poderemos minimizar esta disputa. Uma derrota poderá colocar em risco o crescimento que o país tem alcançado nos últimos anos, além de comprometer a imagem do Congresso Nacional – disse.

Outros deputados e políticos presentes: o presidente regional do PRB, Eduardo Lopes, Sóstenes Cavalcante, do PSB, Hugo Leal, do PROS, João Batista, presidente do PCdoB, Benedita da Silva, Edson Santos, Jorge Bittar, Fabiano Horta e Chico D’angelo, todos do PT. Jean Wyllys (PSOL), que era aguardado no almoço, alegou problemas de agenda para não comparecer. Mas seu colega de partido, Chico Alencar, também é postulante à Presidência, assim como Julio Delgado e Jair Bolsonaro.

A eleição deverá se realizar em dois turnos e seu término será em 2 de fevereiro.

Possível derrota

Ciente de que a situação, a partir do envolvimento do seu nome no escândalo Lava-Jato, tornou-se nada confortável, Eduardo Cunha já avisou que se transformará no principal opositor do governo Dilma no Congresso caso perca a disputa. Para começar tentará fazer aprovar uma nova investigação sobre a Petrobras. Seria a terceira CPI envolvendo o nome da empresa.

“O depoimento do policial federal conhecido como Careca, que entregava dinheiro de propina a políticos, enviado pelo doleiro Alberto Youssef acusa Eduardo Cunha de ser um dos beneficiários do esquema. Careca teria levado dinheiro na casa do deputado. Mas isso é fichinha perto do depoimento de Youssef que já teve sua delação premiada homologada pelo Supremo Tribunal Federal. A delação do doleiro pode ser o tiro de misericórdia na candidatura de Cunha à presidência da Câmara”, escreveu Garotinho, em seu blog.

– Como podem ver, Cunha e seu grupo agora partem para as ameaças e já admitem uma possível derrota. É uma mudança de postura radical, antes estavam em clima de ‘já ganhou’. Isso demonstra que Eduardo Cunha sentiu o golpe de ter seu nome envolvido entre os supostos beneficiários de propina do Petrolão que o MPF pedirá para serem investigados. E janeiro está só no começo. Até a eleição, no início de fevereiro, ainda teremos muitos rounds nessa disputa – acrescentou, na entrevista.

Eric David Bello foi sócio da corretora de valores mobiliários Turfa, “sendo responsável por prejuízos milionários no Rio-Previdência e na Prece, o fundo de previdência da Cedae”, concluiu.

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O buraco é mais embaixo

O ataque à redação do jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, desatou uma sucessão de análises sobre as chances de sociedades cosmopolitas seguirem abrigando comunidades religiosas que repudiam o estilo de vida ocidental. O núcleo da questão é, evidentemente, o islamismo, mas o problema se repete, em maior ou menor escala, com todas as religiões, concentrado principalmente nos grupos ortodoxos.

Consideradas as devidas proporções, trata-se do mesmo dilema que opõe líderes de seitas neopentecostais que se desenvolvem à margem de igrejas evangélicas, e integrantes de milícias católicas, a projetos liberalizantes de costumes no Brasil. Manifestações de padres, bispos, pastores e autodenominados profetas de várias crenças têm rebaixado o nível dos debates políticos nas três últimas eleições presidenciais, e houve casos esporádicos de violência contra seguidores de cultos de origem africana.

A questão remete sempre à liberdade de expressão, tida como um dogma absoluto quando contraposta a outro direito, o de crer em determinada doutrina religiosa e fazer dela a principal condicionante da vida social.

Nas sociedades ocidentais, laicas por definição e propósito, os preceitos religiosos não podem se sobrepor ao arcabouço de deveres e direitos acordados pelo interesse comum. Assim, a questão religiosa fica restrita à vida privada, embora, como grupo, os religiosos tenham acesso a meios de comunicação social, com liberdade para fazer sua propaganda.

No entanto, não existem sociedades puramente laicas e, em países como os Estados Unidos, o Brasil, a Inglaterra e a França, tanto a imprensa como as instituições do Estado aceitam a orientação discricionária da religião predominante. Basta observar a deferência especial com que são abordados os assuntos da igreja católica em comparação, por exemplo, com o tratamento dado a líderes do espiritismo, dos cultos afro e das igrejas protestantes. Por outro lado, a lembrança do Holocausto impõe uma barreira a toda crítica a Israel, em contraposição aos interesses dos povos árabes e muçulmanos.

Uma liberdade a discutir

Por isso, é necessário que um líder do islamismo no Brasil venha a público esclarecer que o ataque ao Charlie Hebdo não pode ser chamado de “atentado islâmico”, como tem feito a mídia. A entrevista de um dirigente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (ver aqui), publicada pelo Estado de S. Paulo na edição de sexta-feira (9/1) tenta contrapor a essa tendência a lembrança de que os textos sagrados do islamismo condenam a violência.

Mas é preciso também lembrar que os líderes mundiais do islamismo costumam fechar os olhos diante da expansão das minorias extremistas, que eles chamam de distorção da crença religiosa. Da mesma forma, extremistas judeus como os rabinos Isaac Shapira e Yosef Elitzur pregam livre e publicamente o assassinado de crianças de famílias muçulmanas, baseados no pressuposto de que, se vierem a crescer, poderão se tornar terroristas.

Por outro lado, permanece a questão da liberdade de expressão. Se aceitarmos que se trata de um direito absoluto, não sujeito a limitações, teremos que tolerar a pregação de Shapira e Elitzur contra os não judeus, tanto quando as prédicas dos imãs que fundamentam o projeto de poder do Estado Islâmico. Da mesma forma, aceitaríamos que seguidores de um culto neopentecostal quebrem imagens que os católicos consideram sagradas.

Estendendo o raciocínio no limite proposto pela própria imprensa, basta que um ato como esses seja declarado como performance artística para que se levante em sua defesa a tese da liberdade de manifestação. E se um artista reconhecido como tal resolver transformar em cacos uma cruz, um candelabro Chanuquiá dos judeus, um exemplar do Alcorão e uma Bíblia protestante em praça pública, quem haverá de condená-lo a não ser os devotos dessas religiões, se estiver declaradamente fazendo um manifesto artístico idiossincrático? A liberdade de pensar e manifestar o pensamento em ambiente privado é diferente de usar os meios de comunicação de massa para a expressão de uma idiossincrasia?

Como se pode observar, não basta levantar a bandeira da liberdade de gozação para concluir o debate sobre o atentado contra o Charlie Hebdo. Infelizmente, para a ansiedade dos apressados, o prazo de fechamento dos jornais e o tempo precioso dos leitores, o buraco é mais embaixo, como dizia o Pasquim.

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Condenado por “corromper” jornais

Não ocorreu no Brasil nem se refere ao ex-presidente FHC, ao cambaleante Aécio Neves ou a outros direitistas que sempre mantiveram relações promíscuas com os donos da mídia. O fato aconteceu no Peru na semana passada. A Justiça do país vizinho condenou o ex-presidente Alberto Fujimori a mais oito anos de prisão pelo desvio de dinheiro público para a "compra" de jornais que deram apoio à sua candidatura no ano 2000. Além de bajularem o neoliberal peruano, estes veículos fizeram campanhas sujas contra os seus rivais políticos. O golpe não deu resultado e Fujimori perdeu as eleições, após ser vencido três pleitos seguidos. Na sequência, ele foi acusado de inúmeros escândalos de corrupção e de cruéis atentados aos direitos humanos — e segue preso até hoje.

Segundo a agência de notícias EFE, Fujimori ordenou o desvio de 122 milhões de sóis (cerca de US$ 40 milhões) para a compra da linha editorial de jornais sensacionalistas, conhecidos como "chichas". Ele foi condenado pelo crime de peculato doloso, foi multado em US$ 1 milhão e não poderá exercer cargos públicos por mais três anos. A sentença, a quinta contra o direitista desde a sua extradição do Chile, em 2007, deverá ser cumprida a partir de 2021. Aos 76 anos de idade, Fujimori está na cadeia desde 2009. Ele foi condenado a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade nos massacres de camponeses de Bairros Altos e La Cantuta. Ele também coleciona três penas por corrupção.

No Brasil, a mídia privada também manteve relações promíscuas com os neoliberais da plantão — que seguiam a mesma cartilha de Alberto Fujimori. Não se sabe, ainda, se isto ocorreu por dinheiro, numa corrupção direta, ou por razões políticas e ideológicas. A chamada grande imprensa deu total apoio ao processo de privatização das estatais imposto por FHC. Quase nada foi denunciado sobre o desvio de grana da "privataria" — inclusive com o desvio de recursos públicos para contas secretas em paraísos fiscais no exterior. Até o processo de reeleição de FHC, similar ao ocorrido no Peru, foi abafado pela mídia. A Folha tucana até denunciou a compra de votos, mas logo arquivou o escândalo.  

Durante o reinado tucano, a mídia privada sempre foi subserviente e dócil. Tudo foi feito para blindar a vida "bastarda" de FHC e para satanizar as forças oposicionistas. "Calunistas" de aluguel atacaram os sindicatos, o MST e o movimento estudantil. A aliança do PSDB com o DEM — reunindo políticos mais sujos do que pau de galinheiro — sempre foi poupada. Nada de cruzadas moralistas pela ética e contra a corrupção. Na fase mais recente, o cambaleante Aécio Neves, esperança dos barões da mídia, também foi protegido. Nada sobre o "choque de indigestão" em Minas Gerais, sobre o "aecioporto", sobre a sua nota zero no Senado ou sobre a badalada carreira do senador mineiro-carioca.    

Fica a suspeita: será que os tucanos também "compraram" alguns jornais e emissoras de rádio e TV?

Altamiro Borges
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Enfim está explicado o que atormenta a alma de Marta Suplicy

Não era ela
Enfim ficou claro o que está por trás da louca cavalgada de Marta Suplicy: o complexo de rejeição.

Numa entrevista ao Estadão, ela admitiu ter sido picada pela abelha da ambição quando ouviu de Lula, então presidente, que queria uma mulher para sucedê-lo.

Marta se viu com a faixa neste momento.

Mas não era ela, como logo se saberia, e nem Marina, sua companheira na rejeição.

Era a “limitada” Dilma, como Marta se referiu a ela na entrevista.

É curiosa a maneira de editar das grandes empresas jornalísticas. Tanto o Estadão, que fez a entrevista, quanto a Folha, que fez uma síntese da entrevista em seu site ontem, esconderam a revelação mais importante: aquela que explica o comportamento de Marta.

Estadão e Folha se concentraram no nhenhenhém de sempre, e não ajudaram seus leitores a enxergar o quadro a clareza que a própria Marta trouxe ao falar em suas pretensões presidenciais.

Hoje, Marta fala mal das lideranças do PT de A a Z, e isto não é novidade. Para completar o serviço, só falta ela começar a criticar a si própria. O que é novo, e parece que nem o Estadão e nem a Folha perceberam, é a motivação das pancadas.

Lateralmente, me chamou a atenção a obsolescência de Marta em seu consumo de mídia.

Ela disse, para minha relativa surpresa, que fica “estarrecida” quando abre os jornais e vê os “desmandos” do PT.

Lembro que no Mensalão um dos juízes fez um magnífico, aspas, pronunciamento em que dizia exatamente a mesma coisa.

Ora, quem acredita cegamente no que os jornais publicam acredita em tudo, para citar a grande frase de Wellington.

Marta parece não ter-se modernizado nas fontes de informação.

Lula deve ter se arrependido de ter feito aquela confidência a Marta sobre a sucessão.

Sobrou para ele também.

Mas neste capítulo Marta apelou para forças mediúnicas. Ela disse que Lula queria ser o candidato em 2014. Mas ao mesmo tempo admitiu que ele jamais disse isso.

Meu pai, num debate entre jornalistas na disputa pela presidência do Sindicato, respondeu assim depois de uma pergunta em que um adversário lhe atribuiu várias coisas que ele não tinha falado.

“Olha, Zé, eu posso responder pelas besteiras que digo, mas não pelas besteiras que você diz que eu digo.”

Clap, clap, clap. De pé.

Lula, evidentemente, não pode responder pelas coisas que Marta acha que iam secretamente por sua cabeça.

No mais, o que Marta expõe são futricas normais em conversas em qualquer grupo de pessoas — seja um partido, seja uma empresa, seja um clube, seja o que for.

O alvo, nestas conversas, são sempre aqueles que não estão presentes. Mas isso não quer dizer nada. Você fala dos outros, os outros depois falam de você, e a vida segue.

Sem querer, e sem que quem a entrevistou percebesse, Marta revelou o que corroi sua alma.

Quis ser e não foi.

Há, aí, um paralelo com outra personagem que sonhou com a presidência e colheu pesadelos eleitorais: Serra.

Marta, de certa forma, é a versão feminina de Serra.

Paulo Nogueira
No DCM
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Bill Maher - Estúpidas e Perigosas


Bill Maher, apresentador e comediante norte-americano fala sobre o recente atentado terrorista na França.


No Esquerda Caviar
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Laerte: no Brasil Charlie Hebdo não existiria

Auto-retrato feito especialmente para este blog
Encerrando o ciclo virtuoso de entrevistas deste blog, decidi visitar a cartunista Laerte em sua agradável casinha no Butantã, para papearmos sobre Charlie Hebdo e os tenebrosos acontecimentos de Paris.

Como se sabe, Laerte é uma das maiores cartunistas do Brasil. Personagens suas como os Piratas do Tietê entraram para a história. Suas tiras, que pelo menos para mim são as mais inspiradas, continuam sendo publicadas diariamente na Folha de S. Paulo.

Por conta das opiniões que andou divulgando a respeito do atentado, Laerte foi ameaçada no facebook e teve que lidar com comentários do tipo, “não deviam ter matado o Glauco. Mataram o cartunista errado”.

De uns tempos pra cá Laerte se percebeu como uma pessoa transgênera e me recebeu, muito bem por sinal, acompanhada de suas duas gatas, vestindo saia e blusa, havaianas rosas e as unhas feitas pintadas de vermelho. A entrevista ocorreu em seu estúdio, entre pilhas de livros, algumas contas a pagar, um computador turbinado e a boa e velha prancheta de desenhos.

Qual a influência do humor praticado pelo CH em sua vida?

Pra mim pessoalmente fez parte das informações do final dos anos 60 que me convenceram de que era isso que eu queria fazer.

Nesse final dos anos 60 essas coisas todas, CH, anarquista e porra louca francesa, a contracultura americana, a porra louquice californiana e o Quino, mais essa combinação com o Pasquim, foi o que forjou a gente.

Muitos muçulmanos relataram um choque cultural, com a charge sobre o profeta.

Acho que no Brasil nenhuma dessas capas da Charlie Hebdo teria sido feita. A gente não faria nem Family Guy, a gente não faria nem o South Park, nem Simpsons a gente faria, porque humor tem a ver com a cultura do país. Humor é um vínculo com a população local.

O Charles Hebdo está na França, estão falando com uma população de porra loucas que se julgou durante séculos dona cultural do mundo, e até hoje se acha. Estranham quando você não fala francês. Wolinski não falava uma palavra de inglês ou espanhol.

E por que o Brasil não seria capaz de produzir as capas da Charlie Hebdo?

A formação cultural é outra, tem a ver com compromissos, arranjos de acomodação. Nunca se praticou no Brasil o debate claro. As pessoas tendem, no cotidiano, a acomodar posições, mais que debater ideias. No Brasil o debate vira briga em 2 segundos.

Não que no Brasil não se fale porra louquices ou se deixe de fazer humor agressivo. Mas temo que no Brasil esse tipo de humor só aconteça com pessoas que claramente não têm poder. Chutar cachorro frágil. Digo isso porque lembro de várias situações em que o Danilo Gentili voltou atrás na TV e pediu desculpas: para a comunidade judaica, para a Preta Gil – ele morde e assopra. Aqui existe um negócio que é o respeito a “otoridade”, que é um fato.

E o Pasquim?

Tinha a anarquia e um modo de lidar, mas não sei se iriam tão longe. Foram bastante agressivos em várias situações, mas o alvo principal era a ditadura. A França do Charlie Hebdo existia em um contexto em que não tinha ditadura fazia tempo. De Gaulle já estava nos estertores quando essa linguagem começou.

O Porta dos Fundos também faz bastante gozação. Houve bastante reclamação mas eles não pararam, não foram bloqueados. Sinal de que comunidade religiosa talvez não seja tão poderosa por aqui quanto a gente pensa.

E teve o caso do Rafinha Bastos.

Aí não tem a ver com liberdade de expressão. Tem a ver com o papel subalterno da mulher. Wanessa Camargo não abriu a boca durante todo o processo, que foi movido até pelo feto dela. O autor era o marido dela, era uma briga de homem.

Uma briga idiota, que podia ser respondida com um simples “Rafinha, cresça e apareça”. Mas não, virou um processo porque a honra do marido foi ultrajada. E era um cara rico. Uma coisa de poder econômico e de poder machista que envolveu o Rafinha. Acho a piada idiota mas fiquei do lado do Rafinha.

Qualquer tipo de piada é válida no final das contas?

Hugo Possolo falou uma coisa linda. Você pode fazer piada de qualquer coisa, o que importa é saber de que lado da piada você está. Acho isso muito profundo, porque mostra que toda piada é ideológica, não existe piada só piada. Olha as capas do CH: não são só piada, são declarações, é um discurso ideológico, violento, agressivo, muito engraçado também.

A indignação com a charge de Maomé tem razão de ser?

Maomé apareceu pelado de quatro com estrela no cu. Os caras fizeram coisas… a gente não faria isso nunca. Eu não sei o que eu faria pessoalmente se fosse editor do CH. Por muito menos eu caguei nas calças na época do ‘Balão’ em 72. Era um fanzine, Paulo Caruso fez uma história linda, de uma mulher no parque que não queria dar pra ele, uma história linda e engraçada, e eu caguei nas calças. Pensei: meu Deus isso vai atrair a repressão.

É saudável existir um CH para a sociedade.

Não só saudável. É significativo que ele seja francês. Na Inglaterra tem uma liberdade de expressão parecida, mas eles não fariam isso. O humor britânico é diferente. Monty Python fez “A vida de Brian” que mexe com judaísmo, com religião e um monte de coisa, é violentíssimo também, mas tem essa elegância.

Isso tudo me faz pensar sobre as construções teóricas sobre o humor.

Em primeiro lugar, que o humor é humano, não existe humor que ridicularize coisas ou animais. É sempre humano. Em segundo lugar, é sempre grupal. Não existe humor produzido nem por um indivíduo nem para um indivíduo. Terceira coisa é algo que Bergson falava, que acho interessante, que nunca consegui apreender totalmente, é a ideia de que o alvo da ação humorística é o momento em que o ser humano deixa de ser humano, quando ele age mecanicamente. Quando se coisifica.

Humor e preconceito se cruzam?

Muitas vezes, porque quem faz a piada precisa contar com a sintonia do público. Se você entra com uma informação polêmica, que é nova, você não obtém risadas, obtém estranhamento, agressividade, estupor. Quando os caras invadem a redação do CH não é piada, estão produzindo uma tragédia e nossa reação não é rir. Agora, se alguém atirar sapato na cara do Bush é muito engraçado.

Fiz uma historinha com o Alzheimer kid que adorei na época, um sujeito saindo correndo na cidade avisando que kid veio pra matar. Ele veio pra matar mas não lembrava quem. É engraçado mas um monte gente reclamou, Alzheimer é uma tragédia.

Tem como fazer humor sem isso?

Renato Aragão disse em entrevista que no seu tempo viado e preto não reclamavam quando se fazia piada sobre eles. Não tinha dor? Tinha. Mas socialmente não eram grupos empoderados. Tinham que ser cúmplices das humilhações que estavam sofrendo.

Um humor que desse vazão às ideias de Bolsonaro por exemplo, é legítimo em sua opinião?

Tem o Danilo Gentili por exemplo. É legítimo que exista esse tipo de humor. Mas ele tem que ser criticado, enfrentado. Faz parte de um pensamento que tem que ser enfrentado.

O Gentili faz piada que humilha as pessoas e as conduz a uma situação de perda, como no caso da doadora de leite que ele chamou de vaca e coisas piores possíveis – ela foi ridicularizada em sua cidade, não podia sair na rua, entrou em depressão.

Os fundamentalistas islâmicos também querem enfrentar o humor, só que pegando pesado em armas.

O objetivo real não é enfrentar o ataque humorístico, o objetivo real é político. O objetivo não era atacar a liberdade expressão. Acho que estão cagando pra liberdade expressão.

Você concorda com a colocação, de que o atentado ao Charles Hebdo foi o “11 de setembro da liberdade de expressão”?

Não gosto, acho tola e apressada. Acho que o que foi atacado não foi a liberdade de expressão. É uma tática para um jogo político mais complexo e perigoso. O jihadismo não tem a pretensão de controlar a liberdade de expressão na França. Este é um traço que vem desde a Comuna de Paris.

Não houve ataque à liberdade de expressão?

Houve um ataque à liberdade de expressão, mas não é este o objetivo estratégico. Por que não atacam a direita anti-islâmica? Porque não interessa. Querem criar uma confusão que visa comprometer todo o sistema. Se atacassem só os fascistas seria uma espécie de limpeza, que até interessaria (risos). Mas o que os terroristas querem é movimentar a opinião massiva. Eles sabem que o sentimento xenófobo vai se exacerbar, e isso pode gerar políticas militaristas de intervenção no Oriente Médio – isso tudo interessa ao Estado Islâmico, um grupo que não está ligado à idéia de construir um Estado, está ligado em construir guerra.

Por que os ataques contra o fascismo não acontecem?

É improdutivo dentro do ponto vista da tática de gerar o terror, a confusão é o que interessa, o irracionalismo. O que embasa o desejo terrorista não é uma construção racional de um coletivo árabe de uma liberdade de expressão, a ideia é outra, de propor uma ideia de guerra jihadista contra o mundo. É uma ideia louca, que é alimentada por Bushes da vida, Olavos de Carvalho da vida. Tentar construir a ideia de um choque de culturas, onde um precisa prevalecer dentro dessa lógica. ‘O que deve prevalecer é o nosso lado, precisamos destruir o outro’.

Qual sua conclusão sobre o atentado ao Charlie Hebdo?

Não existe ainda, tenho procurado ligar os pontos. É aterrorizante o suficiente para abalar as convicções da gente. Agora quais convicções, não sei. De princípio tenho visto que nas exibições de força no facebook, as pessoas se aferram às posições delas e fazem trincheiras de onde atiram.

Tenho tentado entender fora da dor e do sentimento de perda, pois amava e admirava o CH, tento entender politicamente o que está acontecendo. Começam os ataques às mesquitas e restaurantes árabes, ou aos minimercados judaicos… Isso que vai gerar, é um padrão estimulado por grupos de direita que querem construir uma política de exclusão dentro da Europa.

E sobre os acontecimentos de hoje?

A morte dos irmãos? Não tenho o que comentar, sério. Acho que continua em marcha o projeto de irracionalismo.

Como assim?

11/9 salvou a vida do Bush, um político medíocre e desprestigiado que vinha de uma eleição contestada. Foi transformado em herói e abraçou as táticas militaristas e intervencionistas.

Penso porque esses fdp fizeram isso. É que no final das contas o fundamentalismo e os grupos de ultra-direita xenófobos se alimentam. Foram feitos um para o outro. Haja entendimento real ou não, na prática a porra louquice atende ao clamor da porra louquice.

Mas não sei isso é coisa de malucos. Pode ser um jogo muito mais frio do que a gente pensa, e é isso que me aterroriza – ver que não é maluquice. Esse jogo frio pode envolver dinheiro, poder político e controle militar.

Consegue associar este atentado a um fato político da história brasileira?

No Brasil as pessoas foram presas, matou-se gente, pessoas ficaram acuadas. Mas a reação historicamente determinante à ocupação ditatorial se deu quando mataram um jornalista. Na mesma ocasião Manoel Fiel Filho, militante ativista operário foi morto. Todo mundo se comoveu mas não foi decisivo. Decisivo foi terem matado Vladimir Herzog, que era jornalista. Isso foi importantíssimo no jogo cultural que a ditadura estava tentando fazer naquele momento. Hoje sabemos que houve uma tentativa de golpe dentro do golpe, da linha dura, que foi frustrado porque eles foram mais longe do que podiam. Ao mesmo tempo podiam ir menos longe? A lógica deles é de montar canastra. Era o jeito que sabiam jogar.

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Protesto sem hipocrisia, por favor

Num continente onde o racismo está em alta, denúncia do ataque ao Charlie Hebdo não pode alimentar a clássica postura de duplicidade moral

Diante da presença de 700 000 pessoas nas ruas de Paris para protestar pelo massacre na redação do Charlie Hebdo é preciso lembrar que:

1. Durante os ataques mais recentes da aviação de Israel sobre Gaza, os protestos em solidariedade a população palestina foram reprimidos na França porque se considerou que poderiam se transformar numa ameaça a ordem pública;

2. Cartunistas e ilustradores solidários com a causa árabe em Israel chegaram a ser processados pelo Estado. Questionado, o primeiro ministro Manuel Valls se justificou: “Nós deveríamos ficar de braços cruzados diante da criatividade do ódio?”

3. Em 2006, um grupo de intelectuais de prestígio na mídia assinou um manifesto anunciando a aparição de uma quarta forma de ditadura dos tempos modernos. Depois do nazismo, do fascismo e do estalinismo, o manifesto falava do islamismo — que não é uma doutrina política, mas uma religião, que mobiliza perto de 1,5 bilhão de pessoas, ou um quarto da humanidade, reunindo homens e mulheres com diferentes visões de mundo e costumes bastante diversos.

Benvindo à duplicidade moral do século XXI.

O morticínio na redação do Charle Hebdo foi uma operação cruel e injustificável. Nenhum cidadão, em parte alguma do mundo, deve perder a vida em função de suas opiniões. O fato do assassinato coletivo ter sido um crime premeditado, sem dar chance de defesa às vítimas, apenas reforça seu aspecto perverso, inaceitável.

Nada disso nos proíbe de lembrar que o direito de Charlie Hebdo expressar o ponto de vista de seus jornalistas e cartunistas sem restrições não deve ser confundido com a sustentação de suas opiniões políticas. A expressão “somos todos Charlie” pode gerar muitas confusões.

Num esforço supostamente didático, surgiu no país a conversa que tenta comparar Charles Hebdo e o Pasquim, o inesquecível jornal de humor feito no Leblon que chegou a vender 200 000 exemplares por semana durante a ditadura militar. É bom não exagerar nas primeiras impressões.

Estamos falando de publicações satíricas, dedicadas ao humor político. Podemos encontrar artistas geniais, nos dois lados do Atlantico. E só.

Mas ninguém tem o direito de iludir-se com puras formalidades nem ignorar o ponto essencial.

O Pasquim tinha lado. Extraia sua força de uma opção política clara: denunciava o regime militar e seus inimigos. Não fazia concessões nem permitia dúvidas a respeito. Não era um humor sem causa. Muito menos com a causa errada. Estava ao lado dos mais fracos.

No universo cultural europeu do século XXI, Charles Hebdo construiu uma relação ambígua com o racismo.

Assumindo aquela visão que classificava o islamismo como o quarto totalitarismo, o próprio editor da Charlie Hebdo disse que, para a revista, tanto o fascismo da Frente Nacional, a organização de extrema-direita francesa, como o que chamava de “fascismo islâmico” fazem parte da “mesma seara e contra eles não economizamos nossa arte”.

O fascismo de Jean Marie Le Pen — e outros líderes semelhantes que se espalham pelo Velho Mundo — tem um projeto de poder de Estado. É um movimento violento e nostálgico da velha ordem, que tenta restaurar pela força. Quer eliminar direitos conquistados, que representam avanços — parciais, limitados — rumo a uma situação de menor desigualdade. A opção Le Pen é um estado forte para submeter os deserdados da globalização a leis mais duras e severas, como mão de obra de segunda-classe — seja em casa, seja em seus países de origem.

O clero muçulmano mantém convicções que podem ser ou parecer retrógradas. Como em todas as religiões organizadas, seus líderes podem ser acusados de exercer o poder de forma autoritária.

Ali se encontram círculos fascistas — que também se manifestam no extremismo católico. Em julho de 2011, em Oslo, 76 pessoas morreram em dois atentados cometidos por um fundamentalista cristão, adversário assumido da imigração islâmica, admirador fanático do Estado de Israel.

Não há dúvida de que lideranças muçulmanas participam da resistência política e cultural de uma população segregada e diminuída em seus direitos, em particular no Oriente Médio, onde a atuação do Estado de Israel junto a seus vizinhos — e à própria população árabe no interior de suas fronteiras — contribui para criar um ambiente de enorme tensão em todo planeta.

Este é seu papel na cena global, sem relação com o fascismo de Jean Marie Le Pen. É por isso que são atacados. É por isso que o deboche é estimulado. Devem ser desqualificados — da mesma forma que, nos tempos do Pasquim, a ditadura lançava insinuais odiosas sobre a vida pessoal de lideranças da Teologia da Libertação.

O racismo é um antigo componente da cultura européia e é possível encontrar suas manifestações mesmo em textos de sábios insuspeitos do iluminismo. Mas há uma novidade recente.

Com o progresso científico, as noções que dividiam a humanidade em raças biologicamente inferiores e superiores deixaram de fazer sentido para as camadas mais cultas.

Está comprovado que nenhuma herança genética é capaz de explicar as diferenças de desenvolvimento entre povos e países. Surgiu, então, o fator cultural.

Procura-se definir uma hierarquia entre homens e mulheres pela visão de que há uma hierarquia entre culturas. Algumas seriam mais adequadas do que outras para promover o progresso social, que não seria produto de opções de natureza economica e política, mas dos valores tradicionais de cada povo.

Foi assim que se passou a explicar a hegemonia política-militar dos EUA em todo planeta pelos valores morais da religião protestante — embora outros povos, com os mesmos valores morais e religiosos, pudessem padecer de uma condição muito diferente. Ou a falta de desenvolvimento de países tropicais pela falta de amor ao trabalho duro de seus cidadãos — ainda que a jornada de trabalho de muito desses povos pudesse ser mais prolongada e estafante. E assim por diante.

O fator cultural encontra-se no eixo teórico do artigo ” Choque de Civilizações”, de Samuel Huntington. Publicado em 1993, ele construiu um novo quadro ideológico para justificar a atuação das grandes potências após a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria — quando, mais uma vez, era preciso manter a hierarquia entre povos e paises, dominantes e dominados.

Para Huntington, todo esforço para criar um ambiente de convívio harmonico e cooperativo entre os povos, com respeito a pluralidade e a história de cada um, nada mais seria do que uma utopia risível, pois não há uma herança comum entre elas. “As diferenças entre as civilizações não são apenas reais; são fundamentais”, escreve, para acrescentar: “não vão desaparecer em pouco tempo. São muito mais essenciais do que as diferenças entre ideologias e regimes políticos.”

Ele reconhece que “diferenças não significam conflito, e conflito não implica necessariamente violência,” mas adverte: “ao longo dos séculos, as diferenças entre civilizações geraram os conflitos mais violentos e prolongados.”

Dividindo a humanidade em oito civilizações diferentes, Huntington enxerga um ambiente hostil para o chamado ocidente, cada vez mais mais ameaçado pelo progresso de outros povos de outras culturas. Nesse ambiente de risco, onde a posição de predomínio se encontra ameaçada, o “Ocidente (com maiúsculas)” está condenado a “manter o poderio econômico e militar necessário para proteger seus interesses” diante das demais civilizações.

Quem leu Edward Said já aprendeu a importância de estereótipos negativos sobre os povos árabes para consolidar um domínio de caráter imperialista naquela parte do mundo que abriga as principais reservas mundiais de petróleo, a principal riqueza estratégica dos últimos 100 anos.

Quem ler “O que a Europa deve ao Islam de Espanha”, de Juan Vernet, poderá descobrir a formidável contribuição dos povos árabes para a magnifica explosão cultural do Renascimento — e todas suas consequências — que muitas pessoas acreditam ter sido uma obra pura de artistas e intelectuais europeus.

A questão encontra-se aí.

A execução à bala da redação do Charlie Hebdo é inaceitável.

A tentativa de criminalizar o islamismo por este crime também é inaceitável. Lembra as piores tentativas de manipular consciências e reforçar preconceitos que inevitavelmente irão gerar novas tragédias.

Paulo Moreira Leite
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Ao vencedor, adeus

Bom para muitos, não para Dilma Rousseff. Ótimo para um, péssimo para vários. Assim é este número sem charme: 6,41.

No primeiro dia útil da semana, Guido Mantega deixou o governo com a discrição dos vencidos, desenhado por muitos dos economistas e por quase todo o jornalismo de economia como incompetente para as atuais circunstâncias, em grande parte atribuídas ao que seriam seus erros.

No último dia útil da semana, o divulgado índice da inflação em 2014, de 6,41%, demonstrou: quem estava certo era Guido Mantega. Até muito perto do fim do ano, sua insistência em que a inflação ficaria abaixo do "teto" de 6,5%, fixado para o ano foi contestada ou posta em dúvida crítica. Com isso, o alegado "descontrole inflacionário" passou de tema econômico a tema político, gerando um clima de desalento que justificou o retorno dos juros à escala antissocial, contrária ao crescimento econômico e prejudicial à distribuição de renda. Tudo isso para quê? Ou, melhor, para quem?

Com a inflação dentro da faixa aceita no início daquele ano como conveniente, Dilma Rousseff vê neutralizar-se uma carga opositora que a enfraqueceria e favoreceria Joaquim Levy, nos casos, bastante prováveis, de divergência entre a presidente e o ministro.

Mas a inflação "dentro da meta" é um comprovante a mais, agora de teor econômico, da precipitação com que Dilma Rousseff adotou as teses e os métodos do (neo)liberalismo conservador. Uma afirmação absurda de que, entre os adeptos do crescimento econômico como prioridade e desenvolvimento social como obrigação humana, não são encontráveis gestores e métodos capazes de bem conduzir a economia.

Guido Mantega foi espremido. Não teve o reconhecimento da parte que lhe coube no êxito econômico do segundo mandato de Lula, nem lhe foi concedida a ressalva, no governo Dilma, de que conteve fora as ondas piores da crise internacional. Para negá-lo, os comentaristas neoliberais comparam o Brasil com o crescimento de alguns vizinhos, fazendo por esquecer que a agressividade da crise é menor com economias menos desenvolvidas, ou menos complexas. França, Itália, Espanha, Rússia, China, a fortaleza alemã, além de outros, não escaparam aos efeitos nocivos.

Diferenças

Há um lado positivo no aparecimento de Antonio Anastasia entre os citados pelo ex-entregador de dinheiro ilegal a mando de Alberto Youssef. Não pela pessoa de Anastasia. Condutor da parte administrativa dos governos mineiros de Aécio Neves, enquanto Andrea Neves controlava a parte política e publicitária, Anastasia se tornou sucessor natural do chefe. Seria o ministro da Casa Civil se Aécio derrotasse Dilma, e elegeu-se senador. Sempre pelo PSDB.

A inclusão de Anastasia na Lava Jato fez a imprensa e a TV afinal pensarem um pouco na inconveniência de encampar e amplificar denúncias feitas por gente desqualificada e sem prova, sem sequer indício. E, na Lava Jato, sem que haja notícia das indispensáveis investigações para comprovar ou desmentir o delator premiado. Os vazamentos têm bastado para a imprensa e a TV.

Mas Anastasia e a concomitante acusação ao deputado peemedebista Eduardo Cunha já tiveram tratamento diferente. É o efeito tucano.

Os especialistas

Evidências do quanto estavam bem treinados os terroristas na França, como está propalado.

Foram em três prédios à procura da Redação do "Charlie Hebdo". Não sabiam em que andar ficava. Perguntaram na portaria e, com aquela indumentária, foram mandados para o terceiro andar. Subiram e voltaram. No segundo, correto, não tinham como entrar na Redação: ignoravam o sistema eletrônico de abertura. Forçaram uma pessoa da portaria, que tinha o cartão magnético.

Estavam tão cientes de que os pormenores fazem o êxito ou o insucesso de operações assim que, como se fossem eles os humoristas, portavam suas carteiras de identidade e deixaram uma no carro de fuga. Sem ter, aliás, um plano de fuga e desaparecimento imediato: ficaram rodando mais de 24 horas em carros roubados.

Obtusidade igual, só a da polícia e das autoridades francesas: decidiram matar os três, e ficaram sem ter quem dê informações diretas sobre o que pode haver por trás do ataque e dos caros fuzis AK-47.

Janio de Freitas
No fAlha
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Sérgio Porto # 102


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Essa é do Barão... 160


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