9 de dez de 2014

Golpismo, 'comunismo', hipocrisia e reforma política


Agora, que a reforma política volta à tona,
o que importa é saber se teremos uma de fato,
ou se uma reforma de faz de conta
Nas últimas semanas, insatisfeitos com o resultado das eleições, golpistas que nos últimos anos praticavam seu ódio à democracia e às instituições pela internet têm convocado caminhadas pelo país, pedindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff ou intervenção militar. Para tentar derrubar o governo, os novos golpistas fazem como fizeram os que os antecederam na história brasileira, que praticamente mataram Getúlio em 1954, tentaram inviabilizar Juscelino Kubitscheck em 1955 e derrubaram João Goulart em 1964.

Apelam para o tosco, velho e surrado discurso anticomunista da época da Guerra Fria, que justificou crimes como os milhares de civis mortos e torturados no Chile, na Argentina, na Indonésia, e em conflitos prolongados e estéreis como a Guerra do Vietnã.

Dizer que é comunista um país em que o sistema financeiro lucra bilhões, em que as multinacionais fazem o mesmo e remetem fortunas para o exterior, em que qualquer cidadão pode montar um negócio a qualquer momento, com ajuda do governo e de instituições, como o Sebrae, e em que nossos armamentos são produzidos em estreita cooperação com empresas inglesas, norte-americanas, francesas, suecas, israelenses, é tremenda hipocrisia.

À oposição institucional cabe também agir com responsabilidade. Caso fosse adiante um pedido de impeachment, ou caso venha a ser impedida por outras manobras a diplomação de Dilma Rousseff, a ascensão do vice Michel Temer à Presidência da República corroeria, em vez de ajudar, as chances de Aécio Neves de chegar ao Palácio do Planalto em 2019. E na remotíssima possibilidade de os golpistas terem sucesso por outros meios, jamais entregariam o poder ao ex-governador mineiro. Os mais radicais o desprezam e desconfiam de seu discurso antipetista.

O problema do Brasil não é comunismo, como apregoam essa minoria extremista e alguns golpistas de plantão, em seus comentários nos portais e redes sociais. O que põe a opinião pública em estado de perplexidade é a corrupção. Esse mal nasce de uma acumulação histórica de defeitos no universo político, como o clientelismo e o fisiologismo, que vêm desde o Brasil Colonial. Sua raiz está na busca permanente do poder, por partidos e candidatos, e da necessidade de fontes de financiamento para suas campanhas. No caso da Petrobras, o próprio Ministério Público declarou que o esquema funciona desde 1999 – logo, ainda antes da chegada do PT ao poder.

Quando das manifestações de junho de 2013, Dilma saiu em defesa de reformas que tirassem o país da dependência desse quadro de relações incestuosas entre o governo e o Congresso, e de se criarem mecanismos que permitissem maior espaço para a população manifestar seus anseios e interesses. Suas teses, no entanto, não prosperaram no Legislativo. Agora, que a reforma política volta à tona, o que importa é saber se teremos uma de fato, ou se uma reforma de faz de conta, comandada pelos grupelhos de sempre, com mudanças cosméticas para enganar a população.

O caixa dois não é mais do que uma extensão do financiamento eleitoral privado, e legal. O menos citado caixa um, que poderia ser suprimido por meio do financiamento público de campanhas, como prevê a proposta de reforma política defendida por entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e tantas outras entidades e movimentos com representação em amplos setores sociais.

No meio desse processo estão pilantras que aparecem para viabilizar “negócios” e “acertos”, extorquem recursos de empresas e irrigam, com parte dos recursos auferidos, candidatos e partidos. Eles não agem em nome do interesse público ou partidário, não são “azuis” ou “vermelhos”, nem “golpistas” nem “comunistas”. Se existisse um termo exclusivo para defini-los, seria simplesmente “corruptistas”, ladrões que se aproveitam das distorções históricas do atual sistema político.

No RBA
Leia Mais ►

Reforma política pode reconstituir papel do Legislativo, diz Rui Falcão

O presidente do PT faz um balanço sobre as eleições e fala sobre corrupção, regulação da mídia e o futuro do partido

Rui Falcão: “a oposição está inconformada com a derrota que sofreu”
O presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, Rui Falcão, disse, em entrevista à Agência PT de Notícias, que a reforma política e a regulação da mídia serão temas prioritários da legenda em 2015. Sobre a Ação Penal 470, episódio apelidado de mensalão, o petista afirmou reconhecer que houve erro por parte do partido. No entanto, para ele, as penas aplicadas aos envolvidos e o julgamento do caso “não se justificam”.

“Nós não deveríamos ter incorrido em práticas que eram correntes dos outros partidos, que é a questão do caixa dois. A ação era destinada não apenas a incriminar os companheiros envolvidos na AP 470, mas também envolver o conjunto do PT”, defende Falcão.

Reeleito em novembro de 2013 para permanecer por mais quatro anos como presidente do partido, Falcão participou da coordenação da ampanha presidenta Dilma Rousseff em 2010 e em 2014. Na entrevista, Falcão avalia o processo eleitoral de 2014, a importância da reforma política e regulação da mídia.

Além disso, o presidente do partido aborda as estratégias para contrapor o movimento antipetista, fala sobre as denúncias de corrupção na Petrobras, conta as expectativas do PT em relação ao segundo mandato da presidenta Dilma e também as dificuldades enfrentadas pelo partido.

Eleições 2014

O PT fez, na reunião do Diretório Nacional em Fortaleza, um balanço sobre o processo eleitoral de 2014. De acordo com Falcão, o balanço foi realista e reconhece as dificuldades enfrentadas pelo partido, como a redução da bancada na Câmara dos Deputados, a derrota em cidades historicamente governadas por petistas e a não reeleição de dois governadores, Agnelo Queiroz, no Distrito Federal, e Tarso Genro, no Rio Grande do Sul.

“São fatos que temos que analisar com bastante profundidade daqui para a frente para entender as razões, para fortalecer o PT nos lugares onde fomos derrotados e, principalmente, para ter uma base de sustentação boa para esse segundo mandato da presidenta”, afirma.

Além disso, para Falcão, o processo eleitoral deste ano foi importante para envolver novamente setores que estavam distantes do partido, como o PSOL e movimentos sociais. “Houve um grande movimento político e social que nos conferiu essa vitória”, explica.

Oposição

“A oposição está inconformada com a derrota que sofreu”, acredita Rui. Segundo ele, ao não reconhecer a derrota, a oposição parte para o “ridículo” ao tentar, por exemplo, questionar a vitória petista no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Pautam nossa vitória como se fosse pouco legítima pelo fato de ter se dado por uma diferença de 3,5 milhões de votos. Qual seria a cota de legitimidade? Dez milhões? Ou se fosse por um voto, teria legitimidade? Eles parecem não entender as regras do jogo democrático”, critica.

Futuro

Para Rui Falcão, é preciso fortalecer o partido para ser uma legenda de vida política permanente e não apenas de funcionamento nos períodos eleitorais. Além disso, o petista defende que a legenda tenha uma agenda mais ligada às realidades das cidades, dos movimentos e da juventude.

“É preciso oferecer alternativas de participação política para aqueles que têm identidade conosco, como se viu nas eleições, mas que não encontram na nossa estrutura atual formas satisfatórias de realização e participação política”, afirma.

Segundo mandato

Falcão defende que representantes do PT continuem a ocupar as pastas como a Casa Civil, Secretaria de Relações Institucionais, Ministério da Saúde e do Desenvolvimento. Segundo ele, o partido reivindicará protagonismo no governo de coalisão, com ainda mais representação dos movimentos sociais. “No entanto, o PT sabe que esse protagonismo é compartilhado com os partidos da aliança”, explica.

Em relação ao segundo mandato da presidenta Dilma, Falcão diz haver muita expectativa no partido. No entanto, ele afirma ser preciso muito trabalho e apoio para que a presidenta possa fazer um segundo mandato melhor que o primeiro.

“A presidenta Dilma nos representa, é presidenta de todos os brasileiros e brasileira. Nós estamos muito orgulhosos de ter, pela quarta vez consecutiva, um presidente filiado ao PT”, comemora.

Além disso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva continuará a ter proximidade no segundo mandato de Dilma e também deverá participar da preparação para o processo eleitoral de 2016.

Antipetismo

Sobre o movimento antipetista, ampliado principalmente durante as eleições de 2014, Falcão disse ser preciso entender as razões deste processo. Ele lembra que existe um antipetismo decorrente de uma oposição de classe e discordância dos projetos defendidos pelo PT, como Bolsa Família.

“Esse tipo de antipetismo é estrutural, temos que conviver com isso, pois vivemos numa sociedade democrática e a direita tem o direito de expressar suas opiniões, desde que nos limites da legalidade”, explica.

Para investigar o antipetismo, a legenda fará uma pesquisa nacional. Após a conclusão do levantamento, Falcão diz que será possível trabalhar para esclarecer e reduzir o movimento. Além disso, o partido fará um amplo debate em São Paulo, estado conhecido por ter resistência ao PT.

“Sabendo o que passa, poderemos fazer uma disputa, um esclarecimento, para além dessas medidas que nós temos tomado e para além das iniciativas dos nossos governos que são inúmeras”, diz o presidente do partido.

Corrupção

O PT aprovou, na reunião do Diretório Nacional em Fortaleza no fim de novembro, uma resolução de combate à corrupção. Falcão relembra as diversas ações do governo federal na luta contra a corrupção como a criação da Controladoria-Geral da União, a Lei de Acesso à Informação e a autonomia da Polícia Federal.

“Essa tradição de combate à corrupção é nossa e ninguém nos toma. Nós não estamos lutando apenas agora contra a corrupção. Há muitos anos o PT se notabilizou por defender a ética na política e por combater todas as formas de apropriação privada dos recursos públicos”, diz o presidente do PT.

Em relação às denúncias de corrupção na Petrobras, Falcão voltou a dizer que os petistas comprovadamente envolvidos serão expulsos do partido. Ele disse ter ido duas vezes ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à Procuradoria-Geral da República solicitar acesso à delação para apurar se realmente existe algo contra o partido. No entanto, os pedidos foram negados.

“Por enquanto, são vazamentos seletivos, palavras de delatores sem provas e sem documentos que não podem incriminar ninguém do PT e até de outros partidos só com base nesse tipo de acusação”.

Reforma Política

De acordo com Rui Falcão, o PT defende uma reforma política com ampliação da participação popular, voto em lista e fortalecimento dos partidos políticos, mais representação feminina no Poder Legislativo, fim do financiamento privado nas campanhas eleitorais.

“Nós acabamos convergindo para uma proposta de reforma política cujo ponto principal é a mudança do financiamento das campanhas porque o financiamento privado coloca o peso do poder econômico nas eleições”, explica.

Para o presidente do PT, a discussão sobre a reforma política é importante, também, para recuperar o valor da política. Ele defende a participação da sociedade no processo de mudança do sistema eleitoral brasileiro através de um plebiscito e convocação de Constituinte Exclusiva. Segundo ele, a “pressão social” acarretará em uma reforma mais profunda.

“Existe uma descrença na sociedade em relação ao Parlamento. Muita gente ojeriza a própria política, não só os partidos. A reforma é uma maneira de revalidar e reconstituir o papel do Legislativo”, defende.

Regulação da Mídia

Rui Falcão reforçou a necessidade da regulação da mídia como forma de ampliar ainda mais a liberdade de expressão no Brasil. Para ele, esta liberdade só poderá ser garantida com o fim dos monopólios da mídia. O presidente da legenda critica a vinculação da democratização da mídia à censura.

“Eu não entendo porque se faz essa tempestade em copo d’água, tentando, de forma manipulada, convencer a população de que quem quer democratizar a mídia, pela regulação, estaria defendendo a censura. Logo nós que lutamos tanto para acabar com a censura e com a ditadura, recebemos a acusação de defendermos a censura”.

Ele explica que a regulação defendida pelo PT é baseada nos artigos da Constituição Federal de 1988 que abordam o tema da comunicação social. De acordo com o artigo 1º do capítulo que trata do assunto, nenhuma lei poderá conter dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística. O 5ª determina que os meios de comunicação não podem ser objeto de monopólio ou oligopólio.

“Um artigo está vinculado ao outro. A liberdade de expressão do pensamento e a liberdade de imprensa, de forma ampla, não são garantidas enquanto houver monopólio e oligopólio, enquanto houver regionalização dessa produção”, diz Falcão.

Mariana Zoccoli
No Agência PT de Notícias
Leia Mais ►

Entrevista com Nicolelis


Leia Mais ►

Pós-Fukuyama

Francis Fukuyama (lembra dele?) decretou o fim da História com a vitória definitiva das forças do mercado contra o dirigismo econômico. A sua foi uma das frases mais bem-sucedidas do século passado.

O Muro de Berlim caíra em cima do que restava das ilusões socialistas, a frase não tinha resposta e o capitalismo desregulado não tinha mais inimigos. Dominaria o planeta e nossas vidas pelos próximos milênios.

Como o próprio Fukuyama reconheceu mais tarde numa revisão da sua sentença, a História reagiu. O capital financeiro predatório mantém seu poder de ditar a moral e os costumes da época, mas não não tem mais a certeza de um futuro só dele nem a bênção da filosofia sintética e incontestável do Confúcio da direita.

Se pela História tornada irrelevante Fukuyama queria dizer contradição e conflito, tudo o que aconteceu no mundo depois da publicação do seu livro desmentiu sua premissa. Mostrou que a História está viva, forte e irritadíssima. Nenhuma senhora, ainda mais com sua biografia, gosta de ser declarada inválida antes do tempo.

A crise provocada pelo capital financeiro fora de controle levou protestantes para as ruas na Europa e nos Estados Unidos e transformou “austeridade”, a solução receitada para as vitimas da crise, em palavrão.

Ninguém quer pagar, com o sacrifício de gastos sociais, por uma porcaria que não fez. E cresce a busca por alternativas para os dogmas neoliberais e pelo fim do monólogo dos donos do dinheiro.

E o papel da esquerda na História pós-Fukuyama? O socialismo está numa crise de identidade. Como é difícil, hoje, recuperar o sentido antigo, sem qualificativos, de uma opção pelo socialismo, as pessoas se entregam à autorrotulagem para se definirem exatamente, (sou dois quartos de esquerda-esquerda, um quarto de centro-esquerda e o outro quarto deve ser gases), o que só atrasa as discussões que interessam.

Quais são os limites da coerência ideológica e do pragmatismo? O que ainda pode ser resgatado das ilusões perdidas? Por que não se declarar logo um neo-neoliberal e ser feliz?

Num livro recém-publicado, a ex-mulher de François Hollande revela que ele tem horror a pobre. Se pode sobreviver a Francis Fukuyama, a François Hollande e a partidos políticos brasileiros que se chamam de “socialistas” com uma certa imprecisão semântica, o socialismo ainda tem um futuro, mesmo que seja apenas um apelido conveniente para o que se quer.

A escolha continua sendo entre socialismo e barbárie. Pode-se não saber mais o que é socialismo, mas para saber o que é barbárie basta abrir os olhos.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

A cerimônia do adeus

A primeira vez que eu me apaixonei eu tinha 6 anos. O nome dela era Julie Angulo (pronunciava-se julí angulô). Diziam que ela era superdotada. Chegou no nosso ano porque tinha pulado o ano anterior. Por ser um ano mais nova, era do meu tamanho.

Só passou um ano entre nós mortais — logo pulou de ano outra vez e disparou como uma flecha em direção ao futuro. Acho que ela fez a escola inteira assim, brincando de amarelinha com o tempo. Eu, que fiquei preso no meu ano pra sempre, às vezes me pergunto onde ela está, se continua pulando os anos da vida e hoje em dia é bisavó, ou se escolheu um ano bom e resolveu ficar por lá.

Aos 8 anos, me apaixonei pela Fanny Moffette (pronuncia-se faní moféte). Ela era canadense e tinha os cabelos brancos de tão amarelos e olhos cinzas de tão azuis. Tinha uns dez centímetros a mais que eu — dez centímetros aos 8 anos equivale a 80 centímetros hoje em dia.

Um dia, descobriram que eu gostava dela. Começaram a cantar a velha canção, se é que se pode chamá-la assim, posto que só tem uma nota: "tá namoran-do, tá namoran-do".

Ela teve uma reação, digamos, inusitada: pegou a minha cabeça e começou a bater com ela no chão para provar que a gente não estava namorando, que a gente nunca tinha namorado, que a gente nunca iria namorar. Gritava: "nunca, nunca", enquanto batia com a minha cabeça no chão. As pessoas riam. Até que perceberam que a minha testa começou a sangrar.

Aos 11 anos me apaixonei pela Alice. Ficamos meio amigos numa época em que a amizade entre meninos e meninas era tão rara quanto entre israelenses e palestinos. Alice me contava, não por sadismo, mas por ignorância, dos garotos que ela achava "gatos". Um dia, me disse que tinha dado o primeiro beijo. Dei um abraço nela, "parabéns!", e acho que fui chorar no banheiro.

"A vida é uma longa despedida de tudo aquilo que a gente ama", meu pai sempre repete (mas a frase é do Victor Hugo). Todos os amores terminam — alguns amigavelmente, chorando no banheiro, outros com humilhação pública e sangue na testa, outros com a morte. "Para isso temos braços longos, para os adeuses."

Alice se casou e eu estava lá, felizão. Fanny veio me pedir desculpas pelas porradas na cabeça. Somos muito amigos — no Facebook.

Tem uma hora — e dizem que essa hora sempre chega — que para de doer. A parte chata é que, até parar de doer, parece que não vai parar de doer nunca.

"Nunca! Nunca!" gritava a Fanny.

Gregorio Duvivier
No fAlha
Leia Mais ►

O futuro do pré sal e a vergonhosa história do petróleo


Pico do petróleo

O artigo de Colin Campbell e Jean Laherrère, intitulado “The End of Cheap Oil”, de março de 1998, teve certa repercussão à época. Eles afirmavam que a produção mundial de petróleo convencional começaria a declinar dentro de uns dez anos, ou seja, ela passaria por um máximo por volta de 2008. A partir desta data, haveria uma demanda insatisfeita e, como consequência, o preço do barril tenderia a subir. O Fundo Monetário Internacional, no seu documento “World Economic Outlook” de abril de 2011 (1), admitiu um quadro de futura escassez de petróleo, quando a demanda mundial não conseguiria ser atendida pela produção.

Contudo, Campbell e Laherrère se referiram a um quadro de escassez do petróleo convencional. Eles não incluíram, por exemplo, o uso de óleo e gás de xisto. Outra crítica que pode ser feita a este trabalho é o fato deles não terem avaliado corretamente a possibilidade de novas fronteiras petrolíferas serem descobertas. A avaliação da produção futura das descobertas passadas nas diversas regiões do mundo foi perfeita. Mas, à medida que novas tecnologias eram desenvolvidas, foi possível melhorar a análise de dados e a prospecção, o que resultou em novas descobertas, como foi o caso da descoberta do Pré-Sal.

Inversão do quadro

No entanto, hoje há um quadro de superprodução de petróleo no mundo, com a concomitante diminuição da demanda, o que acarreta a queda no preço do barril. Assim, o barril, que custava US$ 115, durante o conflito no Iraque, passou a custar US$ 85, em outubro último, e existe a perspectiva que irá decrescer mais ainda. A Agência Internacional de Energia, após a quarta redução da projeção do consumo de petróleo para 2014, chegou à média anual de 92,4 milhões de barris por dia (MM bpd) e a oferta em setembro deste ano foi de 93,8 MM bpd. No presente artigo, são usados muitos dados do artigo de Ghirardi (2), cuja leitura é recomendada.

A crise econômica pela qual passam quase todas as economias do mundo, continuação da crise financeira de 2008, certamente contribui para a diminuição da demanda mundial por petróleo. Até a China, que cresce a 7% ao ano, ainda assim pode ser considerada como estando em crise, pois cresceu em torno de 10% durante mais de uma década.

Fora isso, os países do Oriente Médio, que compõem a maioria dos membros da OPEP, de uma forma geral, não aceitaram a proposta de redução das suas cotas de produção na última reunião da organização. A proposta era que esta redução viesse a segurar o preço do barril em torno de US$ 100. No entanto, existiram países da região que aumentaram a produção. O Iraque, depois da introdução do modelo que incluiu empresas estrangeiras no setor, aumentou sua produção em 700 mil bpd, pois saiu de 2,4 MM bpd no início de 2011 e chegou a 3,1 MM bpd nos dias atuais. Fora da OPEP, pode-se salientar o pequeno aumento da produção do Brasil. Entretanto, é esperado que o país esteja exportando 1 MM bpd em 2020.

Fora do petróleo convencional, surpreendeu o acréscimo de produção de gás e petróleo de xisto nos Estados Unidos de 2008 até o momento presente, correspondendo a reduções na necessidade de importação de petróleo deste país. A média anual de importações de petróleo dos Estados Unidos caiu de 11 MM bpd em 2008 para 6,5 MM bpd em 2013.

Cada país exportador tem um valor mínimo para o preço do barril a ser exportado, a partir do qual qualquer diminuição adicional do preço significará a não atratividade da exportação. Deste preço mínimo de exportação, é retirada a receita da empresa produtora, obtendo-se a arrecadação limite de tributos ainda aceitável para satisfazer os gastos previstos de governo. A Arábia Saudita se diz confortável com preços do barril entre US$ 90 e US$ 80. O Kuwait pode aceitar preços abaixo de US$ 80.

As empresas petrolíferas têm também seus limites para o negócio. Os custos relacionados com os investimentos e os de produção, adicionados aos tributos pagos e ao lucro mínimo visado pela empresa, nunca podem alcançar a receita da produção, que é função do preço de venda do barril. Resumindo, o preço do barril é primordial para a definição da atratividade, em nível governamental, da arrecadação de tributos do país e a permanência de empresas do ramo no país. A primeira conclusão é que está ocorrendo uma brutal briga de concorrentes supridores de petróleo ao mercado mundial, restando saber quais os verdadeiros objetivos desta briga.

Autores passam a listar empreendimentos ao redor do mundo que estariam fadados à inviabilidade se o barril de petróleo ficar abaixo de determinados valores. Lembro que já se fala em o barril estabilizar em US$ 60. O mais visado, segundo alguns autores, seria a produção de petróleo e gás de xisto, mas outras iniciativas estariam também comprometidas. Os produtores de baixo custo do barril, os do Oriente Médio, estariam forçando a saída do negócio de concorrentes menos competitivos.

Por outro lado, o mais comum na economia é a formação de cartéis entre empresas do mesmo ramo para a proteção mútua dos seus integrantes, sendo a OPEP um cartel formado às claras com este objetivo. A Venezuela é um antigo membro da OPEP e a sua posição de redução das cotas, na última reunião da organização, não foi aceita. Poderia existir outra razão para a não redução das cotas e a consequente superprodução atual de petróleo?

Componente geopolítico

Não existe país que prescinda da importação de itens do exterior, cuja compra requer a posse de moeda forte. Assim, os países precisam ter superávit nas suas contas externas para que seja possível importar os itens de consumo que precisam e os bens de capital e serviços necessários para o desenvolvimento. Como é usualmente lido na literatura, a União Soviética sobreviveu durante muitos anos, em boa medida, graças à exportação do petróleo e gás de Surgut e Baku.

De “O Segredo das Sete Irmãs, a Vergonhosa História do Petróleo”(3), no capítulo “O Urso Dançarino”, obtém-se:

“O programa antimíssil ‘Guerra nas Estrelas’ dos Estados Unidos visava fornecer proteção contra uma guerra nuclear, mas o objetivo para Washington era, acima de tudo, forçar os soviéticos a entrarem numa frenética corrida armamentista. Ronald Reagan, eleito presidente em 1983, e William Cassey, seu diretor da CIA, planejaram a primeira fase da armadilha. Assim, começou a grande caçada ao urso, um ser assustador. Era o Exército Vermelho com cinco milhões de homens e armas nucleares. A vasta máquina de guerra era abastecida por dinheiro do petróleo”.

“François Roche, jornalista e escritor: ‘Para poder constantemente fazer frente ao avanço tecnológico dos EUA, o governo soviético foi obrigado a mobilizar somas muito significativas. E com que dinheiro os soviéticos financiaram o seu complexo militar e industrial de guerra? Com receitas de exportações de matérias-primas, essencialmente, petróleo e gás’”.

“A segunda parte da armadilha seria montada pelos sauditas. Reagan persuadiu o seu aliado rei Fahd a usar o petróleo como uma arma para desestabilizar a URSS. Em 1983, a Arábia Saudita abriu as comportas do petróleo e inundou o mercado. Ao encorajar os sauditas a produzirem de forma que a oferta mundial ficasse bem acima da demanda, Reagan baixou o preço do petróleo. O barril caiu para US$ 13. Isso ocorreu na década de 1980 e provocou um desastre em muitos países. Mas o maior efeito foi na União Soviética, que dependia quase inteiramente de petróleo e gás para ter receitas em divisas. As fraturas internas cresceram e o regime colapsou”.

“A União Soviética já não tinha dinheiro para pagar as pensões, para pagar aos mineiros, para comprar sabão para os mineiros, para pagar os serviços sociais que mantinham a população calada. Para comprar vodca. O urso soviético já não dançava. Estava de ressaca e falido. As lojas estavam vazias, os salários por pagar e anteviam-se problemas. Mikahail Gorbachev estava impotente. O país estava arruinado. O preço do petróleo tinha desmembrado definitivamente a União Soviética. Em 1989, cai o Muro de Berlim. Os Estados Bálticos da Geórgia e Armênia declaram as suas independências. No dia 25 de dezembro de 1991, Gorbachev demite-se do cargo de chefe de Estado. O império comunista rui”.

A história da débâcle da União Soviética lembra em parte o momento atual. Hoje, a mesma Arábia Saudita, eterna aliada dos Estados Unidos, com a ajuda do Iraque e da Líbia dominados e de outros países do Oriente Médio, inundam o mercado de petróleo. A pergunta correta a ser feita é: “Que países produtores irão sofrer mais com a queda e a permanência prolongada do preço do barril em US$ 50 (abaixo deste valor, as finanças dos próprios promotores do ‘dumping’ seriam também fortemente impactadas)?

Creio que a resposta é: “A Rússia, o Irã e a Venezuela”. Estes países são produtores de petróleo e gás, cujas vendas são a principal fonte geradora de divisas, que acionam suas economias. A atual queda de preço do barril e a permanência no nível baixo do preço por um período razoável irá colocá-los em difícil situação econômica. O caso da Rússia é um pouco diferente porque a sua maior produção é de gás natural, que obriga maior fidelidade por parte de seus consumidores, no entanto, ainda assim, ela sofrerá consequências.

Dentre os Estados nacionais existentes no mundo, estes não são os únicos que buscam escapar da hegemonia norte-americana, mas eles têm atitudes confrontantes com os desígnios do império. Então, a baixa no preço do barril pode não ter sido decidida para feri-los e, sim, para inviabilizar o petróleo e gás de xisto, por exemplo. Mas a verdade é que a superprodução de petróleo tolhe também o crescimento destes países.

E o Pré-Sal?

Outra pergunta que surge é: “Como ficará o Pré-Sal com o barril a US$ 50?” A resposta é: “Ainda viável. O custo do petróleo do Pré-Sal está na casa de US$ 45 por barril, de forma que o consórcio que estiver o produzindo terá uma margem pequena, mas ainda será uma margem positiva. O petróleo da Bacia de Campos, com custo em torno de US$ 14 por barril, não estará de forma alguma ameaçado”. Esta posição privilegiada do Brasil é consequência, além da natureza, da capacidade técnica e empresarial da Petrobras.

Resta um pensamento. O petróleo na crosta terrestre é necessariamente finito. Não haverá desenvolvimentos tecnológicos que estenderão a produção de petróleo indefinidamente, ainda mais a produção de petróleo barato, como Campbell e Laherrère bem frisaram. Com a pressa inexplicável dos governos brasileiros em fazer leilões de áreas de petróleo e como há uma defasagem entre o momento do leilão e o início da produção oriunda daquele leilão, o Brasil estará colocando no mercado mundial seus excedentes de petróleo na pior hora possível.

Precisa ser compreendido pelo povo que os governos no afã de conseguirem fechar as contas anuais do superávit primário (portanto, contas de curtíssimo prazo), promovem leilões de áreas de petróleo para receberem o bônus da venda da área, no ato de assinatura das concessões e contratos de partilha, que irão acarretar enormes prejuízos para a sociedade durante mais de 30 anos. Prejuízos estes causados não só pelos fatores explicados à exaustão, em outros artigos, mas, agora, também devido à perda de receita com esta queda no preço do barril.

Em algum ponto do futuro, a Arábia Saudita e seus seguidores irão parar de tendenciar o mercado e o preço do barril voltará no mínimo ao nível anterior, em torno de US$ 100. Os excedentes do Pré-Sal podem, então, ser comercializados. O óbvio a ser feito é o governo não cair mais na tentação de promover leilões, até porque o mercado nacional estará fartamente satisfeito pela Petrobras durante os próximos 40 anos, no mínimo, e a ANP deve retirar a pressa do desenvolvimento de muitos campos da Petrobras, pois o mercado futuro de petróleo estará excessivamente ofertado. Esta medida virá também ao encontro de outros interesses nacionais, como livrará a Petrobras da necessidade de tomar novos empréstimos.

Com a queda do preço do barril, a Petrobrás terá reflexos em suas receitas, em um momento de fragilidade política devido à atitude de ladrões, que se apoderaram de alguns dos seus cargos de mando. Mas isto merece outro artigo.

Notas:


1) Jornalistas Andrea Murta e Alvaro Fagundes, notícia “FMI vê escassez de petróleo, com risco ao crescimento global”, Folha de São Paulo, caderno Mundo, 08/04/2011.


2) Engenheiro André Ghirardi, artigo “Petróleo: a virada nos mercados globais e o Pré-sal”, site “Correio da Cidadania”.


3) Produtores Frédéric Tonolli e Arnaud Hamelin, vídeo “O Segredo das Sete Irmãs, a Vergonhosa História do Petróleo”.

Abaixo o vídeo O Segredo das Sete Irmãs, a Vergonhosa História do Petróleo. Todos legendados em português. Imperdível.



Paulo Metri, conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania. Blog do autor: http://paulometri.blogspot.com.br
No Viomundo
Leia Mais ►

Mensaje anual de Vladímir Putin

 Importante  


Leia Mais ►

Todo mundo é gay - 22º Festival Mix Brasil


Novo comercial do 22º Festival de Cultura da Diversidade Mix Brasil retrata o ponto a que chegou o preconceito de gênero na sociedade. Com bom humor, o filme satiriza a intolerância, mostrando que hoje qualquer comportamento, por mais banal e cotidiano que seja, pode ser interpretado com viés homossexual.

Leia Mais ►

Revoltas políticas do final do seculo XX e principios do século XXI: das manifestações à guerra

Será que o Brasil será a próxima vítima desse tipo muito especial de desestabilizar países e regiões? No Brasil as forças desestabilizadoras estão muito ativas e agem impunemente e as de resistência estão apáticas e silenciosas! Por qual motivo isso acontece?

“Revoluciones de colores”: tecnología, víctimas y resultados
Leia Mais ►

Band extingue 4 programas. É a crise!

A explosão da internet e a perda contínua de credibilidade, entre outros fatores, têm agravado a crise do modelo de negócios da mídia tradicional. Na semana passada, o Grupo Bandeirantes anunciou que extinguirá quatro programas a partir de 31 de dezembro. O principal é o Tá Na Tela, apresentado por Luiz Bacci, que está no ar há apenas quatro meses e foi o maior investimento da emissora neste semestre. Também deixarão de ser veiculados o Polícia 24H, o Sabe ou Não Sabe e o Zoo. Ainda não há informações seguras se a extinção dos programas resultará em mais demissões na Band.

Segundo relato de Daniel Castro, do site especializado "Notícias da TV", o anúncio do fim dos quatro programas gerou um clima de terror na emissora. "Bacci foi informado das mudanças em reunião na tarde da última sexta-feira (5). O jornalista, que deixou a Record em maio deste ano, ficou arrasado com a notícia. No ar desde agosto, o Tá Na Tela aumentou a audiência da Band em seu horário em 50%, de 2 para 3 pontos. O Notícias da TV apurou que a extinção dos programas é consequência de um corte de R$ 25 milhões no orçamento de produção para 2015. O corte orçamentário, por sua vez, decorre da previsão de retração nos investimentos publicitários".

Outras emissoras de televisão também enfrentam turbulências. Em novembro circulou o boato de que a Record demitiria cerca de 800 profissionais. O corte representa quase 20% dos 4.300 funcionários da emissora em São Paulo e do RecNov, a central de estúdios no Rio de Janeiro. A empresa não confirmou a informação, mas antecipou que está prevista uma redução de 20% nos investimentos da emissora em 2015 — também em decorrência da perda de publicidade. Na semana passada, a TV Cultura — detonada pelos tucanos que comandam a tevê pública — também anunciou a extinção de programas e o "fantasma do desemprego" voltou a rondar a emissora. Já a RedeTV está falida!

A crise destas emissoras reforça o monopólio da Rede Globo, que tem mais gordura para queimar e conta com vários mecanismos — inclusive ilícitos, como o Bônus de Volume (BV) — para se proteger. Mas mesmo o império global sente os impactos no seu modelo de negócios. A queda de audiência afugenta os anunciantes, que investem mais em publicidade nos meios digitais. A velha tese de que a explosão da internet só atingiria a mídia impressa — com a falência de centenas de jornais e revistas — vai se mostrando furada. Neste caso, não é uma marolinha, mas sim um tsunami!

Altamiro Borges
Leia Mais ►

Sérgio Porto # 69


Leia mais clicando aqui.
Leia Mais ►

Essa é do Barão... 127


Leia mais clicando aqui.
Leia Mais ►

Lula e PT organizam a reação

Ato em Brasilia na quarta-feira denunciará ofensiva contra PT, Lula e Dilma


Está em curso uma escalada política para sangrar a presidente Dilma, buscando condições para um eventual impeachment, desconstruir a imagem mítica do ex-presidente Lula, para inviabilizar sua eventual candidatura a presidente em 2018, e ferir de morte o PT. Estão tentando realizar o que Jorge Bornahusen pregou em 2005, quando disse que era preciso “acabar com esta raça”, tem dito o ex-presidente aos mais próximos.

A rejeição das contas de campanha de Dilma é uma peça importante desta escalada, que contou nos ultimos dias com o uso da delação premiada de um dos executivos presos, Mendonça Neto, Ele informou ter feito uma doação legal ao PT por orientação do diretor Duque mas o noticiário omitiu a parte de sua declaração, segundo a qual não informou ao tesoureiro Vacari Neto as motivações de sua doação nem relacionou-a com propinas. No círculo de Lula, a pesquisa Datafolha, segundo a qual 68% dos entrevistados responsabilizam Dilma pelos ilícitos na Petrobrás, teve o claro intuito de contribuir para sua deslegitimização mas esbarrou num quesido: para a grande maioria, o governo dela foi o que mais combate a corrupção e os que mais puniu corruptos. Contra Lula, surgiram nos ultimos denúncias miúdas — relacionadas com palestras, deslocamentos durante a campanha e coisas afins — claramente destinadas a construir em torno dele uma agenda de desmoralização.

Diante de todos os sinais de que a ofensiva de agora tem elementos mais corrosivos dos que os utilizados em 2005, Lula e o comando petista decidiram fazer em Brasilia, na quarta-feira, um ato politico de resposta, de denúncia e mobilização da militância para a conjuntura dificil que está se desenhando.

Leia Mais ►