6 de ago de 2015

O ‘bum’

Vá entender. Imaginava-se que, depois dos 7 a 1, o torcedor brasileiro, desencantado, passaria a se interessar por badminton, balé aquático ou outro esporte que não envolvesse bola ou qualquer coisa vagamente esférica. O desastre na Copa de 2014 não só nos convenceria de que não éramos mais o país do futebol, como nos levaria a odiar o futebol. O futebol seria para nós, como a História para Stephen Dedalus, aquele personagem do James Joyce: um pesadelo do qual estaríamos tentando acordar. Mas não. Assimilamos a derrota até com uma certa resignação filosófica. Depois da derrota para o Uruguai em 50 correram boatos de suicídios em massa, de torcedores ateando fogo às vestes, do Bigode engolindo formicida e do Barbosa pedindo asilo numa embaixada estrangeira. Depois dos 7 a 1, não houve nada parecido, nem boatos de coisa parecida. Foi uma desilusão dolorida, não foi uma tragédia.

E aconteceu o contrario. Estão dizendo que, no futebol brasileiro, nunca houve um ano como este, o ano depois dos 7 a 1. Os estádios estão enchendo como nunca dantes, mesmo aqueles construídos para a Copa com o entendimento tácito que depois não serviriam para mais nada, salvo show da Madonna ou luta de mulheres. As rendas também cresceram, em parte porque os preços para entrar nos estádios cresceram. O que causa outra peculiaridade: o principal entretenimento popular do brasileiro, à medida que atrai mais publico, fica menos popular. Pelo menos a TV mostra um povo cada vez mais escandinavo nos estádios. E cada vez maior.

Como o futebol servido para este publico não melhorou muito desde o ano passado, sobra a especulação: foi a humilhação dos 7 a 1 que detonou esse “bum” como uma espécie de autodesagravo nacional ou isto é sociologia barata? De qualquer maneira, vá entender.

O banquinho

Lendo sobre os milhões, bilhões e, em breve, trilhões enchendo os bolsos de corruptos que não se contentam com o que já têm, me lembrei da história — que nem sei se é verdadeira — do alpinista que escalou o Everest carregando um banquinho, além da pesada parafernália para a escalada. O alpinista chegou no cume do Everest — e subiu no banquinho. Queria a glória da subida, e um pouquinho mais. É sempre o pouquinho mais.

Luís Fernando Veríssimo

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