6 de jan de 2015

“Não mais deveres sem direitos. Não mais direitos sem deveres”. Simples assim


Há muita gente na esquerda confusa e, até, irritada com as mudanças na concessão de benefícios trabalhistas e previdenciários anunciadas semana passada.

Posso falar sobre o assunto com certo conhecimento, em razão da minha passagem pelo Ministério do Trabalho, porque a maioria destas medidas vem sendo discutida dentro do governo há, pelo menos, três anos.

Vou, então, tratar um por um dos temas, para dizer o que, infelizmente, não foi dito.

Primeiro: as pensões que deixam de ser vitalícias para cônjuges com menos de 44 anos. Abaixo desta idade, entre três anos (para quem ficar viúvo ou viúva com menos de 21 anos) até 15 anos (para quem tiver de 40 a 43 anos).

Importante: ninguém que receba hoje pensão perde nada. Ou seja, não se fere direito algum. E a regra não vale para quem morre por acidente de trabalho, doença ou ocupacional.

O que quer dizer que atingiria, pelo perfil do pensionista atual, algo como 10% dos novos (toc,toc, toc), pensionistas por morte do cônjuge.

Em que mundo está o pessoal que acha que uma viúva ou viúvo de 25 anos veste-se de preto e guarda luto eterno, secando em vida?

Claro que, nos primeiros tempos, é um baque. Mas deixa de ser e deve mesmo deixar de ser, progressivamente.

Vida que segue, como dizia o João Saldanha.

Então a moça ou o rapaz enviúva aos 21 e, quando tiver 70 anos, depois de mais dois casamentos e toda uma vida, continua ganhando a pensão do falecido ou da falecida, de quem nem se lembra mais?

Tenham santa paciência, isso não é justo nem aqui, nem na China.

E claro para qualquer pessoa de bom-senso que esta regra tinha de ser corrigida, porque se trata de preservar o direito do próprio trabalhador contribuinte.

Mas falta dizer mais, e faz muito tempo que falta dizer, como retiro de uma matéria publicada em junho de 2012, no Valor:

“Nos 12 meses terminados em abril, a União emitiu quase 400 mil pensões por morte, ante pouco menos de 300 mil aposentadorias por tempo de contribuição. Do estoque total de benefícios, em abril de 2012, existiam 2,1 milhões de pensões por morte a mais do que aposentadorias por tempo de contribuição. As pensões por morte representam 23,4% do total dos benefícios emitido pelo INSS, ante 16,1% da aposentadoria por tempo de contribuição.”

Em janeiro deste ano, esta parcela havia subido para 27%.

O que queremos, quebrar a previdência pública para que todos tenham de investir na previdência privada?

Ah, um detalhe — insignificante no total de gastos, mas imoral e abjeto — até o cônjuge ou o filho ou filha — que assassinava o contribuinte da Previdência tem (ou tinha, até essas novas regras) o direito a pensão. A famosa Suzane Richtofen recebeu, até completar 21 anos, a pensão previdenciária dos pais que ela própria matou.

Quanto ao abono salarial e o seguro desemprego, que não são da Previdência, mas pagos com recursos do PIS/Pasep, que integram o Fundo de Ampara ao trabalhador:

Infelizmente não tenho mais aqui comigo um estudo que pedi para ser realizado, em 2012. Mas vou recuperar os dados e divulga-los aqui.

Mesmo sem poder dar números exatos, recordo-me que quase 40% dos dispêndios com o abono salarial eram pagos a quem tinha trabalhado menos de três meses no ano, e no mesmo valor recebido por quem tinha ralado o ano inteiro.

A mutreta campeia nisso aí, porque basta trabalhar um mês na carteira por, digamos, um salário mínimo (muitas vezes sem nem isso receber, só “de carteira”) para ter direito a outro, pago pelo Governo.

Mutreta, também, todo mundo sabe que há no seguro-desemprego. Eu mesmo vi, pessoalmente, o caso de um rapaz que, todo ano, era “demitido” de um emprego, devolvia as indenizações, recebia o seguro-desemprego, continuava a trabalhar recebendo o salário “seco” e “por fora”. Quando terminava o prazo do seguro, era recontratado e, daí a alguns meses, repetia o processo.

Fraudes como esta, infelizmente, são comuns. Milhares, centenas de milhares.

Claro que nem todo o crescimento de gastos é fraude: há o crescimento da formalização da mão de obra, da massa de trabalhadores e o valor mais elevado do salário-mínimo.

Mas não é nisso que tocam as modificações anunciadas.

Se erro há nas medidas — e há alguns, que serão corrigidos na negociação para que sejam aprovados, como é o caso das mortes acidentais, por doenças degenerativas e assemelhados — não são de essência, mas de adequação a casos específicos onde as restrições sejam injustas.

E um outro, que é facilmente explicável: é bom e barato para, com o seguro desemprego, as empresas praticarem uma criminosa rotatividade de mão de obra.


Os empresários, que tanto reclamam da qualidade de mão de obra, não educam, não treinam e, sobretudo, não permitem que o trabalhador  se fixe no emprego.

E governo nenhum teve coragem de regulamentar o que está na Constituição, que é a punição, com alíquotas mais pesadas de PIS, às empresas que praticarem taxas de rotatividade de mão de obra superiores ao razoável.

Isso, sim, falta nestas mudanças.

Mas isso não invalida o fato de que as outras injustiças devam ser corrigidas  e mostradas à sociedade.

Defender os direitos do trabalhador é fazer com que aqueles que lucram com o trabalho restituam ao trabalhador parte do que ganham com o seu suor.

Suor, não “espertezas”.

Sempre digo que a Previdência deveria fazer uma estátua para aquela Jorgina da Conceição, a mais conhecida (embora certamente não a maior) fraudadora previdenciária.

Ela ajudou a tornar socialmente condenável o que até então era “aceito” socialmente: conseguir uma vantagem indevida no INSS.

E essa é uma questão que, para os socialistas, está resolvida desde que  Pierre Degeyter, um operário anarquista belga, compôs a letra da Internacional Socialista com os versos: “Não mais deveres sem direitos/Não mais direitos sem deveres”.

Nada mais que isso é necessário para explicar.

Fernando Brito
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Quando a Globo simulava isenção…




No primeiro aniversário do sombrio Governo FHC, a Globo comemorou: era um presidente que viajava.

Colhia títulos e glórias — lá fora.

Em Nova York, 1.200 empresários o aplaudiram de pé!

Depois, quando acabou a mágica daquilo que o 'Cerra' chamava de “populismo cambial”, ele precisou da Globo e do Bill Clinton para se reeleger.

Como se sabe, Clinton empurrou pela goela do FMI um empréstimo ao Brasil na véspera da reeleição — que o Serjão comprou — para segurar a cotação (falsa) do Real.

Reeleito, desvalorizou o Real e mandou o Gustavo Franco embora.

(Franco foi o autor da ‘jenial’ supervalorização do Real, que desestruturou a indústria brasileira e apunhalou a pauta de exportação. Um ‘jenio’! Hoje, é um dos “especialistas” do PiG.)

(Sobre o papel de Andre Haras Resende — segundo Ricardo Melo — na fixação do valor (falso) do Real, leia a entrevista do ansioso blogueiro com Luis Nassif)

Esse foi o primeiro ano.

Depois vieram mais sete.

E nunca mais os tucanos viram a cor do poder.

Esse poder que ilumina, com intenso sol, a praia de Inema, na Ilha dos Frades, onde Dilma assiste à posse do Aécio na esteira da Body-Tech.

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A crise se agrava: a hora do Brasil e a da mídia

Urge rediscutir as bases desenvolvimento brasileiro e isso não se faz com um sistema emissor que interdita o debate e veta soluções.

Os interesses entrincheirados no bunker conservador urram, salivam e rosnam. Mas chegou a hora.

A hora do Brasil e a da mídia.

São ponteiros indissociáveis de um mesmo relógio histórico.

A crise mundial se espraia e se agrava.

A guerra do petróleo entre economias desesperadas é o novo front da desordem neoliberal.

Bombardeia-se o inimigo com volumes adicionais de óleo despejados no mercado.

O empoçamento da oferta diante de uma demanda exaurida por sete anos de crise sistêmica da ordem capitalista derruba as cotações.

Do petróleo e de tudo o que estiver pela frente.

Economias exportadoras de matérias-primas se comprimem e se dilaceram.

Ganha a guerra quem resistir ao preço mais baixo: Opep, xisto norte-americano, petróleo russo, barril bolivariano, pré-sal brasileiro...

Quem sobreviverá?

Ninguém sabe. Há interações econômicas e políticas específicas dentro de cada barril.

A estrutura de preço reflete estágios tecnológicos, escalas de reservas, mas também estruturas de poder e conflitos de interesse.

No Brasil, o barril do pré-sal embute a eficiência tecnológica da Petrobras, de um lado.

De outro, espelha a ordem unida de um conservadorismo determinado a usar o pé de cabra do combate à corrupção para implodir a regulação soberana dessas reservas.

Os black-blocs anti-estatal agem como se não houvesse amanhã.

A ordem é queimar tudo.

O país precisa rediscutir as bases do seu desenvolvimento, para que a sociedade possa repactuar o passo seguinte de sua história e preservar seus trunfos da sanha demolidora e cega.

Isso não se faz com um sistema emissor que interdita o debate e veta antecipadamente as ideias, lideranças e políticas que afrontam os interesses por ele representados.

A crispação do discernimento social, fomentada pela infusão cotidiana de intolerância e incerteza, semeia o fatalismo e a rendição. Embota consciência crítica. Ofusca o esclarecimento argumentativo.

Insufla a prostração da sociedade na construção do seu destino.

O conjunto enrijece a encruzilhada econômica brasileira.

O dispositivo midiático chantageia e entorpece ao mesmo tempo e com igual intensidade.

Desenha o dragão do caos e vende a fraude de que as tesouras criteriosas de Joaquim Levy cuidarão de domá-lo.

O piloto proficiente cuidará de aliviar a carga da aeronave brasileira, garantindo a travessia da turbulência sem renunciar à rota feita de ajuste fiscal, juros siderais, fim dos incentivos anticíclicos, do crédito subsidiado etc etc etc.

Em caso de despressurização, mantenham-se calmos, com os cintos afivelados.

Máscaras de oxigênio não cairão a sua frente...

Boa viagem!

Antes que os contatos com a torre sejam interrompidos, é recomendável avaliar o custo/benefício dos mapas de voo em litígio num mundo em conflagrada gincana para o imponderável.

É nessa intersecção da disputa política e econômica que avulta a importância inexcedível das relações entre mídia e democracia, mídia e oligopólio, mídia e soberania, mídia e repactuação do desenvolvimento brasileiro.

São temas que se entrelaçam e se reconfiguram.

O Brasil não atravessará o Rubicão que se avizinha sem perdas e danos.

Terá que eleger prioridades, prazos, salvaguardas, concessões e metas a preservar.

Quem decidirá a rota e ajustará o percurso a cada solavanco?

Uma ampla repactuação democrática do modelo de desenvolvimento?

Ou as oficinas Levy e Associados?

A opção democrática, à altura da crise em curso, inclui como requisito o arejamento regulatório do ambiente midiático.

A urgente reordenação desse poder que rejeita qualquer contrapeso — ao contrário de todos os demais —  assenta-se em uma premissa adicionada de urgência inquestionável pela crise.

Uma verdadeira democracia não pode existir sem diversidade e pluralidade de informação.

O país não avançará nas transformações econômicas e sociais requeridas pela desordem neoliberal se não capacitar o discernimento político, entre outros, de mais de 60 milhões de homens e mulheres que saíram da pobreza ou ascenderam na pirâmide da renda e agora aspiram à plena cidadania.

A preservação do atual poder de veto que a emissão conservadora acumulou ao longo da história tornou-se um dos mais sérios gargalos ao passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.

Daí a importância da indicação de Ricardo Berzoini para a pasta das Comunicações do segundo governo Dilma.

Ela está afivelada à discussão de um setor que há muito passou de referência a referido no mosaico da disputa política e na percepção da sociedade

A radicalização — progressiva, ininterrupta, desrespeitosa e assumida —  desnudou o objeto.

A mídia tornou-se o principal argumento em defesa da regulação da mídia.

A voz que se avoca uma pretensa universalidade soa cada vez mais particularista.

Quanto mais exclamativa e garrafal, menos crível e mais suspeita.

Não há nessa percepção qualquer traço de fobia persecutória.

Há antecedentes.

Abundantes, a ponto de justificar o temor de que se repitam, como em 32, em 54, em 64, em 1989, em 2002, em 2006, em 2010 e em 2014.

Múltiplas referenciais históricas estão documentadas.

Há recorrência na intervenção indevida que mancha, enfraquece, humilha a democracia e comprime as balizas do desenvolvimento, a contrapelo das urnas.

Há 26 anos, a Constituição brasileira determinou a criação de um Conselho de Comunicação Social no Congresso para auxiliar na implementação e regulação da mídia, dotando-a do escopo plural que a redemocratização preconizou.

Não foi feito até hoje.

O fato significativo de não ter sido feito até hoje, evidencia a pertinência do debate regulatório tornado agora inexorável pela tensão política e econômica.

Quem, a exemplo do que dizia Brizola, acredita que 'enquanto houver poder equivalente ao da Rede Globo no país, não haverá democracia efetiva em nossa sociedade', só pode saudar com otimismo democrático o que diz o novo ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini:

‘É importante abrirmos um debate muito fraterno, muito transparente para que a população brasileira, suas representações empresariais, sindicais, sociais, possam debater com muita profundidade e muita democracia o que significam as comunicações gerais no Brasil, especialmente as comunicações que são objeto de concessão pública”, disse o ministro na posse

Acreditar que os economistas — ou pior, os mercados —  detêm o poder miraculoso de pensar a sociedade acima dos seus conflitos e interesses é, como diz Thomas Piketty, uma gigantesca piada.

De mau gosto, a essa altura dos acontecimentos.

Se o poder blindado da mídia tornou-se um dos fiadores paralisantes dessa fraude, um difusor de impasses e interditos, urge desobstruí-lo.

A experiência de outros países pode ser um atalho providencial a quem, como o Brasil, está refém da velocidade dos mercados e precisa contorna-los com igual presteza e contundência.

É disso que trata o Especial de Carta Maior republicado agora que reúne reportagens e análises de diferentes legislações de regulação da mídia em vigência no mundo.


Com essa contribuição, Carta Maior saúda o debate ecumênico sobre o tema finalmente anunciado pelo governo. E torce para que ele produza frutos, a tempo de desviar o país do voo cego preconizado pelos interesses sabidos, em meio à tempestade mundial.

Saul Leblon
No CartaMaior
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A Cultura dos Tucanos


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Rede Globo se une ao PT para elamear a classe médica





Carta aberta em resposta à reportagem sobre a máfia das órteses e próteses

Noite triste para Medicina brasileira em 4 de Janeiro de 2015. Ontem assisti melancolicamente a matéria sobre as indecentes propinas na comercialização de próteses na TV. Este escândalo é antigo, vem prejudicando todo o frágil sistema de assistência à saúde no País, não encontra guarita na respeitada comunidade médica e é combatida pelo CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Apenas agora a imprensa resolveu tardiamente dar enfoque.

A matéria foi muito reveladora mas ficou incompleta. Não alcançou toda a cadeia de PROFISSIONAIS NÃO MÉDICOS que chafurdam na mesma lama, ganhando dinheiro indevidamente também, como representantes comerciais, técnicos especializados nas aludidas peças, diretores de hospitais, gestores de saúde ligados ao Governo, gestores dos próprios planos de saúde e até auditores. Além de não dar ênfase em toda cadeia do crime, focalizou o "médico" indistintamente, como se todas as especialidades participassem deste teatro de vampiros. A MENSAGEM SUBLIMINAR deletéria passada à população foi muito danosa aos profissionais honestos, que são a maioria absoluta.

O ponto que faltou ser colocado no "i" é o CONTEXTO GERAL DE CRISE NO MODELO ASSISTENCIAL À SAÚDE NO BRASIL. Tudo começa pela massificação sem qualidade do ensino médico em péssimas faculdades públicas e privadas, formando médicos incompetentes e antiéticos com a autorização governamental de quem deveria impedir esta distorção. Como o Brasil pode ter mais faculdades de Medicina que os EUA e China, perdendo apenas para a Índia? A problemática chega às cenas lamentáveis que testemunhamos ontem, passando pelas emergências lotadas, as mensalidades caríssimas dos planos, a negativas de cobertura, a escassez de bons profissionais e de serviços dignos, o aviltamento dos salários e honorários médicos.

É preciso ficar claro que a carapuça não cabe na cabeça dos bons médicos de verdade, (sic) os quais são vítimas também pois são prejudicados com a sangria de valiosos recursos de todo o sistema. O desperdício acaba sendo compensado no achatamento da remuneração do médico honrado, (sic) que não se sujeita à fraude. Estamos fartos dos oportunistas desonestos entre nós e há tempos pedimos justiça neles. (sic)

Nós, bons médicos, (sic) não somos como aqueles poderosos de plantão em Brasília que banalizam intencionalmente a corrupção para criar a cortina de fumaça do vale-tudo e de que todos seriam ladrões mesmo. Estamos majoritariamente contra eles desde as eleições de 2014. Já nos identificam como inimigos a serem destruídos porque incomodamos e denunciamos, junto com outros bravos segmentos sociais, seus planos maquiavélicos de poder total. Ficou claro, há tempos, para nós suas ameaças e sua campanha difamatória de todos os lados, como a de ontem.

Avisamos que continuaremos na posição privilegiada ao lado de nossos sofridos pacientes, que não se deixarão envenenar indistintamente pela matéria jornalística ardilosamente calculada. Hoje, como em todos outros dias, vamos estar lutando por eles, cumprindo com nosso juramento sagrado (sic) e fazendo mais do que nossa obrigação, a fim de compensar os desmandos de uma minoria de maus médicos, dos Governos e dos planos de saúde. A população sabe separar o joio do trigo e os médicos do bem (sic) não precisam temer as fezes lançadas ao ventilador como ontem no horário nobre.

Harlem Carvalho, Graduado em Medicina pela UFBA em dezembro/1997 e Especialista em Oftalmologia pela UNICAMP desde janeiro/2001.
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Kátia Abreu no País sem Latifúndio

Kátia & Dilma
Antes da posse, ela fez elogios rasgados a Gilmar Mendes, o ministro da farsa do grampo sem áudio, “um dos mais sérios juristas deste país, cuja obra ultrapassa nossas fronteiras”.

Empossada, deu-se ao cinismo de afirmar que, no Brasil, não existe latifúndio. E mais: não haveria problema com os índios se os referidos aborígenes, ao invés de descer para as plantações, permanecessem nas florestas — caçando e pescando, alegres e nus dando graças a Tupã.

Eu sei, há um enorme e comovente esforço, mesmo entre históricos eleitores do PT, em aceitar a presença de Kátia Abreu no Ministério da Agricultura como parte do inevitável esforço da presidenta Dilma Rousseff para garantir a governabilidade do segundo mandato.

Muitos entraram em tal estado de euforia que, nas redes sociais, perseguem implacavelmente os que ousam contestar a presença de Kátia — representação nacional simbólica das relações feudais no campo — em um governo popular e de esquerda.

Surgiu, agora, a tese de que a entrevista da ministra à Folha de S.Paulo, esta na qual ela lançou o Brasil Sem Latifúndio, teria sido um ardil do jornal dos Frias. Ora, por que perguntar uma coisa dessas a Kátia Abreu? Para colocar petistas contra ela e, assim, desestabilizar o governo Dilma, claro!

Fui atrás dos dados sobre latifúndio no Brasil, disponíveis no cadastro de imóveis do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), segundo me indicou o jornalista Igor Felippe, da coordenação nacional do setor de Comunicação Social do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST.

Curiosamente, os dados do Incra apontam um nítido aumento da concentração e da improdutividade da terra no País.

Os números mais recentes, de 2010, apontam que 130 mil proprietários de terras concentram 318 milhões de hectares. Em 2003, eram 112 mil proprietários com 215 milhões de hectares.

Logo, mais de 100 milhões de hectares passaram para o controle de latifundiários.

De acordo com Incra, o registro de áreas improdutivas cresceu mais do que das áreas produtivas. Ou seja, houve ampliação das áreas que descumprem a função social da terra, prevista na Constituição Federal.

Portanto, temos, sim, muitos e improdutivos latifúndios, quando o ideal era não termos latifúndio algum.

O que não temos, ainda, é a noção exata de quanto trabalho Kátia Abreu ainda dará ao governo Dilma.

Leandro Fortes
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Lava Jato: PF erra, vaza ao Estadão e pune Friboi


Reportagem desta terça-feira do jornal Estado de S. Paulo é um exemplo de como vazamentos apressados e seletivos podem causar danos a reputações de terceiros; na manchete escandalosa, o jornal acusava o grupo J&F, que controla o frigorífico JBS, de ter um acordo com o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa; segundo a reportagem, a anotação de um certo “Franklein” indicaria até um acerto para pagamento de propina envolvendo Agenor Franklin Martins, executivo da OAS, preso na Operação Lava Jato; o Franklin é outro, falou ao 247, e a história é completamente diferente

Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, faz a seguinte anotação na sua agenda: "J&F 20/10/12. Consultoria Paulo (100%) Success fee 75% Paulo 25% Franklein. 3% empresa. 3% J&F". Foi o bastante para que a Polícia Federal conectasse o grupo J&F, que controla o frigorífico JBS, ao escândalo da Operação Lava Lato. Agentes da PF intuíram que "Franklein" seria Agenor Franklin Martins Medeiros, executivo da OAS preso na Lava Jato. E passaram a desconfiar que ele seria um agente responsável por repassar propinas, em nome da J&F.

A partir dessa conclusão, a história vazou para o jornal Estado de S. Paulo, que publicou uma manchete com tintas escandalosas: 'Planilha sugere acordo de J&F com ex-diretor de estatal'. Resultado: a conexão Friboi-Lava Jato, com óbvias conotações políticas, se espalhou pelas redes sociais, afetando até as ações do frigorífico na BM&FBovespa.

O problema, no entanto, é que a história é completamente diferente. O tal "Franklein", da anotação de Paulo Roberto Costa, é Franklin Mandim Pereira, publicitário de Goiás, que mantém boas relações com a família Batista, controladora da J&F. Em 2012, ele apresentou Costa ao empresário Joesley Batista. E o ex-diretor da Petrobras ofereceu ao grupo a compra de uma empresa chamada Astromarítima.

Como é comum em transações desse tipo, haveria uma comissão de sucesso, a chamada "success fee", de 6% do valor da transação (metade paga pelo comprador, metade pelo vendedor). Desta comissão, Paulo Roberto Costa ficaria com 75% e Franklin Mandim Pereira com 25%. Simples assim.

"Conheci o Paulo Roberto Costa, apresentei ao Joesley, ele levou um projeto de investimento e a ideia foi recusada", disse o verdadeiro Franklin. "Era uma operação normal, de mercado, que não tem nada a ver com esse outro Franklin da OAS".

No entanto, antes mesmo de apurar a história, a Polícia Federal vazou fragmentos de uma anotação na agenda de Paulo Roberto Costa para o jornal Estado de S. Paulo. Na pressa de gerar um novo escândalo, o que se conseguiu, apenas, foi manchar a reputação de um grupo empresarial e derrubar suas ações.

Leia, abaixo, a nota publicada pela J&F:
Mais uma vez, com muita indignação, a J&F Investimentos vem a público responder outra reportagem que agride a reputação da empresa, não respeita nossos 60 anos de história nem as marcas que fazem parte do grupo. De forma precipitada, a matéria do Estado de S. Paulo sugere, por meio de informações falsas, incompletas e frágeis, conexão da J&F Investimentos com a operação Lava Jato.

Esclarecemos mais uma vez que:

1- A J&F Investimentos reafirma que não há, nem nunca houve, nenhum contrato assinado ou qualquer relação entre o grupo e o senhor Paulo Roberto Costa.

2- Na tentativa de oferecer à J&F Investimentos a Astromarítima para venda, negócio cujo interesse foi declinado imediatamente, o senhor Paulo Roberto Costa foi apresentado à nossa empresa pelo senhor Franklin Mandim Pereira, ex-diretor da Blow-up Produções, e não pelo senhor Agenor Franklin Magalhães Medeiros, executivo da OAS, como sugere erradamente a reportagem do jornal.

3- A J&F enfatiza ainda que não se responsabiliza por anotações feitas em cadernetas pessoais do senhor Paulo Roberto Costa, com quem não tem qualquer relacionamento.

4 - A J&F Investimentos — um dos maiores grupos privados do Brasil, presente em mais de 50 países — preza pela transparência e segue rigorosas regras de governança no Brasil e no exterior.

5- A J&F sempre esteve e estará pronta para prestar quaisquer esclarecimentos adicionais às autoridades competentes.

No 247
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Ciro Gomes explica por que Eduardo Cunha é contra Lei de Meios

“Antigamente, o picareta achava a sombra, procurava ali o bastidor, ia fazendo as picaretagens dele escondido. Agora não!”, disse Ciro.




Confira a entrevista na íntegra:


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Onde está a gritaria das associações de médicos contra a “máfia das próteses”?


Onde estão as declarações indignadas das entidades médicas contra a chamada “máfia das próteses”? Onde os protestos veementes da categoria? Onde metade daquele povo que foi aos aeroportos agredir os cubanos, denunciar a invasão comunista, o trabalho escravo e a roubalheira?

O Fantástico fez uma reportagem denunciando um esquema em que fabricantes de próteses pagavam comissões para profissionais de saúde prescreverem seus produtos. O negócio estaria ocorrendo em cinco estados.

Alguns ganhavam 100 mil reais por mês pelo serviço. Funcionava assim: o paciente — ou melhor, cliente —, depois de esperar pela cirurgia na fila da rede pública, ia para uma consulta, onde o médico indicava um advogado. Ele ajudava a pessoa a entrar na Justiça pedindo uma liminar que obrigava o governo a pagar pelo procedimento.

O Cade vai averiguar a existência de um cartel dos fabricantes. Segundo o Tribunal de Contas da União, os gastos com medicamentos e insumos para cumprimento de decisões judiciais passaram de 2,5 milhões reais em 2005 para 266 milhões em 2011.

Ou seja, a história é antiga. De acordo com a Zero Hora, quatro casos estão há um ano sob investigação do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers). Os processos, diz o jornal, “ocorrem sob sigilo e estão em fase de julgamento”.

Um dos nomes envolvidos na bandalheira é o do ortopedista Fernando Sanchis. Entre outras coisas, Sanchis estaria metido num pedido de liminar para que um plano bancasse uma cirurgia de coluna de um homem em Pelotas. O advogado indicado por Sanchis entrou com o pedido, orçado em 110 mil reais. A liminar foi suspensa e a operação foi realizado por pouco mais de 9 mil.

Sanchis é um combatente ativo contra o programa Mais Médicos. Nas redes sociais — e também para seus clientes, é claro —, gritava contra a corrupção, o socialismo e postava estranhas fotos de execuções policiais. Criou um cartão como uma espécie de resposta para as caixinhas de Natal: “Você votou na Dilma porque ela disse que o Brasil estava maravilhoso e é pra mim que você vem pedir doação ou gorjeta? Vá pedir para a Dilma”, lê-se.

Distribuidores e dirigentes de hospitais estão sendo investigados. Na terça, o presidente da Associação Médica Brasileira soltou uma nota: “Condenamos relação comercial entre médicos e indústria que influenciem condutas, assim como levantem suspeitas sobre a atividade médica. A confiança no médico é fundamental para pacientes. Incentivamos segunda opinião, especialmente em casos mais complexos.”

Se os conselhos e entidades de classe empregarem um milésimo da energia que gastaram contra o “bolivarianismo” para tentar apurar essa sujeira, já será um avanço. Mas eu aposto com você que, no que depender dos médicos, há assuntos mais importantes a tratar.

Kiko Nogueira
No DCM
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Caso Tim Maia não é o primeiro em que a Globo reescreve a História em seu benefício ou no de parceiros

Segundo a Globo, não foi nada disso
Vi muita gente escandalizada com o fato de a Globo ter cortado, na minissérie que pretendia ser um resumo do filme sobre Tim Maia, os trechos em que Roberto Carlos desprezava o ex-colega de banda. O filme — e, portanto, a minissérie — foram baseados no livro Vale Tudo, de Nelson Motta.

Talvez por não envolver um ídolo tão popular, outros casos muitos parecidos e recentes de tentativas da emissora de reescrever a História não mereceram a mesma atenção.

Quando o Jornal Nacional completou 34 anos, por exemplo, exibiu um clipe registrando a presença do repórter Ernesto Paglia no comício das diretas, em 16 de abril de 1984, em São Paulo. Foi o suficiente para que Ali Kamel, que ainda estava em ascensão na emissora — hoje dirige o Jornalismo — fosse ao Observatório na Imprensa dizer que “uma pequena imagem do repórter Ernesto Paglia pode ter contribuído para rechaçar de vez uma das mais graves acusações que o JN já sofreu: a de que não cobriu o comício das diretas, na Praça da Sé, em São Paulo”.

Mais adiante, depois de contestar versões de outros autores sobre a cobertura da Globo naquele dia e de transcrever o texto da reportagem de Paglia, Kamel tenta justificar:
Esquecem-se de que a ditadura ainda estava forte, tão forte que as diretas foram votadas sob a vigência das medidas de emergência, um dispositivo constitucional, decretado nas vésperas da votação, que proibiu manifestações populares em Brasília (lembram-se do general Newton Cruz, em seu cavalo, dando chicotadas em carros presos num engarrafamento?) e proibiu a transmissão por emissoras de rádio e televisão da sessão do Congresso Nacional que acabaria rejeitando as diretas-já. Não, a Globo não fez uma campanha, mas não deixou de fazer bom jornalismo.
Kamel provavelmente escreveu de ouvir dizer, após consultar arquivos. Eu, não. Eu trabalhei na Globo naquela época. Era da TV Bauru, mas cobria férias dos repórteres em São Paulo. Passava meses e meses hospedado num hotel e trabalhando na redação da Marechal Deodoro. Testemunhei pessoalmente ou ouvi relatos de colegas.

A tática de quem pretende recontar a História com outro viés quase sempre envolve focar no ponto mais positivo para sua narrativa e desconhecer o contexto.

O fato é que naquele período da História aconteceram as grandes greves do ABC, que a Globo praticamente desconhecia, quando não levava ao ar versões que o movimento operário considerava descabidas. Foi então que surgiu o “Fora Rede Globo, o povo não é bobo”, cantado por milhares de pessoas nas assembleias. Carros da emissora foram apedrejados. Lula costumava dizer aos companheiros para não confundir os jornalistas com os patrões e, portanto, aqueles deveriam ser poupados.

Na campanha das diretas, que surgiu antes do comício da Praça da Sé, a Globo simplesmente desconheceu as primeiras manifestações populares, algumas envolvendo milhares de pessoas. Era uma não notícia. A internet ainda não existia. Mesmo assim, era chocante ver as capas de jornais com fotos de manifestações e informações sobre a campanha e o Jornal Nacional absolutamente calado sobre o assunto.


Além disso, foi escancarado o apoio das Organizações Globo à ditadura militar, como porta-voz do regime. Os exemplos abundam. Um editorial escrito por Roberto Marinho em 7 de outubro de 1984, DEPOIS do comício das diretas, em que ele diz que a Revolução — isso mesmo, Revolução, não golpe — foi bem sucedida, é um deles.

É neste contexto que deve ser analisada a “reportagem” da emissora no comício de São Paulo.

A equipe da Globo, sim, esteve lá. Porém, a ênfase da reportagem foi no aniversário de São Paulo. Basta ler a própria transcrição do Ali Kamel. É o equivalente a noticiar primeiro que dois automóveis foram destruídos no centro de São Paulo e em seguida informar que caiu um Boeing sobre eles, matando os 200 ocupantes. Um absurdo que qualquer estudante de jornalismo é ensinado a nunca cometer é definido como “bom jornalismo”.

Para um exemplo mais recente, basta relembrar o Jornal Nacional de 12 de março de 2012, dia em que Ricardo Teixeira renunciou à presidência da CBF.

Patrícia Poeta, num texto que obviamente não foi escrito por ela, na transcrição da CartaCapital: “Ao longo de uma gestão de mais de duas décadas, a seleção tricampeã se tornou penta. Teixeira colecionou vitórias, mas também desafetos. E enfrentou denúncias”. Uma forma nada sutil de tentar atribuir as acusações a Teixeira a rusgas pessoais.


No corpo da reportagem, narrada por um repórter que obviamente não tinha poder de decisão sobre o texto final, 22 segundos foram dedicados às denúncias num tempo total de 3 minutos e 39 segundos:
Ao longo da carreira, Ricardo Teixeira foi alvo de denúncias. Diante de todas elas, Teixeira sempre disse que as acusações eram falsas e tinham caráter político. A denúncia mais contundente foi a de que ele e um grupo ligado à Fifa teriam recebido dinheiro de forma irregular nas negociações de uma empresa de marketing esportivo, em 1999. Viu os processos serem arquivados pela Justiça.
Na Globonews, Merval Pereira foi além:
Esses problemas de denúncias contra o Ricardo Teixeira vêm de longe e ele enfrentou com tranquilidade e sempre conseguiu superar essas denúncias. [...] Então resolveu tirar o time porque viu que não tinha condições de recuperar, como várias vezes se recuperou, o prestígio político.
De novo, a sutileza: os problemas de Ricardo Teixeira foram com adversários pessoais e políticos, nenhuma relação com a corrupção que a Globo tanto gosta de denunciar na Petrobras.

Em primeiro lugar, não é verdade que todos os processos contra Ricardo Teixeira foram “arquivados pela Justiça”. Em O Lado Sujo do Futebol, descrevemos as manobras jurídicas utilizadas por ele para se desfazer de processos no Brasil. Descrevemos detalhadamente a relação histórica e incestuosa da Globo com João Havelange e seu sucessor, Ricardo Teixeira. Era apoio político em troca do monopólio nas transmissões da Copa e do futebol brasileiro. Ponto. O próprio Ricardo Teixeira, em entrevista à revista Piauí, disse que só ficaria preocupado quando as denúncias contra ele saissem no Jornal Nacional.

Nunca de fato sairam. Naquela noite de 12 de março de 2012 a principal omissão do JN foi sobre o fato de que a Justiça da Suiça decidiria em breve se seriam divulgadas ou não as provas obtidas na investigação de João Havelange e Ricardo Teixeira, provas definitivas de que ambos receberam milhões de dólares em propina da empresa de marketing ISL em contas no Exterior. Este, sim, o verdadeiro motivo da renúncia de Teixeira, que a Globo vergonhosamente escondeu.

No livro também tratamos das relações da própria Globo com a ISL, empresa da qual a emissora brasileira comprou os direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006 utilizando uma subsidiária, a Empire, nas ilhas Virgens Britânicas, com isso sonegando milhões de reais de imposto no Brasil, segundo a Receita Federal. Como se vê, não foram apenas a ISL, João Havelange e Ricardo Teixeira que tiraram proveito de negócios obscuros em refúgios fiscais.

Como vimos no caso do comício das Diretas, também no caso Teixeira a Globo tirou proveito da descontextualização: focou nas “vitórias” em campo do cartola.

O que nos leva ao episódio Tim Maia.

Não só o filme sobre o cantor mostra Roberto Carlos numa luz não muito agradável. O livro em que o filme foi baseado também o faz, com menos dramaticidade. Sim, registra que Roberto Carlos, a pedido da mulher Nice, levou Tim Maia para fazer um disco na gravadora CBS. Mas também conta que Tim Maia ofereceu a Roberto Carlos a música Não Vou Ficar, que se tornou o primeiro sucesso de Tim, com proveito para ambos.

O livro, pelo menos, deixa claro que houve rusgas e ciumeira entre os dois:
“Ô mermão, o Roberto aprendeu tudo comigo, mas o Roberto é branco, mermão, branco não dá, o que ele tem é que me botar na Jovem Guarda, mas ele tem medo porque sabe que eu entro e acabo logo com a banca dele”. Se era difícil encontrar Roberto, era impossível falar com ele, sempre cercado por um monte de gente, secretários, seguranças e puxa-sacos. Tim achava que Roberto não queria chamá-lo porque a Jovem Guarda era um programa de bons moços e ele era o Tim que puxava cadeia e fumava maconha.
Na minissérie da Globo, além de cortar o trecho do filme em que Roberto Carlos humilha Tim Maia, a emissora deu a seu contratado, segundo a Folha, a oportunidade de dizer que ajudou Tim. Mais que isso, numa cena inédita colocou o ator que encarna Tim Maia no cinema para dizer na minissérie: “E foi assim, rapaziada, que Roberto Carlos lançou o gordo mais querido do Brasil”.

Assim, a Globo transformou uma relação complexa de amor e ódio, ajuda e competição — pelo menos é assim que aparece no livro — numa simplificação que beneficia a imagem de seu parceiro de negócios. Como aconteceu com Ricardo Teixeira.

Luís Carlos Azenha
No Viomundo
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A agonia da editora Abril

A família Civita e o busto do fundador, antes do declínio
A retirada do busto de Victor Civita do saguão da sede da editora Abril neste começo de janeiro é um capítulo dramático do declínio acelerado daquela que foi uma das maiores empresas de jornalismo.

A Abril está morrendo.

Victor Civita foi abatido porque a Abril já não tinha mais como bancar o aluguel do megalomaníaco prédio da Marginal de Pinheiros.

Ao devolver uma das duas torres, perdeu o direito de exibir o fundador da empresa. Para os futuros inquilinos, o busto de VC, como era chamado, não faria sentido nenhum.

A morte de uma empresa de jornalismo é um processo lento. Não é fácil identificar o momento em que as coisas começam a dar errado.

Depois tudo se aclara, e o fim é evidente. As últimas etapas são agônicas, e é isto o que a Abril está vivendo.

A torre remanescente dificilmente sobreviverá por muito tempo, bem como uma série de revistas e, lamentavelmente, centenas de empregos.

Como todas as empresas que gozam de reserva de mercado e são objeto de mamatas do Estado — anúncios copiosos, financiamentos a juros maternais em bancos públicos — a Abril nunca foi exatamente um modelo de administração.

É o preço que se paga por privilégios. Você não tem que ser o melhor da classe para receber prêmios.

Isto vale para a Abril e todas as grandes empresas jornalísticas brasileiras, a começar pela Globo.

Nunca foram expostas à competição estrangeira e sempre foram mimadas por sucessivos governos: não há receita mais eficaz para a ineficiência gerencial.

Dito isso, a agonia da Abril se deve muito mais a uma mudança de mercado do que a uma gestão trôpega em vários momentos.

Produzir revistas nestes tempos é como fabricar carruagens no final do século 19, quando os carros começavam a ganhar as ruas.

Nem o mais fabuloso fabricante de carruagens sobreviveu com o correr dos dias.

A Abril antecipa o que deve acontecer, no futuro, com outra potência da mídia brasileira: a Globo.

Anos atrás, ninguém imaginava um mundo sem revistas. Mas hoje é fácil imaginar.

Até há pouco também, igualmente, ninguém imaginava um mundo sem tevê como a conhecemos. Mas hoje já não é tão difícil imaginar.

Uma pesquisa recente americana traduziu isso em números. A pergunta que foi feita era a seguinte: você acha que seria duro viver sem o quê?

As alternativas eram internet, celular e televisão. A televisão ficou em último lugar. Alguns anos atrás, na mesma pesquisa, ficara em primeiro: a maior parte dos entrevistados não considerava a hipótese de ficar sem tevê.

Tanto a Abril como a Globo se empenham em ter relevância na internet. Mas jamais se replicará, no universo digital, a relevância que elas tiveram em mídias que vão se tornando obsoletas.

Aproxima-se velozmente do fim o tempo em que a Globo consegue cobrar uma fortuna por comerciais de uma programação em constante declínio.

E está muito distante a era em que a publicidade na internet terá preços remotamente praticados pela Globo na tevê.

Entre uma coisa e outra, a Globo entrará no que se poderia definir como “Vale do Desespero”, para usar uma expressão em voga entre os economistas.

Na destruição de um velho mundo na imprensa e na construção de um novo, a remoção do busto de Victor Civita é um marco histórico.

Paulo Nogueira
No DCM
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Os novos inimigos de Tim Maia

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=6827

A Rede Globo desprezou Tim Maia quando ele batalhava para mostrar a sua arte.

Agora, com uma minissérie de quinta categoria, reescreveu a história para deixar Roberto Carlos bem na fita.

Tim Maia foi assassinado por essa versão Global dos fatos.

Meu amigo Ricardo Carle, que infelizmente já não está deste lado do universo, não gostava de Tim Maia. Nem do Fagner. Eu conseguia entender a sua ojeriza a Fagner, que tem algo de brega, embora eu goste de muitas das suas canções. Em relação ao Tim Maia, Ricardo e eu estávamos em completo desacordo. Ricardo tinha bom gosto. Jamais entendi sua rejeição ao Tião da Tijuca. Eu sou fã do Tim Maia. Cantava muito. Cantava mais do que Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Jobim e todos os outros juntos. Era um louco genial. Boa parte das suas maluquices tinha a ver com sua condição de outsider negro, gordo, pobre e rebelde.

Cada época gera uma leitura das coisas, algumas mais alfabetizadas, outras menos. Li que está cada vez mais na moda a noção de poliamor. Nos anos 1960, isso era chamado de amor livre. Antes, de sacanagem mesmo. Ninguém era de ninguém e era permitido ficar ou amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Amor livre ou poliamor é para a maioria uma sem-vergonhice ou uma putaria. Os homens quase sempre praticaram o poliamor clandestino também chamado de adultério ou de escapadinha. O poliamor feminino sempre foi menos aceito e produziu muitos crimes passionais, sendo que os assassinos podiam ser absolvidos por terem agido em defesa da honra, ou seja, movidos pela dor de corno. Tim Maia cantava como poucos, com seu vozeirão rouco, decepções amorosas.

Nada mais romântico do que a música, inclusive o rock. Grande parte das letras só fala de amor.

Entre o estilo de vida de Roberto Carlos e do Tim Maia, fico com o do Tim. Roberto Carlos é mala. Vive como uma tia solteirona hipócrita que, de vez em quando, chuta a moral para o alto e solta a franga. Depois, passa seis meses de penitência. Mas tem grandes composições. Faz parte do imaginário brasileiro. Se Tim fosse americano e não apenas um hóspede temporário de uma prisão dos Estados Unidos, teria certamente virado mito internacional. Tinha voz, poesia e maldição. Lembro-me de uma noite em que Ricardo Carle e eu estávamos bebendo no Lola, na Osvaldo Aranha, e eu coloquei Tim Maia na jukebox do bar. Ricardo enlouqueceu. Gritava freneticamente:

– Tira o Tião, tira o Tião, tira o Tião…

Enquanto isso, de dentro da máquina, Tim Maia estraçalhava:

– Me dê motivos…

Pena que Ricardo e Tião não se conheceram. Teriam sido grandes amigos. Eram igualmente malucos. Reduzir Tim Maia à sua maluquice é sensacionalismo barato. A arte de Tim foi superior aos episódios da sua vida confusa e cheia de percalços. Gosto de ouvir Tim Maia no volume máximo. Funciona como uma imersão. Tim Maia foi a última encarnação do barroco no Brasil: saturação, excesso e genialidade. Glauber Rocha e Darcy Ribeiro, cada um do seu jeito, também foram barrocos, essa “pérola rugosa”, conforme a expressão de Eugenio D’Ors. Assim também foi Ricardo Carle, que morreu antes de produzir uma obra literária que se esboçava como uma explosão.

Ouço Tim Maia quando sinto saudades do meu amigo Ricardo. Ele ficaria indignado com essa homenagem.

Nelson Motta, biógrafo de Tim Maia, contradisse seu livro para adaptar-se ao desejo da Globo de aliviar a barra de Roberto Carlos, que humilhou Tião oferecendo-lhe um par de botas velhas e um pouco de dinheiro amassado quando foi procurado em busca de ajuda para fazer decolar um talento que ele conhecia muito bem.

Na série da Globo, Roberto Carlos posa de lançador da carreira de Tim.

Deve ser por isso que a Globo retirou do site sua sopa indigesta sobre o rei brasileiro da música negra.

Pedro Bial aceitou escrever a biografia chapa branca de Roberto Marinho, que passou de pilar da ditadura militar a defensor astuto da democracia. Nelson Motta ajoelhou-se para ver seu livro sobre Tim Maia voltar às paradas.

Assim se escreve a história no Brasil.

Ricardo Carle não gostava de Tim Maia. Gostava menos ainda de Nelson Motta, que chamava de babaca bonzinho.

O que Ricardo Carle achava de Roberto Carlos?

Impublicável.
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Um motivo para a regulamentação

A linguagem jornalística é um campo instigante para a curiosidade dos pesquisadores. Pode-se abrir um leque de incalculáveis possibilidades de interpretação, a começar da própria convenção segundo a qual existe uma linguagem específica do jornalismo. Se a definição do que seja jornalismo ou de quais qualidades caracterizam o jornalista se dilui no ambiente social hipermediado, como delimitar padrões para uma linguagem específica dessa atividade?

Observe-se, por exemplo, que até a primeira metade do século 20, em todas as sociedades onde a imprensa tinha um papel relevante, a chamada linguagem jornalística obedecia à norma culta dos idiomas e as imagens tinham que cumprir certos requisitos de pudor para serem levadas aos meios massivos de publicação. O padrão mudou quando a cultura “pop” se impôs sobre a comunicação social, mas certas restrições permaneceram.

Jornais e revistas não estampariam, por exemplo, o quadro intitulado “A Origem do Mundo”, pintado por Gustave Courbet em 1866. Nesta segunda década do século 21, também não se expõe a pintura, a não ser em publicações especializadas e de pequena circulação. Em fevereiro de 2013, a imprensa aproveitou uma polêmica sobre a identidade da mulher que teria servido de modelo para a obra e publicou a imagem (ver aqui o site Globo.com). Meses antes, em outubro de 2012, o jornal Folha da Manhã, de Campos dos Goytacazes (RJ), havia estampado uma foto ainda mais explícita na primeira página de seu caderno de Cultura e Lazer (ver aqui). É curioso observar que o pudor jornalístico se manifesta mais fortemente na imagem do que na palavra.

A internet rompeu paradigmas da mídia impressa e da televisão em todo o mundo. No Brasil, os abusos eram prática limitada a certos programas radiofônicos ou televisivos dedicados ao noticiário policial, até o advento dos cronistas “pitbulls”, que reproduzem em larga escala o estilo que marcou polemistas como Carlos Lacerda e Paulo Francis. Cabe a eles romper, para baixo, os padrões da linguagem jornalística, vocalizando a pornografia política que os editoriais não ousam proferir.

A síntese em uma charge

A questão da linguagem está no centro da polêmica sobre regulamentação da mídia – que costuma ser confundida com liberdade de expressão ou liberdade de imprensa, temas apenas correlatos. A regulamentação dos meios de comunicação não tem necessariamente uma relação direta com as liberdades fundamentais da produção e usufruto de informações ou opiniões. Essa confusão reducionista serve apenas para impedir a evolução do debate.

Os supostos abusos contra o que seria a linguagem jornalística têm sido usados como argumento por aqueles que defendem a regulamentação e, em casos extremos, o controle externo da mídia. No entanto, é preciso dar um passo atrás e convencionar se ainda existe uma linguagem jornalística e, se existe, quais seriam seus padrões.

Desde a origem, trata-se de uma questão complexa, uma vez que a própria escolha dos signos que irão representar os argumentos define o que cada um entende como linguagem mais apropriada para a prática do jornalismo. Supunha-se, portanto, que o tema da regulamentação dos meios aplicados ao jornalismo exigiria um tratado complexo como o que resume, por exemplo, os argumentos sobre a natureza antropogênica das mudanças climáticas.

Até terça-feira (6/1): na página 2 da Folha de S. Paulo, o cartunista Laerte Coutinho resume, numa charge, o núcleo da questão, ao propor em dez pequenos quadros, os “10 motivos para uma regulamentação da mídia” (ver aqui).

A questão aparece retratada em uma manchete de jornal, uma bancada de telejornal, uma página de revista, uma análise de um cientista político, um cartaz de campanha, um debate na televisão, uma pesquisa, um programa de rádio, uma entrevista e um site noticioso. Em todos eles, a mesma resposta: “O governo quer controlar a opinião pública”.

Em seu admirável poder de síntese e carregando uma ironia irresistível, o cartunista demonstra que a homogeneidade do discurso da mídia contra a regulamentação é o maior argumento em favor da regulamentação.

Ele não entra em detalhes, como os que costumam embaralhar os debates: apenas mostra que, sem diversidade, a mídia simplesmente não cumpre seu papel social.

Luciano Martins Costa
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O declínio dos jornalões

Através de um comunicado lacônico aos seus funcionários, o jornal Folha de S.Paulo informou nesta segunda-feira (5) o fechamento da sua única sucursal no interior paulista, em Ribeirão Preto, e a demissão de cinco dos seus sete jornalistas. Uma repórter só escapou do facão porque está grávida e a lei proíbe a dispensa. Segundo relato generoso do Portal Imprensa, “os dois funcionários mantidos atuarão como correspondentes da Agência Folha e as notícias sobre Ribeirão Preto e região continuarão a ser publicadas pelo jornal, mas de forma reduzida”. O site afirma que as dispensas decorrem da “queda de produção de cana-de-açúcar” na região, “o que pode ter atingido o jornal, com possível diminuição dos anunciantes”.

A justificativa é risível — parece coisa de advogado de defesa. Em novembro passado, a Folha já havia demitido mais de 20 profissionais na capital paulista — e não consta que foi devido à crise no setor açucareiro. Entre os dispensados estavam colunistas famosos e bem remunerados, como Eliane Cantanhêde, a da “massa cheirosa” tucana, e Fernando Rodrigues. As demissões também foram feitas de forma truculenta, o que levou a própria ombudsman do jornal a criticar a crueldade da famiglia Frias. Os cortes na Folha sinalizam que a crise na mídia impressa fará inúmeras vítimas em 2015. Entre outros fatores, esta grave crise decorre da explosão da internet e da crescente perda de credibilidade dos jornalões.

No final de 2014, outros dois veículos sentiram os efeitos desta decadência. O “Diário do Comércio” anunciou o seu fim e a Rede Anhanguera de Comunicação (RAC), proprietária dos jornais Diário do Povo e Correio Popular, demitiu 15 jornalistas em Campinas (SP). “O jornal acabou. Ainda não sei o que senti ao ouvir a inesperada sentença de morte”, descreveu nas redes sociais o diretor de redação do “Diário do Comércio”, Moises Rabinovici. O veículo com 90 anos de existência pertencia à Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que sequer comunicou à equipe o seu fechamento. No caso da RAC, a crise é antiga e o próprio Sindicato dos Jornalistas de São Paulo avalia que novas demissões deverão ocorrer.

A extinção dos dinossauros

Diante deste cenário dramático, alguns jornalistas ainda tentam manter as esperanças — ou as aparências — sobre o futuro da mídia impressa. O veterano Clóvis Rossi, da Folha, escreveu recentemente que “há vida no planeta jornal”. Com base numa reportagem de John Cassidy, do “New Yorker” dos EUA, ele argumentou que é possível superar a gravíssima crise do modelo de negócios dos jornalões, com quedas de tiragens e de publicidade, em plena era da internet. “Talvez dê, sim, para ganhar dinheiro com notícias no papel e em sua versão digital”. Ele mencionou o caso da “Times” de Londres, “que acaba de anunciar o primeiro lucro operacional após 13 anos de prejuízos”.

Também citou o “Financial Times”, que cobra do internauta após certo número de acessos gratuitos, e “o próprio ‘New York Times’, que embora continue fazendo cortes em sua redação, está atingindo uma base ampla de assinantes digitais (875 mil), 20% mais que no ano anterior”. Para Clóvis Rossi, este talvez seja o futuro modelo de negócios das empresas jornalísticas. Mesmo assim, ele pondera: “O otimismo do texto não leva o autor à ingenuidade de supor que a crise do modelo de negócios está superada, mas lhe permite afirmar que ‘o argumento de que jornais são dinossauros, destinados a serem substituídos por competidores on-line mais ágeis, parece um bocado menos convincente do que há poucos anos’. O dinossauro aqui agradece”.

O veterano jornalista só deixou de registrar que os dinossauros sumiram da face da terra!

Altamiro Borges
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Laerte e a Regulamentação da Mídia


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O ato e a pressa

O incidente do ministro Nelson Barbosa com o salário mínimo é menos simplório do que indicado em sua redução, de aparência unânime, a mais um trompaço temperamental da "gerentona".

O ministro do Planejamento não está estreando em governo. Nem mesmo na área de política econômica. Em seus anos de secretário-executivo do Ministério da Fazenda, até desentender-se com Guido Mantega, pôde comprovar a profunda relação entre o que se passa na área econômica e as condições em que Presidência caminha, em política, na administração e com os cidadãos.

Nelson Barbosa decide dar uma entrevista coletiva no primeiro dia útil do novo governo, espremido entre o feriado da posse presidencial e o fim de semana. Não expõe o motivo de tanta pressa. Não espera, sequer, que o seu parceiro da Fazenda e de ideias seja empossado já no próximo dia útil. Mas Nelson Barbosa fala no plural: "vamos". Faz as manchetes com o tema dominante e, excluídas as obviedades, quase único de sua oferecida fala: "Vamos propor uma nova regra de reajuste do salário mínimo para 2016 a 2019 ao Congresso Nacional nos próximos meses".

A pressa é mais abrangente: Nelson Barbosa anuncia no primeiro dia útil deste ano e do novo governo uma alteração que, se vigorar, só o fará no ano que vem. Por si mesma, essa antecipação não faz sentido. É, talvez, uma medida a ser iniciada proximamente, convindo abordá-la desde logo? Não, nada há estabelecido: a proposta ao Congresso será nos vagos "próximos meses". Também do ponto de vista administrativo e legislativo, portanto, o anúncio não faz sentido.

Muito menos há sentido em um integrante do governo, no primeiro dia do ano e do próprio governo, anunciar alteração em um dos fatores mais sensíveis na relação entre governo e população. Como ato político é, no mínimo, de espantosa temeridade.

Nelson Barbosa dispôs de um elemento a mais para saber o peso, no governo, do tema salário mínimo. Esse elemento foi dado pela própria Dilma, menos de 24 horas antes do chamado aos repórteres para ouvir a comunicação do ministro do Planejamento: até por causa do seu desgaste com as escolhas de Joaquim Levy e Nelson Barbosa, nem na posse Dilma Rousseff deixou de reiterar a imutabilidade da regra vigente do salário mínimo. Nelson Barbosa estava lá, ouvindo-a.

Uma hipótese: velho crítico do salário mínimo, ao qual atribui efeitos corrosivos nas contas governamentais, como declarou contra a opinião de Dilma quando se iniciava a campanha eleitoral, Nelson Barbosa tomou-se da presunção de um poder mais do que suficiente para fixar, vitoriosa com ele, uma das suas insistências derrotadas nas discordâncias com Guido Mantega. E a imporia com Mantega ainda como ministro, não mais seu superior, mas um igual posto no papel de derrotado. Hipótese improvável, sim. Desprezível, não.

Outra, menos requintada: Nelson Barbosa quis testar o poder e a liberdade de ação de que vai dispor com Joaquim Levy. Um desafio. Recebeu a resposta ou parte dela, ambas insatisfatórias.

Pode-se imaginar uma série de outras hipóteses, melhores e piores. Até onde chego, nenhuma capaz de dar sentido administrativo ou político à atitude do novo ministro. Nelson Barbosa, no entanto, não sendo ingênuo nem de pouca inteligência, por certo agiu com um propósito que, a seu ver e cabe supor que no de Joaquim Levy, tem sentido.

A indagação que não se precisa fazer, talvez a mais importante, é a da absorção do episódio. É o caso típico das sequelas inevitáveis, tanto de quem se sentiu provocada como de quem precisou fazer uma retirada pública. Nenhum dos dois se olha e se ouve da maneira de antes. Com todas as consequências disso.

Janio de Freitas
No fAlha
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Sérgio Porto # 97


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Essa é do Barão... 155


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Médico que faria parte da "Máfia das Próteses" fazia campanha anti-Dilma

Ele
Em sua página no Facebook o médico, Fernando Sanchis, está sempre pronto da bradar contra a corrupção. Defende até linchamentos e não se constrange a fazer campanha anti-Dilma como pode ser ver nesse "cartão de natal" que ele distribuiria para quem pediria caixinha de natal. Mas na sua profissão sua postura era bem outra.


Como se fossem duas personalidades diferentes, o combatedor da corrupção no facebook era o médico que suspostamente integrava uma quadrilha que fraudava o SUS com superfaturamento e comissões para a colocação de próteses.

A denúncia partiu de uma reportagem da RBS TV (exibida no Fantástico desse domingo - assista o vídeo abaixo). Segundo a reportagem as comissões, pagas aos médicos, seriam entre 15% e 50%. Para essas vantajosas comissões os profissionais superfaturavam serviços, direcionavam licitações, faziam procedimentos desnecessários e até registravam procedimentos não realizados.

Segundo um ex-vendedora de próteses, ouvida pela reportagem, os médicos, envolvidos, chegavam a faturar R$ 100 mil por mês no esquema.

Somente em um hospital, o Mãe de Deus, em Porto Alegre, que criou um grupo para revisar os pedidos de cirurgia, constatou que 35% dos pedidos eram desnecessários, ou seja, os pacientes passavam por longos tratamentos apenas para os médicos ficarem mais ricos.

Ele outra vez
Ouvido pela reportagem o médico Fernando Sanchis, admitiu que assinava laudos em nome de outros médicos, em resumo isso é falsidade ideológica, mesmo que o outro profissional estivesse de acordo (o que é duvidoso).

Nenhum dos médicos envolvidos é cubano! Tanto o Conselho Regional de Medicina, o Sindicato Médico do RS e o Conselho Federal de Medicina estão em silêncio sobre o caso até agora. Essas entidades fazem uma campanha declarada e aberta contra o governo federal, principalmente contra o Mais Médicos, mas parece que estão pouco interessadas nos desvios, milionários, feitos no SUS pelos seus integrantes.





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