12 de dez de 2014

Saudades dos aviões da Panair: os empresários que não toparam pagar pau para a Ditadura


“O medo em minha vida nasceu muito depois
descobri que minha arma é o que a memória guarda dos tempos da Panair
Nada de triste existe que não se esqueça
Alguém insiste e fala ao coração
Tudo de triste existe e não se esquece
Alguém insiste e fere o coração
Nada de novo existe nesse planeta
Que não se fale aqui na mesa de bar”
(Milton Nascimento, “Saudade dos Aviões da Panair”)

O texto divulgado nesta quarta-feira (10 de dezembro) pela Comissão Nacional da Verdade é um texto histórico tão necessário quanto duro e desagradável. Que fala de torturas e torturadores; de ganância e de empresários ambiciosos; de gente que se empenhou para matar a democracia e que ajudou a financiar os verdadeiros matadouros humanos construídos para calar a oposição.

Mas tem também o relato sobre os heróis que não toparam fazer qualquer negócio para se dar bem. É desses que se quer falar.

Milton Nascimento tem uma música incrivelmente linda chamada “Saudades dos Aviões da Panair”, que apareceu no disco Minas, de 1975, no mesmo ano em que o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado no Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna de São Paulo), num canto do quartel do II Exército, no bairro do Paraíso, em São Paulo.

Para quem não conhece esse pedaço hoje supervalorizado da capital paulista, informo: trata-se de um bairro de classe média vizinho ao parque do Ibirapuera, um endereço aprazível. Com sorte ou muito azar, quem naqueles dias estivesse andando pela rua Thomás Carvalhal, quase na esquina com a rua Tutoia, poderia escutar os gritos dos que eram barbarizados ali. Mas não havia para quem pedir socorro.

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) concluiu que até dezembro de 1974, 2.148 pessoas haviam sido presas ali para serem interrogadas. Outros 795 presos foram encaminhados de outros órgãos. Somem-se mais 3.276 “elementos [que …] prestaram declarações e foram liberados” e tem-se uma idéia do congestionamento, do entra-e-sai de “suspeitos” naquela esquina. Cinquenta nunca puderam sair dali com vida. Morreram sob tortura.

Henning Albert Boilesen, o sinistro presidente do então poderoso Grupo Ultra, […] foi um dos elementos civis mais identificados com a repressão naquele período, embora não tenha sido o único. Boilesen ficou conhecido como o personagem que cuidava da arrecadação de recursos para a [… repressão]. Frequentava a sede da entidade, observava os presos políticos ali mantidos, assistia a sessões de tortura. Existem evidências de que tenha participado de algumas sevícias de prisioneiros políticos. Sua participação em atos de tamanha crueldade, crimes contra a humanidade, envolveu inclusive a importação de um equipamento para produzir choques nos prisioneiros políticos torturados. Acionado por um teclado, com a estrutura de um piano, o equipamento aumentava a frequência das descargas à medida que notas mais agudas eram tocadas.”

“Descobri que minha arma é o que a memória guarda dos tempos da Panair”, disse a voz mais linda das Geraes. Pois a memória dos tempos da Panair serve para também desenterrar das sombras os invulgares relatos de heroísmo entre os poderosos.

Anote os nomes de alguns homens que dignificam os homens justos:

José Mindlin (1914-2010), empresário, dono da Metal Leve, bibliófilo e escritor.

Antonio Ermírio de Moraes (1928-2014), empresário, dono do grupo Votorantim.

Fernando Gasparian (1930-2006), empresário, editor e político.

Mario Wallace Simonsen (1909-1965), empresário, foi um dos criadores da Panair do Brasil e da TV Excelsior.

Celso da Rocha Miranda (1917-1986), empresário, foi um dos criadores da Panair do Brasil e da TV Excelsior.

Esses são empresários que, segundo o relatório da CNV, não fizeram como Roberto Marinho, do jornal “O Globo”, que não hesitou em apoiar a conspiração e o golpe de 1964, primeiro, e que, depois, na fase mais dura, apoiou diretamente o porão da tortura, das mortes e desaparecimentos.

Chamando de “dispositivo político-empresarial-militar” a associação entre empresários e tecnoempresários, políticos conservadores e membros da alta hierarquia das Forças Armadas, o relatório da CNV assim descreve a atuação do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), fundado logo após a posse de João Goulart na Presidência, em 1961: “Em suas primeiras ações, o IPES organizou uma campanha de desestabilização do governo, a partir da produção de uma campanha publicitária que buscava apresentar o cenário político brasileiro como catastrófico, com o próprio presidente da República sendo constantemente acusado de estar interessado em ‘implantar uma ditadura’”.

A tese que se queria “vender” era a de que o plano de Goulart era implantar uma “República sindicalista” inspirada no regime argentino de Juan Domingo Perón.

(Alguém aí se lembrou que o pessoal que hoje faz passeata na Paulista pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff diz que ela quer inaugurar uma “República Bolivariana”? Ou transformar o Brasil em uma “Nova Cuba”? Pois é. Como disse Milton Nascimento lá atrás: “Nada de novo existe neste planeta”…)

E quem é que fazia parte do IPES?

Entre outros peso-pesados: Celso de Melo Azevedo das Centrais Elétricas de Minas Gerais – CEMIG, Álvaro Borges do Moinhos Rio Grandenses, Henri Burkes do Grupo Gerdau, Felipe Arno do Grupo Arno Indústria e Comércio, Hélio Beltrão e Henrique de Boton do Grupo Mesbla, Henning Albert Boilesen e Pery Igel do Grupo Ultra, Octávio Gouvêia de Bulhões do Grupo Hannah Co., Salim Schama do Grupo Schama, Jonas Bascelo Correa do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, Octávio Marcondes Ferraz da Rodger, Valizer e Carbono Lorena, Paulo Ferraz do Estaleiro Mauá, Octávio Frias do Grupo Folha, Antônio Gallotti da Light e Braskan, Flávio Galvão e Júlio de Mesquita Filho de “O Estado de S. Paulo”, Paulo Galvão do Banco Mercantil de São Paulo, Antonio Mourão Guimarães da Magnesita, Lucas Garcês da Eternit do Brasil Amianto e Cimento, Gilbert Huber Jr. das Listas Telefônicas Brasileiras, Haroldo Junqueira da Açúcar União, Israel Klabin das Indústrias Klabin de Celulose, José Luís de Magalhães Lins do Banco Nacional de Minas Gerais, Mário Ludolph da Cerâmica Brasileira, Cândido Guinle de Paula Machado da Docas de Santos e do Banco Boa Vista, José Ermírio de Moraes do Grupo Votorantin, Mário Henrique Simonsen do Banco Bozano Simonsen, Luís Villares da Aço Villares.

A fina flor do camarote vip.

Por sua ousadia em sustentar a democracia ameaçada, Mario Wallace Simonsen e Celso da Rocha Miranda, que juntos detinham o controle acionário da Panair do Brasil, maior companhia aérea do Brasil naqueles anos, foram alvo de perseguição terrível, que levou a Panair à falência.

Igual perseguição também fechou a TV Excelsior, dos mesmos proprietários, pioneira no país na implantação da televisão em cores, sucesso de audiência com novelas consagradas como “Redenção”, “Sangue do Meu Sangue” e “A Pequena Órfã”.

Fernando Gasparian, atuante no ramo têxtil, por meio da América Fabril, e no mercado editorial brasileiro, teve cortado seu crédito junto ao Banco do Brasil logo após o golpe civil-militar, ao qual se opôs. Mas continuou lutando pela democracia e, em 1972, fundou o semanário “Opinião”, o mais influente jornal alternativo, de oposição do regime. Mais tarde, tornou-se deputado na Assembléia Constituinte em 1988.

Poucos personagens no meio empresarial tiveram a mesma coragem.

“Predominou, no período ditatorial, a formação de grandes grupos econômicos no Brasil. A própria liquidação do patrimônio de alguns favoreceu, direta ou indiretamente, grupos que tiveram crescimento significativo no período. No caso da Panair, por exemplo, é importante lembrar que a Varig, do empresário Ruben Berta, assumiu todas as linhas internacionais do país no exato momento em que a concorrente foi fechada pelo governo. (veja aqui a história da Panair e Tv Excelsior). De outra parte, a liquidação da Excelsior ocorreria no mesmo contexto em que outro grupo assumia a liderança no ramo das telecomunicações: a Rede Globo de Televisão, do empresário Roberto Marinho, ativo apoiador do regime ditatorial. […] Não é estranho, portanto, que o noticiário jornalístico da Rede Globo tenha sido sempre favorável ao regime ditatorial.”

Mas o caso que mostra como eram íntimas as relações entre a maior parcela do empresariado brasileiro e a face mais dolorosa da Ditadura Civil-Militar foi a criação da Operação Bandeirantes (Oban), surgida em São Paulo logo após a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que depois, em setembro de 1970, mudaria de identidade, adotando o nome de Doi-Codi.

“Ficou conhecido o banquete organizado pelo ministro Delfim Netto no Clube São Paulo, antiga residência da senhora Viridiana Prado, durante o qual cada banqueiro, como Amador Aguiar (Bradesco) e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo), entre outros, doou o montante de 110 mil dólares para reforçar o caixa da Oban. Ao lado dos banqueiros, diversas multinacionais financiaram a formação da Oban, como os grupos Ultra, Ford, General Motors, [além da] Camargo Corrêa, Objetivo e Folha. Também colaboraram multinacionais como a Nestlé, General Eletric, Mercedes Benz, Siemens e Light. Um número incerto de empresários paulistas também contribuiu, já que a arrecadação de recursos contava com o apoio ativo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), por meio de seu presidente, Theobaldo De Nigris. Nos salões da FIESP, o ministro da Fazenda, Delfim Netto, era sempre visto fazendo palestras aos empresários, em reuniões onde se solicitavam recursos para financiar a Oban.”

Segundo Paulo Egydio Martins, que em 1974 assumiria o governo de São Paulo, “àquela época, levando-se em conta o clima, pode-se afirmar que todos os grandes grupos comerciais e industriais do estado contribuíram para o início da Oban”.

Mas, pelo menos dois empresários se recusaram a colaborar na produção dessa estrutura repressiva, constituindo exceções que honram a humanidade: José Mindlin e Antônio Ermírio de Moraes.

Sua força moral emerge do fato de que eles eram grandemente minoritários em sua recusa. “De acordo com o empresário José Papa Junior […]: é inegável que a participação do Boilesen era mais municipal, enquanto um Amador Aguiar [então dono do Bradesco], sem que ninguém percebesse – sem que haja demérito nisso (sic) –, tinha uma participação nacional e reservada.”

Hoje, definitivamente, é dia de prestar novas homenagens às Asas da Panair e aos imprescindíveis homens de coragem que honraram a humanidade em um período de ossos, dentes e espinhas dorsais fraturadas.

“A maior das maravilhas foi voando sobre o mundo
nas asas da Panair”

Abaixo, a linda interpretação de Elis Regina:



Laura Capriglione
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Gilmar e os riscos das bancadas privadas no Congresso


Na abertura da sessão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que julgou as contas da campanha de DIlma Rousseff, o dúbio presidente Antônio Dias Toffoli fez uma afirmação relevante: os R$ 353 milhões doados por uma empresa (JBS) a candidatos eram uma tentativa de compra do parlamento.

De fato, o financiamento privado de campanha política está prestes a transformar o Parlamento em um mercado persa. Além da JBS, as informações que correm em Brasilia é que o notório deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) teria recebido algumas centenas de milhões de reais para financiar a sua bancada de parlamentares.

Ou seja, as duas maiores bancadas do  Congresso seriam controladas por interesses econômicos dos mais obscuros.
* * *

Esses dois episódios desmentem cabalmente o deplorável Ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), para quem não se deve misturar caixa 1 com financiamento regular de empresas. Um é crime; outro é uma distorção estrutural da democracia representativa. Mas ambos são igualmente perniciosos para a democracia brasileira.

* * *

Ao longo de sua carreira de Ministro do STF Gilmar tem recorrido a todo estoque de protelações abertas por uma legislação permissiva: o pedido de vistas de duração eterna, uma das grandes aberrações dos tribunais.

Em si, o pedido de vista é relevante, se para permitir ao julgador mais tempo para formular seu julgamento. Como envolve processos em julgamento, só tem lógica  por prazos curtos.

No STF — assim como em outros tribunais —, no entanto, presta-se a um jogo nebuloso de postergações.

No julgamento do chamado "mensalão" tucano, por exemplo, o ex-MInistro Ayres Britto guardou o processo na gaveta por quase oito anos. Essas manobras dão margem a toda sorte de especulações e suspeitas.

No julgamento do financiamento privado de campanha, a votação já estava decidida. Todos os Ministros já haviam votado pelo fim do financiamento, restando apenas o voto de Gilmar. Ele pediu vistas e não devolveu mais o processo. Um único Ministro, valendo-se de uma manobra espúria para impedir a concretização da vontade de todos os demais pares.

* * *

A bancada da JBS — assim como a de Eduardo Cunha — representa um risco central para a democracia. Confere a um grupo privado, e a um deputado notoriamente negocista, poder político extraordinário.

Onde Gilmar pretende chegar com suas manobras? Transformar o país em um quintal de Mato Grosso?

* * *

O episódio torna indispensáveis duas ações corretivas.

A primeira, a de se obrigar Gilmar a desovar o processo que ele levou para casa.

A segunda, a de se acabar, vez por todas, com as gavetas no STF.

* * *

Recentemente, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, definiu o prazo de um mês para pedidos de vista. Não se sabe como serão tratados os estoques de processos armazenados.

Uma medida de transparência seria configurar os bancos de dados do STF incluindo no nome de cada Ministro a relação de processos com pedidos de vista, assim como a data em que houve a solicitação.

Esse mesmo procedimento deveria ser adotado pela Procuradoria Geral da República, depois das revelações sobre processos retidos pelo ex-PGR Roberto Gurgel.

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Nota da assessoria da CNV sobre questionamento a respeito da lista de autorias


A assessoria da Comissão Nacional da Verdade, tendo em vista o questionamento da família do general Leo Guedes Etchegoyen sobre a inclusão deste no rol de autores de graves violações de direitos humanos (mais especificamente, no capítulo 16 do volume I do relatório final da CNV, categoria B: "responsável pela gestão de estruturas onde ocorreram graves violações de direitos humanos"), esclarece que a inclusão se deve aos seguintes fatos:

Após o golpe de 1964, Leo Guedes Etchegoyen assumiu a chefia da Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Sul, período no qual recebeu Daniel Anthony Mitrione, notório especialista norte-americano em métodos de tortura contra presos políticos, para ministrar curso à Guarda Civil do Estado, realizado no período de 19 a 26 de junho. Em novembro de 1964, Leo Guedes Etchegoyen assumiu a Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, permanecendo no cargo até fevereiro de 1965.

Leo Guedes Etchegoyen foi chefe do Estado-Maior do II Exército de agosto de 1979 a julho de 1981, período no qual serviu sob as ordens do general Milton Tavares de Souza, comandante do II Exército que chefiou o Centro de Informações do Exército no período Médici. Em 28 de dezembro de 1979, o general Leo Etchegoyen, na qualidade de chefe do Estado Maior e supervisor das atividades do DOI-CODI, fez calorosos elogios aos serviçoos prestados pelo Tenente-coronel Dalmo Lúcio Muniz Cyrillo, chefe do DOI-CODI/II Exército, quando ressaltou " (...) sua experiência no campo das informações e por sua dedicação, boa vontade, capacidade de trabalho e espírito de cooperação".

Como já registrado no capítulo de autoria do relatório da CNV, Dalmo Muniz Cyrillo atuou no DOI-CODI do II Exército como chefe de equipes de interrogatório, tendo desempenhado a funçao de Sub-comandante nos períodos de Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir Santos Maciel. Em 1979, Dalmo Cyrillo assumiu o comando do DOI-CODI de Sao Paulo, período no qual atuou sob as ordens de Leo Etchegoyen e Milton Tavares de Souza.

Em 19 de abril de 1980, quando Leo Etchegoyen era chefe do Estado Maior do II Exército, seu comando esteve vinculado ao planejamento da prisão coletiva de sindicalistas e lideranças dos metalúrgicos da região metropolitana de São Paulo conhecida como ABCD, bem como do sequestro de integrantes de organizações de direitos humanos que prestavam solidariedade a esses trabalhadores, como os advogados José Carlos Dias – então presidente da Comissão Justiça e Paz (CJP) da Arquidiocese de São Paulo – e Dalmo Dallari – ex-presidente da CJP –, prisões efetuadas com violência, sem mandado de prisão e sem a devida comunicação às suas famílias. Este episódio está registrado no capítulo 8 do relatório da CNV, dedicado ao tema das prisões arbitrárias.

O episódio foi esclarecido em notícia publicada pelo jornal Gazeta Mercantil em 26 de abril de 1980, que indicou o comandante do II Exército, general Milton Tavares de Souza, como o responsável pelas prisões. O fato foi confirmado por documento produzido pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), protocolado no Serviço Nacional de Informações no dia 9 de junho de 1980.

A operação contra líderes do movimento sindical do ABC e integrantes da Comissão Justiça e Paz foi planejada pelo comando do II Exército e executada por agentes do DOI-CODI, do DEOPS/SP, DPF/SP, ocasião em que Etchegoyen era o chefe do Estado Maior do II Exército, principal instância de planejamento de ações daquele comando, e portanto responsável pelas ações executadas por agentes do DOI, do DPF e do DEOPS a ele subordinados por meio da estrutura do DOI-CODI do II Exército.

Ainda, deve ser registrado que, no dia 30 de dezembro de 1980, Dalmo Cyrillo foi novamente elogiado por Etchegoyen, quando o então comandante do Estado Maior do II Exército demonstrou pleno conhecimento das atividades de repressão ao meio estudantil, da vinculação de Cyrillo com órgãos de segurança e informações, especialmente, na grande São Paulo.

Brasília, 11 de dezembro de 2014
Assessoria da Comissão Nacional da Verdade



O texto é assinado pela viúva de Etchegoyen e cinco filhos,
entre eles Sergio Westphalen Etchegoyen, general da ativa
do Exército brasileiro.


A família do general Leo Guedes Etchegoyen, morto em 2003, protestou contra a inclusão do nome dele na lista de 377 agentes do Estado considerados responsáveis por crimes na época da ditadura. Em nota, a família do militar afirmou que as conclusões da Comissão Nacional da Verdade, divulgadas nesta quarta (10), têm o propósito de "puramente denegrir".

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Hora da verdade: governo Dilma quebra dois tabus

Tínhamos, até outro dia, dois tabus inamovíveis:

* Nunca saberemos quem cometeu os crimes de lesa-humanidade durante a ditadura militar porque os generais não vão deixar mexer neste assunto.

* A turma do colarinho branco, que pode pagar bons advogados, nunca irá para a cadeia.

Nesta semana histórica que está chegando ao fim, o governo da presidente Dilma Rousseff quebrou os dois tabus de uma vez. Quem me chamou a atenção para este fato foi a carta de um leitor — e, cada vez com maior frequência, as seções de leitores dos jornalões me servem de pauta, mais do que o noticiário. Na Folha desta sexta-feira, o Claudio Janowitzer, do Rio de Janeiro, escreveu:

"A divulgação do extenso relatório da Comissão Nacional da Verdade deve ser saudada por todos os brasileiros. Finalmente são trazidos à tona atos escabrosos que foram encobertos por mentiras e dissimulações. A apuração da verdade é sempre benvinda e esperemos também que esta mesma busca ajude o Brasil a sair do atoleiro de podridões financeiras que estão sendo reveladas pela operação Lava Jato. Jamais seremos um país justo e forte se negarmos isso".

Em tudo que li até agora sobre o relatório final da Comissão Nacional da Verdade e as ações da Operação Lava Jato, Janowitzer foi o único a juntar estas duas pontas, que podem significar o início do fim da impunidade em que viviam os poderosos deste país, civis ou militares, de colarinho branco ou fardados, desde a vinda de D. João 6º ao Brasil.

Um dia apenas depois da CNV nominar os 377 responsáveis por torturas praticadas pelo regime militar, o Ministério Público Federal denunciou criminalmente 36 pessoas, sendo 24 delas ligadas a seis das maiores empreiteiras do país envolvidas no escândalo da Petrobras, e determinou o ressarcimento de mais de R$ 1,5 bilhão aos cofres públicos.

Nunca antes, como diria o Lula, isto havia acontecido na nossa história. Claro que não foi Dilma sozinha, como pessoa física, quem derrubou de uma penada estes dois antigos tabus, mas foi o seu governo quem criou a CNV, dando-lhe plena autonomia para atuar, e garantiu ao Ministério Público, ao Judiciário e à Polícia Federal a mesma autonomia para investigar quem quisesse, em absoluto respeito à independência entre os poderes, algo antes não muito comum em nossa vida republicana.

"Começamos a romper com a impunidade de poderosos grupos que têm se articulado contra o interesse do país há muitos anos", anunciou o procurador Deltan Dallagnol, um dos responsáveis pelas investigações da Operação Lava Jato. "As investigações não param por aqui".

É a primeira vez que não apenas corruptos são denunciados, mas também os corruptores, até aqui sempre preservados nos casos de corrupção que há séculos abalam e sangram as instituições nacionais.

Com todos os problemas que enfrenta na política, na economia e na montagem do seu novo ministério, finalmente a presidente Dilma Rousseff tem todos os motivos do mundo para comemorar estas duas vitórias, que poderão representar um divisor de águas na vida brasileira para que, daqui para a frente, todos sejam, de fato, como determina a Constituição, iguais perante a lei.

Pode ser o fim do "sabe com quem está falando?" e do "leve vantagem em tudo". Em uma semana, o país mudou. Pelo menos, perdeu o medo de enfrentar a dura realidade.

Viva Dilma!

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Dilma, o sonho dos vivos e dos mortos

Dilma sabe o quanto é imperioso manter uma nação a salvo de forças incontroláveis. Se pensar pequeno, o Brasil corre o risco de ser sequestrado por elas.

A emoção da Presidenta Dilma na cerimônia de entrega do Relatório da Comissão da Verdade, nesta 4ª feira, condensa camadas de angústia de quem conheceu de perto o horror de ser mastigada por forças incontroláveis.

O chão tinto de sangue do banheiro onde foi jogada após as sessões de tortura ficou impregnado na memória da jovem ativista de 19 anos.

Presa em 1970, ela foi manuseada por quase três anos na máquina de sadismo que matou 434 pessoas no Brasil, perseguiu milhares de outras, submeteu a sociedade a um regime de arrocho, terror, censura e medo.

As lágrimas incontidas desta 4ª feira, miravam o passado dos que foram supliciados como ela; o eterno presente dos familiares dos desaparecidos, ‘que sofrem como se eles morressem de novo, e sempre, a cada dia’; mas também, é muito provável, carregavam a angústia da chefe da nação diante da encruzilhada brasileira atual.

O sonho dos vivos e dos mortos desafia a mulher madura que hoje se prepara para assumir o segundo mandato presidencial e sabe o quanto é imperativo manter uma nação a salvo de forças incontroláveis.

Sabe, sobretudo, que elas não se manifestam mais apenas na forma do totalitarismo policial. A supremacia do poder financeiro no século XXI pode sequestrar o destino de uma nação através de fluxos financeiros à paisana.

E impor a sua vontade, interditos históricos, e os mesmos custos sociais de um Estado ditatorial.

O passado, o presente e o futuro se entrecruzam nesse momento a evidenciar que o Brasil vive um divisor nessa história.

Um ciclo de expansão se esgotou, um outro pede para ser construído.

Pendências novas e antigas se misturam em meio a um cenário mundial adverso.

A variável determinante passa pela velocidade imprevista da transição chinesa.

A sensação de que tudo está despencando não é fora de propósito.

É como se o mastro que ancorava a lona da economia global de repente afundasse.

O motor asiático investia, em média, cerca de 45% do PIB e importava outros 10% em matérias-primas para saciar sua fornalha.

O velocímetro do seu crescimento recuou de 11% para perto de 7% ao ano.

O ritmo da freada sugere que poderá recuar ainda mais.

O tranco derruba as cotações das commodities nos cinco continentes.

As agrícolas estão em média 15% abaixo do piso declinante de 2013. O custo barril de petróleo ficou 40% mais barato desde junho.

Caiu mais um pouco nesta 4ª feira.

O freio de arrumação vai desativar poços ineficientes que flutuavam sobre uma demanda a US$ 120/barril.

O canal externo da economia nos países exportadores de óleo, metais e alimentos foi comprimido.

Em muitos deles, estreitou-se a margem de manobra de políticas associadas a um projeto de desenvolvimento com repartição de renda.

A descrição se encaixa nas características do modelo em curso na América Latina, pilotado por um colar de governos progressistas que mudou a geopolítica regional.

Em 2014, pela primeira vez em dez anos, segundo a OCDE, o PIB médio da região terá um crescimento inferior à expansão, já medíocre, prevista para as economias ricas: poderá situar-se abaixo de 1,5%.

O Brasil será atingido pela queda nas cotações e no volume dos embarques de minérios e grãos. Mas também de produtos manufaturados vendidos a parceiros latino-americanos em idêntico apuro.

O raciocínio não vale para o caso da Petrobrás.

Sobretudo, não vale para o pré-sal, que opera com tecnologia de ponta e risco zero em cada poço, sendo viável a partir de um barril em torno de  U$45/50.

A escala gigantesca das reservas é outro diferencial quando cálculos de amortização de custos tem que ser refeitos.

O número mais comedido estima em 45 bilhões de barris o total recuperável das reservas descobertas a seis mil metros da superfície, no fundo do oceano. Estimativas não descabidas falam em algo como o dobro disso.

O fato é que o pré-sal oferece o melhor horizonte de desenvolvimento para a indústria de petróleo no mundo.

A taxa que mede isso mostra que ele garante 88% de óleo recuperável sobre o total existente, contra 75% na Arábia Saudita, 65% na Rússia e 55% nos EUA.

O avanço do xisto norte-americano mexe com a demanda mundial, mas não altera o trunfo das vantagens comparativas, que inclui o domínio brasileiro da tecnologia de ponta em águas profundas.

O conjunto compõe o chão firme sobre o qual se desenvolve o maior projeto de investimento empresarial do planeta na atualidade.

Repita-se: o maior plano de investimento em curso no século XXI, feito por uma única corporação, é o da Petrobras.

Algo em torno de U$ 200 bilhões de dólares serão aplicados pela estatal em exploração e produção, entre 2014 e 2018.

Cerca de US$ 12 bilhões de dólares terão que ser financiados no mercado internacional.

Caso o mergulho das commodities ganhe a parceria de uma elevação nas taxas de juros nos EUA, o custo desse financiamento poderá impor algum freio no ritmo da exploração.

Mas não a ponto de inviabilizar as suas referências estratégicas de longo prazo.

Entre elas inclua-se a insubstituível necessidade de uma oferta estável de petróleo para que a humanidade possa realizar a transição rumo a energias renováveis, sem atropelos de abastecimento ou explosão de custos.

O pré-sal e o seu modelo de regulação soberana, acoplado à exigência de conteúdo nacional, continuam a figurar como o bilhete premiado do desenvolvimento brasileiro.

Mais que isso.

Talvez representem o derradeiro impulso industrializante capaz de rejuvenescer a sua base competitiva, garantindo o excedente necessário à finalidade social do crescimento.

O tesouro não contradiz, antes explica a angústia que talvez tenha contribuído para a demonstração incomum de emotividade da Presidenta da República na cerimônia da Comissão da Verdade.

A exploração conservadora dos casos de corrupção dentro da empresa pode inviabilizar esse trunfo contracíclico no momento em que a China desacelera, a Europa deflaciona e a recuperação norte-americana se faz com elevada desigualdade social.

Fomentar uma crise de confiança no país para atingir o governo Dilma é a estratégia do terceiro turno em marcha.

Desqualificar a Petrobrás, e o projeto de desenvolvimento que ela pilota, é a pedra basilar do mutirão graúdo.

Não se mira a lisura na gestão do dinheiro público.

Fosse isso o clamor da faxina viria associado à defesa da reforma política, do pré-sal e do que ele significa para o crescimento, a educação e a saúde.

O alvo é outro.

Trata-se de usar o pé-de-cabra da corrupção para derrubar um governo, e escancarar portas que permitam ao capital estrangeiro servir-se do pré-sal como um banco de sangue na transfusão requerida pela riqueza papeleira.

A angústia estampada no rosto crispado da Presidenta da República nesta quarta-feira refletia o desfile dos vivos e dos mortos; mas também do sonho brasileiro que os mobilizou.

O risco de vê-lo escapar é real.

A curetagem conservadora pode anular a alma de uma nação se conseguir convencê-la a rastejar por debaixo de suas possibilidades históricas.

A Petrobras sozinha representa mais de 10% de todo o investimento brasileiro em 2014, estimado em insuficientes 18,5% do PIB.

As empreiteiras associadas ao esquema de corrupção da estatal, segundo cálculos rápidos do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, estariam ligadas a um conjunto de obras em diferentes setores que somariam quase a metade da taxa de investimento prevista para o ano.

‘É importante o rigor com os envolvidos na corrupção; mas as empresas, a exemplo da Petrobras, e assim como se faz nos EUA, não podem ser inviabilizadas. Há um risco real de paralisar o país’, diz Belluzzo que discorda da orientação ministerial de sua amiga, ex-aluna e Presidenta da República.

Um aperto fiscal e monetário agora, pondera o economista, reforça a ameaçadora dinâmica do estrangulamento recessivo: ‘Tínhamos que reagir com um forte investimento público, mas cedemos ao senso comum’, diz com desacordo: ‘É como se coisas movessem os humanos e não o contrário. A hierarquia só será recomposta quando o desemprego bater nas ruas’.

O conservadorismo opera diuturnamente para reforçar essa coisificação da economia e assim sepultar qualquer disposição para enfrentar dogmas e interditos.

O matadouro é visível até a um bife a Camões.

Trata-se de espremer Dilma e tanger o  PT, obrigando-os a pensar pequeno.

Pensar um futuro menor que o país.

Uma segunda gestão de Dilma menor que as possibilidades e urgências da Nação.

Com um programa menor que a ponte necessária para saltar da prostração ao discernimento de um pacto feito de prazos, salvaguardas, reformas e metas críveis de crescimento.

Se pensar pequeno, o Brasil corre o risco de caber no projeto conservador.

E emergir do outro lado na lista dos desaparecidos da Comissão da Verdade, com um adendo: ‘O sonho da democracia social brasileira’.

Não é impossível que a Presidenta Dilma tenha vislumbrado esse risco na cerimônia de hoje.

A ver.

Saul Leblon
No Carta Maior
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O país virtual

Sempre mais comum quem se afasta da realidade para agir como cidadão de um Brasil inexistente

As manchetes que ornam esta página encabeçaram recentemente o noticiário de dois jornalões nativos. Acima (por incrível que pareça) o Estadão de sexta 5 de dezembro, abaixo O Globo de sábado 6. As duas manchetes poderiam ter saído uma semana antes. Bastaria ter dado repercussão à reportagem de CartaCapital, nas bancas em São Paulo na sexta 28 de novembro e no dia seguinte no Rio e em todo o País. É o que teria acontecido se a nossa mídia fosse digna de um país contemporâneo do mundo, democrático e civilizado.

O Estado de S. Paulo e O Globo, cada qual a seu modo, fazem questão de ignorar CartaCapital. Não estão sozinhos nesta prática, e não me refiro apenas a uma reação midiática. Uma porção conspícua da sociedade nativa repudia o jornalismo honesto, ou, por outra, aquele que não diz, ou não escreve, quanto não aprecia ouvir ou ler. Nada disso parece digno de um país democrático e civilizado. E não se daria, digamos, na Europa e nos Estados Unidos, quem sabe não se desse na Argentina, na Bolívia, na Venezuela.

Sem levar em conta a ofensa à própria razão e às regras do bem-viver, o fenômeno confirma o desrespeito a uma equipe de colegas profissionais e a um repórter, titular da primazia, no caso o excelente Fabio Serapião. Segundo a nossa mídia, só vale o que noticia. É como se CartaCapital e seu site, frequentado por milhões de navegantes, não existissem. Fica assim demonstrado o apego selvagem à virtualidade, exato oposto da realidade.

Há sinais inúmeros de tentativa, praticada em todos os quadrantes possíveis, de construir um país virtual, nas mais diversas manifestações, ancorado à visão e às crenças do indivíduo e dos grupos. Há fatias da sociedade graúda, por exemplo, dispostas a acreditar que, ao sabor do escândalo da Petrobras, o impeachment de Dilma Rousseff é inescapável, quando, a bem da verdade factual, a presidenta só poderia ser derrubada pelo golpe, habilitado a jogar a Constituição no lixo.

A oposição tucana porta-se como se tivesse ganho a eleição, enquanto o PT apresenta-se como o partido que deixou de ser faz muito tempo, no mínimo desde que chegou ao poder. Nem se fale dos demais. E ali, no centro da reação, dispara Fernando Henrique Cardoso, o cientista político que ninguém leu, a acusar a presidenta de prometer para não cumprir, quando foi ele o autor do maior engodo eleitoral da história do País ao conduzir a campanha eleitoral de 1998 à sombra da estabilidade, para desvalorizar o real 12 dias depois de empossado para o segundo mandato. E quebrar o Brasil.

O procurador-geral pede a demissão da diretoria da Petrobras, sem motivo e autoridade para tanto. Já o ministro da Justiça, do alto de sua pompa provinciana, não perde a ocasião para proferir impávidas falastronices, convicto de impressionar o auditório. E o ministro Gilmar Mendes? Em lugar de fazer justiça, dedica-se ao exercício da política, secundado pelo jovem colega Antonio Dias Toffoli, pupilo súbito. Tivesse sido Toffoli nomeado hoje por Dilma, o mesmo Gilmar o definiria como bolivariano. Mas o Brasil é o único país em que crimes contra a humanidade prescrevem e uma Lei da Anistia imposta pela ditadura continua em vigor.

Vejam só, não fal­tava quem alimentasse a cer­teza de viver na su­cursal de Miami, ago­ra prefe­re Dubai.

Mino Carta
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Jornal Binômio: do humor à perseguição política

Criada pelos jornalistas José Maria Rabêlo e Euro Arantes, a publicação independente lançada ainda nos anos 50 foi digitalizada pela UFMG

O jornalista José Maria Rabêlo, criador do jornal "Binômio - Sombra e Água Fresca"
A mídia alternativa brasileira ganha uma importante referência, agora digitalizada, com a doação do acervo do jornal Binômio - Sombra e Água Fresca por um de seus idealizadores, o jornalista José Maria Rabêlo. A digitalização foi realizada pela Universidade Federal de Minas Geral (UFMG) com a ajuda do jornalista de 86 anos, que doou as mais de 800 edições da publicação para a universidade.

A ação foi comemorada na terça-feira 9, às 10 horas, na sede da biblioteca da UFMG, e contou com a presença de Rabêlo. Com 86 anos, o jornalista teve a vida marcada pelo jornalismo independente e pela perseguição política, que o fez ficar 15 anos no exílio.

O Binômio surgiu em Minas Gerais, em 1952, como uma brincadeira de estudantes, quando Rabêlo e seu sócio, o jornalista Euro Arantes, tinham 22 e 23 anos, respectivamente. Com forte teor humorístico, o jornal ganhou força por conta do “governismo” da mídia mineira na época em que Juscelino Kubitschek era governador do estado. “Era um escândalo, a imprensa era controlada pelo estado e não saía nada”, relata Rabêlo.

O nome do Binômio faz referência a um programa de governo de JK, na época batizado de “Binômio de Energia e Transporte”. “Para confrontar o ‘Binômio da Mentira’, como chamávamos este programa, lançamos o ‘Binômio da Verdade: Sombra e Água Fresca’. Foi um sucesso.”, lembra o jornalista. “Com uma linguagem muito independente, até com certo exagero, saímos contestando toda aquela política.”

Nos seus 12 anos de publicação, o Binômio chegou a uma tiragem de 60 mil exemplares, com alcance além de Minas Gerais, segundo Rabêlo. “No primeiro número foram umas quatro paginazinhas, muito mal impressas, com dois mil exemplares. Vendeu tudo. Tivemos que tirar mais dois mil."

Da fase humorística, o Binômio passou para um momento mais combativo em 1956. “Depois do governo de JK, entrou um governador muito retrógrado e conservador, o Bias Fortes. Então, passamos a fazer um jornal mais panfletário, dos mais bravos.” A partir dali, o Binômio encontrou dificuldades para circular. "As gráficas de Minas não imprimiam mais o Binômio. Então, tivemos que ir para o Rio de Janeiro, fomos um jornal que teve que se exilar para sobreviver."

Em 1958, o Binômio iniciou sua terceira e última fase, interrompida em 1964, não por acaso, o ano do golpe civil-militar no Brasil. Durante esses seis anos, o jornal se tornou um grande semanário. “Além do humor, apresentávamos denúncias e grandes reportagens, que abalavam o estado." Foi nessa fase que o jornal sofreu seu empastelamento. "Estava na época já a conspiração golpista. Era o governo do Jango e a direita já se articulava", recorda.

O Binômio virou alvo por fazer reportagem contra um general do Exército. "Foi nomeado um novo comandante das Forças Federais de Minas, o general João Punaro Bley. Ele deu, na ocasião, uma série de declarações anticomunistas, dizendo que o governo de Goulart era suspeito. Sabíamos que ele havia sido interventor do Estado Novo no Estado do Espírito Santo, que havia fechado jornais e comandado um campo de concentração para presos políticos. Fomos lá e fizemos um material impressionante”. Isso, segundo o jornalista, levou o general até a redação ameaçar os responsáveis pela publicação. “A publicação saiu no domingo. Na quarta-feira, ele apareceu no jornal, fardado e com o barrete metálico, para conversar com o diretor."

A tentativa de intimidação, de acordo com Rabêlo, acabou em uma luta corporal envolvendo ele e Bley. "Ele questionou quem havia escrito aquela ‘merda’ sobre ele. Eu respondi: é uma reportagem muito fundamentada e eu sou responsável por tudo que sai publicado no jornal. Dito isso, ele me agarrou pelo pescoço. Eu sabia que ele já tinha feito isso com jornalistas no Espírito Santo. Mas eu era lutador de judô. Nós rolamos pelo chão."

Binômio
Edição do jornal Binômio
A coragem de Rabêlo custou caro ao Binômio. "Três horas depois, chegaram uns 200 homens e destruíram tudo na redação. Eu já não estava lá, por sorte. Não ficou nada. Até as latrinas, destruíram tudo." Segundo o jornalista, não só o enfrentamento do general Bley levou à perseguição, mas também o teor das notícias do jornal, que defendiam o legalismo e o governo de João Goulart. “Em 1964, fecharam o jornal e não pudemos circular mais", relata.

Após o incidente, o jornalista passou a ser visado e teve de se exilar. "No dia 29 de março, em Minas, puseram em prática a Operação Gaiola, para prender todas aquelas pessoas que tinham envolvimento na defesa do governo Goulart”, lembra. “Eu era um dos principais, porque o nosso jornal denunciava a conspiração contra o Jango, a traição do Magalhães Pinto, entre outros fatos.”

A sorte passou, então, a marcar a vida do jornalista e de sua família. “Nesse dia 29, às vésperas do golpe, saí para almoçar e, no preciso momento em que eu descia, oficiais subiam no outro elevador para me prender. Isso é cinematográfico. O porteiro Geraldino me disse: ‘ô Zé Maria, cai fora que os homens estão aí, te procurando’. Foi o conselho mais sábio que eu recebi na vida", diz.

Rabêlo voltaria a viver outro afortunado desencontro quando se refugiou no Chile, nos anos 70. “Eu estava na primeira lista de procurados. Éramos 99 pessoas. A lista dizia assim: ‘As pessoas relacionadas têm o prazo de 24 horas para se apresentar ao Ministério da Defesa, sob pena de fuzilamento.’ Os oficiais chegaram na minha casa duas horas depois de eu ter saído.” O jornalista só voltaria a pisar no Brasil nos anos 80.

Como vanguarda, o Binômio discutia em suas colunas assuntos que não eram correntes na época, como a própria imprensa, a publicidade e os movimentos sociais. “Nós não nos inspirávamos em ninguém, buscávamos as nossas próprias soluções. Procurávamos fazer um jornalismo moderno, direto, claro, que explicasse ao leitor o que estava acontecendo.”

Tal preocupação com um jornalismo arrojado, segundo Rabêlo, falta hoje à mídia brasileira. Além disso, todos os jornais, na sua opinião, parecem falar dos mesmos assuntos. “As manchetes dos grandes jornais brasileiros são todas iguais. Uma vergonha, parece que todas vêm da mesma central de jornalismo. Isso não houve nem no tempo do Jango." Para Rabêlo, ainda há espaço para o crescimento do jornalismo alternativo e a recuperação do Binômio ajuda a aumentar as referências para que os jornalistas busquem novas perspectivas. “Hoje, temos a internet. A grande mídia impressa e televisiva não fala mais sozinha", acredita.

A coleção doada por Rabêlo ficará na Divisão de Coleções Especiais e Obras Raras da biblioteca da UFMG. O lançamento oficial do material ocorre no Campus Pampulha da universidade, na Av. Antônio Carlos, 6627, 4º andar, em Belo Horizonte.

Mariana Melo
No CartaCapital
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Entrevista com Pedro Dallari da CNV


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Blogueiros processados por juíza


Blogueiros que denunciaram cartel na Fundação para o Desenvolvimento da Educação de SP são processados por juíza

1. Os jornalistas e blogueiros Irani Gomes de Lima e Antonio Barbosa Filho, de Taubaté-SP, estão sendo processados por injúria (art. 128 do CP) pela juíza eleitoral daquela Comarca, dra. Sueli Zeraik de Oliveira Armani;

2. Desde a campanha eleitoral de 2012, ambos denunciaram que o então candidato a prefeito pelo PSDB, José Bernardo Ortiz Monteiro Júnior, havia se beneficiado de propina paga por um cartel que fornecia mochilas à FDE, então presidida por seu pai, o três vezes ex-prefeito eng. José Barnardo Ortiz;

3. Por tais crimes, o pai foi afastado da presidência da FDE e, mais tarde, demitido pelo governador Geraldo Alckmin. Pai e filho tiveram seus bens bloqueados no valor de até 39 milhões de reais pela 14ª Vara da Fazenda Pública da capital. Eleito numa campanha milionária (seu marqueteiro era Duda Mendonça!), Ortiz Júnior foi denunciado por abuso de poder econômico e político na 114ª Zona Eleitoral, em Taubaté.

4. A titular, dra. Sueli Zeraik, levou oito meses sem julgar o processo, que segundo instruções do TSE, deveria ter "prioridade". O TSE chega a instruir que "o juiz não pode alegar falta de tempo" para decidir tais casos. Em mais de 40 cidades do Brasil, réus de crimes semelhantes foram cassados e eleições suplementares realizadas;

5. Os dois blogueiros e jornalistas descobriram que uma filha da juíza havia obtido transferência de um curso de Medicina em Itajubá-MG, para curso similar em Taubaté, na Universidade que é autarquia municipal, ou seja, cujo reitor é nomeado pelo prefeito. Isso foi possível porque houve concurso para preenchimento de duas vagas para transferência no segundo ano. A filha da juíza ficou em terceiro lugar, mas para ela foi aberta uma vaga extra, ficando a classe com 81 alunos, fato inédito na Faculdade de Medicina, conforme os editais;

6. Talvez sentindo-se pressionada pela divulgação do fato, a juíza, finalmente, julgou e cassou o prefeito Ortiz Júnior, sentença já confirmada pelo TRE-SP por 4 votos a 2, também depois de vários pedidos de vista, cancelamentos de sessões outras protelações. Cassado em duas instâncias, Júnior entrou com embargo de instrumento, meramente formal, que está sendo apreciado por um membro do TRE por semanas, porque segundo o funcionário responsável, havia sido "esquecido", o que atrasou, uma vez mais, a tramitação. Júnior continua no cargo, e seu recurso só deverá ser apreciado em 2015.

7. Ofendida com a divulgação dos fatos pelos dois jornalistas, a juíza (que já foi Diretora do Fórum de Taubaté e tem grande ascendência sobre seus nob5res colegas), processa a ambos por injúria. É um processo político, para coagir os dois jornalistas, ambos réus primários e com currículo em meios da capital e da região do Vale do Paraíba paulista. A tal ponto que uma das testemunhas de defesa de A. Barbosa Filho será o jornalista Audálio Dantas;

8. Cientes de que o caso extrapola em muito o âmbito paroquial, mas atinge o coração do Governo Alckmin, e que juridicamente as suas chances são mínimas, naquela Comarca, os dois jornalistas pedem o apoio de jornalistas e blogueiros independentes de todo o Brasil. Nossa defesa só poderá ser política. É mais um atentado explícito à Liberdade de Expressão e ao exercício do Jornalismo. Qualquer manifestação de solidariedade nos será extremamente valiosa, se não decisiva.

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‘Aleijadinho é um personagem de ficção’

Em livro polêmico, pesquisadora mineira derruba mitos sobre a vida e a obra do artista barroco


Polêmica no Barroco mineiro. A pesquisadora e professora da Universidade Federal de Ouro Preto Guiomar de Grammont está lançando um livro que derruba vários mitos sobre Antonio Francisco Lisboa (1730-1814), o Aleijadinho. Em Aleijadinho e o aeroplano – O paraíso Barroco e a construção do herói colonial (Civilização Brasileira, 322 pgs. R$45), ela questiona a paternidade do artista e até mesmo se ele seria tão deformado, já que não existem provas documentais ou materiais de sua doença, ou do impacto que ela teve no seu trabalho. Além disso, sua obra não foi tão vasta quanto se afirma, e muitas peças atribuídas a ele foram fruto de uma criação coletiva, de um ateliê. Um efeito colateral desse processo seria o ostracismo a que foram relegados diversos artistas da época, em prol do mito Aleijadinho. Guiomar mostra que o “personagem de ficção” Aleijadinho, como uma espécie de Quasimodo tropical, foi criado e recriado de forma fantasiosa desde sua primeira biografia, escrita por Rodrigo José Ferreira Bretãs em 1856, vinculada a um ideal romântico típico da época. Bretas teriainventado, por exemplo, um pai branco português para o artista, para torná-lo mais palatável como herói nacional do Segundo Reinado.

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Mas a pesquisadora não se detém ao questionamento biográfico. Ela também investiga como, em momentos diferentes da História, esse retrato foi retocado para atender a interesses diversos. Dessa forma, o Aleijadinho dos viajantes europeus, que nem consideravam arte o que ele fazia, é bem diferente daquele dos modernistas dos anos 20, que o moldaram de forma a encarnar a imagem do Brasil que eles defendiam – e também daquele promovido pelo Estado Novo de Vargas, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1937. Os documentos do Spham sobre o artista foram reunidos já com a intenção de se criar uma imagem heróica, segundo Guiomar. Analisados com um olhar neutro, eles contam uma história bem diferente.

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Por fim, e este talvez seja o ponto capaz de gerar mais controvérsias, Guiomar afirma que inúmeras obras são atribuídas a Aleijadinho de forma equivocada, pois “ele precisaria ter vivido três vezes para conseguir realizar tudo que leva seu nome”. A pesquisadora contesta os processos atuais de análise e atribuição de obras do período, que aplicam conceitos de autoria, estilo e originalidade que sequer existiam na época. Isso traz à tona o polêmico processo movido por um colecionador particular de peças de Aleijadinho, que chegou a tirar de circulação o livro de arte O Aleijadinho e sua oficina – Catálogo das esculturas devocionais, de Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira (Capivara, 336 páginas, R125), privando os leitores de um primoroso trabalho de edição – pois este provocaria a desvalorização de sua coleção. Myryam afirma que boa parte das estátuas de Aleijadinho teriam sido feitas, na verdade, por seus aprendizes.O livro já voltou a ser vendido, mas a polêmica continua (e o processo também). Afinal, Aleijadinho é público ou privado? É mercadoria ou patrimônio? A autoridade de atribuição deve ser delegada a quem, e com que critérios? Como evitar que interesses financeiros de colecionadores interfiram no estudo e na fruição das obras do Barroco mineiro?

ENTREVISTA: Guiomar de Grammont

Escritora, dramaturga e diretora do Instituto de Filosofia Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto, Guiomar de Grammont é historiadora formada pela UFOP, mestre em Filosofia pela UFMG e doutora em Literatura Brasileira pela USP. Estudou na École de Hautes Etudes en Sciences Sociales, em Paris, sob orientação de Roger Chartier, e no ano passado foi professora convidada da instituição. Em abril deste ano, realizou, juntamente com a escritora Inês Pedrosa, o Letras em Lisboa , encontro de escritores lusófonos, na capital portuguesa. Como escritora, ganhou prêmio Casa de Las Américas em 1993, com o livro de contos O fruto do vosso ventre.  

O Aleijadinho que as pessoas conhecem é um personagem de ficção?  

Sim. Na verdade, a imagem que se cristalizou na História e foi repetida, indefinidamente, sem jamais ser colocada em questão, foi a criada pelo primeiro biógrafo do artífice, Rodrigo Ferreira Bretas, em 1858. Essa biografia foi baseada em informações orais pouco confiáveis – uma vez que já se haviam passado 40 anos desde a morte do personagem – e escrita com os critérios “científicos” da época. Assim, ela acaba contendo muitos aspectos fantasiosos, como, por exemplo, o de que o Aleijadinho ficou doente por ter tomado uma substância chamada “cardina”, com o fim de aumentar a potência e os dotes artísticos. Além disso, muitas passagens são recriações de episódios das biografias de Rafael e Michelangelo que circulavam no século XIX. No meu livro, eu analiso diversos desses casos, muito saborosos.  

Em que medida persiste essa imagem do Aleijadinho criada por Rodrigo Bretãs? E em que medida esse primeiro perfil foi influenciado pelo projeto de “invenção de tradições nacionais” do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, supostamente promovido pelo imperador D.Pedro II?  

A maior parte dos historiadores tomou como verdade absoluta essa primeira biografia, escrita para um concurso instituído no século XIX pelo IHGB, num esforço de constituição do que seria a “nação brasileira”, de invenção daquilo que viria a ser o Brasil. O Instituto criou um prêmio, que seria outorgado pelo próprio Imperador D.Pedro II, para as melhores monografias sobre aspectos territoriais, populacionais etc do país, e Bretas escreveu o texto para esse fim: a recepção do IHGB. Por isso deu a seu personagem um pai branco e português, como Manuel Francisco Lisboa. Quanto mais legítimo e bem aceito fosse o seu biografado, mais importante se tornava a biografia.  

Que novas camadas de tinta foram acrescentadas àquele primeiro retrato? Como o perfil de Aleijadinho foi modificado ao longo do tempo? A que ideologias ou motivações artísticas, culturais e políticas essas alterações atenderam?  

Aleijadinho foi sucessivamente apropriado em diversos discursos sobre letras e artes no Brasil. Essa apropriação tem o efeito de um eco: não há nada de novo na maior parte dos estudos produzidos sobre o artífice ao longo do século XX. Destacam-se, nesse processo, dois movimentos de constituição do que seria a arte brasileira: o do IHGB, como já vimos, nacionalista e romântico, ainda com fortes raízes metropolitanas, e o do Modernismo, completamente diferente: buscando ressaltar todo o exotismo de uma cultura híbrida. O personagem muda de cor a cada contexto, como um vetor onde se percebem as preocupações de cada momento. Além disso, a ereção do mito serviu a interesses políticos e econômicos que nada têm a ver com as motivações que estimularam o boom de construção de obras arquitetônicas, escultóricas e pictóricas no passado. Entre esses interesses, por exemplo, encontram-se os do lucrativo mercado de obras de arte, fundado na atribuição da autoria de determinadas obras a nomes que se tornaram famosos.

Nessa linha, outro momento importante teria sido a criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAM) duas semanas depois do golpe de Getúlio Vargas, em 1937? Reforçar o estereótipo do Aleijadinho mestiço e doente, mas capaz de superar os obstáculos pela criatividade, fez parte do projeto de construção de identidade nacional da ditadura do Estado Novo?  

Com certeza, esse foi outro momento, podemos dizer assim, de constituição do mito. Não foi documentada uma relação tão clara entre o reforço do estereótipo do Aleijadinho e o ideário do Estado Novo, mas com certeza o personagem, com essas características tão próximas do “povo” brasileiro, adequou-se muito bem ao projeto nacionalista do Governo Vargas. Outra questão importante é que diversos dados da biografia foram colocados em dúvida em meados do século XX, por historiadores da época, que continuavam, na mesma direção daqueles que reforçavam o mito, a tentar definir o personagem “real”, sem tentar refletir sobre as motivações que regeram o texto de Bretas. Esses questionamentos provocaram um esforço monumental, realizado pelo SPHAM, para reunir documentos que corroborassem a versão do primeiro biógrafo. A partir de então, não houve mais questionamentos, passou-se a considerar que esses documentos davam sustentação ao conjunto de histórias contado por Bretas. Ninguém tentou interpretar o que estes documentos contavam por si sós, sem a biografia. E eles contam uma história muito mais prosaica e simples, humana, enfim.

Que comparação você faz entre o Aleijadinho dos viajantes do século 19 – que sequer consideravam “arte” as suas obras – e o Aleijadinho dos modernistas de 22?

Para mim, é como uma gangorra de movimentos contrários. Os viajantes escreviam sobre a arte e a cultura brasileira para leitores que se mantinham em seus respectivos países, por isso, esses autores satisfaziam a curiosidade pelo exótico mantendo a sensação de que não valia tanto a pena assim conhecer o que era esteticamente inferior ao que se fazia na Europa. Em sua maioria, esses textos estilizam e distorcem as realidades que percebem para adequá-las às expectativas de seus receptores, inclusive porque os viajantes também percebem o que vêem com esse olhar estrangeiro. Por outro lado os modernistas, em sua maioria, tinham vivido um tempo na Europa e voltaram imbuídos do sentimento de que era necessário revalorizar o Brasil e mostrar ao mundo nossa riqueza cultural. Por isso eles inventaram o Brasil mestiço, sincrético e vibrante. E conseguiram seu intento. Essa imagem cultural foi tão poderosa que é a forma como nos percebemos e definimos até hoje, em filmes, propagandas, livros e muitas outras formas de expressão.

Noções modernas como autoria, autenticidade e originalidade são aplicadas de forma equivocada à obra de Aleijadinho? Por quê?

Essas noções não existiam no momento em que essas obras foram realizadas. Assim como não existiam a “arte” e o “artista” tal como compreendemos hoje esses termos. O artista do período colonial não assinava suas obras e, na Europa, temos casos como o de Rembrandt, que assinava as melhores obras de seus discípulos como uma forma de distinção. Mas o que está em questão não é o uso de categorias anacrônicas, porque isso é inevitável para o historiador da cultura – até mesmo a noção de “século” é um anacronismo. O problema é quando essas categorias servem para dar fundamento a versões que violentam aspectos da História. Muitos críticos atribuíram obras ao Aleijadinho apenas para valorizá-las, aproveitando a “aura” do mito. Isso gerou distorções e injustiças, por exemplo, um belo chafariz de Ouro Preto, encimado por um busto de mulher que, segundo os documentos, foi realizado por Manuel Francisco Lisboa. Os críticos o atribuíram ao Aleijadinho, mas, na época, ele teria só 13 anos, segundo sua certidão de óbito!

Então como você analisa a questão da propriedade das obras de Aleijadinho? Ele é público ou privado? É mercadoria ou patrimônio? A quem deve ser atribuída a autoridade para determinar se uma obra é realmente de Aleijadinho ou não? Em que medida implicações de ordem financeira interferem nesse processo?

Eu tenho uma visão tão radical sobre esses assuntos que pode parecer chocante. Na minha opinião, deveria ocorrer com as obras de arte o mesmo que ocorre com obras literárias: decorrido um certo tempo após a morte dos artistas, as obras deveriam tornar-se de domínio público e não poderiam pertencer a coleções particulares, na medida em que houver interesse e condições para expô-las à fruição de todos. Sou contra atribuições em arte. As atribuições são determinadas pela fixação de uma determinada obra-padrão, que passa a ser o paradigma do que seria o estilo do autor. Essa forma de perceber desconsidera o dinamismo da existência, pois tenta congelar até mesmo os próprios artistas. Na verdade, muitos autores constroem, em outros momentos da vida, obras que não se parecem com aquela obra-modelo. É evidente que as atribuições só existem porque há um mercado de obras de arte em que o valor delas é determinado pela idéia, difusa, de que elas seriam hipóstases de um artista que se tornou conhecido na História. O culto à personalidade na sociedade do espetáculo levou essa deformação ao paroxismo. Meu orientador, João Adolfo Hansen, costumava contar que uma gravura de Salvador Dalí foi retalhada, e cada pedaço vendido como uma obra do artista. Ou seja, ali, o valor se sobrepôs à integridade da obra, o que é uma traição inominável ao que compreendemos hoje como sendo a “arte” e o “artista”.

Há poucos anos, o livro O Aleijadinho e sua Oficina foi proibido de circular, por questionar a autoria de algumas obras – o que desagradou a um colecionador particular. Como você analisa esse episodio?

Creio que ambos os movimentos estão inseridos no conjunto dessas práticas da atualidade que tento discutir: tanto o de classificação das obras como sendo “de Aleijadinho” – inteiramente, em parte ou duvidosamente, como foi apresentado nesse catálogo; quanto a reação do colecionador que provocou a proibição. Porém, quero reforçar que considero a interdição de um livro, qualquer que seja ele, um ato abominável e inadmissível em nossa era, depois de ter sido praticado desastrosamente nos momentos mais duros e terríveis da História.

Mas então que parcela do vasto total de obras atribuídas a Aleijadinho você acredita que realmente saíram das mãos dele?

Acho que ficou claro que não vejo sentido em fazer um inventário como esse, mas penso que só se pode dizer com certeza que apenas as obras sobre as quais temos recibos de pagamento foram produzidas pelo ateliê do Aleijadinho. Contudo, mesmo em relação a estas, é impossível determinar quais delas teriam sido produzidas pelo mestre, e quais teriam sido feitas por seus auxiliares. Muito menos, que um crítico determine, com absoluta certeza, como muitos fizeram, que numa determinada peça a cabeça é do Aleijadinho e os membros não etc. Um exemplo, para mim, do que esse tipo de suposição ocasiona é a idéia de que os soldados dos Passos de Congonhas, por serem deformados, teriam sido feitos pelos auxiliares, enquanto os Cristos, “anatomicamente perfeitos”, teriam sido produzidos pelo Aleijadinho. Essa idéia pretende desvalorizar os soldados, que são, na verdade, peças curiosíssimas, por seus aspectos caricaturais.

Como a comunidade, não somente acadêmica, de Ouro Preto reagiu às suas idéias sobre Aleijadinho?

Olhe, acho que nem a comunidade acadêmica de Ouro Preto conhece ainda meu trabalho, apesar da repercussão que ele já teve no exterior, sobretudo na França. Ainda não sei como a cidade reagirá a essa obra, mas já pude perceber que é com certa desconfiança, embora eu seja uma pessoa muito querida na cidade em que nasci. Espero que o tempo da Inquisição e da queima de livros já tenha sido definitivamente ultrapassado.

Luciano Trigo
No Máquina de Escrever
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Relatório coloca imprensa diante do espelho

A apresentação do relatório final da Comissão da Verdade, em solenidade oficial, marca o momento histórico em que as instituições brasileiras são colocadas diante da escolha entre consolidar a democracia ou manter ao relento os fantasmas da ditadura. O destino do documento não é tão importante quanto as responsabilidades que ele coloca diante da sociedade, num contexto em que uma parcela da população, ainda que mínima, se sente encorajada a pedir a volta do regime de exceção.

Os três jornais de circulação nacional, que conduzem a agenda pública e ancoram os principais temas que circulam nas redes de comunicação, destacam o assunto em manchete e, em graus variados de sutileza, tratam de desencorajar o passo seguinte, que seria o processo de punição dos autores dos crimes de tortura, assassinato e desaparecimento de pessoas colocadas sob sua guarda.A leitura criteriosa de cada um deles revela que tanto o Globo quanto a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo prefeririam não ter que lidar com esse legado macabro.

Mas a História, como se sabe, se desenrola em conjuntos de espirais e de cada uma delas se pode confrontar, periodicamente, tudo aquilo que não foi resolvido em seu devido tempo.Assim como a corrupção de hoje reflete a impunidade de antigas falcatruas, a vergonha que agora atinge algumas entidades do Estado, principalmente as Forças Armadas, é um reflexo da tentativa inútil de abafar sob o pó do tempo aquilo que não pode ficar oculto.

Os 377 criminosos apontados pela Comissão da Verdade representam não apenas o lado mais obscuro do regime deletério, mas também fazem lembrar aqueles que colaboraram ativamente, passivamente, ou na sombra da omissão, para que os crimes fossem cometidos com tanta naturalidade ao ponto de se transformarem em processos quase burocráticos na rotina do aparato de repressão. Ativa, passiva ou na sombra da omissão, a imprensa tem sua parcela de responsabilidade, e nas edições de quinta-feira (11/12) pode-se observar como cada uma das grandes empresas de mídia reage diante do espelho.

Encarando o passado

Dos três principais diários do País, o único que evita abordar o assunto em editorial é a Folha de S. Paulo — que preferiu citar em nota curta o trecho do documento que se refere ao apoio que parte da imprensa deu ao golpe militar em 1964.

Também há referência ao trecho em que o relatório acusa a empresa Folha da Manhã de haver financiado a Oban (Operação Bandeirantes, nome que se deu a um dos grupos do sistema repressivo) e de ter cedido veículos para suas ações. O texto reconhece que "em 1964, a Folha apoiou o golpe, como quase toda a grande imprensa", mas nega que o jornal tenha dado suporte financeiro ao sistema repressivo ou emprestado carros de sua frota para as ações ilegais.

Não era necessário haver um esquema oficial: pelo menos dois dos jornais do grupo eram dirigidos por policiais e empregavam agentes ligados ao sistema, que faziam jornada dupla, servindo ao jornalismo e ao aparato do Estado e circulavam à vontade a bordo das peruas pintadas de amarelo.

Estado de S. Paulo e o Globo encaram em editoriais o passado que, confessadamente, prefeririam ver esquecido. O jornal paulista propõe uma forma estranha de resolver pendências históricas, ao dizer que a Lei da Anistia cobre todos os atos daqueles tempos: "Não se tratava de perdoar crimes, mas de deixá-los no passado, no âmbito da história", diz o texto. O Globo alinha as virtudes do relatório, principalmente o fato de iluminar os porões da repressão e ajudar a "manter viva a memória dos horrores da ditadura", mas também se manifesta contra o julgamento dos acusados.

De modo geral, o conjunto das reportagens e trechos do documento citado e comentado pelos três diários contribui para dar ao leitor uma ideia do que foram aqueles tempos de horror.

Destaque-se o texto em que o Globo reproduz depoimentos de vítimas que sobreviveram às sevícias, cuja leitura ajuda a entender a extensão daqueles crimes.Observe-se também que o título escolhido pela Folha para a reportagem principal distorce o sentido de justiça, propósito original da Comissão da Verdade: "Acerto de contas", diz o jornal.

A linguagem jornalística tem dessas sutilezas.

Luciano Martins Costa
No OI
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Tarso Genro: “Sartori está legitimado a fazer o que quiser. Ninguém pode se queixar que foi surpresa”

Tarso Genro: “Eu não acredito no caminho das reformas ortodoxas neoliberais. Toda vez que um governo adota esse caminho e fala que vai reduzir despesas públicas, nós sabemos que vai arder no lombo dos de baixo”
(Foto: Caco Argemi/Palácio Piratini)
O governador Tarso Genro realizou na manhã da última quarta-feira (10), no Palácio Piratini, a última entrevista coletiva com blogueiros e ativistas digitais, prática inaugurada no início de seu governo, em 2011. Durante um pouco mais de uma hora, Tarso Genro fez um rápido balanço sobre o governo, o processo eleitoral, o atual momento político no país, e respondeu perguntas sobre esses e outros temas. Em relação ao futuro governo do PMDB, assinalou que os primeiros indícios apontam para outra proposta de enfrentar a crise financeira estrutural do Estado e que José Ivo Sartori está legitimado a fazer o que quiser, pela vontade da maioria do eleitorado gaúcho. “Ninguém poderá se queixar de surpresas”. A seguir um resumo dessa conversa:

As causas da derrota eleitoral

“Identificamos na nossa derrota eleitoral uma série de causas concorrentes: lacunas no governo; formação de uma opinião pública crítica ao governo, operada particularmente pelos veículos do Grupo RBS com sua visão liberal de Estado; e também um pouco de excesso de confiança de nossa parte. Eu achava que bastaria a qualidade de nossas políticas para que essa formação de opinião contrária a nós fosse bloqueada. Mas isso não aconteceu. O governo chegou ao fim com boa aceitação, mas isso não se traduziu na votação. Praticamente só quem achava o governo bom ou ótimo votou em nós. O regular positivo não votou em nós. Isso é resultado de uma batalha política que nós perdemos, não estou dizendo que houve uma conspiração ou algo do tipo”.

Campanha anti-PT e anti-esquerda

“Creio que outra causa da nossa derrota foi uma campanha anti-PT e anti-esquerda feita nacionalmente pelos grandes meios de comunicação e que afetou especialmente setores da classe média. Nada disso, porém, tira a legitimidade da vitória do nosso adversário. O discurso dele foi acolhido, o nosso não. Precisamos tomar essa derrota como um aprendizado. Entre outras coisas, precisamos recuperar uma linguagem de esquerda mais envolvente e afetiva”.

Avaliação do governo: metas foram cumpridas

“Nós cumprimos praticamente todas as nossas metas: fim do arrocho salarial dos servidores, recuperação de várias carreiras de Estado, participação social, política de desenvolvimento com geração de emprego e renda, combate à pobreza extrema por meio do programa RS Mais Igual, Gabinete Digital, Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, política internacional ofensiva, apropriação pública das praças de pedágio com redução das tarifas, valorização do salário mínimo regional que hoje é o maior do país”.

“Nós perdemos também por causa de nossos acertos. O aumento do salário mínimo regional, por exemplo, gerou muito descontentamento em alguns setores. Saímos de cabeça erguida. No meu governo não houve nenhum grande caso de corrupção significativo, apenas alguns casos isolados. Nosso governo só não deu certo eleitoralmente. Se compararmos os nossos números com os dos dois governos anteriores, fomos melhores em todas as áreas, sem exceção. Devemos ser ruins na política mesmo…(rsrsrs…)”.

"Há uma operação em curso, por parte de setores da mídia, para justificar o retorno do receituário neoliberal no Rio Grande do Sul, envolvendo medidas como privatizações, arrocho salarial e diminuição do tamanho do Estado".
“Há uma operação em curso, por parte de setores da mídia, para justificar o retorno do receituário neoliberal no RS, envolvendo medidas como privatizações, arrocho salarial e diminuição do tamanho do Estado”.
(Foto: Caco Argemi/Palácio Piratini)

Conjuntura nacional: ambiente golpista

“É preciso assinalar também que a disputa eleitoral no Rio Grande do Sul foi influenciada pela disputa nacional que coloca em xeque os rumos do país. A grande maioria dos meios de comunicação, que é quem define o programa da direita hoje, defende um retorno às políticas neoliberais em nível nacional. A disputa aqui no Rio Grande está imersa nesta disputa maior. Falei sobre isso na campanha. O Brasil vive hoje um assédio golpista pós-moderno. Há um centro de formação de opinião que quer sangrar a presidenta e caminhar para um processo de impeachment. E parece que o PSDB está transitando para essa posição golpista, como indicou recente artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Quando um partido como o PSDB começa a transitar para essa posição é porque existe, de fato, uma tentativa de desestabilização de um governo eleito legal e legitimamente.”

Os rumos do governo Sartori

“Há uma operação em curso, por parte de setores da mídia, para justificar o retorno do receituário neoliberal no Rio Grande do Sul, envolvendo medidas como privatizações, arrocho salarial e diminuição do tamanho do Estado. A situação estrutural das finanças do Estado é dramática mesmo. Eu disse isso desde o primeiro dia do meu governo. Quem governa precisa decidir como vai enfrentar esse tipo de situação. A nossa escolha foi baseada na ideia de que o Estado só pode sair da crise crescendo, e não diminuindo de tamanho. E foi assim que governamos.”

“Os primeiros indícios sobre o futuro governo parecem apontar para outro caminho, diferente do nosso. Mas o governador Sartori está legitimado a fazer o que quiser. Ele disse que só iria definir o que fazer depois que fosse eleito e assumisse. A maioria da população aceitou isso. Ninguém pode se queixar que foi uma surpresa essa ou aquela medida. Eu não acredito no caminho das reformas ortodoxas neoliberais. Toda vez que um governo adota esse caminho e fala que vai reduzir despesas públicas, nós sabemos que vai arder no lombo dos de baixo”.

O papel do PT

“O PT deve ter um duplo objetivo no próximo período: dar estabilidade e apoio ao governo da presidenta Dilma e trabalhar pela construção de um novo tipo de frente de esquerda para 2018. Precisamos apresentar um programa de democratização política, social e econômica mais profundo. Neste processo, devemos conversar, entre outros setores, com movimentos sociais e partidos que hoje estão à esquerda do PT. Nosso desafio é construir um novo ponto de equilíbrio, que não tenha o PMDB como centro, que vá desde o Bresser até o Jean Wyllys, para citar dois exemplos emblemáticos. Não adianta ficar apenas gritando palavras de orem radicais que são tão inúteis como inofensivas.”

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