7 de dez de 2014

Aécio vai à praia, Serra reaparece e Lobão reclama


"Cadê os parlamentares? Cadê o Aécio, cadê o Caiado? Estou pagando de otário!".

A queixa do roqueiro performático Lobão, agora transformado em garoto propaganda das manifestações contra o governo, tinha sua razão de ser. Afinal, foi o próprio candidato derrotado Aécio Neves, em pessoa, acompanhado por outros expoentes tucanos, quem convocou o protesto de sábado, na avenida Paulista, em São Paulo.

Era o quinto ato (favor não confundir com o Ato Institucional nº 5 dos militares, de 1968, o golpe dentro do golpe) contra Dilma, o seu governo e o PT, depois das eleições. Se tivesse lido a coluna de Ancelmo Gois publicada no jornal O Globo, no mesmo dia, Lobão teria a resposta nesta nota: "Descanso — Aécio e família descansam em Santa Catarina, onde ele obteve dois terços dos votos". Ninguém é de ferro.

Quer dizer, Aécio convocou a turma e, em seguida, se mandou para a praia, deixando Lobão na mão. Na avenida, sua tropa ficou dividida entre os que pregavam a volta dos militares e os que apenas queriam denunciar corrupção na Petrobras para impedir que Dilma assuma seu segundo mandato. Para surpresa geral, quem apareceu foi outro senador, o paulista José Serra, que andava sumido, principal antagonista de Aécio dentro do PSDB.

Já na reta final da caminhada, que reuniu entre 5 mil (segundo Folha e Estadão) e 8 mil pessoas (para O Globo), conforme o veículo e o PM ouvido pela reportagem, Serra subiu num carro de som e mandou ver, num tom misterioso: "As coisas não vão se resolver em uma semana, um mês ou um ano. Mas precisamos estar prontos para o imprevisto, para o improvável. Não há história sem fatos inesperados", alertou, sem entrar em detalhes. Serra acompanhou a ala principal dos manifestantes pacíficos, que foram até a praça Roosevelt, na região central, enquanto a dissidência pró-golpe seguia em direção ao Comando Militar do Leste, no Ibirapuera.

Na véspera da votação das mudanças na LDO, na madrugada de quinta-feira, em que a oposição mais uma vez saiu derrotada, Aécio foi mais duro do que seu rival, ao mesmo tempo premonitório e ameaçador: "Nós vamos perder, mas vamos sangrar estes caras até de madrugada". Aécio, que nem chegou a votar contra o governo, limitou-se a publicar uma foto do protesto em seu facebook.

Na manifestação do final da tarde de sábado, não correu sangue, mas enquanto o chefe descansava em Santa Catarina, seus seguidores mostraram os dentes em cartazes e palavras de ordem: "Fora, Dilma!" e "Impeachment! Fora, PT!" eram os mais democráticos.

O governo Dilma, como sabemos todos, está cheio de problemas para montar a equipe do segundo mandato, mas se depender desta oposição, agora liderada por Aécio Neves, podemos ficar tranquilos. Pela demonstração dada no quinto ato de protesto, esta oposição faz oposição a si mesma.

Até Lobão já está irritado com seus novos líderes.




Leia Mais ►

Esconderam as informações mais importantes do Datafolha sobre corrupção


Esconderam as informações mais importantes que o Datafolha sobre corrupção divulgado hoje traz.

Não por inépcia, ou não só por inépcia, mas sobretudo pela má fé.

Duas coisas merecem consideração. Primeiro, que apenas 9% dos entrevistados consideram a corrupção o maior problema do país.

Clap, clap, clap. Aplausos de pé. Nada, no Brasil, se compara em dimensões trágicas à desigualdade social.

Mas os beneficiários dela, entre os quais os donos das grandes empresas jornalísticas, tentam fingir que este é o maior drama nacional.

Quer dizer, fazem isso quando um governo do qual não gostam está no poder, como foi o caso de Getúlio, Jango, Lula e agora Dilma.

Quando é um governo amigo, a corrupção não é assunto. O direito à reeleição de FHC foi comprado com malas de reais, tudo devidamente documentado, mas isso não era corrupção.

Caso ainda se interesse por ciência política, FHC tem oportunidade, diante da esqualidez dos 9%, de entender por que com tudo a favor — mídia, Marina, economia em situação complicada — Aécio conseguiu perder a eleição com seu samba de uma nota só, a corrupção.

Logo ele, o homem do aeroporto de Cláudio, da irmã que colocava dinheiro público nas rádios da família, logo ele se punha a falar em corrupção como se fosse um Gandhi.

Não surpreende que, com esta ladainha manipuladora da corrupção, protestos contra Dilma arregimentem escassas almas, que se dispersam aos primeiros sinais de chuva, como se viu outro dia em Belo Horizonte.

A segunda conclusão importante do Datafolha é que, para 46% dos entrevistados, governo nenhum investigou tanto a corrupção quanto Dilma.

Vê-se, aí, o acerto dos responsáveis pela campanha de Dilma ao colocar foco nisso e sair da defesa para o ataque nas semanas anteriores ao segundo turno.

O exemplo mais dramático da criminosa falta de empenho do PSDB em combater a corrupção está estampado no escândalo do Metrô.

Três administrações tucanas — Covas, Alckmin, Serra — não foram capazes de pôr fim à roubalheira do Metrô. Não fosse a Suíça, que denunciou contas milionárias abastecidas por propinas ligadas ao Metrô de São Paulo, estaríamos ainda no escuro em relação ao assunto.

Merece um capítulo especial, aí, o caso de um discípulo dileto de Covas, Robson Marinho. Covas o colocou no Tribunal de Contas, cuja missão, pausas para rir, é fiscalizar as despesas do governador de São Paulo.

Mesmo com evidências esmagadoras de alta corrupção, e de brutal enriquecimento pessoal por causa dela, Robson Marinho foi mantido no TCE até recentemente.

São estes os dois dados mais importantes do Datafolha: o baixo número de brasileiros que acham que o maior problema nacional é a corrupção, e o alto contingente que considera que nunca ela foi tão combatida como agora com Dilma.

Mas o noticiário das grandes empresas de jornalismo, como era previsível, destacou outra coisa.

A Folha, por exemplo, tomou a primeira página hoje com a “informação” de que a maior parte dos entrevistados atribuiu a Dilma “alguma responsabilidade” no episódio Petrobras.

A pergunta em si, sobre se Dilma é responsável e em que grau, já é falaciosa. Bombardeado por uma mídia que o tempo todo associa sofregamente o caso Petrobras a Dilma, que o entrevistado poderia responder?

Como sempre, o noticiário das grandes companhias de comunicação jogou sombra onde havia luz, numa inversão colossal de um sagrado princípio do jornalismo.

Mas a voz rouca das ruas, como mostra o Datafolha sem a edição malandra de quem manipula as informações, consegue enxergar a luz por conta própria, a despeito dos que tentam mantê-la no breu.

Paulo Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

A relação entre ativismo de extrema direita na Internet e psicopatia

Marcello Reis, do Revoltados Online
Numa entrevista à Deutsche Welle, o diretor do Programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, Timothy Power, chama a atenção para os arrulhos direitistas na Internet.

“Os manifestantes que pedem o impeachment de Dilma se aproveitam da atenção midiática no período de ressaca pós-eleições”, afirma. “Hoje, a direita acha que uma conta no Twitter vale mais do que uma CUT, por exemplo, mas não é exatamente assim”.

O que se viu na Paulista nas últimas semanas é um exemplo claro dessa tendência. As dezenas de manifestantes não têm o mesmo tamanho do barulho virtual. Grupos como Revoltados Online, Movimento Brasil Livre e outros dão visibilidade a reacionários de todo o território nacional e ocupam espaço como pernilongos, mas quando se chega à vida real o que se vê são os gatos pingados arruaceiros de sempre.

Por que eles são tão histéricos? Por que essa vocação para a trolagem? A ciência explica.

Um estudo da revista americana Neuroethics afirma que as opiniões socialmente conservadoras têm entre 5 a 30 vezes mais chances de ser relacionadas a três transtornos de personalidade: maquiavelismo, narcisismo e psicopatia (ausência de culpa ou remorso), a chamada “tríade sombria”.

O levantamento da Universidade de Tampa, na Flórida, examinou 1200 pessoas, que se submeteram a um teste e a uma pesquisa sobre seu comportamento na rede. Os pesquisadores procuravam por uma ligação entre a tal tríade e gente que era a favor da pena de morte, do casamento gay, dos mercados livres, da tortura etc. Encontraram.

Veja o caso de Marcello Reis, por exemplo, do Revoltados Online. Ou do professor Alexandre Seltz, que levou um disparo de arma de taser na arruaça no Congresso e passou a se autodenominar “Choquinho”. Ou de Matheus Sathler, candidato a deputado estadual pelo PSDB do DF, que chamou homossexuais de pedófilos. Ou mesmo daquele velho cantor barbado.

Todos eles são trolls que gastam sem tempo espalhando um ódio patológico em suas contas nas redes, repercutindo a si mesmos. Como diz o relatório, numa “manifestação de sadismo cotidiano”. O resultado? Vergonha alheia. Mas com o zumbido de uma furadeira.

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Olés

O compositor e crítico de música Virgil Thomson (americano, 1896-1989) se divertia com o fato de que, na Espanha, as crianças brincavam de tourada sempre em três: um fazendo o papel do touro; outro, o do toureiro; e um terceiro gritando “Olé!”

Os papéis podiam ser trocados, claro, mas as funções não mudavam: um touro, um toureiro e um espectador, que Thomson preferia ver como um representante do público — ou da crítica.

Para Thomson, nenhuma obra de arte era completa se não incluísse sua repercussão no público e sua avaliação pela crítica.

Uma apresentação musical, como a tourada dos meninos, também requeria um trio — o compositor, o intérprete e a reação do ouvinte — sem o qual, nas palavras do Thomson, não passaria de um ensaio.

Isso não significava que a obra deveria ser sempre acessível a um gosto comum e buscar a popularidade. Composições “difíceis” também dependiam, para existir, da sua aceitação, no caso de um público mais sofisticado. Também se completariam com um “olé”.

Thomson foi o autor de óperas de vanguarda como a que fez em parceria com a Gertrude Stein em 1934 (quando lhe perguntaram como tinha sido a convivência com Stein, respondeu: “Como a de dois homens de Harvard”) e outras coisas “difíceis”.

Ouviu muitos olés na sua vida, mas também muitos “buus”. É o risco que correm os artistas e os toureiros, se bem que não há notícia de nenhum artista corneado por alguém da plateia durante uma performance.

Como os toureiros, compositores e escritores também sonham, em segredo, com a glória, com “olés” consagradores. Também se imaginam recebendo as orelhas e o rabo do touro, dando voltas triunfais na arena e atirando flores para a Ava Gardner, ou um sucedâneo razoável, na plateia.

Mas, infelizmente, não temos “olés” assegurados, obrigatórios, como nas touradas de brincadeira. Nosso consolo, quando os “olés” não vêm, é pensar: “Não me entenderam.”

A verdade é que o comportamento do público diante da arte mudou muito desde o tempo em que um balé do Stravinsky terminava em motim, com o público atirando as poltronas no palco, ou, antes, o Liszt era carregado pelas ruas nos ombros de admiradores depois de um recital.

O modernismo meio que anestesiou a turma, ninguém se escandaliza ou se entusiasma muito depois que o Schoenberg inventou a música atonal e o Picasso botou os dois olhos da moça no mesmo lado da cara. O resultado é que não se ouvem mais “buus” indignados ou “olés” sinceros.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

# DevolveGilmar


Leia Mais ►

Gilmar, tucano de toga

Qual seria o pesadelo do juiz que aprovou as candidaturas de José Roberto Arruda e Paulo Maluf: Chávez ou Bolívar?

Ele
Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), pode gabar-se de ser sincero. Se assim for, não poderá deixar de admitir que, inelutavelmente, é parcial. No caso dele, a transparência de suas observações mostra que ele é uma toga a serviço de objetivos políticos, preferencialmente sintonizados com a oposição. Prioritariamente, o PSDB. Faz sentido o amor partidário que bate no peito de Gilmar. Projetou-se para a vida pública no governo Fernando Henrique Cardoso, no qual foi também integrante da AGU. Por indicação de FHC, em junho de 2002, fez a travessia para o STF.

Homem frio. Muito recentemente, não se constrangeu em mandar reiterados pedidos ao Palácio do Planalto para reconduzir o advogado Henrique Neves, para mais um biênio no cargo de ministro titular do Tribunal Superior Eleitoral, do qual, atualmente, ele, Gilmar é vice-presidente. O mandato de Neves expirou dia 13 de novembro.

Nesse sentido, dois telefonemas de Gilmar tilintaram nos gabinetes do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e de Luís Adams, ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU). Consta que, em meio a argumentos variados, teria usado certo tom de exigência.

Na continuidade dessa história, expressão da politização da Justiça, surgiu uma surpreendente aliança entre o presidente do TSE, ministro Dias Toffoli, e Gilmar, o vice.

O Natal é o mesmo, mas, tudo indica, o cristão mudou. Logo após sentar-se na cadeira do STF, identificaram no jovem Toffoli, ex-funcionário da Casa Civil, um representante do chamado “bolivarianismo”. Era ele, então, um ex-subordinado do ministro José Dirceu, homem forte do governo Lula por um tempo.

Por ironia da história, foi Gilmar o autor do batismo dado às indicações dos governos petistas enviadas para o STF. Não se sabe se a referência alude a Bolívar ou a Chávez. Ou o pesadelo de Gilmar será com os dois?

Por decisão do suposto “bolivariano” Toffoli, Gilmar Mendes tornou-se relator das contas de campanha de 2014 da presidenta Dilma Rousseff, em razão do fim do mandato de Henrique Neves no TSE em meados de novembro.

Dilma tem a prerrogativa constitucional de escolher livremente qualquer dos três nomes indicados em lista tríplice que está em suas mãos.

Para o governo, a pressão de Mendes se explicaria por conta do grau de independência dos outros dois nomes da lista: Admar Gonzaga e Tarcisio Vieira. Ambos duelaram com Gilmar em casos relevantes na Corte eleitoral.

Exemplos: derrotaram Gilmar Mendes, naquele momento, porta-voz da aprovação das candidaturas de José Roberto Arruda e Paulo Maluf, identificados como fichas-sujas. Contra os argumentos de Gilmar, bloquearam também vários direitos de resposta contra Dilma, encaminhados pelo PSDB no decorrer da campanha eleitoral.

Gilmar Mendes não precisou tirar a toga. Ele foi além dos limites. Transitou de uma posição política para um engajamento partidário. Nessa direção já disse que o direito de resposta concedido por Gonzaga contra a revista Veja, na véspera da eleição, fez “muito mal ao Brasil”. Houve quem pensasse o contrário. Ele foi derrotado pela maioria. Simples regra democrática.

Mauricio Dias
No CartaCapital
Leia Mais ►

fAlha continua manipulando pesquisas


A capa da Folha de S. Paulo deste domingo é outra que merece ser estudada nos cursos de jornalismo.

Pelo que não diz, mais pelo que diz.

Compõe o resultado de uma pesquisa Datafolha segundo a qual a maioria dos brasileiros responsabiliza Dilma pela corrupção na Petrobras com uma foto da manifestação pelo impeachment na avenida Paulista, à qual compareceu o ex-editorialista do jornal e agora senador José Serra.

O que a manchete não diz é que os números da pesquisa não são completamente desalentadores para a presidente.

Dilma tem responsabilidade sobre o caso? Na página interna, 43% dizem que sim, “muita”. Menos que o percentual de eleitores que votaram em Aécio Neves no segundo turno.

Outros 25% disseram que sim, mas “um pouco”.

Em qual governo a corrupção foi mais investigada? 46% disseram que foi no governo Dilma, contra 4% no governo FHC. Em qual governo os corruptos foram mais punidos? 40% disseram que foi no governo Dilma, contra 3% no governo FHC.

Quando se trata da aprovação da presidente, a Folha não repete a soma que fez acima, juntando os que acham que a responsabilidade de Dilma é “muita” ou “um pouco” — resultando nos 68% da manchete da página interna.

É preciso olhar o gráfico: a soma dos que consideram o governo ótimo, bom ou regular, mesmo com todo o noticiário negativo em torno da corrupção na Petrobras, é de 75%.

Porém, nada disso pode se deduzir da manchete pendurada nas bancas. Ela, a manchete, faz vibrar a direita derrotada nas urnas, à qual pertence a esmagadora maioria dos leitores da Folha. Na ausência da comunicação governista ou petista, a Folha e seus congêneres conservadores falam sozinhos.

No Viomundo
Leia Mais ►

Ditador Médici guardou em casa provas de tortura

Comissão da Verdade do Rio encontra prontuários médicos de presos no arquivo do ex-presidente

Médici e o caderno onde guardava os relatos das sequelas das torturas de presas políticas no Rio

Rio - Durante décadas a cúpula do governo militar negou a prática de tortura contra presos políticos na ditadura. Não importavam as denúncias das famílias, as marcas ou sequelas das vítimas. Quase 30 anos após o fim do regime, surgem agora as primeiras provas documentais de que no auge da repressão política — 1970 — o próprio general e então presidente da República Emílio Garrastazu Médici sabia em detalhes sobre a violência dos quartéis e suas consequências físicas e psicológicas.

Médici guardou até a morte, em meio a 32 caixas de manuscritos, um caderno de capa de couro preta com o nome do ex-presidente timbrado em letras douradas na frente. Dentro, a revelação: três prontuários médicos de presas políticas atendidas no Hospital Central do Exército (HCE). São elas: Dalva Bonet, Francisca Abigail Paranhos, além dos documentos de Vera Sílvia Magalhães — conhecida por sua participação no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick.

O arquivo pessoal de Médici, doado pela família há 10 anos, integra o acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e foi disponibilizado para pesquisa da Comissão da Verdade do Rio, que localizou os prontuários. “Quanto mais temos acesso aos documentos, confirmamos que a cadeia de comando das torturas e desaparecimentos começava no Palácio do Planalto”, afirma Wadih Damous, presidente da CEV-Rio. Cópias dos documentos serão entregues às famílias em audiência pública na próxima terça-feira.


Vera Sílvia, ao deixar o país, foi carregada por Cid Benjamin

O prontuário de Vera Sílvia detalha cada medicamento utilizado por ela durante os dois períodos de internação registrados. Presa em 6 de março de 1970, ela chegou pela primeira vez ao HCE transferida do Hospital Souza Aguiar no dia seguinte devido a um “traumatismo craniano encefálico por projétil de arma de fogo”. Tratada na unidade, ela foi liberada dias depois para interrogatório no DOI-Codi.

Em 18 de maio foi internada novamente, e a descrição do quadro dá a medida do sofrimento de Vera. “Paciente acentuadamente desnutrida, subfebril. O exame neurológico acusa sensível diminuição da força muscular nos membros inferiores... há acentuada hipertrofia muscular nos membros inferiores”, registra o prontuário. O diagnóstico, porém, foi de que ela estava com uma paralisia nas pernas devido a razões psicológicas.

O médico legista Levi Inima, que auxilia a pesquisa da CEV-Rio, disse que a avaliação é “falsa”. “As alterações em termos de hipotrofia muscular demonstram a tortura em pau de arara. Ela estava bastante desnutrida, o que mostra os maus-tratos”, explicou. Vera deixou o Brasil em junho de 1970, trocada pelo embaixador alemão. Ela retornou após a anistia e morreu devido a um câncer em 2007.

Choque elétrico provocou crises convulsivas

Ao saber que seu prontuário médico fazia parte do arquivo pessoal do presidente Médici, a tradutora Maria Dalva Bonet, 68 anos, olha para alto e respira fundo. “Vou precisar de um tempo para poder falar sobre isso. É inacreditável”, desabafa Dalva.

Militante do Partido Comunista Revolucionário Brasileiro (PCBR), ela diz que foi presa no fim de janeiro de 1970 junto com a amiga inseparável, Abigail. “Foram 72 horas de pancadaria. Eu estava com a pele toda descascada do choque e me jogaram no chão de cimento. Foi quando eu comecei a ter hemorragia. Os presos pressionaram e eles me levaram para o HCE”, conta Dalva.

Ela diz que ficou cinco meses sem andar devido à tortura no pau de arara. Além disso, os choques desenvolveram um quadro de epilepsia. Por isso, como o próprio prontuário encontrado registra, foram realizados exames neurológicos. “Eles queriam dizer que as convulsões que eu passei a ter eram preexistentes. Mas eu nunca tive nada”, diz ela. Dalva disse que sofreu com crises convulsivas durante 10 anos.

Segundo o diagnóstico feito no HCE, a paralisia de suas pernas também seria emocional — como a de Vera. “Não apresenta vontade de locomover-se; procura queixar-se de tudo e de todos; é impertinente e astuciosa. Costuma ser acometida por pesadelos”, descreve o documento.

Maria Dalva Bonet ficou cinco meses sem conseguir andar devido à tortura no pau de arara. Ela também desenvolveu epilepsia por 10 anos
Foto:  Severino Silva / Agência O Dia
O médico legista Levi Inima também chamou a atenção para a quantidade de tranquilizantes, ansiolíticos e sedativos como Mandrix e Kiatrium ministrados. “É uma associação de vários medicamentos. Isso tudo faz parte de um cenário médico exatamente para suprimir a questão da tortura”, explica Inima.

'Não deseja recuperar-se'

A advogada Francisca Abigail Paranhos também teve a sua passagem pelo Hospital Central do Exército guardada por Médici. No relatório que segue com o prontuário ela é descrita como “indiciada em inquérito policial-militar pelos crimes praticados como membro do PCBR, alegou paralisação dos membros inferiores”.

Além disso, o diagnóstico diz que Abigail, como era conhecida, não ajudava na melhora de seu quadro de saúde. “Os exames revelaram que Abigail é portadora de depressão neurótica, que não deseja recuperar-se não colaborando para o sucesso do tratamento que lhe é ministrado”, finaliza o relatório.

Dalva diz que elas deixaram a prisão cerca de um ano e meio depois. Abigail morreu de câncer em 1994.

Juliana Dal Piva
No O Dia
Leia Mais ►

Brasil vive ressaca eleitoral e não polarização política, avaliam especialistas

Apesar de eleições acirradas e protestos por impeachment, especialistas defendem que a sociedade brasileira não está permanentemente dividida, como na Venezuela ou EUA. "Nova direita" se mobiliza, mas é minoritária.


Faixas "Fora, Dilma" e "Fora, comunistas" em meio a gritos de "Somos coxinhas". Assim, cerca de 500 manifestantes pediram o impeachment da presidente Dilma Rousseff no fim de semana passado, em São Paulo.

As manifestações de grupos de direita e esquerda têm se intensificado no país desde as eleições presidenciais. Em novembro, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) fez uma marcha na Avenida Paulista contra o ato de eleitores anti-PT descontentes com o resultado das urnas.

Mesmo diante da divisão política expressada nas ruas, especialistas argumentam que o Brasil não vive uma polarização nos moldes de Estados Unidos e Venezuela. A divisão, afirmam, é apenas passageira.

"O país vive, na verdade, uma ressaca política depois de uma eleição muito apertada. As pessoas estão usando a palavra ‘polarização’ de uma maneira bastante equivocada", avalia Timothy Power, diretor do Programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford.

Para o filósofo Paulo Eduardo Arantes, professor aposentado da USP, a disputa entre PT e PSDB foi apenas eleitoral e não representa uma divisão profunda da sociedade.

"A polarização da campanha, o ‘nós’ contra ‘eles’, era muito rasa. Com o tempo isso vai desaparecer com as composições que serão feitas no governo", explica ele, citando a nomeação da senadora Kátia Abreu (PMDB), ligada ao agronegócio, para o Ministério da Agricultura.

Para Power, o descontentamento de uma pequena parte da população se concentra na escolha para presidente, por causa dos programas sociais criados pelos governos petistas desde 2002.

"Para outros pleitos, como governos estaduais e prefeituras, o Brasil não apresenta um quadro tão polarizado", diz o brasilianista.

Nos Estados Unidos, a bipolarização partidária permeia todos os níveis da esfera política, dos estados ao Congresso, com eleições permanentemente apertadas. Apesar de no Brasil a eleição presidencial ser majoritária, o Congresso Nacional apresenta, segundo Power, uma fragmentação muito grande.

"As pessoas que estão protestando contra o PT nas ruas devem perceber que a representação do partido no Congresso é hoje menor do que em 2002", avalia. "O avanço da legenda no Brasil é um fenômeno presidencial. Não tem muito a ver com outras esferas de governo."

Para brasilianista, descontentamento se concentra na presidência da República devido a programas sociais
"Nova direita"

Arantes acredita que há uma polarização assimétrica entre uma "nova direita", surgida após as manifestações de junho de 2013, e a "esquerda oficial". "Nos protestos, apareceu uma direita social e insurgente, que foi para as ruas em grande número para se contrapor ao status quo de um ponto de vista conservador", analisa.

O filósofo argumenta que já existia no Brasil uma "direita residual", que tende a propor intervenções militares. Enquanto este é um segmento minoritário, a "nova direita" tem um maior apelo popular.

Para ele, a assimetria se deve a uma radicalização da direita, que, no entanto, não foi acompanhada pela esquerda. "Uma polarização supõe dois termos antagônicos e extremos, só que um dos polos está em falta. A esquerda institucional, de governo no Brasil, é muito moderada, muito propensa à negociação", aponta.

Arantes alerta que esse segmento não busca fazer alianças para compor maiorias, mas visa unicamente dificultar o governo do PT. "No Brasil, Jair Bolsonaro [deputado federal], por exemplo, não têm a pretensão de criar um governo de coalizão", diz. "O Brasil se aproxima do que acontece nos EUA, em que a direita existe para impedir o Obama de governar."

As redes sociais são o principal instrumento de mobilização desses grupos, segundo Power. Para o professor da Universidade de Oxford, os manifestantes que pedem o impeachment de Dilma se aproveitam da atenção midiática no período de ressaca pós-eleições. O grupo é minoritário e tem uma posição política que não é compartilhada pelos grandes partidos de oposição.

"Pedir impeachment é pura fantasia. Esse não é o mesmo cenário de 1992, quando as alegações contra Fernando Collor eram muito fortes e ele tinha pouquíssimo apoio do Congresso", considera.

Os protestos recentes representam um movimento anti-PT, "até antissistêmico, de certa forma", diz Power. Ele avalia que a facilidade de mobilização pelas redes sociais ajuda os pequenos movimentos de direita, que nunca tiveram muita penetração na sociedade. "Isso é assimétrico em relação à esquerda, que sempre teve boa capacidade de mobilização popular nos sindicatos e movimentos sociais."

Power acredita que a internet "equilibra o jogo", mas de uma maneira superficial. "Hoje, a direita acha que uma conta no Twitter vale mais do que uma CUT, por exemplo, mas não é exatamente assim. Atrás do poder de mobilização das redes sociais, a direita não conta com movimentos organizados", afirma.

No DW
Leia Mais ►

Aécio quer se diferenciar de Alckmin ao atacar Dilma

"Nós vamos perder, mas vamos sangrar esses caras até de madrugada." A frase foi dita pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) a seus aliados no Congresso na véspera da votação do projeto que desobriga o governo a economizar o que estava previsto no ano.

Mais do que o tom motivacional que o mineiro tem usado com sua tropa, a frase revela um estilo: "Eu estabeleci um patamar de oposição e não vou descer um degrau", disse a um interlocutor.

A estratégia tem como foco mantê-lo como "o rosto da insatisfação com o governo Dilma Rousseff", mas despertou críticas dos adversários e temor nos aliados.

Na última quinta-feira (5) a presidente sintetizou, sem citar Aécio, as queixas do PT. Em evento ao lado do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), Dilma pediu "respeito ao resultado das urnas" e disse que era preciso reconhecer a vontade expressa pela população na eleição.

O fato de a petista dizer o que disse e como disse evidenciou Aécio como o alvo da mensagem. Mas ao fazê-lo ao lado do governador tucano que desponta como principal rival interno do mineiro para a candidatura ao Planalto em 2018, ela gerou ao adversário um desconforto adicional.

Aécio dá de ombros às análises de que promove um "terceiro turno" com suas declarações sobre a ilegitimidade do governo: "Nós não vamos nos inibir com esses discursos. Essa reação mostra o incômodo deles. Pela primeira vez o PT está conhecendo oposição e, além disso, uma coisa nova: a oposição conectada com a sociedade", afirmou o tucano a um aliado.

A segurança do senador de que esse é o caminho certo destoa da opinião de alguns de seus principais aliados. Na última sexta, Aécio gravou um vídeo convocando pessoas a comparecerem a um ato anti-Dilma em São Paulo.

Na fala, fez a ressalva de que o ato deveria acontecer "sempre nos limites da democracia" por saber que saudosos da ditadura participaram dos protestos anteriores.

Foi a primeira vez que Aécio emprestou seu rosto aos mobilizadores do ato. Alguns tucanos viram um risco no gesto: para eles, ao estabelecer uma relação com esses movimentos, o mineiro se mistura a atos sobre os quais não tem controle absoluto.

Para os mais prudentes, ao se aproximar de setores que pedem um golpe Aécio corre o risco de ser vinculado a eles: "Basta olhar para o PSDB. Quem são nossos quadros? São pessoas que lutaram pela democracia. Isso não cola", tem dito o senador a quem o questiona sobre o assunto.

A postura incisiva não visa só desgastar Dilma: Aécio quer se diferenciar de Alckmin de olho em 2018. Mas aliados do paulista advertem: "Aécio não se segura quatro anos com factóides. Em algum momento a estrutura e a paciência de Alckmin farão a diferença", diz um interlocutor político do governador.

No fAlha
Leia Mais ►

Aécio, Lobão e a marcha golpista

A direita golpista bem que se esforçou, mas voltou a se frustrar com a baixa adesão às suas marchas pelo impeachment de Dilma Rousseff neste sábado (6). Em São Paulo, segundo o comando da PM, o ato juntou 2 mil pessoas; em outras capitais, elas não lotaram um ônibus – com todos sentados e confortáveis. O empenho foi grande: o cambaleante Aécio Neves gravou vídeo conclamando a presença – mas ele mesmo não foi e alegou que estava “trabalhando” (finalmente!). Outros aloprados do PSDB, como José Serra, também postaram seus vídeos. Novamente ocorreram rachas e confusões. Lobão, o novo bobão da corte fascista, disse que foi tratado como “otário” pelos caciques tucanos.

Ainda no vão do Masp, na Avenida Paulista, um grupo de fascistóides – alguns fantasiados com roupas de camuflagem das Forças Armadas – foi isolado do restante dos manifestantes. Eles rosnavam pela imediata intervenção militar e pelo retorno da ditadura. Na sequência, eles seguiram em passeata até a sede do Comando Militar Sudeste, no Ibirapuera, onde registraram no seu livro de ocorrências um pedido de “socorro” para o Exército. Já o outro grupo, encabeçado por Lobão, seguiu em marcha até o centro da capital paulista. Eles não esbravejaram, no momento, por um novo golpe militar. Rosnaram, “apenas”, palavras de ordem pelo impeachment da presidenta reeleita democraticamente em outubro.

Como nas outras marchas após a derrota eleitoral, eles gritaram: “Vai pra Cuba”, “Fora PT” e “Dilma, cadê você, eu vim pra te prender”. “Não vai havia negros na passeata, apenas um público tipicamente de classe média”, registrou Marco Damiani, do site Brasil-247. “O único político de peso que compareceu foi o senador José Serra (PSDB-SP). Ele discursou e defendeu os protestos ‘de ontem, de hoje e de amanhã’. Questionado por 247 sobre seu apoio ao movimento 'Fora, Dilma', ele se calou”. Frustrado com a ausência de Aécio Neves e de outros caciques da direita, Lobão protestou: “Cadê os parlamentares? Estou pagando de otário”. Talvez tenha sido a única coisa lúcida que o lunático falou nos últimos tempos!

Antes da marcha, o decadente roqueiro parecia animado. Ele postou em seu Twitter, com letras maiúsculas: “Hoje o chão da pátria irá tremer”. Não tremeu, apesar de todo o empenho da direita. Além dos vídeos e de outros recursos, os golpistas tiveram a explícita simpatia da mídia. Em editorial, a Folha chegou a elogiar a invasão do Congresso Nacional, patrocinada na semana pelos mesmos grupelhos que convocaram a marcha contra a presidenta Dilma. “Apesar de excessos, protestos contra manobra fiscal mostram saudável empenho de enfrentar a irresponsabilidade federal”, aplaudiu o jornalão tucano. Um dos seus colunistas, o doente Reinaldo Azevedo, também escreveu um artigo pregando o impeachment de Dilma Rousseff e que o PT seja colocado na ilegalidade. Todo este apoio, porém, não garantiu maior adesão à marcha golpista.

O fiasco da marcha, porém, não deve tranquilizar as forças progressistas. Os golpistas estão nas ruas. Lobões, bobões, fascistas e oportunistas da pior espécie, como José Serra e outros tucanos e demos, parecem decididos a derrubar ou sangrar o governo democraticamente eleito. Fica a pergunta: Cadê as forças de esquerda que evitaram o retrocesso em outubro? Elas deixarão as ruas serem ocupadas pelos fascistas? Elas vão ficar passivas, apostando suas fichas nas negociações realizadas no Palácio do Planalto, que visam "acalmar o mercado" e garantir "governabilidade"? Com suas marchas, invasões do Congresso Nacional e, principalmente, com o veneno diário da mídia golpista, a direita coloca o governo na defensiva. Ou as forças progressistas acordam ou poderá ser tarde para a resistência! 

Altamiro Borges
Leia Mais ►

Sem fim

A Comissão da Verdade chega nesta semana aos seus dias finais, forçada pela inverdade burocrática de que as verdades se sujeitam a prazos.

A Comissão Nacional da Verdade deveria ser uma das instituições do Brasil democrático. Para ser permanente e ininterrupta. Para tornar a busca da verdade histórica, com suas tantas projeções, parte natural da cultura brasileira. Há muito o que buscar, não se trata só de tortura e assassinatos. No que é dado como História do Brasil, há muito a corrigir, inclusive com pesquisas já iniciadas, muito a esclarecer e lacunas a preencher a partir de pesquisas e estudos merecedores de incentivo.

A verdade histórica não se completa, nunca. É sempre possível encontrar um componente a mais na formação do episódio ou da etapa em questão. Nem é possível saber até onde e até quando procurar. Tais noções pareciam presentes, em certa medida, na ideia inicial de que a abrangência da comissão e suas buscas viesse da ditadura de Getúlio, embora o objetivo imediato fosse a caracterização dos modos e autorias dos crimes da ditadura. Mesmo contra esse estreito objetivo foi aplicado o obstáculo do prazo.

Ainda assim, a Comissão Nacional da Verdade mais do que justificou sua criação, no prazo e nas circunstâncias adversas em que trabalhou. O atestado dessa importância não estará só no seu relatório final, a ser apresentado daqui a três dias. Já está em uma coincidência humilhante para o Brasil. Quando a verdade dos crimes ditatoriais deixa de ser investigada pela CNV, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos notifica o Estado brasileiro por descumprimento das determinações a que foi condenado há quatro anos.

Não é uma notificação simples. Tem mais de 40 páginas de exigências, advertências e acusações. O Brasil é acusado de "perpetuar a impunidade". Contra ela, a Corte reclama a providência, já determinada em 2010, de que a Lei da Anistia deixe formalmente de ser impedimento à investigação dos crimes da ditadura e ao julgamento penal dos respectivos autores.

As comissões para procura de corpos dos mortos no Araguaia são desmoralizadas pela distorção, que a Corte considera inadmissível, de nelas ser incluída a própria instituição responsável pelas mortes e desaparecimentos a serem investigados. O Judiciário brasileiro não se sai melhor: é acusado de "continuar aplicando a Lei da Anistia e o instituto da prescrição como obstáculo contra a investigação das graves violações feitas pela ditadura militar e, assim, não considerar a sentença emitida pela Corte" há quatro anos.

Dilma Rousseff é chamada a realizar os atos de que é devedora: as ratificações do Brasil às resoluções da ONU e da OEA sobre os assuntos da condenação e da notificação.

O relatório final pode encerrar o valioso trabalho da Comissão da Verdade. Mas as mesmas e outras buscas, achados, análises e conclusões vão continuar, queiram ou não os comprometidos diretos e indiretos com os crimes e os criminosos. Vão continuar por outros meios, em menor escala, de modo mais restrito, mas seguem, porque é assim que a História faz a construção infinita da sua verdade.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

Sérgio Porto # 67


Leia mais clicando aqui.
Leia Mais ►

Essa é do Barão... 125


Leia mais clicando aqui.
Leia Mais ►