15 de dez de 2014

Xuxa, Jô e o fim das lealdades televisivas


Ao lado de Arnaldo Jabor, Jô Soares foi a primeira celebridade televisiva a explorar o sentimento de preconceito da classe média alta contra a democracia social que avançava.

Narro isso em minha série "O caso de Veja", de 2008.

De repente, em seu programa Jô critica o ridículo de se tratar qualquer avanço social como "boliviarismo", refere-se de forma simpática a Fidel Castro e ao próprio Evo Morales. Na sequência, a Globo anuncia o fim do público e do conjunto musical em seu programa, como parte de uma estratégia de controle de custos.

Imediatamente, na blogosfera, Jô torna-se um herói da resistência e a redução do seu programa é atribuído a represálias da Globo.

* * *

Volte-se a cena e recomece-se na ordem correta:

1.    A Globo decide reduzir os custos do programa de Jô e comunica a ele.

2.    Jô rebela-se e, no seu próprio programa, emite opiniões contrárias ao padrão Globo.

3.    A notícia torna-se pública.

Há alguns meses, a Globo enviou uma comitiva para percorrer os principais grupos de mídia do mundo e definir uma estratégia para ela. As recomendações foram na linha da redução drástica de custos, para enfrentar os novos tempos.

* * *

Até então, o enorme poder de monopólio da Globo permitia-lhe pagar um cast de artistas não aproveitados, apenas para impedir que fossem para a concorrência. Do mesmo modo, comprava campeonatos esportivos que não transmitia como filmes que não passava.

Esse mundo acabou. Ontem, foi anunciado o final do contrato com Xuxa. Outros destratos se seguirão. Jornais e revistas passaram a abrir mão de seu elenco de jornalistas, substituindo-os por uma infinidade de colunistas ou de jovens repórteres.

* * *

Historicamente, o maior investimento dos grupos de mídia era no seu cast. A imagem de atores, jornalistas, colunistas, cantores, era construída como celebridade. Seu perfil não era de mortais comuns. Habitavam um Olimpo e de vez em quando desciam à terra para palestras e confraternizações rápidas com os humanos.

É verdade que, de manhã, tinham que pagar as contas, brigar com os vizinhos, encrencar com as sogras como qualquer humano. Mas o modelo era suficientemente restrito para ser seletivo: poucos deuses jornalistas, poucos deuses atores.

De repente, chega a Internet não apenas colocando em xeque a fórmula financeira dos grupos de mídia, mas explodindo com seu universo de celebridades. Redes sociais, blogs dos mais variados, passam a construir seu próprio Olimpo, banalizando o modelo, que sempre foi peça chave do alcance e da influência dos grupos de mídia.

* * *

Décadas de investimento em colunistas, correspondentes, atores, celebridades estão sendo jogadas fora devido ao esgotamento financeiro do modelo tradicional de mídia.

Alguns jornalistas estão indo para a Internet, seguindo o caminho dos pioneiros. Outros, buscando as assessorias de imprensa — algumas delas com muito mais jornalistas do que as maiores redações.

Dia desses houve uma bela cerimônia de premiação de jornalistas que reuniu várias gerações, dos anos 70 até os dias de hoje.

Tinha todo o ar de último baile da Ilha Fiscal. Alguns dos premiados ousaram gritos de guerra contra as ameaças à liberdade de imprensa.

Deve ter sido um dos últimos episódios de solidariedade entre jornalistas e empresas.

Luís Nassif
No GGN
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Lava Jato é para o Adriano ser Presidente da Petrobras

Desmanchar a Petrobras significa implodir o projeto de autonomia!​


Numa das especialidades do PiG, o Globo publica sem identificar a fonte, na capa da seção de Economia (sic), o texto “Regra do Pré-Sal pode (sic) mudar” — “Governo (qual?) estuda (sic) rever modelo que prevê a Petrobras como operadora única do regime de partilha”.

O PiG já diz por aí que uma das causas da derrocada da Petrobras foi a decisão da Graça e da Dilma de exigir que os fornecedores tenham pelo menos 60% de conteúdo local.

Agora, todos querem a cabeça da Graça, a começar pelo "Ataulfo", defensor de causas irremediavelmente perdidas.

Farelório.

Vem de farelo.

Trata-se apenas da materialização do objetivo subterrâneo da sangrenta campanha que a Casa Grande brasileira — do PiG a seus instrumentos no Congresso e no PSDB — desfecha contra a Petrobras.

Ninguém se esquece que, na vitoriosa campanha de 2010, o místico de Aparecida, o Padim Pade Cerra — nós não somos cucarachos — prometeu à Chevron entregar o pré-sal.

TODOS os candidatos da Oposição, do Aécio Never ao Eduardo do jatinho sem dono à Bláblárina, que gostava de voar no jatinho sem dono — TODOS prometeram entregar o pré-sal.

Concluir a obra entreguista do Príncipe da Privataria.

Nesta segunda-feira, 15/12, a Bovespa cai por mil e um motivos, vindos do exterior, mas no PiG a culpa é solitariamente da Petrobras.

O que é, na essência, a Lava Jato?

E sua obsessiva exploração pelo PiG?

(Clique aqui para ler “o crime é o cartel”.)

Exatamente o que matou Vargas!

A Petrobras.

E o pré-sal, que, hoje, está no centro do projeto de autonomia do Brasil.

Com o desenvolvimento de uma indústria de base — com os 60% de conteúdo nacional — e a destinação de recursos à Educação e à Saúde.

O que eles querem é desmontar o Brasil.

Através do desmanche da Petrobras.

E, por aí, na mesma esteira, a desestruturação do PAC-2, se a Dilma não correr para salva-lo, como sugere o genial Bessinha!

Eles não ganham eleição.

Perderam as últimas quatro e vão perder as duas próximas, com a volta do Lula.

Eles querem ganhar o terceiro turno: nomear o Adriano Pires — ah! Quando eu crescer eu quero ser o Adriano Pires!, o chefe da consultoria do Aécio Never para assuntos de petróleo.

É aquele “especialista” que a Urubóloga não deixa de consultar, e tem cadeira cativa no “Entre Caspas”, da GloboNews.

Quando falta assunto (e convidado) ele está lá: firme!

Na pior das hipóteses, serve mesmo o Davizinho, o genro do Fernando Henrique, que presidiu a Agência do Petróleo e prometeu vender a Petrobrax em três anos.

(Lamentavelmente, foi demitido pela sogra quando se separou da mulher.)

É para isso que serve a Lava Jato, da forma imparcial, republicana, multi-vazante, com a que a conduz o implacavel Dr Moro!

Entregar o ouro (negro)!

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Ataque a Petrobras na Bolsa tem nome: entreguem o pré-sal


O ataque especulativo que as ações da Petrobras estão sofrendo tem um significado muito claro.

Não corresponde, em hipótese alguma aos “perigos” que os desvios de recursos produzidos por Paulo Roberto Costa e Cia possam ter produzido.

Mesmo que tenham atingido o bilhão de reais que a mídia acena, isso não corresponde, sequer, a um mês de lucro da companhia.

Há razões objetivas óbvias para a queda que passam muito longe deste motivo: a queda de 40% no preço do petróleo no mercado internacional.

Que só é mencionada, nas análises de nosso jornalismo econômico muito en passant.

As perdas das petroleiras no mercado acionário são generalizadas. Chevron, Shell e BP caíram, desde outubro, algo em torno de 20%

Claro que as da Petrobras, com ataque desfechado contra a empresa, no último mês, ultrapassaram com folga as demais.

Qual é a chance que o mercado vê?

A primeira, é óbvio, é impor uma derrota a Dilma forçando-a a entregar a cabeça de Graça Foster, em nome de deter o vórtice onde o mercado está lançando a petroleira brasileira.

Mas isso é o tático. O estratégico é…

Deixo que O Globo responda, no editorial que publicou ontem.
“A política brasileira para o petróleo, extremamente concentrada na Petrobras, terá de passar por uma revisão. Há sinais que isso começará a ocorrer em 2015. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) vai propor ao Conselho Nacional de Política Energética uma rodada de licitações no ano que vem com uma oferta que englobe de 200 a 300 novas áreas destinadas à exploração. Após tantos anos sem rodadas ou com ofertas minguadas a potenciais investidores, 2015 pode marcar uma reviravolta na política do petróleo.”
Leiloar áreas petrolíferas, numa hora de depreciação do mercado é uma loucura que não pode ir em frente. Porque as petroleiras, que não estão dando conta de tudo o que investiram em exploração de novos campos na hora do petróleo em alta darão o que para assumirem novos compromissos? Nada, é claro, ainda mais tendo que se submeter a políticas de conteúdo nacional e prazos. Mas, aí, para atraí-las, revogam-se as primeiras e dilatam-se os segundos, não é?

Mas tem mais, querem ver?
“O próprio pré-sal também precisa de uma revisão nas regras de exploração de futuros blocos. O governo Lula instituiu o modelo de partilha de produção no pré-sal, tornando a Petrobras operadora única desses blocos, e com uma participação de no mínimo 30% no consórcio investidor. Na prática, ressuscitou o monopólio para essas áreas. Ambas as condições são inexequíveis para a realidade financeira e gerencial da Petrobras.(…)Ainda que mantenha o modelo de partilha para o pré-sal, o governo terá então de rever a obrigação de a Petrobras ser a operadora única dos futuros blocos e ter um limite mínimo de participação nos consórcios.”
Perto do que pretendem fazer com o petróleo brasileiro, Paulo Roberto Costa era ladrão de galinhas…

Fernando Brito
No Tijolaço
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Gabinete de crise no PT, uma excelente proposta

As discussões recentes em torno da reorganização do PT não ficarão no papel. É o que mostra a proposta do ex-presidente Lula de criar um gabinete de crise, formado por uma executiva auxiliar, com comando conjunto no PT, para reforçar a direção partidária e enfrentar os desdobramentos da Operação Lava Jato e da seletiva cobertura da mídia, com seus dois pesos e duas medidas sempre contra o PT.

O gabinete de crise também levará adiante a proposta de repensar o partido e reforçar o diálogo com os movimentos sociais.

Nomes como os de Gilberto Carvalho (ministro da Secretaria-Geral); Marco Aurélio Garcia (assessor especial para Relações Exteriores da Presidência da República), do ex-ministro Luiz Dulci, do presidente regional do PT paulista, deputado Edinho Silva e do governo, senador Humberto Costa (PT-PE) são cogitados para compor essa executiva auxiliar.

Uma vasta agenda de mobilização está sendo programada pelo PT e pelo ex-presidente, inclusive, a ideia de retomar as Caravanas da Cidadania, realizadas ao longo dos anos 90 e início do ano 2000. Aliás, o Estadão está bastante incomodado com essa agenda. Neste domingo, o jornalão da família Mesquita reservou seu editorial principal para criticar abertamente o ex-presidente Lula, afirmando que ele está em campanha eleitoral.

Desta ideia do ex-presidente Lula, o que chama a atenção é que ela tenha demorado tanto. É preciso ir para as ruas e disputar a informação hoje completamente controlada pelo monopólio da mídia e de seus donos. Uma mídia que atua como partido de oposição ou linha auxiliar dos que se encontram na oposição, buscando ditar a agenda do país e enquadrar o governo de acordo com seus interesses e os daqueles que representa, especialmente os interesses do capital bancário e financeiro.

No Blog do Zé
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Reescrevendo a História


Os jornais de segunda-feira (15/12) tentam desqualificar o relatório da Comissão Nacional da Verdade, confundindo o quadro histórico sobre os crimes cometidos por agentes públicos com casos isolados de vítimas dos grupos armados que resistiram à ditadura. O criminalista José Paulo Cavalcanti, único integrante do comitê que não concordou com o relatório, se transforma em uma espécie de porta-voz do “outro lado”, aquele que é objeto da investigação.

O acirramento das posições políticas provocado pela disputa eleitoral e as contestações que se seguiram à divulgação do resultado das urnas criam o cenário propício à desinformação e a ambiguidades. Assim, questões que poderiam ser debatidas com transparência, permitindo à sociedade colocar uma lápide sobre as tumbas do período de exceção são reacendidas, dificultando o esclarecimento da questão central: nominar os agentes do Estado que cometeram tais crimes e, no limite de todas as possibilidades, revelar o destino dos desaparecidos, para que suas famílias possam finalmente encerrar o luto de décadas.

Esse talvez seja o divisor de valores entre aqueles que insistem em apurar os casos de prisões arbitrárias com torturas e mortes e os que, como o advogado Cavalcanti, misturam atos de indivíduos com políticas de Estado, ainda que subterrâneas.

Uns morreram porque financiavam a atividade repressiva, ou porque atuavam diretamente no conflito, e devem ser considerados protagonistas, e há as vítimas colaterais, que foram apanhadas no fogo cruzado ou eliminadas por agentes da repressão por haverem testemunhado execuções ilegais.

O debate, para ser correto, precisa considerar as circunstâncias de cada caso. Os familiares das vítimas de um lado tiveram direito aos funerais e ao luto. Os do outro lado foram impedidos de honrar seus mortos, e muitos ainda esperam pela confirmação do óbito – direito que lhes foi negado pelo Estado nacional sequestrado pelo poder militar.

Essa é a distinção que dá sentido à Comissão Nacional da Verdade e que coloca sob questionamento o efeito da anistia, imposta como condição para uma retirada honrosa das Forças Armadas do poder político.

“Operação Jacarta”

Não se deve esquecer que a anistia começou a ser negociada apenas um ano depois do assassinato do operário Manoel Fiel Filho, militante das comunidades eclesiais de base da igreja católica, ocorrido em janeiro de 1976. Resultou de uma articulação do então presidente Ernesto Geisel com parte da imprensa, empresários e políticos que haviam apoiado o golpe de 1964. A oposição organizada em torno do Movimento Democrático Brasileiro apanhou a bandeira levantada em 1975 pela ativista Terezinha Zerbini, e iniciou a negociação com o governo militar em 1977.

Três meses antes do assassinato do operário, a morte do jornalista Vladimir Herzog, torturado nas dependências do então 2º Exército, em São Paulo, havia levado o presidente Geisel a determinar que ninguém mais fosse preso por subversão sem que o gabinete da Presidência da República fosse informado. Ele queria evitar outras mortes nos porões semiclandestinos.

A medida foi comunicada pessoalmente por Geisel ao comandante da unidade, general Ednardo D’Ávila Mello, segundo depoimento do ex-governador paulista Paulo Egydio Martins ao jornalista Geneton Moraes, da GloboNews (ver aqui).

O que poucos sabem é que D’Ávila Mello era parte de uma conspiração que planejava eliminar cerca de 2 mil dissidentes, muitos dos quais militantes do Partido Comunista Brasileiro, que não havia aderido à luta armada. Seu plano foi revelado a três estudantes de jornalismo que o entrevistaram em agosto de 1975. Um relatório dessa entrevista foi encaminhado a dirigentes do PCB, mas a organização entendia, como disse um deles, que “o processo de abertura do general Geisel é lento e gradual, mas é seguro”.

A repressão massiva, comandada pelo então ministro do Exército Sylvio Frota, que conspirava para se tornar sucessor de Geisel, se chamaria “Operação Jacarta”, em referência ao episódio de 1967, quando o ditador Suharto comandou o assassinato de 500 mil dissidentes, principalmente militantes de esquerda, intelectuais, escritores, religiosos e simplesmente indivíduos que manifestavam índole pacifista, destruindo o patrimônio intelectual e a inteligência crítica da Indonésia.

A morte de Herzog interrompeu a operação insana, e o plano da anistia foi construído sobre essa base de perigosa instabilidade, com as Forças Armadas ainda divididas e parcialmente influenciadas pela “linha dura”.

O que fez a Comissão Nacional da Verdade foi desvelar parte do que ficava escondido naqueles porões. O que faz a imprensa, hoje, é tentar relativizar a verdade.

Luciano Martins Costa
No OI
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Paranoia anti-golpista coloca setores progressistas na defensiva


A aprovação da prestação de contas de campanha de Dilma Rousseff e do Comitê Financeiro Nacional do PT nas eleições 2014 pelo plenário do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), por unanimidade, jogou um balde de água fria nos analistas que “anteviram” uma operação para dar um golpe institucional no país.

A cristalização da leitura de que a direita se movimenta para dar um golpe e derrubar a presidenta Dilma é um espantalho que tira o foco das forças democráticas, progressistas e populares. É evidente que setores minoritários defendem o “Fora Dilma”, tanto por meio do impedimento pela responsabilização nos casos de corrupção na Petrobras como pela deslegitimação das contas da campanha da petista. Uma ala menor ainda advoga por um golpe militar.

No entanto, as grandes placas tectônicas da política brasileira não se movem para catapultar Dilma do Palácio do Planalto. Um golpe é uma operação bastante complexa e perigosa, que vai para além da batalha das ideias, com manchetes de jornais, discursos na tribuna do Congresso, declarações de ministros da Suprema Corte ou protestos isolados na Avenida Paulista.

A luta política tem diversas esferas, passando pela econômica, social, institucional e ideológica. Para acompanhar os movimentos dessa disputa, que se manifesta de forma permanente nas questões cotidianas, é fundamental observar cada uma dessas esferas. As avaliações que apontam para um golpe contra a presidenta Dilma Rousseff na esquina da República superestimam a dimensão ideológica da disputa, deixando em segundo plano as outras esferas.

Um golpe ou um processo de impeachment, mesmo com alguma legitimidade institucional, tem consequências imprevisíveis e inaugura um período de insegurança jurídica, que assusta até mesmo a burguesia. Por isso, a tática da classe dominante não passa por um golpe ou pelo impedimento, mas por um sangramento profundo da presidenta Dilma e do PT durante esses quatro anos.

Dilma não é Fernando Collor de Mello. Se o sinal amarelo do golpismo ascender pra valer, a presidenta tem um partido organizado nacionalmente, movimentos populares, sindicatos, entidades estudantis, grupos de intelectuais reconhecidos, blogueiros comprometidos com a democracia, relações internacionais, articulações com os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e Unasul (União de Nações Sul-Americanas) para defender a legalidade. Até mesmo setores que se identificam com a oposição não necessariamente aceitariam uma ruptura constitucional.

A classe dominante brasileira não tem nenhum compromisso com a democracia, mas sabe que uma aventura de caráter golpista teria como consequência uma radicalização política em torno de uma polarização entre os setores democráticos e os segmentos golpistas, que teria um desfecho imprevisível. Essa tática tumultuaria ainda mais o quadro econômico, que é o maior pesadelo para os diversos segmentos da burguesia.

O que está em processo não é derrubar o PT com uma paulada, mas aprofundar um processo de rendição do governo, sangramento político e desconstrução moral do partido, dentro de um quadro de crise econômica que intensifica as contradições. Por isso, o espantalho do golpismo cria um alarmismo que roda em falso, porque não toca as contradições centrais.

No curto prazo, a burguesia quer um governo fragilizado, que possa ceder todos os anéis sob a ameaça de perder os dedos. Assim, os agentes do mercado têm melhores condições para chantagear o governo, dirigir a política econômica e operar medidas para fortalecer seus interesses. Já os partidos e parlamentares fisiologistas aproveitam o quadro para ganhar nacos do Estado, cargos nos ministérios e estatais, além da liberação de emendas.

Para o longo prazo, os inimigos do projeto neodesenvolvimentista em curso — como as frações da burguesia associadas ao capital internacional, os partidos de oposição de direita e a velha mídia — fazem uma operação desgaste político para arrancar do peito dos brasileiros e brasileiras, especialmente dos mais pobres, o reconhecimento das conquistas sociais e a gratidão com o grande construtor dessas políticas, o ex-presidente Lula.

A vitória de Dilma em um quadro assustadoramente adverso demonstrou a dimensão do sentimento do povo brasileiro em relação às políticas identificadas com Lula e com o PT, apesar da campanha permanente de oposição da velha mídia e da estratégia de desmoralização do petismo a partir do caso do Mensalão.

Esse sentimento é considerado pela classe dominante um câncer que não pode ser arrancado de forma brutal, mas precisa ser tratado com sessões diárias e pesadas de “quimioterapia” pelas ondas da televisão e do rádio.

Desde a crise do Mensalão, a oposição tenta desgastar o governo e, até agora, não conseguiu vencer a eleição presidencial. Chegaram muito perto neste ano, mas perderam. Assim, atuam para aprofundar o sangramento para ganhar musculatura em 2016 e vencer em 2018, ainda mais com a perspectiva de enfrentar Lula.

A deterioração do quadro econômico, a crise do sistema político e a dimensão da Operação Lava Jato apontam para um período extremamente difícil para a presidenta Dilma e abrem uma janela histórica para a oposição partidária de direita. Para além de retomar a presidência, os setores conservadores querem destruir os laços de identificação do povo brasileiro com Lula e o PT.

Os próximos quatro anos serão de guerra permanente da oposição de direita e da velha mídia, que não baixarão a guarda porque não querem correr o risco do governo tomar medidas para recompor as forças sociais e avançar com o projeto de desenvolvimento e distribuição de renda, por meio da intervenção do Estado.

A oposição partidária ao governo — com suas ramificações no Estado, especialmente no Poder Judiciário — mantém o tom político elevado e trabalha para desgastar ao máximo a presidenta Dilma e o PT. Apesar da derrota no 2º turno da eleição presidencial, as lideranças oposicionistas mantêm a ofensiva, tendo como base os mais de 50 milhões de votos recebidos por Aécio Neves.

Por isso, trabalham noite e dia para corroer a autoridade do governo na sociedade, no mercado, no Congresso Nacional e no Poder Judiciário, enquanto Dilma está preocupada em governar e, o PT, com a sobrevivência dentro do time do segundo mandato. O governo apanha, à espera do fim do round.

A oposição ataca o governo, a mídia repercute e amplifica, o Poder Judiciário e o Ministério Público investigam, parte dos depoimentos são vazados, a mídia divulga trechos, a oposição ataca o governo, atrai uma parte da “base aliada”, convoca autoridades do governo e instaura CPIs, a mídia faz a cobertura…

Esse é o círculo vicioso da luta política no país, desde que o PT chegou ao governo federal, em 2003. Esse modus operandi tem mais ou menos êxito a depender da capacidade de coesão da base social e política em torno do projeto em curso. Em um quadro de dificuldades econômicas, crise política e radicalização da direita, os impactos são maiores.

No entanto, não há novidades em relação aos procedimentos dos setores conservadores, mas na intensidade da ação da oposição. A direita está raivosa, tem mostrado seus dentes, rosnado e latido. Dessa forma, faz a luta ideológica permanentemente. Assim, é necessário localizar com precisão o lugar do “golpismo” na estratégia global.

Os rumores golpistas são um tempero para dar um sabor de crise institucional, corroer a legitimidade da presidenta, mostrar a fragilidade do governo, colocá-lo na defensiva e criar um clima de paralisia. Assim, o “golpismo” é funcional, mas não está no centro da tática dos opositores do governo Dilma. Claro que esse quadro pode mudar, mas não há evidências de que valha a pena para a classe dominante optar por um caminho tão tortuoso.

O efeito perverso da paranoia anti-golpista é levar ao governismo radical, que neutraliza os setores democráticos e populares, que ficam na defensiva e admitem cada passo atrás do governo como se fosse um mal menor. Com isso, abrem mão de fazer pressão para puxar o governo para a esquerda, que é a única saída para os setores progressistas.

O governo Dilma só sairá das cordas se der um passo à frente, que reorganize as forças sociais antineoliberais, para partir para a ofensiva. Infelizmente, os primeiros sinais depois da eleição demonstram que a opção foi dar um passo atrás, recompondo com os segmentos neoliberais, o que inviabiliza um salto para um projeto de desenvolvimento nacional e radicalização da democracia.

No entanto, o impacto no Congresso Nacional da Operação Lava Jato dará contornos dramáticos à batalha da reforma política. No quadro de recrudescimento da crise institucional, os setores conservadores lançarão a carta do impeachment de Dilma, que obrigará o governo recuar ainda mais, inviabilizando o projeto em curso.

A única carta que poderá tirar o governo da defensiva e mudar o quadro é a convocação de uma Assembleia Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político, a partir de um processo de luta social que reorganize os setores progressistas, colocando no centro da crise do conjunto do sistema político para fazer o enfrentamento ao sequestro da política institucional pelo poder econômico.

Igor Felippe
No Escrevinhador
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PSDB finge não ter recebido doações milionárias de empreiteiras da Lava a Jato


Está cada vez mais difícil para o PSDB continuar fingindo que não tem nada a ver com o escândalo das empreiteiras e que não recebeu delas contribuições milionárias. Apesar da ajuda que o partido recebe dos jornalões que não o associam ao escândalo e querem apresentar como se fossem coisas estanques — uma é a Petrobras e suas ligações com empresas, outras as “inocentes” contribuições das mesmas empresas que chegam ao tucanato…

Ajuda, para ficar em um exemplo apenas, como a dada pela Folha de S. Paulo, no fim de semana (domingo) quando publicou com todas as letras reportagem sobre o festival de doações da empreiteira Queiroz Galvão ao PSDB e aos seus candidatos na eleição deste ano, muito deles ocupantes de cargos, caso do dr. Geraldo Alckmin, que fez campanha, tentou e se reelegeu para um 4º mandato de governador..

A reportagem da Folha, a partir de várias planilhas apreendidas pela Polícia Federal (PF) em escritórios da empresa, diz que a empreiteira calcula o percentual da doação com base no valor da obra contratada. O jornal obteve planilhas com o detalhamento de tudo. Sobre o VLT em construção na Baixada Santista, por exemplo, obra a custos atuais de R$ 117,5 milhões,  a doação chegou a R$ 1,16 milhão. Conforme o escrito na planilha “ProfPart”, que a própria empreiteira traduziu como sendo “Provisão financeira para o PSDB”, partido do dr. Geraldo Alckmin.

Mas jornal não dá isso na 1ª página, nem de manchete e nem sai no JN da Globo

Além de doações que se destinavam ao PSDB/campanha da reeleição de Alckmin, houve doações, também ao “PSDB Nac. (nacional)”. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a empreiteira doou legalmente R$ 3,7 milhões ao diretório nacional do PSDB nas eleições deste ano.

Uma vez feita a apreensão a empresa explicou também outras iniciais: J.S., por exemplo, era José Serra, senador eleito pelo PSDB. As planilhas apreendidas contém doações, também, a candidatos do PT, do PMDB e de outros partidos.

Só que como o maior volume, o número de candidatos contemplados e a associação a obras — de cujo custo total era tirado o percentual para doação — foi sempre em relação ao PSDB, claro que o jornal não deu isso de manchete na 1ª página. Nem sequer uma pequena chamada — nem título no alto da página interna. O título puxa para a empreiteira e na sequência da reportagem é que vem a relação de doações ao tucanato e a outros partidos.

Doações são legais, mas quando feitas ao PT viram escândalo

Este é o PSDB nacional e em sua maior e mais influente secção estadual a de São Paulo, amigos leitores. Levam um banho de Lava a Jato, um duto milionário de doações financeiras de campanha das mesmas empresas citadas no caso Petrobras, e continuam posando de vestais, fingindo não ter nada a ver com isso, omitindo-se, sem defender nem dizer porque não defendem o fim do financiamento privado de campanhas eleitorais.

O fato é que essa reportagem da Folha demonstra muito bem o que são os tucanos. Se formos aplicar a eles os critérios que aplicam a nós, petistas, basta receber doações legais pela legislação eleitoral vigente para já ser criminalizado.

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Huck diz para atleta tetraplégica que é uma vantagem tatuar e não sentir dor — assista

Luciano Huck comete gafe e diz para atleta tetraplégica que é uma vantagem tatuar e não sentir dor

Internautas mostraram revolta e indignação diante do comentário do apresentador


O apresentador Luciano Huck protagonizou uma de suas maiores gafes na TV no programa do Calderão do Huck, que foi ao ar neste sábado (13). A convidada especial era a ex-ginasta Laís Souza, que ficou tetraplégica após um acidente de esqui.







Ao ver as tatuagens da atleta na perna, Luciano não perdeu tempo e puxou assunto.

"Doeu para fazer?", perguntou o apresentador. Desconsertada, Laís explicou: "Não dói mais". Vendo a bobagem que tinha falado, Luciano tentou, a seu modo, consertar a situação e disse: "tem essa vantagem". E para o constrangimento geral de quem estava no palco e assistindo o programa em casa, a ex-ginasta emendou: "Deve ser a única".

A cena foi ao ar e no mesmo instante os internautas questionaram a falta de sensibilidade do apresentador e encheram as redes sociais com críticas sobre o caso.

No R7
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Teimosa fardada em tempos de verdade

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=6772

– Não aceitamos. É puro revanchismo.

Assim pode ser resumida a posição de militares em relação ao trabalho da Comissão Nacional da Verdade, que entregou seu relatório à presidente Dilma há poucos dias. Enquanto outros países punem ditadores e torturadores, o Brasil insiste em protegê-los com a Lei da Anistia, uma anistia em benefício próprio concedida para salvar a pele dos responsáveis pela barbárie verde-amarela e proteger seus esbirros. Tudo no Brasil aconteceu porque os militares deram o primeiro passo derrubando um presidente legítimo em nome de uma ameaça fantasmagórica, o comunismo, insuflada pelos Estados Unidos e pela mídia.

– Se os Estados Unidos torturam, por que nós não?

Esse poderia ser o lema dos que continuam a justificar os engenhosos dispositivos de tortura ensinados aos brasileiros pelo americano Dan Mitrione, que os tuparamos uruguaios fizeram a cortesia de despachar para o além. Meu amigo e colega Rogério Mendelski conta que cobriu para o jornal O Estado de S. Paulo a passagem de Mitrione por Porto Alegre, onde ganhou um mimo ao final do seu trabalho, um relógio que usaria até o dia do seu assassinato no Uruguai. Dan ensinou policiais gaúchos a praticar o que o CIA ainda chama de “técnicas de interrogatório intensificado”. Esse eufemismo técnico tem sido traduzido no mundo inteiro com uma palavra: tortura. Uma das suas formas, amplamente aplicada numa Brasil, é o pau-de-arara.

– A causa era boa – dizem as viúvas da ditadura.

– O comunismo rondava – insistem.

Até a igreja católica vem admitindo seus erros. O Papa Francisco, talvez por ser argentino, não tem dado guarida a pedófilos. A Argentina mandou generais ditadores para a cadeia. Militares brasileiros continuam a teimar com a proteção do STF.

– Não fizemos nada de mal – dizem uns.

– Só agimos pelo bem do Brasil – completam outros.

– E os crimes dos terroristas?

Fingem ignorar que, salvo casos raros, os que resistiram à ditadura foram julgados e condenados pelo Superior Tribunal Militar. Ou foram presos, torturados, exilados ou executados em emboscadas. O relatório da Comissão Nacional da Verdade é até complacente. Cecília Coimbra, do Tortura Nunca Mais, detonou: “É importante responsabilizar, sim. Só que mais importante seria saber: onde aconteceu e como aconteceu? Essas perguntas não foram respondidas. Também não sabemos o que aconteceu com os desaparecidos. Esta história está sendo contada de acordo com os interesses das forças que estão no poder”. Até a presidente Dilma Rousseff parece mais interessada em botar panos quentes. O STF, porém, está rachado. Se os ministros Marco Aurélio Mello e Gilmar Mendes consideram a questão da Lei da Anistia superada, os seus colegas Ricardo Lewandowsky e Luís Roberto Barroso não escondem que aceitariam revisar o passado.

– Tem que punir os dois lados – defendem-se os amigos da ditadura.

É um discurso malandro. Um lado foi punido. O outro ainda passeia tranquilamente, até pelas ruas de Porto Alegre, sem qualquer sanção. Encorajados pelas práticas americanas em Guantánamo muitos saem do armário e, de peito estufado, defendem o terrorismo estatal:

– Certos fins justificam certos meios – alegam candidamente.
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Aceitar os fatos

Mais cedo ou mais tarde a oposição vai acordar e descobrir a vitória de Dilma Rousseff

O ano de 2014 está terminando
Geraldo Magela/ Agência Senado
Há fatos de todos os tipos, dos imperceptíveis àqueles impossíveis de ignorar. Também na política existem os irrelevantes e os acachapantes.

O ano de 2014 está prestes a terminar e só não vê quem não quer o fato político mais acachapante do ano: Dilma Rousseff ganhou a eleição. Com a vitória, o PT garantiu a permanência no poder por mais um período, o que significa 16 anos seguidos no comando do País.

Como o futuro a Deus pertence, mas suas mais prováveis configurações podem ser estimadas, é possível dizer que nunca um partido esteve tão perto de realizar o sonho acalentado por todos: completar 20 anos no poder. Não é um aniversário tão extraordinário, mas encanta as legendas.

Todos os vencedores das eleições realizadas desde a redemocratização tinham planos de celebrá-lo. O projeto de Fernando Collor logo ficou pelo caminho. Ele nem sequer terminou o terceiro ano no poder. O do PSDB, com Fernando Henrique Cardoso, chegou apenas ao oitavo, para decepção do próprio e dos companheiros, que tinham certeza de que nunca seriam derrotados. Só falta uma vitória para o PT atingir a marca e está em seus quadros o favorito da eleição de 2018.

A renovação do mandato da presidenta é a prova de que a maioria da sociedade brasileira está basicamente satisfeita com o que seu antecessor e ela fizeram à frente do governo a partir de 2003. As pesquisas realizadas daí em diante mostram serem poucos aqueles que consideram que, nos últimos 12 anos, tudo sempre correu às mil maravilhas, mas são unânimes ao apontar o entendimento da maioria de que o caminho trilhado pelos governos petistas foi fundamentalmente correto.

Contra o fato da reeleição de Dilma pode haver esperneio, muxoxo e tentativa de desqualificação. Nada muda, porém, a realidade. Será ela a ocupante daquela cadeira no Palácio do Planalto até 31 de dezembro de 2018. Salvo, é claro, para quem não tem o menor apreço pela democracia e passa os dias a arquitetar uma maneira de impedi-la de tomar posse ou de derrubá-la via golpe de Estado.

Curiosa a parcela golpista de nossa elite. Acha-se cosmopolita e moderna, mas é fascinada pelas aventuras antidemocráticas mais atrasadas e bregas. Adoraria fazer uma quartelada venezuelana ou uma encenação paraguaia.

Quem, nas oposições à direita, fez cálculos de que Dilma não conseguirá governar no segundo mandato não a conhece. E ilude-se ao acreditar que o Congresso atravessará quatro anos em rebelião contra o governo. A vasta maioria dos deputados e senadores é sensível aos argumentos de quem cuida da chave do cofre.

A suposição do “derretimento” de Dilma deve ter origem no acontecido a Fernando Henrique Cardoso entre 1999 a 2002. De fato, o tucano fez um segundo mandato tão ruim que o PSDB nunca mais se recuperou. De trambolhão em trambolhão, chegou ao fim do governo com 15% de avaliação positiva.

Além de ser mais competente que o tucano, a presidenta é realista. Sabe que o Brasil precisa crescer para garantir a oferta de empregos e assegurar a arrecadação necessária ao custeio dos investimentos e dos programas sociais. E reconhece que a maioria do empresariado nacional não queria sua vitória. Fez a coisa mais inteligente: nomeou, para os ministérios econômicos, nomes para ajudá-la a vencer a resistência de quem decide a respeito dos investimentos privados.

A mídia conservadora reagiu com a costumeira hipocrisia: cobrou “coerência” da presidenta, como se ela estivesse obrigada a agir assim ou assado, em razão de algum dever ideológico. Esqueceu-se do fato relevante. Dilma ganhou a eleição e pode montar o ministério que considerar adequado. Escolhê-lo é prerrogativa presidencial e é ela a chefe de governo.

Quem também, ao que parece, não se deu conta do fato de termos uma presidenta reeleita é o senador Aécio Neves. Acontece com ele o inverso do sistema político: quanto mais no passado fica a eleição, mais ele teima em permanecer no palanque.

Em Minas Gerais, há quem desconfie de seu recente radicalismo. Seria quiçá uma estratégia de defesa, de atacar para se proteger. Quem mais conhece os intestinos das empresas públicas mineiras nos últimos 12 anos? Quem mais tem motivos para temer o que podem revelar as auditorias que o governador eleito deve realizar?

Talvez seja assim mesmo. Até os fatos acachapantes precisam de tempo para ser percebidos. Mais dia, menos dia, as oposições vão acordar e descobrir que Dilma Rousseff ganhou a eleição e governará pelos próximos quatro anos.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
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Bolsonaros não existem por acaso

À luz do bom senso mais prosaico, nenhum argumento contra a revisão da Lei da Anistia fica em pé. O mais utilizado: a lei prega o esquecimento e se aplica "aos dois lados".

A Lei da Anistia foi aprovada em plena vigência do regime militar. Só havia dois partidos autorizados a funcionar: Arena e MDB. Um terço dos senadores era biônico, indicado pelo regime na engenharia do pacote de abril de 1977. Em votação apertada, 206 a 201 votos no Congresso, os generais e o alto empresariado que os sustentava obrigaram um parlamento castrado a engolir a absolvição dos algozes. Chamar isso de acordo é abusar da estupidez alheia. O maior interesse do texto sempre foi inocentar facínoras e seus mandantes, que se deleitavam com a barbárie cometida nas câmaras de tortura.

Ah, mas os mortos vítimas dos "terroristas"? A tentativa de simetria peca por todos os lados. Nunca se pode, pelo menos do ponto de vista da democracia, colocar no mesmo plano o poder de Estado e o de seus opositores — até por serem absolutamente desiguais. Claro que isso não alivia a perda de familiares, seja de que lado for. Mas omite-se o importante: os oposicionistas daquela época foram "julgados" e presos — na melhor das hipóteses. Outros tantos simplesmente desapareceram do mapa, nos porões militares, nos combates forjados ou executados a sangue frio. Foram mais do que "punidos".

Já o batalhão de choque do regime, do Planalto à rua Tutoia, pretendeu escapar ileso com a lei 6683/79. Tenta até hoje, com a ajuda de um Supremo Tribunal Federal cujos veredictos são para lá de controversos. Nada disso esconde a hipocrisia do enredo, e a vergonha de o Brasil ser o único país do continente a avalizar práticas de torturas.

"Ah, mas isso é remexer no passado; com todo respeito aos mortos, vamos cuidar dos vivos." Ocorre que é justamente pelos vivos que se defende a punição de quem institucionalizou a tortura. Por trás das humilhações cometidas cotidianamente contra acusados nas delegacias, inocentes ou culpados, está a jurisprudência de que maus tratos fazem parte do dia a dia policial. A certeza da impunidade de quem maltrata em nome do Estado sobrevive "em nome da lei".

Pode-se até entender que muitas iniciativas políticas dependam da chamada "relação de forças". É o jogo democrático. Preocupa perceber, no entanto, que a democracia esteja sendo usada para defender a barbárie. É inaceitável, por exemplo, que chefes militares simplesmente se recusem a liberar documentos e informações sobre a violência nos quartéis. E nada acontece. Pense num ministro refratário a fornecer dados sobre tal ou qual projeto. Num país civilizado, o cidadão seria imediatamente demitido.

Aqui, não. Os militares, constitucionalmente submetidos ao poder civil no papel, pintam e bordam. Pior: a presidente da República, chefe deles, não dá um pio. O mínimo a esperar era que, diante de um relatório como o da Comissão da Verdade, a presidente repudiasse publicamente os responsáveis pelos anos de chumbo. Em nome das Forças Armadas. Isto mesmo. Militar que não gostasse teria de se submeter, ou então vestir o pijama — para dizer o mínimo.

As concessões diante de um passado abominável têm alto preço no presente e no futuro. O deputado Bolsonaro está aí para provar. Por muito menos, por se deixar fotografar de cueca, um deputado certa vez teve o seu mandato cassado. Bolsonaro idolatra o estupro, ofende colegas e faz pouco dos direitos humanos sempre que pode. Um bandido. Seus herdeiros seguem pelo mesmo caminho, clamando pela intervenção militar. Num belo dia, a história pede licença para se repetir.

Ricardo Melo
No fAlha
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Sérgio Porto # 75


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Essa é do Barão... 133


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