27 de dez de 2015

Claro

— Por que “claro”?

— O que?

— “Claro”. Você disse “claro”, quando o garçom perguntou se sua caipirinha era de vodca.

— E daí? Eu prefiro caipirinha de vodca.

— Mas por que o “claro”?

— Como?

— Quando você disse “claro” foi como dizer “que pergunta”. Que é óbvio que caipirinha tem de ser de vodca. Você estava fazendo uma crítica indireta à caipirinha de cachaça, insinuando que cachaça é claramente inferior à vodca. Que caipirinha de cachaça é uma coisa impensável. Que o garçom deveria saber isto, sem precisar perguntar.

— Você endoidou?

— Ou então, quando disse “claro”, você estava dizendo que o garçom deveria ter visto, na sua cara, que você é um homem de vodca. Que alguém da sua classe, com a sua sofisticação, com o seu bom gosto, jamais preferiria cachaça.

— Eu não acredito no que eu estou ouvindo...

— No fundo, o seu “claro” foi uma declaração política. Você se declarou da elite, e estranhou que o garçom não notasse, ou tivesse dúvida.

— Tudo isso só porque eu pedi uma caipirinha de vodca?

— Não. Se você tivesse apenas pedido uma caipirinha de vodca, seria uma coisa. O que eu não entendi foi o “claro”. Por que “claro”?

— Eu nem pensei no que estava dizendo.

— Claro que não pensou. Seu elitismo é arraigado. Seu reacionarismo é visceral.

— Ah, agora eu sou reacionário só porque prefiro vodca em vez de cachaça?

— Não. Porque você disse “claro”.

— Vem cá. Nós não somos da mesma classe? Se eu sou elitista, você também é.

— Pedi minha caipirinha de cachaça, velho.

— Ah, é? E até onde sua preferência por cachaça também não é uma declaração de princípios? Uma maneira de dizer que você é da elite, mas está com o povão? Sabe de uma coisa? Eu estou cansado de elite com culpa. Aposto que você tem horror a cachaça e só não pede caipirinha de vodca pra não pensarem que está traindo as massas.

— Ah é? Ah é? Melhor elite com culpa do que elite alienada.

— Eu só não entendo como a nossa amizade durou tanto tempo.

— Garçom! Suspende as caipirinhas!

Luís Fernando Veríssimo

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