27 de dez de 2015

Mortes no mar

A precisão dada ao número é inverídica. Apesar de ser número oficial, resultante das informações também oficiais de países-membros da Organização Internacional para as Migrações (já impreciso o próprio nome, com o dúbio "para", também em francês e inglês).

Os "3.692 mortos ou desaparecidos" — muitas, muitas crianças — são os casos certificáveis dentre os que sucumbiram na tentativa de chegar ao continente europeu por mar, do início do ano a 21 de dezembro. Muitas das embarcações improvisadas naufragaram em mar alto sem que mesmo os ocasionais sobreviventes soubessem quantos as superlotavam. Fotografadas, temos visto embarcações assim, como se fossem as cadeias torturantes no Brasil, com centenas onde mal caberiam poucas dezenas. São vencidas pelo mar com facilidade.

O soldado com o menininho morto nos braços, ainda retirando-o do mar, emocionou o mundo. Por dois dias. Nessas 48 horas, governos, entidades internacionais, imprensa, comandos militares, separados e juntos, mostraram o poder de arregimentação da sua consciência humanitária. Ideias e emissários voaram entre Berlim e Paris, Roma e Bruxelas e Londres, Malta e Berlim. A Europa não poderia permitir a tragédia dos que tentavam refugiar-se de guerras e da fome: nela buscavam a vida.

Procedentes da orla do Mediterrâneo e do miolo da África, a Europa não podia esquecer, eram ainda vítimas da perversa colonização europeia que arruinou as culturas e fez o longo roubo de seus países. O interesse e a rapidez dos governos, das instituições e da própria União Europeia seria a Europa moderna e democrática em ação.

De tudo, de tantos e apressados encontros, propostas, debates, conferências, planos e disposições, o que de fato resultou foi posto em prática e vigora ainda: enquanto uns poucos navios navegam bem ao largo das costas de onde procedem refugiados, um entendimento tácito passou a evitar a divulgação de imagens chocantes e comoventes da tragédia continuada. Os humanos, sobretudo os civilizados europeus e americanos, são muito sensíveis. Fotos convenientes são as de salvamentos e chegadas, que temos visto, embora as notícias não omitam as incessantes mortes e os desaparecimentos no mar.

Nada foi feito para atenuar as causas, em seus pontos focais, das fugas em massa, desesperadas. Nada. Não se trata de problema recente, ainda sem o tempo para planejar e executar as providências possíveis. A fuga africana vem de muitos anos, sempre em crescendo. Diferente da correnteza migratória que em 2015 saiu do Oriente Médio e da Ásia para a Europa, tangida pelas lutas na Síria, de onde já fugiu cerca de meio milhão, no Iraque e no Afeganistão. Esses são os refugiados (brancos) que não deixam de ter algum interesse para certos países europeus, onde preenchem as necessidades de serviçais. Só a Alemanha precisa de 400 mil a 500 mil novos trabalhadores por ano, quota que os alemães não preenchem.

Uma certeza, portanto, para 2016: nada mudará para os que se lançam ao mar, em improvisos náuticos, como fugitivos de guerras e da fome em busca da civilização europeia. Vão passar o novo ano tanto sob as condições de vida e de morte de seus antecessores como sob a indiferença hipócrita e perversa em que veem a sua salvação. As crianças, nem isso. Mais indefesas e incapacitadas, nem sequer escolheram a fuga e o mar impiedoso.

O começo

Foi bom ser Chico Buarque o alvo dos fascistoides que o atacaram verbalmente no Leblon, entre os quais um tal Álvaro Garnero Filho, que traz no nome a sua ficha. Será sempre lembrado o lado a iniciar esse tipo de agressão no Rio de Janeiro, como ficou em São Paulo com a agressão ao ex-ministro Guido Mantega e sua mulher.

A lembrança fixada pelo nome de Chico Buarque evitará a malandragem aplicada à estupidez da "desconstrução", que, lançada por Aécio Neves, como os arquivos de jornais provam, quando se mostrou negativa ficou atribuída a Dilma Rousseff.

Chico, além do mais, tira isso de letra.

Janio de Freitas
No fAlha

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