8 de jan de 2015

Dr. Anastasia, melhore seus álibis. Tem obra em Minas, e da Toyo Setal/Youssef…


O problema das feitiçarias é que elas acabam atingindo os aprendizes de feiticeiro.

É claro que Paulo Roberto Costa montou uma estrutura de apoios políticos para manter sua roubalheira na Petrobras.

Era um, como se diz no jargão da política eleitoral, “viabilizador” de recursos.

E está claro que não era um esquema partidário — tinha sido no PP, antes da morte de seu padrinho, José Janene — mas da construção de uma teia multipartidária de cumplicidades.

Que, agora, pega Eduardo Cunha, líder do PMDB, e Antonio Anastasia, que era, há muitos anos, o governador de Minas — de fato,  com Aécio no Governo e, depois, ocupando ele próprio o Palácio da Liberdade.

A história de Anastasia de que não havia obras da Petrobras em Minas é conversa fiada.

A Unidade de Fertilizantes V, uma importante fábrica de produção de amônia para fertilizantes é obra realizada pela Petrobras e tem um ramal de gasoduto para alimentá-la que é de responsabilidade da Gasmig, empresa do governo mineiro, que fornecerá o gás — matéria prima da produção de amônia.

E a Toyo-Setal está metida nestas obras bilionárias, coisa de mais de R$ 2,3 bilhões.

A obra é importante, necessária e, até, fundamental para que o Brasil reduza sua dependência de fertilizantes importados.

Não seria responsável dizer que há irregularidades nela, mas também não dá para Anastasia dizer que não tem nada com isso, porque não havia obras por lá, como disse à Folha:

“Em primeiro lugar, registro que não conheço este cidadão (o policial  federal Jayme Careca), nunca estive ou falei com ele. Da mesma forma não conheço, nunca estive ou falei com o doleiro Alberto Youssef. Em 2010, já como governador de Minas Gerais, não tinha qualquer relação com a Petrobras, que não tinha obras no Estado, ademais do fato de eu ser governador de oposição ao governo federal”

Havia, senador Anastasia, e da única empresa que já admitiu que pagava propina.

E antes, quando o senhor Anastasia era o faz-tudo de Aécio, houve outra, o Gasbel II, obra de R$ 1 bilhão, tocada pela Egesa, outra das empreiteiras descredenciadas pela Petrobras por estar metida na “Lava Jato”.

Obra, todos sabem, dependem de autorizações e licenças estaduais…

O senhor deve melhorar suas explicações porque, apesar da blindagem da mídia aos “malfeitos” tucanos, não dá para ignorar uma obra deste tamanho que, inclusive, teve diversas licitações anuladas justamente pelo fato de empreiteiras terem sempre cobrado muito mais que o valor estimado pela própria Petrobras.

Como disse a Presidenta Dilma Rousseff, é preciso não deixar “pedra sobre pedra” nestas suspeitas.

Inclusive as pedras tucanas.

E mesmo aquelas onde eles se desculpam com a desfaçatez de fazer corar um frade.

De pedra.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Em crise, 'O Globo' demite

Jornal realiza cortes na redação no início de 2015
Nesta quinta-feira (8/1), o jornal carioca O Globo realizou uma série de demissões. Portal Imprensa apurou que entre 18 e 30 funcionários integram a lista de dispensas, incluindo repórteres, editores e colunistas.

Entre os demitidos estão Fernanda Escóssia, ex-editora de "País"; os colunistas Jorge Luiz ("Esporte"), Artur Xexéo ("Cultura") e Agostinho Vieira ("Meio Ambiente"); e a ex-editora de "Rio", Angelina Nunes. Esta última fez o anúncio em seu Facebook: "A partir de hoje não estou mais no Globo. Vou concluir o mestrado e me preparar para quando o Carnaval chegar", escreveu.

Estariam também entre os dispensados as repórteres Carla Alencastro, Isabela Bastos, Laura Antunes e Paula Autran, além dos diagramadores Claudio Rocha e Télio Navega. Fernanda Escóssia já havia sido "rebaixada" da função de editora em 2014 e foi demitida na última terça-feira (6/1).

Procurado, o diretor de redação do jornal, Ascânio Seleme, não foi encontrado para comentar o assunto. O sindicato dos jornalistas do Rio de Janeiro também não se pronunciou sobre o assunto.



O Globo demite mais de 100 funcionários; redação sofre cerca de 30 baixas


O jornal O Globo realizou mais de uma centena de demissões nesta quinta-feira, 8. Conforme informações extraoficiais repassadas à reportagem do Comunique-se, ao todo, o veículo de comunicação dispensou cerca de 160 profissionais, atingindo vários departamentos da empresa, como administrativo e comercial. Na redação, os cortes alcançaram aproximadamente 30 pessoas, entre repórteres e diagramadores.

Na lista de jornalistas que se despediram do dia a dia do impresso mantido pela Infoglobo estão profissionais premiados e com longo tempo de casa, caso da editora-assistente de ‘Rio’, Angelina Nunes, que estava na empresa de comunicação desde 1991. Ela usou o perfil que mantém no Facebook para confirmar a sua saída. “A partir de hoje não estou mais no Globo. Vou concluir o mestrado e me preparar para quando o Carnaval chegar”, publicou. Durante os 23 anos de trabalhos dedicados ao Globo, somou conquistas como Prêmio Esso, Prêmio Embratel e Prêmio Vladimir Herzog.

Integrante da galeria ‘Mestres do Jornalismo’ do Prêmio Comunique-se desde 2013, o colunista de cultura Artur Xexéo também foi dispensado pela direção do jornal. No Globo desde 2000, o articulista parece ter pressentido que iria deixar de colaborar com a publicação. No blog que leva o nome do jornalista, o último texto (publicado no domingo, 4) recebeu o título de “Despedidas”. No artigo, ressalta-se que a despedida era de 2014, mas o autor chega a citar a sua situação profissional em determinado trecho. “Se o assunto não for minha aposentadoria, o leitor sempre pode imaginar que fui demitido. Que demoraram 22 anos, mas, enfim, descobriram que sou uma farsa”, escreveu Xexéo.

Demissões e fim de segmentos

Além da decisão de diminuir o quadro de funcionários, O Globo deve reestruturar a organização do conteúdo. Com as demissões desta quarta, o jornal, ao que tudo indica, encerrará as atividades de cadernos e suplementos. Entre os segmentos que estão na lista para serem descontinuados estão ‘Carro Etc’ (dedicado à cobertura automotiva), ‘Morar Bem’ (imóveis) e ‘Boa Chance’ (oportunidades de empregos e capacitação profissional).

A reportagem do Portal Comunique-se entrou em contato com a redação de O Globo, que não comentou o assunto. No departamento de Recursos Humanos, uma das funcionárias afirmou não ter nenhuma informação a respeito das demissões promovidas pelo jornal.

Letícia Silva e Natália Nascimento
No Comunique-se
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Derrotado, Estado de Minas corta 12 jornalistas


Jornal Estado de Minas, dirigido por Zeca Teixeira da Costa, que fez campanha explícita por Aécio Neves, participando até de vídeos no WhatsApp, agora paga o preço de seu engajamento político; nesta quarta-feira, 12 jornalistas foram demitidos; "O jornal passa por uma crise financeira, e uma crise de gestão e credibilidade. Nos últimos tempos, O Estado de Minas adotou uma linha editorial atrelada a um grupo político e acabou perdendo assinantes e, consequentemente, diminuindo sua venda em bancas", disse o presidente do sindicato, Kerison Lopes
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A altura do Levy

Paul Krugman e Joseph Stiglitz não são donos da verdade, mas são donos de um Prêmio Nobel cada um. Os prêmios lhes dão uma respeitabilidade que eles não encontram entre seus pares economistas, pois são os dois mais notórios inimigos da atual ortodoxia — keynesianos nadando contra a corrente da maioria. Para Krugman e Stiglitz, o receituário ortodoxo para vencer a crise mundial provocada pelo capital financeiro equivale a receitar gasolina para apagar incêndios. O sacrifício de gastos sociais e as outras formas de austeridade vendidas com o nome de fantasia de “responsabilidade fiscal” já provocam reações de consequências imprevisíveis na Europa. Só quem está gostando da irresponsabilidade social oficializada é o capital financeiro, que pariu a crise e ama a sua cria.

Na foto do espantoso novo Ministério da Dilma que saiu nos jornais, destaca-se, além do vestido da Kátia Abreu, o tamanho do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Ninguém, nem o Rossetto, chega aos seus ombros. O que não deixa de ser simbólico. Levy domina o grupo fotografado com sua altura como dominará o governo com suas medidas de, sim, responsabilidade fiscal e austeridade. E a altura de Levy tem outro significado: será difícil alguém chegar ao seu ouvido. Alguém preocupado com a incoerência de um governo do PT entregar-se tão despudoradamente a uma ortodoxia de efeito duvidoso. Alguém pedindo clemência para os programas sociais ameaçados, talvez a própria Dilma. Se não fosse esperar demais, até alguém pedindo para ele ler Krugman e Stiglitz de vez em quando. Mas o ouvido de Levy é inalcançável, à prova de palpites. Na própria foto, ele parece estar com a cabeça numa camada superior da atmosfera, respirando outro ar. Certamente não o mesmo ar do pastor Hilton, lá embaixo.

Imagino que o Joaquim Levy tenha lido o Thomas Piketty, nem que seja só por curiosidade. Piketty também nada contra a corrente. Se a questão maior para qualquer pessoa que não seja um verme moral é a questão da desigualdade crescente no mundo, Piketty prova que o capitalismo, do jeito que vai, só agravará o problema. Ele chama a pretensão de que uma economia de mercado sem regulação acabará por “elevar todos os barcos” e diminuir as desigualdades de “um conto de fadas”. Mas esse conto de fadas é o outro nome da ortodoxia econômica que querem nos impingir.

Papo Vovô

A Lucinda, nossa neta de 6 anos, pediu-me para consertar a corda de um cavaquinho que encontrara. Não consegui, e ela tirou o cavaquinho das minhas mãos, dizendo “Deixa que eu conserto, inteligência rara”. Inteligência rara! Acho que vou baixar um decreto proibindo a ironia dentro de casa.

Luís Fernando Veríssimo
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Uma série de Sílvio Tendler: Militares da Democracia - V


Direção: Silvio Tendler
Produção: Ana Rosa Tendler
Locução: Eduardo Tornaghi

5 — A história não tem ponto final...

Último episódio destaca a Anistia e a história dos envolvidos na Operação Condor

O experiente Ivan Proença concede entrevista para o programa
O experiente Ivan Proença concede entrevista para o programa
Cinquenta anos depois de partir de Brasília, em condições dramáticas, o corpo de João Goulart retorna à capital da República pela mesma base aérea de onde partiu.

Em seu último episódio, a série relembra a história de militares que resistiram ao golpe de estado, a trajetória de pessoas envolvidas na chamada Operação Condor e a Anistia, mostrando que os vencedores de ontem são os vencidos de hoje.

Este quinto episódio da série Militares da Democracia, dirigida pelo cineasta Silvio Tendler, ouve personalidades como o escritor Ivan Proença, que foi capitão do Regimento Presidencial de João Goulart, e o advogado Wadih Damous, conselheiro federal da OAB e presidente da Comissão de Direitos Humanos da entidade.



Acompanhe:

Episódio IEpisódio IIEpisódio IIIEpisódio IV
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Califa Ibn Rousseff investe contra a liberdade de imprensa no Brasil


Começam a pulular por aqui as "análises" que comparam o atentado na França com a inglória, sangrenta e cruel perseguição (rysos) que a Califa Ibn Rousseff tem engendrado contra a liberdade de imprensa no Brasil.

De repente, todo mundo aqui no Gigante Acordado é Charlie. Mainardi, o enfant terrible de meia idade cuja função intelectual é desfilar impropérios rococós contra o Partido dos Trabalhadores lá em Veneza, transmutou-se em Charlie. Felipe Moura Brasil, colunista de Veja e editor daquele livro do Mestre Olavo sobre ser um idiota também é Charlie. La Sheherazade, musa do senso comum, campeã do cristianismo de várzea e rainha dos comentaristas de portais de notícia, adivinhem! também é Charlie.

Não vi se o Constantino foi declarado Charlie ou não, mas tenho certeza que ele é Charlie. Gentilli é Charlie, Lobão é Charlie, somos todos Charlie.

Nesse país onde a presidenta, pessoalmente, sai por aí disparando tiros de Kalishnikov contra todos que a criticam; onde as pessoas não ousam criticar o PT por medo da morte; onde as redes de televisão foram alvo de atentados a bomba por parte de militantes petistas mascarados, se você não for Charlie, meu amigo, você está contra o Charlie.

Agora, peço a licença dos meus amigos Charlies para assistir um pouquinho de Globonews, enquanto eu me indigno com a falta de liberdade de expressão em meu país. Pela atenção, obrigado.

Pedro Munhoz
No Ornitorrinco
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O atentado na França... e os ódios no Brasil



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Com o bolivarianismo, a Globo passou a perna no editor


Em 1962 a Globo associou-se ao grupo Time-Life, em um momento em que as redes norte-americanas tentavam se internacionalizar. Recebeu cerca de US$ 6 milhões, a dólares da época, e um know-how imbatível de operação.

Foi beneficiada por uma CPI conduzida por João Calmon, dos Diários Associados, que levou os gringos a venderem sua parte. O próprio Roberto Marinho adquiriu com financiamento do Banco Nacional autorizado por José Luiz de Magalhães Lins.

* * *

Em 1980 as verbas publicitárias para a televisão já representavam 85% do total de tudo o que se anunciava no país. Sobravam 15% para a rapa. Desses 85%, a Globo ficava com 85%, contra 11% da TV Tupi e 4% das demais emissoras.

O modelo comercial e político, os pactos com o mercado publicitário, tudo foi tão bem sucedido que a Globo sempre conseguiu fatias de publicidade superiores aos seus índices de audiência.

* * *

Em agosto passado, a Abert (Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão) estampava os indicadores favoráveis: no primeiro quadrimestre o meio TV recebeu 70% das verbas publicitárias. Cresceram também o rádio, a TV por assinatura e a mídia exterior.

Quem perdeu: Guias e Listas, com queda de 32%, Revista, que caiu 10,1% e Jornal, que caiu 6%.

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A Globo domina amplamente a TV aberta, tem presença forte na TV fechada, amplo predomínio no rádio, boa presença no mercado de revistas, um dos três jornais mais influentes do país e presença fortíssima na Internet.

A Abril se esvai em sangue. Há informações fidedignas na praça de que a família Civita conferiu mandato a dois bancos para vender a revista Veja. Há anos o Estadão busca um comprador. A Folha caminha para ser um braço da UOL — cujo modelo de negócio está cada vez mais focado em prestação de serviços tecnológicos. O Valor tenta se equilibrar com eventos e edições especiais, mas sua tiragem caiu abaixo dos 50 mil.

Todos esses grupos são vítimas dos novos tempos, sim, mas principalmente da Globo, cujo modelo monopolista atuou como um super aspirador das verbas do mercado.

Em tese, esses grupos seriam os maiores beneficiários de uma regulação econômica da mídia, assim como a imprensa regional e os novos jornais e sites na Internet. No entanto, as maiores resistências a essa regulação econômica partem justamente deles. Como se explica?

* * *

Se vivo fosse e à frente da Folha, Otávio Frias certamente estaria comandando uma campanha pela regulação econômica da mídia. Já o filho comanda uma campanha contra... blogs. Os Mesquita estariam na mesma trincheira, como estiveram por ocasião do acordo da Globo com a Time-Life.

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A Globo conseguiu montar um clima de guerra, de luta contra o tal bolivarianismo, em que ela foi a grande vitoriosa. Invoca-se o fantasma de Hugo Chaves para interditar o debate sobre a regulação econômica da mídia.

Meses atrás, um dos interlocutores dos irmãos Marinho relatava sua preocupação com o enfraquecimento acelerado de seus parceiros. Abril, Estadão e Folha não apenas davam respaldo político à vocação monopolista da Globo, como eram os álibis para quem apontava concentração excessiva de mercado.

A trama conspiratória do bolivarianismo conseguiu iludir o eleitor, o leitor, o telespectador. E, no caso dos demais grupos, também o editor.

Nassif
No GGN
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"O caso Mattei" — o filme sobre as petroleiras


Petrobrás: um filme a ser revisto (assista abaixo, na íntegra)

Quanto à Petrobras, há um filme para ser visto. Chama-se 'O caso Mattei', de 1972. É dirigido por Francesco Rosi, e tem Gian Maria Volonté no papel título.

Artigo de Flávio Aguiar (publicado originalmente no portal Carta Maior, em 02/jan/2015)

O Financial Times publicou recentemente um artigo onde se afirma que, dentre as companhias petrolíferas do mundo, a Petrobrás arrisca tornar-se uma “pária”, diante das acusações de corrupção interna e externa. Processada por um fundo abutre nos Estados Unidos, a Petrobrás passa por um momento em que, além das investigações (adequadas), enfrenta ataques demolidores no plano nacional e internacional.

O artigo do FT, além de noticiar as investigações, ressoa também o desejo (“wishful thinking”) de que a estatal brasileira venha a ser isolada, quebrando-lhe a espinha, e de quebra a espinha do governo brasileiro e do próprio Brasil, incômodo besouro que não deveria voar segundo as leis da ortodoxia econômica, mas que no entanto avoa, passando, apesar das dificuldades, por uma fase melhor do que a maioria dos países europeus, envoltos em crises de identidade, de empobrecimento galopante, de ascensão da extrema-direita e de perda de prestígio. Os ataques vão continuar e recrudescer, sobretudo desde que a ortodoxia europeia entrou em indisfarçável pânico diante da possibilidade de que o Syriza ganhe as próximas eleições nacionais na Grécia e arranque o país dos grilhões da “austeridade”. Se tiver sucesso, vai ser uma “catástrofe”...

Quanto à Petrobrás, há um filme para ser visto ou revisto. Chama-se “O caso Mattei”, é dirigido por Francesco Rosi (“O bandido Giuliano”, dentre outros), foi lançado em 1972 e tem Gian Maria Volonté no papel-título, o do engenheiro italiano Enrico Mattei, assassinado (hoje isto está judicialmente aceito, embora sem apontar os culpados) em 1962, num atentado contra o avião em que ia da Sicília para Milão e que matou também o piloto e um jornalista que o acompanhava.

Enrico Mattei (1906 – 1962) foi o engenheiro nomeado presidente da companhia Agip (Azienda Generale Italiana Petrolio), fundada por Benito Mussolini, para fechá-la. Ao invés disto, Mattei, convocando técnicos demitidos no pós-guerra, reativou-a, dinamizou-a e refundou-a sob o nome de Ente Nazionale Idrocarburi (ENI), empresa estatal que existe até hoje, sendo uma das mais dinâmicas da hoje combalida economia do país e uma das responsáveis pelo “renascimento italiano” dos escombros do fascismo na década de 50.

O motivo desta decisão surpreendente e que contrariou inúmeros interesses naquele momento, dentro e fora da Itália, foi a descoberta de um memorando em que um dos técnicos demitidos registrara a descoberta de jazidas de petróleo e gás no vale do rio Pó, perto de Milão, em terras pertencentes ao Estado. Em 1947 as prospecções confirmaram o memorando, encontrando não muito petróleo, mas muito gás, o suficiente para fornecer energia para a nova industrialização do norte do país.

Mas o esforço de Mattei não se limitou a isto. Ele projetou a ENI no cenário internacional, e aí seus maiores problemas começaram. Já havia problemas internos, que o filme de Rosi debate intensamente, centrando-se, entre outros temas, na discussão sobre o papel do Estado na recuperação econômica da Itália.

Jornalistas ortodoxos (parece um outro país que conhecemos...) criticaram violentamente o “estatismo” de Mattei, que não cedeu as reservas descobertas à exploração pela iniciativa privada, ressalvando que as empresas particulares eram benvindas — para fazer suas próprias prospecções em outras terras, vizinhas ou não, reguardando a propriedade estatal para a ENI.

Mas foi no plano externo que os problemas de avolumaram desmesuradamente. Tratava-se de um momento (década de 50) em que o cartel das “Sete Irmãs” (uma expressão cunhada por Mattei) dominava completamente o mercado petrolífero mundial, fazendo acordos lupinos e vorazes com governos corruptos e colonialistas dos países produtores no Oriente Médio e no norte da África, com condições abjetas, e simplesmente depondo governos que a eles e elas não se sujeitavam, como no caso da Pérsia, futuro Irã, em que o governo nacionalista de Mossadegh foi derrubado em 1953 sob a desculpa de “salvar o país do comunismo”.

As Sete Irmãs eram: a Anglo-Persian Oil Company (hoje British Petroleum, BP*), a Standard Oil of California (SOCAL), a Texaco-Chevron*, a Royal Dutch Shell*, a St. Oil of New Jersey (Esso), a St. Oil of New York (SOCONI) (hoje Exxon Mobil*) e a Gulf Oil. As assinaladas com o (*) existem até hoje e estão ativas no plano internacional.

Mattei tomou várias iniciativas que contrariaram o interesse do cartel e de quem a ele estava ligado, dentre elas:

1) Começou a percorrer os países do Oriente Médio e do norte da África oferecendo melhores condições contratuais. Alvos: Argélia (então ainda um “protetorado” francês), Tunísia (idem), Marrocos, Pérsia (hoje irã) e Egito. Objetivo: assinar acordos na base de 50%/50% na repartição dos lucros.

2) Realizou um acordo de compra de petróleo da então União Soviética, contrariando e enfurecendo a OTAN. Um memorando então secreto do National Security Council dos Estados Unidos considerava Mattei alguém “irritante” e um “obstáculo”.

3) Apoiou o movimento de independência da Argélia, atraindo a ira da organização terrorista francesa Organisation Armée Secrète (OAS), a mesma que tentou matar o General De Gaule, dentre outros atentados. Com isto contrariou também o próprio serviço secreto francês, o Service de Documentation Exterieure et de Contre-Espionage (SDECE).

Mattei criou uma espécie de fábula, no estilo de La Fontaine e Esopo, para explicar o que estava acontecendo:

“Um pequeno gato chega onde alguns cachorrões estão comendo num pote. Os cachorrões o atacam e o expulsam. Nós, italianos, somos como este pequeno gato. No pote há petróleo para todos, mas alguém não quer deixar que cheguemos perto dele”.

Mattei era uma figura pública, no centro da captação financeira do momento. De fato, tornou-se “irritante” e um “obstáculo”. E num momento em que, na Itália do pós-guerra, as várias versões da Máfia tinham se tornado investidoras no mercado financeiro. Não só lá: nos EUA também.

O desfecho deu-se num vôo da Sicília para Milão. Hoje se admite oficialmente que houve um atentado, provavelmente por uma bomba colocada no avião, acionada por algo como o acender de um isqueiro na cabine (sempre fui contra fumar em vôos). O avião caiu, e sabe-se que vários indícios e evidências foram “lavados” no local, ou não tomados em consideração, como o de que o corpo de Mattei tinha cravados vários fragmentos de metal — o que só uma explosão podia explicar.

O assassinato — hoje oficialmente admitido — aconteceu num momento em que isto era comum como “aggiornamento” ao mundo da Guerra Fria: recordemos o de Patrice Lumumba, no Congo, e a morte suspeita do Secretário Geral do ONU, Dag Hamarskjold, também numa queda de avião, no mesmo Congo, hoje objeto de nova investigação. Sem falar nos inúmeros golpes de direita na América Latina.

Além de focar uma tragédia, o filme de Rosi teve a sua própria. Durante a preparação do roteiro o diretor pediu ao jornalista Mauro de Mauro que fizesse uma investigação sobre Mattei. De Mauro tinha uma biografia interessante e complicada. Apoiara os fascistas de Mussolini e depois, quando os ventos mudaram, tornou-se membro da Resistência. Isto lhe garantiu inúmeros contatos, mas também lhe trouxe o hábito de falar demais, com todo mundo.

De Mauro foi à Sicília, e de lá, num dos últimos contatos com amigos, disse que tinha descoberto “a história de sua vida”. “Algo que iria abalar a Itália”.

Aparentemente, segundo um destes amigos, “falou a coisa errada para a pessoa certa e a coisa certa para a pessoa errada”. Foi sequestrado e morto pela Máfia siciliana. Seu corpo nunca foi encontrado. Dois dos investigadores de sua morte — o Coronel Alberto Della Chiesa e o Capitão Giuseppe Russo — foram mortos também pela Máfia. O episódio é evocado no filme.

Em 1997 o “Caso Mattei” foi reaberto, à luz das declarações do “capo” Tomaso Buscetta, duas vezes preso no Brasil e duas vezes extraditado para a Itália. Buscetta foi o primeiro a admitir que Mattei fora morto por ordem da Máfia Siciliana. A versão hoje predominante é a de que esta o matara a pedido da “Cosa Nostra”norte-americana que, como o NSC, considerava Mattei um “obstáculo irritante”, por atrapalhar seus investimentos petrolíferos junto a algumas empresas das Sete Irmãs. O envolvimento destas nunca foi comprovado, sequer investigado — exceto pela sugestão do filme de Rosi.

O caso de De Mauro foi a julgamento em 2011, no de Salvatore Rine, o único mafioso sobrevivente que teria um envolvimento com seu desaparecimento e morte. Rine foi absolvido por falta de provas, e o veredito apontou “assassinato com autores desconhecidos”, um final melancólico para a justiça italiana.

Embora com pontos análogos, a situação da Petrobrás hoje é diferente. Ela não é mais “um pequeno gato”. Virou um cachorrão. O próprio FT publicou não faz muito uma lista do que consdera hoje “as Sete Irmãs”: a Saudi Aramco, a China NP Corporation, a Gazprom, a National Iranian Oil Co., a PDVSA venezuelana, a Petronas da Malásia, e a Petrobrás. Há diferenças gritantes em relação às antigas “Sete Irmãs”: elas não formam um cartel. Tanto quanto se sabe, não patrocinam golpes de estado. E algumas das antigas “Sete” continuam em operação, com seus métodos nada ortodoxos.

Quanto à Petrobrás, o seu problema é que hoje ela descobriu o novo “grande pote”. Ou seja, o Pré-Sal. Isto pode desequilibrar (reequilibrar?) o mundo petrolífero em vários sentidos. O Brasil pode se tornar membro da OPEP. Pode trazer autonomia em matéria de petróleo não só para si mas para a América do Sul como um todo. E o petróleo ainda tem vida longa como fonte de energia.

A cachorrada ao redor está alçada. A externa, para por os dentes na reserva, impedindo que seus dividendos sejam usados para beneficiar a educação e a saúde dos brasileiros, favorecendo ao invés a “saúde” e o “bem estar” dos mercados internacionais. A interna, para lucrar com a entrega à voracidade internacional deste patrimônio nacional.

O filme de Rosi repartiu a Palma de Ouro do Festival de Cannes com “A classe operária vai ao Paraíso”, de Elio Petri.

Não perca.



Cristóvão Feil
No Diário Gauche
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Repudiamos todas as formas de violência!


A Comissão Nacional Organizadora do #5BlogProg — 5º Encontro Nacional de Blogueir@s e Ativistas Digitais — repudia todo e qualquer ato que desrespeite a Liberdade de Expressão!

Entendemos que o atentado ocorrido em Paris em 07 de janeiro de 2015 é uma ação terrorista da extrema-direita contra a extrema-esquerda.

Também repudiamos o maniqueísmo da imprensa comercial brasileira, o PiG, que tenta usar o atentado de Paris para evitar que a Regulamentação e a Democratização da Mídia sejam discutidas aqui no Brasil.

Condenamos a islamofobia e entendemos que as religiões estão sendo usadas como cortina de fumaça para esconder a disputa pelo controle do petróleo e da economia mundial.

Nos solidarizamos com os profissionais do Charlie Hebdo e seus familiares, condenando todas as formas de violência praticadas por extremistas de direita, sejam eles, europeus, árabes, latinos, asiáticos, africanos ou norte americanos.
Comissão Nacional Organizadora do #5BlogProg

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A Arte Em Luta


Quando Diderot e d’Alembert editaram a Encyclopédie, na segunda metade do século 18, incluíram em seus mais de 30 volumes o que consideravam todo o conhecimento acumulado da Humanidade, transformando a obra na culminância do movimento iluminista que, um século antes, começara a defender a razão e o conhecimento como elementos motores da espécie, enfrentando a dominância opressiva e obscurante da religião. A França confirmava, assim, o posto de centro do Iluminismo, plantando, em seu território, um farol cujos fachos lançavam curiosidade, iniciativa intelectual e o interesse pelo debate como formas de melhorar o planeta.

Em 2015, a mesma França viu doze de seus habitantes – incluindo cinco cartunistas – abatidos pelo fogo da mesma ignorância religiosa que começou a enfrentar há mais de 350 anos.

Não sou um grande fã de religiões de modo geral. Como disse o físico Steve Weinberg, “com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém, para que uma pessoa boa faça uma coisa má, é preciso religião”. Ainda assim, usar o que ocorreu hoje em Paris como desculpa para atacar o islamismo é injusto e tolo. Seria o mesmo que julgar toda a Comédia por Danilo Gentili ou todos os roqueiros por Lobão e Roger. Não: a atrocidade cometida hoje tem a religião como desculpa, mas a sociopatia como razão. A mesma sociopatia que, por exemplo, levou o norueguês Anders Breivik a tirar a vida de 77 pessoas em nome de uma ideologia islamofóbica, pró-sionista e antifeminista.

Não é coincidência, portanto, que grupos fundamentalistas costumem atrair tipos mentalmente desequilibrados; o trágico é que há milhares destes à disposição ao redor do mundo esperando apenas uma ideologia, um credo ou um bordão qualquer que justifique sua propensão à violência.

Já do outro lado das metralhadoras encontravam-se artistas. Indivíduos que ganhavam a vida apontando o ridículo do radicalismo, da cegueira religiosa, da estupidez que leva irmãos de espécie à mútua e desnecessária destruição. Indivíduos que rebatiam às ameaças com piadas, com o humor, com o intelecto.

Com desenhos.

Viam as barbaridades cometidas ao redor do planeta em nome desta ou daquela religião e as criticavam com traços que cortavam na carne da hipocrisia e iam direto ao coração apodrecido dos interesses vis, particulares, egomaníacos e sociopatas de seus líderes. Golpes certeiros, claro, mas simbólicos, racionais e que permitiam que seus alvos permanecessem íntegros e pudessem responder.

Este é um dos papeis fundamentais da Arte, que pode funcionar como uma arma poderosa, mas essencialmente pacífica — e rebatê-la com violência é tática de covardes que reconhecem a fragilidade dos próprios argumentos. Por isto me desagrada tanto a máxima de que “a pena é mais forte do que a espada”: a comparação é tola e desigual. A primeira busca desafiar, argumentar, debater; a segunda quer apenas calar.

Mas calar uma ideia é impossível — e, não por acaso, a morte dos cartunistas do “Charlie Hebdo” imediatamente deu origem a dezenas de cartuns enlutados, além de comprovar a acurácia dos trabalhos dos artistas mortos, que obviamente atingiram os pontos fracos dos terroristas que, em retorno, decidiram simplesmente abater aqueles que os haviam desmascarado.

E assim, no berço do Iluminismo, mais uma sombra se abateu sobre a Humanidade em um ano que, brincamos todos na virada, simbolizava o futuro colorido da trilogia estrelada por Michael J. Fox. Mas que, na prática, se aproxima bem mais da distopia pessimista e totalitária de O Planeta dos Macacos.

Pablo Villaça
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Vai pra Cuba!



Diário de um Chapéu de Couro

Companheiros,

Regresso de Cuba. De uma viagem de 13 dias. Trago boas novas.

A blogueira Yoni Sanchez é uma figura totalmente irrelevante ao povo cubano. Os cubanos até sabem que ela existe mas não lhe dão a mínima importância. Então, ela usa a tática de concentrar esforços para transgredir leis, como, por exemplo, rasgar o próprio passaporte, na tentativa de ser levada à prisão e assim chamar atenção e talvez se tornar uma líder de alguma coisa mas o governo cubano inteligentemente aplica à funcionária da CIA a mais letal das penas: a total liberdade para fazer o que quiser.

Digo isto porque conversei com pessoas diversas em Havana, inclusive estive no lobby do hotel luxuoso “Habana Libre” aonde ela costuma contar à imprensa estrangeira as fábulas dela como o alegado sequestro por agentes do governo cubano em que lhe resultou hematomas por todo o corpo jamais comprovados. Ocorre é que a blogueira cubana descobriu uma forma de ser financiada e assim ganhar dinheiro, viajar o mundo inteiro, e se divertir enganando quem se deixa enganar. Não o povo cubano cujo índice de escolaridade com nível superior alcança 70% da população e está preparado ganhar o mundo, se quiser, quando o embargo sem razão de ser terminar.

Estive na universidade de Havana de onde saem os médicos que dão assistência em 70 países, inclusive combatendo o ebola no continente africano. Só pra constar: não há escola nem faculdade particulares em Cuba. Conversei com um advogado de 26 anos de idade e um engenheiro e uma engenheira de informática. Ah, o ano letivo de 2015 começou em 05 de janeiro. Ônibus escolares passam pegando as crianças e os adolescentes entre às sete e às oito da manhã e retornam no final da tarde. Também por isso não há crianças nos semáforos.

O mundo se encontra em Cuba

Cuba hoje é uma Babel. Ouve-se múltiplos idiomas. Pessoas do mundo inteiro visitam Cuba. Um cubano que cursou Engenharia de Informáica em Moscou e História em Havana, e hoje trabalha com Turismo, me disse que Havana é a sétima cidade mais visitada do mundo (não fui conferir a informação). Até norte-americanos visitam Havana de forma clandestina, pois o governo norte-americano proíbe seus cidadãos de visitar Cuba, mas eles vão para o México e de lá voam clandestinamente à Cuba. A cantora norte-americana Beonce esteve em Havana e um fã entusiasmado a reconheceu, tirou foto e postou no facebook. Foi o suficiente para chegar ao conhecimento do governo norte-americano que aplicou à Beonce uma multa de um milhão de dólares. Fosse um cidadão comum provavelmente seria levado para Guantanamo sob a alegação de que “não é em Cuba que você quer fica!”, imagino.

Agora a cereja do bolo: Cuba está infestada de coxinhas brasileiros. De eleitores do Aécio gastando seu rico dinheirinho contribuindo para sustentar o regime do Comandante Fidel Castro. Pobre Lobão, és de fato feito otário pelos coxinhas. Um internauta antipetista havia me dito que “tubos de dinheiro do Brasil estavam sendo enviados para Cuba”. Agora eu posso concordar. Curioso que no Brasil sempre nos dizem “vai pra Cuba”. Até dois professores de uma faculdade mequetrefe de Direito, como escapatória em um debate por falta de argumentação, me mandaram ir pra Cuba. Fui, e lá encontrei um monte dos que aqui nos mandam ir pra Cuba. São realmente sujeitos sem tutano ideológico. Como proclama um ícone deles “a gente somos inútil”. Ventrílocos da porca imprensa brasileira. Diverti-me observando-os. As gafes, as vergonhas alheias que protagonizam achando que ninguém os está entendendo nem os observando.

Uma pequena maldade

A diversão começou já no aeroporto de Guarulhos. Três idosos indo para os EUA (voamos no mesmo avião até o Panamá), já na sala de espera sentaram atrás de mim e começaram a tagarelar bobagens contra o atual governo brasileiro. As falas eram truncadas porque não sabiam dissertar sobre o que pretendiam discorrer. Começavam e paravam no “aquele negócio que ela está querendo alterar. Como é o nome? Não lembro agora. Ela não sabe o que está fazendo”, e coisas assim. Bem, falavam alto, incomodavam os demais que estavam querendo um cochilo antes do voo. Permaneci quieto só observando. “De orelha em pé” como dizia painho. E assim fiquei. Poucos minutos após o início do voo saquei meus fones, dei uma passada nas opções oferecidas na tela de entretenimento grudada nas costas da poltrona à minha frente, escolhi o que queria e percebi uma movimentação na fileira de assentos do outro lado. Lá estava o trio agitado. Primeiro sem saber como plugar os fones. Após algumas tentativas conseguiram. A briga passou a ser com a tela “toca-tela”. Primeiro para se localizar, depois para manusear o rol de opções. Aí, a batalha foi longa. Cada vez mais desesperados ao tempo em que tentavam manter pose de normalidade, fingindo ser a estabanação apenas voluntária ação experimental das alternativas oferecidas pelo painel. Mas estava óbvio que era desespero por desconhecimento. Por impulso pensei em oferecer ajuda mas decidi observar para ver até onde iria a peleja do trio de velhinhos politicamente tão sábios, e anteriormente tão cheios de si (aparentemente por estarem embarcando para os Estados Unidos) com a tela de entretenimento. Cerca de quarenta minutos adiante dois desistiram e se aquietaram. O terceiro, suponho que para sustentar o orgulho, fingiu ter encontrado o que queria ver e viajou três quartos da viagem até o Panamá vendo a propaganda da Copa Airlaines. É… de longe, pela diversificação de cores das luzes projetadas pela tela, parecia ser animada e realmente capaz de prender a atenção por tão longo período.

Decadência da elegância

Dois dias da viagem fiquei hospedado no crème de la crème da coxinharada brasileira em Cuba. Um luxuoso hotel em Varadero. Varadero é o lugar, em Cuba, aonde tem mais brasileiros metidos a besta por centímetro quadrado. Especialmente os que imaginam que Cuba fica para fora dos limites do hotel e assim não estão contribuindo financeiramente para manter o regime do Comandante. Foi lá que presenciei um grupo de seis coxinhas na fila do procedimento de encerramento da estadia tecendo comentários sobre um funcionário cubano do hotel. Dizia um deles: “ele fala francês, italiano, inglês e português”. Nesse momento uma coxinha do grupo interveio:

- Quando eu voltar para o Brasil, eu vou me matricular em um curso de italiano (sic). Ah, mas eu fico pensando, os cubanos têm tanta cultura não sei pra quê se não têm dinheiro.

E o coxinha interlocutor completou:

– Verdade. Não têm internet, nem celular.

Nesse reduto encontrei também uma família composta por mãe, filho na faixa de 35 anos de idade, uma filha e uma tia. Na fila do restaurante o filho com o prato na mão, aguardando o omelete que havia pedido para ser feito com três ovos e todos os legumes e condimentos que estavam à escolha, socava na boca o que podia pegar e falava todo despreocupado achando que não estava sendo entendido por ninguém além da irmã: “Eu nem estou com fome, mas tenho que aproveitar”.

Foi então que me tomou de assalto uma possibilidade. Perguntava-me ao tempo em que tentava vislumbrar. Se ocorre de haver uma caganeira em qualquer um deles, que aqui se encontram, por se entupir de comida, obviamente será levado ao posto médico. E então, recusará ser atendido por um médico cubano? Ou vai incrementar o rol de vexames e absurdamente exigir a submissão do médico cubano ao REVALIDA antes de atendê-lo? Essa, de fato, rezei para ver, mas meu Padim Ciço achou que eu já estava me divertindo demasiadamente. Não atendeu minha súplica.

Enquanto isso, à mesa, a mãe erguia a taça e gritava em um misto de desespero e ordem “POR FAVOR! POR FAVOR! POR FAVOR!”. Desespero por não saber como se dirigir aos garçons e pedir educadamente e respeitosamente o que queria. A postura era a de quem se colocava como “eu sou a hóspede, estou pagando e tenho que ser servida”.

Gente diferenciada

Também na praia desse hotel resolvi me acomodar no primeiro quiosque da primeira das três fileiras de quiosques espalhados na areia, que separam o hotel da água do mar. Sendo a primeira fileira de quiosque a que me refiro a fileira mais próxima ao hotel. Eis que fui contemplado. Naquele dia aquela fileira de quiosques fora ocupada inteiramente por brasileiros. Lá pras tantas chegou um casal, e não tendo mais quiosques disponíveis puxaram duas cadeiras e se acomodaram ao lado de onde eu estava, distanciando cerca de dois e meio metros. No quiosque à minha frente estava um casal de poloneses ou russos, creio eu pelo idioma em que falavam. Em um determinado momento o casal de estrangeiros se levantou para ir ao bar, e nesse instante a senhora brasileira que estava acomodada ao meu lado se levantou e se dirigiu ao casal estrangeiro perguntando em Português:

– Vocês já vão embora?

Em um primeiro momento o casal ignorou pensando que a senhora não falava com eles uma vez que falava em uma língua estranha a eles. Mas a senhora resolveu seguir o casal e insistentemente perguntava

– Vocês já vão embora?

Daí o casal percebeu que a senhora se dirigia a ele e estava falando para ele. E em um claro gesto de “não sei o que você está me dizendo” o casal abriu os braços e seguiu. A senhora voltou irritada porque o casal não a entendia. Mas à frente essa mesma senhora começou a conversar com uma jovem brasileira e eu na minha missão de observar notei a senhora dizendo para a jovem:

– Aqui tá cheio de brasileiro. Mas é um tipo de brasileiro diferente.

Foi aí que instintivamente saquei meu chapéu de couro do bornal, botei na minha moleira e, com a desculpa de ir jogar o copo descartável no lixo, passei três vezes em frente a essa senhora para mostrar que ali havia um tipo de brasileiro diferente.

Essa é a gente que se considera exclusiva, culta, rica, merecedora de privilégios. Entorpecida em sua vil soberba. É a imagem cuspida e cagada da Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbón e Bourbón e sua trupe vivendo suas aventuras no Brasil. São uma vergonha.

Tive o privilégio de assistir de Havana à posse da Presidenta Dilma, transmitida ao vivo e na íntegra pela TV Cubana, inclusive com repórteres cubanos presentes em Brasília. Com análise crítica, séria e fundamentada de cada um dos Ministros e das possibilidades desse novo mandato face à  conjuntura geopolítica mundial. Ao retornar ao Brasil procurei saber como foi a transmissão da posse aqui. Contaram-me:

– Repercutiram a roupa da Dilma. Compararam-a a um botijão de gás.

Pensei: Meu Deus. De fato, estou de volta.

Essa imbecilização, essa pobreza intelectual, que substitui o que poderia ser debate político, é mais uma manifestação dessa gente que acabei citar. Planam e se lambuzam na poça rasa da lavagem oferecida pela porca imprensa brasileira, se achando o ó do borogodó.

Vai pra Cuba

Fui à Cuba. Gostei e pretendo voltar. Conversei com cubanos nas ruas, nos bares, nas praias, como conversei com haitianos quando lá estive. Uma das minhas manifestações nas conversas era a de que estava preocupado com o fim da tranquilidade, segurança e a introdução do narcotráfico eventualmente consequência da aproximação dos EUA. O consenso dos cubanos é que Cuba está fortemente preparada para impedir uma eventual tentativa de introdução de narcotráfico. Um deles me disse:

– Uma pequena história. Um militar de alta patente foi flagrado tentando introduzir narcotráfico na rede hoteleira. Ele e dois auxiliares. Os três foram fuzilados por isso. A pena mínima é de 20 anos de cadeia para quem for flagrado com narcótico. E então: você quer trazer droga para cá?

Pensei: os Perrellas, donos do helicóptero apreendido com 450 quilos de pasta base de cocaína, seriam fuzilados aqui.

Estive em uma nação de fato socialista.

No procedimento para embarque no aeroporto falei para o atendente que como brasileiro agradeço pelos médicos cubanos. O rapaz saiu detrás do balcão e veio me dar um forte abraço.

Voltei de Cuba maravilhado.

Não tenho atributos que me enquadrem no esteriótipo coxinha, mas assalto o brado para conclamar: Vão pra Cuba!

Yo soy un hombre sincero

Gerson Carneiro
No Viomundo
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Chama o síndico

O ministro Nelson Barbosa fez o que sabe fazer ao pregar mudanças no salário mínimo. Ele, assim como os dois outros membros da troika da economia nacional — Joaquim Levy, ministro da Fazenda, e Alexandre Tombini, do Banco Central —, perseguem o azul nas contas, custe o que custar. Fugir do prejuízo não está errado. A questão é escolher de onde tirar.

Esperar que eles tenham maiores preocupações sociais é como pedir a um cantor de ópera que faça um concerto de rock. Não funciona. A chance de desafinar é quase total. A troika brasileira é formada na escola que acha porque acha que os salários no Brasil subiram demais. Ponto. Não há Cristo que os faça pensar o contrário. Os três, aliás, não escondem isso de ninguém. Neste ponto, identificam-se com a chamada troika que afundou a Europa, composta pelo Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia.

Com uma tesoura na mão e a ideia fixa na cabeça, a equipe econômica pretende defender o programa neoliberal ortodoxo. Não lhe cabe culpa: é isso o que ela aprendeu. O problema está em quem a contratou. A troika trabalha como aquelas consultorias que todo mundo já viu nas empresas do dia a dia. Ao primeiro sinal de dificuldade, a providência automática é cortar "custos", diga-se, empregos e salários. Desde que, bem entendido, resguardados o quinhão dos controladores e acionistas majoritários.

Valendo-se de abstrações matemáticas e jargões economicistas, tenta-se vender no Brasil a impressão de que os pobres passaram a ganhar muito e vivem refestelados em benefícios sociais nababescos.

Como se diz, o papel aceita tudo. O fato de o sujeito deixar de ser miserável vira objeto de comemoração, de um lado, e de alerta, de outro. Se alguém deixa de passar fome, mesmo sem nunca ter sido apresentado a uma fatia de carne, vira símbolo da redenção social para governantes. Para outros, os endinheirados, é sintoma de gordura a eliminar.

Chamado às falas pela presidenta, Barbosa teve que soltar uma nota desmentindo mudança nas regras do salário. Alguns viram nisso uma afirmação da supremacia da presidente. Os mais realistas enxergaram aí o começo da guerra de posições que, no limite, ameaça levar à paralisia da administração e, aí sim, a desarranjos difíceis de consertar.

Num momento em que as previsões são de aumento do desemprego e diminuição da renda, soa injustificável, para um governo ungido pelos mais humildes, iniciar "correções" justamente arrochando instrumentos como o seguro desemprego. É muito pra cabeça de qualquer um. Certamente por isso nem mesmo dirigentes de centrais sindicais mais conservadoras compareceram à festa de posse em Brasília.

Independentemente do mérito, existe uma agenda muito clara para o novo governo. Por que, em vez de "ajustar benefícios", o Planalto não anuncia o engajamento de fato em projetos como o de taxação de grandes fortunas, cerco à evasão fiscal das grandes empresas, correção justa na tabela do imposto de renda, imposição de limites à precarização desenfreada do mercado de trabalho e regulamentação da lei anticorrupção? Tudo isso sem falar nos juros nas alturas, feitos sob medida para engordar a banca e emagrecer o orçamento já curto dos assalariados.

Dar bronca em auxiliares pode dar impressão de autoridade; não resolve, porém, o cotidiano das famílias, que no fim é o que deveria importar. Mas tudo parece possível num país em que mesmo biografias são revisadas ao gosto de terceiros. Em que a história de gente como Tim Maia é reescrita ao vivo e em cores para limpar a ficha de quem preferiu "ajustar" seus próprios interesses em vez de olhar para quem ajudou na escalada do Planalto das celebridades.

Ricardo Melo
No fAlha
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O jornalismo Cafuringa

Desde que foram anunciados os nomes dos novos ministros da área econômica, os principais jornais do país se esforçam para decifrar o que pode mudar no segundo mandato de Dilma Rousseff. Mas, se o leitor atento e crítico revisitar as primeiras páginas publicadas desde a última semana de dezembro, vai encontrar uma grande fartura de contradições, como resultado de apostas e conjecturas fabricadas nas redações.

A declaração do ministro do Planejamento, de que haverá mudanças no sistema de reajuste do salário mínimo, foi colhida e vem sendo tratada de maneira equivocada pela imprensa, como um sinal de limite à autonomia do triunvirato econômico. O noticiário registra um processo de idas e vindas na interpretação dos sinais emitidos pelo governo: na quarta-feira (7/1), por exemplo, os diários de circulação nacional destacam o que é anunciado como uma “decisão” da presidente da República — o corte antecipado de despesas, ainda antes de ser aprovado o Orçamento pelo Congresso Nacional.

Trata-se de medida que se repete todos os anos, em todas as instâncias da gestão pública: a intenção de reduzir despesas não obrigatórias, como viagens e compras de produtos e serviços considerados não essenciais ao funcionamento do aparelho do Estado. A diferença é que, segundo as reportagens, a decisão anunciada cria uma norma geral para a administração federal, que consiste em limitar os gastos mês a mês, até que esteja aprovado o Orçamento, o que deve ocorrer em março.

Além de destrinchar o que está subentendido nas entrelinhas do noticiário, o observador pode se distrair com outro aspecto do conteúdo dos jornais: a dificuldade que parece ter a imprensa para penetrar nos núcleos de decisão do poder Executivo. Mesmo colunistas que frequentam há anos as antessalas de ministros já não parecem ter a mesma intimidade com o poder, e o resultado é a fartura de suposições, declarações e algumas invencionices.

Apanha-se uma declaração, aplica-se sobre ela o que se imagina seja o perfil dos agentes encarregados de tomar decisões e faz-se a aposta: tal coisa só pode significar isso ou aquilo. Então, o batalhão de analistas e comentadores faz a “leitura” do fato ou da hipótese.

A nuvem de palavras

A imprensa brasileira lembra o ex-jogador de futebol Cafuringa, ponta-direita que foi astro no Fluminense e que tinha como principal talento a criatividade do drible. O problema é que, quando chegava diante do gol adversário, Cafuringa mandava a bola para longe.

No festival de “chutes” que tem marcado a cobertura do Planalto Central, são poucos os jornalistas que ainda conseguem fazer as duas coisas, ou seja, apurar as informações e dar a elas um tratamento equilibrado, interessante e desvinculado dos pressupostos dos editores.

Diante da dificuldade para interpretar declarações de autoridades, usando apenas o talento humano, eventualmente as redações apelam para a tecnologia: na quarta-feira (7), por exemplo, o Globo aplicou sobre o discurso de posse do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a técnica da “nuvem de palavras”, que permite formar uma imagem com as expressões usadas em um texto, de modo que as palavras mais repetidas aparecem em tamanho maior. Só que não deu certo e o jornal teve que apelar aos analistas de sempre, que fizeram as suposições corriqueiras.

Qualquer pessoa minimamente habilitada no uso de computadores pode criar uma “nuvem” para analisar o conteúdo de um texto. Pode-se usar para isso até mesmo o serviço “Vispublica” do governo federal (ver aqui), criado para dar mais transparência às decisões do governo. Mas, para analisar questões mais complexas de política e economia, é preciso muito mais: é necessário desprender-se de preconceitos e abrir a mente para interpretações que contrariem o viés preexistente.

Por exemplo, na análise do discurso do ministro Levy, o Globo destaca a visão de mercado, segundo a qual o novo titular da Fazenda escolheu um vocabulário cauteloso para passar uma mensagem a investidores e ao empresariado. Escondido no meio da reportagem, um economista fala que “o país não está em crise, está em situação difícil”, e que o ajuste não será tão penoso como se espera.

O jornalismo predominante no Brasil lembra mesmo o falecido Cafuringa: só sabe jogar pela direita, dribla muito mas chuta pra fora.

Luciano Martins Costa
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O resgate

A palavra mais bonita da língua portuguesa é “sobrancelha”, a mais feia é “seborreia” e a mais esdrúxula é “esdrúxulo”. Fui me informar de onde vinha a palavra “esdrúxulo”, para podermos um dia mandá-la de volta, e descobri que sua origem é o italiano sdrucciola, ou con l´accento sulla terz´ultima sillaba. Uma parola sdrucciola é uma proparoxítona e um verso sdrucciolo é um verso que termina numa proparoxítona.

Era esse o sentido da palavra “esdrúxulo” no português também, até se darem conta que, como acontece com muitas palavras, ela estava sendo mal aproveitada. Seu sentido real não era o seu sentido correto. (Outro exemplo disso é “plúmbeo”, que quer dizer, oficialmente, relacionado com o chumbo, mas é obviamente o som de alguma coisa caindo na água). E você não pode ter uma palavra como “esdrúxula” no vocabulário sem usá-la para descrever coisas tão, assim, esdrúxulas que nenhuma outra palavra as descreveria melhor. Ainda mais que temos “proparoxítona” (apesar de parecer nome de remédio), um nome perfeitamente adequado para uma palavra com o acento na antepenúltima sílaba. Livre do seu sentido antigo, “esdrúxulo” transformou-se em sinônimo de extrema esquisitice. Mas, mesmo com seu novo significado, a palavra caiu em desuso, pela absoluta falta de oportunidades para empregá-la. Foi sendo cada vez menos usada entre nós. Até surgir o segundo Ministério da Dilma.

Se não tiver nenhuma outra consequência na vida nacional, o segundo Ministério da Dilma terá servido para recuperar o uso da palavra “esdrúxulo” no Brasil. Seu sentido real foi resgatado. Só “esdrúxulo” descreve o sorteio de cargos para assegurar alianças inexplicáveis, as escolhas na área econômica feitas especificamente para obedecer aos bancos e alegrar o “mercado” (no momento em que, na Europa martirizada pelos bancos e pelo mercado, “responsabilidade fiscal” é cada vez mais desculpa para irresponsabilidade social e “austeridade” vira palavrão) — sem falar na Katia Abreu cuidando da Agricultura e o filho do Jáder cuidando dos peixes. “Estranho” é um adjetivo inadequado para o segundo ministério da Dilma. “Maluco” é pouco. “Inacreditável” também. “Esdrúxulo” é a palavra. Não tem outra.

Luís Fernando Veríssimo
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O terror livre

Marcar uma data em que os jornais de todo o mundo publiquem em suas primeiras páginas a charge que, há oito anos, dispôs o fanatismo a prometer a vingança ontem consumada em Paris — o que conviria é uma resposta deste gênero, em uníssono mundial, para demonstrar aos fanáticos que a sua violência pode tornar universal o que pretendem reprimir. Mas o que os governos preparam é o de sempre.

Três pessoas, apenas. E reduzem a lixo os bilhões de euros, bilhões de dólares e gigantescos dispositivos policiais-militares destinados a imobilizar o fanatismo terrorista. Nada mais estúpido do que os "serviços de inteligência". Sob a inspiração da CIA, esses serviços, de nacionalidades incontáveis, coordenam-se mundo afora, com as mais indecentes violações dos direitos civis. Mas de repente passa-se a ver notícias de um exército enorme, muito bem equipado e treinado, conquistando em poucos dias vasta porção do Oriente Médio. E os tais serviços de inteligência e seus respectivos governantes surpreendem-se tanto quando nós com esse tal "Estado Islâmico", que não sabem de onde vem, para onde quer ir e vai, nem conseguem detê-lo.

A história ensina que o mundo tem fases de imbecilização, variáveis no alcance e na vigência. Está em uma delas há décadas.

O Especialista

Os adversários do deputado Eduardo Cunha na disputa pela presidência da Câmara não têm por que ficar otimistas com a notícia de que ele está citado na Lava Jato, e deverá ser objeto de inquérito no Supremo. A notícia tanto pode prejudicar Eduardo Cunha como pode eriçar os ânimos dos seus aliados.

Eduardo Cunha está habituado a circunstâncias assim. Já bateu na trave em várias situações de escândalo: como integrante do grupo de PC Farias no governo Collor, quando esteve na companhia de habitação fluminense no governo Garotinho, em Furnas, em sombrias versões e transações com uma refinaria privada no governo Sérgio Cabral. E lá está ele como favorito, até agora, para controlar a Câmara. Eduardo Cunha é especialista em confusões.

Além disso, o previsto pedido do procurador-geral da República ao STF, para inquérito contra o deputado, seria posterior à eleição na Câmara, a ser feita no dia mesmo de retorno da atividade parlamentar, no início de fevereiro.

O Correto

O confronto aberto com a ministra Kátia Abreu por Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Agrário, promete diversão duradoura. O risco da líder do agronegócio não está só na convicção equivalente e contrária de Patrus. Está em que ele saque a Constituição, na qual se define a finalidade social da terra, e puxe a fita métrica que comprova a existência de latifúndio no arraial mesmo de Kátia Abreu. Ou não haveria por aqui tantos reis e rainhas da soja.

Mas, desde logo, não dá para aceitar a tese da ministra de que "o correto é o governo fazer as hidrovias e depois concessionar [ui] para a iniciativa privada". Esse é o método vigente. O correto é outro: o governo faz a concessão, que é uma forma de arrendamento, e o concessionário obterá lucro do investimento que faça, não de investimento público.

Em caso de dúvida, à ministra e a seus associados basta lembrar-se dos filmes de faroeste sobre a construção das estradas de ferro e as hidrovias que alastraram o progresso no território americano. E eram os séculos 18 e 19.

Janio de Freitas
No fAlha
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Senador tucano envolvido na Lava Jato

O depoimento que faz menção ao deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na apuração da Operação Lava Jato traz um novo político para o rol de citados no caso: o senador eleito Antonio Anastasia (PSDB), ex-governador de Minas Gerais.

A citação está sob análise na Justiça Federal do Paraná. Não foi encaminhada à Procuradoria Geral da República até agora porque Anastasia só recuperou o chamado foro privilegiado às vésperas do recesso judicial, quando foi diplomado senador.

Já a citação a Cunha está com a Procuradoria, pois ele já era deputado à época do depoimento. A acusação foi apurada por investigadores, que concluíram ser necessário abrir um inquérito para detalhar se há de fato algo concreto contra o peemedebista.

Políticos têm foro privilegiado e, por isso, só podem ser processados na área criminal por tribunais superiores.

No depoimento de 18 de novembro passado, o policial federal Jayme Alves de Oliveira Filho, o Careca, disse que entregou R$ 1 milhão ao então candidato a governador Anastasia a mando do doleiro Alberto Youssef em 2010.

O tucano negou com veemência o teor do depoimento e disse desconhecer o policial e o doleiro. "É totalmente fora da realidade. Meu único patrimônio é moral, tenho toda uma reputação de honestidade. Qual seria o propósito disso? Fica até difícil comentar algo tão absurdo'', disse.

Na declaração, o policial afirma que levou o dinheiro a uma casa em Belo Horizonte e que Youssef tinha dito que o destinatário era o então candidato tucano, que se elegeu governador.

"Tempos mais tarde, vendo os resultados eleitorais, identifiquei que o candidato que ganhou a eleição em Minas era a pessoa para quem eu levei o dinheiro''.

A polícia mostrou então uma foto do tucano. "A pessoa que aparece na fotografia é muito parecida com a que recebeu a mala enviada por Youssef, contendo dinheiro'', disse ele.

Youssef triangulava as operações investigadas envolvendo funcionários da Petrobras, empreiteiras contratadas pela estatal e políticos. Careca, diz a PF, era responsável por entregar dinheiro em espécie a pessoas indicadas pelo doleiro.

Outras menções

O policial cita também outro parlamentar, Luiz Argôlo (SD-BA), cujo nome já havia sido mencionado no curso da investigação e que nega ter cometido irregularidades.

Também há uma menção a Tiago Cedraz, filho do presidente do TCU (Tribunal de Contas da União), Aroldo Cedraz. Careca disse ter levado dinheiro "duas vezes'' no escritório de Cedraz, que, segundo ele, "fica numa casa no lago, no final de uma rua sem saída em Brasília''.

A assessoria de Cedraz disse que ele não conhece e nunca esteve com Careca ou com o doleiro Youssef e que coloca à disposição das autoridades o acervo de imagens da casa no Lago Sul de Brasília e o sigilo bancário.

No fAlha
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Sérgio Porto # 99


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Essa é do Barão... 157


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